7.20.2004

Fecho de ciclo


Dizes que te são familiares os meus poemas
Assim como que inscritos no silêncio de cada um
A germinar soluções químicas de encontrar apenas
O exemplar olhar de nos escrevermos em todos e nenhum?...

Pois bem, “amiga”: tens razão – falam do amor ao amor
A nossa casa, o nosso pão, o nosso quarto, a nossa sala comum
De viver o quotidiano soletrando terna companhia.

Falam de sentir prazer em dar prazer
Em naufragar nas ondas do sonho e fulgor
Da paixão como nunca antes houve um dia…

Falam de viver imediatamente aqui e agora
Entre as estações do tempo e do jardim, na cor
Da inocência de amar e querer sem esquecer
Que o mundo e a vida toda cabem numa hora!

Que são 60 minutos só nossos, de mais ninguém
A ditar-nos que as palavras são também família!....

J.C.
16-07-2004. 17h27

7.16.2004

Do dizer à alegria...
              
                    Para a Filipa
 
Haverá um lugar onde nada
E tudo aquilo que nos acontece
Seja enfim interpretável à luz
Transparente no espelho reflexo da água:
Que mistério é esse de olhar o rio?
Na cave os sentimentos sob as rosas
Os espinhos vencidos nas palavras de jus...
 
Na orla do silêncio de quem vê os barcos
Baloiçam nas correntes lisas, calados
Rumando à Foz escolhem murmúrios
Líquidos de ouros aguados a dizer sobre nós!
E embora a tarde esclareça e o sol
Brilhe lazarento a lavar-te os pés,
Subindo do vestido negro até ao corpo de quem és,
Sobre a relva verde e nua do roseiral
Há ainda a tímida dilaceração da voz
Registado no magneto de todas as micros-
Circunstâncias de sermos afinal tu e eu
Debaixo do mesmo tecto, do mesmo céu!...
 
Não, a ternura não modifica a gente
Apenas empurra quem já quer ser
E sendo evolui fazendo-se diferente
Para somar vitórias e seguir em frente.
 
Pois foi aí, aí entre a pergunta e a resposta
Virados para o rio, na sua encosta
Entre a Ternura e a Poesia
Que soube que é do dizer da alma que nasce
Que se nasce e renasce como quem cresce na alegria,
Porquanto possa haver um lugar assim acontece
Nascer-se dele se o acaso nos eternece!
 
Porto, 16 de Julho de 2004

7.10.2004

Supramundana

O ar agitado segreda-me palavras mudas,
na carícia do momento encantado
onde irrompe o sonho rasgado,
na melodia doce que obriga
a murmurar loucuras...
e o coração profundamente inebriado,
no seu bater descompassado,
em racional loucura divaga.

Surge a imagem esplendorosa,
em rasgo de eloquência sucessivo
que desperta o desejo intensivo,
outrora guardado em surdina
no meio da mágoa...
e em avolumado ímpeto de paixão,
lança-me no meio do turbilhão,
onde me encontro para além do mundo.



Loucura

Louca! encontrei-te,
embebedando a alma de escuridão
e envolvendo-a de podridão,
com pensamentos insanamente febris.

Louca! Porque és louca
e não entendes a lágrima que corre
dos olhos que brilham inquietos,
num corpo que morre.

Louca! Se soubesses,
que o perfume são as preces
da rosa e da orquídea,
e não da mágoa que conheces!...

Depressa, encontra-te!
e solta os cabelos ao vento,
e no meio da tempestade
procura a loucura no momento.


Clandestino




Deambulamos num mundo de quimeras,
resgatando fragmentos de vida
que um dia foram de alguém.
Luz resplandecente
no breu soturno;
que percorremos num corcel
sequioso de existir;
efémero mel
delírio nocturno!...
Mundo utópico do sentir,
onde se lastima não viver
e o mais que possa haver...
Constantemente clandestino.



Finalmente


Despontou o primeiro raio de sol! enfim,
Quanta magnificência esperada!
Resplandece, pureza anunciada,
Acalentando meu pequeno coração.
Fortalece, a fragilidade da minh’alma,
Que se encobre amedrontada.
Irrompe, beleza suspirada,
Repelindo minha intensa solidão.

Ana Aires

7.07.2004

Viva! Como é: temos ou não CLP durante o mês de Julho? E, se sim, em que formato e sobre que obra e/ou autor? Bom... O que é certo, é que vamos ter que reunir-nos para pensar e decidir sobre que fazer, não é? Portanto, uma das coisas era acertarmos numa data e hora para o fazer, ok? Digam, revelem e reiterem! Aguardo notícias

6.26.2004

ANA...

Antes da palavra o verbo, o verso
Não a intenção, sim primeiro ela
Assim espontânea do azul universo

Aberto para o futuro qual janela
Momento feito aqui, feito de agora
Onde a saudade de ti me dói, implora
Tortura, mas não mata não, põe cela
Experimenta o medo, o pica de espora.

Antes da palavra, o puro anagrama
Nascido do princípio ao fim para o início
A eito de mim, como fogo me arde e chama:

Ana!

Pedro Ramus

6.18.2004

A questão está a avolumar-se: o conto não foi tratado como devia ter sido, por monopolização da parte de Ana Zanati e algumas pessoas que raramente vêm às sessões da CLP, a não ser que esteja nos seus interesses directos. Portanto, propomos a realização de uma sessão só pelo conto A CARTA ESQUECIDA... De acordo? Então vamos a isso!Digam, aventem as datas possíveis.
P.S.: É também possível que o espírito da CLP enfraqueça nos tempos próximos... Por exemplo, a actualização do blog pode sofrer alguns sobressaltos, pois dificultam-me o acesso à net na Biblioteca Municipal, pelo que apenas terei o tempo de frequência de uma hora diária, o que é de direito enquanto utilizador, e esse faz-me falta para outras coisas, minhas, pessoais...

6.14.2004

A sessão com a escritora Ana Zanati decorreu de vento em popa, mas não foi abordado o conto A CARTA ESQUECIDA, como seria de esperar. É provável que em tempo útil seja feita outra sessão da CLP acerca dele. Até lá, não se esqueçam de ir frequentando o http://gatomontez.no.sapo.pt para desanuviar... Boa sorte!

6.08.2004

No domingo passado, dia 6 de Junho, por volta das 19 horas, no recinto da Feira do Livro e do Disco, nos claustros do Convento de Santa Clara, em Portalegre, Rui Ferreira, actor de teatro da Companhia de Teatro de Portalegre, leu em palco, alguns poemas de Joaquim Castanho... Não obstante os contratempos esta leitura recebeu alguma simpatia da parte dos presentes, facto que justificou os responsáveis pelo evento a solicitarem a sua repetição no dia 10, quinta-feira, nos mesmo local, em hora a combinar, desde que a partir das 18 horas, que é o horário disponível da parte do actor. A leitura tem a duração de 20 minutos e consta de uma série de poemas que têm como temática comum (e central) a criança. Quem quiser e puder aparecer, não se evite; quem não puder, e não seja absolutamente contra este tipo de iniciativas, pode (e deve) passar palavra.

6.01.2004

Novidades: é possível que a Comunidade de Leitores venha a reunir especialmente durante a Feira do Livro e do Disco, a decorrer no Convento de Santa Clara, entre os dias 4 e 12 de Junho, conforme se pode constatar no http://www.bib-portalegre.rcts.pt, cuja página tem ligação à nossa. A proposta partiu de membros efectivos, e supunha o debruçarmo-nos sobre uma obra de autor português, que estivesse na disposição de cá se poder deslocar para o efeito. No entanto, o tempo escasseia para organizarmos esse tipo de evento. Se houver sugestões, enviem-nas.

5.26.2004

4
vou combater os teus laços programados, ó multidão
de objectos abjectos rectos
que se corroem a si próprios como corroem os outros
em vão, se hão-de perder também
como aqueles sublimes construtores da torre de Babel

estão a cair insectos mortos
da atmosfera cinzenta de poluições
enquanto eu e tu vomitamos, noutro consumo sem sumo com abuso
enquanto eu sinto
a falta de ti, ó ninfa, musa perdida num antro perdido nos meus neurónios
apenas porque sinto.

Se vos deixo cair é porque sou obrigado a cair também. Talvez prefira cair
antes.

NO FIM DOS TEMPOS ESCRITO
NÃO DIGO O DIA DA ORDEM
SOU COMPLETAMENTE CONTRA ELA.
João Löbe in "Chagas de uma revolta lacrimosa"
Na sessão de ontem, 23 de Maio, ficou estabelecido que iríamos estudar a maneira de regressar à leitura de Franz Kafka, em virtude de O PROCESSO merecer maior aprofundamento, e o autor uma melhor abordagem. Estabeleceremos uma sessão pública para tal, em moldes a definir nas próximas reuniões semanais.

5.15.2004

Estamos no ar... Os cartazes já foram espalhados pela cidadee a data da reunião da Comunidade de Leitores é dia 25 de Maio, pelas 18 horas, na Sala Polivalente 1, da Biblioteca Municipal de Portalegre, como de costume. Bem-vindos!

5.07.2004

SEGREDOS EFÊMEROS

Quem te disse que o segredo do amor é o sexo,
Para aliviar o teu sofrimento?
Sendo o amor o movimento do mundo, a verdade,
Para além do instante, para além do momento.

Quem te disse que o segredo do noite é a lua,
Para aliviar tamanho suspirar?
Sendo que o amor é a vida
Com menos lua e mais luar.

Quem te disse que o segredo da vida é triunfar,
Para aliviar os teus tormentos?
Sendo que o homem deve viver triunfando
E não terminar no triunfar dos momentos.

Quem te disse que o segredo é a verdade?
Mentiu.

ENCONTRO

Encontrei-te no meu caminho
Por entre toda a multidão,
Lá estavas tu meio sozinho
Tentando afastar a desilusão...
Sei que não te quero perder
Mas fica uma saudade,
E nesta pura verdade
Não te posso esquecer!
Agora, confusa na multidão
Sinto-me sozinha,
E esta dor no coração
Traz à razão uma verdade
Há algo espalhado no ar
E o amor é realidade!

Ana Aires

4.29.2004

Na próxima sessão da Comunidade de Leitores de Portalegre, a realizar na Biblioteca Municipal de Portalegre, sobre o livro de Franz Kafka, O PROCESSO
RETRATO DE UM HOMEM EM CORPO INTEIRO
JOSÉ MARTINS DOS SANTOS CONDE

CORAGEM!
“É preciso vencer a angústia e os medos, para
recuperar a coragem de viver e, sobretudo,
de viver um projecto de qualidade.”
In AS CHAVES DA VIDA



Homem que pautou toda a sua vida por princípios e valores, cujas ideias-sentimento (resumidas por si mesmo em nove, e a saber: calma, paz, alegria, coragem, compreensão, solidariedade, justiça, integração e amor universal), chaves de conduta intelectual e moral que sem dúvida lhe vincaram inclusive a actividade de professor (norteada por três preocupações maiores: 1 - fazer o acompanhamento assíduo das turmas, nunca tendo excedido o número de três faltas por ano lectivo; 2 - perspectivar a História numa permanente ligação com o mundo actual; 3 - aprender a História fazendo-a, levando sempre os seus alunos a apreciar o contacto com as fontes), de autor e de cidadão, nasceu a 6 de Julho de 1934, na aldeia de Santa Madalena, freguesia de Vila Fernando, concelho e distrito da Guarda, e faleceu em Portalegre, na sua residência, em 16 de Agosto de 2003, José Martins dos Santos Conde, além de nos legar uma obra vasta e variada, abrangendo desde a poesia ao ensaio, passando pela monografia e artigos avulsos, contribuiu também com o seu exemplo e dedicação aos outros e à sociedade para a revolução ética e necessária do nosso dia a dia, sublinhando como a vida é um tirocínio perfeito onde aprender é mudar, talvez em excelsa demonstração daquilo que sempre foram as suas principais características: flexibilidade de espírito e ambientação imediata.
Humanista, filósofo, frade, teólogo, historiador, docente, tradutor, jornalista, poeta, chefe de família, companheiro e amigo, indivíduo enraizado no meio mas igualmente cidadão do mundo, cujo pensamento eivado de influências diversas, como culturalmente universais, caso das perspectivas existenciais de Satre, como budistas, cristãs e ameríndias, raiando as essências profundas desde o Ioga e Lao-Tsé até à imagética de Florbela Espanca ou Vergilio Ferreira, revelando um ecletismo apurado e exigente, todavia simultaneamente tolerante e apoiado na moral científica, consciente da problemática regional, jamais deixou de registar, divulgar e descodificar os valores da nossa região em pessoas e coisas, de fazer o levantamento de conflitos ou situações, de procurar dar-lhe uma explicação ou resposta, bem como de partilhar informação objectiva, interessante e peculiar acerca dela, tentando fintar o destino ao provincianismo paupérrimo e desolador que nos acomete desde os tempos imemoriais.
Senhor de DUAS VIDAS que abriu e fechou com as chaves da determinação, pensamento e moral insuspeitáveis, depois de ter palmilhado as veredas da formação mística, cursado humanidades e teologias (Seminário de Vila Nova de Gaia – de 1946 a 1952; Seminário Maior de S. Alfonso, em Valhadolid/Espanha – entre 1952 e 1960, onde fez “profissão perpétua” como frade redentorista; Institut Catholique de Paris – em 1967), sofrido os tormentos da repressão vocacional num esgotamento nervoso com 14 anos de tratamento adiado, que transformaram um jovem líder libertário amante de poesia, literatura e música, discípulo de Guerra Junqueiro e Gomes Leal, num borrego dócil e cabisbaixo que seguia atrás do rebanho politicamente correcto, cuja tortura o levou até a leccionar Português e Latim no Seminário de Vila Nova de Gaia onde começara os estudos, mas também a aproximar-se de Portalegre, via Castelo Branco, onde no seminário local leccionou Filosofia Antiga, Literatura e Arte (de 1964/67) e aprendeu Ioga, que o ajudou a recuperar a autoestima, confiança e gosto pela vida real, pontos de partida fundamentais que inspiraram a lutar pela autenticidade e estabelecer contacto (carta e telefone) com Angelina Pires de Sousa Gomes, natural de Portalegre, enamorando-se, e com a qual veio a contrair matrimónio em 22 de Setembro de 1968 (na Igreja e S. Lourenço, com copo de água no Café-Restaurante Amaia), renascendo assim outro mas bastante mais próximo da sua vocação primária, posto que é partir de então que se licencia em História (Universidade de Coimbra, 1979), conclui o curso de pós-graduação de História Cultural e Política (Universidade Nova de Lisboa, 1992) ou defende a tese de mestrado (1995), cria família própria (três filhos: Paulo, José e Ana Raquel) e inicia a sua carreira literária, publicando primeiramente O Ensino Primário no Distrito de Portalegre (1983 – edição da Assembleia Distrital de Portalegre, em colaboração com Dionísio Cebola, Director Escolar do Distrito de Portalegre), a que se seguiram Rostos e Gostos do Norte Alentejano (publicado em vários semanários, desde 1983), Escritores do Distrito e Portalegre (publicado no jornal Fonte Nova, desde 1984), Luís Gomes – Perfil e Obras de Um Portalegrense (edição de O Semeador, em 1985), Diálogos do Fim de Século (publicado no jornal Notícias de Elvas, desde 1987) António Silvestre, Artista em Ponte de Sor (Folheto comemorativo, Ponte de Sor, em 1987), Festa dos Aventais – Festa Popular, Regionalista, Republicana e Laica (edição da ESSL – Escola Secundária de S. Lourenço, em 1987), Teatro de Portalegre (edição do autor, em1987), Um Minuto de Olhos Fechados (poemas publicados no Notícias de Elvas, desde 1987), José Maria Grande – Figura Nacional do Liberalismo (Edições Colibri, em 1998), Luzia, o Eça de Queiroz de Saias (edição do autor, em 1990), As Chaves da Vida (publicado pela ESSE – Artes Gráficas, Lda, Lisboa, em 2002), Duas Vidas – Poemas (conjunto de versos de 1962 a 1999, editado por Produções Gráficas UNP, Lda, Lisboa, em 2003, cujo lançamento acontecerá durante as Festas da Cidade, com apresentação/leitura de Joelle Ghazarian e Júlio Henriques, e espectáculo de Ana Raquel Conde, numa performance de interactividade multidisciplinar de música, som, vídeo, gestos, movimento e palavras) e, para publicação, Beatriz Emília Rente – Glória de Portalegre nos Palcos Nacionais (rubrica inserida na revista Miradouro, mas que, segundo vontade expressa do autor, só será publicado em livro se a Câmara Municipal de Portalegre tomar a seu cargo iniciativa e custos, o que caso contrário nunca acontecerá), Instantâneos (com publicação prevista para este ano, espécie de fragmentos que retratam o alter-ego do autor, repartindo-o por momentos, situações e relatos avulso) ou Pronomes (Marvão – 2002, conjunto de quadros burlesco-satíricos, onde se descrevem com ironia e graça algumas figuras típicas do quotidiano português).
Se enquanto colaborador de diversos títulos da imprensa regional – colaborou na revista Miriam (de índole teológica, entre 1960 e 1967), nos jornais Fonte Nova (de 1984 a 1988), O Distrito de Portalegre (e 1985 a 1989), Notícias de Elvas (1987 a 1989), O Arraiano (de Elvas, em 1990), e na revista cultural portalegrense Miradouro, em 1989, ou como tradutor (traduziu do italiano, francês e castelhano cinco livros de divulgação teológica, publicados em 1969/70) – a sua atitude não foi a de profundo empenhamento, já enquanto professor se não pode dizer o mesmo, posto que no campo profissional excedeu sobremaneira as exigências do ensino, quer no sector privado, onde leccionou Língua e Literatura Portuguesa (nomeadamente no Seminário de Cristo Rei – Vila Nova de Gaia, Colégio La Salle – Abrantes, Colégio Municipal de Serpa Pinto – Angola, e Salas de Estudo “Renascença”, do qual foi também director em 1970/72, entre 1960 e 1972), quer no ensino oficial, que marcou multidisciplinarmente, onde ingressou em 1972 para leccionar Português e Latim em Malange, Benguela, Bailundo e Batalha, até 1977, e a partir daí como professor de História (Escolas Secundárias de S. Lourenço e Mouzinho da Silveira - ESMS, em Portalegre, e D. Dinis, em Lisboa), não se limitando contudo a ministrar conhecimentos mas sim também a participar activamente em Conselhos Directivos (Escolas Secundárias de Vila Teixeira da Silva e ESMS – 1974/75 e 1978/9, respectivamente), ora fazendo estágios (Estágio do 10º Grupo A, na Escola Secundária D. Dinis, em Lisboa, em 1979/80), ora enquanto orientador de estágio (zona sete, distritos do Alentejo, em 1984/85 e 1985/86), ora como director de turmas ou delegado de grupo (p.e. na ESMS, durante os anos lectivos de 198/81, 1981/82 e 1982/83, e na ESSL, em 1986/87 e 1987/88), bibliotecário (ESSL, nos anos lectivos de 1986/87, 1987/88, 1990/91 e 1991/92), professor de Português e Mundo Actual (Centro de Formação Profissional do Instituto do Emprego), planificador de visitas de estudo nacionais e internacionais, assim como definiu e orientou actividades de pesquisa em bibliotecas e arquivos.
Adepto do riso vital e da ironia mansa, jocosa, apaixonada de prazer e de alegria, consciente da sua pequenez na imensidade do Universo, mas também da importância que tem para o seu equilíbrio o tudo está relacionado com tudo, os elementos naturais e as pequenas coisas e seres, despojado de egoísmo messiânico fundamental, embora cada um dos seus livros possua valor intrínseco e interesse pontual, é em Luís Gomes – Perfil e Obra de um Portalegrense, Chaves da Vida e Duas Vidas que melhor se notam a pujança discursiva e acutilante de um espírito universal e convicto do papel reservado ao homem no planeta e o deste para a humanidade e vida. Desencantado mas lúcido, tranquilo, fluente, mas igualmente rigoroso e objectivo, o seu discurso espelha a determinação, segurança e coragem de uma pessoa habituada a encontrar-se consigo mesmo sem subterfúgios nem esquizofrenias. Ali, onde no olhar de quem se reinventou quotodianamente entre a moral e a ética, entre o pedagogo e o chefe de família, entre o historiador e o poeta, entre o passado e o (então) presente, entre o religioso e o social, com que sublinhou figuras esquecidas que se empenharam na prossecução do bem público com capacidade de entrega ao trabalho e ao dever, na defesa intransigente dos valores em que acreditavam (José Maria Grande – Figura Nacional do Liberalismo) ou personagens primeiríssimas no panorama das literaturas femininas europeias, enaltecendo-lhe a sensibilidade profunda e vibrátil, destruindo preconceitos e restabelecendo a verdade que circunscreveu Luzia, o Eça de Queiroz de Saias, ou ainda assentando a importância histórica dos tradicionais festejos dos caixeiros no Dia da Espiga (A Festa dos Aventais – Festa Popular, Regionalista, Republicana e Laica), bem como tecendo a panorâmica da actividade dramática em Portalegre através dos tempos (Teatro em Portalegre), cresceu uma personalidade exemplar e um cidadão modelo. Porque quem como ele soube o que é a fraternidade universal, reconheceu que a solidariedade significa estar com os outros, pagar a sua parte de obrigação ou de soldo, navegar no mesmo barco e prosseguir a mesma viagem, em igualdade de circunstâncias e sentimentos, se edificou no sacrifício e abdicação, retirando das horas amargas lições de luta, franqueza e galhardia, e enfrentou com riso e temperança os dissabores com que a mediocridade adversa bastas vezes lhe foi atreita, como no caso do concurso ao Ensino Superior Politécnico, em que foi preterido em favor de um estagiário sem a mínima prova dada, e denunciou apropriações autorais (soneto de Luís Gomes reciclado por José Régio, in Fonte Nova nº 31, de 29 de Maio de 1985), e jamais deixou de crer na democracia e liberdade, nem de ser firme na salvaguarda da vida, como valor essencial do Universo, de proteger os animais (v. g. os cães Becas e Pixy) e a natureza da inconsciência e do terrorismo humano, guardar o património artístico e histórico da humanidade, apoiar os criadores da beleza, pugnar pelo aumento de paz, justiça e verdade n mundo... Enfim, um homem que sempre esteve à altura da sua nobreza, e que até no leito de morte soube legar aos que lhe sobreviveram o melhor da sua existência, incutindo-lhes esperança numa última e derradeira palavra: «coragem!» - tal e qual como lhes disse. Coragem, de coração, praticando com os seus aquilo que a muitos ensinou!
Joaquim Castanho

4.20.2004

UM POETA NASCEU


Quando alguém vir
Parir
Um coração
Quando alguém vir
Uma flor a abrir
E dela sair
Um fruto são
Quando alguém vir
Uma luz acesa
Que nas trevas se acendeu
Foi de certeza
Que um poeta nasceu!


NO SILÊNCIO DAS NOITES PERDIDAS


Corpos adormecidos,
Pontas de cigarros,
Jarras partidas,
Copos entornados,
Flores ressequidas.
Almas esquecidas
No silêncio das coisas mortas.
Camas desfeitas,
Sonhos vazios.
Rostos amalgamados
- Sem sorrir.
Corações ignorados
- Sem ódio nem amores.
Comprimidos de todas as cores
- Para dormir.
Memórias cansadas
Por nada pensar.
Mundos nunca encontrados.
Luzes apagadas,
Sangues viciados.
No silêncio das noites curtidas
- Vidas perdidas!


A REVOLTA DO POETA

Sobre nuvens
Ele voa
Dentro do sonho
Ele vai
Ouve-se o grito
Que da garganta lhe não sai
E ouvem-se por resposta
Gargalhadas
Descontroladas,
Descabidas,
Saindo de bocas
Ainda mais perdidas
Numa onda
Ele navega
E troveja
Escorrega
E naufraga.

O meu coração é um relógio
Que bate em compasso
As horas felizes
E as horas tristes
Ninguém dorme em meu regaço
Não há calor que o aconchegue
Não há pé que o agarre
Nem há peso que ele não carregue
Há um mar de sangue
Há um horizonte de angústia
E sofrimento
Há bondade
E há maldade
E há tormento
Ele vê e ele sente
O mundo mudado
Punhal que se lhe espeta
É a revolta do poeta!


Maria Isabel Gaspar
AGORA

A meus pais

pensamentos nostálgicos
toca a flauta no monte
é esta a hora


a água corre na mente
breves são os silêncios
a felicidade ignora


o tempo corre no espaço
é d’aço mas cansa
e morre agora

Maria Isabel Gaspar

4.08.2004

Viva, pessoal! Como vêem a Ana já aderiu ao reino da literatura viva, e ainda não tinha visto tudo para manifestar a sua predilecção... è assim: tiro e queda! Se quiserem colaborar, ponham as vossas dicas através do e-mail grokare@hotmail.com e estarão editadas num pulo! Força... A poesia, a prosa, o romance é de todos... E a LIBERDADE TAMBÉM! Celebremos Abril JÁ!!!!

4.07.2004

ola sou a ana! ainda não vi mas gostei.

4.03.2004

PORTUGUÊS SUAVE


Perto da alvorada um barco parte.
Solitário. Altivo. Mastro desvirgindo
Desflora plúmbeos anjos fugindo
Dum luso quadro de engenho e arte.


Leva no bojo um nome escrito –
Que mal se vê, que mal se soletra –
E por vela enrolado manuscrito
Que vírgil mão em seus dedos aperta.


Foi homem e rei ao seu leme
Que mais que homem foi também nação;
E em cada vez que o cordame geme
Lhe estremece a voz, o fado e o coração


No peito uma madrugada sustenida
Que ao vaivém das ondas o ritmo bate
Levando-lhe também a própria vida...



OUTRO REINO PARA INÊS

É preciso amar as sombras que me falam de ti
Ou as nuvens quando estas ganham formas
Que em tudo se assemelham às tuas ausências;
É preciso. E ser lesto no referir dos olhos
Amoras silvestres de ouvir os gestos
Falar às fontes de teus lábios gomosos lineares
Ou descer pela seda ondeada castanho-escuro escorreita
De teus cabelos partidos ao meio dos sonhos iguais.



É preciso esconder as mãos nas ânsias de ser,
Meter os dedos nos refegos e costuras de existir
E saber que continuar é uma metafísica adiada,
Uma ontologia auspiciosamente pejorativa preterida
Como se de uma vergonhosa mania íntima se tratasse,
Sem recear as curvas derrapantes ou as agulhas marginais,
As culpas assumidas e as projecções perversas,
Os fundamentalismos intolerantes ou as crostas
Sempre demasiadamente rígidas das dores alheias.



Porque é preciso a cada hora minuto segundo reconverter
A ausência saudade em espaço quando imagem acabada
Suficiência compensatória do quanto é irremediável viver
Não sei onde, não sei porquê, mas saber é bastante
É bom ouvir o telefone de “ podes ser tu a tocar “
Retinir insistentemente insistes em esconder o nome
No alô impessoal, profano, thriller mal contado
À beira dos dedos com unhas roídas até à pele de veludo
Acariciante dos gomos sensuais e meigos em leque dispersos
Pelos gestos indomáveis da fala sublinhando iluminuras.



Sei isso e muito mais que tu também não esqueces
Nunca jamais seremos outros em nós ainda que importe
A conjuntura, o carro novo, a mobília a prestações.
E quando é preciso as coisas acontecerem, acontecem
Ninguém pode mudar a lei porque a lei é a Lei
Não uma decisão da assembleia que calhou votar assim
Tão-só assim, precisamente não doutra lei mas daquela.



É não estares aqui ou eu aí o único órgão que me pesa
Nunca os pés, as pálpebras, a língua também entaramelada.
A sonolência é outra coisa não parecida com languidez,
Mas pode ser um despertar para o reino do sonho
Navegar entre as tuas coxas naufragar e naufragar
Não importa esquecendo, esquecendo, esquecendo sempre,
Até ao fim do gesto morno de estender os ombros e gritar.



Gostava de pensar que me esperas os olhos postos na porta
A respiração suspensa a cada sombra que se aproxima
Um formigueiro na espinha e as espáduas que fremem
Embalam expectante fantasia no perfil convergente à ombreira
« Eu vou voltar!... » - A certeza cresce ainda cresce
Não repete, não pára, não fica aí como se fosse estádio
Mas paragem à tona fluente terna dos absolutos possíveis.



PÃO E VINHO

Fazer um poema não é como fazer um filho.
Não é partir uma vidraça. Nem é olhar uma cria
Enquanto brinca nas ruas do crescer
Nas escolas do crescer
Nas rampas do crescer
Nas pistas do crescer
Nas balizas do crescer
Nas passerelles do crescer
Nas discotecas do crescer
Nas tabernas do crescer
Nas avenidas do crescer
Nas câmaras do crescer
Nas camas do crescer
Nas bolsas do crescer
Nas reformas do crescer.


Não é. Mas comer uma azeitona de Elvas também não;
E todavia, ambas as coisas dão imenso gosto e prazer.

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português