12.12.2016

HOJE ENTREI EM ÓRBITA






HOJE ENTREI EM ÓRBITA 

Vou, ao arrepio do tempo 
(Cultivador de maturidade), 
Enquanto as folhas e vento 
Semeiam outonos na cidade, 
E pintam a amarelo-torrado
Esses outros rodapés plo chão 
Que esperam no Natal gelado
De caramelo cremado a nevão, 
Percorrendo passo após passo
Erguido acerca do que faço
(Botaréus e socalcos de ilusão, 
A espécie de véu e melaço
Que é a goma dos simples dias
Em que reverdecem as poesias, 
Senão todas, mas principalmente 
As que nascidas por encontrar-te 
Descendo a rua com tua amiga/
/Colega, são essência da arte
Presença e parte suficiente, 
Além de precisa), grão e espiga
Desse cereal, único âmbar 
Sentidos e sentimentos, unidos
Num só, sem o juízo, sem julgar
Que os tornaria empedernidos, 
Contrafeitos ou presumidos, 
Antes do ser na alma os acatar… 

Vou, dizia, passo após passo 
Sem pensar em que pensar, e então 
De repente ali, na minha frente, 
És traço, e és ponto, e és traço
De um morse que só o coração 
Ouve – e fico a girar no espaço. 

Joaquim Maria Castanho

12.11.2016

SINETE DE INANNA - II


O AMOR É UM SUPOR






O AMOR É UM SUPOR 

Respiro devagarinho
Para não quebrar o encanto
Que me apraz sentir, tanto, 
E desde que há pouquinho
Estive contigo a falar. 

Nenhum pensamento ousa
Diluir-te desta mente, 
Que tem por melhor coisa
Que já lhe aconteceu,
Este sentir que só sente 
Quem pressente já não ser seu
O sentir que o agora tem. 

Que se o bem vem ao pensar
O coração encontra calhar
Mal pense em bater por quem
Nos ficou no pensamento, 
Já que procurámos alguém
Até ao encontro causar,
Como se nesse momento
Só quiséssemos encontrar
Essa pessoa e mais ninguém. 

Que a procura é o ato
Cujo avesso tem as linhas
Que tateio como minhas
E me mostram se constato 
T’encontrar onde suponho: 
Bem juntinho nesta alma
Que nem supor arrumado
Por ti, com afeto, com calma
Onde perto, lado a lado
Ficam teus olhos e o sonho. 

Joaquim Maria Castanho

12.10.2016

SINETE DE INANNA




SINETE DE INANNA 

Tenho uma rosa formosa 
Cravada nos espinhos do dia, 
Em cujas pétalas a prosa
Traz aromas de poesia
Pelo gentil e meigo traço
Em tons de nácar e carmim,
Que os poemas que lhe faço
Vou guardá-los só pra mim.  

Joaquim Maria Castanho 

12.08.2016

NO DIA DE INANNA




NO DIA DE INANNA 

Como por magia surgiste
(Saíste do carro familiar), 
E o que era um dia triste
Virou sorte que não desiste
De surgir em qualquer lugar… 

O acaso tece e entretece
Nos pleitos configurações, 
Que o peito quase merece 
O proveito das ocasiões: 
Essência nascida dum nada 
– Duma ínfima centelha só –, 
Estrela a indicar estrada 
Que nos coloca na peugada
Da Grande Mãe, chamada avó. 
Da conceção também sabida
Na realeza dos pergaminhos, 
Pela natureza da vida 
Que é mãe de tod’os destinos. 

Joaquim Maria Castanho

12.07.2016

EM SI MESMO, NENHUM PRINCÍPIO É UM FIM




NENHUM PRINCÍPIO É UM FIM EM SI MESMO

Aos princípios se reservam enfins
Derradeiras razões, últimos apelos, 
Axiomas sem as asas dos querubins 
Mas que de Sansão herdaram os cabelos. 
São suma força dos mais destemidos. 
São poder oculto que ao milagre convém. 
São cunho pra moeda a câmbios idos. 
São segredos escondidos de ninguém. 
Todavia, contudo, porém, se adversos 
São um salvoconduto prà injustiça
Do pensar mágico em novos universos…
Qualquer coisa que somente atiça 
O autoconvencimento fundamental 
Ao serviço dos velhíssimos bem e mal.  

Joaquim Maria Castanho 

12.06.2016

DO SUBLIME BATALHÃO




DO SUBLIME BATALHÃO 

Prolongo teu olhar plo verso adentro
E deslizo o meu nos encaracolados, 
Pendentes cachos, enquanto enfrento
A saudade de ti; e os contristados 
Momentos transformados, como magia!, 
Ganham asas, quais cavalos alados 
À desfilada pla planície da poesia…  
És a inspiração total, Musa eleita
Magnânime Senhora, dona e Prefeita
Deste reino ond’as sílabas soldados 
São, e esgrimem rimas em seus combates. 
E elevam sentimentos por estandartes. 
Marcham a compasso e bater do coração. 

E nunca mentem. Nem cometem traição! 

Joaquim Maria Castanho

12.05.2016

MANOBRAS PERIGOSAS




MANOBRAS PERIGOSAS 

Se às vezes o canto se degrada
E o verso corrompe a medida, 
É por a poesia, se celebrada, 
Se desviar da própria estrada
Que determinou pra ser cumprida; 
E que por ser desvio, se desvia
Até das estabelecidas regras, 
Correndo nos caminhos que havia
Bem no meio dessas milhentas pedras
Que juntou, pra fazer os castelos
Onde sequer as nuvens alcançam 
Com palavras vis, defeitos tão belos, 
Imagens – operários sem martelos
Que em vez de martelar rimas, dançam! 

Joaquim Maria Castanho

12.04.2016

A FONTE DO SENTIR




A FONTE DO SENTIR 

Tão breve como se um microssegundo…
Tão imediato como só um repente… 
Tão valioso como todo o ouro do mundo…  
Tão intenso como um metal fulgente
Foi, e é esse instante contigo perto
Que, por certo, viveria assaz contente
Ainda que fosse num cruel deserto
Entre agruras mil, e sob mil tormentos… 
Que a felicidade nasce do sentir
Começado quando te vejo, assim 
Real, gesto e palavra, em ser, em devir
Como se o tempo nunca tivesse fim, 
E fosse unicamente esses momentos
Contigo, fonte de todos os sentimentos! 

Joaquim Maria Castanho 

12.03.2016

ÍNTIMO PREVENIR






ÍNTIMO PREVENIR 

Guardo os teus cabelos, teu olhar
Teu jeitinho mágico de ser e estar, 
No mais íntimo, e secreto, de mim, 
Pra recordar nos dias em que te não vir, 
Onde, por sentir tantas saudades tuas, 
Chego até a ter vontade de morrer
Só para me pararem de doer… 

Guardo egoísta, em segredo, enfim 
Teu rosto de flor, de pérola, de luas
Que escrevem a prata, a nácar e marfim
Hinos de sonho n’alma, pra não esquecer
Teus gestos, doce e sereno encanto, 
Pròs dias em que te não vir, e queira morrer
Só para pararem de doer, 
Parar esse doer que doi tanto
De que o pranto
É o único modo de o dizer. 

Guardo cada segundo de ti em mim, 
Como valesse mais que a vida toda,
Para quando te não vir, possa assim
Ter uma recordação, quase bênção,  
Que me salve do naufrágio, alta tensão
Da ânsia que me põe a cabeça à roda.  

Joaquim Maria Castanho

12.01.2016

LETRA Z




LETRA Z

Zoom desde os A B C D’s
Alcança o zénite, aqui
Onde os comos e os porquês 
Falam apenas do falar de si; 
Das quadras e oitavas rimas, 
Do desconserto do soneto, 
Dos afetos e pintar de climas
Que dos poemas são esqueleto. 
Do círculo redondo rosto
Pérola linda, nacar puro
Que ensina a rima e o gosto
Quando o sentir é seguro; 
Que o carinho é flor singela…
– Ninho que à família perla! 

Joaquim Maria Castanho

11.30.2016

LETRA Y




LETRA Y 

Yollanda caiu de banda, Ya-
Ya sabe que os cravos murcham
À lareira secam ao frio; 
Já não ordenam “EMPREGO JÁ!
Se desfolham quando marcham
Saltam das lapelas no estio
Entre havanos e mariscadas; 
E atravessam os oceanos
Pra ter as havaianas molhadas.
Nem swingam Yé-Yé no popó
(Caixa de fósforos andante), 
Porque ainda só querem, tão-só
Ser yuppies mais adiante… 


– Depois das Festas do Avante!   

Joaquim Maria Castanho

11.29.2016

LETRA X




LETRA X 

Xistos, ardósias, lousas, axiomas
Logística existencial pretérita
Que – oxalá! – deixem de ser sintomas
Da XPTO, cruel congénita 
Incógnita, variável fundamental 
Ampulheta, argila ou cromossoma
Da cultura e genética acidental… 

Porque sem fé crê a razão acreditar
Em Xara, de Xarazade, é tutora 
Excelsamente exímia e senhora 
Do narrar que ao conto soma pontos
Cruz, nas linhas cruzadas desse contar
Com a excelência pelos encontros
Onde o Xis ganha alma – e é lugar! 

Joaquim Maria Castanho  

11.28.2016

LETRA W




LETRA W

Watt iluminador deste mundo
Capaz de gerar 1 J por segundo
(Mesmo sem Andy Warhol publicista), 
Eis-se no pisca-pisca do instante 
– Flash que não melhora nossa vista, 
Nem sequer divulga o diletante –; 
É o pirilampo das noites sem lua… 

Não carece diesel, nem de alpista;
E não polui por qualquer combustão. 
Mas se o virmos a cintilar na rua
Reconhecemos logo qu’é artista, 
A bailar pela pista do negrume
Com tracejado digital de sim e não…   
– Mostrando a razão de ser vaga-lume! 

Joaquim Maria Castanho

11.27.2016

FUGA AO TEMPO PRÓPRIO




FUGA AO TEMPO PRÓPRIO 

Conserto desconcertado o ser 
Tentando converter a solidão 
Em palavras que queiram dizer 
Mais do que diz a ocasião. 
O ocaso além da pedra fria, 
Os sonhos que o sol consumiu
Nas cidades do dia a dia 
Onde a humanidade cria 
Tempo que ao tempo já fugiu! 

Joaquim Maria Castanho 

VERBO SEMPRE




VERBO SEMPRE

A felicidade é isso… 
Ver teus olhos todos dias, 
Observar o teu sorriso, 
Ouvir sublimes melodias
Dançar nas ondas dos cabelos
Onde o sonho se enleia
Entretece como em teia, 
Arrebata tão-só por vê-los… 

É uma queda que nos ergue
(Reparar sem que reparar!), 
Reparando qu’em Portalegre
Somos verbo sempre a conjugar. 

Joaquim Maria Castanho

11.26.2016

REVER-TE




Reencontrar-te é rever por escrito
As pétalas à esperança (sonhada), 
Presas plo nácar da tarde, flor perlada
Abrindo as portas do céu infinito
Onde as estrelas copiam teu nome,
Onde a feliz alegria me consome
Quando a vida regista a tua lei; 
Onde nasce tudo quanto sou e sei 
– O que há e não há, além do que acredito! 

Joaquim Maria Castanho 

11.25.2016

LETRA V




LETRA V 

Viver é ouvir o vaivém 
Nas veias, 
Sejam nossas, sejam alheias 
Viúvas, como sem vintém; 
Novas, velhas, vazias, cheias
Beatas, nobres, pobres, plebeias
Vitoriosas ou vadias
Vividas na vida dos dias, 
Como esvaídas e sem ninguém. 

É avivar a voz do vento
Com vitrais, uivos da vontade
Vorazes e virtuais, vidrados
Pelos vernizes da liberdade… 
– Varonis, vitais, condenados 
A virarem-se em movimento! 

Joaquim Maria Castanho  

11.24.2016

LETRA U




LETRA U 

Usura dura e única esta: 
Ultrapassar a tua ausência – 
Ustir último se já funesta 
Urdidura uiva urgência, 
Ultima lugar prà sepultura, 
Aquiesce em suma anuência, 
Aqueda em tumular cesura… 
Que quando é usual ustir
Sem amuar (cumprindo ajuste), 
Nem undíssono urde iludir 
Porque “quem quer uste, que lhe custe”,
Num muito sumário aprumo
De quem curte seu supremo rumo
Em nunca ocultar – nem desunir! 

Joaquim Maria Castanho 

11.23.2016

LETRA T




LETRA T 

Tenho teus olhos 
No coração… 
Teu rabo de cavalo… 
E hoje, pra fugir à traição,
Fui lá buscá-los… 
Fui lá buscá-lo! 

Que a vida tem em si
Todas as tutelas. 
E às portas fechadas, ali
Abre, na memória, aqui
Teus olhos… 
Cortinas aos folhos… 
Lindas janelas! 


Joaquim Maria Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português