9.10.2015

MALTRATAR E ABANDONAR ANIMAIS É CRIME






MALTRATAR, ABANDONAR OU OBRIGAR A PASSAR FOME E SEDE OS ANIMAIS DEVE SER DENUNCIADO POR TODOS E TODAS

As pessoas que constatem casos ou situações em que os animais estejam a ser vítimas de agressão, abandono ou descuido no seu bem-estar, e que possam constituir crime, devem denunciá-los à GNR - Guarda Nacional Republicana -, através da linha SOS Ambiente e Território, ligando para o número azul 808 200 520, bem como através do site desta instituição. De salientar ainda, que a partir de julho, está igualmente ativa a campanha MAUS TRATOS A ANIMAIS SÃO CRIME, da PSP - Polícia de Segurança Pública -, no âmbito da qual esta entidade de segurança criou um email ( defesanimal@psp.pt ) e um número de telefone 21POLÍCIA ( 217654242 ), para os quais se podem (e devem) fazer igualmente denúcias ou pedir esclarecimentos acerca do assunto.

A SEBENTA






A SEBENTA

In illo tempore – No tempo em que eu andava em Coimbra, ainda a boa e imortal sebenta reinava em todo o seu esplendor! Eu nem fazia sequer ideia, ao chegar a Coimbra, do que vinha ser isso da sebenta; – mas industriado logo a tal respeito, vim a saber que era uma espécie de folhinha litografada, formato 8.º, que saía todos os dias compendiando a explicação do lente; que se chamava sebenteiro o que a redigia; que custava sete tostões por mês cada uma; que eram sempre três em cada ano, visto as cadeiras em cada ano serem três; e, finalmente, que, enquanto o lente explicava a lição para o dia seguinte, só o sebenteiro ouvia o lente, e que os mais, todos, e eu portanto, podiam muito bem ler o seu romance, fazer o seu bilhetinho e passá-lo, ou comentar os que vinham dos outros, – ou então, se preferíssemos, dormir ou fazer versos!

Não havia nada melhor! Além disso, algumas metiam também as suas piadas; outras davam caricaturas; – e sebenteiro havia que amenizava por tal forma aquela estopada, que até dava versos para o fado no fim da sebenta, e convocava os condiscípulos, em anúncios, para troupes* aos caloiros, ou outras pândegas!

As sebentas tinham em geral oito páginas, e cada um ia pelas suas ao cair da noite, e eram duas por noite; – mas, se o lente se tinha alargado na prelecção, ou o sebenteiro era maçador, às tais oito páginas acresciam outras, – e a esse suplemento, que era sempre amaldiçoado, chamava-se o resto!

(...)

Está pois a ver-se que a sebenta era uma instituição universitária; – mas ainda assim, coisa curiosa, cheirava sempre a contrabando; e tudo quanto de mais difícil podia desafiar na aula a habilidade de um cábula, se era chamado à lição, cifrava-se em manejar a sebenta com habilidade, de modo a que o lente a não visse... Ele bem sabia que ela estava lá; mas, enfim, era preciso esconder essa impostura, – e isso era um trabalhinho de prestidigitação, em que, se alguns eram eminentes, outros, coitados, eram uma lástima!

Bom estudante, em geral, era, pois, o que manejava a sebenta com habilidade, – e alguns havia de tal modo peritos que a sugavam sem lhe deixar uma gota, e o lente nem percebia... Olho na sebenta, olho no lente, passando-a através do livro se era preciso voltar as folhas, parecia até que nem tinha sebenta; e os outros menos habilidosos, esses, ou a extractavam em pedacinhos de papel onde só figura de apontamentos, ou então, resumiam nas margens o texto das páginas, e, deixando as margens fora de um livro, ou em geral de um folheto qualquer que se pudesse enrolar em forma de batuta, cantavam a sebenta como uns papagaios, – e ia-se a ver não sabiam palavra!

... Por me dizia uma vez o Manuel do Marco da Feira, dono de uma litografia, ao ouvir a Cabra tocar para as aulas no dia seguinte, que era o primeiro dia do ano lectivo:

– «Bem! Começa-se a estudar amanhã a maneira de se não estudar!»




* Caloiro, propriamente, é o estudante de preparatórios; mas também se dá este nome ao novato, isto é, ao estudante do 1º ano de qualquer Faculdade. Os novatos cortam o cabelo e fazem troça dos caloiros; e os do 2º ano (estes principalmente) fazem o mesmo aos novatos, e também aos caloiros. O novato repetente não é troçado nem troça.

A brincadeira das troupes é muito estúpida, e eu em poucas entrei. A mim cortou-me uma o cabelo à Porta de Minerva, uma vez que eu ia para casa ao anoitecer e não levava lunetas porque se me tinham partido esse dia no Seminário, numa refrega com os formigões (seminaristas) – e por isso só a vi quando lhe estava nas unhas, e o tesourão em cima da minha cabeça e à roda de mim a malta silenciosa dos embuçados, todos de moca para se eu resistisse.
(...) (...)

in TRINDADE COELHO, In Illo Tempore, pág. 145 e segs.

8.22.2015

NÃO HÁ MAL QUE SEMPRE DURE, NEM BEM QUE NUNCA ACABE




NÃO HÁ MAL QUE SEMPRE DURE, NEM BEM QUE NUNCA ACABE

"No século XV, quando os turcos invadiram Constantinopla e derrubaram o Império Romano do Oriente, os padres da Igreja estavam a discutir assuntos teológicos." – In "O Sexo dos Anjos" e a Política Externa Portuguesa, por Tiago Moreira de Sá e Emanuel Bernardes Joaquim, jornal PÚBLICO, 22.08.2015 

E de súbito, aquilo que algumas pessoas costumam dizer perde a gracinha toda... Faz «pooff!» na barreira da nossa indiferença, e escorrega por ela abaixo como um asco peganhento. O que antes parecia ser argúcia, acutilância, subtileza maquiavélica, passa a ser visto como ronha, ronceirice, manha, fuga prà frente, interesseira representação para agafanhar almejados e obscuros proventos. A simplicidade e clareza discursiva desvenda-se, afinal, como uma mancheia de lugares comuns. A sapiência e irrepreensível memória, uma simplificada mediocridade e evidente vocação para a cópia e palimpsesto. As pausas, como notórias confissões de culpa, de inaptidão, défice lexical ou compulsão semântica. E aquele jovialíssimo piscar de olho ao eleitorado, que tão bem lhe ficava por aparentar espontaneidade, apenas mais um tique de denúncia da misoginia voluntária, ou obrigatória, caraterístico de quem se sente entalado. Desmascarado. De careca à mostra. 

E não vale a pena nomear seja quem for, porque a todas as políticas e a todos os políticos acontece exatamente o mesmo. Uns numa altura, outros noutra. Aos nossos, é agora. Ora, se ninguém os vai querer ver ou ouvir em debates políticos, ainda que impingidos pelos canais de sinal aberto, porque é que eles se preocupam tanto em definir quem estará ou não estará neles? De quem se senta em frente ou lado de quem? Essas coisecas são combinadas pelos staffs, e não podem ser consideradas coreografias de opereta brejeira com pretensões a vedetismos de cartaz em programas de primeiro tempo. E depois, tudo quanto lá irão dizer já é por demais conhecido e de toda a gente, incluindo os que não querem saber disso para nada. São figuras de basta presença e figuração nas primeiras páginas dos jornais e telejornais, quer pelo que dizem e repetem, quer por onde vão e o que lá poderão estar a fazer. Sobretudo porque a política não é nenhum jogo de berlinde, com vitórias, derrotas e desforras, fértil em retórica para deslumbrar infantis que gostam de ver os adultos à sopapada, ou um desporto de rasteirar, derrubar e achincalhar os meninos e as meninas da outra ponta da sala. A política faz-se apresentando projetos, programas gerais ou setoriais, estratégias de execução, orçamentos viáveis, motivando e convidando gente para neles colaborar, fazer melhorias, reforçando positivamente a participação, a responsabilidade, a consciência cívica e a emancipação, quer dos indivíduos, como das comunidades; quer das regiões, como da nação. Portanto, seria de bom tom, não atirar poeira para os olhos do povo, nem dar-lhe a engolir futriquices típicas das clubites pacóvias e desaguisados entre a rua de baixo e rua de cima, usuais no jogo da malha e do pião. Sob pena de que se o não fizerem, o povo português lhes faça como fez o Zé-Povinho do Bordalo ao fiado: «Queres o voto, toma!» (Até porque as meninas anicas acompanham os joõesinhos que lhes apetece!) 

Enfim, digamos que o prazo e "estado de gracinha" desses tribunos expirou. Esgotou. Perdeu a validade.  Principalmente, porque a nossa paciência para lhes aturar a banha-da-cobra já não é o que era. Estamos cansados de ser condescendentes com quem nos quer dar a volta. Há 40 anos que vivemos (quase) em democracia. Já nos aconteceu quase tudo o que não devia ter acontecido. E nem sequer um oitavo do desenvolvimento, bem-estar, qualidade de vida, segurança e esperança no futuro de quanto merecíamos ter. Era tempo de começarem a pensar que se continuarem a tentar enganar-nos, isto ainda pode vir a dar prò torto... É que até os paz d'almas que todos e todas nós somos, têm um ponto de fervura. E, enquanto os paroquianos e sacristas desta confraria das bananas se empenha discutindo quem se senta nas cadeirinhas e cavalinhos de baloiço, bem podem chegar por aí os nossos otomanos e trocar os estandartes sem que lhes dê o cheiro!  

Joaquim Castanho          

8.20.2015

COMO, PORQUÊ E COM QUEM?




COMO, PORQUÊ E COM QUEM? 

"Não há igualdade ou justiça possíveis enquanto todas as vidas não valerem exatamente o mesmo." 

In CLÁUDIA SEMEDO (Embaixadora do Ano Europeu Para o Desenvolvimento), Direito à Vida, jornal PÚBLICO, de 17.08.2015 

Quando desconhecemos o que uma "coisa social" é, camuflamos a nossa ignorância acerca dela, afirmando o que ela já foi ou o que poderá vir a ser – SE. E a modinha pegou de estaca nas hostes políticas e jornalísticas. Perante a incerteza no que irá dar o 4 de outubro, inventam-se cenários e reiteram-se intenções, alinham-se baterias e pontarias, preenchem-se as linhas em branco dos programas eleitorais como quem aposta no totobola, e reza-se às padroeiras e padroeiros com bênçãos de pó-de-ser e demais sortilégios disponíveis, incluindo as sondagens habituais. Umas quantas forças a concurso, para obterem vantagens competitivas, apostam com múltiplas, esbanjando os créditos em duplas e triplas, a que dão o pomposo nome de coligações. Depois, nos programas de conjunto tocam à Ten Years After, com o homem da viola à frente a tocar o que lhe dá na gana, num banzé de acordes ou soundbites, e os restantes da instrumental confraria a desunharem-se para acompanhá-lo, ainda que desafinados e molestados pelos costumeiros feedbacks  e boomerangs, determinando que vão fazer isto & aquilo, assado & frito, mas sobretudo no limpinho sem espinhas como se a oposição estivesse de férias ou tivesse abdicado de ser oposição para ser uma vencida colaboracionista e empenhada. E, invariavelmente, fazem-no naquele registo mágico típico de quem acha que toda a gente não tem mais nada pra fazer do que tentar adivinhar o que querem, porque o querem, como o querem e de quem dispõem para fazer... Sumidades! 

Quando se é novo e inexperiente acreditamos que somos capazes de todos os possíveis só com o estalar dos dedos ou o embonecado bater das pestanas. Mas, na generalidade, crescemos, e verificamos que não é bem assim. Que tem de se estar ao corrente das problemáticas, familiarizados com os assuntos, estudá-los a fundo, experimentar as soluções plausíveis, validar as funcionais e fazer contínuas atualizações nelas. E fazemo-lo regra geral, sem stress de maior, nem pruridos vergonhosos. Porém, a exceção privilegiada dos que ingressaram na carreira política, consideraram que isso seria uma perda de tempo, quer por exigências de sedução do eleitorado, quer por mandriice natural, quer por considerar que a política é um atalho para o sucesso e fortuna, preferindo manter-se infantis, quais gracinhas imprestáveis, larocas e bem-falantes, imprescindíveis para enfeitar os frisos da magna nacionalidade, embora não acarretem qualquer benefício aos seus conterrâneos e territórios. 

E vai daí, ei-los que embrulham as habituais e fantasiosas promessas em celofane de compromisso/estimativa, que é o marketing da embalagem a invadir a composição "química" dos conteúdos, e toca de nos impingir a garantia de que vão baixar o défice, aumentar o crescimento, restruturar/renegociar a dívida, quiçá atirá-la ao mar que é uma economia que promete mundos sem fundo, criar uns tantos mil empregos (que depois vão cair nas malhas dos seguros/subsídios de desemprego mal terminem essas ações de combate ao ócio), apostar na cultura e no património, melhorar a qualidade de vida, disponibilizar saúde, educação, bem-estar, justiça, habitação, segurança social, sustentabilidade, transportes, segurança, ordem e perspetivas de futuro até para os hipervelhos. Esquecem-se é de dizer como vão fazer isso, com que dinheiros e especialistas, com quem contam para os desempenhos e tutelas, que certificados de boas práticas já têm em currículo, e quem lhos passou... Enfim, retemperam as ideias de igualdade e de justiça social com o seu direito imaculado de gente superior e superiormente bem-intencionada em quem devemos acreditar cegamente e delegar as nossas esperanças e expetativas, prò melhor e prò pior, pois "ao menino e ao borracho, mete Deus a mão por baixo", atribuindo-nos o estatuto de trouxas e ingénuos, como se as nossas vidas valessem menos do que as dessa iluminada elite. Contudo esquecem-se de uma coisa... De quê? De reler a epígrafe deste artigo, que transcreve o pensamento europeu através da sua embaixadora para o desenvolvimento, e que nos alerta para o detalhe de que "não há igualdade ou justiça possíveis enquanto todas as vidas não valerem exatamente o mesmo". E nós já sabemos há muito tempo que não queremos para nós o que nem os gregos quiseram para eles. Nem mais!  

Joaquim Castanho

8.18.2015

ENQUANTO SE COME NÃO SE ASSOBIA




ENQUANTO SE COME NÃO SE ASSOBIA


Descobrir até que ponto os portugueses estão disponíveis para alinhar com as artimanhas e manhosas patranhas partidárias, e as suas coligações, fusões, agregações, plataformas e demais desenformadas formas, é a tarefa primordial para qualquer político que se preze, seja minimamente honesto, frontal, consciente, responsável e emancipado. Arrisca-se depois, é claro, a que não tenha onde votar, e muito menos qualquer "bandeirinha" para espanejar e ao abrigo da qual concorrer, seja prò que for, nomeadamente a deputado ou autarca – mas isso são outros quinhentos. 

A primeira, e a mais notória, é que todos e todas são a favor da conservação da natureza, da qualidade de vida e do ambiente. Mas logo de seguida vemos que esbanjam papel a torto e a direito, conspurcam paredes, caixas de correio, paragens de autocarros, os chãos das ruas e pavilhões, com panfletos, postais, autocolantes, cartazes, jornais de campanha, programas e gracinhas de marketingtesas destronadas, estando-se absolutamente nas tintas para as arvoresinhas abatidas para tanto ou para a limpeza dos locais; fazem caravanas intimativas do eleitorado deixando grosso rasto de monóxido de carbono nas passagens e repassagens pelos lugares onde se verificam ajuntamentos, com buzinões por dá cá aquele comício ou sessão de intoxicação mental e propaganda, celebração de resultados ou deslocações em massa, acompanhando as suas vedetas principais nas visitas de campanha aos mais pacatos e sossegados algures da nossa portugalidade. Incendeiam as hostes que, eufóricas e heroicas, depois vão incendiar as matas e florestas, para se manifestarem contra os governos e governâncias, contra adversários e em manifestações de protesto (indefinidas e por conta própria). 

A segunda é a inequívoca anuência à igualdade, principalmente à igualdade de oportunidades e igualdade de género. Acerca da igualdade de oportunidades que professam, mas em que depois falham redondamente no cumprimento, mesmo se ainda não foram eleitos para nada, pondo a feitura material de propaganda e do marketing, sem concurso público, a cargo das empresas dos amigos e patrocinadores dos partidos/movimentos, e a distribuição ou colagens na mão da mão de obra juvenil ao preço da uva mijona, explorando os mais desgraçados; se eleitos, chamam só os partidários da sua facção para os jobs, independentemente das qualificações e sem concurso público, prejudicando os mais competentes e habilitados descaradamente. Em relação à igualdade de género cumprem a lei que obriga a uma determinada percentagem de mulheres nas listas, mas em posições de muito difícil eleição, e ainda assim sob critérios sexistas e feministas, para consolação de grupos e nichos sociais ou associativistas bem demarcados, mas depois disso no material de propaganda e nos programas mantêm o discurso antropocêntrico em que a cidadania fica restringida ao cidadão, omitindo a parte feminina da mesma. E, curiosamente, em partido/movimento nenhum a concurso eleitoral se vê no seu programa a iniciativa de intentar uma revisão constitucional para alterar a redação do Artigo 4 º que dita a cidadania portuguesa, considerando "que são cidadãos portugueses todos aqueles que como tal sejam considerados pela lei ou por convenção internacional", que o mesmo é declarar que as cidadãs portuguesas consideradas pela lei ou por convenção internacional não fazem parte da cidadania portuguesa, o que diminui para menos de metade o número de pessoas com tal estatuto, uma vez que em Portugal o número das mulheres é superior ao dos homens. 

A terceira, é a de basear os seus programas em pressupostos inconcretizáveis, ou promessas/princípios (inadiáveis segundo alguns) para as/os quais não têm conhecimento de causa nesses assuntos, ou não têm know-how nem pessoal qualificado disponível nos seus quadros para os abordar e/ou resolver, e muito menos dinheiro suficiente para os contratar. Recentemente foi aprovado um projeto de diploma que proíbe as práticas de publicidade enganosa a atos e serviços de saúde, mas para a publicidade de práticas políticas impossíveis, como foram as promessas em que o Syriza baseou a sua campanha e que os levou ao poder, tendo agora que fazer tudo ao contrário do que prometeram, não foi feito nada, pelo que continuam impunes no nosso país. Esquisito... Prejudicar alguém na saúde é crime, mas prejudicar todos e todas na vida dá condecoração presidencial, nomeadamente para implicados no caso BES... Hum!  

Todavia a prédica já vai longa, e o pessoal tem mais que fazer. Portanto, pedir a pessoas honestas e cumpridoras dos seus deveres, que votem, ou deleguem responsabilidades em alguém que comprovadamente o não é, devia ser proibido por lei em qualquer sociedade livre, justa e solidária, como é a nossa República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular, mesmo que essa dignidade seja amputada nela pela sua lei fundamental às pessoas humanas do género feminino, ou cidadãs. Devia ser proibido e punido severamente. E estranho deveras porque ainda o não foram... Estamos à espera de quê? Do quatro de outubro? Francamente! 

Joaquim Castanho            

8.16.2015

FALSOS NENÚFARES PARA FALSAS LIBELINHAS




FALSOS NENÚFARES PARA FALSAS LIBELINHAS

Neste enredo e labuta
De brandos costumes comuns, 
Mesmo sem marmelos nenhuns
Todos se lascam na fruta. 

Joaquim Castanho

7.26.2015




“A fachada de uma casa pertence a quem a olha.”

LAO TSEU
  




“Somente um povo bem familiarizado com a democracia consegue respeitar a esfera pública do seu espaço.”

JURGEN HABERMAS

Património ambiental



“Defino o patrimônio ambiental urbano como sendo constituído de conjuntos arquitetónicos, espaços urbanísticos, equipamentos públicos e elementos naturais intraurbanos, regulados por relações sociais, econômicas e culturais, onde o conflito deve ser o menor possível e a inclusão social uma exigência crescente.”


EDUARDO YÁZIGI, Prof. do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, Brasil 

IDENTIFICAÇÃO E CIDADANIA ATIVA




IDENTIFICAÇÃO E CIDADANIA ATIVA


A CARTA DE VENEZA (1964), que baseou (ou originou) o conceito de património ambiental urbano, é o documento que fundamenta a preservação das áreas de ambiência nas quais as pessoas e os bens, as espécies e a biodiversidade, estabelecem relações de confluência de interesses (em mutualismo, parasitismo ou simbiose), pelo que a ideia de ambiente não poderá nunca significar somente coisa ou lugar, mas antes relação (do latim amb + ire, que quer dizer exatamente junto ir ou ir junto), sugerindo-nos assim que, muito mais importante do que sermos ou reivindicarmo-nos como cidadãos e cidadãs, é que o façamos de uma forma consequente, ativa, responsável, democrática, positiva, emancipada e consciente, alheia aos criancismos egoístas e indiferenças imaturas que caraterizam o provincianismo bacoco e mediavalesco vigente em certas cidades interiores.


Há pessoas que vivem para enjavardar. Para enjavardar os demais atirando-lhe para cima todos os preconceitos e taras que conhecem. Para se enjavardar a si mesmas com substâncias, ideias desesperadas e intenções perversas, ou estados de ânimo deploráveis. Para enjavardar o ambiente, a fim de fazerem dele uma extensão paradisíaca de si e área ideal ao seu modus vivendi. E até acham que quem não segue os seus padrões e conduta, não é moderno, não está na moda nem é civilizado...


Porém, sujar o património, destruir os equipamentos sociais, o edificado histórico ou as infraestruturas ambientais, não é estar na moda nem ser moderno, e muito menos ser civilizado – é ser ignorante, associal e psicopata. E inadaptado ou inadaptada. É negar o ir junto e preferir o ficar só, o que, considerando a atual tábua de liberdades, direitos e garantias, se não pode negar a ninguém, e nos obriga a expulsar essas pessoas do convívio com as demais, isolando-as em prisões ou enviando-as para meios selvagens incivilizados onde nem os primatas habitem.

Então, por que não o fazemos? Porque nos achamos iguais a eles e elas? Hum!...


Joaquim Castanho

6.25.2015

DO JARDIM DE NOSSO CHÃO




DO JARDIM DE NOSSO CHÃO

No tempo em que "Era uma vez"
Ainda era todas as vezes das histórias,
Uma vez houve uma hortênsia
Que colheu uma rosa e a guardou
No cantinho mais quentinho de seu cálice,
Que, como todos sabemos, é o coração das flores,
Filhas de todos os continentes e todas as cores.

Pois então, esta flor que assim fez
Como se faz na vida uma só vez,
Guardou no seu secreto coração
Não quatro flores, duas ou três
Mas apenas uma – Vês?... – Como não?!!

Se estava descalça, ninguém sabe;
Ou se suspirou junto à fonte,
E lhe gemeu o âmago da semente, 
Ninguém ouviu. Nem tinha idade...
Mas que era flor que na raiz cabe
Doutra flor é bem verdade,
Tão verdade, que ninguém o desmente.

E como o fez? De que intento surgiu?
Quem reconheceu tal magia?
Quem aos anjos e a Deus pediu
Poder fazer o que essa flor fez um dia?...

Do que ao mundo foi notícia
E se viu na TV, e leu nos jornais,
É que além de sua vegetal condição
Houve também alentejanos jograis
Que colheram essa hortênsia
Para a plantar no seu árido chão
De onde não saiu jamais.

E aí, a flor que tinha na raiz,
Espécie invasora simples e bela
Floresceu tanto, que ainda hoje se diz
Ser aquele somente o jardim dela!


Joaquim Castanho

SAUDAÇÃO AMIGA




SAUDAÇÃO AMIGA

Tentei capturar o momento,
Torná-lo própria pele, só minha,
Mas fugaz, esvaiu-se no tempo
Deixando-me enredado em sua linha…

E o verbo com ele fluiu;
Resvalou conjugação insegura.
Que a palavra que a alma sentiu,
Nasceu simples – e vive pura.


Joaquim Castanho

6.23.2015

PESSOAR NAS INTERMITÊNCIAS DE SER





PESSOAR NAS INTERMITÊNCIAS DE SER


A minha aldeia é tão grande como todas as aldeias interiores
Porque todas as aldeias interiores são simplesmente aldeias
Incluindo as grandes e as cosmopolitas com um rio ao meio.
Todavia, quando preciso de trazer-me cá fora a arejar
A brincar com as veleidades da rua, murmurar doçuras às garinas
Sorrir aos cães que passam, deitar a língua de fora às margaridas
Atirar beatas com um piparote, correr atrás dos pombos mansos
Fazer poemas às cachopas alegres e bonitas de saias ciganas
Escutar a mexeriquice dos cafés, hipermercados e esplanadas
Esquecer o silêncio dos corredores dos edifícios seculares
Planger as cordas que acordam o destino e jungem a esperança
Sofrer as descidas abruptas do lusco-fusco a escurecer sombras
Esgrimir a voz no implorar dum beijo somente, tão-somente um,
Então, ponho-me à esquina, à tua espera fixando toda a gente
Indiferente ao lugar, numa esquina qualquer, incógnita e anónima
E anónimo, aconchegado pela hora de chegares a sorrir e ímpar,
Embalado pelo misterioso enigma dos teus olhos a dizer indizíveis
Que são capazes de sobrevoar as maiores distâncias e vazios
Atravessar multidões, ficar muito depois do comboio partir, a ver,
Regressarem por detrás do autocarro, prever a velocidade, a nudez
O pulsar do minuto, do segundo, o ritmo (acelerado) da respiração,
Serem outros para ser aquilo que são em si mesmos e são em mim
E lerem na profundidade da minha mente o que não sei lá estar
Até ao destemido recôndito das intrigas inconfessáveis e urgentes
Tão íntimas quanto é subornável meu querer perante tua vontade...
A que não sei resistir

A que não posso resistir

A que não quero resistir.


E me faz conjugar o verbo nunca como sempre, sempre no futuro
Incondicionalmente no incondicional sem ses nem mas ou porquês.

(E a propósito... Quem da vida disse  não haver certeza alguma?
Olha: mente. Diz-lhe descaradamente que está errada/o, e emente
– Como sempre, e sabe, que é quem mais do que nunca mentiu!...)

Joaquim Castanho      


ASANA DE LUTA




ASANA DE LUTA 



De costas viradas não te vejo
Mas sei onde estás e sinto-te real...
São como sentidas estrelas em cortejo
Que me marcam fulgentes, por sinal
Quase de línguas incandescentes
Com que se diz o sonho (ou o virtual)
E me dedilham de vertigem e solfejo
Num abismo de perder a noção de bem...
Ou de mal.


Serenas pausas entre seres afastados
Acontecem espaços por acontecer também,
Que se em metros forem bem contados
Nunca bastarão para afastar ninguém.


Ou silêncios, que igualmente distanciam
Porque distas são as costas que se avistam
Entre os ritmos que a estudar cadenciam
A chegada dos conceitos que nos pautam


O navegar, o surgir significante com significado
Que estar de costas é estar virado
Ter por dentro o que é de dentro
E por fora, o mesmo lado... 


Entre costas há o mar, oceanos de lava pura
Arquipélagos de literatura, intrigas, enredos,
Vidas, condenações por amor, perdições e segredos
Poetas que fizeram da existência outra aventura.


Há os destinos, sem chegada nem partida
Sinas que se cumpriram sem sair daqui,
Vidas tumultuosas que engrossaram a vida
Miríades de tragédias que sentado vivi.


São diferentes, estas bandeiras desfraldadas
Entre nós, redes tão parecidas às pesqueiras
Que de nó em nós emalham as seteiras
De onde vigiamos as simples madrugadas
Que hão de descobrir o caminho de nós
Tendo nas ondas outras estradas
De cabelos (ser)penteadas a sós
Pelos dentes das paixões despenteadas.


Porque dessas somos apenas as mós
Que separam o pó das palavras soletradas
Costas com costas, combatendo o que vier de fora
Que as sentidas sentinelas só sabem sabendo
A sentida soletração que em nós nos demora.


Costas com costas, do anoitecendo
À aurora, que o futuro é um ontem tecendo
A teia que somos nas palavras do agora!



Joaquim Castanho


La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português