4.02.2017

TOSSE DE INANNA




A TOSSE DE INANNA 

Quem foi a bela
Que tão belamente tossiu? 
E, porque sendo ela
Assim, tão bela
Ninguém mais a ouviu 
– Como eu ouvi?

E eis que a tosse se repete… 
De uma vez até sete. 
Então, de imediato a reconheci. 

– É Inanna –, digo aqui.  
E a tosse fugiu!

Joaquim Maria Castanho

3.31.2017

A MOTIVAÇÃO PRIMORDIAL




A MOTIVAÇÃO PRIMORDIAL 

Agora vi o quem em ti sei... 
Porque nos escolhemos? 
Porque te escolherei? 
Porque a vida nos escolheu? 

Porque, para quando perguntar
Aos filhos e filhas que tivermos
Quem tem a mãe mais linda mundo, 
Eles e elas respondam, sem hesitar
Sequer um segundo
Saltitando e com os dedinhos no ar
« Eu! » « Eu! » « Eu! » « Eu! » 

Joaquim Maria Castanho

3.10.2017

NUNCA SABEMOS TUDO




NUNCA SABEMOS O SUFICIENTE

Há muitos caminhos a percorrer,
Há muitos sinais que não sei.
Não posso magoar ninguém
Antes de chegar junto a ti. 
Se estamos perto de nós
Vemos como já não estamos sós… 

E se às vezes fico parado e mudo
É por ser aquele que não sabe tudo.

Joaquim Maria Castanho

AS TRÊS REGRAS BÁSICAS




AS 3 (TRÊS) REGRAS BÁSICAS DA SÃ CONVIVÊNCIA MATRIMONIAL

1ª - Ela é quem manda. 
2ª - O homem obedece. 
3ª - Em caso de dúvida, fraca lucidez ou esquecimento, prevalece sempre a 2ª (SEGUNDA) regra. 

Joaquim Maria Castanho. 

ISTO NÃO É UM POEMA

ISTO NÃO É UM POEMA

Naquela oliveira velha com rebentos  
Novos, junto à estrada da casa quatro, 
Ao passar, olhei para ela… 
Um par de pintassilgos acabara de pousar. 
Era quase capaz de jurar
Que havia ali alguém naquele par
Que nascera no ninho frente à minha janela
Naquela árvore quixotesca
E que tanta preocupação me deu
A primavera passada. 

Joaquim Maria Castanho

3.08.2017

O DESVINCAR DA SOMBRA




O DESVINCAR DA SOMBRA

É como se o vinco da linha se esbatesse… 
A ruga deslaçasse, o caminho voltasse, 
O destino dissesse que tudo acontece
Ao tornar-se laço, a criar alento e espaço
Onde nada se perde nem desfolha –
E a chuva subisse de quem molha… 
E nessa subida te repetisse, te acolhesse
De onde nada desce senão essa benesse
Que floresce em que a merece, só por sorrir. 
O sol é tanto, e os teus olhos a espelhá-lo
Devolvem-me o canto sem o encanto delir
Nem sentir já a mínima vontade de calá-lo.
E se o digo parecendo não o dizer a dizê-lo
É só porque sigo e prossigo sempre a vê-lo. 

Joaquim Maria Castanho

3.07.2017

DIA DA MULHER




DIA DA MULHER

Era bom celebrar o teu dia
Escutando só a tua voz… 
E saber que a poesia 
Era toda gente, incluindo nós.
Atravessar a estrada
Para entrar-te em casa, 
Será uma longa travessia; 
Porém, calculo a chegada
Pelas dez prò meio-dia. 

Nenhum momento tem pressa, 
Nem alguma espera sequer. 
Que só o querer atravessa
Até seu lugar de pertença
Se for também o teu querer.
Se for também o teu dizer.  

Joaquim Maria Castanho

O QUE IMPORTA ENTRE TUDO MAIS




MAIS NADA IMPORTA 

O peito nunca nos engana… 
Tu é que és a soberana
E eu sou teu vassalo; 
Mesmo que erres eu não vejo
– Se desejares, eu desejo –
E em tudo mais 
Apenas calo. 

Joaquim Maria Castanho

3.06.2017

_/|\_ QUE ASSIM SEJA _/|\_




_/|\_ QUE ASSIM SEJA _/|\_ 

As pessoas não são nenhuns pitéus… 
São seres dignos e respeitáveis. 
E ainda que haja recados nos céus
Desfraldando nuvens, agitando véus
Serão sempre íntegra lição de luz e bem
Que em águas puras e saudáveis, 
Cristalinas, o azul celeste é mar também,
E navegar é escrever a liberdade
Com a mesma tinta (seiva) que a vida tem.

Não há pessoas que sejam pra comer
Embora muitas o providenciem até, 
Cujas mãos de fada, cujo mister e saber, 
Cuja magia e encanto, com ou sem fé, 
Emprestam a quanto tocam esse vigor
Melódico e sublime das canções d'amor. 

Joaquim Maria Castanho
(in O Analista de Coreografias)

3.03.2017

CIDADE JARDIM




CIDADE JARDIM

Tenho uma fotografia da cidade
Onde me procuro frequentemente… 
Estava lá nesse dia
Mas não me vejo entre a gente. 

Terei entrado no rio? 
Terei ficado à margem? 
Enquanto escorre o frio
Espero a estiagem. 

Tenho uma fotografia da cidade
Onde me procuro cidadão… 
Mas, pra falar a verdade, 
Não me encontro lá, não. 

Terei esgotado o ser? 
Terei sumido na cor? 
Enquanto me procuro ver
Vou olhando de flor em flor. 

Joaquim Maria Castanho
(in O Analista de Coreografias)

3.02.2017

PLANAR NA SERENIDADE...






PLANAR NA SERENIDADE… 

A brisa respira o próprio dia
Trazendo consigo toda a magia
Que nem o divino ousa explicar,
E explica onde o brilhar ousou
Sentir esse sentido a respirar…

Então, de repente o tempo parou; 
Ficou sem depois nem antes, 
Apenas passagem… instantes
Que ecoam duma só maneira
E se repetem no repetindo
Pelo passo a passo, e subindo
Até à curva derradeira –
Pra voltar à imagem primeira…

O sol elucida, e algo ora flui,
Roda lá no cimo, une em sua eira,
Liga os voos somente num voo; 
E o que era ímpar, par se tornou
Como quem deserta do que fui.

Joaquim Maria Castanho

3.01.2017

LIMITE INTRÍNSECO




LIMITE INTRÍNSECO 

Deslizam nas horas tidos sentidos
Quase a tornarem-se sentimentos, 
Feitos da luz que nos momentos idos
Se fizeram no deveras de uma arte… 

Pra mim são o todo, mas se te encontram
Se dividem, e divergem, ou somam…
E jamais irão além do ser só parte!

Joaquim Maria Castanho

A CEVADA E O TRIGO




TRIGO É TRIGO, CEVADA É CEVADA

Aquilo que fazes ou fizeres
Sem dizer porque o fizeste
Não significa o que quiseres
Sequer tem significado algum, 
Além daquele que lhe deste: 
Ou seja, absolutamente nenhum! 

Num dia dão-te caixas prò vinho…
No outro "bonita" música te dão… 
Mas como isso não foi explicado
Por que motivos, por que razão
Tudo se terá perdido plo caminho, 
Tudo perdeu "o tal" significado
Pelo qual terá sido inventado…

Só quem é bobinho lhe liga,
Só quem tem mente celerada
Dá à palha o valor de espiga,
Julga o trigo como cevada. 

Joaquim Maria Castanho

2.27.2017

A LENDA DO VASSALO CATIVO




A LENDA DO VASSALO CATIVO 

No reino das cidades maravilhosas
Entre escarpas, entre montes
Havia um canteiro de rosas
Que abarcava três horizontes. 

O primeiro, tocava as frondes 
Da grande árvore das janelas
Que é onde estão todas as vezes de Era Uma Vez
E demais coisas puras e belas
Nascidas dos beijos trocados entre Pedro e Inês. 

O segundo – quase tenho medo de contar… –
Dava para uma ilha de pérolas feita
Das mais apuradas que já houve no mar, 
Que é aonde o sonho espreita
Quando encontra a vida a sonhar. 

E o terceiro, tinha todos os filhos do primeiro, 
Todas as netas do segundo
E ainda mais o resto do mundo, 
Pelo que era um horizonte todo e inteiro
Com nuvens, visões, intermitências 
Credos, artes, ambientes e ciências, 
Com gavetas, prateleiras e estantes
Onde se arrumavam as histórias de até hoje e muito antes, 
Assim como as que ainda faltam contar. 

É nesse reino que eu vivo… 
É ele o meu país. 
E onde exerço o cargo de vassalo cativo
Súbdito do que o teu olhar me diz. 

Joaquim Maria Castanho

2.26.2017

E FEZ-SE LUZ!




RAIO ILUMINADOR 

Virou-se-me a vida do avesso
– Mancheia de gatas num balaio! –
Que dias há em que não só tropeço
Como, mal dou por mim, também caio. 
E fico sem saber onde pertenço
Nas músicas de se entro ou saio
Quando, entrançado, estremeço
Suspenso por esse divino raio… 
Luz que A Deus jorra e aplica
À razão dos que quer fortalecer, 
Que onde Ela se mete não s'explica
Nem nenhum soneto o saberá dizer: 
Assim, como eu, mudei prò Benfica
E não foi só por cansaço de perder! 

Joaquim Maria Castanho

2.25.2017

BUSCA GLOBAL




BUSCA GLOBAL

Procuro, entre as cabeças, e vaivém 
Dessas pessoas do agrupamento
Do momento que me são ninguém, 
Teus olhos de mel de rosmaninho, 
O teu rosto de flor contemplativa… 

E faço-o numa continuidade tal, 
Tão empenhado, tão insistente, 
Numa maneira assaz superlativa
Que já me não basta este Portugal
E nem sequer qualquer continente!

Joaquim Maria Castanho

2.24.2017

ABRAÇO DE ONDA




ABRAÇO DE ONDA

Alargo o passo,
Tenho-te em vista
Que é esse o laço
Em que caio e me desfaço
Pra que nunca desista… 

Alargo o passo
E na areia me derramo, 
Que em cada embate nasço
Nesse estreito abraço
Com que enlaço
E amo!

Joaquim Maria Castanho

ESSÊNCIA QUALITATIVA




ESSÊNCIA QUALITATIVA

Escreves poemas em mim
Onde os versos a brotar
São do veludo e cetim
Que só existem no olhar,
Com as sílabas de mel,
Com as letras de sol puro, 
Que escolheram o papel
De me empenhar sem juro
E a pronto pagamento,
Estrela, voz no escuro
–  Corpo, alma, alimento
Sem conter a veleidade
Doutro desconto incerto, 
Além dessa qualidade 
Que é nobreza e afeto.

Joaquim Maria Castanho

2.23.2017

TARDAR É TENTAR O NUNCA




NUNCA É TARDE

É… as horas resignam-se devagarinho 
Minuto a minuto em cliques cinzentos, 
Espalhando a tarde à toa plo caminho
Para não perder sementes nem alentos; 
Sequer desentorpecidas aspirações, 
Que quem rega as rosas rega espinhos
Pelos caminhos das tardes e dos serões… 

Que o prazer é aquilo que se vai fazendo
Nas costas dos pecados e das confissões, 
Minutos que subindo se veem descendo
Se a tarde se alheia de tardias opiniões.  

Joaquim Maria Castanho 

2.22.2017

HÁ OU NÃO JUSTIÇA DIVINA?




JUSTIÇA DIVINA: HÁ OU NÃO?

O meu poema tem os teus olhos, 
Mas não és tu. 
O meu poema tem o teu rosto, 
Mas não és tu. 
O meu poema tem o teu rabo-de-cavalo, 
Mas não és tu. 
O meu poema é meu, mas tu não. 

Porém, se houvesse justiça divina,
Ainda que fosse infimamente pequenina, 
Deus já tinha corrigido esta contradição! 

Joaquim Maria Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português