10.27.2016

A MAGIA DA SURPRESA




A MAGIA DA SURPRESA 


A fada que me enternece 
Desaparece ou aparece, 
E enquanto Musa tece
Sempre essoutra dimensão 
Com que o sol às almas aquece
Quer no inverno como verão… 

Faz a magia parecer real, 
Porém, com um encanto tal
Que a realidade é ideal 
Mas sem a sombra da ilusão, 
Que traz às vezes o bem e o mal
Se se instala no coração. 

Das Musas que pela vida há
Só ela tem o dom perfeito, 
De ao vê-la, saber que está
Também dentro do meu peito.  

Joaquim Maria Castanho

10.26.2016

ALCANÇAR AS ESTRELAS




ALCANÇAR AS ESTRELAS 

Às portas do céu, a cavaleira
Celeste, tão celta como moura, 
Interrogou a luz vindoura
E, após curveta, foi certeira 
Flecha, raio divino, maneira 
Que Olimpo tem de falar às gentes
Humanas, soberanas, que do sonho
Guardam cetro, cálice e lanho
Entre auroras e ocasos fulgentes, 
Tendo-lhe respondido (sem voz): 
«És a glória sagrada que há em nós, 
Que nascemos da chama primordial
Múltiplas, aspersões sobre bem e mal.» 

Seus cabelos escorreitos e lisos
De seda quase chumbo nacarado
Em camadas descaídos, precisos
Oscilam plo voo ao azul estrelado, 
E aí brilham feéricos inocentes. 

Osculo-os de pronto, mentalmente 
– Fiel devoção às fadas supremas… –,
E tão inebriado e obediente 
O faço, que brotam flores serenas
A dançar a compasso, e balanço, 
Que também eu às estrelas alcanço! 

Joaquim Maria Castanho     

10.25.2016

A NOVA DEMANDA




A NOVA DEMANDA 

Contundente como um adjetivo 
O advérbio de modo disparou 
À desfilada, o freio nos dentes
Brida arrastando chão na planície
Oh sorraia, baio torrado dos sonhos  
Crina esvoaçando sul desnorteado
Entre estevas, giestas e alecrins. 

Sobre sela de cetim e pele de anho
Traz Viviane o cálice da fertilidade
Senhora das chuvas e das nascentes
Rios e lagos, e das flores sem idade
Caem vertigens das pétalas no clímax  
Se Excalibur em suas mãos chispa o sol. 

Seus raios são capazes de segar a dor. 
Seu ventre explode ao balanço do salto.
Seu olhar emite nova demanda do amor. 

Joaquim Maria Castanho

10.23.2016

O APÊNDICE SOCIAL




O APÊNDICE SOCIAL

Não há Verdade mas verdades
Que a mentira pode corromper, 
Desde qu’ela saiba o que sabes
Embora que não o saibas dizer. 
Viver é algo em que cabes
Sem precisar de te encolher, 
Mas esticam-te em partes ardes
Ou dão-te infernos pra viver. 
«A escolha foi tua», informam
Como se nascesses criado,
Sublinhando o que contornam
Aind’assim não mudes de lado; 
Desistas de ver-te torcido
E exijas o que te é devido!

Joaquim Maria Castanho    

10.22.2016

OS SEXISMOS E A PRECARIEDADE




OS SEXISMOS E A PRECARIEDADE 


Abrem-se as espinhas da penumbra, 
Arrepia-se pela sombra este sol,
Que o ser inventa o que o deslumbra
E amassa no chão, se fica mole. 
Os contingentes nebulosos passam, 
O céu é só cinza alvoraçada, 
Sem o mínimo azul que o console
Da fé e esperança atraiçoada. 
À humana estirpe já compete
Reimplantar o advento que repete
As inquisições; e as bruxas assam
Ante as fleumas dos falatórios, 
Qu’os sonhos só vingam se corroboram 
Outros – ainda que contraditórios! 

Joaquim Maria Castanho 

10.21.2016

O EROTISMO DAS RIMAS




O EROTISMO DAS RIMAS 

Intransigente como uma haste
À beira-caminho o olhar fustiga
Acarreta sombras, dispara verbos
Desfolha papoilas, e a espiga
Invade a curva que atropelaste; 
Veste de nuvens o céu profícuo
Adorna nos silos entre sementes
Desmaia como faminto bêbado. 

Dos sonhos sobraram as raridades
Também alguns acordes encantados
Pequenos gestos nunca esquecidos 
Ou o adocicado odor das maçãs
Maduras folhas amarelas levitam
Sobre o piso de caruma moída…

Porém, em equilíbrio precário
E frugal, versos estabelecidos 
Dizem que só ficarão corrompidos
Por rimas despidas de calendário. 

Joaquim Maria Castanho

10.20.2016

OLHAR VAZIO




OLHAR VAZIO 

Por me arrastar pelas horas
Deste dia assaz corroído, 
No plangente chiar de noras
A tirar dor do tempo tido, 
É que o sol, em febre, dolente
Raios macilentos, chorosos
Anda nas sombras desta gente
A pisar fungos ou remorsos
(Líquenes sociais venenosos) 
Pra destilar em aguardente
Fogo, desespero stressado 
De quem está aqui por falta de lado. 

Sou a mágoa fria, preconceito; 
Detenho na lápide do dia
A faca da frieza que mata; 
O silêncio que a mudez retrata; 
O (in)conformado trejeito 
De quem olha dentro da poesia
E não se vê como antes via!  

Joaquim Maria Castanho 

10.19.2016

O ANALISTA DE PORMENORES




O ANALISTA DE PORMENORES

De cada instante, o próprio instante; 
Cada pormenor, o exíguo pormenor. 
E do mais da vida, o que encante
Dessa magia que também é flor,
Feitinha toda ela de sentimento
Como se fosse pétala, momento 
Do instante, e do segredo sem fim
Que escreve os dias e horas em mim: 

Ápice, Casa Nova da perfeição 
No eito do tiquetaque redutor,
Onde até plo ritmo do coração 
S’escuta sentido ecoar do … 




… sol-pôr! 


Joaquim Maria Castanho 

10.18.2016

FAZER O DESTINO FAZ-NOS




FAZER O DESTINO FAZ-NNOS 

O destino é imparcial 
Nas determinações que tem,
E às vezes até acha mal 
Aquilo que é nosso bem. 
Porque quer decidir por nós
Sem nos perguntar em nada, 
El'encontra-nos sempre sós
Na multidão da estrada... 
Bem no meio do caminho
Como se pedra aguçada, 
Que nos leva direitinho
À cova por nós cavada. 

Que o destino é banal, 
Não quer saber de ninguém; 
Tem por seu bem o nosso mal
Real, ou temido, também.  

Joaquim Maria Castanho 

10.17.2016

SÍNCRISE




SÍNCRISE 

Reposto o breve expressivo
Grito ao infinito distante, 
O passivo «Ai!!» se faz ativo
E eu vivo, só pró instante
Único, pleno, em que te ouço
Vejo, no também ser, se posso
Assim aberto e transparente; 
Assim, de certo, e perto, ente… 

Que sem ti os dias são noites
E as noites tão-só escuridão; 
Já farol que à luz acoites
Brotas em sins de qualquer não! 

Joaquim Maria Castanho 

10.16.2016

ASSÉDIO MORAL




ASSÉDIO MORAL 

O assédio moral existe
Com o fito de desmoralizar; 
E só o pratica quem persiste
Em diminuir e apoucar. 
Quem critica afetos, relações, 
Pondo em causa aos demais; 
Ou duvidando das intenções
Dos que vê como desiguais.

O assédio moral existe
Nas empresas, nas repartições, 
Supermercados, hospitais; 
Nas famílias e religiões; 
Nas câmaras municipais, 
Nos cafés; em tais dimensões, 
Que até plas redes sociais.   

O assédio moral existe, 
Digam o que disserem, agora… 
Se do lobo pele vestiste
Torna-se tua sem demora!

Joaquim Maria Castanho  

10.15.2016

POEMA DA NÃO-POESIA




POEMA DA NÃO-POESIA

Nem todos os versos são poemas, 
Sequer convocam qualquer voz, 
Pois muitos há que o são apenas
Pelo tato ou conforme o olhar,
Ou partilhar, caso estejamos sós,
Dizendo-se eles, doutra maneira, 
Segundo o balanço de uma rede, 
No invocar "daquela" nossa sede, 
Ou pelo conforto de uma esteira...  

Há poemas que nunca o foram
E que também nunca o serão; 
Mas aceitamo-los se decoram
Nossos gestos, sentires, intenção.

Joaquim Maria Castanho 

10.14.2016

DILEMA TROIANO




DILEMA TROIANO  

Com o coração agitado
Plo anseio te prevejo; 
E vendo, fico ansiado
Desejando mais que ver, 
Tentando tanto esconder
Este espinho cravado 
No cimo profundo do ser... 
Que busco ora o outro lado, 
Ora este, do meu dizer: 
Um, é saudade de ti; 
Outro, nasce mal te vejo. 
Se poema, conta o que vi; 
Se calo, diz que desejo. 

Joaquim Maria Castanho 

10.13.2016

PÉTALA SUBLIME




PÉTALA SUBLIME 

A tristeza semeia silêncios 
No mesmo chão da felicidade, 
Só que a primeira germina e singra
E a última se perde nas discórdias, 
Nas diferenças semânticas e dialectais… 

Tenho hastes de tua voz implantadas
Na alma dos afetos distintos; 
Germinaste nela, agora és flor:
Pétalas e canto de jograis. 

Joaquim Maria Castanho

10.12.2016

LIVRINHO DE POEMAS




LIVRINHO DE POEMAS 

Tenho amor pequenino
Pra me caber no coração, 
Quase ode, doce hino,
Sob a batuta do condão;
Da magia e do encanto, 
Que cresce do dia a dia, 
Que aquece como manto.
Amarra feras, destino; 
Apaga soluços (d’ontem). 
– Ó meu amor pequenino
Sorri, sorri sem que notem
O sorrir da poesia fonte. 

Tenho o amor numa linha
De apontar com o dedo, 
Onde a sílaba faz esquina
Com a oração do segredo.
Trabalha na secretaria
Dum parágrafo aberto, 
A mostrar ao mundo poesia
Com um sorriso de magia, 
Num ritmo de ponto certo. 

Joaquim Maria Castanho 

10.11.2016

ACTO DE PREFERIR DE FACTO




ATO DE PREFERIR DE FATO

Hoje preferia minhas as tuas dores
Neste momento, incómodo, magoado
Preso à ansiedade das rubras cores
Com que o ocaso pinta o azul cerrado
No Éden das roseiras, mas sem flores
Espinhos só quase, lida, cuidado;
Dias que rasgam dias, frios e calores… 
Ânimo por desânimos alquebrado. 

E tê-las-ia mui reconhecido, grato
Alegre e em “feliz contentamento”, 
Se assim te devolvesse bem de fato
O sorriso, âmbar, néctar, sustento 
Com que alimento a alma apaixonada
Por uma estrela – misto de mulher e fada. 

Joaquim Maria Castanho 

10.09.2016

SUBLIMAÇÃO POÉTICA




SUBLIMAÇÃO POÉTICA 

Refugio-me no trabalho
Tão-só pra te não procurar, 
Fazendo do criar atalho
Para a senda do esperar; 
E escondendo-me de mim
No sonho que oculta sonhar
Terei melhor sonho, enfim, 
Entretecido e desejado
Calando o sonho que tiver… 

Que sentir que ninguém disser
Não pode ser contrariado, 
Ainda que ponha a mulher
Bem no centro do pecado. 

Joaquim Maria Castanho

10.08.2016

A ALMA DOS POEMAS




A ALM :) DOS POEMAS

Sem a tua voz não me digo… 
Sem teu «Bom dia», tudo corre mal; 
A jornada é um perigo, 
E escrever, um ato formal. 
E os versos soam ocos
Com sílabas marteladas, 
Ond’os sentidos são poucos
Em estrofes derrotadas.

Então, invento que fazer
Só pra passar perto de ti… 
E eis que no amanhecer
O “sol” brilha: o dia sorri. 

Joaquim Maria Castanho 

10.06.2016

SEGREDO DE ALMA




SEGREDO DE ALMA


Queria fazer um poema
Que te merecesse… 
Que dissesse o teu rosto
– E teu rosto fosse. 
Que dissesse os teus olhos 
– E teus olhos fosse. 
Que dissesse as tuas faces
– E tuas faces fosse. 
Que dissesse teus lábios
– E teus lábios fosse. 
Que dissesse a tua fronte 
– E tua fronte fosse. 
Que dissesse teu cabelo
– E rabo-de-cavalo fosse.
Em que se ouvisse meu coração bater
E que não só de palavras fosse, 
Mas fosse o sangue a dizer.
– A correr ao leme do tema
Que nenhum poema
Consegue ser. 

Queria fazer um poema
Como se não fosse humano
– Que nascesse dos dias
E assim fosse todo o ano; 
Que não tivesse versos
Métrica, nem tons submersos,
Mas as texturas macias
Como só tua pele tem
Quando o vê-la vai além
Do sublime das poesias. 

Queria fazer um poema
Que me fosse alma pequena
Em sílabas que só tu lias. 

Joaquim Maria Castanho

10.05.2016

DISCUSSÃO SOBRE O DISCUTÍVEL




DISCUSSÃO SOBRE O DISCUTÍVEL 

É bonita, sim, é bonita, 
Disso não há como duvidar, 
Se sua trança bem catita
Me oscila e dança no olhar. 

Tem o segredo da certeza; 
Tem a certeza de meu afeto.
E só discutimos a beleza 
Porque não acredita no certo. 

Ou não repara no visível, 
Incontornável aos sentidos, 
Como se ainda fosse possível
Desmentir meus desmentidos.

É bonita, sim, é bonita, 
Maravilhosa nas feições, 
Despachada e expedita 
Em quaisquer ocasiões. 

É bonita, sim, é bonita; 
Disso não restam suspeições. 

Joaquim Maria Castanho     

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português