2.23.2016

RAZÃO SOLAR





RAZÃO SOLAR

Balança-me a saudade
Sobre estas águas e luz,
Prò resto da eternidade
Que o teu olhar traduz.

Seu fulgor tem a mansidão
Dos socalcos que desceu, 
Como ouro a dourar razão
Na razão co Douro lhe deu. 

Joaquim Castanho

2.22.2016

NO SILÊNCIO A VOZ




NO SILÊNCIO A VOZ 

Sou sinal de porta aberta
Dum futuro que já me disse,
No escuro da rota incerta
Pra que teu peito se abrisse. 

E se me cruzo com o teu olhar
Num impulso respiro o mar
A que o rio me deitou um dia... 

Mas nesse querer que é esperar,
Com que se é porto ou lugar,
A luz me faz foz por magia!

Joaquim Castanho 

2.21.2016

CORRENTE DE APORTAR




CORRENTE DE APORTAR

Meus dias já foram pardos
Tão sem norte, tão sem brilho
Quas'enseada de cardos, 
Da morte me senti filho. 
Voguei em mar cavado, 
Por mar chão adornei sentir, 
Entre margens fui meu lado
Vaga a descer, onda a subir. 

E desse céu que espelhei
Quantas vezes bem agreste, 
Aportei rabelo sem lei
Só plo néctar que me deste. 

Joaquim Castanho

2.11.2016

TUDO NA ROSA É REGRA E NORMA




TUDO NA ROSA É REGRA E NORMA

Minha regra é norma aberta
Escrita na ordem vigente, 
Qu'é onde a lei me desperta
Positiva e naturalmente... 
Suas pétalas de mel em flor, 
Sorriso de pepita dourada, 
Incrustada na alma sem dor 
Ao ser pla brisa desfolhada.

Se tem espinhos, eu não o sei; 
Se quer infinitos, não mo diz. 
Amar o próximo é ser a lei –  
Poder d' inspirá-la sem ser juiz.        

Joaquim Castanho

2.08.2016

FÉ




FÉ 

A impertinente Felicidade, que ainda é jovem mas se não chama também Maria, estava, num dia assim, exatamente como hoje, fazendo nada, com todo o cuidado e esmero, que é coisa mais difícil de fazer do que qualquer outra que se conheça, quer por experiência tida, como contada, exceto esquecer, pois que para isso, se exige muita perícia na escolha e abnegação na armazenagem, caso contrário, a gente fica a esquecer aquilo que quer recordar e a lembrar tudo quanto importa esquecer.

E do nada surgiu uma flor. E depois um rosto, que embora de corpo oculto, já se lhe podia vislumbrar o espetro das mãos. Precisamente como se fosse um sol incrustado no horizonte da tarde ou uma lua pendurada da noite, suspensa por invisíveis e misteriosos fios (da trama suspeita e, às vezes, até tenebrosa, dos sonhos, que são sempre desconhecidos por nós nela, como pelos efeitos de ressaca com que desassossegam os espíritos, os corpos e as culturas, a que à imaginação e fantasia não têm muita afeição). 

Creio que era um lírio, uma açucena... 

Ante a brisa estremeceu breve. Pulsou num esgar sob as gotículas do nevoeiro vespertino, sorriu para o nada da menina que, encantada com o tamanho prodígio desse nada que lhe foi tudo, suspirou profundo, estremunhada, e cochichou  murmurando para consigo mesma: «Nestes momentos, coisa nenhuma do que me parece é; e, contudo, sem eles nunca serei.» 

Felicidade, quis eu chamar-lhe. Porém, ela metera os pés ao caminho...e, quando finalmente, proferi a primeira sílaba do seu no nome, ela já ia demasiado longe para me ouvir. 

Joaquim Castanho 

2.05.2016

POR QUE AMANHÃ É SÁBADO




POR QUE AMANHÃ É SÁBADO


Em Uruk, na eduba do templo a Inanna, foi encontrada nos princípios do século passado, entre os algures do tempo, do modo e do lugar, um cofre, uma caixa guarnecida a ouro e prata, com pedras preciosas incrustadas, dentro da qual estavam seis tabuinhas, que se supõe terem sido consideradas sagradas pelas vestais. 

Na primeira, estava vincado, cunhado, escrito, assim: «a cada qual o mesmo que aos seus pares». Na segunda dizia que «a cada um segundo os seus méritos». Na terceira, que «a cada qual conforme as suas obras». Na quarta «a cada um na estrita observância de suas necessidades». A quinta afirmava que «a cada qual de acordo com o que lhe é devido por lei». E a sexta, concluía, que «a cada um consoante a sua posição, responsabilidade e obrigações». Porém, depois desta, havia uma prateleirinha idêntica àquelas onde repousavam as citadas tabuinhas, mas vazia. 

Os estudiosos, arqueólogos, antropólogos e historiadores, conjeturaram ter havido nesta uma sétima tabuinha; e, não obstante, a sua azáfama e acuidada busca, o que é certo, é que não encontraram mais nenhuma, fosse onde fosse, nas ruínas da eduba, nem na nas de sua proximidade. Alguns alvitraram que essa lacuna se devia a alguém a ter retirado, talvez para ministrar culto ou ter presente nos rituais sagrados, não voltando a depositá-la no lugar, por qualquer incidente ou contrariedade ocorrida. 

Terão a sua razão... Talvez. Desconheço-o em absoluto. 
Todavia, creio que nunca lá esteve. Que a sua falta é mais significativa do que a sua presença. Que ela seria um separador... Que ela devia ser o sábado de culto, o sétimo dia, a folga da eduba e do templo. Enfim, que ela era a pausa de reflexão para a consciencialização cívica feita durante os seis dias anteriores. Até porque desconfio que foram elas, essas vestais de Inanna, que instituíram os dias da semana de acordo com o seu sistema hexagonal, e que desde então continuam a ser seis mais um, o separador, não obstante se ter adotado o sistema decimal desde os últimos milénios da nossa civilização. 

E, porque hoje é sexta-feira, vou apenas chamar-lhe amanhã. Não só por ser sábado, mas também porque ainda não foi escrita, e talvez exista alguém no futuro, alguém com nobreza de caráter e de coração ou inteligência suficiente para a escrever. Quem sabe!  

Joaquim Castanho 

2.04.2016

Legisladores e filósofos





"Aos legisladores cabe a missão de, em correspondência com os desejos da comunidade de que são representantes (e pela qual serão também responsáveis), elaborar leis justas, e aos juízes de as aplicarem com espírito de igualdade; aos filósofos, porém, cabe a de serem porta-vozes e defensores dos valores universais, logo, válidos para toda a humanidade." 
KK

1.31.2016

A democracia deve a sua vida ao saber como fazer

Uma sugestão de leitura para este domingo conjugável apenas no assim-assim do tempo... 




"A democracia deve a sua vida ao saber como fazer." 
in KURT VONNEGUT, Jr
UTOPIA 14
Trad. Eurico da Fonseca 
(Página 11)

1.13.2016

KIRCHMAN




"Três palavras de correção do legislador e bibliotecas inteiras transformam-se em papel de embrulho." 

KIRCHMANN

FRANZA JERUSALEM



"A sociologia é o direito natural da nossa época."

FRANZ JERUSALEM


HANS KELSEN



"Se a história do conhecimento humano nos pode ensinar alguma coisa, é a inutilidade do esforço no sentido de encontrar por via racional uma norma absolutamente válida do comportamento justo, uma norma que exclua a possibilidade de também se haver como justo o comportamento inverso." 

HANS KELSEN
(Ilustração: Princesas da Disney)

12.22.2015

PASCAL




"Quase nada há de justo ou injusto que não mude com a mudança de clima. Três graus de altura polar revolucionam toda a jurisprudência. Um meridiano decide sobre a verdade. Após alguns anos de posse, alteram-se as leis fundamentais. O Direito tem as suas épocas. Divertida justiça esta que um rio ou uma montanha baliza. Uma verdade aquém, erro além Pirinéus." 

PASCAL

J Maria Castanho dixit


"Não há nada melhor do que a ignorância para a pessoa se convencer de que sabe tudo."
J Maria Castanho

LEGES HENRICI PRIMI




O pacto vence a lei e o amor o julgamento
(Pactum legem vincit et amor iudicium)
in LEGES HENRICI PRIMI

11.30.2015

PANORAMA HISTÓRICO DA CULTURA JURÍDICA EUROPEIA




"O trabalho de recuperação dos sentidos originais é, como se vê, penoso. O sentido superficial tem que ser afastado para deixar lugar às camadas sucessivas de sentidos subjacentes. Como na arqueologia, a escavação do texto tem que progredir por camadas. Os achados de cada uma delas têm que fazer sentido a esse nível. O modo como eles foram posteriormente recuperados pode ser objeto de descrição; mas isso é uma outra história – a história da tradição.

A cada nível, portanto, o esforço é o de recuperar a estranheza, não a familiaridade, do que é dito; o de evitar deixar-se levar por leituras pacíficas; o de ler e reler, pondo-se porquês a cada palavra, a cada conceito, a cada proposição, a cada «evidência» e procurando a resposta, não na nossa lógica, mas na lógica do texto. Até que o implícito deste se tenha tornado explícito e possa ser objeto de descrição. Nessa altura, o banal carrega-se de sentidos novos inesperados. O passado, na sua escandalosa diversidade, é reencontrado." 

in ANTÓNIO M. HESPANHA
Panorama Histórico da Cultura Jurídica Europeia
Publicações Europa-América
(Pág. 48)

11.25.2015

VIVER É PARTILHAR por PAUL ÉLOUARD






(...) 

Viver é partilhar odeio a solidão
A grilheta da morte quer-me reter ainda
Já não beijo ninguém como beijava dantes
O pão era sinal de ser feliz
O bom pão que nos torna mais quente o nosso beijo

Como abrigo possível só há o mundo inteiro
Pra mim viver é hoje responder aos enigmas
É renegar a dor que é cega de nascença
E sempre em pura perda estrela sem qualquer brilho
Viver perde-se para reencontrar os homens

Que a palidez do rio encubra a do arroio
Que olhos de maravilha vejam tudo em seu lugar
A miséria acabada e os olhares lavados
Uma ordem crescendo do grão à flor à árvore
Andaimes vivos a sustentar o mundo

A criança a renascer em cada homem e rindo.

in PAUL ÉLUARD
Poemas Políticos
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Pág. 41)

AOS MEUS CAMARADAS TIPÓGRAFOS por PAUL ÉLUARD




AOS MEUS CAMARADAS TIPÓGRAFOS

Tínhamos o mesmo ofício
Que ajudava a ver na noite
Ver é compreender e agir
É ser ou desaparecer. 

Era precioso acreditar preciso
Crer que está nos homens o poder
De ser livre e de ser melhor
Que o destino que lhe foi imposto

E nós esperávamos a grande primavera
E nós esperávamos uma vida perfeita
E que a claridade se decida
A carregar todo o peso do mundo.

in PAUL ÉLUARD
Poemas Políticos
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Pág. 45)

11.15.2015

IRMÃS DA ESPERANÇA por PAUL ÉLUARD




IRMÃS DA ESPERANÇA 

Irmãs da esperança ó mulheres corajosas
Que contra a morte tendes feito um pacto
O de unir as virtudes do amor

Irmãs sobreviventes
Que jogais a vossa vida
Pra que a vida triunfe

Aproxima-se o dia ó irmãs da grandeza
Para rir das palavras guerra dor e miséria

Cada rosto terá seu direito à carícia. 

POEMAS POLÍTICOS
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Pág. 74)

DIÁLOGO de Paul Éluard




DIÁLOGO

Belo invento coberto de vergonha
Memória de ouro enrolada no chumbo
Amor glorioso posto fora do leito
Natureza nobre manchada por anões

VINDE VER O SANGUE NAS RUAS

Somos muitos a recusar
Que seja o sol uma faca
Que seja o mar um veneno
Somos muitos a querer viver

NADA NEM MESMO A VITÓRIA
ENCHERÁ O TERRÍVEL VAZIO DO SANGUE: 
NADA, NEM O MAR, NEM OS PASSOS
DO SAIBRO E DO TEMPO
NEM O GERÂNIO ARDENDO
POR SOBRE A SEPULTURA. 

Muitos de nós perderam a vida
Na esperança de um mundo melhor
Inocentes seguros dos seus direitos
Eu lhes sorrio e me sorriem

UM ROSTO DE OLHOS MORTOS VIGIA AS TREVAS
SUA ESPADA ESTÁ CHEIA DE ESPERANÇAS TERRESTRES

Gravidade de sentidos e sexo
Veleiro da matéria subtil
E nós somos uma só ramagem
Folhas e frutos para servir a árvore

Por único exercício a bondade
Por única manobra a razão
Com centenas e milhares de aves
Levadas de planeta em planeta

FILHOS DILETOS DA VITÓRIA, TANTAS VEZES CAÍDOS, 
DE MÃOS TANTAS VEZES SUPRIMIDAS

Sempre a palavra meu coração confio
Imagens das imagens a manhã que desperta
Mas que já despertou pois que falamos dela
O sonho sol da noite tem a força de sempre

Ó MÃES ATRAVESSADAS PELA ANGÚSTIA DA MORTE
VEDE A ALMA DO DIA NOBRE QUE VAI NASCER
SABEI QUE VOSSOS MORTOS VOS SORRIEM DA TERRA
SEUS PUNHOS LEVANTADOS TREMULAM SOBRE O TRIGO

Vou fazer florir o redondo carmim
Do céu por sobre a terra e do seu dominar

Ódio é nada amor escreve-se duplo
Se um enfraquece descolaram os dois

VI COM OS OLHOS QUE TENHO, COM ESTA ALMA QUE OLHA, 
VI CHEGAR OS CLAROS COMBATENTES, OS COMBATENTES QUE DOMINAM 
DA ESBELTA, DURA, AMADURECIDA, DA ARDENTE BRIGADA DA PEDRA. 

Que a coragem mais clara esclareça a linguagem
O homem perseguido vem a ser a perfeição futura. 

(NOTA: "As passagens em MAIÚSCULAS são extraídas de poemas de PABLO NERUDA.")

in PAUL ÉLUARD 
POEMAS POLÍTICOS
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Págs. 66-67-68)

11.11.2015

A TERRA DOS SONHOS FELIZES de John Brunner




JOHN BRUNNER 
A TERRA DOS SONHOS FELIZES
Trad. Eurico da Fonseca

"– Bem, será apenas durante algum tempo. Apertemos os cintos!
Depois tinham notado: 
– Os outros ainda estão piores do que nós. 
Mas agora gritavam: 
– Esses ladrões da ONU! 
«Qual é a alternativa? Legislar o canibalismo!»
Fora o que o secretário-geral Pafiq afirmara no seu último relatório sobre o estado do mundo, na sessão plenária da ONU, em Nova Iorque. E Greville, que o vira através do sistema de televisão interna do edifício, notara que, na expressão do seu rosto, não houvera qualquer traço de humor. 
Bem, sempre havia paliativos. Diretivas sobre o uso do combustível, da energia, das matérias-primas essenciais. Não se gastava no aquecimento central o gasóleo que podia ser consumido por uma locomotiva. Não se via televisão com a eletricidade que podia conduzir vigas de aço através de uma trefilaria. Nem se construía um teatro com o cimento que podia servir para outro bloco de apartamentos. 
E depois viera o inevitável: não se andava com um lugar vazio no carro se alguém mais seguia para o mesmo destino. Não se dormia com dois compartimentos vazios em casa, se havia na cidade quem não tivesse onde dormir. 
Nos meados do século XX, a população fora de dois mil e quinhentos milhões. No fim do século alcançara seis mil e quinhentos milhões. Agora era de mais de oito mil milhões! A todo o momento surgiam milhares de novas bocas, a gritar de fome! Milhares de novos corpos que precisavam de ser vestidos! Milhares de novos espíritos exigindo educação, informação, divertimentos! 
O trabalho que Lumberger estava a fazer ali – um homem, um laboratório, meia dúzia de culturas experimentais – podia ter sido feito antes de 1970. Os desertos, em todo o mundo, teriam sido reduzidos a metade. Mas cada vez eram maiores. Um programa devidamente orientado, nos anos 70, teria tornado uma realidade a cultura dos mares, conservando os recursos de peixe e de plâncton, em vez de se servir deles como de uma conta bancária infinita – e desastrosa. 
Que aconteceu em consequência de tudo isso? No fim do século tinham gritado pelo Doutor Nações Unidas para que viesse curar um doente cujo estado se tornara mais grave devido aos curandeiros do que aos verdadeiros males. 
Com a falta de papel, de energia e de artigos de luxo – como os sorvetes e refrescos – e a necessidade de fabricar charruas, ceifeiras-atadeiras e arrastões em vez de carros e giradiscos –, não era de admirar que as pessoas perdessem a esperança. Nem que procurassem SONHOS FELIZES."
(Págs. 31-32)

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português