Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
6.23.2015
ALMA de Manuel Alegre
ALMA
Manuel Alegre
(1995)
A paródia de formação é um típico cervantino de estilo,
autêntico romance de cavalaria de quem atravessa a infância montado no cavalo
de pau da família considerada, honrada, por bastos pergaminhos justificada, e
generosa, do establishment provinciano. É aquele olhar distante sobre a guerra
de 42-45, mas interessado, aproveitado politicamente pelos clientes da Loja,
que fisicamente tanto é o estabelecimento comercial e de convívio, como
igualmente o centro espiritual da república, ou da sua laicizidade maçónica e
da resistência clandestina. Confirmação de como Quixote deambulou por cá
deixando geração apreciada. E uma breve história da sonegada participação com
os situacionistas do Manholas, aos botas-de-elástico e aos solas Ceilão, que
iam sustentando o regime à custa do atraso e do medianismo supersticioso
aldeão.
Romance numa só voz para o adolescer em Alma, reflete
contudo nela a expressão e peculiaridades das gerações de 50/60, assentes nos
pilares da família, escola, loja e retouça com a natureza, também esta
repartida por quantos elementos a compõem (rios, caça, pesca, pássaros, como
natureza humana: política, esotérica, sexual, bélica, desportiva e relações de
amizade), que perfizeram um homem e seus valores, implantando nele o respeito
pelos demais, a necessidade de alterar a ordem, principalmente quando ela está
errada, no apreço pela justiça, liberdade e democracia, sempre inspirada nos
itens da solidariedade e coesão social para despeito da caridadezinha
regimental e canasteira.
Embora raramente me convençam os textos literários dos
rabequistas, sobretudo se saídos da filarmonia partidária e/ou ideológica, o
que é certo é que esta novela não se atém a ser aquilo que parece. Daí que me
sinta na obrigação de a ressaltar como exceção, considerando que o seu autor,
além de poeta combatente, democrata de torna-viagem pelo 25-A depois de ter
exercido significativa ação revolucionária no exílio, emprestando dedicação e
voz a veículos de comunicação, nomeadamente na Rádio Argel, foi (quer dizer: é)
também escribalista, conforme a definição de escribalismo que aqui se sustenta,
não obstante o seu campo de ficção se estenda para lá da estrita conjugação narrativa,
prolongando-se nele enquanto modo de intervenção social.
Porque exceção justificada, além de obra que carece de
atenção cuidadosa e destacada, não obstante esse jeito de contrabandear deus e
demais obscuridades relativas através da tonalidade dos provençais e
gentis-homens que povoaram o universo cavalheiresco em contos, romances,
cantigas e novelas, na formação de quase todos os aspirantes a principezinhos
deserdados da monarquia, que alimentava a fadação com que as mães predestinavam
seus filhos para arautos da esperança, anexando-lhe sempre a distinta marca dos
eleitos para missões superiores, nobres, semelhantes às que inspiraram os
cavaleiros do ciclo arturiano, combatentes do bem e da justiça que, sob o
pendão da cruz, defenderam o santo sepulcro ou se amuralharam em Malta, de onde
demandaram o pronunciamento da uma nova ordem terrena.
Acima de tudo por ser Alma o lugar inicial para o cúmplice
entrosamento na grande loja que é o mundo. Este e o outro, se o houver. Pois
nunca o homem acontecerá neles por acaso. Que normalmente isso, a humanidade e
humanismo que forjam o indivíduo, são atributos de pelejada conquista, frutos
por poda tida nos anos antecedentes à formação académica, que aliás a
prepararam, por mais completa e importante para a sobrevivência da pessoa que
esta se venha a revelar vida fora. Há quem prefira usar o termo podar
trocando-o pelo seu eufemismo de educar, na esperança de dar aquela
pincelada de civilização em algo tão vegetativo, como o processo de
aprendizagem; porém, em termos de Alma tal equivaleria a desvirtuar por
ró-có-quismo maneirista a formação de qualquer personagem tão empenhadamente
perto da natureza ancestral humanista ou humanitária.
Portanto, este livro é a visão adulta, avaliada,
perspetivada, parodiada de uma poda que resultou bem, prescindindo de enxertias
extemporâneas a fim de manter entroncada a genealogia da geração que se
empenhou em sobrevier ajustando a realidade aos seus ideais, promovendo e
multiplicando as possibilidades de vida em liberdade aos seus vindouros, sob a
interpretação de alguém que deveras lhe pertenceu, mas sempre, incluindo quando
nela participou ativamente, a viu, a observou, se lhe apresentou
predestinadamente distanciado. Quem provavelmente melhor saberá os porquês de
tal postura e atitude, anda à hora por paragens alheias ao mundo, e talvez se
mantenha absorto falando de caça com entusiasmo ou apontando a mira a alguma
lebre celestial ou perdiz astral, que se lhe levantem na frente, quiçá na
companhia de Aquilino Ribeiro, que também se perdia acostumadamente nesse
género de miragens calcorreando as fragas e serranias, sem receio de vender a
Alma por quaisquer cinco réis e gente.
Precisamente porque depois da Alma visitada mais fácil se
torna compreender a estirpe dos homens que a edificaram na rústica pedra, a
teceram nos vilares da transformação operativa, tal qual as terras do despertar
fizeram e onde tudo o que lhes acontece também nos acontece, pelo como e porque
nelas participamos ou a elas vemos, e nos marca para sempre, de forma
definitiva, balizando com datas inesquecíveis, interregnos de tempo a partir
dos quais nunca mais voltaríamos a ser apenas "aquilo" ou aqueles que
antes éramos.
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motivos e celebrações,
Notícias do Ocidente Ocidental
6.21.2015
O POETA
IMPETUOSO
IMPROVISO
Raiam nas colinas dóceis dos verdes anos
Os reflexos das salinas sob esse sol divino,
Quase ventres de meninas em alvos panos,
Velas em X de ansiar pra cumprir destino.
E têm seu jamais escrito pela imediata tinta
Dos pontos cardeais num sorriso encantado,
Como quem à incerteza dribla com a finta
Da meiguice gingada dum biquíni molhado...
Declaro para mim breve ser, só doçura leve.
Que não cederei ao repentino, e ao espanto
De quem pelo temor d'esquecer o escreve;
Mas a brisa segreda-me ser tarde pra ser
santo...
E aí o vento do desejo sopra forte, fero e
tanto
Que a declarada intenção de nada me serve!
Joaquim Castanho
O POETA
Michael Connelly
Trad. Eduardo Saló
480 Páginas
"A escrita exerce em mim o mesmo efeito que o
conteúdo desse copo em ti. Se conseguir escrever sobre o caso, é porque o
compreendo. Nada mais me interessa."
"Queria ser escritor e afinal tornei-me
jornalista."
"Uma pessoa tenta reconstruir um puzzle em
conformidade com o que tem na mente."
"– Vou escrever sobre o meu irmão – anunciei.
(...) Depois disso tudo se alterou na minha vida."
"A morte é o meu negócio. É dela que vivo.
Baseia-se nela a minha reputação profissional. Trato-a com a precisa paixão de
um agente funerário – grave e consolador perante os enlutados e artesão
eficiente com ela, quando estou só. Sempre achei que o segredo para me ocupar
da morte consistia em a manter a uma distância prudente. É a regra de ouro. Não
permitir que o seu alento me atinja a cara."
Sob o modelo narrativo das "bonecas
russas", matrioskas, ou das caixinhas que têm uma caixinha dentro que têm
outra caixinha, e por aí fora, até desvendar todas as peças do puzzle num
quadro geral, este romance assenta, contudo, numa estrutura molecular poeniana,
cujos pilares, ou formas essenciais (e explícitas) são: A Queda da Casa de Usher – conto que gira à volta da temática dos
sepultados vivos, vítimas dos seus antecipados terrores – e da poesia do mesmo
Edgar Allan, principalmente do poema País
dos Sonhos, e no qual, aliás, vem a residir a chave do enigma policial, num
enredo aos socalcos, em que, a cada nível, se tenta colocar o leitor "fora
do espaço, fora do tempo", tornando-lhe as conclusões obsoletas na justa
medida em que a elas chega, demonstrando uma vez mais que em poesia uma coisa é
sempre outra, qual encadeado metafórico cujos limites não cabem na ideia que
possamos ter de infinito, pois que, invariavelmente, logo que compreendemos
algo, outro algo se eclode na nossa compreensão, exigindo imagética realização,
ao contrário da Dicotomia de Zenão,
onde para se alcançar um objectivo depois de percorrido metade do trajeto ainda
faltará outro tanto, tornando a demanda impossível, porquanto esta compreensão
é heurística mas aberta, visto qualquer descoberta (ao entendimento) não ser
mais que o impulso direto – e motivador – para nova descoberta.
Enfim, um livro que só lido, pois que contado vamos
obrigatoriamente baralhar-nos nos enredos, enredados na trama e… tramados. Ou incomunicativos.
Joaquim Castanho
IMPETUOSO IMPROVISO
IMPETUOSO
IMPROVISO
Raiam nas colinas dóceis dos verdes anos
Os reflexos das salinas sob esse sol divino,
Quase ventres de meninas em alvos panos,
Velas em X de ansiar pra cumprir destino.
E têm seu jamais escrito pela imediata tinta
Dos pontos cardeais num sorriso encantado,
Como quem à incerteza dribla com a finta
Da meiguice gingada dum biquíni molhado...
Declaro para mim breve ser, só doçura leve.
Que não cederei ao repentino, e ao espanto
De quem pelo temor d'esquecer o escreve;
Mas a brisa segreda-me ser tarde pra ser
santo...
E aí o vento do desejo sopra forte, fero e
tanto
Que a declarada intenção de nada me serve!
Joaquim Castanho
6.20.2015
A TERCEIRA ROSA
A TERCEIRA ROSA
Manuel Alegre
(1998)
Aliás sequência de flores, de pessoas, de sinais... Primeira Rosa, segunda Rosário, terceira: rosa. Como que a inquirir-nos, semelhando William Shakespeare, o "que há num nome? Será que isso a que chamamos rosa, deixará de ter o mesmo suave e doce aroma, com outro nome qualquer?" O que nos motiva a esperar para ver, para confirmar o talvez – de Talavera e Malos Pasos –, que faz com que a morte seja o mais bonito, o clímax da faena, o que somente poderá acontecer no final do espectáculo que ahora se recuerda pelas cinco em sombra de la tarde, já que não há nenhuma morte que não seja igualmente muitas outras. Precisamente porque sempre que alguém morre, sempre que algum companheiro perece pelo caminho, é também mais um pedacinho de nós que se apaga. Talvez Rosário; talvez Cláudia; talvez Talavera. Mas o seu verdadeiro nome até poderia ser Pandora, se houvesse quem o procurasse insistentemente... e quisesse abrir.
E porque não? Alguém que seja todas as que não querem morrer das paixões que suscitam, que passam mas que ficam. Porque esse alguém há de ser visível nas águas do rio, da Ria – para ser mais exato –, no dia 1º de Maio, conforme conta William Faulkner, em Mayday, que é crença enraizada, segundo a qual aquele que olhar a água do rio neste dia verá nela o rosto da pessoa com quem casará e por quem se darão todos os tropeções no escuro, incluindo aqueles que já não acreditávamos ainda ser possível alguém dar, tamanha é a cegueira, considerando que a força das rotinas disso o impeçam, tão inevitavelmente quanto estas nos prolongam, mas nunca conseguimos contornar por maior que seja a nossa experiência de vida e, reforçada pelo conhecimento, esteja nela firmemente consolidada a sensatez que nos assiste.
E quem diz rio, diz Ria, diz rio Alva, diz Alba, diz aurora, diz madrugada, enfim, diz multidão que se manifesta na rua. Pois o homem ainda continua a ser aquela mosca zumbindo sob o copo invertido das suas ilusões, que inventa verdades, histórias, romances de cavalaria, aventuras onde seja o herói absoluto, tendo a sua amada como causa e motivo único. Exactamente assim. Cruelmente assim, e conforme cada qual seja capaz de se arremessar para melhor ficar.
Joaquim Castanho
6.19.2015
VINTE E QUATRO HORAS DA VIDA DE UMA MULHER
VINTE E QUATRO HORAS DA VIDA
DE UMA MULHER
Stefan Sweig
Não é pelo fato de alguns livros serem relativamente pequenos que serão obras menores, mas antes pelo contrário, que se um homem tem algo para dizer ao seu semelhante, di-lo, sem rodeios, perífrases nem fosquices ou maneirismos, afetações ou impertinências, envieses ou maus-olhados, complicados de sabujo ou papagaíce de cocote, pois por mais importante que seja o que se quer dizer, isso se faz com pouca lambança e menos artifício, diz-se de uma só vez e está dito, fica seguro e firmado entre emissor e receptor, assegurado e de olhos nos olhos, como um aperto de mão, um beijo, um abraço, um soco, um pontapé, sem o mínimo equívoco, salamaleque ou astuciosa manigância, engenhosa mentira de subalterno ou complexa aritmética na artimanha das rasteiras da fala. Fica ali, de pronto, exposto como um brado, um marco geodésico, um rio que corre entre montanhas, uma cruz no alto do outeiro, um uivo de lobo ao luar, de pé e hirto na paisagem da noite, a interromper as passadas ou a rasgar as nuvens, estabelecendo ligação imediata entre o céu, a alma dos homens, e a terra negra de cultivo, o chão estercado e fértil, ou entre os ossos de pedra cinzenta e vulcânica dos esqueletos maternos e os seios ancestrais que nos abocanham a fome de pecar, de comer o fruto das paradisíacas frondes. Não carece de enfeites nem de néones suplementares, de carnavalidades natalícias nem de pisca-piscas de sedução e convencimento alheio, mas joeira o grão da rabeira como se fora uma acesa vela no breu da madrugada, uma fresta de luar na clarabóia do telhado, uma árvore milenar no relevo da planície, uma bica de água cristalina a jorrar dos confins da contramina na serra do tempo. Porque nele, normalmente, pode ser e é dito tudo quanto deve ser dito e havia para dizer, sem remorsos nem escusas de falsa e hipócrita virgem.
É o caso de VINTE E QUATRO HORAS NA VIDA DE UMA MULHER, coisa de 160 páginas em formato de bolso e tipo médio, publicado pela Livraria Civilização – Editora, na tradução de Alice Ogando, antiga senhora das adaptações radiofónicas dos clássicos portugueses como estrangeiros, pelo menos dos não censurados clássicos, dos regimentais e incontroversos individualistas, todavia etiquetas pouco aderentes à pele do autor, pacifista, cosmopolita dos sete costados, deveras dado ao convívio e amizade, sustentáculos do Mundo de Ontem mas igualmente renovados no Brasil, País do Futuro, cuja panóplia de companheiros vai desde Freud, Dalí, Romain Rolland, Jules Romains, onde estabelece definitivamente que ler nunca é, nem pode ser, um ato falho de imaginação, mas ao invés, exige o exercício acuidado da descodificação de numeroso rol de símbolos, números, figuras geométricas, designações alfabéticas, cabalas, sem as quais os pequenos livros não sobreviveriam para lá de suas ralas páginas, e que balizam a mensagem que inspirou a sua criação e escrita. Porque ela estava lá e indicava, ao tempo, o único caminho possível para o povo judaico da Alemanha nazi, se se quisesse subtrair ao genocídio hitleriano, que seria, conforme o próprio fez, o caminho do mar até ao novo mundo ou país do futuro, e cuja inobservância pelos seus compatriotas esteve na génese do suicídio a dois, dele e da mulher, aliás também este à imagem e imitando aqueloutro de Kleist e Henricheta, seus biografados, repetindo-o, sendo-lhe analogia, tal como nesta novela Henricheta repete Mrs. C, reflexo intencional desse jogo de alegorias e seu espelhamento, processo de repetições em catadupa, de imagens que se multiplicam noutras suas derivadas, transformações apenas possíveis pela actividade heurística da metáfora, alegorias que se desdobram em analogias que, por sua vez, outras figuras alegóricas geram e espelham, e que afinal é, são, a confluência descritiva de sentidos que carateriza a ficção romanesca, o discurso narrativo apoiado na metamorfose e inquietude do (dis)curso da história. E da História – que ambas convergem sempre para aglutinarem-se mal a análise se faça.
Porque, confesso, aquilo a que
assisti sobretudo na leitura, não foi tanto as 24 horas na vida de uma mulher,
mas sim 24 anos (por exemplo, entre 1918 e 1942) da vida da Europa, esse
continente entre guerras, ditos assim dez anos antes do seu terrífico apogeu,
em 1932, numa reunião, tão suspeita quanto ocasional, de sete pessoas numa
pequena pensão da Riviera, de onde, porque lateral e paralela, era possível
bisbilhotar a alta burguesia da época, enquanto mediática clientela do excelso,
e em moda, Hotel Palace. Ou cada passo dos ponteiros no mostruário de um relógio
de estação, símbolo de uma época que tem por núcleo fundamental a revolução
industrial, os tempos modernos, simultaneamente imagem emblemática do cosmos,
do tempo mitológico ou Cronos, mas igualmente do tempo anual das quatro
estações, cruz do ponto cardeal global sobre o espaço-quando absoluto, para
(re)desenhar nele os oito pontos cardeais da Rosa dos Ventos, fazer renascer
nela, ou por ela, O Cavaleiro da Rosa,
estrangeiro à cruz grega, mais tarde de malta, como se fora um Santo André,
cuja crucificação em X, acoplada ao cristianismo, traduz o preciosismo barroco
da Rosa Cruz, significando ela mesma um ciclo de renovação, indicativo da
urgência de fuga do povo judaico, caso este não queira que lhe venha a suceder
o que outrora aconteceu a essas duas ordens (Hospitalar de S. João e Santo
André) sob o jugo beneditino, decisão que carecia de imediatez, de pressa, pois
corria-se contra o tempo, aumentando-lhe o risco, uma vez que quanto mais
tardia, mais se tornaria arriscada essa fuga, como enfim se veio a demonstrar
mesmo impossível e mortífera para milhões de pessoas, chacinadas nos campos de
concentração nazis.
Principalmente porque nela, nesta
novela, tão iniciática quanto fantástica, está lá tudo isso dito mas calado,
visto que carece de ser entendido usando a imaginação, estabelecendo relações
entre termos anteriormente pouco relacionáveis, dito e sublinhado em diferentes
e repetidas formas alegóricas, em analogias transformadas, incluindo essa quase
pleonástica fórmula cabalística, derivada do modo de interpretação e análise do
Antigo Testamento, cujo trajeto consiste em repetir as repetições, muito
didacticamente traduzindo o alfabeto na sua expressão numérica, para assim
ganhar a certeza de vir a ser compreendido por todos os homens e todas as mulheres,
entendido pelo maior número de pessoas, ou de leitores envolvidos e
interessados, como se fosse necessário explicar tão exaustivamente uma coisa,
um cenário, um enredo, uma situação, uma chamada de urgência a alguém
incapacitado de ver com os olhos, mas sobretudo incapaz de imaginar tudo aquilo
que vá para além daquilo que as fere e impressiona. Isso, a urgência de partir
mar fora sem receio de perder tudo o que ficara, o que deixara para trás, como
antes já se conseguira (da Babilónia e do Egito) com engenhoso sacrifício e a
tenacidade de povos eleitos na provação divina.
Porque escrever é transferir
segredos, forjar cumplicidades anteriormente tidas por impossíveis e somenos
recomendáveis, revelar inconfessáveis sentimentos, prospetivas e opiniões,
transgredir os limites do racional através do inaudito, estabelecer ligações
entre diferentes identidades, rasgar absolutos, renovar e multiplicar as
possibilidades de ser quando em sendo se esculpem no verbo, tanto o do seu
criativo como do leitor, que assim se insurgem para lá das fronteiras restritas
da significação e soletrações ordinárias. É iniciar humanidades onde antes
apenas havia percepções e sentimentos através da transfusão de metáforas,
acalentar a liberdade pela expressão máxima da sua capacidade de disseminação e
sobrevivência, anexá-la à teoria de vida de cada indivíduo tornando-a tão
multifacetada quão diversa, e, por isso mesmo, não somente diversa e diferente
como geradora de diversidade, rasgando não um mas tantos caminhos para a eternidade
quantos os leitores, criadores e demais intervenientes que a interiorizam ou a
expõem, assimilam como divulgam, e dispostos estão a reproduzi-la, recriá-la,
aspergi-la em cada outro, semelhante, familiar, estranho ou simples
"espetador esporádico e momentâneo" com quem contatem no seu
dia-a-dia.
Pelo que se pode afirmar que a
verdadeira tragédia de Stefan Zweig foi essencialmente fruto da sua humanidade,
da sua crença no ser humano e na sua inteligência, por quem acreditou ser
suficientemente lúcido para as ver além do visível e capaz de querer acima do
seu egoísmo, necessidade de desenrasque adjuvante ao salve-se quem puder da
sobrevivência animal, instinto e sentido de defesa particulares à visão antropocêntrica,
narcísica, niilista, ortodoxa dos cânones bíblicos do mundo e da existência, e
que uma vez desiludido se aniquilou, rendeu ao suicídio, transformando a morte
num ato público de denúncia, um grito de alerta como de revolta, chamando a
atenção para a incontinência xenófoba e intentou fazer retroceder a marcha aos
nacionalismos, inverter as directivas burguesas, corporativistas e industriais
que os geraram, a todos eles, bem como à sua vontade de poder na tentativa de
domesticar a liberdade, servindo-se dela para oprimir outras nações e povos, e
instituir a consciência coletiva como seu principal refém para obstruí-la ou
amputá-la a quem se lhe opusesse, afinal tão comum ao século passado como ao
atual, que ao abrigo dos conceitos e convenções de defesa contra os terrorismos
utilizando práticas terroristas, legitimadas no quorum das nações pelo medo e
prevenção deles, vai chacinando outros povos onde se suspeita estarem alguns
dos mentores e/ou operacionais desse terror.
Visto que só um louco desumano, ou
ser perverso de baixíssima índole, seria capaz de assistir à captura,
humilhação e morte dos seus amigos, sem tentar contrariar positivamente isso,
sem lutar por eles, alertando-os dez anos antes, e muito antes de todos os
mais, naquele jeito de ir sempre à frente expondo-se exemplarmente, indicando o
caminho do futuro sob a imperiosidade da fuga, usando a suas principais armas,
a ficção romanesca e língua, como gesto de denúncia e brado de incitamento,
deveras ansioso conforme lhe caprichou a vida e é comum a quem, até na morte,
se quis demasiadamente impaciente: fazendo desta obra a sua carta para os
conhecidos e amigos, também eles possíveis vítimas dum amok europeu que germinou no obscurantismo para contaminar toda a intelectualidade
vienense, naquela indiscritível loucura que é a guerra – mundial para quem lhe
assistiu de fora, mas efectivamente pessoal e cruel para quantos nela, ou por
ela, pereceram. E que nem a sua criação literária poupou!...
Joaquim Castanho
CERTIDÃO DE ENAMORAMENTO
CERTIDÃO DE
ENAMORAMENTO
Deve haver uma lenda, um fado, um mito
Onde esteja o nosso destino traçado:
É que ao olhar-te, ao ver-te, acredito
Que temos o futuro escrito
No mais íntimo esperado.
Continuo, depois destes anos todos
Como desde a Escola me acontecia,
A perder os sentidos, a sensatez, os modos
Mal te vejo, como vendo-te, fatalmente em ti me perdia.
Perdia a noção do real, e da fantasia;
Perdia o pé, o equilíbrio, a certeza do gesto;
Perdia a luz, tanto a da noite como a do dia,
Enfim, então tudo perdia, só não perdia tudo o resto.
E não perdia este prazer que tenho de sonhar
Tudo, tudo trocar, nada sentir como meu
Exceto o secreto pressentir que é o teu olhar
O selo, o anel real, aquele que valida (a realidade)
E dá garantia de verdade – e vida
A todo o universo: terra, mar, sangue e céu!
Daí que quando assim, nada deseje então
Senão o que há em mim
Quando te nomeio dentro do mito,
Que me arrebata e penetra como grito
Do sonho nascido por ter-te no coração,
Tão dentro, que te vejo no brilho expedito
E no luminoso céu em que acredito
Estejas cintilando estrela sim
Estrela sim, estrela sim
Estrela sim, estrela sim...
– E porque não?!?...
Joaquim Castanho
6.18.2015
RECORDAR SONHANDO
RECORDAR SONHANDO
Tem mistérios inauditos.
E em cada luar que acoite
Brilhos pálidos e expeditos.
Às vezes, sei-o eu – e bem!...
Possui-nos através dum sorriso;
Através do recordar preciso,
Por tanto desejarmos alguém.
A mim, acontece-me frequentemente...
E acordo a beijar os ares, além
De deitar a língua de fora, contente.
Porque vivi; e vivendo, vivi-te também.
Joaquim Castanho
6.12.2015
ARTIGO 183
Artigo
183.º
1. Os
deputados eleitos por cada partido ou coligação de partidos podem constituir-se
em grupo parlamentar.
2. Constituem
direitos de cada grupo parlamentar:
a) Participar
nas comissões da Assembleia em função do número dos seus membros, indicando os
seus representantes nelas;
b) Ser
ouvido na fixação da ordem do dia e interpor recurso para Plenário da ordem do
dia fixada;
c) Provocar,
por meio de interpelação ao Governo, a abertura de dois debates em cada sessão
legislativa sobre assunto de política geral ou setorial;
d) Solicitar
à Comissão Permanente que promova a convocação da Assembleia;
e) Requerer
a constituição de comissões parlamentares de inquérito;
f)
Exercer iniciativa legislativa;
g) Apresentar
moções de rejeição do programa do Governo;
h) Apresentar
moções de censura ao Governo;
i)
Ser informado, regular e
diretamente, pelo Governo, sobre o andamento dos principais assuntos de
interesse público.
3. Cada
grupo parlamentar tem direito a dispor de locais de trabalho na sede da
Assembleia, bem como de pessoal técnico e administrativo da sua confiança, nos
termos que a lei determinar.
APRESENTAÇÃO PÚBLICA DOS CANDIDATOS ÀS
PRIMÁRIAS PARA AS LEGISLATIVAS DO LIVRE / TEMPO DE AVANÇAR
Das quatro centenas e piques que
compõem o número total de candidatos e candidatas às primárias do LIVRE / TEMPO
DE AVANÇAR às eleições legislativas do presente ano, quase metade estiveram,
dia 10 deste mês, nas escadarias da Assembleia da República, a dar-se a
conhecer entre si aos demais inscritos e eleitores, numa ação conjunta e
concertada, harmoniosa e simbólica, comprovando serem um corpo legislativo
íntegro, coeso, homogéneo, empenhado, diverso e voluntarioso, que não se coíbe
a esforços para avançar no cumprimento da democracia participativa que a nova
ordem constitucional implantada na sequência da revolução de abril devolveu ao
povo português.
Ali, no Dia de Portugal e das
Comunidades Portuguesas, a festa da democracia celebrou a nacionalidade com a
simplicidade coreográfica duma foto de família, grande e coesa, multigeracional
e diversa, que vai dos 18 aos 84 anos, provando que todos e todas somos de
menos para cumprir Portugal, bem como na sociedade portuguesa os imperativos da
inclusão e da cidadania são uma mais-valia de registo ativo e exemplar, para
prosseguir na construção duma sociedade mais justa, mais equitativa, mais
cidadã, mais emancipada, mais responsável, mais sustentável, mais democrática e
mais consciente, onde todos os homens e todas as mulheres, todas as crianças e
adolescentes, todos os idosos e todas as idosas, todos os credos e todas as
culturas, têm lugar e são desejados ou desejadas.
E essa é uma grande diferença que ora
se contempla, porquanto deixou de pertencer só ao universo da democracia
teórica e passou a pertencer ao universo da democracia prática, quotidiana e
mediática.
Joaquim Castanho
6.11.2015
6.08.2015
6.01.2015
FALAMOS E ESCREVEMOS PARA DIZER O QUE QUEREMOS
FALAMOS
E ESCREVEMOS PARA DIZER AQUILO QUE QUEREMOS E NÃO PARA PARECER BEM OU FAZER
BONITO
“Quem
é belo
é
belo aos olhos
– e basta.
Mas quem é bom
é subitamente belo.”
Safo
O estilo
simples, directo e conciso, apregoado pela enorme maioria dos escribas da nossa
praça, não existe, embora alguns deles almejem convencer-nos de que escrevem
com rigor, objetivamente, portanto sem adjectivos nem advérbios, em frases
curtas (e rudimentares), isto é, que se submetem ao formato gramatical
matricial do sujeito ®
predicado ®
complementos, e mantêm o linguajar nesse registo. Mas isso é treta, porquanto
só o consegue fazer quem fala maquinalmente e não evoluiu na língua depois de
ter aprendido a falar, coisa que é absolutamente impossível desde que se repita
aquilo que se aprendeu pelo menos uma vez. Quanto muito, podemos é limitar o
nosso discurso a um universo vocabular determinado e articulá-lo com um
conjunto igualmente limitado de operações, quer físicas, quer linguísticas,
para efeitos pedagógicos, para nos fazermos entender por quem ainda não
adquiriu outras palavras além das subscritas pelo grupo lexical determinado,
nem demais capacidades idiomáticas. Além do que, ao fazê-lo, seria impossível
concretizá-lo sem recorrer a formas de expressão já definitas, à expressão
corporal consequente e à onomatopeia, o que, si mesmas são outro discurso
dentro do discurso. Falar não é papaguear, nem escrever um copy-past estrutural
passível de substituição de umas palavras por outras. É comunicar. É tornar
acessível a alguns aquilo que apenas era consciência individual.
Ou seja, tal
como afirmou Safo de Mitilene, o estilo belo não é aquele que soa bem mas o que
comunica eficazmente aquilo que queremos dizer, posto que é isso que o torna
útil e bom; logo, belo.
Joaquim
Castanho
OS RIOS, de António Nobre
OS
RIOS
Os
rios têm cantigas de ceifeiras,
Baladas
esquisitas e formosas…
Há
lá no fundo cristalinas eiras,
Onde
bailam crianças vaporosas.
De
noite, pelas horas religiosas,
Os
rios têm cantigas de ceifeiras,
E
ao verem-nos passar dizem as rosas:
…
Água que vem de terras estrangeiras!
No
entanto, como enormes esqueletos
Cobrem
o rio as árvores, Hamletos
Numa
postura estática e silente…
E
a lua vai boiando à tona da água,
Gémea
do amor, dos séculos, da mágoa,
Como
Ofélia nas águas da corrente!
ANTÓNIO
NOBRE
5.31.2015
AMPLEXO LUMINOSO
AMPLEXO
LUMINOSO
É vazio o eco de uma floresta sem
pássaros,
Ainda que restolho gretado sob o sol
acutilante
Suplique esquisso no horizonte violeta
e rosa,
Cheio do silêncio gritante dos
sobreiros solitários,
Sob outro estendal de panos templários
(da prosa).
E mais que isso, na penumbra do
rés-do-chão
A linha de teus gestos que se
desprendem
Pouco a pouco, tudo-nada, cabelos
desalinhados
Estendidos como um sonho do olhar
recorrente
Que, de visto, nos deixa quase
embriagados,
Com os braços esticados na procura
cega do ser
Elástico, elegante, ágil, felino de
ter-te urgente
Verbo preso na caixa da boca, pronto a
dizer
Pelos socalcos das sílabas o crescente
desejo,
A tua liquidez desmaiada no ocaso;
acutilante
Da estrela da alma prestes a rebentar
em luz,
Lá no alto onde apenas se chega por
ânsia de jus,
Esmagamento absoluto de perpetuar-te
em mim
– AaaSSSSSiiiiiiMMMM!!!! – até as
veias rebentarem,
Gretarem a frase pelos complementos
diretos
Direitos ao verbo eclodir pra esgarrar
a casca,
Pô-la porta aberta a soltar brados,
sons insurretos
Despertos pelo teu ledo grito a
estilhaçar o medo!
J Maria Castanho
OLHAR, de António Nobre
OLHAR
(Fragmento)
Ó
grandes olhos outonais, cheios de Azul!
Como
nasceste vós neste país do Sul?
Quem
vos pintou? Quem foi esse pintor estranho?
Que
génio excecional! Que talento tamanho!
Alguém
me disse que viu todos os museus,
Mas
o que lá não viu foi olhos como os teus…
Nunca
vi nada, assim, em toda a natureza.
O
pincel que vos criou foi, com toda a certeza,
O
mesmo que pintou os raros azulejos;
Vós
sois um céu azul cheio de astros e beijos!
ANTÓNIO
NOBRE
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Há Luz no Escurecer,
Poesia Alheia
5.29.2015
O QUE NÓS QUEREMOS
O QUE NÓS
QUEREMOS
(…) (…) (…)
“Viver, ser
ditosos, ser livres… «eis aqui o que nós queremos».
Gozar o
bem-estar físico, assegurado por uma alimentação sã e abundante, boa roupa e
uma habitação confortável.
Cultivar a
nossa inteligência, desenvolver os nossos conhecimentos, enriquecer o nosso
cérebro com novas verdades, regozijar os nossos olhos na contemplação das
grandes obras da Arte e da Natureza, deliciar os nossos ouvidos com o encanto
das puras harmonias, estudar com espírito independente os problemas da vida,
passear livremente a nossa curiosidade através do mundo das realidades e das
observações, pensar o que nos inspira a nossa razão ilustrada e confiar à nossa
intrépida língua a expressão sincera do pensamento.
«Eis aqui o
que nós queremos.»
E queremos
também o mais breve possível um meio social favorável ao desenvolvimento
integral da personalidade humana, pelo livre exercício das suas forças que em
nós se agitam e das paixões que nos movem, pelo desenvolvimento moral das
nossas afinidades, pela nobre irradiação das nossas simpatias.
É necessário
pedir à vida todas as alegrias que ela contém.”
Excerto do
Manifesto editado pela Biblioteca Luz do Povo, no início do século passado, e
da autoria de SEBASTIÃO FAURE
5.28.2015
ESTAS MURALHAS TE PERTENCEM
ESTAS MURALHAS
TE PERTENCEM
Não posso dar-te as chaves da minha
cidade
Porque é livre e de portas abertas,
sem idade...
Mas de tanto nomeá-las, a todas as
suas ruas
Se tornaram minhas – e que agora, são
tuas!
Tuas, por direito e alegria de um Portus Alacer;
Que aos portos só podem chamar-se da alegria
Se forem igualmente pertença daquela,
que mulher
Foi também rainha e luz diamantina, no
dia-a-dia.
Portanto, se quanto esta terra teve egrégios
avós
É meritória do romance que o teu nome
encerra,
Das muralhas de D. Dinis os Pedros
somos nós
Pedras de afeto seguro que só por ti
se esmera,
E cresce dando-lhe o peito como lho dá
a Serra.
Que os montes das oliveiras, penhascos
e sobreiros
Onde pascem os sonhos floridos das
Maias este mês
Sabes, sem dúvida o fazem para serem
os primeiros
A cantar-te em saudade, com baladas a
Dona Inês!
Joaquim Castanho
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Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos
Onde a liquidez da água livre
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