1.18.2022

Resiliência Original


 

RESILIÊNCIA ORIGINAL


Toda hora é passo dado

Em frente, mesmo sem sair,

Ir para qualquer lado

Onde o proveito do porvir

Nos traga algum resultado.


Hoje é sempre o primeiro dia.

Longa espera chegou ao fim.

Que, para brotar a poesia,

Há que nascer outro eu de mim.


O silêncio nada inventa.

O medo à dor nada diz.

Só perece quem não tenta…

Florir é dar vida à raiz!


Joaquim Maria Castanho



1.09.2022

Les Feuilles Mortes - Yves Montand - tradução

DA SOLIDÃO DAS FOLHAS MORTAS

 

DA SERÔDIA SOLIDÃO DAS FOLHAS


Afasto-me, nem sei para onde

Das nuvens escuras, doentias

Sob as quais o receio esconde

A pura inocência das poesias.


Dessa árvore de cuja fronde

Pendem os versos, as ousadias

A que hoje ninguém responde

Por vê-los como se folhas frias.


Mas é grande engano esse

Sobre o qual cai o julgamento:


Não há verso que ao soltar-se

Ainda que das mentes geladas

Não seja fogo, sentimento

Confissão labareda alento,

Lamento d’almas apaixonadas!


Joaquim Maria Castanho


1.07.2022

Lana Del Rey - Lolita

AS DISTRAÇÕES PAGAM-SE CARO

 

AS DISTRAÇÕES PAGAM-SE CARO



O meu relógio biológico avariou.

É bússola cujo norte está no sul,

E se o consulto pra saber onde estou

Apenas me afirma que tu já passaste

Ou, então, sério, diz «Ah, ainda não passou!»


Porém, em algumas manhãs, com céu azul

Jocoso, irónico, e feito traste,

Num tiquetaque de quem cala o que sabe

Faz-me esperar até que a manhã acabe

E, mesmo assim, quase nada me diz

A não ser: «Paciência… Foi por um triz!»


Joaquim Maria Castanho

1.04.2022

ÍNTIMA JANELA

 

JANELA ÍNTIMA
 
Oscila-me o ânimo conforme a luz
Embora o contrário também seja assim,
Que nada há na vida que se assine de cruz
E muito menos a maneira de ver-me a mim. 
 
Logo eu, que sou tal-qual são os demais
Onde as dúvidas também pintam semblantes,
E vou pra onde vão diferentes e iguais
Esquecendo quem foram um dia antes. 
 
Negócio de defesa instintiva será
Este brio se o sol lhe emprestou chancela,
Que é forma do céu ver quem na terra está
Sem sequer abrir as persianas à janela!
 

12.25.2021

Ladyhawke • I'll Stand By You • The Pretenders

A BOCA DO TEMPO

 

A BOCA DO TEMPO



A grande solidão do mundo

Abateu-se sobre mim, ser ínfimo e moribundo

Que habita paredes-meias com o tempo frio

E o silêncio verde-escuro das agulhas dos pinheiros,

Para perguntar de vez «Quem mais pode: o rio

Que leva as águas dos choros derradeiros

Ou a certeza matemática do calendário

Quando solta mais uma folha ao vento

E exige que o consultes ao contrário

Da última prà primeira, até perderes o alento

Das páginas a que te amparaste a vida inteira?»


E eu respondi: «Nem um, nem a outra;

Que quem mais pode, cá como no Além,

Molda as solidões com ligeireza pronta,

E faz com elas castelos de cristal diamantino

Onde nunca entrará mais nada nem ninguém

Que não tenha construído também o seu destino.»


Então, a grande solidão do mundo

Três vezes rugiu como um mostrengo três vezes

Lançou seu bafo ácido, grosso e imundo

Sobre quanto havia e não havia entre nós, e disse

Resfolgando em cada folha virada, mês a mês:

«Aqui, já nada sou, já nada faço.»

E o tempo sem fim, enfim de vez, abriu-se

Engolindo-a para assim fechar-se, de novo,

E retomar a sua própria forma na forma dum ovo

Onde os vestígios de boca não passam dum traço.


Joaquim Maria Castanho


12.04.2021

Dulce Pontes-Canção do Mar (videoclip oficial)

É JÁ (TÃO) QUASE NOITE

 


É JÁ TÃO QUASE NOITE


O valor dos dias e das gentes

Está em serem diferentes.


É tão meio-dia quase noite

Quase pouca luz a findar,

Mas que o verbo nos acoite

Enquant’a nossa voz soar.

Que os dias como as gentes

É por serem iguais que serão

O fulcro da luz e da razão...

– E mais sãos se diferentes!


Joaquim Maria Castanho

11.29.2021

BOM DIA!

 

Bom dia!


O princípio é o verbo

Depois o dia corre sereno

Murmura, conversa, é acervo

Enleio, esse labirinto

Tão grande e tão pequeno

Que nele cabes e me conservo

Desde o detalhe ao infinito…


Joaquim Maria Castanho

11.24.2021

COMPROMISSO VERBAL

 


COMPROMISSO VERBAL


Meto o verbo devagar

Que o lugar da fala

Quando falo por falar

Digo, e a voz exala

O mesmo falar exíguo

De quem ama ama (e cala).


Então nesse declarar

Que não diz mas declara

– Raiz de amarar no lodo –

Eis que por tanto amar

Até o verbo o calara

Sabendo-o o mundo todo.


Joaquim Maria Castanho

11.22.2021

HUMILDE PINTOR


 

TODO O POETA

                               É 

                                   UM HUMILDE 

 

                         PINTOR



Há sempre poemas escritos

Entre cada folha que cai.

Atiro os olhos ao chão e leio-os

Ante o assombro do vento

Que lhe segura a luz até ao fim

De encontro ao caule e veios

Peito aberto, ramos a oscilar.


Sei cad’uma de suas cores de cor

Mas não me atrevo a pintá-lo,

Que se o outono está usá-lo

É por pensar num poeta maior…


Joaquim Maria Castanho



11.21.2021

VERDE ARDENTE

 


VERDE ARDENTE


Eu recordo o teu olhar, a tua trança

Com’esta paisagem se lembra do verão…

É um ver de há pouco que já não alcança

– E uma folha a arder quase tição!


Joaquim Maria Castanho

 


 

11.20.2021

LUSITANIDADE

 

LUSITANIDADE


Corremos riscos, se amamos,

Entrançados plo destino.

Que a vida chama… Nós vamos.

Viver é ser peregrino!


Joaquim Maria Castanho

11.19.2021

PALAVRA ATUANTE


 

PALAVRA ATUANTE


Enquanto ato, atuo

Sabe-se lá por quê,

Em que distância…


E se digo, logo fluo

Em palavra que se vê

Nascer da própria infância.


Joaquim Maria Castanho


11.16.2021

CISMA

 

 

C I S M A


Há um ENIGMA na minha vida

E creio que veio pra se demorar

Tanto, que receio, mal ela cumprida

Continue eu na outra o mesmo cismar…


Joaquim Maria Castanho

A LEITURA É NÃO


 

A LEITURA NÃO É UM HÁBITO


Que a leitura não é um hábito

Ou sequer semente que se semeia,

É necessidade d’homem prático

– Radicalidade que também medeia…


Disso ninguém tem dúvidas sérias

Que não tenham propaganda à mistura,

Nem faça do trabalho umas férias

Passadas à custa da literatura!


Joaquim Maria Castanho

11.15.2021

DO SILVAR DO VENTO

 

DO SILVAR DO VENTO OUTONIÇO


De vez em quando, uma folha cai…

Então, o caminho aloirece.

Mas este rio continua, e vai

Pra lá da sombra que o escurece.


Afluente de outros maiores

Senhor dos vales e das escarpas,

E das silvas que já foram flores

Agora (h)ouve silvos

Entre margens cativos,

Sem violas e sem capas

Altivos, mesmo sem hinos nem harpas.


Joaquim Maria Castanho

11.08.2021

ESTRELINHA LINDA

 

AH, ESTRELINHA LINDA!


Seja a voz serena eco murmurado

Algo descido à noite aparecida,

Para que o dia ao ver-se recordado

Não esqueça no breu a sombra diluída.


A sombra do que foi e podia ter sido

Se não tivesse claudicado finalmente

E ao fim de tantas horas adormecido,

Talvez julgando que a nossa gente

Se calara só por supo-lo já cumprido.


Mas é falso, disse-lhe uma estrela

Depois outra, e outra, e mais outra enfim,

Até qu’o firmamento acabou por vê-la

Com’olhar daquela que só me lembra a mim.


Joaquim Maria Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português