4.12.2013


No âmbito do ciclo 360º Ciência Descoberta, terá lugar no dia 17 de Abril p.f., no auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, às 18h00, a conferência Matéria médica: invenções ibéricas em redor da flora e da fauna exóticas, que será proferida pelo Prof. Doutor José Pardo-Tomás, da Institución Milá y Fontanals, CSIC, Espanha. A conferência terá tradução simultânea.
Para mais informações, poderá sempre recorrer  a  (+) 351 21 782 35 25 ou  conf360@gulbenkian.pt
ehttp://www.facebook.com/servicodecienciafundacaocaloustegulbenkian. Para visionamento simultâneo esta estará disponível por Videodifusão em www.livestream.com/fcglive


A ideia principal é oferecer uma interpretação da contribuição ibérica para o conhecimento da flora e da fauna de origem não europeia, colocando sobretudo o acento na sua utilidade médica, daí o uso da expressão “matéria médica” nos tratados científicos daquela época.

Neste sentido, vamos rever as obras dos tratadistas portugueses e espanhóis de história natural e matéria médica das Índias (tanto ocidentais como orientais) no século XVI. Mas o nosso interesse não vai concentrar-se apenas nas suas obras e na circulação europeia das mesmas, mas também nas práticas culturais e científicas desses autores e dos seus leitores.

Veremos igualmente como esse conhecimento e essas práticas circularam tanto nas colónias como no eixo metropolitano formado pelo triângulo Lisboa-Sevilha-Madrid, espaços de circulação desse novo conhecimento à volta dos usos medicinais das plantas e dos animais de origem exótica.

JOSÉ PARDO-TOMÁS is Doctor in History (Universitat de València, Spain). Since 1994, he is Scientific Researcher at the Department of History of Science in the “Milà i Fontanals” Institute (CSIC, Barcelona, Spain). Visiting scholar in the universities of Padua (Italy), Humboldt (Berlin, Germany), Bordeaux (France) and UNAM (México), he works on social and cultural history of medicine, natural history, and scientific books in Early Modern period. In a joint venture with María Luz López-Terrada, he published Las primeras noticias sobre plantas americanas (1993), and with José M. López-Piñero, Nuevos materiales y noticias sobre la Historia natural de Nueva España (1994) and La influencia de Francisco Hernández (1996). He is author of Ciencia y censura (1991), El tesoro natural de América (2002), El médico en la palestra (2004) and Un lugar para la ciencia (2006), among others books. 

4.09.2013


APONTAMENTOS À MARGEM PARA DESMARGINAR

Eis a primeira sequência de APONTAMENTOS À MARGEM PARA DESMARGINAR nascidos em Alínea R) evolução verde ( http://www.facebook.com/evolui.verde ) como editorial de página, mas traduzindo o evoluir teórico de uma orientação que se pretende simbiótica entre a ideia de sustentabilidade e a preparação do futuro, com relevante ênfase nos Direitos Humanos, na Ética da Terra, no progresso e desenvolvimento.

I - O TRIGO E O JOIO

A biodiversidade é a conjugação da fraternidade e da igualdade estendida a todos os seres do planeta, incluindo-o; porém, a Terra não está só no universo, sendo apenas mais um dos centros de vida entre as infinitas possibilidades que lhe assistem, e a miríade de variedades e hipóteses que dela há na nossa e demais galáxias. “A política e a economia são simbioses avançadas nas quais a competição original de todos contra todos foi substituída, em parte, por mecanismos cooperativos dotados de conteúdo ético”, como referiu Aldo Leopoldo na Ética da Terra. Assim deve continuar a sê-lo, ou mais propriamente, começar a sê-lo, uma vez que temos desprezado tanto as duas (fraternidade e igualdade) que omitimos a biodiversidade enquanto valor intrínseco a toda a atividade humana civilizada. Sobretudo, porque sem ela, a liberdade é uma ironia e a maneira mais eficaz de manietar os povos, obrigando-os a hipotecar o futuro em seu nome. Temos um exemplo, de incontornáveis consequências dessa hipoteca, desse iceberg cuja parte visível se chama Troika.

Se vamos agir e tomar consciência de nossas responsabilidades de cidadania, ou continuar a entreter-nos com o fogo-de-artifício brejeiro político-partidário, é uma questão que importa definir.



II - A SOCIEDADES SOMOS todos NÓS

Família, trabalho e felicidade. Disponibilidade, objetividade e lucidez. Iniciativa, continuidade e avaliação. Cidadania, responsabilidade e emancipação. Amor, bem-estar e liberdade. Saber estar, saber ser e saber fazer. Afeto, motivação e conhecimento. Humanidade, sabedoria e progresso. Hipótese, verificação e conclusão. Eis as diferentes tomadas (de consciência, estádios ou valores) que desde sempre assistiram à demanda da cultura e civilização sobre a barbárie do abstrato, da mediocridade, da crendice, do conservadorismo traiçoeiro e desonesto, do desconhecido, da ignorância mal-intencionada, e da rigidez fundamental. Porém, os convencidos de suas certezas, continuam a vociferar contra o outro dizendo que está errado, em vez de provarem eles mesmos que estão certos. Só que isso não é política, não é economia, não é socialização: é criancismo.

Então, que fazer? Tudo pode ser reciclado, incluindo as bases essenciais da nossa identidade e cultura. Reciclar a criança que há em nós, enquanto indivíduos e enquanto povo, para passarmos ao estádio seguinte da evolução e do progresso, não é nenhuma utopia, ideologia, nem religião: é uma atitude. É uma nova atitude perante a vida, que nasce da observação, da reflexão e da prática de muitos grupos e pessoas, que em todo o mundo se aperceberam que atravessamos uma crise civilizacional grave, para a resolução da qual se torna necessário demolir velhos (pre)conceitos, valores e poderes, bem como definir caminhos alternativos que valorizem a criatividade individual e coletiva que respeite a vida, o ambiente, a natureza, o ecossistema, a atmosfera, a água e a condição humana. Porque a sociedade somos TODOS nós, e esse pronome tem o tamanho da Terra. (Por enquanto!)



III - EVOLUÇÃO É AÇÃO

É significativa a diferença entre agir e reagir: agir é participar; reagir, é sujeitar-se a. E, se cada qual é o sujeito das suas ações, deixa de o ser quando reage, porque nessa circunstância, está somente a (cor)responder às determinações de quem o manipulou. Só quem age é verdadeiramente ( r )evolucionário.

Servindo-nos do progresso científico e desenvolvimento humano, ganhámos uma nova compreensão do mundo e, através do sentido sensitivo, importámos valores e modelos tecnológicos ou comportamentais não-humanos, da natureza, enunciados e circunscritos pelos reinos animais, vegetais, minerais e elementar, passando a ter a polémica expressão NATURE KNOWS a merecer garantido crédito. De entre eles os comportamentos civilizacionais socialmente avançados como a preocupação de reciclar os resíduos sólidos urbanos, de aumentar a produtividade primária líquida, produzir organismos geneticamente modificados, introduzir substâncias químicas no meio ambiente, alimentar os animais selvagens além dos domésticos, de tutelar e promover operações de conservação e restauro de parcelas do território e ecossistemas, delimitámos parques e reservas naturais, reestruturámos o corpo curricular e programático educativo e universitário, reformámos a administração e o planeamento tecnológico, tendo em vista uma melhor integração/ocupação humana do território físico-natural.

Parar, desincentivar ou adormecer essas preocupações, sob o argumento da atual crise socioeconómica, é uma reação que obriga a atirar fora o desenvolvimento e progresso conseguido por milénios de estudo, esforço e atualização. Portanto, deixemos as águas tépidas e lodosas da acomodação e ajamos enquanto o podemos fazer, pois pode muito bem acontecer que quando o queiramos fazer seja já tarde demais.



IV - EQUILÍBRIO OU ETERNIDADE?

Até há poucas dezenas de anos a humanidade, na sua quase generalidade e graças ao concurso das diferentes ideologias, economias e religiões, entendia o ambiente numa perspetiva antropocêntrica, em que a natureza se apresentava apenas como um valor instrumental associado a um leque de potencialidades e benefícios, nomeadamente estético, histórico, científico e económico. Era fonte de estímulo para a criatividade e imaginação, bem como um contributo significativo para o desenvolvimento integral do ser humano.

Mas as mentalidades, em consequência dos progressos no bem-estar e condições de vida, científicos e tecnológicos, evoluíram, e hoje a tendência global edita-se numa compreensão do meio ambiente sob duas perspetivas distintas, embora que simultâneas: o biocentrismo e o ecocentrismo. Isto é, considerando que é a vida ou o ecossistema quem tutelam a narrativa na interpretação essencial do valor atribuído à natureza, enquanto suporte principal do ambiente. Com Copérnico e Galileu a Terra deixou de ser o centro do universo; com o Relatório de Brundtland (1987) findou a era da supremacia humana na Terra. A mudança teve efeitos irreversíveis, e obrigou à reciclagem de todas as teorias de entendimento da casa (eco) de todos nós, de modo a que este não só se demonstrasse mais lúcido, objetivo, rigoroso, lógico, ético e funcional, mas também mais abrangente, de forma a reconhecer que sem a preservação da diversidade das espécies é impossível um equilíbrio sustentável do planeta.


Na perspetiva biocêntrica somos apenas mais uma das estratégias da vida para se tornar eterna. Na perspetiva ecocêntrica, somos tão-só membros de uma espécie que interage com as demais na tentativa de manter equilibrada a sobrevivência do ecossistema terreno. Na prática, as duas se completam e exigem-nos que observemos cuidadosamente a nossa conduta porquanto se fizermos perigar o equilíbrio perdemos o comboio da eternidade, porque na autoestrada da continuidade da vida somos o veículo que melhor a percorre, desde que o façamos com tino, segurança, equilíbrio e sustentabilidade. A escolha a cada qual pertence, mas o que é certo, é que aquela que cada um fizer vai ter consequências (irreversíveis) na vida dos demais.


V - BIODIVERSIDADE E EFEITO BORBOLETA


“Como é evidente, não é preciso dizer que a viabilidade económica limita a margem daquilo que pode ou não ser feito a favor da terra. Sempre foi e há de ser assim. A falácia que os deterministas económicos nos amarraram em volta do pescoço coletivo, e que necessitamos agora de eliminar, é a crença de que a economia determina TODO o uso da terra. Isso simplesmente não é verdade. Uma grande quantidade de ações e atitudes, incluindo talvez a maior parte de todas as relações com a terra, é determinada pelos gostos e predileções dos utilizadores mais do que pela sua bolsa. A maior parte de todas as relações com a terra depende de investimentos de tempo, previsão, capacidade e fé mais do que de investimentos em dinheiro. No que se refere à utilização da terra, somos o que pensamos.” (In ALDO LEOPOLDO, A Ética da Terra)

Havendo inegável valor intrínseco em cada uma das formas de vida conhecidas (biodiversidade), independentemente do interesse que possam ter para a espécie humana, a não instrumentalização das entidades holísticas como os ecossistemas e a ecosfera, cujo equilíbrio exige ponderação no balizar das atividades humanas, porque o que for feito, desfeito, neutralizado, ativado, implantado ou retirado de um local tem, diretas ou indiretas, consequências também noutros lugares (efeito borboleta) mais ou menos distintos do planeta, apresenta-se como a única atitude plausível para manter (e recuperar) a sustentabilidade global. Não só porque o respeito por cada indivíduo é extensivo e acarreta igual respeito pelo ecossistema em que se integra, mas igualmente porque ele é parte integrante de uma organização avançada sócio-biológica-económica (genes, espécimenes, espécies, ecossistemas), que fica inequivocamente alterada tanto com a sua presença, como com a sua ausência, e em (pro)porções similares.

Por conseguinte, pugnar por uma democracia direta, participativa e de base requer o acesso universal à informação e às novas tecnologias da comunicação, à tomada de consciência coletiva dos fatos e problemas de cada qual e de todos, bem como uma diferente responsabilização do cidadão pelo seu habitat, num díspar envolvimento na assunção individual e pública da cidadania, da igualdade de género e do respeito (legalizado) pelos animais, no âmbito de uma mentalidade que não abdica dos seus direitos nem do poder natural de quem é outorgado legítimo herdeiro e proprietário, parece ser a maneira mais racional e eficaz de contemplar (socialmente) a importância essencial pela biodiversidade e os efeitos sistémicos da ação humana. Por milhentas razões e argumentos, mas principalmente porque “somos o que pensamos” e, se é indesmentível que hospedamos um número infinito de seres vivos no nosso corpo, não o é menos que sempre que um deles é molestado, ou adoece, todo o nosso ser é inegavelmente afetado, nomeadamente pelo antídoto que nos for aplicado.

2.18.2013


CONTOS GAUCHESCOS – I

Por  J. Simões Lopes Neto

À memória de meu pai
                   Saudade



Patrício, apresento-lhe Blau, o vaqueano.
– Eu tenho cruzado o nosso Estado em caprichoso ziguezague. Já senti a ardentia das areias desoladas do litoral; já me recreei nas encantadoras ilhas da lagoa Mirim; fatiguei-me na extensão da coxilha de Santana; molhei as mãos no soberbo Uruguai, tive o estremecimento do medo nas ásperas penedias do Caverá; já colhi malmequeres nas planícies do Saicã, oscilei sobre as águas grandes do Ibicuí; palmilhei os quatro ângulos da derrocada fortaleza de Santa Tecla, pousei em S. Gabriel, a forja rebrilhante que tantas espadas valorosas temperou, e, corri pelas paragens magníficas de Tupaceretã[1], o nome doce, que no lábio ingénuo dos caboclos quer dizer os campos onde repousou a mãe de Deus...   
– Saudei a graciosa Santa Maria[2], fagueira e tranquila na encosta serra, emergindo do verde-negro da montanha copada o casario, branco, como um fantástico algodoal em explosão de casulos.
– Subi aos extremos do Passo Fundo, deambulei para os cumes da Lagoa Vermelha, retrovim para a merencórdia Soledade, flor do deserto, alma risonha no silêncio dos ecos do mundo; cortei um formigueiro humano na zona colonial.
– Da digressão longa e demorada, feita em etapas de datas diferentes, estes olhos trazem ainda a impressão vivaz e maravilhosa da grandeza, da uberdade, da hospitalidade.
– Vi a colmeia e o curral; vi o pomar e o rebanho, vi a seara e as manufaturas; vi a serra, os rios, a campina e as cidades; e dos rostos e das auroras, de pássaros e de crianças, dos sulcos do arado, das águas e de tudo, estes olhos, pobres olhos condenados à morte, ao desaparecimento, guardarão na retina até o último milésimo de luz, a impressão da visão sublimada e consoladora: e o coração, quando faltar ao ritmo, arfará num último esto para que a raça que se está formando, aquilate, ame e glorifique os lugares e os homens dos nossos tempos heróicos, pela integração da Pátria comum, agora abençoada na paz.
E, por circunstâncias de caráter pessoal, decorrentes da amizade e da confiança, sucedeu que foi meu constante guia e segundo o benquisto tapejara Blau Nunes, desempenado arcabouço de oitenta e oito anos, todos os dentes, vista aguda e ouvido fino, mantendo o seu aprumo de furriel da farroupilha, que foi, de Bento Gonçalves, e de marinheiro improvisado, em que deu baixa, ferido, de Tamandaré.
Fazia-me ele a impressão de um perene tarumã verdejante, rijo para o machado e para o raio, e abrigando dentro do tronco cernoso enxames de abelhas, nos galhos ninhos de pombas...
Genuíno tipo – crioulo – riograndense (hoje tão modificado), era Blau o guasca sadio, a um tempo leal e ingénuo, impulsivo na alegria e na temeridade, precavido, perspicaz, sóbrio e infatigável; e dotado de uma memória de rara nitidez brilhando através de imaginosa e encantadora loquacidade servida e floreada pelo vivo e pitoresco dialeto gauchesco.
E, do trotar sobre tantíssimos rumos; das pousadas pelas estâncias; dos fogões a que se aqueceu; dos ranchos em que cantou, dos povoados que atravessou; das coisas que ele compreendia e das que eram-lhe vedadas ao singelo entendimento; do pêlo-a-pêlo[3] com os homens, das erosões da morte e das eclosões da vida, entre o Blau – moço militar – e o Blau – velho, paisano –, ficou estendida uma longa estrada semeada de recordações – casos, dizia –, que de vez em quando o vaqueano recontava, como quem estende ao sol, para arejar, roupas guardadas no fundo de uma arca.
Querido digno velho!
Saudoso Blau!

Patrício, escuta-o.



TREZENTAS ONÇAS

– Eu tropeava[4], nesse tempo. Duma feita que viajava de escoteiro, com a guaiaca empanzinada de onças de ouro, vim parar aqui neste mesmo passo, por me ficar mais perto da estância da Coronilha, onde devia pousar.
Parece que foi ontem!... Era por fevereiro; eu vinha abombado[5] da troteada.
– Olhe, ali, na restinga, à sombra daquela mesma reboleira de mato, que está nos vendo, na beira do passo, desencilhei; e estendido nos pelegos, a cabeça no lombilho, com o chapéu sobre os olhos, fiz uma sesteada morruda.
Despertando, ouvindo o ruído manso da água tão limpa e tão fresca rolando sobre o pedregulho, tive ganas de me banhar; até para quebrar a lombeira... e fui-me à água que nem capincho[6]!
Debaixo da barranca havia um fundão onde mergulhei umas quantas vezes; e sempre puxei umas braçadas, poucas, porque não tinha cancha para um bom nado.
E solito e no silêncio, tornei a vestir-me, encilhei o zaino e montei.
Daquela vereda andei como três léguas, chegando à estância cedo ainda, obra assim de braça e meia de sol.
– Ah!... esqueci de dizer-lhe que andava comigo um cachorrinho brasino, um cusco[7] muito esperto e boa vigia. Era das crianças, mas às vezes dava-lhe para acompanhar-me, e depois de sair a porteira, nem por nada fazia cara-volta, a não ser comigo. E nas viagens dormia sempre ao meu lado, sobre a ponta da carona, na cabeceira dos arreios.
Por sinal que uma noite...
Mas isso é outra coisa; vamos ao caso.
Durante a troteada bem reparei que volta e meia o cusco parava-se na estrada e latia e corria para trás, olhava-me, olhava-me, e latia de novo e troteava um pouco sobre o rastro; – parecia que o bichinho estava me chamando!... Mas como eu ia, ele tornava a alcançar-me, para daí a pouco recomeçar.
– Pois, amigo! Não lhe conto nada! Quando botei o pé em terra na ramada da estância, ao tempo que dava – as boas-tardes! – ao dono da casa, aguentei um tirão seco no coração... Não senti na cintura o peso da guaiaca!
Tinha perdido trezentas onças de ouro que levava, para pagamento dos gados que ia levantar.
E logo passou-me pelos olhos um clarão de cegar, depois de uns coriscos tirante a roxo... depois de tudo me ficou cinzento, para escuro...
Eu era mui pobre – e ainda hoje, é como vancê sabe... –; estava começando a vida, e o dinheiro era do meu patrão, um charqueador[8], sujeito de contas mui limpas e brabo como uma manga de pedras...
Assim, de meio assombrado me fui repondo quando ouvi que indagavam:
– Então patrício? Está doente?
– Obrigado! Não senhor, respondi, não é doença; é que sucedeu-me uma desgraça: perdi uma dinheirama do meu patrão...
– A[9] la fresca!...
– É verdade... antes morresse, que isto! Que vai ele agora pensar de mim!...
– É uma dos diabos, é... ; mas não se acoquine[10], homem!
Nisto o cusco brasino[11] deu uns pulos ao focinho do cavalo, como querendo lambê-lo, e logo correu para a estrada, aos latidos. E olhava-me, e vinha e ia, e tornava a latir...

Ah!... E num repente lembrei-me de tudo. Parecia que estava vendo o lugar da sesteada, o banho, a arrumação das roupas nuns galhos de sarandi. E, em cima de uma pedra, a guaiaca e por cima dela o cinta das armas, e até uma ponta de cigarro de que tirei uma tragada, antes de entrar na água, e que deixei espetada num espinho, ainda fumegando, soltando uma fitinha de fumaça azul, que subia, fininha e direita, no ar sem vento...; tudo, vi tudo.
Estava lá, na beirada do passo, a guaiaca. E o remédio era um só: tocar a meia rédea, antes que outros andantes passassem. 
Num vu[12] estava a cavalo; e mal isto, o cachorrito pegou a retouçar, numa alegria, ganindo – Deus me perdoe! – que até parecia fala!
E dei de rédea, dobrando o cotovelo do cercado.
Ali logo frenteei com uma comitiva de tropeiros, com grande cavalhada por diante, e que por certo vinha tomar pouso na estância. Na cruzada nos tocamos todos na aba do sombreiro; uns quantos vinham de balandrau[13] enfiado. Sempre me deu uma coraçonada para fazer umas perguntas... mas engoli a língua.
Amaguei[14] o corpo e penicando as esporas, toquei a galope largo.
O cachorrinho ia ganiçando, ao lado, na sombra do cavalo.


A estrada estendia-se deserta; à esquerda os campos desdobravam-se a perder de vista, serenos, verdes, clareados pela luz macia do sol morrente, manchados de pontas de gado que iam se arrolhando nos paradouros da noite; à direita, o sol muito baixo, vermelho-dourado, entrando em massa de nuvens de beiradas luminosos.
Nos atoleiros, secos, nem um quero-quero: uma que outra perdiz, sorrateira, piava de manso por entre os pastos maduros; e longe, entre o resto de luz que fugia de um lado e a noite que vinha, peneirada, do outro, alvejava a brancura de um joão-grande, voando, sereno, quase sem mover as asas, como numa despedida triste, em que a gente também não sacode os braços...
Foi caindo uma aragem fresca; e um silêncio grande em tudo.
O zaino era um piganço de lei; e o cachorrinho, agora sossegado, meio de banda, de língua de fora e de rabo em pé, troteava miúdo e ligeiro dentro da polvadeira rasteira que as patas do flete[15] levantavam.
E entrou o sol; ficou nas alturas um clarão afogueado, como de incêndio num pajonal[16]; depois o lusco-fusco; depois, cerrou noite escura; depois, no céu, só estrelas... só estrelas...

O zaino atirava o freio e gemia no compasso do galope, comendo caminho. Bem por cima da minha cabeça as Três-Marias tão bonitas, tão vivas, tão alinhadas, pareciam me acompanhar... Lembrei-me dos meus filhinhos, que as estavam vendo, talvez; lembrei-me de minha mãe, de meu pai, que também as viram, quando eram crianças e que já as conheceram pelo nome de Marias, as Três Marias. – Amigo! Vancê é moço, passa a sua vida rindo... Deus o conserve!... Sem saber nunca como é pesada a tristeza dos campos quando o coração pena!...
– Há que tempos eu não chorava!... Pois me vieram lágrimas..., devagarinho, como gateando, subiram... tremiam sobre as pestanas, luziam um tempinho... e ainda quentes, no arranco do galope lá caiam elas na polvadeira da estrada, como um pingo d'água perdido, que nem mosca nem formiga daria com ele!...
Por entre as minhas lágrimas, como um sol cortando um chuvisqueiro, passou-me na lembrança a toada dum verso lá dos meus pagos[17]:

                                             Quem canta refresca a alma,
                                             Cantar adoça o sofrer;
                                             Quem canta zomba da morte:
                                             Cantar ajuda a viver!...

Mas que cantar, podia eu!...
O zaino respirou forte e sentou, trocando a orelha, farejando no escuro: o bagual[18] tinha reconhecido o lugar, estava no passo.
Senti o cachorrinho respirando, como assoleado. Apeei-me.
Não bulia uma folha; o silêncio, nas sombras do arvoredo, metia respeito... que medo, não, que não entra no peito de gaúcho.

Embaixo, o rumor da água pipocando sobre o pedregulho; vaga-lumes retouçando no escuro. Desci, dei com o lugar onde havia estado; tenteei os galhos do sarandi; achei a pedra onde tinha posto a guaiaca e as armas; corri as mãos por todos os lados, mais para lá, mais para cá...; nada! Nada!...
Então, senti frio dentro da alma... o meu patrão ia dizer que eu o havia roubado!... roubado!... Pois então eu ia lá perder as onças!... Qual! Ladrão, ladrão, é que era!...
E logo uma tenção ruim entrou-me nos miolos: eu devia matar-me, para não sofrer a vergonha daquela suposição.
É; era o que eu devia fazer: matar-me... e já, aqui mesmo!
Tirei a pistola do cinto; armatilhei o gatilho... benzi-me, e encostei no ouvido o cano, grosso e frio, carregado de bala...

– Ah! patrício! Deus existe!...
No refilão daquele tormento, olhei para diante e vi... as Três-Marias luzindo na água... o cusco encarapitado na pedra, ao meu lado, estava me lambendo a mão... e logo, logo, o zaino relinchou lá em cima, na barranca do riacho, ao mesmíssimo tempo que a cantoria alegre de um grilo retinia ali perto, num oco de pau!... – Patrício! Não me avexo de uma heresia; mas era Deus que estava no luzimento daquelas estrelas, era ele que mandava aqueles bichos brutos arredarem de mim a má tenção...
O cachorrinho fiel lembrou-me a amizade da minha gente; o meu cavalo lembrou-me a liberdade, o trabalho, e aquele grilo cantador trouxe a esperança...
Eh-pucha! Patrício, eu sou mui rude... a gente vê caras, não vê corações...; pois o meu, dentro do peito, naquela hora, estava como um espinilho[19] ao sol, num descampado, no pino do meio-dia: era luz de Deus por todos os lados!...
E já todo no meu sossego de homem, meti a pistola no cinto. Fechei um baio, bati o isqueiro e comecei a pitar.

E fui pensando. Tinha, por minha culpa, exclusivamente por minha culpa, tinha perdido as trezentas onças, uma fortuna para mim. Não sabia como explicar o sucedido, comigo, acostumado a bem cuidar das coisas. Agora... era vender um campito, a ponta de gado manso – tirando umas leiteiras para as crianças e a junta de jaguanés[20] lavradores – vender a tropilha[21] dos colorados... e pronto! Isso havia de chegar, folgado; e caso mermasse[22] a conta... enfim, havia se ver o jeito a dar... Porém matar-se um homem, assim no mais... e chefe de família... isso, não!
E d'espacito[23] vim subindo a barranca; assim que me sentiu o zaino escarceou, mastigando o freio.
Desmaneei-o[24], apresilhei o cabresto; o pingo[25] agarrou a volta e eu montei, aliviado.
O cusco escaramuçou, contente; a trote e galope voltei para a estância.
Ao dobrar a esquina do cercado enxerguei luz na casa; a cachorrada saiu logo, acuando. O zaino relinchou alegremente, sentindo os companheiros; do potreiro outros relinchos vieram.
Apeei-me no galpão, arrumei as garras e soltei o pingo, que se rebolcou com ganas.
Então fui para dentro: na porta dei o – Louvado seja Jesu-Cristo; boa-noite! – e entrei, e comigo, rente, o cusco. Na sala do estancieiro havia uns quantos paisanos; era a comitiva que chegava quando eu saia; corria o amargo.

Em cima da mesa a chaleira, e ao lado dela, enroscada, como uma jararaca na ressolana[26], estava a minha guaiaca, barriguda, por certo com trezentas onças, dentro.
– Louvado seja Jesu-Cristo, patrício! Boa-noite! Entonces, que tal foi o susto?...
E houve uma risada grande de gente boa.
Eu também fiquei rindo, olhando para a guaiaca e para o guaipeva[27], arrolhadito aos meus pés...  



[1] TUPACERETÃ – Município em cuja parte oriental, entre os arroios Caixa-d'Água e Caneleira, fica a cidade com o mesmo nome. [Tupaceretã é a forma tradicional, oficialmente substituída por Tupanciretã. Teodoro Sampaio em seu Tupi na Geografia Nacional, consigna Tupanceretã, "a terra da mãe de Deus, o património de Nossa senhora".]
[2] SANTA MARIA –  Cidade da região central do município do mesmo nome, entre cabeceiras do arroio Cadena.
[3] PÊLO-A-PÊLO – Lidar contínuo e duro; trato ininterrupto e rude. [Não dicionarizado. Prende-se à expressão viajar (ou andar) de pêlo a pêlo = sem mudar de cavalo, por longa que seja a viagem.]
[4] TROPEIRO – Aquele que conduz tropa, isto é, rebanho de gado vacum ou cavalar.
[5] ABOMBADO – Impossibilitado de continuar viagem por cansaço devido ao calor (diz-se do cavalo); esfalfado, exausto, arquejante (diz-se do animal e por extensão da pessoa). Termo também usual em S. Paulo.
[6] CAPINCHO – O macho da capivara; ou o filhote macho da capivara.
[7] CUSCO – Cão pequeno, de raça ordinária.
[8] Charqueador, produtor e comerciante de charque, ou carne de vaca seca, salgada e comprimida em mantas. 
[9] A la fresca – expressão de espanto, surpresa ou descrença. 
[10] ACOQUINE -- de acoquinhar, ou inquietar, amofinar, amedrontar, assustar, importunar, aborrecer. 
[11] BRASINO – Diz-se do animal, bovino ou cão, que tem pelo vermelho com listas pretas ou quase pretas.
[12] NUM VU – Num vá, num vupe, num ápice.
[13] BALANDRAU – Nome dado ao poncho de pala, ou pala simplesmente, o qual tem no meio, como a opa, uma abertura por onde é enfiado o pescoço. 
[14] AMAGUEI – De AMAGAR, isto é, levar (o corpo) para a frente, quando a cavalo, a fim de dar impulso ao animal.
[15] FLETE – Cavalo bom, árdego, de bela aparência.
[16] PAJONAL – Terreno coberto de palha-brava, santa-fé e outras gramíneas.
[17] PAGOS – Lugar onde se nasceu, o rincão, a querência, o povoado, o município de onde se é natural ou onde se reside.
[18] BAGUAL – Potro recém-domado, cavalo novo, arisco, espantadiço, grosseiro, rústico, e muito grande.
[19] ESPINILHO – Acácia de flor amarela.
[20] JAGUANÉ – Diz-se de, ou animal vacum que tem o fio do lombo e o ventre brancos, e os lados de cor preta ou avermelhada.
[21] TROPILHA – Certo número de cavalos de pelo igual, que geralmente acompanham uma égua-madrinha.
[22] MERMAR – Diminuir de peso, valor, quantidade, velocidade, etc.; diminuir, minguar.
[23] D'ESPACITO – Devagar, pouco a pouco, de espacito.
[24] DESMANEAR – Tirar a meneia (peça formada por dois pedaços de couro ligados por uma argola e com a qual as patas ao cavalo, similar às peias). 
[25] PINGO – Cavalo bom, vistoso, árdego.
[26] RESSOLANA – Soalheira forte, soalheira.
[27] GUAIPEVA – Cusco, também designado guapeca ou guaipé. 

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português