A
BOCA DO TEMPO
A
grande solidão do mundo
Abateu-se
sobre mim, ser ínfimo e moribundo
Que
habita paredes-meias com o tempo frio
E
o silêncio verde-escuro das agulhas dos pinheiros,
Para
perguntar de vez «Quem mais pode: o rio
Que
leva as águas dos choros derradeiros
Ou
a certeza matemática do calendário
Quando
solta mais uma folha ao vento
E
exige que o consultes ao contrário
Da
última prà primeira, até perderes o alento
Das
páginas a que te amparaste a vida inteira?»
E
eu respondi: «Nem um, nem a outra;
Que
quem mais pode, cá como no Além,
Molda
as solidões com ligeireza pronta,
E
faz com elas castelos de cristal diamantino
Onde
nunca entrará mais nada nem ninguém
Que
não tenha construído também o seu destino.»
Então,
a grande solidão do mundo
Três
vezes rugiu como um mostrengo três vezes
Lançou
seu bafo ácido, grosso e imundo
Sobre
quanto havia e não havia entre nós, e disse
Resfolgando
em cada folha virada, mês a mês:
«Aqui,
já nada sou, já nada faço.»
E
o tempo sem fim, enfim de vez, abriu-se
Engolindo-a
para assim fechar-se, de novo,
E
retomar a sua própria forma na forma dum ovo
Onde
os vestígios de boca não passam dum traço.
Joaquim
Maria Castanho