1.07.2017

MAL ME QUER, BEM ME QUER




BEM ME QUER, MAL ME QUER

Sufixo germinável, o ramo
O galho, esse em que pousaste
No último dia do velho ano
Quando – e por bem! – achaste
Ouvir o cante com que te chamo
Onde o vento, pelo caminho,
A varrer, cumprindo tradição, 
Escolheu como seu destino
Entrançar, raminho a raminho, 
Uma espécie de ninho
Para acolher o coração... 

Talvez o nosso, que é tão maior
Do que o órgão de cada qual, 
E por cujo compasso abre a flor
Pétalas em binário (digital). 

Joaquim Maria Castanho

1.04.2017

ALMA TRAIDORA


ALMA TRAIDORA

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
17:22
Passas por mim como uma gota de sol
E trazes advérbios que esplendem,
Porém calado, no suspense, em bemol
Eis-me rendido e os olhos só dizem
Quanto te pertenço (unicamente).
Contudo, não me traem, pois nem notas
Já que ágil, ou lesta, te distancias
Cerzindo com determinação as rotas
Do afazer nas tardes dos teus dias…
 
Quero gritar, mas com a boca fechada
Para dizer-te que penso, e que sinto,
E de como tudo é ora diferente;
Então, nesse instante, alvoraçada
Esta alma que me pinta no que "pinto"
Deixa-me só na solidão da estrada…
Só pra seguir contigo à minha frente!
 
Joaquim Maria Castanho 

1.03.2017

ME ANINHO EM TEU NINHO




ME ANINHO EM TEU NINHO 

Só entre sombras sobramos
Apontamentos na margem difusa
Pétalas no capim dos tempos
Bredos pisados, bermas de várzea… 
Víssemos distância do breve ao perene
E soubéssemos o coaxar dos pauis… 
Se teus passos ecoassem nas veredas
Linhas de sangue, caudal sôfrego 
Intenção de ver-te em contínuo presente, 
Nenhuma história teria folhas caducas
E tua casa seria invisível para quem passa. 

O teu salto no vazio – o primeiro voo! 

Joaquim Maria Castanho    


O PÃO DOS AFETOS





O PÃO DOS AFETOS  

Saudade sem distância
Ou viagem sem partida, 
São vizinhos desta ânsia 
De quem sobe pla descida; 
De quem balança os braços
Ao lés a lés de si mesmo, 
E fica preso nos laços
Que armou neste torresmo
Pra caçar, na desventura,
Algum préstimo ou sorte, 
E cultivar com ternura 
O esquecimento da morte 
– Negra ceifeira do pão 
Feito com o joio da razão! 

Joaquim Maria Castanho   

12.28.2016

AS PESSOAS CONSOMEM-SE

  


AS PESSOAS CONSOMEM-SE
Adultas, infiéis, na espera
Do impossível, da idolatração
Como se pudessem apagar-se
Por cada novo dia, outra noite
Outra maneira de usar-se
De comunicar com a própria fera
A sua alma maldita, a razão
Perdida numa esperança que se afoite
Que se retempere em cada ilusão
De força de alerta, grito de dar-se
Permitir-se, e igualmente libertar-se
A soletrar promessas incumpridas...
De quem se esmera.

J Maria Castanho

12.24.2016

SORTEIO DE NATAL




SORTEIO DE NATAL 

Estimado cliente: 
Após repasto conveniente
E um grão na asa, 
Apraz-nos informá-lo
De que este ano, o galo…

Saiu à casa! 


O presidente do Conselho Executivo
Joaquim Maria Castanho

O presidente da Assembleia-Geral 
Joaquim Castanho

O presidente do Conselho Fiscal 
J. Maria Castanho 

12.20.2016

TRÊS HAIKUS SOBRE URUBUS




TRÊS HAIKUS COM URUBUS
  
1. 
E urubus avançam sobre a carniça
Mas, na derriça, 
Não a alcançam. 

2. 
Há urubus insanas
Que urubusam
Pela liça, como manas. 

3. 
Mais se diz sobre urubus
Só com um verso
Do que com três haikus!  

Joaquim Maria Castanho 

(Nota: 
HAIKU – género de poesia japonesa que emprega, geralmente, alusões e comparações. O haiku é formado por três versos sob um número total fixo de sílabas: dezassete ou dezanove.)

12.19.2016

PLAUSIBILIDADE




VERSÃO PLAUSÍVEL 

Sob as pálpebras
O poema perfeito, 
A sílaba divina; 
E, do mesmo jeito, 
Entre álgebras
O céu azul ensina
À nuvem o caminho, 
O vento peregrino… 

A cruzada é ímpar… 
Viés imperecível, 
Esquina ao destino 
– Mas concreto só o olhar
Entre tudo o mais: 
Versões especiais 
Do que é plausível. 

Joaquim Maria Castanho


GRATIDÃO





OBRIGADO 

Mereces cada sílaba deste poema
De reconhecimento, e de gratidão, 
Pela maneira aprazível e amena, 
Pelo jeitinho de fada, cujo condão
Faz magia, faz poesia pura, serena, 
Tão natural ou dentro da ocasião
Que o sonho plural nasce na dimensão 
Duma realidade que vale a pena… 
É esse mistério, pérola do segredo, 
Capaz de sepultar algum cemitério
Habitado pelos urubus do medo, 
Que tentam implantar o preconceito
E a segregação como razão social; 
Que fazem da ignorância um pleito
Para a estuporice do bem e do mal. 

Joaquim Maria Castanho

12.17.2016

O SEGREDO DO OCASO




O SEGREDO DO OCASO

A Deus Sol, no seu carro de luz
Venceu todas as nuvens que havia
E dourou o céu com seus raios, 
Magma de eternidade e poesia. 
Estacionou com calma e perfeição, 
Cruzou o espaço, gizou o destino
E ecoou no mais profundo de mim; 
Ditou mágicos encantos ao dia, 
Disse a vida sem princípio nem fim
Como plas notas dum salmo ou hino… 

– E deixei de ser meu como soía! 

Joaquim Maria Castanho 

12.13.2016

DIA 13 do 12, Lua Cheia





Há poemas que não se dizem... 
Há poemas que não se escrevem... 
Apenas existem!

Joaquim Maria Castanho 

12.12.2016

HOJE ENTREI EM ÓRBITA






HOJE ENTREI EM ÓRBITA 

Vou, ao arrepio do tempo 
(Cultivador de maturidade), 
Enquanto as folhas e vento 
Semeiam outonos na cidade, 
E pintam a amarelo-torrado
Esses outros rodapés plo chão 
Que esperam no Natal gelado
De caramelo cremado a nevão, 
Percorrendo passo após passo
Erguido acerca do que faço
(Botaréus e socalcos de ilusão, 
A espécie de véu e melaço
Que é a goma dos simples dias
Em que reverdecem as poesias, 
Senão todas, mas principalmente 
As que nascidas por encontrar-te 
Descendo a rua com tua amiga/
/Colega, são essência da arte
Presença e parte suficiente, 
Além de precisa), grão e espiga
Desse cereal, único âmbar 
Sentidos e sentimentos, unidos
Num só, sem o juízo, sem julgar
Que os tornaria empedernidos, 
Contrafeitos ou presumidos, 
Antes do ser na alma os acatar… 

Vou, dizia, passo após passo 
Sem pensar em que pensar, e então 
De repente ali, na minha frente, 
És traço, e és ponto, e és traço
De um morse que só o coração 
Ouve – e fico a girar no espaço. 

Joaquim Maria Castanho

12.11.2016

SINETE DE INANNA - II


O AMOR É UM SUPOR






O AMOR É UM SUPOR 

Respiro devagarinho
Para não quebrar o encanto
Que me apraz sentir, tanto, 
E desde que há pouquinho
Estive contigo a falar. 

Nenhum pensamento ousa
Diluir-te desta mente, 
Que tem por melhor coisa
Que já lhe aconteceu,
Este sentir que só sente 
Quem pressente já não ser seu
O sentir que o agora tem. 

Que se o bem vem ao pensar
O coração encontra calhar
Mal pense em bater por quem
Nos ficou no pensamento, 
Já que procurámos alguém
Até ao encontro causar,
Como se nesse momento
Só quiséssemos encontrar
Essa pessoa e mais ninguém. 

Que a procura é o ato
Cujo avesso tem as linhas
Que tateio como minhas
E me mostram se constato 
T’encontrar onde suponho: 
Bem juntinho nesta alma
Que nem supor arrumado
Por ti, com afeto, com calma
Onde perto, lado a lado
Ficam teus olhos e o sonho. 

Joaquim Maria Castanho

12.10.2016

SINETE DE INANNA




SINETE DE INANNA 

Tenho uma rosa formosa 
Cravada nos espinhos do dia, 
Em cujas pétalas a prosa
Traz aromas de poesia
Pelo gentil e meigo traço
Em tons de nácar e carmim,
Que os poemas que lhe faço
Vou guardá-los só pra mim.  

Joaquim Maria Castanho 

12.08.2016

NO DIA DE INANNA




NO DIA DE INANNA 

Como por magia surgiste
(Saíste do carro familiar), 
E o que era um dia triste
Virou sorte que não desiste
De surgir em qualquer lugar… 

O acaso tece e entretece
Nos pleitos configurações, 
Que o peito quase merece 
O proveito das ocasiões: 
Essência nascida dum nada 
– Duma ínfima centelha só –, 
Estrela a indicar estrada 
Que nos coloca na peugada
Da Grande Mãe, chamada avó. 
Da conceção também sabida
Na realeza dos pergaminhos, 
Pela natureza da vida 
Que é mãe de tod’os destinos. 

Joaquim Maria Castanho

12.07.2016

EM SI MESMO, NENHUM PRINCÍPIO É UM FIM




NENHUM PRINCÍPIO É UM FIM EM SI MESMO

Aos princípios se reservam enfins
Derradeiras razões, últimos apelos, 
Axiomas sem as asas dos querubins 
Mas que de Sansão herdaram os cabelos. 
São suma força dos mais destemidos. 
São poder oculto que ao milagre convém. 
São cunho pra moeda a câmbios idos. 
São segredos escondidos de ninguém. 
Todavia, contudo, porém, se adversos 
São um salvoconduto prà injustiça
Do pensar mágico em novos universos…
Qualquer coisa que somente atiça 
O autoconvencimento fundamental 
Ao serviço dos velhíssimos bem e mal.  

Joaquim Maria Castanho 

12.06.2016

DO SUBLIME BATALHÃO




DO SUBLIME BATALHÃO 

Prolongo teu olhar plo verso adentro
E deslizo o meu nos encaracolados, 
Pendentes cachos, enquanto enfrento
A saudade de ti; e os contristados 
Momentos transformados, como magia!, 
Ganham asas, quais cavalos alados 
À desfilada pla planície da poesia…  
És a inspiração total, Musa eleita
Magnânime Senhora, dona e Prefeita
Deste reino ond’as sílabas soldados 
São, e esgrimem rimas em seus combates. 
E elevam sentimentos por estandartes. 
Marcham a compasso e bater do coração. 

E nunca mentem. Nem cometem traição! 

Joaquim Maria Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português