1.18.2017

A REGRA DE OURO




A REGRA DE OURO

Tenho a distância num barco
Que te há de um dia trazer, 
Pois todo o sentido é parco
Para quem se quiser devolver.
E eu me devolvo envolvido
Já naquilo que pra ti serei: 
Remada com muito sentido
Em todos os sentidos da lei.

Joaquim Maria Castanho

1.17.2017

FATALIDADE




FATALIDADE 

"Aquele que me adorar está perdido"
(Inscrição da estatueta da deusa Vénus Ibérica)

Se sol brilha, é tua voz que me abraça… 

Sei que há esperança, e dela partilho. 
Sei que podemos escrever o destino, 
Inventar nosso trajeto, nosso trilho;
E que crescer é ganhar independência
(Perder os dependeres de menino). 
Mas de todos os vícios que apanhei
O de ti é o único que me não passa 
– Que és a cura por que me desgraço. 
E se à noite a mim mesmo afianço
Que hei de pôr cobro à dependência, 
Eis que novo dia nasce, e alcanço, 
A certeza pura de minha essência: 
Prefiro mil vezes viver em desgraça! 

Joaquim Maria Castanho

1.16.2017

AO LUAR MATINAL




LUAR DA MANHà

Se não fossem os velhos marretas
Hoje, fazia-te um lindo poema; 
Mas assim, pra evitar as petas
Não o faço... – O que é pena! 

Joaquim Maria Castanho

1.14.2017

ALGODÃO DOCE




ALGODÃO DOCE


Estou combalido?
Sim. Com o quê?
Com a sorte, que não me quer;
Com a vida, que não me pensa.
Como se a última, fosse mulher
Mãe da segunda
E avó da primeira – a ofensa.

É um encanto que arrelia,
Uma arrelia que não foge,
Como esse niquinho de lã
A voar no bico do hoje.

Joaquim Maria Castanho

PAGAR O PATO




ACERCA DO PAGAR O PATO


Dizem da verdade ser relativa,
Qualquer coisa de menor monta,
Pondo a ênfase superlativa
Em  «O ponto de vista é que conta!»

Não me faria dano, nem afronta
Se virasse regra imperativa
O que tamanho dislate aponta;
Contudo, se tomar parte ativa
Importa registar, meus amigos
E amigas, com voz grave e rouca,
Para que evitem maiores perigos
Não ser de somenos, nem coisa pouca
O facto de uns comerem os figos
Quando a outros arregoa a boca! 

Joaquim Maria Castanho

1.07.2017

MAL ME QUER, BEM ME QUER




BEM ME QUER, MAL ME QUER

Sufixo germinável, o ramo
O galho, esse em que pousaste
No último dia do velho ano
Quando – e por bem! – achaste
Ouvir o cante com que te chamo
Onde o vento, pelo caminho,
A varrer, cumprindo tradição, 
Escolheu como seu destino
Entrançar, raminho a raminho, 
Uma espécie de ninho
Para acolher o coração... 

Talvez o nosso, que é tão maior
Do que o órgão de cada qual, 
E por cujo compasso abre a flor
Pétalas em binário (digital). 

Joaquim Maria Castanho

1.04.2017

ALMA TRAIDORA


ALMA TRAIDORA

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
17:22
Passas por mim como uma gota de sol
E trazes advérbios que esplendem,
Porém calado, no suspense, em bemol
Eis-me rendido e os olhos só dizem
Quanto te pertenço (unicamente).
Contudo, não me traem, pois nem notas
Já que ágil, ou lesta, te distancias
Cerzindo com determinação as rotas
Do afazer nas tardes dos teus dias…
 
Quero gritar, mas com a boca fechada
Para dizer-te que penso, e que sinto,
E de como tudo é ora diferente;
Então, nesse instante, alvoraçada
Esta alma que me pinta no que "pinto"
Deixa-me só na solidão da estrada…
Só pra seguir contigo à minha frente!
 
Joaquim Maria Castanho 

1.03.2017

ME ANINHO EM TEU NINHO




ME ANINHO EM TEU NINHO 

Só entre sombras sobramos
Apontamentos na margem difusa
Pétalas no capim dos tempos
Bredos pisados, bermas de várzea… 
Víssemos distância do breve ao perene
E soubéssemos o coaxar dos pauis… 
Se teus passos ecoassem nas veredas
Linhas de sangue, caudal sôfrego 
Intenção de ver-te em contínuo presente, 
Nenhuma história teria folhas caducas
E tua casa seria invisível para quem passa. 

O teu salto no vazio – o primeiro voo! 

Joaquim Maria Castanho    


O PÃO DOS AFETOS





O PÃO DOS AFETOS  

Saudade sem distância
Ou viagem sem partida, 
São vizinhos desta ânsia 
De quem sobe pla descida; 
De quem balança os braços
Ao lés a lés de si mesmo, 
E fica preso nos laços
Que armou neste torresmo
Pra caçar, na desventura,
Algum préstimo ou sorte, 
E cultivar com ternura 
O esquecimento da morte 
– Negra ceifeira do pão 
Feito com o joio da razão! 

Joaquim Maria Castanho   

12.28.2016

AS PESSOAS CONSOMEM-SE

  


AS PESSOAS CONSOMEM-SE
Adultas, infiéis, na espera
Do impossível, da idolatração
Como se pudessem apagar-se
Por cada novo dia, outra noite
Outra maneira de usar-se
De comunicar com a própria fera
A sua alma maldita, a razão
Perdida numa esperança que se afoite
Que se retempere em cada ilusão
De força de alerta, grito de dar-se
Permitir-se, e igualmente libertar-se
A soletrar promessas incumpridas...
De quem se esmera.

J Maria Castanho

12.24.2016

SORTEIO DE NATAL




SORTEIO DE NATAL 

Estimado cliente: 
Após repasto conveniente
E um grão na asa, 
Apraz-nos informá-lo
De que este ano, o galo…

Saiu à casa! 


O presidente do Conselho Executivo
Joaquim Maria Castanho

O presidente da Assembleia-Geral 
Joaquim Castanho

O presidente do Conselho Fiscal 
J. Maria Castanho 

12.20.2016

TRÊS HAIKUS SOBRE URUBUS




TRÊS HAIKUS COM URUBUS
  
1. 
E urubus avançam sobre a carniça
Mas, na derriça, 
Não a alcançam. 

2. 
Há urubus insanas
Que urubusam
Pela liça, como manas. 

3. 
Mais se diz sobre urubus
Só com um verso
Do que com três haikus!  

Joaquim Maria Castanho 

(Nota: 
HAIKU – género de poesia japonesa que emprega, geralmente, alusões e comparações. O haiku é formado por três versos sob um número total fixo de sílabas: dezassete ou dezanove.)

12.19.2016

PLAUSIBILIDADE




VERSÃO PLAUSÍVEL 

Sob as pálpebras
O poema perfeito, 
A sílaba divina; 
E, do mesmo jeito, 
Entre álgebras
O céu azul ensina
À nuvem o caminho, 
O vento peregrino… 

A cruzada é ímpar… 
Viés imperecível, 
Esquina ao destino 
– Mas concreto só o olhar
Entre tudo o mais: 
Versões especiais 
Do que é plausível. 

Joaquim Maria Castanho


GRATIDÃO





OBRIGADO 

Mereces cada sílaba deste poema
De reconhecimento, e de gratidão, 
Pela maneira aprazível e amena, 
Pelo jeitinho de fada, cujo condão
Faz magia, faz poesia pura, serena, 
Tão natural ou dentro da ocasião
Que o sonho plural nasce na dimensão 
Duma realidade que vale a pena… 
É esse mistério, pérola do segredo, 
Capaz de sepultar algum cemitério
Habitado pelos urubus do medo, 
Que tentam implantar o preconceito
E a segregação como razão social; 
Que fazem da ignorância um pleito
Para a estuporice do bem e do mal. 

Joaquim Maria Castanho

12.17.2016

O SEGREDO DO OCASO




O SEGREDO DO OCASO

A Deus Sol, no seu carro de luz
Venceu todas as nuvens que havia
E dourou o céu com seus raios, 
Magma de eternidade e poesia. 
Estacionou com calma e perfeição, 
Cruzou o espaço, gizou o destino
E ecoou no mais profundo de mim; 
Ditou mágicos encantos ao dia, 
Disse a vida sem princípio nem fim
Como plas notas dum salmo ou hino… 

– E deixei de ser meu como soía! 

Joaquim Maria Castanho 

12.13.2016

DIA 13 do 12, Lua Cheia





Há poemas que não se dizem... 
Há poemas que não se escrevem... 
Apenas existem!

Joaquim Maria Castanho 

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português