ABRAÇO ESSENCIAL II
Aposto-m'em cada passo
Na procura do teu olhar,
Refletido nest'abraço
Que ninguém poderá julgar
Sem deturpar a imagem
Em que a água acredita,
Exilando-a da margem
Onde bate extasiado,
– Porque em febril cuidado –
O coração que a edita.
Joaquim Maria Castanho
(C/foto de Elie Andrade)
DEPOIS DA FALA
Ondula, baila, baloiça
Oscila um ósculo lunar
– Digo-o pra que ninguém oiça… –
Num brinco que me faz baloiçar.
Qu’isso que a fala aprende
Mal a língua nos pronuncia,
É um ósculo que nos defende
Das agruras do dia-a-dia
Mesmo que não seja tão real
Como o sonhámos tanta vez
É ideal que à vida prende
Quem oscila, balança, porfia;
Quem baloiça assim todo o mês
Entre o menos bem e o menos-mal.
Joaquim Maria Castanho
153.DO GRITO, A FALA
Inspiro o que me há de expelir
E anseio na sombra me soletro,
Mas s’ouvir bater à porta, entro
E abro-a prò sol poder sair,
Que a vida é fulcro, é centro
Que as pétalas mostram ao abrir,
Qual grito que não querem calar
Pra erradicar desavença e dor.
Então, já embevecido raiar
Vejo-te sorrir num gesto de flor
Que não receia o querer falar…
– E a língua inventou o amor!
Joaquim Maria Castanho
DEPOIS DO UIVO, O GRITO
Para discernir seguro e inteiro
Quem o coração elegeu primeiro
Não há receita já pronta e feita,
Nem medida tirada com preceito
Que a margem do afeto é estreita
E a atração também cresce no peito…
Porém, se o verbo jungir surgir, vier
E exigir pouco a pouco ser conjugado
Em todos os tempos e modos que tiver,
Desço do poema como quem se apeia
Dum uivo, e de propósito se enleia
Nele, pra poder gritar quanto quiser!
Joaquim Maria Castanho
UM HAIKAÍ (alentejano)
Howl,
Daisy...
I'm so crazy
(For you).
Joaquim Maria Castanho
"Adiante, os leitores vão ficar com uma ideia do que mudou durante a revisão, o que, espero, permita permita mostrar que um livro nunca é criado por uma única pessoa. Os livros, tal como a maior parte das minhas coisas favoritas, são feitos de colaborações."
JOHN GREEN, in À Procura de Alaska
A cultura não tem credo nem regime, não é de esquerda nem de direita, quer ser livre, inovadora e sustentável, diversa, emancipada, responsável, emancipada, harmoniosa e socialmente responsável.
A QUEBRA
Vejam: a próxima linha
Não tem sentido nenhum...
Ninguém sabe onde fica;
Ninguém sabe pra onde vai.
Não há sons que a digam
Nem palavras pra desenhá-la,
Mas somente esse clique
De alinhavo que se esvai,
Bater de dentes ao cortá-la.
Joaquim Maria Castanho
O MELHOR AMOR
Bebe água, a rolinha
Enquanto a ideia choca;
Um dia será apenas minha
E o canto, de quem a sufoca
A desfoca
A desloca ao pronto observar.
Se tem sede, não é de beber...
Se aspira, não é pra respirar...
Mas se vive é por crer viver...
Qu'o maior amor é crer amar.
Joaquim Maria Castanho
MIRAR (IN)DISCRETO
Há, ao fundo,
Uma cidade
A espreitar a flor...
– Então, é verdade
Que todo o mundo
Tem o anseio profundo
De guardar o amor!
Joaquim Maria Castanho
(Foto: Beluxa Gto)
CORRENTE INEVITÁVEL
Esfrego o rosto,
Sacudo a cabeça...
Mas mesmo assim, aposto,
Não é certo que te esqueça!
Joaquim Maria Castanho
(Foto: Zélia Mendes)
"Quando a gente quer olhar tudo, acaba descobrindo o que há de feio no mundo."
Erico Veríssimo, in Música ao Longe
"O mundo é um saco de pecados e cada um arrasta a sua penitência"
JOSÉ CÂNDIDO DE CARVALHO
in O Coronel e o Lobisomem
CONTRARIEDADE
Chove, pinga, troveja...
Então, fico em casa
O coração em brasa,
Mas cara d'ora-veja!
Joaquim Maria Castanho
XEQUE-MATE
Deste-me xeque-mate
Numa simples jogada,
Pérola de quilate
Preciosa e dobrada.
Foi um tiro preciso
Exato, limpo, sem dó,
Que me põe num sorriso
Pronto para dar o nó.
Deste-me xeque-mate...
– E numa jogada só!
Joaquim Maria Castanho
LUA NOVA
Eu andava à deriva
Por falta de notícias
Daquela que é cativa
Em outras frias paragens
Onde não há delícias
Onde não há estiagens...
Ora sou preocupação:
Não resta senão esperar
Que a Lua cresça e então
O Sol a ajude a brilhar.
Joaquim Maria Castanho
A FLOR DESCARADA
Procura devagar
Até encontrar
Entre sombras, ali
A residente flor.
É a que escolhi.
E embora sem par
Seja, das do lugar
Símbolo de amor.
De alva pureza,
Amistosa na cor...
– Mas a sua beleza
'Tá em não ter pudor!
Joaquim Maria Castanho
(Foto: Beluxa Gto)
O NEGÓCIO DUM ZÉ-NINGUÉM
Na tristeza e na revolta,
Na grande solidão dos dias,
Oh amor, és uma escolta
Pràs difíceis travessias!
És essa prisão que nos solta.
És a sisudez das alegrias.
Imagens do que há em volta;
Metáforas do medir verbal.
Devendo-te incluir também
Na destreza com que nos guias
Nessa circular que nos mantém
Em órbita, mas não é astral…
Antes terrena, comercial
Onde Ninguém vende poesias.
Joaquim Maria Castanho
QUASE VOO DE LUZ SOLAR
Há pessoas que nos descem pela alma
Como se flama de cabelos celestes.
Cujo sorriso desenha beleza calma
E dança madrugadas de luz oriental
Aspergindo flores – estevas silvestres...
Lídimas proezas em solução plural
Que cremos respirar, se já alvorece
Irradiando sonho, todavia tão real
Qu'o sentir nasce e voa, mas permanece.
Joaquim Maria Castanho
SONETO COM SABOR
Esticou-se o malandro na labuta
Que a refrega trazia obrigações,
Qu’o mais nobre dos nobres também luta
Plo seu quinhão entre tantos comilões.
Se foi carimbado prà dita conduta
Todas e todos conhecem suas razões,
Pois nesse dia nem sequer comeu fruta
Por ter medo de se borrar nos calções.
Muito se susteve, tanto se segurou
Que ainda hoje lê, pensa, e escreve
Com as letras tintas e brancas que ganhou –
Tudo gorduras puras, sãs e cristalinas
Tal qual demais meninos e meninas.
Joaquim Maria Castanho
(Excerto de foto de Cesaltina Miranda)