2.05.2019

DESCENDENTE É O POENTE






POENTE DESCENDENTE


Tu és todas as soluções
Possíveis e imaginárias
Por cujos testes e padrões
Florescem pessoas várias...
E na diferença premente
Em que esbarram ilusões,
Cresces sobre a luz diária
Pondo-a tua dependente.

Não há homens nem mulheres
Nem pressupostos da idade,
Que se fizeres o que quiseres
Só encontrarás humanidade.

Joaquim Maria Castanho

2.03.2019

POEMA DOMINICAL






POEMA DOMINICAL

Pela orla da luz a pérola da voz
Redesenha os contornos, as matizes
Onde toda a gente e cada um de nós
Se liberta dos seus nós e deslizes...
Mas ninguém conta por quantos sofreu
Embora nunca esqueça porque o fez;
Uns batem no peito e gritam «não fui eu!»
Outros, a quem nasceu alguma sensatez
Rebatem, debatem-se com credos vários
E, só pra serem dos demais contrários,
Mergulham nas fétidas águas do Ganges
E castos, misericordiosos e langues
Erguem olhos prò céu e murmuram: TALVEZ.

Joaquim Maria Castanho


2.02.2019

JANELAS DO OLHAR, DA ALMA E DO AMAR


 



ÀS JANELAS DO OLHAR

O meu amor é flor gentil
Cujos lábios são de jasmim,
Com pétalas de beijos mil
Se afloram já sobre mim
Têm a sofreguidão macia
Suave, do mel e do cetim,
E a doçura da poesia
Que há nos amores sem fim.

É duma loucura tão sã
Que arrepia só de vê-la...
Se à tarde, fica manhã
Impossível esquecê-la,
Que todo o dia penso nela
Com um fulgor pertinaz
Tão gentil, mas também bela
Que seus olhos são a janela
Onde pendurado me traz.

Joaquim Maria Castanho


2.01.2019

QUANDO NÃO HÁ CERTEZA, CULPAM-SE OS ELEMENTOS E A NATUREZA




A CULPA É DO VENTO

Empurro o sol contra o vento
Para lhe secar de vez a voz,
Mas descobre-me o intento
E eis que é o vento a empurrar-nos a nós.

De nada nos desculpa agora
Acabou-se-lhe, enfim, a paciência;
E quando sopra para fora
Atinge-nos em cheio na consciência.

A mim, sei bem porquê, já os demais...
Já aos demais desconheço as razões.
A tantos disse serem causas globais
Que poucos lhe reparam nas alterações!  

Joaquim Maria Castanho

1.31.2019

O MANTO DA TARDE


   



MANTO VESPERTINO

No meu mar, as ondas são poalha
Qual espetral viajante celeste,
Que raro despeja água no chão silvestre...
Mas às vezes calha!

O azul é plúmbeo, o mar pebleu
E aquilo que nele voga almas são
De estranha forma, trôpega locomoção...
Exatamente como eu!
No mar que nada de mar tem
Sequer o azul marinho que espelha o céu,
Nada navega, nem escolhos, nem ninguém
Além do manto da tarde
Onde não arde nenhum véu!

Joaquim Maria Castanho


1.30.2019

ESPERAR É PORFIAR





QUEM ESPERA NÃO DESISTE

Quando nuvens se abatem sobre nós
E o teto do céu fica rasteiro,
Pesado aos dias, do nascer à foz
Ninguém aufere as horas por inteiro...
Algumas demoram passar, presas a retrós
Desde as mãos do tempo seu condutor,
Cujas rédeas de gris são própria voz
Instigando-as, carroceiro desamor.    
E outras, se passam, fazem-no por favor
Preenchidas de lentidão afetada...
Que desavindas, e já falhas de calor
Aspergem de frio a terra amarrotada.

É nelas que a esperança arredia
Se vê fraca, tonta, zonza... Porém porfia!

Joaquim Maria Castanho 
 

1.29.2019

TANTA GENTE VI E SÓ UNS OLHOS NÃO ESQUECI






TANTA GENTE VI E SÓ UNS OLHOS NÃO ESQUECI...

O meu sonho prendeu-se ao teu olhar
Disse o que preferia nunca dizer,
E anda agora com o verbo esperar
Na espera que lhe voltes a acontecer.
Se culpasse, fosse do que fosse, meu ser
Por se sentir em teus olhos naufragar,
Havia também de culpar o querer viver
Pois que sem eles me vej'a desesperar.
E desespero plo que quero e não quero
Vivendo entre tudo crer e não ver nada,
Que só a teus olhos sou e me esmero
Por ser com alma por mil multiplicada.

Coisa de pouca monta em tão grande grei
Não fosse ess'olhar único a que me dei!

Joaquim Maria Castanho

1.27.2019

AI ( I )


   



AI (I)

Qual um ditongo breve
Ápice de iniciação,
É ele quem nos inscreve
Desde o berço à nação.

Traz do limbo o sentido,
Do verbo o crer ser ação,
E quando já não serve
Ei-lo de grito perdido:
Ferve já vulcão ferido
Rasga breus, imensidão.

Dizem-no singular pessoa
Alguns, de estranha fala,
Mas toda a gente que voa
Caia ou não, nunc'ò cala.

Joaquim Maria Castanho

1.26.2019

VER É DEMONSTRAR







VER É DEMONSTRAR

O meu poema
Não sabe recordar...
Não sabe esquecer...

É um teorema
Onde o verbo amar
Vive pra demonstrar
Quanto importa viver!

Joaquim Maria Castanho



MAGIAS E ENCANTAMENTOS




 MAGIAS & ENCANTAMENTOS

1.

Há poemas que são deliciosos,
Que se desfazem no palato...
Tão fofinhos e tão cremosos
Que apetece lamber o prato.

Não lhes sei os ingredientes,
Nada conheço da confeção;
Mas são feitos plas nossas gentes
Com os saberes do coração!

Joaquim Maria Castanho


 

1.19.2019

Pela chuva que cai... Gratidão!






Olha eu, da chuva, com saudade...
E era coisa que nem sabia.
Por este andar, até da verdade
Vou ter saudade algum dia!
Joaquim Maria Castanho

1.10.2019

AS PINCELADAS DO TEMPO




AS PINCELADAS DE CRONOS 

Já triplo cinzel me cerziu
Matriz enfim, choro, grito
Desbastam, gastam por cicio
Só de metal frio, aflito... 

Como terá acontecido?
Sob que mistério, assim
Presente, futuro ou ido
Passado tornam granito
Pra se "assentarem" em mim? 

Nascem das sombras, num torpor
Rústico, desajeitado; 
Às vezes, merecem amor 
– Outras, apenas cuidado. 

Joaquim Maria Castanho
Com escultura de João Aires Garcia

1.06.2019

RUBRO OCASO




RUBRO OCASO

Do lídimo olhar, atento
Esgar mínimo, diverso
Nasce a cor deste verso
Tão submerso sentimento
Em que ocaso m'invento
Na tarde aguda, fria
Quase farta de tudo
Até do silêncio mudo
Onde pasce a poesia... 

E logo qu'ela eclode
Traz no rosto, no perfil
A magia de quem pode
Mais qu'm cravo de abril! 

Joaquim Maria Castanho



1.03.2019

PASSADA BREVE




PASSADA BREVE

Aproximo os lábios dessa rosa
Que não digo, nem me pica:
Estico o verso até parecer prosa
Cujo sentido não estica... 

E no balanço alcanço o chão.
Calco-o simples, andamento
À espera duma ilusão
Terra a terra, rasa fica
Pra nada segurar em si... 
Nem a brisa, a luz, o vento... 
Algo que não sei – nem esqueci!  

Joaquim Maria Castanho

1.02.2019

AURÍFERO BARRO




AURÍFERO BARRO

Há oníricas argilas
Escorrem dos ocasos
Pingam, almas acesas
Gotas incandescentes
Tal destilo, se destilas
Os sonhos e surpresas
Na plástica da tarde... 

É luz que não fenece
Mesmo anoitecida
Capaz de gerar vida. 
É calor que não arde! 

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Zélia Mendes

12.31.2018

JÁ FOSTE!




O PULO DO PONTEIRO


Vivi sem planos um ano inteiro!
Prà’manhã não tenho nada planeado 
– Que até o sol, se for de janeiro
Olha pra dezembro como mês passado. 

Minha vida é um supor descuidado
Ponto de fuga adiada, primeiro
Logo assumida, detalhe, seleção;
Como que um tic-tac desse ponteiro
Digital que pula sempre afinado, 
Mas tanto lhe faz seja dia a dia, mês 
A mês, ano a ano ou estação a estação:
Ao fazê-lo, esquece de onde veio
Para, assim, viver o que tem em cheio, 
Esquecendo-o, mal pule outra vez!     

Joaquim Maria Castanho 
Com foto de Elie Andrade

12.28.2018

AGORA É UMA TRANSIÇÃO DE CURTA DURAÇÃO





O AGORA TEM POUCA DURA



Esse agora tem muito pouca dura
Não é de confiar nem longas esperas
Mesmo sendo previsto ou abençoado; 
Sua pureza ‘tá na grande mistura
Impura qu’o futuro tem do passado.  


O presente, esse muro de lamentações
Com que a gente asperge o passado
E salpica expetativas no futuro, 
Tem por óbice alisar os verões
Emparedar quaisquer primaveras
E fala sempre muito e por dobrado
Das quimeras (as tais aves que são feras)
Acaso se não sinta pleno e seguro.


O presente é um cruel condenado
Que esquece quem foi mal vê o futuro; 
Faz dele caminho em qualquer lado… 
– Com manhã clara apaga ontem escuro!

Joaquim Maria Castanho

12.27.2018

ACORDAR DE MADRUGADA




MADRUGAR

Descendente destas sombras esguias
Voz cavada pelas linhas sem credo
Aligeiro os meses, horas e dias
Adormeço tarde e ergo-me cedo. 

E nesse acinzentado destino
Como quem atravessa a neblina, 
Envieso a alma, esgar menino
Prà leitora da palavra que ilumina. 


Joaquim Maria Castanho

12.23.2018

O SEGREDO DO OCASO


O PENSADOR




O PENSADOR

Aqui sentado
O tempo escorre, 
Como um cuidado
Que nunca morre. 
Porém, se medito, 
Apenas acredito
Ser quase prece 
Desse grito
Que não esmorece
Pelo  granito 
Que me percorre. 

Joaquim Maria Castanho
C/ escultura de João Aires Garcia

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português