9.10.2015

A SEBENTA






A SEBENTA

In illo tempore – No tempo em que eu andava em Coimbra, ainda a boa e imortal sebenta reinava em todo o seu esplendor! Eu nem fazia sequer ideia, ao chegar a Coimbra, do que vinha ser isso da sebenta; – mas industriado logo a tal respeito, vim a saber que era uma espécie de folhinha litografada, formato 8.º, que saía todos os dias compendiando a explicação do lente; que se chamava sebenteiro o que a redigia; que custava sete tostões por mês cada uma; que eram sempre três em cada ano, visto as cadeiras em cada ano serem três; e, finalmente, que, enquanto o lente explicava a lição para o dia seguinte, só o sebenteiro ouvia o lente, e que os mais, todos, e eu portanto, podiam muito bem ler o seu romance, fazer o seu bilhetinho e passá-lo, ou comentar os que vinham dos outros, – ou então, se preferíssemos, dormir ou fazer versos!

Não havia nada melhor! Além disso, algumas metiam também as suas piadas; outras davam caricaturas; – e sebenteiro havia que amenizava por tal forma aquela estopada, que até dava versos para o fado no fim da sebenta, e convocava os condiscípulos, em anúncios, para troupes* aos caloiros, ou outras pândegas!

As sebentas tinham em geral oito páginas, e cada um ia pelas suas ao cair da noite, e eram duas por noite; – mas, se o lente se tinha alargado na prelecção, ou o sebenteiro era maçador, às tais oito páginas acresciam outras, – e a esse suplemento, que era sempre amaldiçoado, chamava-se o resto!

(...)

Está pois a ver-se que a sebenta era uma instituição universitária; – mas ainda assim, coisa curiosa, cheirava sempre a contrabando; e tudo quanto de mais difícil podia desafiar na aula a habilidade de um cábula, se era chamado à lição, cifrava-se em manejar a sebenta com habilidade, de modo a que o lente a não visse... Ele bem sabia que ela estava lá; mas, enfim, era preciso esconder essa impostura, – e isso era um trabalhinho de prestidigitação, em que, se alguns eram eminentes, outros, coitados, eram uma lástima!

Bom estudante, em geral, era, pois, o que manejava a sebenta com habilidade, – e alguns havia de tal modo peritos que a sugavam sem lhe deixar uma gota, e o lente nem percebia... Olho na sebenta, olho no lente, passando-a através do livro se era preciso voltar as folhas, parecia até que nem tinha sebenta; e os outros menos habilidosos, esses, ou a extractavam em pedacinhos de papel onde só figura de apontamentos, ou então, resumiam nas margens o texto das páginas, e, deixando as margens fora de um livro, ou em geral de um folheto qualquer que se pudesse enrolar em forma de batuta, cantavam a sebenta como uns papagaios, – e ia-se a ver não sabiam palavra!

... Por me dizia uma vez o Manuel do Marco da Feira, dono de uma litografia, ao ouvir a Cabra tocar para as aulas no dia seguinte, que era o primeiro dia do ano lectivo:

– «Bem! Começa-se a estudar amanhã a maneira de se não estudar!»




* Caloiro, propriamente, é o estudante de preparatórios; mas também se dá este nome ao novato, isto é, ao estudante do 1º ano de qualquer Faculdade. Os novatos cortam o cabelo e fazem troça dos caloiros; e os do 2º ano (estes principalmente) fazem o mesmo aos novatos, e também aos caloiros. O novato repetente não é troçado nem troça.

A brincadeira das troupes é muito estúpida, e eu em poucas entrei. A mim cortou-me uma o cabelo à Porta de Minerva, uma vez que eu ia para casa ao anoitecer e não levava lunetas porque se me tinham partido esse dia no Seminário, numa refrega com os formigões (seminaristas) – e por isso só a vi quando lhe estava nas unhas, e o tesourão em cima da minha cabeça e à roda de mim a malta silenciosa dos embuçados, todos de moca para se eu resistisse.
(...) (...)

in TRINDADE COELHO, In Illo Tempore, pág. 145 e segs.

8.22.2015

NÃO HÁ MAL QUE SEMPRE DURE, NEM BEM QUE NUNCA ACABE




NÃO HÁ MAL QUE SEMPRE DURE, NEM BEM QUE NUNCA ACABE

"No século XV, quando os turcos invadiram Constantinopla e derrubaram o Império Romano do Oriente, os padres da Igreja estavam a discutir assuntos teológicos." – In "O Sexo dos Anjos" e a Política Externa Portuguesa, por Tiago Moreira de Sá e Emanuel Bernardes Joaquim, jornal PÚBLICO, 22.08.2015 

E de súbito, aquilo que algumas pessoas costumam dizer perde a gracinha toda... Faz «pooff!» na barreira da nossa indiferença, e escorrega por ela abaixo como um asco peganhento. O que antes parecia ser argúcia, acutilância, subtileza maquiavélica, passa a ser visto como ronha, ronceirice, manha, fuga prà frente, interesseira representação para agafanhar almejados e obscuros proventos. A simplicidade e clareza discursiva desvenda-se, afinal, como uma mancheia de lugares comuns. A sapiência e irrepreensível memória, uma simplificada mediocridade e evidente vocação para a cópia e palimpsesto. As pausas, como notórias confissões de culpa, de inaptidão, défice lexical ou compulsão semântica. E aquele jovialíssimo piscar de olho ao eleitorado, que tão bem lhe ficava por aparentar espontaneidade, apenas mais um tique de denúncia da misoginia voluntária, ou obrigatória, caraterístico de quem se sente entalado. Desmascarado. De careca à mostra. 

E não vale a pena nomear seja quem for, porque a todas as políticas e a todos os políticos acontece exatamente o mesmo. Uns numa altura, outros noutra. Aos nossos, é agora. Ora, se ninguém os vai querer ver ou ouvir em debates políticos, ainda que impingidos pelos canais de sinal aberto, porque é que eles se preocupam tanto em definir quem estará ou não estará neles? De quem se senta em frente ou lado de quem? Essas coisecas são combinadas pelos staffs, e não podem ser consideradas coreografias de opereta brejeira com pretensões a vedetismos de cartaz em programas de primeiro tempo. E depois, tudo quanto lá irão dizer já é por demais conhecido e de toda a gente, incluindo os que não querem saber disso para nada. São figuras de basta presença e figuração nas primeiras páginas dos jornais e telejornais, quer pelo que dizem e repetem, quer por onde vão e o que lá poderão estar a fazer. Sobretudo porque a política não é nenhum jogo de berlinde, com vitórias, derrotas e desforras, fértil em retórica para deslumbrar infantis que gostam de ver os adultos à sopapada, ou um desporto de rasteirar, derrubar e achincalhar os meninos e as meninas da outra ponta da sala. A política faz-se apresentando projetos, programas gerais ou setoriais, estratégias de execução, orçamentos viáveis, motivando e convidando gente para neles colaborar, fazer melhorias, reforçando positivamente a participação, a responsabilidade, a consciência cívica e a emancipação, quer dos indivíduos, como das comunidades; quer das regiões, como da nação. Portanto, seria de bom tom, não atirar poeira para os olhos do povo, nem dar-lhe a engolir futriquices típicas das clubites pacóvias e desaguisados entre a rua de baixo e rua de cima, usuais no jogo da malha e do pião. Sob pena de que se o não fizerem, o povo português lhes faça como fez o Zé-Povinho do Bordalo ao fiado: «Queres o voto, toma!» (Até porque as meninas anicas acompanham os joõesinhos que lhes apetece!) 

Enfim, digamos que o prazo e "estado de gracinha" desses tribunos expirou. Esgotou. Perdeu a validade.  Principalmente, porque a nossa paciência para lhes aturar a banha-da-cobra já não é o que era. Estamos cansados de ser condescendentes com quem nos quer dar a volta. Há 40 anos que vivemos (quase) em democracia. Já nos aconteceu quase tudo o que não devia ter acontecido. E nem sequer um oitavo do desenvolvimento, bem-estar, qualidade de vida, segurança e esperança no futuro de quanto merecíamos ter. Era tempo de começarem a pensar que se continuarem a tentar enganar-nos, isto ainda pode vir a dar prò torto... É que até os paz d'almas que todos e todas nós somos, têm um ponto de fervura. E, enquanto os paroquianos e sacristas desta confraria das bananas se empenha discutindo quem se senta nas cadeirinhas e cavalinhos de baloiço, bem podem chegar por aí os nossos otomanos e trocar os estandartes sem que lhes dê o cheiro!  

Joaquim Castanho          

8.20.2015

COMO, PORQUÊ E COM QUEM?




COMO, PORQUÊ E COM QUEM? 

"Não há igualdade ou justiça possíveis enquanto todas as vidas não valerem exatamente o mesmo." 

In CLÁUDIA SEMEDO (Embaixadora do Ano Europeu Para o Desenvolvimento), Direito à Vida, jornal PÚBLICO, de 17.08.2015 

Quando desconhecemos o que uma "coisa social" é, camuflamos a nossa ignorância acerca dela, afirmando o que ela já foi ou o que poderá vir a ser – SE. E a modinha pegou de estaca nas hostes políticas e jornalísticas. Perante a incerteza no que irá dar o 4 de outubro, inventam-se cenários e reiteram-se intenções, alinham-se baterias e pontarias, preenchem-se as linhas em branco dos programas eleitorais como quem aposta no totobola, e reza-se às padroeiras e padroeiros com bênçãos de pó-de-ser e demais sortilégios disponíveis, incluindo as sondagens habituais. Umas quantas forças a concurso, para obterem vantagens competitivas, apostam com múltiplas, esbanjando os créditos em duplas e triplas, a que dão o pomposo nome de coligações. Depois, nos programas de conjunto tocam à Ten Years After, com o homem da viola à frente a tocar o que lhe dá na gana, num banzé de acordes ou soundbites, e os restantes da instrumental confraria a desunharem-se para acompanhá-lo, ainda que desafinados e molestados pelos costumeiros feedbacks  e boomerangs, determinando que vão fazer isto & aquilo, assado & frito, mas sobretudo no limpinho sem espinhas como se a oposição estivesse de férias ou tivesse abdicado de ser oposição para ser uma vencida colaboracionista e empenhada. E, invariavelmente, fazem-no naquele registo mágico típico de quem acha que toda a gente não tem mais nada pra fazer do que tentar adivinhar o que querem, porque o querem, como o querem e de quem dispõem para fazer... Sumidades! 

Quando se é novo e inexperiente acreditamos que somos capazes de todos os possíveis só com o estalar dos dedos ou o embonecado bater das pestanas. Mas, na generalidade, crescemos, e verificamos que não é bem assim. Que tem de se estar ao corrente das problemáticas, familiarizados com os assuntos, estudá-los a fundo, experimentar as soluções plausíveis, validar as funcionais e fazer contínuas atualizações nelas. E fazemo-lo regra geral, sem stress de maior, nem pruridos vergonhosos. Porém, a exceção privilegiada dos que ingressaram na carreira política, consideraram que isso seria uma perda de tempo, quer por exigências de sedução do eleitorado, quer por mandriice natural, quer por considerar que a política é um atalho para o sucesso e fortuna, preferindo manter-se infantis, quais gracinhas imprestáveis, larocas e bem-falantes, imprescindíveis para enfeitar os frisos da magna nacionalidade, embora não acarretem qualquer benefício aos seus conterrâneos e territórios. 

E vai daí, ei-los que embrulham as habituais e fantasiosas promessas em celofane de compromisso/estimativa, que é o marketing da embalagem a invadir a composição "química" dos conteúdos, e toca de nos impingir a garantia de que vão baixar o défice, aumentar o crescimento, restruturar/renegociar a dívida, quiçá atirá-la ao mar que é uma economia que promete mundos sem fundo, criar uns tantos mil empregos (que depois vão cair nas malhas dos seguros/subsídios de desemprego mal terminem essas ações de combate ao ócio), apostar na cultura e no património, melhorar a qualidade de vida, disponibilizar saúde, educação, bem-estar, justiça, habitação, segurança social, sustentabilidade, transportes, segurança, ordem e perspetivas de futuro até para os hipervelhos. Esquecem-se é de dizer como vão fazer isso, com que dinheiros e especialistas, com quem contam para os desempenhos e tutelas, que certificados de boas práticas já têm em currículo, e quem lhos passou... Enfim, retemperam as ideias de igualdade e de justiça social com o seu direito imaculado de gente superior e superiormente bem-intencionada em quem devemos acreditar cegamente e delegar as nossas esperanças e expetativas, prò melhor e prò pior, pois "ao menino e ao borracho, mete Deus a mão por baixo", atribuindo-nos o estatuto de trouxas e ingénuos, como se as nossas vidas valessem menos do que as dessa iluminada elite. Contudo esquecem-se de uma coisa... De quê? De reler a epígrafe deste artigo, que transcreve o pensamento europeu através da sua embaixadora para o desenvolvimento, e que nos alerta para o detalhe de que "não há igualdade ou justiça possíveis enquanto todas as vidas não valerem exatamente o mesmo". E nós já sabemos há muito tempo que não queremos para nós o que nem os gregos quiseram para eles. Nem mais!  

Joaquim Castanho

8.18.2015

ENQUANTO SE COME NÃO SE ASSOBIA




ENQUANTO SE COME NÃO SE ASSOBIA


Descobrir até que ponto os portugueses estão disponíveis para alinhar com as artimanhas e manhosas patranhas partidárias, e as suas coligações, fusões, agregações, plataformas e demais desenformadas formas, é a tarefa primordial para qualquer político que se preze, seja minimamente honesto, frontal, consciente, responsável e emancipado. Arrisca-se depois, é claro, a que não tenha onde votar, e muito menos qualquer "bandeirinha" para espanejar e ao abrigo da qual concorrer, seja prò que for, nomeadamente a deputado ou autarca – mas isso são outros quinhentos. 

A primeira, e a mais notória, é que todos e todas são a favor da conservação da natureza, da qualidade de vida e do ambiente. Mas logo de seguida vemos que esbanjam papel a torto e a direito, conspurcam paredes, caixas de correio, paragens de autocarros, os chãos das ruas e pavilhões, com panfletos, postais, autocolantes, cartazes, jornais de campanha, programas e gracinhas de marketingtesas destronadas, estando-se absolutamente nas tintas para as arvoresinhas abatidas para tanto ou para a limpeza dos locais; fazem caravanas intimativas do eleitorado deixando grosso rasto de monóxido de carbono nas passagens e repassagens pelos lugares onde se verificam ajuntamentos, com buzinões por dá cá aquele comício ou sessão de intoxicação mental e propaganda, celebração de resultados ou deslocações em massa, acompanhando as suas vedetas principais nas visitas de campanha aos mais pacatos e sossegados algures da nossa portugalidade. Incendeiam as hostes que, eufóricas e heroicas, depois vão incendiar as matas e florestas, para se manifestarem contra os governos e governâncias, contra adversários e em manifestações de protesto (indefinidas e por conta própria). 

A segunda é a inequívoca anuência à igualdade, principalmente à igualdade de oportunidades e igualdade de género. Acerca da igualdade de oportunidades que professam, mas em que depois falham redondamente no cumprimento, mesmo se ainda não foram eleitos para nada, pondo a feitura material de propaganda e do marketing, sem concurso público, a cargo das empresas dos amigos e patrocinadores dos partidos/movimentos, e a distribuição ou colagens na mão da mão de obra juvenil ao preço da uva mijona, explorando os mais desgraçados; se eleitos, chamam só os partidários da sua facção para os jobs, independentemente das qualificações e sem concurso público, prejudicando os mais competentes e habilitados descaradamente. Em relação à igualdade de género cumprem a lei que obriga a uma determinada percentagem de mulheres nas listas, mas em posições de muito difícil eleição, e ainda assim sob critérios sexistas e feministas, para consolação de grupos e nichos sociais ou associativistas bem demarcados, mas depois disso no material de propaganda e nos programas mantêm o discurso antropocêntrico em que a cidadania fica restringida ao cidadão, omitindo a parte feminina da mesma. E, curiosamente, em partido/movimento nenhum a concurso eleitoral se vê no seu programa a iniciativa de intentar uma revisão constitucional para alterar a redação do Artigo 4 º que dita a cidadania portuguesa, considerando "que são cidadãos portugueses todos aqueles que como tal sejam considerados pela lei ou por convenção internacional", que o mesmo é declarar que as cidadãs portuguesas consideradas pela lei ou por convenção internacional não fazem parte da cidadania portuguesa, o que diminui para menos de metade o número de pessoas com tal estatuto, uma vez que em Portugal o número das mulheres é superior ao dos homens. 

A terceira, é a de basear os seus programas em pressupostos inconcretizáveis, ou promessas/princípios (inadiáveis segundo alguns) para as/os quais não têm conhecimento de causa nesses assuntos, ou não têm know-how nem pessoal qualificado disponível nos seus quadros para os abordar e/ou resolver, e muito menos dinheiro suficiente para os contratar. Recentemente foi aprovado um projeto de diploma que proíbe as práticas de publicidade enganosa a atos e serviços de saúde, mas para a publicidade de práticas políticas impossíveis, como foram as promessas em que o Syriza baseou a sua campanha e que os levou ao poder, tendo agora que fazer tudo ao contrário do que prometeram, não foi feito nada, pelo que continuam impunes no nosso país. Esquisito... Prejudicar alguém na saúde é crime, mas prejudicar todos e todas na vida dá condecoração presidencial, nomeadamente para implicados no caso BES... Hum!  

Todavia a prédica já vai longa, e o pessoal tem mais que fazer. Portanto, pedir a pessoas honestas e cumpridoras dos seus deveres, que votem, ou deleguem responsabilidades em alguém que comprovadamente o não é, devia ser proibido por lei em qualquer sociedade livre, justa e solidária, como é a nossa República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular, mesmo que essa dignidade seja amputada nela pela sua lei fundamental às pessoas humanas do género feminino, ou cidadãs. Devia ser proibido e punido severamente. E estranho deveras porque ainda o não foram... Estamos à espera de quê? Do quatro de outubro? Francamente! 

Joaquim Castanho            

8.16.2015

FALSOS NENÚFARES PARA FALSAS LIBELINHAS




FALSOS NENÚFARES PARA FALSAS LIBELINHAS

Neste enredo e labuta
De brandos costumes comuns, 
Mesmo sem marmelos nenhuns
Todos se lascam na fruta. 

Joaquim Castanho

7.26.2015




“A fachada de uma casa pertence a quem a olha.”

LAO TSEU
  




“Somente um povo bem familiarizado com a democracia consegue respeitar a esfera pública do seu espaço.”

JURGEN HABERMAS

Património ambiental



“Defino o patrimônio ambiental urbano como sendo constituído de conjuntos arquitetónicos, espaços urbanísticos, equipamentos públicos e elementos naturais intraurbanos, regulados por relações sociais, econômicas e culturais, onde o conflito deve ser o menor possível e a inclusão social uma exigência crescente.”


EDUARDO YÁZIGI, Prof. do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, Brasil 

IDENTIFICAÇÃO E CIDADANIA ATIVA




IDENTIFICAÇÃO E CIDADANIA ATIVA


A CARTA DE VENEZA (1964), que baseou (ou originou) o conceito de património ambiental urbano, é o documento que fundamenta a preservação das áreas de ambiência nas quais as pessoas e os bens, as espécies e a biodiversidade, estabelecem relações de confluência de interesses (em mutualismo, parasitismo ou simbiose), pelo que a ideia de ambiente não poderá nunca significar somente coisa ou lugar, mas antes relação (do latim amb + ire, que quer dizer exatamente junto ir ou ir junto), sugerindo-nos assim que, muito mais importante do que sermos ou reivindicarmo-nos como cidadãos e cidadãs, é que o façamos de uma forma consequente, ativa, responsável, democrática, positiva, emancipada e consciente, alheia aos criancismos egoístas e indiferenças imaturas que caraterizam o provincianismo bacoco e mediavalesco vigente em certas cidades interiores.


Há pessoas que vivem para enjavardar. Para enjavardar os demais atirando-lhe para cima todos os preconceitos e taras que conhecem. Para se enjavardar a si mesmas com substâncias, ideias desesperadas e intenções perversas, ou estados de ânimo deploráveis. Para enjavardar o ambiente, a fim de fazerem dele uma extensão paradisíaca de si e área ideal ao seu modus vivendi. E até acham que quem não segue os seus padrões e conduta, não é moderno, não está na moda nem é civilizado...


Porém, sujar o património, destruir os equipamentos sociais, o edificado histórico ou as infraestruturas ambientais, não é estar na moda nem ser moderno, e muito menos ser civilizado – é ser ignorante, associal e psicopata. E inadaptado ou inadaptada. É negar o ir junto e preferir o ficar só, o que, considerando a atual tábua de liberdades, direitos e garantias, se não pode negar a ninguém, e nos obriga a expulsar essas pessoas do convívio com as demais, isolando-as em prisões ou enviando-as para meios selvagens incivilizados onde nem os primatas habitem.

Então, por que não o fazemos? Porque nos achamos iguais a eles e elas? Hum!...


Joaquim Castanho

6.25.2015

DO JARDIM DE NOSSO CHÃO




DO JARDIM DE NOSSO CHÃO

No tempo em que "Era uma vez"
Ainda era todas as vezes das histórias,
Uma vez houve uma hortênsia
Que colheu uma rosa e a guardou
No cantinho mais quentinho de seu cálice,
Que, como todos sabemos, é o coração das flores,
Filhas de todos os continentes e todas as cores.

Pois então, esta flor que assim fez
Como se faz na vida uma só vez,
Guardou no seu secreto coração
Não quatro flores, duas ou três
Mas apenas uma – Vês?... – Como não?!!

Se estava descalça, ninguém sabe;
Ou se suspirou junto à fonte,
E lhe gemeu o âmago da semente, 
Ninguém ouviu. Nem tinha idade...
Mas que era flor que na raiz cabe
Doutra flor é bem verdade,
Tão verdade, que ninguém o desmente.

E como o fez? De que intento surgiu?
Quem reconheceu tal magia?
Quem aos anjos e a Deus pediu
Poder fazer o que essa flor fez um dia?...

Do que ao mundo foi notícia
E se viu na TV, e leu nos jornais,
É que além de sua vegetal condição
Houve também alentejanos jograis
Que colheram essa hortênsia
Para a plantar no seu árido chão
De onde não saiu jamais.

E aí, a flor que tinha na raiz,
Espécie invasora simples e bela
Floresceu tanto, que ainda hoje se diz
Ser aquele somente o jardim dela!


Joaquim Castanho

SAUDAÇÃO AMIGA




SAUDAÇÃO AMIGA

Tentei capturar o momento,
Torná-lo própria pele, só minha,
Mas fugaz, esvaiu-se no tempo
Deixando-me enredado em sua linha…

E o verbo com ele fluiu;
Resvalou conjugação insegura.
Que a palavra que a alma sentiu,
Nasceu simples – e vive pura.


Joaquim Castanho

6.23.2015

PESSOAR NAS INTERMITÊNCIAS DE SER





PESSOAR NAS INTERMITÊNCIAS DE SER


A minha aldeia é tão grande como todas as aldeias interiores
Porque todas as aldeias interiores são simplesmente aldeias
Incluindo as grandes e as cosmopolitas com um rio ao meio.
Todavia, quando preciso de trazer-me cá fora a arejar
A brincar com as veleidades da rua, murmurar doçuras às garinas
Sorrir aos cães que passam, deitar a língua de fora às margaridas
Atirar beatas com um piparote, correr atrás dos pombos mansos
Fazer poemas às cachopas alegres e bonitas de saias ciganas
Escutar a mexeriquice dos cafés, hipermercados e esplanadas
Esquecer o silêncio dos corredores dos edifícios seculares
Planger as cordas que acordam o destino e jungem a esperança
Sofrer as descidas abruptas do lusco-fusco a escurecer sombras
Esgrimir a voz no implorar dum beijo somente, tão-somente um,
Então, ponho-me à esquina, à tua espera fixando toda a gente
Indiferente ao lugar, numa esquina qualquer, incógnita e anónima
E anónimo, aconchegado pela hora de chegares a sorrir e ímpar,
Embalado pelo misterioso enigma dos teus olhos a dizer indizíveis
Que são capazes de sobrevoar as maiores distâncias e vazios
Atravessar multidões, ficar muito depois do comboio partir, a ver,
Regressarem por detrás do autocarro, prever a velocidade, a nudez
O pulsar do minuto, do segundo, o ritmo (acelerado) da respiração,
Serem outros para ser aquilo que são em si mesmos e são em mim
E lerem na profundidade da minha mente o que não sei lá estar
Até ao destemido recôndito das intrigas inconfessáveis e urgentes
Tão íntimas quanto é subornável meu querer perante tua vontade...
A que não sei resistir

A que não posso resistir

A que não quero resistir.


E me faz conjugar o verbo nunca como sempre, sempre no futuro
Incondicionalmente no incondicional sem ses nem mas ou porquês.

(E a propósito... Quem da vida disse  não haver certeza alguma?
Olha: mente. Diz-lhe descaradamente que está errada/o, e emente
– Como sempre, e sabe, que é quem mais do que nunca mentiu!...)

Joaquim Castanho      


ASANA DE LUTA




ASANA DE LUTA 



De costas viradas não te vejo
Mas sei onde estás e sinto-te real...
São como sentidas estrelas em cortejo
Que me marcam fulgentes, por sinal
Quase de línguas incandescentes
Com que se diz o sonho (ou o virtual)
E me dedilham de vertigem e solfejo
Num abismo de perder a noção de bem...
Ou de mal.


Serenas pausas entre seres afastados
Acontecem espaços por acontecer também,
Que se em metros forem bem contados
Nunca bastarão para afastar ninguém.


Ou silêncios, que igualmente distanciam
Porque distas são as costas que se avistam
Entre os ritmos que a estudar cadenciam
A chegada dos conceitos que nos pautam


O navegar, o surgir significante com significado
Que estar de costas é estar virado
Ter por dentro o que é de dentro
E por fora, o mesmo lado... 


Entre costas há o mar, oceanos de lava pura
Arquipélagos de literatura, intrigas, enredos,
Vidas, condenações por amor, perdições e segredos
Poetas que fizeram da existência outra aventura.


Há os destinos, sem chegada nem partida
Sinas que se cumpriram sem sair daqui,
Vidas tumultuosas que engrossaram a vida
Miríades de tragédias que sentado vivi.


São diferentes, estas bandeiras desfraldadas
Entre nós, redes tão parecidas às pesqueiras
Que de nó em nós emalham as seteiras
De onde vigiamos as simples madrugadas
Que hão de descobrir o caminho de nós
Tendo nas ondas outras estradas
De cabelos (ser)penteadas a sós
Pelos dentes das paixões despenteadas.


Porque dessas somos apenas as mós
Que separam o pó das palavras soletradas
Costas com costas, combatendo o que vier de fora
Que as sentidas sentinelas só sabem sabendo
A sentida soletração que em nós nos demora.


Costas com costas, do anoitecendo
À aurora, que o futuro é um ontem tecendo
A teia que somos nas palavras do agora!



Joaquim Castanho


DÚVIDA EXISTENCIAL





DÚVIDA EXISTENCIAL

Se o destino nada nos dá,
Nem sequer uma satisfação,
Então… por que na vida haverá
Sempre hipótese de «sim» ou de «não»?

Joaquim Castanho
  

ALMA de Manuel Alegre





ALMA
Manuel Alegre
(1995)

A paródia de formação é um típico cervantino de estilo, autêntico romance de cavalaria de quem atravessa a infância montado no cavalo de pau da família considerada, honrada, por bastos pergaminhos justificada, e generosa, do establishment provinciano. É aquele olhar distante sobre a guerra de 42-45, mas interessado, aproveitado politicamente pelos clientes da Loja, que fisicamente tanto é o estabelecimento comercial e de convívio, como igualmente o centro espiritual da república, ou da sua laicizidade maçónica e da resistência clandestina. Confirmação de como Quixote deambulou por cá deixando geração apreciada. E uma breve história da sonegada participação com os situacionistas do Manholas, aos botas-de-elástico e aos solas Ceilão, que iam sustentando o regime à custa do atraso e do medianismo supersticioso aldeão.

Romance numa só voz para o adolescer em Alma, reflete contudo nela a expressão e peculiaridades das gerações de 50/60, assentes nos pilares da família, escola, loja e retouça com a natureza, também esta repartida por quantos elementos a compõem (rios, caça, pesca, pássaros, como natureza humana: política, esotérica, sexual, bélica, desportiva e relações de amizade), que perfizeram um homem e seus valores, implantando nele o respeito pelos demais, a necessidade de alterar a ordem, principalmente quando ela está errada, no apreço pela justiça, liberdade e democracia, sempre inspirada nos itens da solidariedade e coesão social para despeito da caridadezinha regimental e canasteira. 

Embora raramente me convençam os textos literários dos rabequistas, sobretudo se saídos da filarmonia partidária e/ou ideológica, o que é certo é que esta novela não se atém a ser aquilo que parece. Daí que me sinta na obrigação de a ressaltar como exceção, considerando que o seu autor, além de poeta combatente, democrata de torna-viagem pelo 25-A depois de ter exercido significativa ação revolucionária no exílio, emprestando dedicação e voz a veículos de comunicação, nomeadamente na Rádio Argel, foi (quer dizer: é) também escribalista, conforme a definição de escribalismo que aqui se sustenta, não obstante o seu campo de ficção se estenda para lá da estrita conjugação narrativa, prolongando-se nele enquanto modo de intervenção social.

Porque exceção justificada, além de obra que carece de atenção cuidadosa e destacada, não obstante esse jeito de contrabandear deus e demais obscuridades relativas através da tonalidade dos provençais e gentis-homens que povoaram o universo cavalheiresco em contos, romances, cantigas e novelas, na formação de quase todos os aspirantes a principezinhos deserdados da monarquia, que alimentava a fadação com que as mães predestinavam seus filhos para arautos da esperança, anexando-lhe sempre a distinta marca dos eleitos para missões superiores, nobres, semelhantes às que inspiraram os cavaleiros do ciclo arturiano, combatentes do bem e da justiça que, sob o pendão da cruz, defenderam o santo sepulcro ou se amuralharam em Malta, de onde demandaram o pronunciamento da uma nova ordem terrena.

Acima de tudo por ser Alma o lugar inicial para o cúmplice entrosamento na grande loja que é o mundo. Este e o outro, se o houver. Pois nunca o homem acontecerá neles por acaso. Que normalmente isso, a humanidade e humanismo que forjam o indivíduo, são atributos de pelejada conquista, frutos por poda tida nos anos antecedentes à formação académica, que aliás a prepararam, por mais completa e importante para a sobrevivência da pessoa que esta se venha a revelar vida fora. Há quem prefira usar o termo podar trocando-o pelo seu eufemismo de educar, na esperança de dar aquela pincelada de civilização em algo tão vegetativo, como o processo de aprendizagem; porém, em termos de Alma tal equivaleria a desvirtuar por ró-có-quismo maneirista a formação de qualquer personagem tão empenhadamente perto da natureza ancestral humanista ou humanitária.

Portanto, este livro é a visão adulta, avaliada, perspetivada, parodiada de uma poda que resultou bem, prescindindo de enxertias extemporâneas a fim de manter entroncada a genealogia da geração que se empenhou em sobrevier ajustando a realidade aos seus ideais, promovendo e multiplicando as possibilidades de vida em liberdade aos seus vindouros, sob a interpretação de alguém que deveras lhe pertenceu, mas sempre, incluindo quando nela participou ativamente, a viu, a observou, se lhe apresentou predestinadamente distanciado. Quem provavelmente melhor saberá os porquês de tal postura e atitude, anda à hora por paragens alheias ao mundo, e talvez se mantenha absorto falando de caça com entusiasmo ou apontando a mira a alguma lebre celestial ou perdiz astral, que se lhe levantem na frente, quiçá na companhia de Aquilino Ribeiro, que também se perdia acostumadamente nesse género de miragens calcorreando as fragas e serranias, sem receio de vender a Alma por quaisquer cinco réis e gente.

Precisamente porque depois da Alma visitada mais fácil se torna compreender a estirpe dos homens que a edificaram na rústica pedra, a teceram nos vilares da transformação operativa, tal qual as terras do despertar fizeram e onde tudo o que lhes acontece também nos acontece, pelo como e porque nelas participamos ou a elas vemos, e nos marca para sempre, de forma definitiva, balizando com datas inesquecíveis, interregnos de tempo a partir dos quais nunca mais voltaríamos a ser apenas "aquilo" ou aqueles que antes éramos.     

Joaquim Castanho  

6.21.2015

O POETA

IMPETUOSO IMPROVISO


Raiam nas colinas dóceis dos verdes anos
Os reflexos das salinas sob esse sol divino,
Quase ventres de meninas em alvos panos,
Velas em X de ansiar pra cumprir destino.

E têm seu jamais escrito pela imediata tinta
Dos pontos cardeais num sorriso encantado,
Como quem à incerteza dribla com a finta
Da meiguice gingada dum biquíni molhado...

Declaro para mim breve ser, só doçura leve.
Que não cederei ao repentino, e ao espanto
De quem pelo temor d'esquecer o escreve;

Mas a brisa segreda-me ser tarde pra ser santo...
E aí o vento do desejo sopra forte, fero e tanto
Que a declarada intenção de nada me serve!

Joaquim Castanho     



O POETA
Michael Connelly
Trad. Eduardo Saló
480 Páginas

"A escrita exerce em mim o mesmo efeito que o conteúdo desse copo em ti. Se conseguir escrever sobre o caso, é porque o compreendo. Nada mais me interessa."

"Queria ser escritor e afinal tornei-me jornalista."

"Uma pessoa tenta reconstruir um puzzle em conformidade com o que tem na mente."

"– Vou escrever sobre o meu irmão – anunciei. (...) Depois disso tudo se alterou na minha vida."

"A morte é o meu negócio. É dela que vivo. Baseia-se nela a minha reputação profissional. Trato-a com a precisa paixão de um agente funerário – grave e consolador perante os enlutados e artesão eficiente com ela, quando estou só. Sempre achei que o segredo para me ocupar da morte consistia em a manter a uma distância prudente. É a regra de ouro. Não permitir que o seu alento me atinja a cara."

Sob o modelo narrativo das "bonecas russas", matrioskas, ou das caixinhas que têm uma caixinha dentro que têm outra caixinha, e por aí fora, até desvendar todas as peças do puzzle num quadro geral, este romance assenta, contudo, numa estrutura molecular poeniana, cujos pilares, ou formas essenciais (e explícitas) são: A Queda da Casa de Usher – conto que gira à volta da temática dos sepultados vivos, vítimas dos seus antecipados terrores – e da poesia do mesmo Edgar Allan, principalmente do poema País dos Sonhos, e no qual, aliás, vem a residir a chave do enigma policial, num enredo aos socalcos, em que, a cada nível, se tenta colocar o leitor "fora do espaço, fora do tempo", tornando-lhe as conclusões obsoletas na justa medida em que a elas chega, demonstrando uma vez mais que em poesia uma coisa é sempre outra, qual encadeado metafórico cujos limites não cabem na ideia que possamos ter de infinito, pois que, invariavelmente, logo que compreendemos algo, outro algo se eclode na nossa compreensão, exigindo imagética realização, ao contrário da Dicotomia de Zenão, onde para se alcançar um objectivo depois de percorrido metade do trajeto ainda faltará outro tanto, tornando a demanda impossível, porquanto esta compreensão é heurística mas aberta, visto qualquer descoberta (ao entendimento) não ser mais que o impulso direto – e motivador – para nova descoberta.
Enfim, um livro que só lido, pois que contado vamos obrigatoriamente baralhar-nos nos enredos, enredados na trama e… tramados. Ou incomunicativos.   


Joaquim Castanho

IMPETUOSO IMPROVISO




IMPETUOSO IMPROVISO


Raiam nas colinas dóceis dos verdes anos
Os reflexos das salinas sob esse sol divino,
Quase ventres de meninas em alvos panos,
Velas em X de ansiar pra cumprir destino.

E têm seu jamais escrito pela imediata tinta
Dos pontos cardeais num sorriso encantado,
Como quem à incerteza dribla com a finta
Da meiguice gingada dum biquíni molhado...

Declaro para mim breve ser, só doçura leve.
Que não cederei ao repentino, e ao espanto
De quem pelo temor d'esquecer o escreve;

Mas a brisa segreda-me ser tarde pra ser santo...
E aí o vento do desejo sopra forte, fero e tanto
Que a declarada intenção de nada me serve!

Joaquim Castanho     

6.20.2015

A TERCEIRA ROSA




A  TERCEIRA ROSA
Manuel Alegre 
(1998) 

Eis mais um romance  fragmento que caminha, que se revela em cada painel desdobrado do pórtico histórico do pré, pró, contra e após 25-A,  com diversos amores ao amor pelo meio, exalando uma mescla de qualquer iguaria quimérica de elevado condimento provençal e cavalheiresco, que quase remanesce por milagre, posto que se interpelarmos a mancha gráfica sobre o que traz por dentro, entre capas e fólios, a resposta cai rotunda e sem margem para dúvidas: «São mulheres, senhor. Rosas de seu nome, a maioria delas, mesmo se já morreram ou prostradas repousem nas bermas da prosa, alguéns que cresceram em mim, para mim, por mim e comigo, enquanto a liberdade se reinventava e nascia para nós.» O que, ressalte-se, tanto se pode dizer acerca deste romance como de qualquer outro que tenha por background o ambiente sociopolítico português, dos finais do salazarismo, da primavera marcelista e do primeiro 1º de Maio sob os auspícios da revolução. Ou cuja data de referência se viesse dos 60 libertando quanto o permitissem as malhas do império e da raça insana, considerando que se nota deveras nele a intenção autoral de os refletir, de os lapidar, depurar e, consequentemente, espremendo-lhe os inúmeros pontos negros com que pintalgaram a história. Uma revolução sentada na varanda com um sinal (flor) na mão, confirmando a sua anuência ao encontro marcado. Qual menina que não expira nunca totalmente e se procura em cada mulher cuja inocência ficou e passou mas ficou em nós, como marca distinta de todas as paixões que imperiosas arrebatam, ferram, selam, aplicam o ferrete modelar que nos há de perseguir vida fora. 
Aliás sequência de flores, de pessoas, de sinais... Primeira Rosa, segunda Rosário, terceira: rosa. Como que a inquirir-nos, semelhando William Shakespeare, o "que há num nome? Será que isso a que chamamos rosa, deixará de ter o mesmo suave e doce aroma, com outro nome qualquer?" O que nos motiva a esperar para ver, para confirmar o talvez – de Talavera e Malos Pasos –, que faz com que a morte seja o mais bonito, o clímax da faena, o que somente poderá acontecer no final do espectáculo que ahora se recuerda pelas cinco em sombra de la tarde, já que não há nenhuma morte que não seja igualmente muitas outras. Precisamente porque sempre que alguém morre, sempre que algum companheiro perece pelo caminho, é também mais um pedacinho de nós que se apaga. Talvez Rosário; talvez Cláudia; talvez Talavera. Mas o seu verdadeiro nome até poderia ser Pandora, se houvesse quem o procurasse insistentemente... e quisesse abrir. 
E porque não? Alguém que seja todas as que não querem morrer das paixões que suscitam, que passam mas que ficam. Porque esse alguém há de ser visível nas águas do rio, da Ria – para ser mais exato –, no dia 1º de Maio, conforme conta William Faulkner, em Mayday, que é crença enraizada, segundo a qual aquele que olhar a água do rio neste dia verá nela o rosto da pessoa com quem casará e por quem se darão todos os tropeções no escuro, incluindo aqueles que já não acreditávamos ainda ser possível alguém dar, tamanha é a cegueira, considerando que a força das rotinas disso o impeçam, tão inevitavelmente quanto estas nos prolongam, mas nunca conseguimos contornar por maior que seja a nossa experiência de vida e, reforçada pelo conhecimento, esteja nela firmemente consolidada a sensatez que nos assiste. 
E quem diz rio, diz Ria, diz rio Alva, diz Alba, diz aurora, diz madrugada, enfim, diz multidão que se manifesta na rua. Pois o homem ainda continua a ser aquela mosca zumbindo sob o copo invertido das suas ilusões, que inventa verdades, histórias, romances de cavalaria, aventuras onde seja o herói absoluto, tendo a sua amada como causa e motivo único. Exactamente assim. Cruelmente assim, e conforme cada qual seja capaz de se arremessar para melhor ficar.

Joaquim Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português