LETRA H
Hasteada hipótese na humana
Hipotenusa que já em Hipatia
(Farol da “Eduba” de Alexandria)
Tinha hélice e elipse, mas a tirana
Hipocrisia emudece em heresia,
Nem Hipócrates houvera de honrar
Entre hermanos na deontologia
E hediondos hospitais da sangria
Ethica e bosta pestilenta pra sarar,
Ou a fé a fim de queimar e purificar
Quem temesse ou tivesse outro Hades,
O que entendemos por Hoje foi mudo,
Calado sob grilhetas ou hostis grades…
Porém, pra nós, é só o maiúsculo tudo!
Joaquim Maria Castanho
LETRA G
Ginete gaibéu da ordem solar,
Gólgota genital no grande clímax,
Gestor do gozo, do grito e da gesta,
Gigante da gramática e da sintaxe,
Guru da gleba e pigmeu em festa
Nas grafias globais e do bem voar,
Governa os governos com geometria
– Giza planos, estratégias, poesia…
Branco garimpeiro na argila chã
Gorou egoísmos a gatunos e golpistas,
E iniciou no negro céu a alva lã
Que gerou os letrados e os artistas;
Que tudo isso é, quem com giz giza,
Chame-se Geraldo, Babel ou Luísa!
Joaquim Maria Castanho
LETRA F
Fazer isto e aquilo, fisgar, fintar
A fome, a fadiga, o fingimento,
É afã que nos ajuda a durar
Além do destinado duramento.
Afagar ficções felizes, e dourar
Fenómenos fugazes, sabimento
Dos outroras, mas que se fez secular,
É afazer – afoitado entendimento.
Que os feitores das almas humanas
Não fomentam famas sem fundamento;
Nem se perdem por fulanos e fulanas
Que fulanizam só por fobia vã…
Fitam frontais invejas insanas
E fazem, e criam, e preparam o amanhã!
Joaquim Maria Castanho
LETRA E
Ébrio que nem um sonho fugitivo
Dum vendaval de estrelas insanas,
O sol, que foi rainha do primitivo
Homem, é ora réstia de semanas.
O esplendor, pede-o emprestado.
O calor, vai de oito a oitenta.
Sorriso? Esse, só se for imitado
Pelo teu, quando me acalenta.
Ele (que é Ela), tudo cria assim;
Tudo inventa, alimenta em ser
– Energia, luz, voo de Fénix e Querubim –,
É círculo perfeito, ciclo de dizer
A vida, também em ti aprendido
E imitado… mês a mês repetido.
Joaquim Maria Castanho
LETRA D
Depois do depois, dito agora
Despe-se devagar-devagarinho
Uma árvore que o vento aflora,
E sem demora acata teu jeitinho
De sol, luz em pétalas aspergida
A brilhar em si bemol, pró hino
Que soa se entoa a própria vida.
Diz que lançou raízes no destino.
Diz que deve quanto é A Deus.
À desdita, porém, nega o caminho
Feito à imagem dos passos teus.
E diz-me a mim, que somente digo
Para dizer quanto te quero bem,
Que, se puder seguir no vento, sigo
Pra tocar-te, mal ele te aflore também.
Joaquim Maria Castanho
LETRA C
Circe transformava homens em porcos;
Colette deu-lhes ainda menos valor.
Camões atirou-os prà Ilha em barcos
Reféns, que não viram no mar esplendor.
Muitos somente queriam escapar;
Outros, ter a segurança terrena.
Mal sabiam eles que o infindo mar
Faria da Terra uma, por pequena!
Triste triunvirato este nosso
(Sorte, Oportunidade e Acaso)
Que dá aos seres “o que só eu posso”
Dos monstros, e de Deus o desembaraço;
Mais o poder de salto do cavalo
Que faz espesso o que é parco e ralo.
Joaquim Maria Castanho
LETRA B
Já bailam pla natureza da hora
Os bêbados segundos da espera,
Que quem fica também se vai embora
E, colado ao outro lado, degenera;
À segunda versão de si proposta,
Opção e contraste, conforme se aposta
E da face negra a luz recupera.
Silencio que diz ou fala que cala,
Que quem é feliz num ai se exala
Mal se descuide ante o querer bem,
Que seguido ao nome toda flor tem
A pérola que Hamlet nunca bebeu
– Tendo-a bebido apenas sua mãe…
Logo, ele ficou; porém, ela morreu!
Joaquim Maria Castanho
LETRA A
Abrevio a sede, abrevio o nome
Se no vaivém do mar oscila rede,
Esperança balança, se consome
Por duas sílabas apenas duas
Não mais, e por letras outras tantas,
Repetindo-se a primeira no fim
Incluindo bem no meio três ruas,
Subindo ou descendo por quantas
Vogais repetidas tenho em mim.
Se fosse fruto eram triplicadas…
Porém, como cor, bisam simplesmente;
Tal e qual no teu nome espalhadas.
Do alfabeto é a porta da frente.
E começo do sentir maior na gente!
Joaquim Maria Castanho
OUVIR A LUZ
Inebriado pla sede e sofreguidão
Osculo cada pétala do instante;
Sonho que também tivera por tua mão
A razão de ser plena e circunstante.
A ela deve a fruta o ser doce e sã.
A ela deve o pão seu mister sagrado.
E por ela o sol nasce em cada manhã
Quente, reconfortante e “iluminado”.
Tem no brilho mesma forma de sorrir
Que tu tens quando o fazes (natural);
Mas se fala… Então, é luz de ouvir
Sem sofismas nem fintas pra iludir…
Só simples, clara e sem outra igual
– No passado, no presente e no porvir!
Joaquim Maria Castanho
ACORDO PRA SENTIR
Discreta, serena, contagiante
Sobre este caminho nítida voz
Abre veredas, a todo o instante,
Que repetem aquelas versões de nós
Com que costuramos o ser (sem retrós).
São veredas de arar na alma aberta
Com sílaba corrente prà lucidez,
Que, se transparente, anseio conserta
Sem pecúlio no contar «Era uma vez»,
Tido por definitivo – coisa certa.
Porque eu escuto-te SEMPRE e ainda
Bem depois de ter falado contigo,
E sinto que esse falar nunca finda
Mesmo se plo olhar reitero e digo
Que sentir é uma voz que nos desperta.
Joaquim Maria Castanho
LADEIRAS INTERIORES
Já solta e suave coroa ardente
Onda encrespada tubular, arco
Sístole do verbo que diz a parte
Como todo, silente te abarco
E, suspenso, em ti me reparto
Ósculo após ósculo se acarto
Dos olhos o magma intencional…
És o meu segredo que toda gente
Conhece; todos sabem que existes.
Do ar circundante a flor ambiente
(Corola e cálice em que consistes)
Por cujo aroma a pétala insiste
Segar dos sonhos o que seja triste
– Como o ímpar das estrelas do plural.
Tenho-te presa dentro do meu grito
A viajar entre o ocaso e infinito
Pelas ladeiras da luz interior;
Tão intensa, genuína, que acredito
Que és da sílaba a pérola em flor.
E mais que voz de «Bom dia» ocasional
És ainda o sol veloz, se me permito
Senti-lo puro, bendito, e normal.
Joaquim Maria Castanho
A MAGIA DA SURPRESA
A fada que me enternece
Desaparece ou aparece,
E enquanto Musa tece
Sempre essoutra dimensão
Com que o sol às almas aquece
Quer no inverno como verão…
Faz a magia parecer real,
Porém, com um encanto tal
Que a realidade é ideal
Mas sem a sombra da ilusão,
Que traz às vezes o bem e o mal
Se se instala no coração.
Das Musas que pela vida há
Só ela tem o dom perfeito,
De ao vê-la, saber que está
Também dentro do meu peito.
Joaquim Maria Castanho
ALCANÇAR AS ESTRELAS
Às portas do céu, a cavaleira
Celeste, tão celta como moura,
Interrogou a luz vindoura
E, após curveta, foi certeira
Flecha, raio divino, maneira
Que Olimpo tem de falar às gentes
Humanas, soberanas, que do sonho
Guardam cetro, cálice e lanho
Entre auroras e ocasos fulgentes,
Tendo-lhe respondido (sem voz):
«És a glória sagrada que há em nós,
Que nascemos da chama primordial
Múltiplas, aspersões sobre bem e mal.»
Seus cabelos escorreitos e lisos
De seda quase chumbo nacarado
Em camadas descaídos, precisos
Oscilam plo voo ao azul estrelado,
E aí brilham feéricos inocentes.
Osculo-os de pronto, mentalmente
– Fiel devoção às fadas supremas… –,
E tão inebriado e obediente
O faço, que brotam flores serenas
A dançar a compasso, e balanço,
Que também eu às estrelas alcanço!
Joaquim Maria Castanho
A NOVA DEMANDA
Contundente como um adjetivo
O advérbio de modo disparou
À desfilada, o freio nos dentes
Brida arrastando chão na planície
Oh sorraia, baio torrado dos sonhos
Crina esvoaçando sul desnorteado
Entre estevas, giestas e alecrins.
Sobre sela de cetim e pele de anho
Traz Viviane o cálice da fertilidade
Senhora das chuvas e das nascentes
Rios e lagos, e das flores sem idade
Caem vertigens das pétalas no clímax
Se Excalibur em suas mãos chispa o sol.
Seus raios são capazes de segar a dor.
Seu ventre explode ao balanço do salto.
Seu olhar emite nova demanda do amor.
Joaquim Maria Castanho
O APÊNDICE SOCIAL
Não há Verdade mas verdades
Que a mentira pode corromper,
Desde qu’ela saiba o que sabes
Embora que não o saibas dizer.
Viver é algo em que cabes
Sem precisar de te encolher,
Mas esticam-te em partes ardes
Ou dão-te infernos pra viver.
«A escolha foi tua», informam
Como se nascesses criado,
Sublinhando o que contornam
Aind’assim não mudes de lado;
Desistas de ver-te torcido
E exijas o que te é devido!
Joaquim Maria Castanho