Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
12.24.2016
12.20.2016
TRÊS HAIKUS SOBRE URUBUS
TRÊS HAIKUS COM URUBUS
1.
E urubus avançam sobre a carniça
Mas, na derriça,
Não a alcançam.
2.
Há urubus insanas
Que urubusam
Pela liça, como manas.
3.
Mais se diz sobre urubus
Só com um verso
Do que com três haikus!
Joaquim Maria Castanho
(Nota:
HAIKU – género de poesia japonesa que emprega, geralmente, alusões e comparações. O haiku é formado por três versos sob um número total fixo de sílabas: dezassete ou dezanove.)
12.19.2016
PLAUSIBILIDADE
VERSÃO PLAUSÍVEL
Sob as pálpebras
O poema perfeito,
A sílaba divina;
E, do mesmo jeito,
Entre álgebras
O céu azul ensina
À nuvem o caminho,
O vento peregrino…
A cruzada é ímpar…
Viés imperecível,
Esquina ao destino
– Mas concreto só o olhar
Entre tudo o mais:
Versões especiais
Do que é plausível.
Joaquim Maria Castanho
GRATIDÃO
OBRIGADO
Mereces cada sílaba deste poema
De reconhecimento, e de gratidão,
Pela maneira aprazível e amena,
Pelo jeitinho de fada, cujo condão
Faz magia, faz poesia pura, serena,
Tão natural ou dentro da ocasião
Que o sonho plural nasce na dimensão
Duma realidade que vale a pena…
É esse mistério, pérola do segredo,
Capaz de sepultar algum cemitério
Habitado pelos urubus do medo,
Que tentam implantar o preconceito
E a segregação como razão social;
Que fazem da ignorância um pleito
Para a estuporice do bem e do mal.
Joaquim Maria Castanho
12.17.2016
O SEGREDO DO OCASO
O SEGREDO DO OCASO
A Deus Sol, no seu carro de luz
Venceu todas as nuvens que havia
E dourou o céu com seus raios,
Magma de eternidade e poesia.
Estacionou com calma e perfeição,
Cruzou o espaço, gizou o destino
E ecoou no mais profundo de mim;
Ditou mágicos encantos ao dia,
Disse a vida sem princípio nem fim
Como plas notas dum salmo ou hino…
– E deixei de ser meu como soía!
Joaquim Maria Castanho
12.13.2016
12.12.2016
HOJE ENTREI EM ÓRBITA
HOJE ENTREI EM ÓRBITA
Vou, ao arrepio do tempo
(Cultivador de maturidade),
Enquanto as folhas e vento
Semeiam outonos na cidade,
E pintam a amarelo-torrado
Esses outros rodapés plo chão
Que esperam no Natal gelado
De caramelo cremado a nevão,
Percorrendo passo após passo
Erguido acerca do que faço
(Botaréus e socalcos de ilusão,
A espécie de véu e melaço
Que é a goma dos simples dias
Em que reverdecem as poesias,
Senão todas, mas principalmente
As que nascidas por encontrar-te
Descendo a rua com tua amiga/
/Colega, são essência da arte
Presença e parte suficiente,
Além de precisa), grão e espiga
Desse cereal, único âmbar
Sentidos e sentimentos, unidos
Num só, sem o juízo, sem julgar
Que os tornaria empedernidos,
Contrafeitos ou presumidos,
Antes do ser na alma os acatar…
Vou, dizia, passo após passo
Sem pensar em que pensar, e então
De repente ali, na minha frente,
És traço, e és ponto, e és traço
De um morse que só o coração
Ouve – e fico a girar no espaço.
Joaquim Maria Castanho
12.11.2016
O AMOR É UM SUPOR
O AMOR É UM SUPOR
Respiro devagarinho
Para não quebrar o encanto
Que me apraz sentir, tanto,
E desde que há pouquinho
Estive contigo a falar.
Nenhum pensamento ousa
Diluir-te desta mente,
Que tem por melhor coisa
Que já lhe aconteceu,
Este sentir que só sente
Quem pressente já não ser seu
O sentir que o agora tem.
Que se o bem vem ao pensar
O coração encontra calhar
Mal pense em bater por quem
Nos ficou no pensamento,
Já que procurámos alguém
Até ao encontro causar,
Como se nesse momento
Só quiséssemos encontrar
Essa pessoa e mais ninguém.
Que a procura é o ato
Cujo avesso tem as linhas
Que tateio como minhas
E me mostram se constato
T’encontrar onde suponho:
Bem juntinho nesta alma
Que nem supor arrumado
Por ti, com afeto, com calma
Onde perto, lado a lado
Ficam teus olhos e o sonho.
Joaquim Maria Castanho
12.10.2016
12.08.2016
NO DIA DE INANNA
NO DIA DE INANNA
Como por magia surgiste
(Saíste do carro familiar),
E o que era um dia triste
Virou sorte que não desiste
De surgir em qualquer lugar…
O acaso tece e entretece
Nos pleitos configurações,
Que o peito quase merece
O proveito das ocasiões:
Essência nascida dum nada
– Duma ínfima centelha só –,
Estrela a indicar estrada
Que nos coloca na peugada
Da Grande Mãe, chamada avó.
Da conceção também sabida
Na realeza dos pergaminhos,
Pela natureza da vida
Que é mãe de tod’os destinos.
Joaquim Maria Castanho
12.07.2016
EM SI MESMO, NENHUM PRINCÍPIO É UM FIM
NENHUM PRINCÍPIO É UM FIM EM SI MESMO
Aos princípios se reservam enfins
Derradeiras razões, últimos apelos,
Axiomas sem as asas dos querubins
Mas que de Sansão herdaram os cabelos.
São suma força dos mais destemidos.
São poder oculto que ao milagre convém.
São cunho pra moeda a câmbios idos.
São segredos escondidos de ninguém.
Todavia, contudo, porém, se adversos
São um salvoconduto prà injustiça
Do pensar mágico em novos universos…
Qualquer coisa que somente atiça
O autoconvencimento fundamental
Ao serviço dos velhíssimos bem e mal.
Joaquim Maria Castanho
12.06.2016
DO SUBLIME BATALHÃO
DO SUBLIME BATALHÃO
Prolongo teu olhar plo verso adentro
E deslizo o meu nos encaracolados,
Pendentes cachos, enquanto enfrento
A saudade de ti; e os contristados
Momentos transformados, como magia!,
Ganham asas, quais cavalos alados
À desfilada pla planície da poesia…
És a inspiração total, Musa eleita
Magnânime Senhora, dona e Prefeita
Deste reino ond’as sílabas soldados
São, e esgrimem rimas em seus combates.
E elevam sentimentos por estandartes.
Marcham a compasso e bater do coração.
E nunca mentem. Nem cometem traição!
Joaquim Maria Castanho
12.05.2016
MANOBRAS PERIGOSAS
MANOBRAS PERIGOSAS
Se às vezes o canto se degrada
E o verso corrompe a medida,
É por a poesia, se celebrada,
Se desviar da própria estrada
Que determinou pra ser cumprida;
E que por ser desvio, se desvia
Até das estabelecidas regras,
Correndo nos caminhos que havia
Bem no meio dessas milhentas pedras
Que juntou, pra fazer os castelos
Onde sequer as nuvens alcançam
Com palavras vis, defeitos tão belos,
Imagens – operários sem martelos
Que em vez de martelar rimas, dançam!
Joaquim Maria Castanho
12.04.2016
A FONTE DO SENTIR
A FONTE DO SENTIR
Tão breve como se um microssegundo…
Tão imediato como só um repente…
Tão valioso como todo o ouro do mundo…
Tão intenso como um metal fulgente
Foi, e é esse instante contigo perto
Que, por certo, viveria assaz contente
Ainda que fosse num cruel deserto
Entre agruras mil, e sob mil tormentos…
Que a felicidade nasce do sentir
Começado quando te vejo, assim
Real, gesto e palavra, em ser, em devir
Como se o tempo nunca tivesse fim,
E fosse unicamente esses momentos
Contigo, fonte de todos os sentimentos!
Joaquim Maria Castanho
12.03.2016
ÍNTIMO PREVENIR
ÍNTIMO PREVENIR
Guardo os teus cabelos, teu olhar
Teu jeitinho mágico de ser e estar,
No mais íntimo, e secreto, de mim,
Pra recordar nos dias em que te não vir,
Onde, por sentir tantas saudades tuas,
Chego até a ter vontade de morrer
Só para me pararem de doer…
Guardo egoísta, em segredo, enfim
Teu rosto de flor, de pérola, de luas
Que escrevem a prata, a nácar e marfim
Hinos de sonho n’alma, pra não esquecer
Teus gestos, doce e sereno encanto,
Pròs dias em que te não vir, e queira morrer
Só para pararem de doer,
Parar esse doer que doi tanto
De que o pranto
É o único modo de o dizer.
Guardo cada segundo de ti em mim,
Como valesse mais que a vida toda,
Para quando te não vir, possa assim
Ter uma recordação, quase bênção,
Que me salve do naufrágio, alta tensão
Da ânsia que me põe a cabeça à roda.
Joaquim Maria Castanho
12.01.2016
LETRA Z
LETRA Z
Zoom desde os A B C D’s
Alcança o zénite, aqui
Onde os comos e os porquês
Falam apenas do falar de si;
Das quadras e oitavas rimas,
Do desconserto do soneto,
Dos afetos e pintar de climas
Que dos poemas são esqueleto.
Do círculo redondo rosto
Pérola linda, nacar puro
Que ensina a rima e o gosto
Quando o sentir é seguro;
Que o carinho é flor singela…
– Ninho que à família perla!
Joaquim Maria Castanho
11.30.2016
LETRA Y
LETRA Y
Yollanda caiu de banda, Ya-
Ya sabe que os cravos murcham
À lareira secam ao frio;
Já não ordenam “EMPREGO JÁ!”
Se desfolham quando marcham
Saltam das lapelas no estio
Entre havanos e mariscadas;
E atravessam os oceanos
Pra ter as havaianas molhadas.
Nem swingam Yé-Yé no popó
(Caixa de fósforos andante),
Porque ainda só querem, tão-só
Ser yuppies mais adiante…
– Depois das Festas do Avante!
Joaquim Maria Castanho
11.29.2016
LETRA X
LETRA X
Xistos, ardósias, lousas, axiomas
Logística existencial pretérita
Que – oxalá! – deixem de ser sintomas
Da XPTO, cruel congénita
Incógnita, variável fundamental
Ampulheta, argila ou cromossoma
Da cultura e genética acidental…
Porque sem fé crê a razão acreditar
Em Xara, de Xarazade, é tutora
Excelsamente exímia e senhora
Do narrar que ao conto soma pontos
Cruz, nas linhas cruzadas desse contar
Com a excelência pelos encontros
Onde o Xis ganha alma – e é lugar!
Joaquim Maria Castanho
11.28.2016
LETRA W
LETRA W
Watt iluminador deste mundo
Capaz de gerar 1 J por segundo
(Mesmo sem Andy Warhol publicista),
Eis-se no pisca-pisca do instante
– Flash que não melhora nossa vista,
Nem sequer divulga o diletante –;
É o pirilampo das noites sem lua…
Não carece diesel, nem de alpista;
E não polui por qualquer combustão.
Mas se o virmos a cintilar na rua
Reconhecemos logo qu’é artista,
A bailar pela pista do negrume
Com tracejado digital de sim e não…
– Mostrando a razão de ser vaga-lume!
Joaquim Maria Castanho
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