10.02.2017

PRIMAVERA OUTUNAL





OUTUBRO PRIMAVERIL…

T'eclipsaste na dúbia tarde
Resguardo de Afrodite caído
O marmóreo ombro, destemido
Cruzando o tempo sem alarde
No espaço dum quando se solta

– E eu rogo-te… «Volta!»

Porém, ficaste tão-só de perfil
Que o sol em verbo s'espraiou, 
Ficou perdido, esquecido
E entre o anil celeste voou
Na peugada dum outro abril
Que, afinal, nunca chegou!

Joaquim Maria Castanho

9.27.2017

Encontro em Itália, de Liliana Lavado




"Afinal, ainda restava alguma coisa em comum entre ele e Sara: os livros." 
in LILIANA LAVADO
ENCONTRO EM ITÁLIA
(Página 138)

9.17.2017

ESTE ADORAR-TE TANTO




ESTE ADORAR-TE TANTO

Entre as paredes de fazer pela vida
Onde te emparedas, e solidária 
Fazes só com o teu estar nesta lida
Parecer qualquer sílaba tão vária… 
Que apenas tua é a rima
E mais qu'ela também eu, 
Pois ao ver-te cada dia
Tal qual as lá de cima
Iluminas a poesia 
– És caminho, e sol meu.

Os gestos despachados, meiga magia
Do olhar, onde as estrelas têm morada
Refletem as odes que saram a poesia
Dessa melancolia de lua, se adiada… 
Porque só tu lhe dás brilho
Lhe emprestas o tal encanto
Que ilumina todo o trilho
Dos que adoram sem pranto, 
E que trilham se partilho
Este adorar-te tanto!  

Joaquim Maria Castanho

8.25.2017

A TULIPA perlada




TULIPA PERLADA 


Passo a passo até expirar
O caminho se desenrola
Desde creche, desde escola, 
Com o destino já marcado
Pra essa cova retangular
Onde a terra se renova
Vendo renovado navegar; 
Outra corrida contra o tempo, 
Tal desfilada de sorraias
Que inventaram sol e vento
Que agita panos e saias
Maias que afloram o mundo
Lhe dão a cor, vivacidade, 
Dessas rimas com que inundo
As ruas da minha cidade. 



Grito libertado, granito
A soltar-se para os cumes, 
Que é ond’o corpo, aflito
Ard’em mais sublimes lumes. 

in JOAQUIM MARIA CASTANHO
REDESENHAR A VOZ, pág. XIV

7.15.2017

FAZER HOJE




C - POEMAS POLÍTICOS DE A a Z 

FAZER HOJE

Minha flor de pétalas tantas
Com insistência me promete
Em preces, em beijos, em mantras
Qual voz de nós na casa sete… 
Sete estrelas que clareiam; 
Sete pétalas pra um leque; 
Sete sílabas que penteiam
As escamas ao alfaqueque. 
Mas só por oito serem ora
Querem ser mais, não são frete: 
Querem a flor que se repete, 
Ter ontem no amanhã… – agora! 

Joaquim Castanho

7.14.2017

B- CADA CÊNTIMO - POEMAS POLÍTICOS de A a Z




B - POEMAS POLÍTICOS de A a Z 

Cada cêntimo é uma gota de suor
Naco de nação, migalha de povo
Às vezes lágrima de trabalhador
Lágrima de trabalhadora, lição
Caída da construção dum país novo… 
Desperdiçá-lo, é negar-nos razão; 
Perdê-lo, apoucar-lhe o esforço; 
Cobiçá-lo, julgá-lo por cada pão
Que come, e traduzir por alvoroço
Suas conquistas, palavras, condição. 

Cada cêntimo é um grão de trigo
Ajuda viva pra matar fomes
Que se acendem, pondo em perigo
Milhões de mulheres, crianças, homens
Todos, todas, deveras essenciais, 
Pelo que atirar fora os "tostões" 
É desperdiçar balas, ou munições 
Na guerra de querermos ser iguais. 

Joaquim Castanho

7.12.2017




ECOS DE JULHO 

Já mergulhando nesse mar
Como um cubo gelado
Que se derrete no dia
Diluído, a soletrar
Fios de cabelo dourado
Conforme laço de poesia
Que mais solta do que ata, 
Ouço ecos em melodia… 

Por quem será? Por mim não é. 
Por ti, por ti e por ti também não. 
Nem por qualquer Tonho ou Zé. 
Nem é por quem nos descarta
E desagrega na condição… 
E que dizem? 
– PA-RA-BÉNS MAR-TA – 
Ora… então, já sei por quem são! 

Joaquim Maria Castanho

7.09.2017

POEMAS POLÍTICOS de A a Z - A




A - POEMAS POLÍTICOS DE A a Z

Jamais portas que nos dividam
Jamais distância A Deus
Que já os olhos teus despertam
Mais que infinitos nos meus. 
Hei de dizê-los mudo, calado
Gritá-los pra lá do presente, 
Ainda que do diferente lado
E mostrando inversos à gente
Nas costuras, trocos mesquinhos
Misérias ou raios de Zeus
Que lavram as florestas e ninhos
Com labaredas avaras de eus!

Joaquim Castanho 

7.08.2017




RAZÃO TOTAL

A minha alma levantou voo
E nega-se agora a pousar; 
Diz que quer ser o que sou…
Não sinto força prà contrariar!
Quando me culpa, eu perdoo. 
Se me crítica, dou-lhe atenção. 
E às vezes, até finjo que vou 
Considerá-la só meia razão…

Mas mal te vejo, logo desisto; 
É qu'ela quer à força ser beijo, 
E eu… eu sem ela não existo! 

Joaquim Maria Castanho 

7.07.2017

ERRÂNCIA FIXA




ERRÂNCIA FIXA

Por esta redoma nos digo, 
Nesta cápsula navegamos; 
O sonho navega contigo
Contigo vou, e voamos. 

Temos a imensidão do breu 
Sabemos a cor da terra, 
Que o amor somos tu e eu
Neste errar que não erra.  

Joaquim Maria Castanho

7.02.2017

MELODIA ENCANTADA




MELODIA ENCANTADA 

O dia das quatro estações
Decorreu hoje sem inverno, 
E o arco-íris das pulsações
Pintou-o ameno, moderno
Pra pacificar os corações
Escalou penhascos, penedos; 
Viajou por oásis e desertos; 
Voou sobre mares e silvedos;
E escoou-se entre os dedos
Palma com palma bem abertos
À desfilada, plo espaço… 
Mas levaste-me na garupa
Prà apagar da alma o traço, 
Vinco do receio e da culpa, 
Pondo pureza no que faço
Dando o cunho da poesia
A cada hora que expira
Com hinos em harpa e lira
Pra ouvir arco-íris no dia.  

Joaquim Maria Castanho

7.01.2017

RESSUSCITADO EGO




EGO RESSUSCITADO 

Amarro-me ao teu rosto
Pra fitar o infinito
Sob vendaval de desgosto, 
Sob o tsunami do grito… 

E bem lá do fundo do céu
– Imensidão e distância –, 
Ergueu-se deste eu incréu
Essa fé que nunca morreu
Nem perdeu a infância. 

Joaquim Maria Castanho

6.27.2017

A POESIA, ESSA INVENÇÃO




A POESIA, ESSA INVENÇÃO

Retardo o passo pra que passes
Cruzes portal pró desconhecido, 
Que faças o que só tu fazes
Dites a rota, dês sentido
Aos caminhos que te celebram
–  Aos poemas que te inventam!

Joaquim Maria Castanho 

6.25.2017

SILVO COLORIDO





SILVO DE COLORIDA LUZ 


Só quando te não vejo 
Posso refugiar-me em ti, 
Dizer que penso, que sinto
Que anseio, que desejo
Como foi o dia que vivi
Sem viver, se dele pinto
O esgar sonhado e ali
Refugiado atento
Mais caminho de pronto
Com os poemas que avento
À Sol num cruel rodopio
Pelas fisgas do assobio
Que sufi me deixa tonto… 

Joaquim Maria Castanho

6.23.2017

LEVEZA INTEMPORAL DA ROCHA




LEVEZA INTEMPORAL DA ROCHA

Me deponho ante ti
Num desígnio de então, 
Que no descruzar já li
Na pele a imensidão

Calada, 
                de granito
Como uma pedrada 
Acua tempo proscrito!

Joaquim Maria Castanho

6.16.2017

(RE)GANHAR A PASSADA

  


(RE)GANHAR A PASSADA 

Plo óculo do infinito
Na descoberta incolor
Sonhos travam, e o atrito
Se refaz próprio propor 
E propósitos propõem
As singelas alegrias
Que pouco a pouco compõem 
Pegadas pra pegar os dias… 

Então, o verbo floresce
Pelas pétalas completo
No beijo que não esquece 
Carinhos d'avó e neto.

Joaquim Maria Castanho 

6.02.2017

Excerto de NOTA a OS SIMPLES, de Guerra Junqueiro




“Quis mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas criaturas, que atravessavam um mundo de misérias e injustiças, de vícios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha octogenária e sorridente, no cavador trágico, nos mendigos bíblicos, na mansidão dos bois arroteando os campos e nas labaredas de oiro do castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infância, iluminando a choupana. E, depois de uma existência de sacrifício e pureza, de abnegação e bondade, deitei esses ingénuos e pobres aldeões na terra misericordiosa e florida do campo santo, pondo-lhes por cima das sepulturas rasas o Céu maravilhoso e cândido, que em vida sonharam e desejaram. 
É claro que essas figuras não são inteiramente reais, da realidade estrita, efémera e tangível. Criei-as, ou antes, completei-as com a minha alma, com o meu próprio ideal.” 

14 de Maio de 1892

Guerra Junqueiro  - Excerto da NOTA à edição de OS SIMPLES

6.01.2017

DÁDIVA

  


A DÁDIVA 

Olho lá pra fora
Através de teu olhar, 
E de como ele se demora
Sem saber que esperar… 

Luz sobre azul celeste
Dum sorriso que me deste! 

Joaquim Maria Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português