6.21.2015

IMPETUOSO IMPROVISO




IMPETUOSO IMPROVISO


Raiam nas colinas dóceis dos verdes anos
Os reflexos das salinas sob esse sol divino,
Quase ventres de meninas em alvos panos,
Velas em X de ansiar pra cumprir destino.

E têm seu jamais escrito pela imediata tinta
Dos pontos cardeais num sorriso encantado,
Como quem à incerteza dribla com a finta
Da meiguice gingada dum biquíni molhado...

Declaro para mim breve ser, só doçura leve.
Que não cederei ao repentino, e ao espanto
De quem pelo temor d'esquecer o escreve;

Mas a brisa segreda-me ser tarde pra ser santo...
E aí o vento do desejo sopra forte, fero e tanto
Que a declarada intenção de nada me serve!

Joaquim Castanho     

6.20.2015

A TERCEIRA ROSA




A  TERCEIRA ROSA
Manuel Alegre 
(1998) 

Eis mais um romance  fragmento que caminha, que se revela em cada painel desdobrado do pórtico histórico do pré, pró, contra e após 25-A,  com diversos amores ao amor pelo meio, exalando uma mescla de qualquer iguaria quimérica de elevado condimento provençal e cavalheiresco, que quase remanesce por milagre, posto que se interpelarmos a mancha gráfica sobre o que traz por dentro, entre capas e fólios, a resposta cai rotunda e sem margem para dúvidas: «São mulheres, senhor. Rosas de seu nome, a maioria delas, mesmo se já morreram ou prostradas repousem nas bermas da prosa, alguéns que cresceram em mim, para mim, por mim e comigo, enquanto a liberdade se reinventava e nascia para nós.» O que, ressalte-se, tanto se pode dizer acerca deste romance como de qualquer outro que tenha por background o ambiente sociopolítico português, dos finais do salazarismo, da primavera marcelista e do primeiro 1º de Maio sob os auspícios da revolução. Ou cuja data de referência se viesse dos 60 libertando quanto o permitissem as malhas do império e da raça insana, considerando que se nota deveras nele a intenção autoral de os refletir, de os lapidar, depurar e, consequentemente, espremendo-lhe os inúmeros pontos negros com que pintalgaram a história. Uma revolução sentada na varanda com um sinal (flor) na mão, confirmando a sua anuência ao encontro marcado. Qual menina que não expira nunca totalmente e se procura em cada mulher cuja inocência ficou e passou mas ficou em nós, como marca distinta de todas as paixões que imperiosas arrebatam, ferram, selam, aplicam o ferrete modelar que nos há de perseguir vida fora. 
Aliás sequência de flores, de pessoas, de sinais... Primeira Rosa, segunda Rosário, terceira: rosa. Como que a inquirir-nos, semelhando William Shakespeare, o "que há num nome? Será que isso a que chamamos rosa, deixará de ter o mesmo suave e doce aroma, com outro nome qualquer?" O que nos motiva a esperar para ver, para confirmar o talvez – de Talavera e Malos Pasos –, que faz com que a morte seja o mais bonito, o clímax da faena, o que somente poderá acontecer no final do espectáculo que ahora se recuerda pelas cinco em sombra de la tarde, já que não há nenhuma morte que não seja igualmente muitas outras. Precisamente porque sempre que alguém morre, sempre que algum companheiro perece pelo caminho, é também mais um pedacinho de nós que se apaga. Talvez Rosário; talvez Cláudia; talvez Talavera. Mas o seu verdadeiro nome até poderia ser Pandora, se houvesse quem o procurasse insistentemente... e quisesse abrir. 
E porque não? Alguém que seja todas as que não querem morrer das paixões que suscitam, que passam mas que ficam. Porque esse alguém há de ser visível nas águas do rio, da Ria – para ser mais exato –, no dia 1º de Maio, conforme conta William Faulkner, em Mayday, que é crença enraizada, segundo a qual aquele que olhar a água do rio neste dia verá nela o rosto da pessoa com quem casará e por quem se darão todos os tropeções no escuro, incluindo aqueles que já não acreditávamos ainda ser possível alguém dar, tamanha é a cegueira, considerando que a força das rotinas disso o impeçam, tão inevitavelmente quanto estas nos prolongam, mas nunca conseguimos contornar por maior que seja a nossa experiência de vida e, reforçada pelo conhecimento, esteja nela firmemente consolidada a sensatez que nos assiste. 
E quem diz rio, diz Ria, diz rio Alva, diz Alba, diz aurora, diz madrugada, enfim, diz multidão que se manifesta na rua. Pois o homem ainda continua a ser aquela mosca zumbindo sob o copo invertido das suas ilusões, que inventa verdades, histórias, romances de cavalaria, aventuras onde seja o herói absoluto, tendo a sua amada como causa e motivo único. Exactamente assim. Cruelmente assim, e conforme cada qual seja capaz de se arremessar para melhor ficar.

Joaquim Castanho

6.19.2015

VINTE E QUATRO HORAS DA VIDA DE UMA MULHER




VINTE E QUATRO HORAS DA VIDA DE UMA MULHER
Stefan Sweig


Não é pelo fato de alguns livros serem relativamente pequenos que serão obras menores, mas antes pelo contrário, que se um homem tem algo para dizer ao seu semelhante, di-lo, sem rodeios, perífrases nem fosquices ou maneirismos, afetações ou impertinências, envieses ou maus-olhados, complicados de sabujo ou papagaíce de cocote, pois por mais importante que seja o que se quer dizer, isso se faz com pouca lambança e menos artifício, diz-se de uma só vez e está dito, fica seguro e firmado entre emissor e receptor, assegurado e de olhos nos olhos, como um aperto de mão, um beijo, um abraço, um soco, um pontapé, sem o mínimo equívoco, salamaleque ou astuciosa manigância, engenhosa mentira de subalterno ou complexa aritmética na artimanha das rasteiras da fala. Fica ali, de pronto, exposto como um brado, um marco geodésico, um rio que corre entre montanhas, uma cruz no alto do outeiro, um uivo de lobo ao luar, de pé e hirto na paisagem da noite, a interromper as passadas ou a rasgar as nuvens, estabelecendo ligação imediata entre o céu, a alma dos homens, e a terra negra de cultivo, o chão estercado e fértil, ou entre os ossos de pedra cinzenta e vulcânica dos esqueletos maternos e os seios ancestrais que nos abocanham a fome de pecar, de comer o fruto das paradisíacas frondes. Não carece de enfeites nem de néones suplementares, de carnavalidades natalícias nem de pisca-piscas de sedução e convencimento alheio, mas joeira o grão da rabeira como se fora uma acesa vela no breu da madrugada, uma fresta de luar na clarabóia do telhado, uma árvore milenar no relevo da planície, uma bica de água cristalina a jorrar dos confins da contramina na serra do tempo. Porque nele, normalmente, pode ser e é dito tudo quanto deve ser dito e havia para dizer, sem remorsos nem escusas de falsa e hipócrita virgem.

É o caso de VINTE E QUATRO HORAS NA VIDA DE UMA MULHER, coisa de 160 páginas em formato de bolso e tipo médio, publicado pela Livraria Civilização – Editora, na tradução de Alice Ogando, antiga senhora das adaptações radiofónicas dos clássicos portugueses como estrangeiros, pelo menos dos não censurados clássicos, dos regimentais e incontroversos individualistas, todavia etiquetas pouco aderentes à pele do autor, pacifista, cosmopolita dos sete costados, deveras dado ao convívio e amizade, sustentáculos do Mundo de Ontem mas igualmente renovados no Brasil, País do Futuro, cuja panóplia de companheiros vai desde Freud, Dalí, Romain Rolland, Jules Romains, onde estabelece definitivamente que ler nunca é, nem pode ser, um ato falho de imaginação, mas ao invés, exige o exercício acuidado da descodificação de numeroso rol de símbolos, números, figuras geométricas, designações alfabéticas, cabalas, sem as quais os pequenos livros não sobreviveriam para lá de suas ralas páginas, e que balizam a mensagem que inspirou a sua criação e escrita. Porque ela estava lá e indicava, ao tempo, o único caminho possível para o povo judaico da Alemanha nazi, se se quisesse subtrair ao genocídio hitleriano, que seria, conforme o próprio fez, o caminho do mar até ao novo mundo ou país do futuro, e cuja inobservância pelos seus compatriotas esteve na génese do suicídio a dois, dele e da mulher, aliás também este à imagem e imitando aqueloutro de Kleist e Henricheta, seus biografados, repetindo-o, sendo-lhe analogia, tal como nesta novela Henricheta repete Mrs. C, reflexo intencional desse jogo de alegorias e seu espelhamento, processo de repetições em catadupa, de imagens que se multiplicam noutras suas derivadas, transformações apenas possíveis pela actividade heurística da metáfora, alegorias que se desdobram em analogias que, por sua vez, outras figuras alegóricas geram e espelham, e que afinal é, são, a confluência descritiva de sentidos que carateriza a ficção romanesca, o discurso narrativo apoiado na metamorfose e inquietude do (dis)curso da história. E da História – que ambas convergem sempre para aglutinarem-se mal a análise se faça. 

Porque, confesso, aquilo a que assisti sobretudo na leitura, não foi tanto as 24 horas na vida de uma mulher, mas sim 24 anos (por exemplo, entre 1918 e 1942) da vida da Europa, esse continente entre guerras, ditos assim dez anos antes do seu terrífico apogeu, em 1932, numa reunião, tão suspeita quanto ocasional, de sete pessoas numa pequena pensão da Riviera, de onde, porque lateral e paralela, era possível bisbilhotar a alta burguesia da época, enquanto mediática clientela do excelso, e em moda, Hotel Palace. Ou cada passo dos ponteiros no mostruário de um relógio de estação, símbolo de uma época que tem por núcleo fundamental a revolução industrial, os tempos modernos, simultaneamente imagem emblemática do cosmos, do tempo mitológico ou Cronos, mas igualmente do tempo anual das quatro estações, cruz do ponto cardeal global sobre o espaço-quando absoluto, para (re)desenhar nele os oito pontos cardeais da Rosa dos Ventos, fazer renascer nela, ou por ela, O Cavaleiro da Rosa, estrangeiro à cruz grega, mais tarde de malta, como se fora um Santo André, cuja crucificação em X, acoplada ao cristianismo, traduz o preciosismo barroco da Rosa Cruz, significando ela mesma um ciclo de renovação, indicativo da urgência de fuga do povo judaico, caso este não queira que lhe venha a suceder o que outrora aconteceu a essas duas ordens (Hospitalar de S. João e Santo André) sob o jugo beneditino, decisão que carecia de imediatez, de pressa, pois corria-se contra o tempo, aumentando-lhe o risco, uma vez que quanto mais tardia, mais se tornaria arriscada essa fuga, como enfim se veio a demonstrar mesmo impossível e mortífera para milhões de pessoas, chacinadas nos campos de concentração nazis.

Principalmente porque nela, nesta novela, tão iniciática quanto fantástica, está lá tudo isso dito mas calado, visto que carece de ser entendido usando a imaginação, estabelecendo relações entre termos anteriormente pouco relacionáveis, dito e sublinhado em diferentes e repetidas formas alegóricas, em analogias transformadas, incluindo essa quase pleonástica fórmula cabalística, derivada do modo de interpretação e análise do Antigo Testamento, cujo trajeto consiste em repetir as repetições, muito didacticamente traduzindo o alfabeto na sua expressão numérica, para assim ganhar a certeza de vir a ser compreendido por todos os homens e todas as mulheres, entendido pelo maior número de pessoas, ou de leitores envolvidos e interessados, como se fosse necessário explicar tão exaustivamente uma coisa, um cenário, um enredo, uma situação, uma chamada de urgência a alguém incapacitado de ver com os olhos, mas sobretudo incapaz de imaginar tudo aquilo que vá para além daquilo que as fere e impressiona. Isso, a urgência de partir mar fora sem receio de perder tudo o que ficara, o que deixara para trás, como antes já se conseguira (da Babilónia e do Egito) com engenhoso sacrifício e a tenacidade de povos eleitos na provação divina.

Porque escrever é transferir segredos, forjar cumplicidades anteriormente tidas por impossíveis e somenos recomendáveis, revelar inconfessáveis sentimentos, prospetivas e opiniões, transgredir os limites do racional através do inaudito, estabelecer ligações entre diferentes identidades, rasgar absolutos, renovar e multiplicar as possibilidades de ser quando em sendo se esculpem no verbo, tanto o do seu criativo como do leitor, que assim se insurgem para lá das fronteiras restritas da significação e soletrações ordinárias. É iniciar humanidades onde antes apenas havia percepções e sentimentos através da transfusão de metáforas, acalentar a liberdade pela expressão máxima da sua capacidade de disseminação e sobrevivência, anexá-la à teoria de vida de cada indivíduo tornando-a tão multifacetada quão diversa, e, por isso mesmo, não somente diversa e diferente como geradora de diversidade, rasgando não um mas tantos caminhos para a eternidade quantos os leitores, criadores e demais intervenientes que a interiorizam ou a expõem, assimilam como divulgam, e dispostos estão a reproduzi-la, recriá-la, aspergi-la em cada outro, semelhante, familiar, estranho ou simples "espetador esporádico e momentâneo" com quem contatem no seu dia-a-dia.

Pelo que se pode afirmar que a verdadeira tragédia de Stefan Zweig foi essencialmente fruto da sua humanidade, da sua crença no ser humano e na sua inteligência, por quem acreditou ser suficientemente lúcido para as ver além do visível e capaz de querer acima do seu egoísmo, necessidade de desenrasque adjuvante ao salve-se quem puder da sobrevivência animal, instinto e sentido de defesa particulares à visão antropocêntrica, narcísica, niilista, ortodoxa dos cânones bíblicos do mundo e da existência, e que uma vez desiludido se aniquilou, rendeu ao suicídio, transformando a morte num ato público de denúncia, um grito de alerta como de revolta, chamando a atenção para a incontinência xenófoba e intentou fazer retroceder a marcha aos nacionalismos, inverter as directivas burguesas, corporativistas e industriais que os geraram, a todos eles, bem como à sua vontade de poder na tentativa de domesticar a liberdade, servindo-se dela para oprimir outras nações e povos, e instituir a consciência coletiva como seu principal refém para obstruí-la ou amputá-la a quem se lhe opusesse, afinal tão comum ao século passado como ao atual, que ao abrigo dos conceitos e convenções de defesa contra os terrorismos utilizando práticas terroristas, legitimadas no quorum das nações pelo medo e prevenção deles, vai chacinando outros povos onde se suspeita estarem alguns dos mentores e/ou operacionais desse terror.

Visto que só um louco desumano, ou ser perverso de baixíssima índole, seria capaz de assistir à captura, humilhação e morte dos seus amigos, sem tentar contrariar positivamente isso, sem lutar por eles, alertando-os dez anos antes, e muito antes de todos os mais, naquele jeito de ir sempre à frente expondo-se exemplarmente, indicando o caminho do futuro sob a imperiosidade da fuga, usando a suas principais armas, a ficção romanesca e língua, como gesto de denúncia e brado de incitamento, deveras ansioso conforme lhe caprichou a vida e é comum a quem, até na morte, se quis demasiadamente impaciente: fazendo desta obra a sua carta para os conhecidos e amigos, também eles possíveis vítimas dum amok europeu que germinou no obscurantismo para contaminar toda a intelectualidade vienense, naquela indiscritível loucura que é a guerra – mundial para quem lhe assistiu de fora, mas efectivamente pessoal e cruel para quantos nela, ou por ela, pereceram. E que nem a sua criação literária poupou!...

Joaquim Castanho                     

  

CERTIDÃO DE ENAMORAMENTO





CERTIDÃO DE ENAMORAMENTO
 

Deve haver uma lenda, um fado, um mito
Onde esteja o nosso destino traçado:
É que ao olhar-te, ao ver-te, acredito
Que temos o futuro escrito
No mais íntimo esperado.

Continuo, depois destes anos todos
Como desde a Escola me acontecia,
A perder os sentidos, a sensatez, os modos
Mal te vejo, como vendo-te, fatalmente em ti me perdia.

Perdia a noção do real, e da fantasia;
Perdia o pé, o equilíbrio, a certeza do gesto;
Perdia a luz, tanto a da noite como a do dia,
Enfim, então tudo perdia, só não perdia tudo o resto.

E não perdia este prazer que tenho de sonhar
Tudo, tudo trocar, nada sentir como meu
Exceto o secreto pressentir que é o teu olhar
O selo, o anel real, aquele que valida (a realidade)
E dá garantia de verdade – e vida
A todo o universo: terra, mar, sangue e céu!

Daí que quando assim, nada deseje então
Senão o que há em mim
Quando te nomeio dentro do mito,
Que me arrebata e penetra como grito
Do sonho nascido por ter-te no coração,
Tão dentro, que te vejo no brilho expedito
E no luminoso céu em que acredito
Estejas cintilando estrela sim
Estrela sim, estrela sim
Estrela sim, estrela sim...

– E porque não?!?...


Joaquim Castanho 

6.18.2015

RECORDAR SONHANDO




RECORDAR SONHANDO

É muito caprichosa, a noite... 
Tem mistérios inauditos. 
E em cada luar que acoite
Brilhos pálidos e expeditos. 

Às vezes, sei-o eu – e bem!...
Possui-nos através dum sorriso;
Através do recordar preciso,
Por tanto desejarmos alguém. 

A mim, acontece-me frequentemente... 
E acordo a beijar os ares, além 
De deitar a língua de fora, contente. 
Porque vivi; e vivendo, vivi-te também. 

Joaquim Castanho

6.12.2015

ARTIGO 183



Artigo 183.º

1.      Os deputados eleitos por cada partido ou coligação de partidos podem constituir-se em grupo parlamentar.
2.      Constituem direitos de cada grupo parlamentar:
a)     Participar nas comissões da Assembleia em função do número dos seus membros, indicando os seus representantes nelas;
b)     Ser ouvido na fixação da ordem do dia e interpor recurso para Plenário da ordem do dia fixada;
c)      Provocar, por meio de interpelação ao Governo, a abertura de dois debates em cada sessão legislativa sobre assunto de política geral ou setorial;
d)     Solicitar à Comissão Permanente que promova a convocação da Assembleia;
e)     Requerer a constituição de comissões parlamentares de inquérito;
f)        Exercer iniciativa legislativa;
g)     Apresentar moções de rejeição do programa do Governo;
h)     Apresentar moções de censura ao Governo;
i)        Ser informado, regular e diretamente, pelo Governo, sobre o andamento dos principais assuntos de interesse público.
3.      Cada grupo parlamentar tem direito a dispor de locais de trabalho na sede da Assembleia, bem como de pessoal técnico e administrativo da sua confiança, nos termos que a lei determinar.

APRESENTAÇÃO PÚBLICA DOS CANDIDATOS ÀS PRIMÁRIAS PARA AS LEGISLATIVAS DO LIVRE / TEMPO DE AVANÇAR

Das quatro centenas e piques que compõem o número total de candidatos e candidatas às primárias do LIVRE / TEMPO DE AVANÇAR às eleições legislativas do presente ano, quase metade estiveram, dia 10 deste mês, nas escadarias da Assembleia da República, a dar-se a conhecer entre si aos demais inscritos e eleitores, numa ação conjunta e concertada, harmoniosa e simbólica, comprovando serem um corpo legislativo íntegro, coeso, homogéneo, empenhado, diverso e voluntarioso, que não se coíbe a esforços para avançar no cumprimento da democracia participativa que a nova ordem constitucional implantada na sequência da revolução de abril devolveu ao povo português.

Ali, no Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas, a festa da democracia celebrou a nacionalidade com a simplicidade coreográfica duma foto de família, grande e coesa, multigeracional e diversa, que vai dos 18 aos 84 anos, provando que todos e todas somos de menos para cumprir Portugal, bem como na sociedade portuguesa os imperativos da inclusão e da cidadania são uma mais-valia de registo ativo e exemplar, para prosseguir na construção duma sociedade mais justa, mais equitativa, mais cidadã, mais emancipada, mais responsável, mais sustentável, mais democrática e mais consciente, onde todos os homens e todas as mulheres, todas as crianças e adolescentes, todos os idosos e todas as idosas, todos os credos e todas as culturas, têm lugar e são desejados ou desejadas.

E essa é uma grande diferença que ora se contempla, porquanto deixou de pertencer só ao universo da democracia teórica e passou a pertencer ao universo da democracia prática, quotidiana e mediática.   


Joaquim Castanho

6.11.2015

O PÃO DA MENTIRA



no dia em que li O PÃO
DA MENTIRA, foi um dia assim:
e ainda tinha o livro na mão
e alguém reparou em mim.


Joaquim Castanho

6.08.2015

Quem quiser participar, tem que avançar!

_/|\_ Meus amigos e minhas amigas que residem e estão recenseados/as em Portugal: Eu serei um dos candidatos nas primárias do LIVRE /TEMPO DE AVANÇAR, a decorrer ainda este mês. Mas para votarem é essencial que estejam inscritos... E as inscrições terminam dia 14. É a hora! 


6.01.2015

FALAMOS E ESCREVEMOS PARA DIZER O QUE QUEREMOS




FALAMOS E ESCREVEMOS PARA DIZER AQUILO QUE QUEREMOS E NÃO PARA PARECER BEM OU FAZER BONITO

Quem é belo
é belo aos olhos
 – e basta.
 Mas quem é bom
 é subitamente belo.”
Safo


O estilo simples, directo e conciso, apregoado pela enorme maioria dos escribas da nossa praça, não existe, embora alguns deles almejem convencer-nos de que escrevem com rigor, objetivamente, portanto sem adjectivos nem advérbios, em frases curtas (e rudimentares), isto é, que se submetem ao formato gramatical matricial do sujeito ® predicado ® complementos, e mantêm o linguajar nesse registo. Mas isso é treta, porquanto só o consegue fazer quem fala maquinalmente e não evoluiu na língua depois de ter aprendido a falar, coisa que é absolutamente impossível desde que se repita aquilo que se aprendeu pelo menos uma vez. Quanto muito, podemos é limitar o nosso discurso a um universo vocabular determinado e articulá-lo com um conjunto igualmente limitado de operações, quer físicas, quer linguísticas, para efeitos pedagógicos, para nos fazermos entender por quem ainda não adquiriu outras palavras além das subscritas pelo grupo lexical determinado, nem demais capacidades idiomáticas. Além do que, ao fazê-lo, seria impossível concretizá-lo sem recorrer a formas de expressão já definitas, à expressão corporal consequente e à onomatopeia, o que, si mesmas são outro discurso dentro do discurso. Falar não é papaguear, nem escrever um copy-past estrutural passível de substituição de umas palavras por outras. É comunicar. É tornar acessível a alguns aquilo que apenas era consciência individual.

Ou seja, tal como afirmou Safo de Mitilene, o estilo belo não é aquele que soa bem mas o que comunica eficazmente aquilo que queremos dizer, posto que é isso que o torna útil e bom; logo, belo.

Joaquim Castanho

OS RIOS, de António Nobre





OS RIOS

Os rios têm cantigas de ceifeiras,
Baladas esquisitas e formosas…
Há lá no fundo cristalinas eiras,
Onde bailam crianças vaporosas.

De noite, pelas horas religiosas,
Os rios têm cantigas de ceifeiras,
E ao verem-nos passar dizem as rosas:
… Água que vem de terras estrangeiras!

No entanto, como enormes esqueletos
Cobrem o rio as árvores, Hamletos
Numa postura estática e silente…

E a lua vai boiando à tona da água,
Gémea do amor, dos séculos, da mágoa,
Como Ofélia nas águas da corrente!


ANTÓNIO NOBRE

5.31.2015

AMPLEXO LUMINOSO





AMPLEXO LUMINOSO

É vazio o eco de uma floresta sem pássaros,
Ainda que restolho gretado sob o sol acutilante
Suplique esquisso no horizonte violeta e rosa,
Cheio do silêncio gritante dos sobreiros solitários,
Sob outro estendal de panos templários (da prosa).

E mais que isso, na penumbra do rés-do-chão
A linha de teus gestos que se desprendem
Pouco a pouco, tudo-nada, cabelos desalinhados
Estendidos como um sonho do olhar recorrente
Que, de visto, nos deixa quase embriagados,
Com os braços esticados na procura cega do ser
Elástico, elegante, ágil, felino de ter-te urgente
Verbo preso na caixa da boca, pronto a dizer
Pelos socalcos das sílabas o crescente desejo,
A tua liquidez desmaiada no ocaso; acutilante
Da estrela da alma prestes a rebentar em luz,
Lá no alto onde apenas se chega por ânsia de jus,
Esmagamento absoluto de perpetuar-te em mim
– AaaSSSSSiiiiiiMMMM!!!! – até as veias rebentarem,
Gretarem a frase pelos complementos diretos
Direitos ao verbo eclodir pra esgarrar a casca,
Pô-la porta aberta a soltar brados, sons insurretos
Despertos pelo teu ledo grito a estilhaçar o medo!


J Maria Castanho

OLHAR, de António Nobre





OLHAR
(Fragmento)

Ó grandes olhos outonais, cheios de Azul!
Como nasceste vós neste país do Sul?
Quem vos pintou? Quem foi esse pintor estranho?
Que génio excecional! Que talento tamanho!
Alguém me disse que viu todos os museus,
Mas o que lá não viu foi olhos como os teus…
Nunca vi nada, assim, em toda a natureza.
O pincel que vos criou foi, com toda a certeza,
O mesmo que pintou os raros azulejos;
Vós sois um céu azul cheio de astros e beijos!

ANTÓNIO NOBRE

5.29.2015

O QUE NÓS QUEREMOS




O QUE NÓS QUEREMOS

(…) (…) (…)

“Viver, ser ditosos, ser livres… «eis aqui o que nós queremos».

Gozar o bem-estar físico, assegurado por uma alimentação sã e abundante, boa roupa e uma habitação confortável.

Cultivar a nossa inteligência, desenvolver os nossos conhecimentos, enriquecer o nosso cérebro com novas verdades, regozijar os nossos olhos na contemplação das grandes obras da Arte e da Natureza, deliciar os nossos ouvidos com o encanto das puras harmonias, estudar com espírito independente os problemas da vida, passear livremente a nossa curiosidade através do mundo das realidades e das observações, pensar o que nos inspira a nossa razão ilustrada e confiar à nossa intrépida língua a expressão sincera do pensamento.

«Eis aqui o que nós queremos.»

E queremos também o mais breve possível um meio social favorável ao desenvolvimento integral da personalidade humana, pelo livre exercício das suas forças que em nós se agitam e das paixões que nos movem, pelo desenvolvimento moral das nossas afinidades, pela nobre irradiação das nossas simpatias.

É necessário pedir à vida todas as alegrias que ela contém.”


Excerto do Manifesto editado pela Biblioteca Luz do Povo, no início do século passado, e da autoria de SEBASTIÃO FAURE

5.28.2015

ESTAS MURALHAS TE PERTENCEM




ESTAS MURALHAS TE PERTENCEM


Não posso dar-te as chaves da minha cidade
Porque é livre e de portas abertas, sem idade...
Mas de tanto nomeá-las, a todas as suas ruas
Se tornaram minhas – e que agora, são tuas!


Tuas, por direito e alegria de um Portus Alacer;
Que aos portos só podem chamar-se da alegria
Se forem igualmente pertença daquela, que mulher
Foi também rainha e luz diamantina, no dia-a-dia.


Portanto, se quanto esta terra teve egrégios avós
É meritória do romance que o teu nome encerra,
Das muralhas de D. Dinis os Pedros somos nós
Pedras de afeto seguro que só por ti se esmera,
E cresce dando-lhe o peito como lho dá a Serra.


Que os montes das oliveiras, penhascos e sobreiros
Onde pascem os sonhos floridos das Maias este mês
Sabes, sem dúvida o fazem para serem os primeiros
A cantar-te em saudade, com baladas a Dona Inês!



Joaquim Castanho

5.27.2015

A MÃO AO ASSINAR ESTE PAPEL


 
A MÃO AO ASSINAR ESTE PAPEL
 

 

A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;

cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;

duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;

estes cinco reis levaram a morte a um rei. 

 

A mão soberana chega até um ombro descaído

e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;

uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte

que pôs fim às palavras.

 

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,

e cresceu a fome, e todas as pragas vieram;

maior se torna a mão que estende o seu domínio

sobre o homem por ter escrito um nome.

 

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam

a ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;

há mãos que governam a piedade como outras o céu;

mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.

 

In DYLAN THOMAS

A Mão ao Assinar Este Papel

Trad. De Fernando Guimarães

O ESTILO SOMOS NÓS

 

 

O ESTILO SOMOS NÓS

 
Incontáveis copos de vinho
e Li Bai compõe cem poemas.
Dorme numa taberna, no mercado de Chang’an,
quando o imperador solicita a sua presença.
O poeta recusa a barca do Filho do Céu e diz:
“Que Sua Majestade saiba,
este seu humilde servidor
é o rei dos Bêbedos.”

LI BAI

 


“No Verão de 742, de novo na província de Shandong, Li Bai cumpre o ritual de ir ver o nascer do sol no alto da montanha, exatamente sobre a Taishan, a mais sagrada de todas as montanhas da China. Lá encontra meninas de jade que lhe oferecem de beber em taças de nuvens. Mil duzentos e trinta e nove anos depois, em Outubro de 1981, no mesmo lugar, um português, aos tombos pela China, cumpriria, rigorosamente igual ritual” – afirma António Graça de Abreu, no Prefácio a Poemas de Li Bai, editado pelo Instituto Cultural de Macau, em 1996. Omar Kayyam, outro poeta da nossa intencionalidade, astrónomo e matemático persa, muçulmano, e que viveu entre os anos 1040 e 1122, celebra os prazeres etílicos, em termos quase religiosos, não obstante a proibição do uso de bebidas alcoólicas estipulada no Alcorão, proibição essa a que se deve a descoberta do café, que então foi considerado como substituto do vinho. E fá-lo em termos tais, que esse misticismo ultrapassa o purgatório, como no Rubayyat «um jardim, uma jovem ondulante, a ânfora cheia de vinho, / meu desejo e minha amargura: eis o meu Paraíso e o meu Inferno. / Mas quem percorreu o Céu e o Inferno?», ou naquele outro em que confessa que «jamais desejei o manto do engano. / Mas roubaria por um copo de vinho. / Tenho setenta anos: o meu cabelo é de neve. / Hoje quero ser feliz: amanhã será tarde», onde as noções de tempo e propriedade, de ética e de sociedade, são minimizadas face à impetuosidade da bebida. Inúmeros artistas plásticos, não só andaram aos bordos, como esculpiram ou pintaram sob a inspiração de Baco, onde figuram os nomes de Miguel Angelo, mas igualmente Rubens, Velázquez, Murillo, Le Nain, Jordaens, os mestres flamengos e a quase totalidade dos surrealistas da modernidade. Xenefonte, Tácito, os versos de Homero, Anacreonte, Horácio, Rabelais, Baudelaire e Carducci, ou ainda os escritos geórgicos de Plínio, Columelle e Catão, são inegáveis testemunhas da importância do vinho na História (e nas estórias). Exemplos mais recentes nas literaturas nacionais e universal, como o foram Jack London, Blaise Cendras, Fernando Pessoa, Hemingway, Manuel da Fonseca, Cardoso Pires, que não negaram nunca o valor da bebida como auxiliar de criatividade. Da Antiguidade aos nossos dias, o vinho tem estado sempre na linha da frente das relações sociais e artísticas, impondo-se sobremaneira, senão pelo recurso económico e comercial que é, pelo menos nos efeitos que propicia.

Ao longo dos tempos, dispersando-se por diversas tonalidades, perfis, sabores, graus, divinizado ou satanizado, socializado ou marginalizado, o vinho veio no entanto ganhando foros de imprescindível na caracterização das celebrações (de vitórias desportivas, de colheitas, de negócios, de matrimónios e batizados, de inaugurações e de liturgias), da sabedoria (no reconhecimento da palavra e da honra, da família e da amizade, da integridade dos contratos, da reconciliação entre opositores), do amor (na antecipação e preparação do prazer, na resistência às paixões impulsivas e momentâneas, no afogar das mágoas passionais), do ritual (religioso, guerreiro e de iniciação à maturidade), do tempo que passa (iludindo a solidão, esquecendo as limitações ou eliminação do vazio existencial), de todos os dias (às refeições, aos encontros e nas esperas), da saúde (como analgésico, desinfetante e condimento substancial das mesinhas caseiras) e da morte (para “chorar” ou beber o defunto, esquecer os entes perdidos e comemorar ou homenagear datas épicas e heróis); mas foi sobretudo na sua capacidade de transfigurar o tempo e os modos, que o vinho veio a realizar a maior proeza histórica, que até hoje nos foi concedida: a da igualdade. Aquilo que sempre foi impossível pelas medidas de coesão, pelas políticas e reformas sociais, pelas legislações e Cartas de Direitos, pela luta de classes ou pelas atividades missionárias e evangélicas, conseguiu-o somente a tendência alcoólica dos povos, pondo na mesma mesa ou valeta, tanto os ricos e afortunados, os clérigos e os tropas, os políticos e os vagabundos, os doutores e os analfabetos, os condutores e os peões, os valentes e os fracos, os feios e os lindinhos, como os atléticos e os enfezados: de gatas e, às vezes, na mesma morgue.

Portanto, independentemente daquilo que aconteceu no passado ou do que venha a resultar no futuro, importa hoje escamotear, exorcizar, pensar, as motivações e efeitos dum bem, que se mal usado nos pode desgraçar. Esclarecer as relações de amor/ódio com um produto de tão grande poder sobre nós e os outros, é um passo importante para ganharmos patamares de defesa, como de usufruto do prazer, que nos podem auxiliar no relacionamento com uma substância que tanto nos pode pôr a par dos imperadores, à semelhança do que sucedeu com Li Bai, ao ser solicitado à presença de Sua Majestade, como dos velhos ladrões de Omar. Nos pode emprestar o génio de um premiado com o Nobel, como nos pode atirar para uma cadeira de rodas o resto da vida, entornando-nos o cálice da eternidade no asfalto do sofrimento e dependência. Como nos pode facilitar o dia-a-dia ou torná-lo numa dolorosa ressaca, mais ou menos interrompida conforme a carteira ou disponibilidade temporária.

Porém, sendo uma espécie de corda bamba entre bebedores e abstémios, o equilibrista nem sempre mantém a postura da vara, faça ele o que fizer, porquanto se esgueira demais para os lados da imaculada perfeição que é abdicar de si mesmo em favor da sua teoria de vida. E hoje, superiormente às circunstâncias que estipulam o consumo ou não de bebidas alcoólicas, o que está sobretudo em causa é como cultivar a nossa atitude perante este ou aquele produto, que nos pode ser benéfico e igualmente nocivo, e assim definitivamente possamos aprender a conviver com “alguém” de que nunca seremos capazes de nos separar, embora nos comprometa ou nos teste os limites por dá cá aquela pinga. Principalmente porque, como Li Bai, também nos é possível afirmar das bebidas, sem mágoa, que são essa «água faiscando como seda prateada / [que] transforma a terra num céu sempre igual» e nos permite «agarrar esta noite de luar, / vogar na barca do vinho e procurar as flores.” Essencialmente  porque tudo é possível, se acreditarmos que sim. E o vinho e o tempo, é, pelo modo como se usam (consomem, bebem, fazem, gastam, aproveitam, testemunham, apuram, editam) que ganham a diferença – e a qualidade... Enfim, o seu estilo. E esse, somos sempre nós.

 

Joaquim Castanho      

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português