9.01.2016

OS TRÊS POMOS SUBLIMES





OS TRÊS POMOS SUBLIMES 
(: ESTIMA, FIDELIDADE E RESPEITO)

Me enrolo nas palavras, tropeço
Nelas, exijo-lhes que «Falem!», «Digam!»
«Sejam!» imediatas, que não esqueço 
Os teus olhos nem o que eles ligam
Entrançam, Lua secreta, renovada… 
És a insubstituível luz, a fada
Da ternura, a que faz perto o distante, 
E de Atena, a eleita cintilante, 
Brisa da aurora e da madrugada, 
Meu último pensamento na jornada
E primeiro «Bom dia!» que tenho e dou.  

Se sorrio, é porque te vejo (e vi). 
Se a poesia existe, é pelo que tu és. 
Se amo a vida, e o sonho, devo-o a ti. 
Se sementes germinam, criação ousou
Então é porque és a vontade e os pés 
Com que na Terra o feminino caminhou. 

Porque em tua honra os três conceitos
Divinos são ora terrenos, e feitos
Pomos de afeto, se cruzam e descruzam
Numa trança eterna, mas celeste; 
E, mortais como eu, os respeitam 
E adoram, que se o mundo é agreste
Só eles ao sublime bem inspiram! 

Joaquim Maria Castanho

8.31.2016

PEQUENO ÉDEN




PEQUENO ÉDEN 

Há pétalas a florescer
Na trança de fios de luar, 
Em que um dia me pude ver
No avelã madura do olhar;
Sentir aroma de violetas, 
E reconhecer este lugar
Feito pra fadas e poetas… 
Pequenos sonhos, mágicos, 
Estrelas de Lua Nova, 
Odes, víveres práticos, 
Frutas, das cores e paletas
Cujo odor o sabor comprova. 

Mas, principalmente, alguém
Que me transporta à certeza, 
De ser outro Éden também
Simplicidade e beleza.

Joaquim Maria Castanho 

8.30.2016

OLÁ, AMIGA!




OLÁ, AMIGA!

Procuro-te como um cego
E não te encontro; todavia, 
Só a mim mesmo eu renego
Ante a desfaçatez do dia. 
Procuro-te, e à luz entrego
Toda a ânsia e melancolia, 
Que nunca nego, colo e prego
Nas costas doídas da poesia. 
Ela e tu são meu supremo bem; 
Destrinça entre ambas não há. 
A Ela motivas, mas és pra quem
A escrevo, ou sinto, ou digo. 

Procuro-te. E onde quer que vá
Contigo vou e só por ti (sigo!)

Joaquim Maria Castanho

8.29.2016

HUUUAAAUU




HUUUAAAUU

Me reescrevo desmagoado
Sílaba sílaba agora, 
Em teu rosto (disfarçado
Naquele que foi outrora 
Também da poesia motivo...) 

Só para lembrar-te... - e vivo! 

Joaquim Maria Castanho

8.18.2016

E AINDA HÁ ALGUÉM QUE SE PERGUNTE PARA QUE SERVE A EUROPA?




E AINDA HÁ ALGUÉM QUE SE PERGUNTE PARA QUE SERVE A EUROPA? 

Se “a lei pune os funcionários públicos e os titulares de cargos políticos, que, no exercício das suas funções ou por causa delas, solicitarem ou aceitarem, vantagem patrimonial ou não patrimonial, que não lhes seja devida” (conforme afirma NARCISO MACHADO, juiz desembargador jubilado, no artigo de opinião A lei e ética como limites da acção política, constante do jornal Público nº 9620, do XXVII ano, de 18 de Agosto de 2016), então é, no mínimo, absurdo que ao abrigo dos usos e costumes tal não aconteça, em Portugal, com a regularidade e frequência necessárias e suficientes para sairmos dos lugares cimeiros do ranking dos países mais corruptos da Europa. Principalmente porque a “autorização legisladora” nacional, de acordo com a ordem (constitucional) vigente recai e está centrada na Assembleia da República e no Governo, o que indicia, consequentemente, que foram os políticos, instituições e altos funcionários do Estado, no exercício democrático de que estavam imbuídos, que legislaram para os poderes executivos, igualmente democráticos, e em usufruto de um direito que lhes foi outorgado/consagrado, aplicarem na prática da governancia, quer institucional, quer governativa.  

Ou seja, em abono da verdade, ou à luz da sensatez, consciência cívica e ética de um Estado de Direito, que aconselha que sejam exatamente os políticos e funcionários públicos os primeiros a cumprir as leis, não somente para não perderem a autoridade moral que lhes concede o direito (merecido) de as imporem aos demais, mas também para emitirem um sinal de transparência e honestidade democrática aos paisanos do establishment, sociedade civil e tecido económico/empresarial, fazendo a pedagogia do exemplo, eis que são incontornavelmente estes a fugir à lei, a fintar a justiça, a ludibriar as intenções do legislador, fazendo da ordem jurídica letra morta. 

O caso voltou a ser verificável hoje, na proposta administrativa governamental para a Caixa Geral de Depósitos (CGD), em que das 19 personalidades que a integravam, só 11 foram aceitadas pela entidade reguladora para o fim em causa, o Banco Central Europeu (BCE), ou, mais rigorosamente 10,5 – uma vez que o próprio presidente da CGD se encontra em estado de exceção, acumulando à presidência do Conselho Administrativo da Caixa também a presidência da Comissão Executiva da mesma CGD, o que nos sugere haver já em ascensão uma nova estirpe de “donos disto tudo”. Digamos que tivemos sorte desta vez, porquanto fomos obrigados a cumprir a nossa lei, não porque fosse vontade expressa dos responsáveis nacionais, mas porque a Europa tutela neste capítulo da área financeira, o que nos deixa com a pulga atrás da orelha, pois se não fosse o BCE a interpretar e aplicar a lei, certamente esta seria cilindrada pelos célebres usos e costumes da tradição do, não obstante ela, a lei, “na terra do bom viver, faz-se como se vê fazer”, filosofia nascida do igualmente tradicional “uma das mãos lava a outra, e com as duas lava-se a cara”, e da cumplicidade pacóvia do “tu que sabes e eu que sei, cala-te tu, que eu me calarei”, tão ao gosto dos brexistas à portuguesa. 

É caso para dizermos que, felizmente, ainda vivemos em democracia e ainda integramos a UE – União Europeia… Que remédio! 

Joaquim Castanho

8.04.2016

ALMAS UNIDAS NUM SÓ ESPÍRITO




ALMAS UNIDAS NUM SÓ ESPÍRITO… 
Aguarelas de poesia e Encontro de poetas 2015/16
Coletânea – Edição de Autor

“Que tenho sereias que se despem de peixe
 Assim, na exata latitude de teu ser…”
In Joaquim Castanho
IÇADO (OURIÇO) DO MAR 
(Página 106)

Da explícita (ou implícita) simbiose que há entre a pintura e a poesia, nasceu um projeto que se configurou numa sequência de ações, eventos ou exposições, e que, finalmente, sob a coordenação de David Marques, revisão gráfica de Teresa Carvalho e patrocínio direto da Câmara Municipal de Torres Vedras e Junta de Freguesia Santa Maria, São Pedro e Matacães, se traduziu na edição de um livro de 298 páginas onde se reúnem e integram as colaborações a propósito de cerca de meia centena de poetas, dez pintores e algumas outras participações avulso, cujo resultado global é valorativamente superior à soma das partes, não só pelo seu contributo para a cultura do lugar, como também para a poesia, a língua portuguesa, a palavra escrita ou dita enquanto veículo de valores identitários e filosóficos, instrumento de marketing territorial, expoente de criatividade e estesia, ou elo de ligação entre gentes, localidades e regiões. 

Estruturado em VII Capítulos (Resumo biográfico dos poetas, Resumo biográfico dos pintores Aguarelas poéticas, O olhar interpretativo/poético sobre Aguarelas do Encontro Internacional de Aguarelistas 2015 – Santa Cruz, Olhar poético sobre o Município de Torres Vedras, Tema livre – De asas ao vento, Avaliação poética do Encontro de Poetas e O olhar interpretativo/poético sobre a Exposição “Aguarelas com Poesia”, de 19 de março a 2 de abril de 2016, integrada no Encontro de Poetas), tem o grande mérito de trazer para a ribalta do momento alguns poetas e algumas poetisas já nossos conhecidos, como igualmente muitos outros de que dificilmente ouviríamos falar ou, mais grave ainda, desconheceríamos o poetar, não fora esta oportunidade, como o são Abílio Manuel Carreira Santos, Ana Matias, Ana Rosa Pinto, António Alberto Teixeira Santos (Alberto Cuddel), António José Rebocho Arranhado Portela, António Manuel Esteves Henriques, António Matos Lopes Belo, Augusto Manuel Molarinho Andrade, Áurea Maria Justo, Carla Tavares, Carlos Cardoso Luís, Carlos Manuel Fernandes, David António Fonseca Marques, Elisa Pereira, Emanuel Lomelino, Florinda Timóteo Miguel Dias, Francisco de Assis Machado da Cunha (Frassino Machado), Hélder Neto, Helena Rocha Pereira, Joaquim Maria Castanho, Joaquim Ramos Pereira, Jorge Paulino-Pereira, José Alves Merello, José António Carreira Santos, José António de Jesus Gomes Adriano, José Vicente Faria, Liska Azevedo, Lucília Maria Barros Galhardo de Carvalho, Manuel Filipe Carvalho de Almeida, Maria Aline Mamede Rocha, Maria da Conceição Marques, Maria do Pilar Santos, Maria do Sameiro Matos, Maria Emília Lopes, Maria Graça Melo, Maria João Pedro, Maria Manuela Reis Frade, Maria Sousa, Marta Roml, Nicol Carmen Peceli, Olívia Maria de Andrade Guapo Ribeiro Faria, Renato Manuel Valadeiro, Rosa Martins e Vítor-Luís Grilo. Enfim, uma longa lista que corresponde a outros tantos poemas feitos com balizas determinadas e sob inspiração particular que, de uma forma ou de outra, nuns mais acentuadamente que noutros, se vão pouco a pouco libertando dos pomos pontuais motivadores para ingressar na esfera dos universais valorativos.  

Joaquim Maria Castanho 

7.23.2016

NA ARGILA DO VENTO




NA  ARGILA  DO  VENTO  

Dá-me a cor do coração da flor 
A prece de teus olhos maduros
Fruto da liberdade numa pétala
Dourada na doçura do sol,
Bem-me-quer a desfolhar dias 
Violetas perpétuas desmaiadas
Sob o azul do céu e da imensidão. 

Depois escreve tudo com ela 
Até mesmo qualquer mulher  
Pétala sobre pétala, seda macia
Frontispício ou alvará, magia
Líquida do verbo em ebulição.     

Dança e rodopia se preciso for. 
Adverte o silêncio dizendo-te. 
E cintila nas noites estreladas
Como um fogo-fátuo colorido
Dessas vozes tão luzes timbradas
A bichanar delícias ao ouvido... 

Segredos ímpares, asteriscos
Notas de rodapé, barras de saia, 
Alongamentos do grito, riscos
Que a natureza divina de si gizou
Em bailias de roda, princesa Maia 
Que primaveril maio também cantou. 
  
Apontamentos do livro da salvação
Do vento nas crinas soltas dum cavalo
Sorraia na loura planície do nosso pão
Onde o restolho alberga bandos de aves
(Perdigotos, rolas, cotovias, pardais...),
Atirando ao chão a roupa dos estendais,
Alisando pelo aos touros, polindo chaves    
Ah, esse quadro!... Como gostava de saber pintá-lo!

Joaquim Castanho 
(Foto: TERESA CORBETA)

7.19.2016

PRÉMIO CALOUSTE GULBENKIAN 2016




PRÉMIO CALOUSTE GULBENKIAN 2016 para FUNDAÇÃO AMAZONAS SUSTENTÁVEL 

Júri presidido pela ex-presidente da república portuguesa, Jorge Sampaio, distinguiu, de entre 75 candidatos, a organização ambiental brasileira Fundação Amazonas Sustentável como vencedora deste ano do Prémio Calouste Gulbenkian, cujo valor pecuniário está estabelecido em 250 mil euros, e que lhe será amanhã entregado numa cerimónia no Anfiteatro ao Ar Livre da Gulbenkian promovida para o efeito. 
Nascida da parceria formada entre o Banco Bradesco e o Governo do Estado do Amazonas, a Fundação Amazonas Sustentável instituiu-se como ONG (organização não-governamental) brasileira sem fins lucrativos com a missão de defender e valorizar a floresta, promovendo o desenvolvimento sustentável, a conservação ambiental e a melhoria da qualidade de vida das comunidades ribeirinhas do Estado do Amazonas, o que tem feito desde então, implementando com sucesso diversos programas que, só no ano passado (2015), envolveram 574 comunidades e beneficiando mais de 40 mil pessoas. 
Que seu esforço seja um exemplo, e seu mérito um estímulo a quantas mais no terreno pugnam pelo futuro nacional, regional e global da vida terrena.        

4.26.2016

"Fiat justitia, pereat mundus."




"Fiat justitia, pereat mundus."

(Se a justiça sucumbir, não mais valerá a pena que existam homens sobre a terra.) 

"De entre os deveres jurídicos, Samuel Pufendorf (1632-1694) destacou três como fundamentais: a) que ninguém cause danos a outrem (neminem laedere); b) cada qual trate o outro como igual em direitos (suum cuique); c) cada um apoia o outro tanto quanto possível." 

ARTHUR KAUFMANN, Munique - abril, 2000

3.15.2016

NO CHINFRIM DA'BALADA




NO CHINFRIM DA'BALADA 

Noturno abreviado
Como rondó de partida
Chora a ciranda em fado
Desfazendo fila à saída, 
Que o jardim irá fechar
Dentro d'imediatos versos, 
Repetidos ou diversos, 
Que até podem peneirar 
– E em requebros de sambar. 

São essa quinta coluna
Do exército fabuloso
Com que rimas, uma a uma, 
Gingaram no chão arenoso
Entre paredes de buxo, 
Alegretes de violetas
Trajando roxo de luxo
Para ouvir as trombetas
Que encerram a bateria, 
Todas guinchando tão certas
Que os vis ruídos destas
Chegam a "pracer" melodia. 

Joaquim Castanho 

NOTURNO  – composição para piano ou orquestra, de caráter ternurento ou melancólico.

RONDÓ – ária em que se repetem sempre os temas principais.

CHINFRIM – baile popular, arrasta-pé, algazarra de abalada.

3.12.2016

INTERPRETAR É PENEIRAR




INTERPRETAR É PENEIRAR 

Em fila caracoleamos
Entre sebes e alegretes, 
Nesta ca(u)sa de que somos
Aprendizes ou cadetes; 
Causa de casa prevista
Diz a previsão causada, 
A condizer, por ser mista, 
Com a ideia formada. 
E diz também que o dizer
Em causa é entendido
Por essa maneira do ver
Somente nela vertido;
Ca casa da causa convém
Mandado volteio geral,
Por ser a causa de ninguém
Qu'é casa pra todos igual.    

Joaquim Castanho

3.01.2016

JUÍZO DE REALIDADE




JUÍZO DE REALIDADE 

Conducente é a prova
(Inegabilidade pura)
Se o verbo não estorva
A lucidez, e segura
Capricha pela atuação, 
Sem hesitar no «SIM» ou «NÃO». 

Do enredo é perita. 
Da trama, nó fundamental. 
E argumenta expedita
Sem tropeçar com a moral. 
Mas à culpa castigo dá;
E inocenta quem o está. 

Porque nessas duas faces
Tão distintas, tão iguais,
Está do que somos capazes
Como humanos e... mortais. 

Joaquim Castanho 
 
(O JUÍZO DE REALIDADE é aquele que enuncia factos ou que incide sobre relações entre factos; é um juízo que afirma ou nega a realidade de um fenónemo. O juízo de realidade opõe-se ao juízo de valor, e também se designa usualmente por JUÍZO CONSTATIVO, JUÍZO POSITIVO.) 

2.25.2016

SOSLAIO




SOSLAIO 

Cada fim é um meio
Na senda de seu fim,
Nesse doce enleio 
Por que nascem flores, 
Primaveras, cores
Lavandas, alecrim. 

Aves vestem plumas. 
O céu, estrelado. 
E as moças... Algumas,
Só nos olham de lado! 

Joaquim Castanho 


2.23.2016

RAZÃO SOLAR





RAZÃO SOLAR

Balança-me a saudade
Sobre estas águas e luz,
Prò resto da eternidade
Que o teu olhar traduz.

Seu fulgor tem a mansidão
Dos socalcos que desceu, 
Como ouro a dourar razão
Na razão co Douro lhe deu. 

Joaquim Castanho

2.22.2016

NO SILÊNCIO A VOZ




NO SILÊNCIO A VOZ 

Sou sinal de porta aberta
Dum futuro que já me disse,
No escuro da rota incerta
Pra que teu peito se abrisse. 

E se me cruzo com o teu olhar
Num impulso respiro o mar
A que o rio me deitou um dia... 

Mas nesse querer que é esperar,
Com que se é porto ou lugar,
A luz me faz foz por magia!

Joaquim Castanho 

2.21.2016

CORRENTE DE APORTAR




CORRENTE DE APORTAR

Meus dias já foram pardos
Tão sem norte, tão sem brilho
Quas'enseada de cardos, 
Da morte me senti filho. 
Voguei em mar cavado, 
Por mar chão adornei sentir, 
Entre margens fui meu lado
Vaga a descer, onda a subir. 

E desse céu que espelhei
Quantas vezes bem agreste, 
Aportei rabelo sem lei
Só plo néctar que me deste. 

Joaquim Castanho

2.11.2016

TUDO NA ROSA É REGRA E NORMA




TUDO NA ROSA É REGRA E NORMA

Minha regra é norma aberta
Escrita na ordem vigente, 
Qu'é onde a lei me desperta
Positiva e naturalmente... 
Suas pétalas de mel em flor, 
Sorriso de pepita dourada, 
Incrustada na alma sem dor 
Ao ser pla brisa desfolhada.

Se tem espinhos, eu não o sei; 
Se quer infinitos, não mo diz. 
Amar o próximo é ser a lei –  
Poder d' inspirá-la sem ser juiz.        

Joaquim Castanho

2.08.2016

FÉ




FÉ 

A impertinente Felicidade, que ainda é jovem mas se não chama também Maria, estava, num dia assim, exatamente como hoje, fazendo nada, com todo o cuidado e esmero, que é coisa mais difícil de fazer do que qualquer outra que se conheça, quer por experiência tida, como contada, exceto esquecer, pois que para isso, se exige muita perícia na escolha e abnegação na armazenagem, caso contrário, a gente fica a esquecer aquilo que quer recordar e a lembrar tudo quanto importa esquecer.

E do nada surgiu uma flor. E depois um rosto, que embora de corpo oculto, já se lhe podia vislumbrar o espetro das mãos. Precisamente como se fosse um sol incrustado no horizonte da tarde ou uma lua pendurada da noite, suspensa por invisíveis e misteriosos fios (da trama suspeita e, às vezes, até tenebrosa, dos sonhos, que são sempre desconhecidos por nós nela, como pelos efeitos de ressaca com que desassossegam os espíritos, os corpos e as culturas, a que à imaginação e fantasia não têm muita afeição). 

Creio que era um lírio, uma açucena... 

Ante a brisa estremeceu breve. Pulsou num esgar sob as gotículas do nevoeiro vespertino, sorriu para o nada da menina que, encantada com o tamanho prodígio desse nada que lhe foi tudo, suspirou profundo, estremunhada, e cochichou  murmurando para consigo mesma: «Nestes momentos, coisa nenhuma do que me parece é; e, contudo, sem eles nunca serei.» 

Felicidade, quis eu chamar-lhe. Porém, ela metera os pés ao caminho...e, quando finalmente, proferi a primeira sílaba do seu no nome, ela já ia demasiado longe para me ouvir. 

Joaquim Castanho 

2.05.2016

POR QUE AMANHÃ É SÁBADO




POR QUE AMANHÃ É SÁBADO


Em Uruk, na eduba do templo a Inanna, foi encontrada nos princípios do século passado, entre os algures do tempo, do modo e do lugar, um cofre, uma caixa guarnecida a ouro e prata, com pedras preciosas incrustadas, dentro da qual estavam seis tabuinhas, que se supõe terem sido consideradas sagradas pelas vestais. 

Na primeira, estava vincado, cunhado, escrito, assim: «a cada qual o mesmo que aos seus pares». Na segunda dizia que «a cada um segundo os seus méritos». Na terceira, que «a cada qual conforme as suas obras». Na quarta «a cada um na estrita observância de suas necessidades». A quinta afirmava que «a cada qual de acordo com o que lhe é devido por lei». E a sexta, concluía, que «a cada um consoante a sua posição, responsabilidade e obrigações». Porém, depois desta, havia uma prateleirinha idêntica àquelas onde repousavam as citadas tabuinhas, mas vazia. 

Os estudiosos, arqueólogos, antropólogos e historiadores, conjeturaram ter havido nesta uma sétima tabuinha; e, não obstante, a sua azáfama e acuidada busca, o que é certo, é que não encontraram mais nenhuma, fosse onde fosse, nas ruínas da eduba, nem na nas de sua proximidade. Alguns alvitraram que essa lacuna se devia a alguém a ter retirado, talvez para ministrar culto ou ter presente nos rituais sagrados, não voltando a depositá-la no lugar, por qualquer incidente ou contrariedade ocorrida. 

Terão a sua razão... Talvez. Desconheço-o em absoluto. 
Todavia, creio que nunca lá esteve. Que a sua falta é mais significativa do que a sua presença. Que ela seria um separador... Que ela devia ser o sábado de culto, o sétimo dia, a folga da eduba e do templo. Enfim, que ela era a pausa de reflexão para a consciencialização cívica feita durante os seis dias anteriores. Até porque desconfio que foram elas, essas vestais de Inanna, que instituíram os dias da semana de acordo com o seu sistema hexagonal, e que desde então continuam a ser seis mais um, o separador, não obstante se ter adotado o sistema decimal desde os últimos milénios da nossa civilização. 

E, porque hoje é sexta-feira, vou apenas chamar-lhe amanhã. Não só por ser sábado, mas também porque ainda não foi escrita, e talvez exista alguém no futuro, alguém com nobreza de caráter e de coração ou inteligência suficiente para a escrever. Quem sabe!  

Joaquim Castanho 

2.04.2016

Legisladores e filósofos





"Aos legisladores cabe a missão de, em correspondência com os desejos da comunidade de que são representantes (e pela qual serão também responsáveis), elaborar leis justas, e aos juízes de as aplicarem com espírito de igualdade; aos filósofos, porém, cabe a de serem porta-vozes e defensores dos valores universais, logo, válidos para toda a humanidade." 
KK

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

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Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

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