10.12.2015

MISSÃO EM SIDAR, de STEFAN WUL




STEFAN WUL
MISSÃO EM SIDAR
Trad.  Engº Gomes dos Santos

O primeiro livro de Ficção Científica (FC) que li foi o Admirável Mundo Novo; o segundo, O Planeta dos Macacos; e o terceiro, A Guerra dos Mundos. Porém, o autor de FC com que melhor e mais facilmente concordei, foi com Robert A. Heinlein... E, presentemente, retomei a leitura de Stefan Wul, que iniciei há anos atrás com A Pré-História do Futuro, mas que não é leitura que vou propor, que é, isso sim!, mais propriamente MISSÃO EM SIDAR, livro que estou a ler na tradução do Engº Gomes dos Santos. É uma novela ímpar que vale bem a pena duas ou três horinhas do nosso dia, pela sua lição de vida, pela sua fantasia, pela sua temática, e pelo seu evidente humanismo que é observado exatamente em dois robots que, em parte, também são protagonistas essenciais desta narrativa. 

"Lionel compreendeu que Marcial nada sabia sobre os Xressianos. 
– E se... – começou ele. 
Lembrando-se subitamente que Marcial não podia ouvi-lo devido à sua dupla enfermidade, ergueu a cabeça do companheiro de modo a que este pudesse ler nos seus lábios. 
– São aparelhos Xressianos – repetiu. – E se a ocupação Xressiana tiver sido antecipada! É bem possível! Há meses que não tenho notícias oficiais. 
– Não há tempo a perder – disse Marcial.  – Temos de nos meter ao caminho o mais depressa possível. Vou ser obrigado a mentir aosindígenas a fim de os fazer aceitar a minha partida. 
Os sidarianos pulavam excitados e interpelavam-se em frases entrecortadas pelo nervosismo, enquanto os cogumelos voadores desapareciam por trás da crista das montanhas. 
No momento em que Marcial se preparava para lhe falar, um enorme silvo encheu o céu, ao mesmo tempo que um novo aparelho fazia a sua aparição. Com o seu corpo circular e o reator vermelho-vivo circundado por um aro metálico, assemelhavam-se, com efeito, com um cogumelo. 
– ... Venenoso! – disse Lionel. É talvez a palavra que convém. 
Em vez de seguir os outros, o aparelho efetuou uma grande volta em torno da aldeia. 
Aproximava-se progressivamente do solo seguindo uma espiral imaginária. O barulho tornou-se ensurdecedor. Os sidarianos tapavam os ouvidos e saltavam em todas as direções como um rebanho tresmalhado. 
Alguns esconderam-se nas casas. A maioria fugiu ao acaso para a montanha. Viam-se saltar de rocha em rocha como cabras montesas e descer a toda a velocidade a vertente que ladeava a aldeia pelo lado sul. 
O aparelho estava tão próximo que a sua sombra onscurecia a praça. Duvidando de súbito das boas intenções dos Xressianos, Lionel agarrou no saco mortuário e na cabeça de Marcial, apanhou de passagem a arma e correu para fora da aldeia. Escondeu-se a duzentos metros por trás de um silvado." 
(Pág. 86)   

9.28.2015

O TEMPLO DO PASSADO




Jolt e Raol trabalhavam no laboratório. Massir estava sozinho, na cabina de rádio. A substituição de um cristal de silício e três fios consertados restabeleceram o contato. Massir ouviu a voz dos homens, fraca e cortada de parasitas. Esta voz dizia: 
«... considerada como perdida... F. 1313... perdida.... pesquisas abandonadas... F. 1313... abandonadas... » 
Quebrara-se o último elo. Massir sentiu-se só, mais só do que os companheiros, aos quais escondia verdade, arcando ele com todo o peso da cruel certeza. 
Suspirou, verificou a série de pilhas que asseguravam o funcionamento do aparelho e, com um toque do polegar, pôs em movimento o fio sem fim onde registara o seu apelo. «F. 1313 acidentado – impossível determinar a posição – Instrumentos inutilizados – três sobreviventes – F. 1313 acidentado...» 
Irrisórios e frágeis, estes fragmentos de frase voavam  sobre as ondas, procuravam o caminho por entre as tempestades cósmicas, saltavam dos astros mortos para os planetas povoados de monstros surdos, com uma probalidade pequena, minúscula, de fazer vibrar o tímpano de metal dum recetor. 
Como os náufragos de outrora, que deitavam garrafas ao mar. Garrafas que se encontravam dois ou três séculos mais tarde ou nunca mais. 
Relanceou ainda os pinázios e os nós das correias que imobilizavam os aparelhos, afastando-se ao encontro dos outros. 

In STEFAN WUL
O Templo do Passado
(Págs. 53-54)



A MAGIA DO ROMANCE




A MAGIA DO ROMANCE


No deserto de onde sou e venho
Encontrarmo-nos é interdito, 
E públicas falas franzem o cenho
Se uma mulher, por não velada, for
A confidente da amada, cujo fito
Íntimo é das pétalas a flor... 

Porém, somos um caso de exceção:
Pus burca, só para visitar-te, 
E serei vendedora de arte.  

Trago comigo uvas orvalhadas, 
Estampas medievais, versículos
Com iluminuras bem pintadas,  
Figos, mel... além do chá prà infusão. 




E o brocado das almofadas
Foi testemunha das almas aladas
Rendidas, ternas e enlaçadas,
Que em espiral se soltaram do chão!  

Joaquim Castanho

9.21.2015

REGRESSO A ZERO

  


        "Espantado pelas técnicas evoluídas que lhe eram reveladas por tudo o que aprendia, Jâ estremeceu ao pensar que a única superioridade da civilização terrestre era talvez constituída pelos seus trabalhos pessoais sobre a função Z. Encarou os múltiplos aperfeiçoamentos que a resolução do problema de Stero poderia acrescentar ao poder científico dos seus inimigos. E esgotou-se a trabalhar para tentar estabelecer cálculos aceitáveis, embora falsos, cuja verificação absorvesse meses de estudo aos sábios do satélite. 


A sua solidão naquele país estranho era penosa. Não tinha ninguém em que pudesse confiar. Tem era simpático, mas Jâ desconfiava das suas possíveis reações quando lhe dissesse que não era um proscrito, mas sim um espião ao serviço da Terra. Quanto a Nira, que no entanto parecia ser-lhe dedicada de corpo e alma, a verdade era que não podia ter confiança nela. Era uma criatura demasiadamente fraca, e a sua total falta de instrução faria dela um peso morto. Decidiu continuar a sua luta solitária. 
Que diziam as últimas instruções que recebera da terrestre Flora que o tinha beijado na sua prisão? Primeiro: tentar, por todos meios, ocupar um alto posto no Governo da Lua. Segundo: recolher todas as instruções possíveis quanto aos meios previstos para atacar a Terra. Terceiro: tentar organizar um vasto sistema de sabotagem, destinado a aniquilar de um só golpe o poder ofensivo dos lunares. Quarto: em caso de fracasso da ordem número três, voltar à Terra tão discretamente quanto possível, para informar sobre as observações feitas. 
Em caso de impossibilidade (instrução nº 5), estudar a hipótese de atrair à causa terrestre os nativos da Lua, descendentes de exilados, contra os quais o Governo terrestre nada tinha. Fazer encarar – em caso de necessidade – aos exilados de há mais de 50 anos, a possibilidade de uma amnistia. Dividir dessa maneira a opinião dos lunares e organizar um golpe de Estado." 

In STEFAN WUL
Regresso a Zero
(Págs. 108-109)   

9.17.2015

ARMADILHA EM ZARKASS



Capítulo I

Pelo que sabemos, existe somente uma raça capaz de rivalizar com o Homem. Todos o compreenderam já: trata-se dos Triângulos. 
Para dizer a verdade, pouco se sabe destes seres. Nunca foram vistos em carne e osso (se é que eles têm mesmo carne revestindo ossos). Chamam-lhes Triângulos em virtude da forma das suas naves, essas grandes asas deltoides que vagueiam na constelação de Centauro e por vezes fazem incursões para os lados de Plutão, nos confins do nosso sistema. 
Não sei quais são as bases em que apoiam os sábios para afirmarem que os Triângulos vêm de Arcturus. Será bem esperto aquele que conseguir provar o contrário. 
Tentou-se outrora comunicar com eles por meio dos sinais clássicos e simples do Código Preliminar, o abecedário das relações com as raças desconhecidas. Nunca se dignaram dar resposta. 
Quatro ou cinco vezes tentaram os nossos foguetões alcançar os aparelhos. Mas não conseguiu apanhá-los, mantendo-se sempre a uma distância de 217 km. E porquê duzentos e dezassete quilómetros? Este número corresponde talvez a uma medida fixa do seu sistema, medida adotada como limite de prudência em relação a nós, Homens. A esta distância, desaparecem muito simplesmente com a brevidade de uma bolha de sabão que rebenta.
Supõe-se que eles passam pelo subespaço. Nisso parecem muito mais fortes do que nós. 
A partir de então cruzámos com eles sem os saudar. Penso que não dão qualquer importância a isso: mas há já quarenta anos que dura o arrufo. 
Pensa-se que esta situação não se pode prolongar. Há pouco tempo os habitantes de Zarkass tomaram uns ares fanfarrões e puseram-se a falar de uns aliados potentes e misteriosos. 
Não conhecem Zarkass? É o planeta número sete de Alfa-Centauro, com uma atmosfera parecida com a nossa, sendo a espécie dominante vagamente humanoide. Teoricamente livres, os zarkassianos estão, praticamente, sob o nosso protetorado. É por isso que as suas fanfarronices e os seus ares misteriosos nos não agradam nada. E nós sabemos pelos nossos agentes que os Triângulos aterram com regularidade em Zarkass desde há três meses. Nestas condições não é difícil adivinhar quais são os aliados dos zarkassianos.  
Que os Triângulos nos ignorem, enfim! Que se passeiem à vontade nos nossos dois sistemas, é demais! Embora isso seja muito desagradável...  mas que nos comam as papas na cabeça para concluírem acordos com Zarkass, isso é que não. 

Mas vejo agora que ainda não me apresentei: 
Chamo-me Laurent; nasci em Fobos há vinte e oito anos. Neste momento, estou em missão geológica em plena selva zarkassiana. Ora os meus conhecimentos de geologia chegam só para distinguir um tijolo duma pedra-pomes! 
Na realidade a minha missão é muito especial. A geologia serve somente de pretexto. Há quinze dias que patinho no lodo, correndo risco de apanhar febres. Finjo que coleciono pequenos calhaus, mas estou à espera. 
Mas à espera de quê? Do Triângulo que deve daqui a pouco despenhar nas colinas de Chatang, com toda a aparência dum acidente estúpido. Mas eu sei muito bem que os raios emitidos pelos nossos satélites desempenharão um papel muito importante nesse acidente. Que raios? Não me perguntem nada sobre isso. Não sou mais forte em eletrónica do que em geologia. Não me confiaram esta missão devido aos meus conhecimentos científicos, mas em razão do meu caráter enérgico e decidido, das minhas qualidades físicas de excelente animal de combate, por ser um duro... 
Obrigado! 
Quanto à eletrónica, forçoso vos será dirigirem-se ao ruivo grandalhão, que está além em baixo. É aquele que tem as botas mergulhadas no ribeiro e anda a apanhar seixos redondos. Dá-se a esse trabalho para enganar os carregadores indígenas.  

in STEFAN WUL
ARMADILHA EM ZARKASS
(Págs. 7, 8 e 9)

9.10.2015

MALTRATAR E ABANDONAR ANIMAIS É CRIME






MALTRATAR, ABANDONAR OU OBRIGAR A PASSAR FOME E SEDE OS ANIMAIS DEVE SER DENUNCIADO POR TODOS E TODAS

As pessoas que constatem casos ou situações em que os animais estejam a ser vítimas de agressão, abandono ou descuido no seu bem-estar, e que possam constituir crime, devem denunciá-los à GNR - Guarda Nacional Republicana -, através da linha SOS Ambiente e Território, ligando para o número azul 808 200 520, bem como através do site desta instituição. De salientar ainda, que a partir de julho, está igualmente ativa a campanha MAUS TRATOS A ANIMAIS SÃO CRIME, da PSP - Polícia de Segurança Pública -, no âmbito da qual esta entidade de segurança criou um email ( defesanimal@psp.pt ) e um número de telefone 21POLÍCIA ( 217654242 ), para os quais se podem (e devem) fazer igualmente denúcias ou pedir esclarecimentos acerca do assunto.

A SEBENTA






A SEBENTA

In illo tempore – No tempo em que eu andava em Coimbra, ainda a boa e imortal sebenta reinava em todo o seu esplendor! Eu nem fazia sequer ideia, ao chegar a Coimbra, do que vinha ser isso da sebenta; – mas industriado logo a tal respeito, vim a saber que era uma espécie de folhinha litografada, formato 8.º, que saía todos os dias compendiando a explicação do lente; que se chamava sebenteiro o que a redigia; que custava sete tostões por mês cada uma; que eram sempre três em cada ano, visto as cadeiras em cada ano serem três; e, finalmente, que, enquanto o lente explicava a lição para o dia seguinte, só o sebenteiro ouvia o lente, e que os mais, todos, e eu portanto, podiam muito bem ler o seu romance, fazer o seu bilhetinho e passá-lo, ou comentar os que vinham dos outros, – ou então, se preferíssemos, dormir ou fazer versos!

Não havia nada melhor! Além disso, algumas metiam também as suas piadas; outras davam caricaturas; – e sebenteiro havia que amenizava por tal forma aquela estopada, que até dava versos para o fado no fim da sebenta, e convocava os condiscípulos, em anúncios, para troupes* aos caloiros, ou outras pândegas!

As sebentas tinham em geral oito páginas, e cada um ia pelas suas ao cair da noite, e eram duas por noite; – mas, se o lente se tinha alargado na prelecção, ou o sebenteiro era maçador, às tais oito páginas acresciam outras, – e a esse suplemento, que era sempre amaldiçoado, chamava-se o resto!

(...)

Está pois a ver-se que a sebenta era uma instituição universitária; – mas ainda assim, coisa curiosa, cheirava sempre a contrabando; e tudo quanto de mais difícil podia desafiar na aula a habilidade de um cábula, se era chamado à lição, cifrava-se em manejar a sebenta com habilidade, de modo a que o lente a não visse... Ele bem sabia que ela estava lá; mas, enfim, era preciso esconder essa impostura, – e isso era um trabalhinho de prestidigitação, em que, se alguns eram eminentes, outros, coitados, eram uma lástima!

Bom estudante, em geral, era, pois, o que manejava a sebenta com habilidade, – e alguns havia de tal modo peritos que a sugavam sem lhe deixar uma gota, e o lente nem percebia... Olho na sebenta, olho no lente, passando-a através do livro se era preciso voltar as folhas, parecia até que nem tinha sebenta; e os outros menos habilidosos, esses, ou a extractavam em pedacinhos de papel onde só figura de apontamentos, ou então, resumiam nas margens o texto das páginas, e, deixando as margens fora de um livro, ou em geral de um folheto qualquer que se pudesse enrolar em forma de batuta, cantavam a sebenta como uns papagaios, – e ia-se a ver não sabiam palavra!

... Por me dizia uma vez o Manuel do Marco da Feira, dono de uma litografia, ao ouvir a Cabra tocar para as aulas no dia seguinte, que era o primeiro dia do ano lectivo:

– «Bem! Começa-se a estudar amanhã a maneira de se não estudar!»




* Caloiro, propriamente, é o estudante de preparatórios; mas também se dá este nome ao novato, isto é, ao estudante do 1º ano de qualquer Faculdade. Os novatos cortam o cabelo e fazem troça dos caloiros; e os do 2º ano (estes principalmente) fazem o mesmo aos novatos, e também aos caloiros. O novato repetente não é troçado nem troça.

A brincadeira das troupes é muito estúpida, e eu em poucas entrei. A mim cortou-me uma o cabelo à Porta de Minerva, uma vez que eu ia para casa ao anoitecer e não levava lunetas porque se me tinham partido esse dia no Seminário, numa refrega com os formigões (seminaristas) – e por isso só a vi quando lhe estava nas unhas, e o tesourão em cima da minha cabeça e à roda de mim a malta silenciosa dos embuçados, todos de moca para se eu resistisse.
(...) (...)

in TRINDADE COELHO, In Illo Tempore, pág. 145 e segs.

8.22.2015

NÃO HÁ MAL QUE SEMPRE DURE, NEM BEM QUE NUNCA ACABE




NÃO HÁ MAL QUE SEMPRE DURE, NEM BEM QUE NUNCA ACABE

"No século XV, quando os turcos invadiram Constantinopla e derrubaram o Império Romano do Oriente, os padres da Igreja estavam a discutir assuntos teológicos." – In "O Sexo dos Anjos" e a Política Externa Portuguesa, por Tiago Moreira de Sá e Emanuel Bernardes Joaquim, jornal PÚBLICO, 22.08.2015 

E de súbito, aquilo que algumas pessoas costumam dizer perde a gracinha toda... Faz «pooff!» na barreira da nossa indiferença, e escorrega por ela abaixo como um asco peganhento. O que antes parecia ser argúcia, acutilância, subtileza maquiavélica, passa a ser visto como ronha, ronceirice, manha, fuga prà frente, interesseira representação para agafanhar almejados e obscuros proventos. A simplicidade e clareza discursiva desvenda-se, afinal, como uma mancheia de lugares comuns. A sapiência e irrepreensível memória, uma simplificada mediocridade e evidente vocação para a cópia e palimpsesto. As pausas, como notórias confissões de culpa, de inaptidão, défice lexical ou compulsão semântica. E aquele jovialíssimo piscar de olho ao eleitorado, que tão bem lhe ficava por aparentar espontaneidade, apenas mais um tique de denúncia da misoginia voluntária, ou obrigatória, caraterístico de quem se sente entalado. Desmascarado. De careca à mostra. 

E não vale a pena nomear seja quem for, porque a todas as políticas e a todos os políticos acontece exatamente o mesmo. Uns numa altura, outros noutra. Aos nossos, é agora. Ora, se ninguém os vai querer ver ou ouvir em debates políticos, ainda que impingidos pelos canais de sinal aberto, porque é que eles se preocupam tanto em definir quem estará ou não estará neles? De quem se senta em frente ou lado de quem? Essas coisecas são combinadas pelos staffs, e não podem ser consideradas coreografias de opereta brejeira com pretensões a vedetismos de cartaz em programas de primeiro tempo. E depois, tudo quanto lá irão dizer já é por demais conhecido e de toda a gente, incluindo os que não querem saber disso para nada. São figuras de basta presença e figuração nas primeiras páginas dos jornais e telejornais, quer pelo que dizem e repetem, quer por onde vão e o que lá poderão estar a fazer. Sobretudo porque a política não é nenhum jogo de berlinde, com vitórias, derrotas e desforras, fértil em retórica para deslumbrar infantis que gostam de ver os adultos à sopapada, ou um desporto de rasteirar, derrubar e achincalhar os meninos e as meninas da outra ponta da sala. A política faz-se apresentando projetos, programas gerais ou setoriais, estratégias de execução, orçamentos viáveis, motivando e convidando gente para neles colaborar, fazer melhorias, reforçando positivamente a participação, a responsabilidade, a consciência cívica e a emancipação, quer dos indivíduos, como das comunidades; quer das regiões, como da nação. Portanto, seria de bom tom, não atirar poeira para os olhos do povo, nem dar-lhe a engolir futriquices típicas das clubites pacóvias e desaguisados entre a rua de baixo e rua de cima, usuais no jogo da malha e do pião. Sob pena de que se o não fizerem, o povo português lhes faça como fez o Zé-Povinho do Bordalo ao fiado: «Queres o voto, toma!» (Até porque as meninas anicas acompanham os joõesinhos que lhes apetece!) 

Enfim, digamos que o prazo e "estado de gracinha" desses tribunos expirou. Esgotou. Perdeu a validade.  Principalmente, porque a nossa paciência para lhes aturar a banha-da-cobra já não é o que era. Estamos cansados de ser condescendentes com quem nos quer dar a volta. Há 40 anos que vivemos (quase) em democracia. Já nos aconteceu quase tudo o que não devia ter acontecido. E nem sequer um oitavo do desenvolvimento, bem-estar, qualidade de vida, segurança e esperança no futuro de quanto merecíamos ter. Era tempo de começarem a pensar que se continuarem a tentar enganar-nos, isto ainda pode vir a dar prò torto... É que até os paz d'almas que todos e todas nós somos, têm um ponto de fervura. E, enquanto os paroquianos e sacristas desta confraria das bananas se empenha discutindo quem se senta nas cadeirinhas e cavalinhos de baloiço, bem podem chegar por aí os nossos otomanos e trocar os estandartes sem que lhes dê o cheiro!  

Joaquim Castanho          

8.20.2015

COMO, PORQUÊ E COM QUEM?




COMO, PORQUÊ E COM QUEM? 

"Não há igualdade ou justiça possíveis enquanto todas as vidas não valerem exatamente o mesmo." 

In CLÁUDIA SEMEDO (Embaixadora do Ano Europeu Para o Desenvolvimento), Direito à Vida, jornal PÚBLICO, de 17.08.2015 

Quando desconhecemos o que uma "coisa social" é, camuflamos a nossa ignorância acerca dela, afirmando o que ela já foi ou o que poderá vir a ser – SE. E a modinha pegou de estaca nas hostes políticas e jornalísticas. Perante a incerteza no que irá dar o 4 de outubro, inventam-se cenários e reiteram-se intenções, alinham-se baterias e pontarias, preenchem-se as linhas em branco dos programas eleitorais como quem aposta no totobola, e reza-se às padroeiras e padroeiros com bênçãos de pó-de-ser e demais sortilégios disponíveis, incluindo as sondagens habituais. Umas quantas forças a concurso, para obterem vantagens competitivas, apostam com múltiplas, esbanjando os créditos em duplas e triplas, a que dão o pomposo nome de coligações. Depois, nos programas de conjunto tocam à Ten Years After, com o homem da viola à frente a tocar o que lhe dá na gana, num banzé de acordes ou soundbites, e os restantes da instrumental confraria a desunharem-se para acompanhá-lo, ainda que desafinados e molestados pelos costumeiros feedbacks  e boomerangs, determinando que vão fazer isto & aquilo, assado & frito, mas sobretudo no limpinho sem espinhas como se a oposição estivesse de férias ou tivesse abdicado de ser oposição para ser uma vencida colaboracionista e empenhada. E, invariavelmente, fazem-no naquele registo mágico típico de quem acha que toda a gente não tem mais nada pra fazer do que tentar adivinhar o que querem, porque o querem, como o querem e de quem dispõem para fazer... Sumidades! 

Quando se é novo e inexperiente acreditamos que somos capazes de todos os possíveis só com o estalar dos dedos ou o embonecado bater das pestanas. Mas, na generalidade, crescemos, e verificamos que não é bem assim. Que tem de se estar ao corrente das problemáticas, familiarizados com os assuntos, estudá-los a fundo, experimentar as soluções plausíveis, validar as funcionais e fazer contínuas atualizações nelas. E fazemo-lo regra geral, sem stress de maior, nem pruridos vergonhosos. Porém, a exceção privilegiada dos que ingressaram na carreira política, consideraram que isso seria uma perda de tempo, quer por exigências de sedução do eleitorado, quer por mandriice natural, quer por considerar que a política é um atalho para o sucesso e fortuna, preferindo manter-se infantis, quais gracinhas imprestáveis, larocas e bem-falantes, imprescindíveis para enfeitar os frisos da magna nacionalidade, embora não acarretem qualquer benefício aos seus conterrâneos e territórios. 

E vai daí, ei-los que embrulham as habituais e fantasiosas promessas em celofane de compromisso/estimativa, que é o marketing da embalagem a invadir a composição "química" dos conteúdos, e toca de nos impingir a garantia de que vão baixar o défice, aumentar o crescimento, restruturar/renegociar a dívida, quiçá atirá-la ao mar que é uma economia que promete mundos sem fundo, criar uns tantos mil empregos (que depois vão cair nas malhas dos seguros/subsídios de desemprego mal terminem essas ações de combate ao ócio), apostar na cultura e no património, melhorar a qualidade de vida, disponibilizar saúde, educação, bem-estar, justiça, habitação, segurança social, sustentabilidade, transportes, segurança, ordem e perspetivas de futuro até para os hipervelhos. Esquecem-se é de dizer como vão fazer isso, com que dinheiros e especialistas, com quem contam para os desempenhos e tutelas, que certificados de boas práticas já têm em currículo, e quem lhos passou... Enfim, retemperam as ideias de igualdade e de justiça social com o seu direito imaculado de gente superior e superiormente bem-intencionada em quem devemos acreditar cegamente e delegar as nossas esperanças e expetativas, prò melhor e prò pior, pois "ao menino e ao borracho, mete Deus a mão por baixo", atribuindo-nos o estatuto de trouxas e ingénuos, como se as nossas vidas valessem menos do que as dessa iluminada elite. Contudo esquecem-se de uma coisa... De quê? De reler a epígrafe deste artigo, que transcreve o pensamento europeu através da sua embaixadora para o desenvolvimento, e que nos alerta para o detalhe de que "não há igualdade ou justiça possíveis enquanto todas as vidas não valerem exatamente o mesmo". E nós já sabemos há muito tempo que não queremos para nós o que nem os gregos quiseram para eles. Nem mais!  

Joaquim Castanho

8.18.2015

ENQUANTO SE COME NÃO SE ASSOBIA




ENQUANTO SE COME NÃO SE ASSOBIA


Descobrir até que ponto os portugueses estão disponíveis para alinhar com as artimanhas e manhosas patranhas partidárias, e as suas coligações, fusões, agregações, plataformas e demais desenformadas formas, é a tarefa primordial para qualquer político que se preze, seja minimamente honesto, frontal, consciente, responsável e emancipado. Arrisca-se depois, é claro, a que não tenha onde votar, e muito menos qualquer "bandeirinha" para espanejar e ao abrigo da qual concorrer, seja prò que for, nomeadamente a deputado ou autarca – mas isso são outros quinhentos. 

A primeira, e a mais notória, é que todos e todas são a favor da conservação da natureza, da qualidade de vida e do ambiente. Mas logo de seguida vemos que esbanjam papel a torto e a direito, conspurcam paredes, caixas de correio, paragens de autocarros, os chãos das ruas e pavilhões, com panfletos, postais, autocolantes, cartazes, jornais de campanha, programas e gracinhas de marketingtesas destronadas, estando-se absolutamente nas tintas para as arvoresinhas abatidas para tanto ou para a limpeza dos locais; fazem caravanas intimativas do eleitorado deixando grosso rasto de monóxido de carbono nas passagens e repassagens pelos lugares onde se verificam ajuntamentos, com buzinões por dá cá aquele comício ou sessão de intoxicação mental e propaganda, celebração de resultados ou deslocações em massa, acompanhando as suas vedetas principais nas visitas de campanha aos mais pacatos e sossegados algures da nossa portugalidade. Incendeiam as hostes que, eufóricas e heroicas, depois vão incendiar as matas e florestas, para se manifestarem contra os governos e governâncias, contra adversários e em manifestações de protesto (indefinidas e por conta própria). 

A segunda é a inequívoca anuência à igualdade, principalmente à igualdade de oportunidades e igualdade de género. Acerca da igualdade de oportunidades que professam, mas em que depois falham redondamente no cumprimento, mesmo se ainda não foram eleitos para nada, pondo a feitura material de propaganda e do marketing, sem concurso público, a cargo das empresas dos amigos e patrocinadores dos partidos/movimentos, e a distribuição ou colagens na mão da mão de obra juvenil ao preço da uva mijona, explorando os mais desgraçados; se eleitos, chamam só os partidários da sua facção para os jobs, independentemente das qualificações e sem concurso público, prejudicando os mais competentes e habilitados descaradamente. Em relação à igualdade de género cumprem a lei que obriga a uma determinada percentagem de mulheres nas listas, mas em posições de muito difícil eleição, e ainda assim sob critérios sexistas e feministas, para consolação de grupos e nichos sociais ou associativistas bem demarcados, mas depois disso no material de propaganda e nos programas mantêm o discurso antropocêntrico em que a cidadania fica restringida ao cidadão, omitindo a parte feminina da mesma. E, curiosamente, em partido/movimento nenhum a concurso eleitoral se vê no seu programa a iniciativa de intentar uma revisão constitucional para alterar a redação do Artigo 4 º que dita a cidadania portuguesa, considerando "que são cidadãos portugueses todos aqueles que como tal sejam considerados pela lei ou por convenção internacional", que o mesmo é declarar que as cidadãs portuguesas consideradas pela lei ou por convenção internacional não fazem parte da cidadania portuguesa, o que diminui para menos de metade o número de pessoas com tal estatuto, uma vez que em Portugal o número das mulheres é superior ao dos homens. 

A terceira, é a de basear os seus programas em pressupostos inconcretizáveis, ou promessas/princípios (inadiáveis segundo alguns) para as/os quais não têm conhecimento de causa nesses assuntos, ou não têm know-how nem pessoal qualificado disponível nos seus quadros para os abordar e/ou resolver, e muito menos dinheiro suficiente para os contratar. Recentemente foi aprovado um projeto de diploma que proíbe as práticas de publicidade enganosa a atos e serviços de saúde, mas para a publicidade de práticas políticas impossíveis, como foram as promessas em que o Syriza baseou a sua campanha e que os levou ao poder, tendo agora que fazer tudo ao contrário do que prometeram, não foi feito nada, pelo que continuam impunes no nosso país. Esquisito... Prejudicar alguém na saúde é crime, mas prejudicar todos e todas na vida dá condecoração presidencial, nomeadamente para implicados no caso BES... Hum!  

Todavia a prédica já vai longa, e o pessoal tem mais que fazer. Portanto, pedir a pessoas honestas e cumpridoras dos seus deveres, que votem, ou deleguem responsabilidades em alguém que comprovadamente o não é, devia ser proibido por lei em qualquer sociedade livre, justa e solidária, como é a nossa República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular, mesmo que essa dignidade seja amputada nela pela sua lei fundamental às pessoas humanas do género feminino, ou cidadãs. Devia ser proibido e punido severamente. E estranho deveras porque ainda o não foram... Estamos à espera de quê? Do quatro de outubro? Francamente! 

Joaquim Castanho            

8.16.2015

FALSOS NENÚFARES PARA FALSAS LIBELINHAS




FALSOS NENÚFARES PARA FALSAS LIBELINHAS

Neste enredo e labuta
De brandos costumes comuns, 
Mesmo sem marmelos nenhuns
Todos se lascam na fruta. 

Joaquim Castanho

7.26.2015




“A fachada de uma casa pertence a quem a olha.”

LAO TSEU
  




“Somente um povo bem familiarizado com a democracia consegue respeitar a esfera pública do seu espaço.”

JURGEN HABERMAS

Património ambiental



“Defino o patrimônio ambiental urbano como sendo constituído de conjuntos arquitetónicos, espaços urbanísticos, equipamentos públicos e elementos naturais intraurbanos, regulados por relações sociais, econômicas e culturais, onde o conflito deve ser o menor possível e a inclusão social uma exigência crescente.”


EDUARDO YÁZIGI, Prof. do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, Brasil 

IDENTIFICAÇÃO E CIDADANIA ATIVA




IDENTIFICAÇÃO E CIDADANIA ATIVA


A CARTA DE VENEZA (1964), que baseou (ou originou) o conceito de património ambiental urbano, é o documento que fundamenta a preservação das áreas de ambiência nas quais as pessoas e os bens, as espécies e a biodiversidade, estabelecem relações de confluência de interesses (em mutualismo, parasitismo ou simbiose), pelo que a ideia de ambiente não poderá nunca significar somente coisa ou lugar, mas antes relação (do latim amb + ire, que quer dizer exatamente junto ir ou ir junto), sugerindo-nos assim que, muito mais importante do que sermos ou reivindicarmo-nos como cidadãos e cidadãs, é que o façamos de uma forma consequente, ativa, responsável, democrática, positiva, emancipada e consciente, alheia aos criancismos egoístas e indiferenças imaturas que caraterizam o provincianismo bacoco e mediavalesco vigente em certas cidades interiores.


Há pessoas que vivem para enjavardar. Para enjavardar os demais atirando-lhe para cima todos os preconceitos e taras que conhecem. Para se enjavardar a si mesmas com substâncias, ideias desesperadas e intenções perversas, ou estados de ânimo deploráveis. Para enjavardar o ambiente, a fim de fazerem dele uma extensão paradisíaca de si e área ideal ao seu modus vivendi. E até acham que quem não segue os seus padrões e conduta, não é moderno, não está na moda nem é civilizado...


Porém, sujar o património, destruir os equipamentos sociais, o edificado histórico ou as infraestruturas ambientais, não é estar na moda nem ser moderno, e muito menos ser civilizado – é ser ignorante, associal e psicopata. E inadaptado ou inadaptada. É negar o ir junto e preferir o ficar só, o que, considerando a atual tábua de liberdades, direitos e garantias, se não pode negar a ninguém, e nos obriga a expulsar essas pessoas do convívio com as demais, isolando-as em prisões ou enviando-as para meios selvagens incivilizados onde nem os primatas habitem.

Então, por que não o fazemos? Porque nos achamos iguais a eles e elas? Hum!...


Joaquim Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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