3.15.2016

NO CHINFRIM DA'BALADA




NO CHINFRIM DA'BALADA 

Noturno abreviado
Como rondó de partida
Chora a ciranda em fado
Desfazendo fila à saída, 
Que o jardim irá fechar
Dentro d'imediatos versos, 
Repetidos ou diversos, 
Que até podem peneirar 
– E em requebros de sambar. 

São essa quinta coluna
Do exército fabuloso
Com que rimas, uma a uma, 
Gingaram no chão arenoso
Entre paredes de buxo, 
Alegretes de violetas
Trajando roxo de luxo
Para ouvir as trombetas
Que encerram a bateria, 
Todas guinchando tão certas
Que os vis ruídos destas
Chegam a "pracer" melodia. 

Joaquim Castanho 

NOTURNO  – composição para piano ou orquestra, de caráter ternurento ou melancólico.

RONDÓ – ária em que se repetem sempre os temas principais.

CHINFRIM – baile popular, arrasta-pé, algazarra de abalada.

3.12.2016

INTERPRETAR É PENEIRAR




INTERPRETAR É PENEIRAR 

Em fila caracoleamos
Entre sebes e alegretes, 
Nesta ca(u)sa de que somos
Aprendizes ou cadetes; 
Causa de casa prevista
Diz a previsão causada, 
A condizer, por ser mista, 
Com a ideia formada. 
E diz também que o dizer
Em causa é entendido
Por essa maneira do ver
Somente nela vertido;
Ca casa da causa convém
Mandado volteio geral,
Por ser a causa de ninguém
Qu'é casa pra todos igual.    

Joaquim Castanho

3.01.2016

JUÍZO DE REALIDADE




JUÍZO DE REALIDADE 

Conducente é a prova
(Inegabilidade pura)
Se o verbo não estorva
A lucidez, e segura
Capricha pela atuação, 
Sem hesitar no «SIM» ou «NÃO». 

Do enredo é perita. 
Da trama, nó fundamental. 
E argumenta expedita
Sem tropeçar com a moral. 
Mas à culpa castigo dá;
E inocenta quem o está. 

Porque nessas duas faces
Tão distintas, tão iguais,
Está do que somos capazes
Como humanos e... mortais. 

Joaquim Castanho 
 
(O JUÍZO DE REALIDADE é aquele que enuncia factos ou que incide sobre relações entre factos; é um juízo que afirma ou nega a realidade de um fenónemo. O juízo de realidade opõe-se ao juízo de valor, e também se designa usualmente por JUÍZO CONSTATIVO, JUÍZO POSITIVO.) 

2.25.2016

SOSLAIO




SOSLAIO 

Cada fim é um meio
Na senda de seu fim,
Nesse doce enleio 
Por que nascem flores, 
Primaveras, cores
Lavandas, alecrim. 

Aves vestem plumas. 
O céu, estrelado. 
E as moças... Algumas,
Só nos olham de lado! 

Joaquim Castanho 


2.23.2016

RAZÃO SOLAR





RAZÃO SOLAR

Balança-me a saudade
Sobre estas águas e luz,
Prò resto da eternidade
Que o teu olhar traduz.

Seu fulgor tem a mansidão
Dos socalcos que desceu, 
Como ouro a dourar razão
Na razão co Douro lhe deu. 

Joaquim Castanho

2.22.2016

NO SILÊNCIO A VOZ




NO SILÊNCIO A VOZ 

Sou sinal de porta aberta
Dum futuro que já me disse,
No escuro da rota incerta
Pra que teu peito se abrisse. 

E se me cruzo com o teu olhar
Num impulso respiro o mar
A que o rio me deitou um dia... 

Mas nesse querer que é esperar,
Com que se é porto ou lugar,
A luz me faz foz por magia!

Joaquim Castanho 

2.21.2016

CORRENTE DE APORTAR




CORRENTE DE APORTAR

Meus dias já foram pardos
Tão sem norte, tão sem brilho
Quas'enseada de cardos, 
Da morte me senti filho. 
Voguei em mar cavado, 
Por mar chão adornei sentir, 
Entre margens fui meu lado
Vaga a descer, onda a subir. 

E desse céu que espelhei
Quantas vezes bem agreste, 
Aportei rabelo sem lei
Só plo néctar que me deste. 

Joaquim Castanho

2.11.2016

TUDO NA ROSA É REGRA E NORMA




TUDO NA ROSA É REGRA E NORMA

Minha regra é norma aberta
Escrita na ordem vigente, 
Qu'é onde a lei me desperta
Positiva e naturalmente... 
Suas pétalas de mel em flor, 
Sorriso de pepita dourada, 
Incrustada na alma sem dor 
Ao ser pla brisa desfolhada.

Se tem espinhos, eu não o sei; 
Se quer infinitos, não mo diz. 
Amar o próximo é ser a lei –  
Poder d' inspirá-la sem ser juiz.        

Joaquim Castanho

2.08.2016




FÉ 

A impertinente Felicidade, que ainda é jovem mas se não chama também Maria, estava, num dia assim, exatamente como hoje, fazendo nada, com todo o cuidado e esmero, que é coisa mais difícil de fazer do que qualquer outra que se conheça, quer por experiência tida, como contada, exceto esquecer, pois que para isso, se exige muita perícia na escolha e abnegação na armazenagem, caso contrário, a gente fica a esquecer aquilo que quer recordar e a lembrar tudo quanto importa esquecer.

E do nada surgiu uma flor. E depois um rosto, que embora de corpo oculto, já se lhe podia vislumbrar o espetro das mãos. Precisamente como se fosse um sol incrustado no horizonte da tarde ou uma lua pendurada da noite, suspensa por invisíveis e misteriosos fios (da trama suspeita e, às vezes, até tenebrosa, dos sonhos, que são sempre desconhecidos por nós nela, como pelos efeitos de ressaca com que desassossegam os espíritos, os corpos e as culturas, a que à imaginação e fantasia não têm muita afeição). 

Creio que era um lírio, uma açucena... 

Ante a brisa estremeceu breve. Pulsou num esgar sob as gotículas do nevoeiro vespertino, sorriu para o nada da menina que, encantada com o tamanho prodígio desse nada que lhe foi tudo, suspirou profundo, estremunhada, e cochichou  murmurando para consigo mesma: «Nestes momentos, coisa nenhuma do que me parece é; e, contudo, sem eles nunca serei.» 

Felicidade, quis eu chamar-lhe. Porém, ela metera os pés ao caminho...e, quando finalmente, proferi a primeira sílaba do seu no nome, ela já ia demasiado longe para me ouvir. 

Joaquim Castanho 

2.05.2016

POR QUE AMANHÃ É SÁBADO




POR QUE AMANHÃ É SÁBADO


Em Uruk, na eduba do templo a Inanna, foi encontrada nos princípios do século passado, entre os algures do tempo, do modo e do lugar, um cofre, uma caixa guarnecida a ouro e prata, com pedras preciosas incrustadas, dentro da qual estavam seis tabuinhas, que se supõe terem sido consideradas sagradas pelas vestais. 

Na primeira, estava vincado, cunhado, escrito, assim: «a cada qual o mesmo que aos seus pares». Na segunda dizia que «a cada um segundo os seus méritos». Na terceira, que «a cada qual conforme as suas obras». Na quarta «a cada um na estrita observância de suas necessidades». A quinta afirmava que «a cada qual de acordo com o que lhe é devido por lei». E a sexta, concluía, que «a cada um consoante a sua posição, responsabilidade e obrigações». Porém, depois desta, havia uma prateleirinha idêntica àquelas onde repousavam as citadas tabuinhas, mas vazia. 

Os estudiosos, arqueólogos, antropólogos e historiadores, conjeturaram ter havido nesta uma sétima tabuinha; e, não obstante, a sua azáfama e acuidada busca, o que é certo, é que não encontraram mais nenhuma, fosse onde fosse, nas ruínas da eduba, nem na nas de sua proximidade. Alguns alvitraram que essa lacuna se devia a alguém a ter retirado, talvez para ministrar culto ou ter presente nos rituais sagrados, não voltando a depositá-la no lugar, por qualquer incidente ou contrariedade ocorrida. 

Terão a sua razão... Talvez. Desconheço-o em absoluto. 
Todavia, creio que nunca lá esteve. Que a sua falta é mais significativa do que a sua presença. Que ela seria um separador... Que ela devia ser o sábado de culto, o sétimo dia, a folga da eduba e do templo. Enfim, que ela era a pausa de reflexão para a consciencialização cívica feita durante os seis dias anteriores. Até porque desconfio que foram elas, essas vestais de Inanna, que instituíram os dias da semana de acordo com o seu sistema hexagonal, e que desde então continuam a ser seis mais um, o separador, não obstante se ter adotado o sistema decimal desde os últimos milénios da nossa civilização. 

E, porque hoje é sexta-feira, vou apenas chamar-lhe amanhã. Não só por ser sábado, mas também porque ainda não foi escrita, e talvez exista alguém no futuro, alguém com nobreza de caráter e de coração ou inteligência suficiente para a escrever. Quem sabe!  

Joaquim Castanho 

2.04.2016

Legisladores e filósofos





"Aos legisladores cabe a missão de, em correspondência com os desejos da comunidade de que são representantes (e pela qual serão também responsáveis), elaborar leis justas, e aos juízes de as aplicarem com espírito de igualdade; aos filósofos, porém, cabe a de serem porta-vozes e defensores dos valores universais, logo, válidos para toda a humanidade." 
KK

1.31.2016

A democracia deve a sua vida ao saber como fazer

Uma sugestão de leitura para este domingo conjugável apenas no assim-assim do tempo... 




"A democracia deve a sua vida ao saber como fazer." 
in KURT VONNEGUT, Jr
UTOPIA 14
Trad. Eurico da Fonseca 
(Página 11)

1.13.2016

KIRCHMAN




"Três palavras de correção do legislador e bibliotecas inteiras transformam-se em papel de embrulho." 

KIRCHMANN

FRANZA JERUSALEM



"A sociologia é o direito natural da nossa época."

FRANZ JERUSALEM


HANS KELSEN



"Se a história do conhecimento humano nos pode ensinar alguma coisa, é a inutilidade do esforço no sentido de encontrar por via racional uma norma absolutamente válida do comportamento justo, uma norma que exclua a possibilidade de também se haver como justo o comportamento inverso." 

HANS KELSEN
(Ilustração: Princesas da Disney)

12.22.2015

PASCAL




"Quase nada há de justo ou injusto que não mude com a mudança de clima. Três graus de altura polar revolucionam toda a jurisprudência. Um meridiano decide sobre a verdade. Após alguns anos de posse, alteram-se as leis fundamentais. O Direito tem as suas épocas. Divertida justiça esta que um rio ou uma montanha baliza. Uma verdade aquém, erro além Pirinéus." 

PASCAL

J Maria Castanho dixit


"Não há nada melhor do que a ignorância para a pessoa se convencer de que sabe tudo."
J Maria Castanho

LEGES HENRICI PRIMI




O pacto vence a lei e o amor o julgamento
(Pactum legem vincit et amor iudicium)
in LEGES HENRICI PRIMI

11.30.2015

PANORAMA HISTÓRICO DA CULTURA JURÍDICA EUROPEIA




"O trabalho de recuperação dos sentidos originais é, como se vê, penoso. O sentido superficial tem que ser afastado para deixar lugar às camadas sucessivas de sentidos subjacentes. Como na arqueologia, a escavação do texto tem que progredir por camadas. Os achados de cada uma delas têm que fazer sentido a esse nível. O modo como eles foram posteriormente recuperados pode ser objeto de descrição; mas isso é uma outra história – a história da tradição.

A cada nível, portanto, o esforço é o de recuperar a estranheza, não a familiaridade, do que é dito; o de evitar deixar-se levar por leituras pacíficas; o de ler e reler, pondo-se porquês a cada palavra, a cada conceito, a cada proposição, a cada «evidência» e procurando a resposta, não na nossa lógica, mas na lógica do texto. Até que o implícito deste se tenha tornado explícito e possa ser objeto de descrição. Nessa altura, o banal carrega-se de sentidos novos inesperados. O passado, na sua escandalosa diversidade, é reencontrado." 

in ANTÓNIO M. HESPANHA
Panorama Histórico da Cultura Jurídica Europeia
Publicações Europa-América
(Pág. 48)

11.25.2015

VIVER É PARTILHAR por PAUL ÉLOUARD






(...) 

Viver é partilhar odeio a solidão
A grilheta da morte quer-me reter ainda
Já não beijo ninguém como beijava dantes
O pão era sinal de ser feliz
O bom pão que nos torna mais quente o nosso beijo

Como abrigo possível só há o mundo inteiro
Pra mim viver é hoje responder aos enigmas
É renegar a dor que é cega de nascença
E sempre em pura perda estrela sem qualquer brilho
Viver perde-se para reencontrar os homens

Que a palidez do rio encubra a do arroio
Que olhos de maravilha vejam tudo em seu lugar
A miséria acabada e os olhares lavados
Uma ordem crescendo do grão à flor à árvore
Andaimes vivos a sustentar o mundo

A criança a renascer em cada homem e rindo.

in PAUL ÉLUARD
Poemas Políticos
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Pág. 41)

AOS MEUS CAMARADAS TIPÓGRAFOS por PAUL ÉLUARD




AOS MEUS CAMARADAS TIPÓGRAFOS

Tínhamos o mesmo ofício
Que ajudava a ver na noite
Ver é compreender e agir
É ser ou desaparecer. 

Era precioso acreditar preciso
Crer que está nos homens o poder
De ser livre e de ser melhor
Que o destino que lhe foi imposto

E nós esperávamos a grande primavera
E nós esperávamos uma vida perfeita
E que a claridade se decida
A carregar todo o peso do mundo.

in PAUL ÉLUARD
Poemas Políticos
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Pág. 45)

11.15.2015

IRMÃS DA ESPERANÇA por PAUL ÉLUARD




IRMÃS DA ESPERANÇA 

Irmãs da esperança ó mulheres corajosas
Que contra a morte tendes feito um pacto
O de unir as virtudes do amor

Irmãs sobreviventes
Que jogais a vossa vida
Pra que a vida triunfe

Aproxima-se o dia ó irmãs da grandeza
Para rir das palavras guerra dor e miséria

Cada rosto terá seu direito à carícia. 

POEMAS POLÍTICOS
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Pág. 74)

DIÁLOGO de Paul Éluard




DIÁLOGO

Belo invento coberto de vergonha
Memória de ouro enrolada no chumbo
Amor glorioso posto fora do leito
Natureza nobre manchada por anões

VINDE VER O SANGUE NAS RUAS

Somos muitos a recusar
Que seja o sol uma faca
Que seja o mar um veneno
Somos muitos a querer viver

NADA NEM MESMO A VITÓRIA
ENCHERÁ O TERRÍVEL VAZIO DO SANGUE: 
NADA, NEM O MAR, NEM OS PASSOS
DO SAIBRO E DO TEMPO
NEM O GERÂNIO ARDENDO
POR SOBRE A SEPULTURA. 

Muitos de nós perderam a vida
Na esperança de um mundo melhor
Inocentes seguros dos seus direitos
Eu lhes sorrio e me sorriem

UM ROSTO DE OLHOS MORTOS VIGIA AS TREVAS
SUA ESPADA ESTÁ CHEIA DE ESPERANÇAS TERRESTRES

Gravidade de sentidos e sexo
Veleiro da matéria subtil
E nós somos uma só ramagem
Folhas e frutos para servir a árvore

Por único exercício a bondade
Por única manobra a razão
Com centenas e milhares de aves
Levadas de planeta em planeta

FILHOS DILETOS DA VITÓRIA, TANTAS VEZES CAÍDOS, 
DE MÃOS TANTAS VEZES SUPRIMIDAS

Sempre a palavra meu coração confio
Imagens das imagens a manhã que desperta
Mas que já despertou pois que falamos dela
O sonho sol da noite tem a força de sempre

Ó MÃES ATRAVESSADAS PELA ANGÚSTIA DA MORTE
VEDE A ALMA DO DIA NOBRE QUE VAI NASCER
SABEI QUE VOSSOS MORTOS VOS SORRIEM DA TERRA
SEUS PUNHOS LEVANTADOS TREMULAM SOBRE O TRIGO

Vou fazer florir o redondo carmim
Do céu por sobre a terra e do seu dominar

Ódio é nada amor escreve-se duplo
Se um enfraquece descolaram os dois

VI COM OS OLHOS QUE TENHO, COM ESTA ALMA QUE OLHA, 
VI CHEGAR OS CLAROS COMBATENTES, OS COMBATENTES QUE DOMINAM 
DA ESBELTA, DURA, AMADURECIDA, DA ARDENTE BRIGADA DA PEDRA. 

Que a coragem mais clara esclareça a linguagem
O homem perseguido vem a ser a perfeição futura. 

(NOTA: "As passagens em MAIÚSCULAS são extraídas de poemas de PABLO NERUDA.")

in PAUL ÉLUARD 
POEMAS POLÍTICOS
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Págs. 66-67-68)

11.11.2015

A TERRA DOS SONHOS FELIZES de John Brunner




JOHN BRUNNER 
A TERRA DOS SONHOS FELIZES
Trad. Eurico da Fonseca

"– Bem, será apenas durante algum tempo. Apertemos os cintos!
Depois tinham notado: 
– Os outros ainda estão piores do que nós. 
Mas agora gritavam: 
– Esses ladrões da ONU! 
«Qual é a alternativa? Legislar o canibalismo!»
Fora o que o secretário-geral Pafiq afirmara no seu último relatório sobre o estado do mundo, na sessão plenária da ONU, em Nova Iorque. E Greville, que o vira através do sistema de televisão interna do edifício, notara que, na expressão do seu rosto, não houvera qualquer traço de humor. 
Bem, sempre havia paliativos. Diretivas sobre o uso do combustível, da energia, das matérias-primas essenciais. Não se gastava no aquecimento central o gasóleo que podia ser consumido por uma locomotiva. Não se via televisão com a eletricidade que podia conduzir vigas de aço através de uma trefilaria. Nem se construía um teatro com o cimento que podia servir para outro bloco de apartamentos. 
E depois viera o inevitável: não se andava com um lugar vazio no carro se alguém mais seguia para o mesmo destino. Não se dormia com dois compartimentos vazios em casa, se havia na cidade quem não tivesse onde dormir. 
Nos meados do século XX, a população fora de dois mil e quinhentos milhões. No fim do século alcançara seis mil e quinhentos milhões. Agora era de mais de oito mil milhões! A todo o momento surgiam milhares de novas bocas, a gritar de fome! Milhares de novos corpos que precisavam de ser vestidos! Milhares de novos espíritos exigindo educação, informação, divertimentos! 
O trabalho que Lumberger estava a fazer ali – um homem, um laboratório, meia dúzia de culturas experimentais – podia ter sido feito antes de 1970. Os desertos, em todo o mundo, teriam sido reduzidos a metade. Mas cada vez eram maiores. Um programa devidamente orientado, nos anos 70, teria tornado uma realidade a cultura dos mares, conservando os recursos de peixe e de plâncton, em vez de se servir deles como de uma conta bancária infinita – e desastrosa. 
Que aconteceu em consequência de tudo isso? No fim do século tinham gritado pelo Doutor Nações Unidas para que viesse curar um doente cujo estado se tornara mais grave devido aos curandeiros do que aos verdadeiros males. 
Com a falta de papel, de energia e de artigos de luxo – como os sorvetes e refrescos – e a necessidade de fabricar charruas, ceifeiras-atadeiras e arrastões em vez de carros e giradiscos –, não era de admirar que as pessoas perdessem a esperança. Nem que procurassem SONHOS FELIZES."
(Págs. 31-32)

O SANGUE DOS OUTROS de Simone Beauvoir



"Cada um ama a sua cada uma."

in SIMONE DE BEAUVOIR
O Sangue dos Outros
Trad. Miguel Serras Pereira
(Pág. 54)

GOTHE




"dar muito cifra a receita de agradar a todos"

in GOETHE 
Fausto
Trad. de Castilho
Barcelos, 1963

ECLIPSE TOTAL de John Brunner




In JOHN BRUNNER
ECLIPSE TOTAL
Trad. de Eurico da Fonseca


"Ouvidos naquele ambiente, que tanto recordava a Terra longínqua, os relatórios iniciais de cada departamento pareciam mais impressionantes. Em Peat, as pessoas sentiam-se dominadas pelo passado. Ali estava a oportunidade de descobrir uma crença no futuro. 
Ian meditou até que chegou o momento de fazer o seu próprio relatório e depois repetiu mais ou menos o que ele já dissera a Nadine e a Lucas. Não lhe soou melhor que antes; mesmo assim podia reconfortar-se com a ideia de que até o conhecimento negativo era útil. 
Quando toda a gente concluiu o que tinha a dizer, Rorscharch disse: 
– Há uma coisa que eu noto, depois de os ter ouvido a todos. 
Olharam-no, em expetativa. 
– Parece-me que estão a falar como se tivessem chegado a um beco sem saída em todos os últimos caminhos que vos restavam. Estou surpreendido. Para mim, parece-me que deram constantes passos em frente. 
– Valentine? – disse Igor, com um gesto. 
– Sim? 
– Quase tens razão no que disseste. – O velho arqueólogo-chefe inclinou-se para a frente, com um copo de vinho nas mãos. – Naturalmente, em resultado da descoberta dos nossos muito esplêndidos e idênticos edifícios... em atenção a Ian não lhes chamarei «templos»!... em resultado disso nós fizemos uns progressos tremendos. Mas!...
Bebeu um pouco de vinho antes de prosseguir. 
– Mas fomos apanhados num círculo vicioso. É verdade que sabemos muito mais dos nativos do que esperávamos há ano e meio; temos tido uma sorte tremenda, o que é outra maneira de dizer que temos mantido os nossos olhos e os nossos espíritos abertos e respondemos quando alguma coisa surge. No entanto, por outro lado, precisamente porque temos reunido tantos factos novos, temos muitas, muitas mais combinações possíveis. Cada um de nós, à sua maneira, pode ser olhado como tendo o mesmo problema que Ian: portanto enquanto estamos simplesmente a reunir dados, sem um quadro imaginário onde os colocar, sentir-nos-emos mais frustrados que agradados. Pelo que pretendo propor que ressuscitemos o plano de Ian para a construção de um Draconiano simulado, e vejamos se podemos desenvolver uma boa hipótese, partindo das recomendações dele, para comprovarmos aquilo que pensamos saber. 
– Apoiado! – disse imediatamente Cathy, do lugar onde estava, ao lado de Ian." 

(Págs. 130-131)   

INÊS DE PORTUGAL




in JOÃO AGUIAR 
INÊS DE PORTUGAL 
Edições ASA, junho de 1997

"É Pedro que se aproxima agora, lentamente, enquanto fala. 
– Que sabe o mundo de juramentos, Afonso? O juramento que eu lhe fiz, a ela e não ao meu pai e à minha mãe, o juramento que lhe fiz, só esse é verdadeiro e só esse conta e só esse me prende." 
(Págs. 37-38)

Rainer Maria Rilke




Est-ce en exemple que tu te proposes? 
Peut-on se remplir commes les roses, 
en multipliant subtile matière
qu'on avait fait pour ne rien faire? 

Car ce n'est pas travailler que d'être
une rose, dirait-on. 
Dieu, en regardant par le fenêtre, 
fait la maison. 

RAINER MARIA RILKE

(É um exemplo que tu propões? 
Podemo-nos completar com as rosas, 
multiplicando a sua subtil matéria
que se criou para nada se fazer? 

Pois não se pode dizer que ser uma rosa
é trabalho. 
Deus, ao olhar através da janela
governa a casa.)

10.31.2015

Grupos de Encontro




"Mas qual é a necessidade psicológica que atrai as pessoas para os grupos de encontro? Creio que é uma fome de qualquer coisa que a pessoa não encontra no seu ambiente de trabalho, na sua igreja, e com certeza também não na sua escola ou universidade nem mesmo, infelizmente, na moderna vida familiar. É uma fome de relações próximas e verdadeiras, onde sentimentos e emoções se possam manifestar espontâneamente, sem primeiro serem cuidadosamente censurados ou dominados; onde experiências profundas – deceções e alegrias – se possam mostrar; onde se arrisquem novas formas de comportamento e se levem até ao fim; onde, numa palavra, a pessoa atinja a situação onde tudo é conhecido e aceite, e assim se torne possível uma maior evolução. Parece ser esta a fome poderosa que se espera satisfazer através das experiências de um grupo de encontro." 



in CARL ROGERS
Grupos de Encontro
Trad. Joaquim L. Proença

AS HORAS DE IRAZ




AS HORAS DE IRAZ
L. Sprague de Camp
Trad. de Eurico da Fonseca

INTRODUÇÃO 

Que significam as iniciais "S. F."? Para os cultores tradicionais da Ficção Científica só há uma interpretação possível: "Science-Fiction" – um género literário em que não existem limites no tempo e no espaço. Tradicionalmente, também a S. F. deve produzir uma explicação científica – ou aparentemente científica – das coisas e dos factos que nela se descrevem ou sugerem. Mas o que é a ciência? Como prever o desenvolvimento científico? 
«Há mais coisas no céu e na terra do que imaginamos» – disse Shakespeare. Limitar a Ficção Científica ao campo da "ciência oficial" não é um processo lógico. Bem pelo contrário. Como poderia um homem do século XVI – mesmo um cientista do século XVI, mesmo um génio como Leonardo da Vinci – prever o aparecimento da fotografia, do cinema, do telefone, da rádio, da televisão, [do computador], uma vez que a ciência de então era fundamentalmente mecanicista, identificando a química com a magia e considerando a eletricidade com um fenómeno curioso, apenas curioso? 
Poderá amanhã a magia integrar-se na ciência? Poderá o domínio das coisas da natureza (e o seu conhecimento) seguir caminhos absolutamente diferentes dos que hoje são tidos por lógicos? Essa é a interrogação a que pretende responder a nova S. F. – a Speculative-Fiction. Alguns dirão que ela se situa muito perto da fantasia. Mas a distinção é fácil. Os contos de fadas distraem e encantam. Não encerram mensagens. 
Depois das obras de Bradbury – que são pura ficção especulativa e que ninguém confundirá com a simples fantasia – a Coleção Argonauta tem publicado outras, que bem ilustram os novos rumos da S.F.: a curiosa e simbólica Estrada da Glória, de Robert Heinlein; a célebre Agência de Mágicos (Magc, Inc.) do mesmo autor (volume em que se inclui o texto fundamental: Waldo). Agora tem-se As Horas de Iraz, obra magnífica de um magnífico autor: L. Sprague de Camp. A ironia e o simbolismo juntam-se a cada passo de uma narrativa que decorre no mundo onde as nossas almas teriam existido, antes de descerem ao mundo mecânico em que vivemos. Mas a análise crítica de Sprague de Camp une esses dois mundos, nos seus defeitos e nas suas qualidades.    

10.28.2015

DANIEL DRODE




A SUPERFÍCIE DO PLANETA
Daniel Drode
Trad. Mário Henrique Leiria

"Hoje renunciei a atravessar a margem; custa a suportar este tempo bizarro em que o futuro e o passado estão juntos num mesmo plano com o presente. Chego a crer com satisfação que este tempo é simples, mas não me adapto a ele; sem dúvida é lógico, mas não para mim. Para dizer a verdade, já não vejo qual será a minha condição normal. O sistema aparece-me agora, num retrocesso a que a continuação da minha vida me força, aparece-me cada vez menos atraente. 
No começo da tempestade que rola sobre a minha ilha, tive um pesadelo que atribuí ao calor. Contudo estava acordado. Sim, engano-me ao pensar num sonho, isto tinha antes a consistência da visão. Uma visão, eis a palavra.  
A maquinação mostrou-se-me sob a forma de um engenho das eras bárbaras. Tudo o que existia com a finalidade de reduzir a espessura da vida subterrânea: a neutralização dos écrans visuais, a fechadura das portas, etc., imaginei-me, para produzir estes acidentes, um cilindro de carrilhão. Triste mecânica entre muitas outras, que fazia soar o tempo do alto dos campanários em forma de tabernáculo. Uma minuciosa desordem de pontas que batiam uma nota a intervalos regulares. 
O que nos criou devia ser a imagem destes cilindros: complicado mas preciso. Esgoto toda a comparação se acrescentar que uma mosca errando à volta do cilindro não compreendia a maquinação porque a música a atordoava – do mesmo modo éramos entorpecidos pela visão. Então, porquê não supor mais malignidade no detalhe? 
Mergulho no detalhe: o écran do fone não se teria apagado num dado instante, de um modo irreversível, mas de maneira brusca: ele teria funcionado em intermitências, ora. E isto com o fone e com a porta. Estas paragens e regressos ao movimento alternando-se confundiam-se na sua consequência: o recurso à visão, único elemento indefetível. 
Se pretender um corolário mais vasto tenho medo de mim mesmo. Assim – assombrosa possibilidade! – pode ser que tivesse conhecido Rana pelo écran e que em seguida a tivesse esquecido. É-me permitido crer, do mesmo modo, que o fone tivesse sido desligado sem que isso deixasse em mim um traço de despeito. Com tanta certeza, avançarei nisto: a porta ser aferrolhada nalguns momentos."
(Págs. 130/131)   

SIMONE DE BEAVOIR




"«Os nivelamentos são sempre por baixo», explicava-me ele. «Não conseguirás fazer subir a massa: acabarás somente por suprimir as elites.»"

In SIMONE DE BEAUVOIR
O Sangue dos Outros 

SIMONE DE BEAUVOIR




In SIMONE DE BEAUVOIR
O Sangue dos Outros 

"Ela sorriu:
– Gosto de chocolate e de bicicletas bonitas. 
– É melhor que nada.
Olhou de novo os seus dedos; ficara de repente com um ar triste. 
– Quando era pequena, acreditava em Deus, era magnífico; havia qualquer coisa que me era exigida a cada instante; então parecia-me que eu devia de facto existir. Era uma necessidade. 
Sorri-lhe com simpatia. 
– Creio que o seu problema é imaginar que as suas razões de viver deviam cair do céu já prontas: somos nós que as temos de criar!"

In SIMONE DE BEAUVOIR
O Sangue dos Outros
(Pág. 95)

DOSTOIEVSKI




"Todos somos responsáveis por tudo perante todos."

DOSTOIEVSKI

10.20.2015




"A geração é uma situação como a classe ou uma nação e não uma disposição." 

in SIMONE DE BEAUVOIR
A Força da Idade
Trad. Maria Auta Monteiro Costa
(Pág. 364) 

O PALIMPSESTO, de CHARLES BAUDELAIRE




CHARLES BAUDELAIRE
Paraísos Artificiais


O PALIMPSESTO

«Que é o cérebro humano senão um palimpsesto imenso e natural? O meu cérebro é um palimpsesto e o vosso também, leitor. Inúmeras camadas de ideias, de imagens, de sentimentos caíram sucessivamente sobre o vosso cérebro, tão suavemente como a luz. Cada uma parecia sepultar a anterior. Mas, na realidade, nenhuma pereceu.» Todavia, entre o palimpsesto que se apresenta, sobrepostas uma na outra, uma tragédia grega, uma lenda monástica e uma história de cavalaria, e o palimpsesto divino criado por Deus, que é a nossa incomensurável memória, há a diferença de que no primeiro existe como que um caos fantástico, grotesco, uma colisão entre elementos heterogéneos, ao passo que no segundo a fatalidade do temperamento põe forçosamente uma harmonia entre os elementos mais díspares. Por mais incoerente que seja uma existência, a unidade humana não é perturbada. Todos os ecos da memória, se se pudessem acordar simultaneamente, formariam um concerto, agradável ou doloroso, mas lógico e sem dissonâncias. 
Muitas vezes, viram acender-se no cérebro todo o teatro da sua vida passada. O tempo foi aniquilado, e alguns segundos bastaram para conter uma quantidade de sentimentos e imagens equivalentes a anos. E o que há de mais singular nesta experiência, que o acaso preparou mais de uma vez, não é a simultaneidade de tantos elementos que foram sucessivos, é a reaparição de tudo o que o próprio ser já não conhecia, mas que é no entanto obrigado a RECONHECER como seu. O esquecimento é apenas momentâneo; e em tais circunstâncias solenes, na morte talvez, e pelo ópio, todo o imenso e complicado palimpsesto da memória se desenrola de uma só vez, com todas as suas camadas sobrepostas de sentimentos defuntos, misteriosamente embalsamados naquilo a que chamamos esquecimento. 
Um homem de génio, melancólico, misantropo, querendo vingar-se da injustiça do seu século, lança um dia ao lume todas as suas obras ainda manuscritas. E como lhe censurassem este terrível holocausto feito ao ódio, que, aliás, era o sacrifício de todas as suas próprias esperanças, respondeu: «Que importa? O que era importante, era que estas coisas fossem CRIADAS; foram criadas, logo SÃO.» Atribuía a toda a coisa criada um caráter indestrutível. Como esta ideia se aplica, mais evidentemente ainda, a todos os nossos pensamentos, a todas as nossas ações, boas ou más! E se nesta crença há qualquer coisa de infinitamente consolador, no caso em que o nosso espírito se volta para essa parte de nós próprios que podemos contemplar com complacência, não há também qualquer coisa de infinitamente terrível, no caso futuro, inevitável, que o nosso espírito se voltará para essa parte de nós próprios que só podemos enfrentar com horror? No espiritual, tal como no material, nada se perde. Do mesmo modo que toda a ação, lançada no turbilhão da ação universal, é em si irrevogável, abstraindo dos seus resultados possíveis, todo o pensamento é inapagável. O palimpsesto da memória é indestrutível. 
«Sim, leitor, inúmeros são os poemas de alegria ou de desgosto que se gravaram sucessivamente no palimpsesto do vosso cérebro, e como as folhas das florestas virgens, como as neves indissolúveis do Himalaia, como a luz que cai sobre a luz, as suas camadas incessantes acumularam-se e, cada uma de sua vez, são recobertas de esquecimento. Mas à hora da morte, ou na febre, ou nas indagações do ópio, todos esses poemas podem reganhar vida e força. Não estão mortos, dormem. Crê-se que a tragédia grega foi expulsa e substituída pela lenda do monge, e a lenda do monge pelo romance de cavalaria; mas não é assim. À medida que o ser humano avança na vida, o romance que, mancebo, o deslumbrava, a lenda fabulosa que, criança, o seduzia, murcham e obscurecem por si mesmos. Mas as profundas tragédias da infância – braços de crianças arrancados para sempre dos pescoços das mães, lábios de criança separados para sempre dos beijos das irmãs, – vivem sempre escondidas, sob as outras lendas do palimpsesto. A paixão e a doença não têm química com poder bastante para queimar essas imortais impressões.»           

CHARLES BAUDELAIRE
Paraísos Artificiais
Trad. José Saramago
(Págs. 154/5/6)
Capítulo VIII 
VISÕES DE OXFORD

A POMBA




PATRICK SÜSKIND
A Pomba

"Há perguntas cuja resposta se adivinha na própria ocasião em que perguntam. E há pedidos cuja perfeita inutilidade se torna óbvia quando se pedem de viva voz e se olha a outra pessoa nos olhos. Jonathan olhou para os olhos enormes e sombrios da senhora Topell e soube instantaneamente que tudo era em vão, improfícuo, desesperado. Soubera-o antes, enquanto balbuciara a sua pergunta soubera-o, sentira-o no corpo, na queda do nível da adrenalina no sangue, ao consultar o relógio: dez minutos! E pareceu-lhe  que também caía e se afundava como se estivesse sobre um pedaço de gelo mole, prestes a derreter-se. Dez minutos! Quem seria capaz de coser aquele tremendo buraco em dez minutos? Ninguém. Absolutamente ninguém. E não se podia remendar o buraco na coxa. Era preciso pôr um reforço por baixo, e isso significava despir as calças. Mas aonde ir, entretanto, buscar outras calças, em plena secção de produtos alimentares do Bom Marché? Despir as calças e ficar ali em cuecas...? Inútil. Completamente inútil." 

in PATRICK SÜSKIND
A Pomba
Trad. Teresa Balté
(Pág. 63)



"O hábito cria raízes e toma a forma de instinto."

In DANIEL DRODE (Prémio Júlio Verne 1959)
A Superfície do Planeta
Trad. Mário Henrique Leiria
(Pág. 24)



"No diário de Delacroix, um provérbio sobre os críticos que se permitem eles próprios criar: «O que persegue duas lebres, nenhuma alcança.»"

In ALBERT CAMUS
Primeiros Cadernos
Caderno nº 6 - Abril 1948 / Março 1951
(Pág. 450)

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português