11.02.2017

PROXIMIDADE DA DISTÂNCIA





A PROXIMIDADE DA DISTÂNCIA 

Ergue-se-me uma árvore no peito.
Seu tronco deita os braços ao céu
E, dos olhos, esse azul no preceito
De pintar ramagens, como um véu, 
Qual manto diáfano – ao léu!–
Ante nívea brancura do leito
Eleito nas campinas o jeito
Que tão-só a natureza lhe deu.
Tem o esgar duma pomba mansa
Periclitando de ramo em ramo, 
A cavalgar réstias d'esp'rança
A clicar esses chamo, não-chamo, 
Com que no mapa dos zeros e uns
Somos distantes-próximos… comuns. 

Joaquim Maria Castanho

10.28.2017

UMA CONVERSA UNIVERSAL




UMA CONVERSA UNIVERSAL 

SINAL DE VIDA
José Rodrigues dos Santos
Gradiva

"Pela minha noiva, recusarei o que for preciso recusar." - Página 114

Um sinal é um indício. Um indício de (água, de vida, por exemplo). Viver é comunicar. E comunicar é emitir sinais. Mas o que é que isso significa? Que só reconhecemos a vida quando ela é suficiente para emitir o sinal passível de ser descodificável. Que possa ser compreensível para nós, entre nós, entre os demais, e entre nós e os demais. Num romance, se for de ficção emancipada, ou seja, cuja narrativa se alinha e subscreve nos pressupostos cientificamente fundamentados, é possível estender o conceito de comunicação ao de viagem, uma vez que a primeira pode ser um convite à compreensão, e a segunda, é o entendimento do conteúdo (enunciados) propriamente dito, através do qual nos abstraímos de nós mesmos para integrar (ou participar) outra dimensão, outro registo, onde a trama/enredo se verificam. 

Portanto, acerca deste romance podemos afirmar que se a literatura gera conhecimento à ciência o deve, assim como se o conhecimento ganha valor é arte que lho concede, uma vez que depois de traduzido e demonstrado matematicamente, importa reconhecê-lo (útil) no plano ético e humanista, o que seria de todo em todo pouco evidente se a literatura não lhe advogasse a serventia, e lhe emprestasse a validade intrínseca e social com que possa percorrer as veredas da subjetividade humana, sentimental, afetiva, em que se baseia o principal laço que nos une, a família, a língua materna, que consequentemente produzirá a semente do grupo, do clã, da sociedade a que pertencemos, pela sua multiplicação, expansão e partilha, na procura duma universalidade que a justifique. 

Porém, nem todas as viagens (demonstrações) são de ida, porquanto outras há que são (também) de volta. E esta aventura relatada, este romance de ficção científica, como é classificado na generalidade, é-o sem dúvida. É o regresso do significado ao seu signo, do sentido ao seu sinal, do entendimento à sua espécie, do afeto ao seu berço, do compromisso ao seu cumprimento – à inteligência, seja ela cibernética, biológica ou espiritual –, no respeito e pela dignidade entre dois seres, balizados entre dois limites inconfundíveis, o do verosímil e o do plausível, nessa linha equidistante a eles em que desenrola e evolui a ficção científica. Porque ela é o demonstrável. Ela não inventa, mas exemplifica, servindo-nos uma perspetiva viável, observável desse conhecimento, tese ou teoria, sem a qual ela nos seria muito dificilmente entendível. Não só nos conta o que podia ter sucedido, mas também nos elucida de como aconteceu para que o víssemos ao ponto de "nisso" acreditar, pondo-nos a par dos antecedentes que teve como no que veio a resultar. 

Explica-nos porque não estamos sós no universo. Dá notícia de que pode haver e "há filhos de Deus noutros planetas", como doutras galáxias, e que eles entraram em contato connosco, tornando possível manter e pôr em dia essa conversa que a vida é, ao revelar-se continuamente, não em termos unicamente competitivos, mas também cooperativos. Porque embora Darwin tenha dado "o primeiro passo para a compreensão do maquinismo que conduz à evolução das espécies", depois dele foram feitas muitas outras descobertas que completaram e, até, corrigiram a tese original, como a "cooperação. A evolução e a sobrevivência", como se afirma na página 96, "assentam muito na cooperação, uma realidade que tendemos a esquecer, mas que os estudos vão sucessivamente confirmando. Vemos isso não só nos seres humanos e nos mamíferos, mas também nas aves, nos répteis, nos insetos, nos peixes, nas plantas… até nas células e nos genomas! Há cooperação em tudo o que é biologia. Os seres vivos sobrevivem e evoluem graças à cooperação que são capazes de gerar a múltiplos níveis." Incluindo entre diversas formas de expressão inteligível, nomeadamente entre o discurso científico e o discurso literário. 

Foi assim que eu o vi. Que eu o li, e continuo a lê-lo… Experimentem também, e logo me dirão quão longe (ou perto) andarei da verdade… 

Joaquim Maria Castanho

10.19.2017

ESTAR E SER




SER E ESTAR 

Se persisto
Somos gente… 
Sonhamos mais que isto
E, às vezes, estás e és
De frente
Ou passas rés
Com o futuro já presente! 

Joaquim Maria Castanho

10.18.2017

SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS




SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS

Se estivermos atentos
Sempre que uma flor brilha, 
Logo veremos momentos
Em que mãe é também filha
Aspergindo esse deserto
Das vozes, se distantes
Com que o amor torna perto
Os corações dos amantes
Na recíproca medida: 
Beijo entre após e antes 
– Cálice de pura vida! 

Joaquim Maria Castanho

10.17.2017

Thomas Mann, Os Buddenbrook



"Deus salvara-o. Outra vez, ainda criança, durante os preparativos para um casamento, assistira ao fabrico de cerveja (era costume fazer-se em casa). Para o efeito fora colocado um enorme barril em frente da porta. Ora, sucedeu que esse barril tombou, apanhando a criança. O estrépito e a violência da queda foram tais que a vizinhança acorreu e foram necessários seis homens para voltar a erguer o barril. A cabeça do menino ficou esmagada debaixo da cuba e o sangue corria abundantemente por todo o corpo. Puseram-no numa padiola e, como ainda lhe restasse um sopro de vida, levaram-no ao médico e a um cirurgião. Ao pai consolaram-no, porém, dizendo-lhe que se devia conformar com os desígnios divinos, pois que era impossível que o filho se salvasse… Pois atentai então: Deus Todo-Poderoso abençoou os recursos médicos e restabeleceu-lhe a saúde por completo! Ao recordar-se desse terrível acidente, o cônsul voltou a pegar na pena e escreveu a seguir ao derradeiro «Ámen»: «Meu Deus, a Ti louvarei para todo o sempre!»"

In THOMAS MANN, OS BUDDENBROOK, página 64
Tradução de Gilda Lopes Encarnação
Coleção Essencial - Leya/Livros RTP




A SININHO

Ouço o teu ouvido
A escutar
O silêncio consumido
Na leitura do lugar. 

E sob esse dossel de sílabas
Umas mudas, outras estridentes
Sedosas, penteadas, 
Nascem meigas pétalas
Queridas, desejadas… 

– Sorrisos, afetos, gentes! 

Joaquim Maria Castanho

PENSAR PARA O VENTO...




PENSAMENTO AVENTADO

Alguém lê, 
E eu sinto algo… 
Como se pensar
Fosse um não-sei-quê
– Nascido farejar
No nariz dum galgo! 

Joaquim Maria Castanho

10.16.2017

VAGÕES DE SÍLABAS




TREM DE SÍLABAS 

Chovem-me na alma solfejos outonais
Pla clave desses sorrisos já quase ditos,
Com que os sonhos se investem vestais
Ninfas, deusas, musas, estrelas e mitos
À beira do comboio em metálicos cestos
Feitos da rede e trama dos meus textos… 

Joaquim Maria Castanho

10.02.2017

PRIMAVERA OUTUNAL





OUTUBRO PRIMAVERIL…

T'eclipsaste na dúbia tarde
Resguardo de Afrodite caído
O marmóreo ombro, destemido
Cruzando o tempo sem alarde
No espaço dum quando se solta

– E eu rogo-te… «Volta!»

Porém, ficaste tão-só de perfil
Que o sol em verbo s'espraiou, 
Ficou perdido, esquecido
E entre o anil celeste voou
Na peugada dum outro abril
Que, afinal, nunca chegou!

Joaquim Maria Castanho

9.27.2017

Encontro em Itália, de Liliana Lavado




"Afinal, ainda restava alguma coisa em comum entre ele e Sara: os livros." 
in LILIANA LAVADO
ENCONTRO EM ITÁLIA
(Página 138)

9.17.2017

ESTE ADORAR-TE TANTO




ESTE ADORAR-TE TANTO

Entre as paredes de fazer pela vida
Onde te emparedas, e solidária 
Fazes só com o teu estar nesta lida
Parecer qualquer sílaba tão vária… 
Que apenas tua é a rima
E mais qu'ela também eu, 
Pois ao ver-te cada dia
Tal qual as lá de cima
Iluminas a poesia 
– És caminho, e sol meu.

Os gestos despachados, meiga magia
Do olhar, onde as estrelas têm morada
Refletem as odes que saram a poesia
Dessa melancolia de lua, se adiada… 
Porque só tu lhe dás brilho
Lhe emprestas o tal encanto
Que ilumina todo o trilho
Dos que adoram sem pranto, 
E que trilham se partilho
Este adorar-te tanto!  

Joaquim Maria Castanho

8.25.2017

A TULIPA perlada




TULIPA PERLADA 


Passo a passo até expirar
O caminho se desenrola
Desde creche, desde escola, 
Com o destino já marcado
Pra essa cova retangular
Onde a terra se renova
Vendo renovado navegar; 
Outra corrida contra o tempo, 
Tal desfilada de sorraias
Que inventaram sol e vento
Que agita panos e saias
Maias que afloram o mundo
Lhe dão a cor, vivacidade, 
Dessas rimas com que inundo
As ruas da minha cidade. 



Grito libertado, granito
A soltar-se para os cumes, 
Que é ond’o corpo, aflito
Ard’em mais sublimes lumes. 

in JOAQUIM MARIA CASTANHO
REDESENHAR A VOZ, pág. XIV

7.15.2017

FAZER HOJE




C - POEMAS POLÍTICOS DE A a Z 

FAZER HOJE

Minha flor de pétalas tantas
Com insistência me promete
Em preces, em beijos, em mantras
Qual voz de nós na casa sete… 
Sete estrelas que clareiam; 
Sete pétalas pra um leque; 
Sete sílabas que penteiam
As escamas ao alfaqueque. 
Mas só por oito serem ora
Querem ser mais, não são frete: 
Querem a flor que se repete, 
Ter ontem no amanhã… – agora! 

Joaquim Castanho

7.14.2017

B- CADA CÊNTIMO - POEMAS POLÍTICOS de A a Z




B - POEMAS POLÍTICOS de A a Z 

Cada cêntimo é uma gota de suor
Naco de nação, migalha de povo
Às vezes lágrima de trabalhador
Lágrima de trabalhadora, lição
Caída da construção dum país novo… 
Desperdiçá-lo, é negar-nos razão; 
Perdê-lo, apoucar-lhe o esforço; 
Cobiçá-lo, julgá-lo por cada pão
Que come, e traduzir por alvoroço
Suas conquistas, palavras, condição. 

Cada cêntimo é um grão de trigo
Ajuda viva pra matar fomes
Que se acendem, pondo em perigo
Milhões de mulheres, crianças, homens
Todos, todas, deveras essenciais, 
Pelo que atirar fora os "tostões" 
É desperdiçar balas, ou munições 
Na guerra de querermos ser iguais. 

Joaquim Castanho

7.12.2017




ECOS DE JULHO 

Já mergulhando nesse mar
Como um cubo gelado
Que se derrete no dia
Diluído, a soletrar
Fios de cabelo dourado
Conforme laço de poesia
Que mais solta do que ata, 
Ouço ecos em melodia… 

Por quem será? Por mim não é. 
Por ti, por ti e por ti também não. 
Nem por qualquer Tonho ou Zé. 
Nem é por quem nos descarta
E desagrega na condição… 
E que dizem? 
– PA-RA-BÉNS MAR-TA – 
Ora… então, já sei por quem são! 

Joaquim Maria Castanho

7.09.2017

POEMAS POLÍTICOS de A a Z - A




A - POEMAS POLÍTICOS DE A a Z

Jamais portas que nos dividam
Jamais distância A Deus
Que já os olhos teus despertam
Mais que infinitos nos meus. 
Hei de dizê-los mudo, calado
Gritá-los pra lá do presente, 
Ainda que do diferente lado
E mostrando inversos à gente
Nas costuras, trocos mesquinhos
Misérias ou raios de Zeus
Que lavram as florestas e ninhos
Com labaredas avaras de eus!

Joaquim Castanho 

7.08.2017




RAZÃO TOTAL

A minha alma levantou voo
E nega-se agora a pousar; 
Diz que quer ser o que sou…
Não sinto força prà contrariar!
Quando me culpa, eu perdoo. 
Se me crítica, dou-lhe atenção. 
E às vezes, até finjo que vou 
Considerá-la só meia razão…

Mas mal te vejo, logo desisto; 
É qu'ela quer à força ser beijo, 
E eu… eu sem ela não existo! 

Joaquim Maria Castanho 

7.07.2017

ERRÂNCIA FIXA




ERRÂNCIA FIXA

Por esta redoma nos digo, 
Nesta cápsula navegamos; 
O sonho navega contigo
Contigo vou, e voamos. 

Temos a imensidão do breu 
Sabemos a cor da terra, 
Que o amor somos tu e eu
Neste errar que não erra.  

Joaquim Maria Castanho

7.02.2017

MELODIA ENCANTADA




MELODIA ENCANTADA 

O dia das quatro estações
Decorreu hoje sem inverno, 
E o arco-íris das pulsações
Pintou-o ameno, moderno
Pra pacificar os corações
Escalou penhascos, penedos; 
Viajou por oásis e desertos; 
Voou sobre mares e silvedos;
E escoou-se entre os dedos
Palma com palma bem abertos
À desfilada, plo espaço… 
Mas levaste-me na garupa
Prà apagar da alma o traço, 
Vinco do receio e da culpa, 
Pondo pureza no que faço
Dando o cunho da poesia
A cada hora que expira
Com hinos em harpa e lira
Pra ouvir arco-íris no dia.  

Joaquim Maria Castanho

7.01.2017

RESSUSCITADO EGO




EGO RESSUSCITADO 

Amarro-me ao teu rosto
Pra fitar o infinito
Sob vendaval de desgosto, 
Sob o tsunami do grito… 

E bem lá do fundo do céu
– Imensidão e distância –, 
Ergueu-se deste eu incréu
Essa fé que nunca morreu
Nem perdeu a infância. 

Joaquim Maria Castanho

6.27.2017

A POESIA, ESSA INVENÇÃO




A POESIA, ESSA INVENÇÃO

Retardo o passo pra que passes
Cruzes portal pró desconhecido, 
Que faças o que só tu fazes
Dites a rota, dês sentido
Aos caminhos que te celebram
–  Aos poemas que te inventam!

Joaquim Maria Castanho 

6.25.2017

SILVO COLORIDO





SILVO DE COLORIDA LUZ 


Só quando te não vejo 
Posso refugiar-me em ti, 
Dizer que penso, que sinto
Que anseio, que desejo
Como foi o dia que vivi
Sem viver, se dele pinto
O esgar sonhado e ali
Refugiado atento
Mais caminho de pronto
Com os poemas que avento
À Sol num cruel rodopio
Pelas fisgas do assobio
Que sufi me deixa tonto… 

Joaquim Maria Castanho

6.23.2017

LEVEZA INTEMPORAL DA ROCHA




LEVEZA INTEMPORAL DA ROCHA

Me deponho ante ti
Num desígnio de então, 
Que no descruzar já li
Na pele a imensidão

Calada, 
                de granito
Como uma pedrada 
Acua tempo proscrito!

Joaquim Maria Castanho

6.16.2017

(RE)GANHAR A PASSADA

  


(RE)GANHAR A PASSADA 

Plo óculo do infinito
Na descoberta incolor
Sonhos travam, e o atrito
Se refaz próprio propor 
E propósitos propõem
As singelas alegrias
Que pouco a pouco compõem 
Pegadas pra pegar os dias… 

Então, o verbo floresce
Pelas pétalas completo
No beijo que não esquece 
Carinhos d'avó e neto.

Joaquim Maria Castanho 

6.02.2017

Excerto de NOTA a OS SIMPLES, de Guerra Junqueiro




“Quis mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas criaturas, que atravessavam um mundo de misérias e injustiças, de vícios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha octogenária e sorridente, no cavador trágico, nos mendigos bíblicos, na mansidão dos bois arroteando os campos e nas labaredas de oiro do castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infância, iluminando a choupana. E, depois de uma existência de sacrifício e pureza, de abnegação e bondade, deitei esses ingénuos e pobres aldeões na terra misericordiosa e florida do campo santo, pondo-lhes por cima das sepulturas rasas o Céu maravilhoso e cândido, que em vida sonharam e desejaram. 
É claro que essas figuras não são inteiramente reais, da realidade estrita, efémera e tangível. Criei-as, ou antes, completei-as com a minha alma, com o meu próprio ideal.” 

14 de Maio de 1892

Guerra Junqueiro  - Excerto da NOTA à edição de OS SIMPLES

6.01.2017

DÁDIVA

  


A DÁDIVA 

Olho lá pra fora
Através de teu olhar, 
E de como ele se demora
Sem saber que esperar… 

Luz sobre azul celeste
Dum sorriso que me deste! 

Joaquim Maria Castanho

5.30.2017

SOMBRAS CARDINALES




AS SOMBRAS CARDINALES

A sombra de Cláudia é
Bem mais velha que ela; 
Está dobrada sobre si. 
Alguém que perdeu a fé
Soprou a própria vela
Se esqueceu de ser, ali
Longe de quem vimos… e eu vi. 

– E como era bela! 

Joaquim Maria Castanho

5.28.2017

SERENO DEGUSTAR




SERENO E SILENCIOSO DEGUSTAR

Almoço devagar. 
Acrescento-m'assim
Só pelo paladar
A olhar o alecrim
Nas bermas do jardim
Ond'olhos resvalam
Nesse tanto sentir
Por ver-te a sorrir… 

– Que até o calam! 

Joaquim Maria Castanho

5.25.2017

ISCO VOADOR




O ISCO VOADOR

Pousou exatamente ali... 
Quase de propósito, pra que a visse... 
E eu vi! 
Callei, callei, calei
Segurei, 
E só agora o disse. 

Joaquim Maria Castanho 

MINHA PRIMA, PARABÉNS




PARABÉNS Clara, minha prima
Neste dia de felicidade. 
Que cavalgues por ele acima
Até aos oásis da idade, 
Sem as ciladas nem azares
Sem atropelos nem mau clima, 
E companhia que desejares 
– Sejam família como pares! 

Joaquim Maria Castanho

5.12.2017

VEJO-TE ENTRE BÁTEGAS




TE VEJO ENTRE BÁTEGAS

Desço pelo meio da tarde
Por negras pedras gretadas
Onde a saudade me arde
Em quadras incendiadas
Dessa luz, entre sombras, nua
Pisada pela memória
Se, letra a letra, quase crua
Copia de nós sua história
E nos devolve esse elixir
Cujo suco é tempo puro, 
Mel coado n'areia do porvir
Cruzado em ponto seguro
Plas costuras da água caída, 
Como intervalos num muro 
Que são as seteias da vida. 

Joaquim Maria Castanho

5.10.2017

MURMÚRIO VENEZIANO...




MURMÚRIO VENEZIANO… 

Nada é tão linear como parece
Nem sombras repetem realidade, 
Que quanto há humano merece
Ser observado na profundidade, 
Não das almas, mas do significado; 
Sequer sentir é apenas demonstrar
O que se pensa se, pois, quem sente
Anda com isso, assim, estampado
Nas atitudes, caprichos, ou cuidar
Agir igual plo que é diferente. 
Porque tão-só, pura e simplesmente
Ser profundo bebe-se do passado
Que não passou, pra retornar a viver, 
Ser futuro, sem ter sido presente.


Portalegre, Café José Régio, 10.05.2017

Joaquim Maria castanho

5.07.2017

DILUIR LUMINOSO




LUMINOSO DILUIR 

Naquela bifurcação
Com que o corpo toca o chão
Deponho meu beijo de veludo
Imaculado, e o mundo fica mudo
Esquecendo da rosa o pranto
Ante o júbilo divinal
De teu sorriso, de teu manto
Sobre o diáfano ideal.

É sempre ele quem me guia
Entre as estrelas e cometas
Pelas filigranas do dia, 
Perpendiculares como setas
De um Cupido irrequieto
Se nos ocasos de magia
Eu te puxo pra mais perto… 

E nesse efeito tão manso
Que na semente só a luz tem, 
Penetro a imensidão e avanço
Bit a bit, traço a traço,
Com o que sou, penso e faço 
Como se fosse ninguém.

Joaquim Maria Castanho

5.06.2017

FALAR NÃO É COLAR RÓTULOS (NOS DEMAIS)




FALAR NÃO É COLAR RÓTULOS
 (AOS DEMAIS)

1.
A cobaia, no reduzido reduto
Redoma, escritório, cela, toca
Reduz-se até ser outro produto
De compra/venda, empréstimo, troca;
Já ouviu dizer que a sua raça
Tivera outrora o costume de falar
Pra discutir a utilidade dos sons
Prà'nalisar os motivos a discutir
Prà'valiar mercados, cota em praça
Pra conduzir fiéis entre maus e bons
Para produzir distrações e bem-estar
Se ouvir a si mesma e demais ouvir…
– Foi aí que a coisa tremeu, talvez: 
Perdeu razão no dia-a-dia e mês a mês, 
Ano a ano, vida a vida… e até morreu. 

E ora supõe-se que nunca aconteceu! 

2.
A voz não é uma arma de arremesso
Nem a fala serve só para atacar
Ou pra defender, "gritar" o excesso
Náusea, resto, do sentir e do pensar; 
Não é nenhum instrumento do avesso
Contrário ao humano uso de criar, 
De ligar o vário e avulso a seu par
De partilhar, conviver e ser começo
De tudo que não é apenas fim; e isso
É já um terço dos atos e compromisso
Que após ser muito bem combinado
É então cumprido por qualquer lado
– Vértices questionáveis em discussão
Prontos ao remate final do sim ou não. 

Joaquim Maria Castanho

5.05.2017

O CONTRÁRIO DA MORTE




AO CONTRÁRIO DA MORTE

Buzinam isto, aquilo
Dizem pra fazer assado
Cozido, frito, e dar asilo
Ao doce coração aflito
Por 'tar assim acossado
Causador d'algum atrito
Além desse que é nascer
Ser gentio e querer dizer
Ao que veio, ao que está
Mesmo que não esteja aqui
Esteja até noutra parte, 
De ilusão em ilusão vá
Plantar acolá, acoli
Algo parecido com arte. 

Mas esquecem os projetos
Vontades esclarecidas
Que pintam nos velhos tetos
Das Sistinas carcomidas
Novos grafites e afetos
Entre chegadas e partidas; 
Que irrompem sem esperar
Como dum clique qualquer, 
Estalido que pel'olhar
Se tornou big-bang profundo
Nessa espécie de mar –
E lágrima com te inundo
Ao ser apenas quem te quer
Sem querer nada do mundo. 

Que à vida não importam
As cruéis minudências
Que nos prendem e nos atam
Ao agora das tendências; 
Como representar pra ser
Que faz das aparências, 
Coisa já de si contrária
Aos credos, como às razões, 
Que ela evolui por vária
Reformando as tradições
Do vulgar e ordinário
Para pulsar nos corações… 

– Ser da morte o contrário!

Joaquim Maria Castanho

5.04.2017

O GIZAR DA LUA




O GIZAR DA LUA 

Arina, A Deus sempre eterna
Mentora do bem, do prazer e da jus, 
Podia entrar no mar mas vai pla berma
Arredondando-o no ser com sua luz. 
O ocaso, é tão-só porta do fundo, 
E nas casas, se diz, de serventia;
Porém, sua morada é nosso mundo
E d'onde sai ao fim de cada dia…

Para onde irá? Terá amantes? 
Ninguém sabe… Ou, sabendo-o, não o diz. 
Que onde ela vai, já ia muito antes
E a lua não fala… Só escreve a giz! 

Joaquim Maria Castanho

MARKETING OU QUALIDADE?




MARKETING OU QUALIDADE?

Já não há soluções definitivas
Prò que esporádico acontece
Pouco é o desejo e expetativas
Além das estatísticas se desce
À realidade pura e dura
À coisa vida sem os enfeites
Dessa nuance, grande urdidura
Com que o homo sapiens teceu
Os paraísos, infernos, deleites
E declarou ser o Planeta só seu… 
A atualidade é um detalhe
Fruto direto mas circunstancial, 
Com que a lógica do crer atalhe
Pròs desvios ao que é essencial. 

Joaquim Maria Castanho

5.03.2017

DAS FAMÍLIAS, O SORRISO É A MARCA




A MARCA DAS FAMÍLIAS 

Plo chão me aliso, desmedido
No texto, perdido; porém, viso
À esquina do riscado friso
Sob o azul, cruzado, vertido
Em espelho de mão pra navegar, 
Enquanto já a luz incidia
Sobre folhas (de figueira) ralas –
Os cachos pendentes a balançar
Solfejo de ondas plas escalas
Da tua passada, que me dizia
(Determinada pla direção tida
Como quem irá ganhar seu dia, 
Fazer pla sorte, fazer pla vida) 
Que ver-te vai além da poesia
Em significado e sentimento, 
Exalando nela essa alegria
Do sentir que se fazia alento, 
Por ser matriz de uma jornada
Marca registada do momento. 

Que o mundo, seja lá o que for!, 
Reflexo de um conto, ou teoria, 
A circular cúmplice, ou isento,
Só é real se estiver da cor
E tonalidade do teu «B :) m dia!»

Joaquim Maria Castanho

5.02.2017

FAZER O TEMPO




FAZER... O ...TEMPO

Pra que sejamos o etc. & tal
Dos três pontos entre o bem… e o mal, 
Ainda que o rio corra agitado
Temos que avançar prò outro lado; 
Que só lá, naquela avistada margem
Nossos sonhos deixam de ser miragem
E passam a fazer parte integrante, 
Qual ritmo e batida, desse pulsar
Que é nuclear a cada instante. 
Que o tempo também tem um coração
Seu órgão vital, modelo ou matriz, 
E se dou a volta ao quarteirão
Para te ver, mas falho por um triz
Foi porqu'ele quis e não quis, e em vão
Vi e não vi, que seu ser fui eu que o fiz. 

Joaquim Maria Castanho 

5.01.2017

ROMANCE COM SEREIA À BEIRA-RIO




ROMANCE COM SEREIA À BEIRA-RIO

Adivinho-te ainda do outro lado
Mas já defesa me caiu e espero,
Sem que pela ânsia desesperado
Expetativa esconda o que quero,
Que águas correntes são cadeado
Quando coração bate por sincero
E silêncio não significa cuidado
Se calado espero – e até acelero
O tempo pra que surjas imediata, 
Sorriso tão à flor dos olhos, assim, 
Que do respirar então me escapa 
O barco das viagens aonde se ata
O corpo s'o desejo quer e destapa
Pra beijá-lo poro a poro e sem fim.

Joaquim Maria Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português