Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
2.24.2017
ESSÊNCIA QUALITATIVA
ESSÊNCIA QUALITATIVA
Escreves poemas em mim
Onde os versos a brotar
São do veludo e cetim
Que só existem no olhar,
Com as sílabas de mel,
Com as letras de sol puro,
Que escolheram o papel
De me empenhar sem juro
E a pronto pagamento,
Estrela, voz no escuro
– Corpo, alma, alimento
Sem conter a veleidade
Doutro desconto incerto,
Além dessa qualidade
Que é nobreza e afeto.
Joaquim Maria Castanho
2.23.2017
TARDAR É TENTAR O NUNCA
NUNCA É TARDE
É… as horas resignam-se devagarinho
Minuto a minuto em cliques cinzentos,
Espalhando a tarde à toa plo caminho
Para não perder sementes nem alentos;
Sequer desentorpecidas aspirações,
Que quem rega as rosas rega espinhos
Pelos caminhos das tardes e dos serões…
Que o prazer é aquilo que se vai fazendo
Nas costas dos pecados e das confissões,
Minutos que subindo se veem descendo
Se a tarde se alheia de tardias opiniões.
Joaquim Maria Castanho
2.22.2017
HÁ OU NÃO JUSTIÇA DIVINA?
JUSTIÇA DIVINA: HÁ OU NÃO?
O meu poema tem os teus olhos,
Mas não és tu.
O meu poema tem o teu rosto,
Mas não és tu.
O meu poema tem o teu rabo-de-cavalo,
Mas não és tu.
O meu poema é meu, mas tu não.
Porém, se houvesse justiça divina,
Ainda que fosse infimamente pequenina,
Deus já tinha corrigido esta contradição!
Joaquim Maria Castanho
2.21.2017
TUDO SÓ POR BEM
TUDO [SÓ] POR BEM…
(BEM MENOS, BEM MAIS)
Vacina para dar o passo em frente,
É também essa legítima... herança
De quantos herdaram só o ser gente,
Ou que nasceram já amaldiçoados
Condenados a nada haverem de seu,
Na família onde não eram esperados
– Quer na vida que ninguém lhes concedeu.
Tudo conquistaram; até os dias tidos.
E, nos lugares que neles frequentaram,
Somente foram escutados e servidos
Porque para isso e de pronto pagaram,
Às vezes bem mais que a coisa comprada
Mesmo se ela valia bem menos que nada!
Joaquim Maria Castanho
2.20.2017
INSPIRAÇÕES!
INSPIRAÇÕES!
Porém esqueço-as; e só teu sorriso
Me lembra. Porque nestas gramáticas
Apenas cabe quem é útil e preciso.
Ou possui essa essência natural
De nos ser, além do mais, essencial.
Queria pensar na beleza das flores
Pelos campos amenos e verdejantes;
No arco-íris, e todas as suas cores
Lindas borboletas, joias, diamantes…
Todavia, sempre esse oásis me falha
E a poesia só por ti emana e calha.
Queria… queria… queria… queria… Mas… – Zás:
Que uma coisa é querer, e outra, ser capaz!
Joaquim Maria Castanho
2.19.2017
MEMÓRIA
MEMÓRIA
Se nada se perde também
Nada se tem para sempre,
Que ser é contínuo vaivém
Entre os céus e o ventre
Da Terra, essa mulher-mãe
D'humanos, filhos diletos
Nos dois géneros completos.
E fraternos igualmente
(Irmanados em igualdade),
Mesmo que a insana gente
Creia omitir a verdade…
Porque nada se perderá
Nem sequer o que já não há!
Joaquim Maria Castanho
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2.18.2017
DOR DE COTOVELO
DOR DE COTOVELO
Ora anda aqui gente que anda
Numa fona, e de sarabanda,
A trabalhar prà concorrência.
Gente esperta, coisa sabida,
Doutorada em maledicência,
A pecar com língua comprida,
Por desconhecer a diferença
Entre a realidade e a ficção.
Olho comprido, língua afiada
De quem quer tudo sem fazer nada…
Às vezes bate-lhe a demência;
Outras, a ardência… da confusão!
Joaquim Maria Castanho
2.17.2017
BRISA REMANESCENTE
BRISA REMANESCENTE
De manso o romance chegou
E do remanso se levanta
A romancear nos conta
Em palavras aspira ao voo
Rompe nuvens, brilha, tenta
Dá nós com que nos inventa
O remansear nessas idas
E vindas plo prado das vidas.
Os velhos sóis invoca.
Das doces vozes é chama.
É luz que paira e canta
Se nos encanta ou toca
A dolência de quem ama…
Então, das páginas lidas
Nascem vidas, entre as idas
E vindas plas linhas da trama.
Joaquim Maria Castanho
Imagem: Mulher Lendo no Jardim, da pintora polaca Barbara Jaskiewicz
2.16.2017
CANTO DO MOMENTO MÁGICO
CANTO DO MOMENTO MÁGICO
Já aconteci alma ansiosa
Sob tuas pálpebras descidas,
Perdidas em linhas de prosa
Poesia nas faces floridas
(Derme de cetim nacarado)
Onde sentir se sente ledo
Perfeito, belo, cuidado
Sempre se demasiado cedo
Tão natural se tarde mais,
Que o presente é um segredo
Entre tempos, entre umbrais
Entre colunas de Salomão,
Tão fraternas e tão iguais
Que são a sublime perfeição,
Conforme cantam os jograis…
Joaquim Maria Castanho
2.15.2017
2.14.2017
FIRME NÓ
NÓ FIRME
Ato meus olhos aos teus
Com um nó tão bem seguro,
Que até o próprio Deus
Diz nada haver mais puro…
Tal como urgente, digo eu
Numa pertinaz ousadia,
Já que o tear que os teceu
Só usa as linhas da poesia.
Fio de seda a ouro brocado
Quase em cabelos tão assim,
Que me nasceu por cuidado
Continuar meu olhar atado
Ao teu, sem ficar lado a lado
Mas antes tendo-o frente a mim
Com nó firme, tão bem dado
Que nunca veja chegado fim.
Joaquim Maria Castanho
2.12.2017
O SEGREDO DAS CORRENTES PROFUNDAS
O SEGREDO DAS CORRENTES PROFUNDAS
Sob águas cristalinas me dissolvo
No diluído tempo, sublime instante
Sentindo o sentido com que absolvo
O sonho de perder o sentir diletante.
E ficar imerso nesse pulsar novo
Da profundidade pura e constante,
Com que eu mesmo em mim me absorvo
Perante ti, tal se de mim fosse ante…
Então, toda máscara cai; e esse ator
Cujas personagens pueris já vesti
Naufragam, afundam-se tão-só ante ti
Para, transparentes e sem nenhum favor
Serem afãs vassalas do único amor –
Que unicamente elas sabem que senti!
Joaquim Maria Castanho
GUARDO ESSE SEGUNDO, GUARDO ESSE PÃO
GUARDO ESSE SEGUNDO, ESSE PÃO
Ponho a alma inteira nesse instante
Ínfimo no contato, mas de superior
Significado, onde me sonho infante
Dum reino teu, também por ti tutelado;
Nado de tuas mãos, onde predomina
Tudo e o que mais ninguém imagina:
Verbos com o significado duma flor –
Pétala que a nosso pão ensina… o amor!
Ponho a alma inteira nesse momento
Tão pequeno, semente numa transação,
Pulsar que é onda, enorme movimento
De todo o sentido na mesma direção,
Onde até o próprio zunir do ar e vento
São ditados e cuidados por teu condão.
Joaquim Maria Castanho
SEM TEUS OLHOS NÃO HÁ POESIA
SEM TEUS OLHOS NÃO HÁ POESIA
Sem teus olhos não há borboletas.
Sem os teus gestos não tenho asas.
Sem teu jeito fenecem os planetas
E nenhum sol aquece nossas casas.
Sem tua luz me apago, e os cometas
Caem ao largo, com caudas esparsas
Quase carvão, como se fossem setas
Feitas da sombra das finitas brasas.
Sem teu nome sou órfão segregado.
As palavras morrem-me na garganta.
Ando com grilhetas de condenado
E arrasto um verbo que já não canta…
Porque sem teus olhos não há poesia
E apenas o breu se alberga no dia!
Joaquim Maria Castanho
2.10.2017
ORA SIM, ORA NÃO
ORA SIM, ORA NÃO
Pelo copiar da porta
Vejo-te cirandar na cozinha…
Apareces, desapareces, apareces
(És "viva" silhueta no instante)
Desapareces; e ficas "morta".
Mas essa morte é só minha.
É um sucumbir circunstante,
Quase omitir do eu total
E dessa parte tão importante
Que nos edifica pelo plural
– Ou gestos de elucidar a voz
No fluir do rio dos rios de nós,
Se somos no azul a claridade –
Ouro na cinza que à luz exorta
Como se plo copiar da porta
Te visse a cirandar na cozinha
Aparecendo, desaparecendo,
Ser e não-ser, ora sim, ora não,
Tal e qual qualquer estrelinha
Sendo e não sendo, cintilando
Lá em cima – bem-bem no fundo
Do cor... que... ora sim, ora não!
Joaquim Maria Castanho
2.09.2017
O ENGRAÇADO E AS GRACINHAS
ESTATUTO DE PAPEL VEGETAL
(O ENGRAÇADO E AS GRACINHAS)
Incluindo tu,
Porque vês adultério
Num corpo (apenas) nu?
A peste que em ti grassa,
A que te agarras com'um bem,
Não passa da ignóbil desgraça
De só te veres (e projetares)
Ao olhares para alguém…
E se miserável, vives em vão,
Assombração com ordenado,
Só tens o que mereces, do pão
Que come qualquer condenado.
Que do prazer só tira castigo
E da beleza, apenas inveja;
Ou da moral insano abrigo
Feito do lixo que traz consigo –
Da peste quem em si despeja
– Se a consciência lhe pesa!
Se lhe custa o entendimento
Do que é simples e natural,
E ri pra não verem o jumento
Que há sob seu traje social.
Joaquim Maria Castanho
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