4.03.2011


Porque parece que algumas ondas pseudo-feministas se estão a reavivar por aí, faço aqui a minha homenagem a uma das minhas "ídolas" de juventude. Agora já não tenho ídolos, mas companhias fiéis e inspiradoras. Virginia Woolf será sempre uma delas.












O mundo não mudou por causa dos seus livros, evidentemente; mas a minha (e a de muitos) visão do mundo alterou-se bastante, sobretudo com ORLANDO, RUMO AO FAROL, MRS. DALLOWAY, AS ONDAS ou ATÉ MESMO FLUSH, UMA BIOGRAFIA ou Um quarto que seja seu. O feminismo elegeu-a como uma das suas figuras fundamentais, mas o retrato não corresponde; ela não era feminista, era apenas um espírito independente; a sua frase famosa («uma mulher deve ter dinheiro e um quarto que seja seu») referia-se à disponibilidade para escrever. E Virginia Woolf escreveu muito e marcou a modernidade de antes da guerra, quer pela sua escrita (uma torrente incessante que contrasta com a sua "fragilidade"), quer pelo papel que desempenhou como influente intelectual nesses anos difíceis e turbulentos. Virgínia Woolf (1882-1941) morreu há exactamente 70 anos [28 de Março]. Atirou-se às águas do rio Ouse com pedras nos bolsos e passos determinados; o corpo só foi encontrado a 18 de Abril.


O texto que se segue é apenas uma pequena biografia que escrevi há 5 anos; mas quem quiser sentir aquele cheirinho leve que ela deixou na atmosfera cultural adjacente, então pode sempre ver o filme As Horas. E pronto, fica feita a minha homenagem. Porque lembrar nunca é demais.


Filipa Ribeiro


A mulher que decifrou para além do algodão


Amante da vida, suicidou-se aos 59 anos. Pintora do instante, a sua obra projectou-a para o lugar das referências universais. Odiando o seu corpo, filtrou estados de espírito e continua a existir (nos outros).


Ela foi uma mulher que viu além da sua varanda (da vida). Daí viu o horizonte, sendo simplesmente uma mulher, mas com a tal visão. Acima de tudo, ela conseguiu estar nessa varanda apesar de todas as vicissitudes por que passou, entre elas: os raros momentos de intimidade que teve com uma mãe adorada e que, mais tarde, com a morte desta, representou a primeira grande viragem na vida de Virgínia Woolf (V.W.); a falta de formação escolar enquanto criança (muito por ser mulher); a convivência próxima com as depressões do pai; os abusos sexuais por parte dos meios-irmãos; o peso da sociedade vitoriana em que cresceu; os sintomas de uma perturbação mental (psicose esquizofrénica, dizia-se no seu tempo); a morte de um seu irmão; os tormentos das duas Grande Guerras e, claro, a inquietude muito própria e vital para a actividade literária. Hermeneuta da vida, segundo escreve Werner Waldmann, um dos biógrafos da autora de As Ondas, “logo a partir dos primeiros textos sente-se a obstinada procura da escritora quanto a abranger por palavras o mundo que a rodeia e toda a sua profundidade: «toda a realidade», sem ignorar gradações e afastando-se dos clichés e dos métodos literários até então experimentados”. “V.W. não pretende fantasiar histórias, mas arrancar matéria ao caos das sensações interiores, à amálgama de vozes exteriores e interiores”. Como salienta Pierre Nordon, professor emérito de literatura na Sorbonne, em Paris, no artigo A estética do fragmento, publicado no dossier dedicado a V.W, em Le Magazine Littéraire de Dezembro de 2004, “a narrativa woolfiana remete-nos sempre para o universo da pintura”. “Uma das inovações mais marcantes de Virginia é a de, voluntariamente, ter transposto para a literatura a prática dos impressionistas”. Ou seja, toda a vida da escritora foi uma prova de esforço para si própria e para a sua linguagem.




Vida até ao casamento



Filha do segundo casamento de Leslie Stephen com Julia, V.W. nasceu a 25 de Janeiro de 1882. Leslie começou como pastor numa igreja, passando, mais tarde a desempenhar funções como jornalista, biógrafo e historiador. Tido como temperamental, ambicioso e de vivo intelecto, Leslie desde cedo proporcionou um ambiente de elevada intelectualidade na sua casa. Personalidades da cultura britânica de então eram visitas regulares para a família Stephen. Virgínia e a sua adorada irmã Vanessa não receberam qualquer formação escolar, mas antes uma educação própria para senhoras (equitação, canto, música, dança), como convinha à rígida época de costumes em que viviam.


Waldman documenta que ”enquanto criança, V.W. absorvia tudo o que conseguia ouvir, mas não só idiomas. Virgínia aprendeu a ver e sentir o que a rodeava, a apreender o lado visível das coisas e as oscilações invisíveis por detrás das mesmas, todo o espectro de emoções em cada momento da vida”. “Imitava a linguagem dos adultos. Cedo começou a escrever para si, no tom dos adultos, a escrita como imitação. Para ela era um treino, exercícios de dedos para mais tarde”.


Aos 13 anos teve a sua primeira grande crise depressiva por ocasião da morte inesperada e impossível de sua mãe, o que mudou o harmonioso ambiente familiar que, com esforço, existia até àquele acontecimento. Assistir ao profundo sofrimento de Leslie devido à morte da segunda mulher, foi, ao mesmo tempo penoso, revoltante e um ponto de fuga para as irmãs inseparáveis, Virgínia e Vanessa.


É também a partir dessa idade e até aos 21 anos que Virgínia passa a ser vítima de abusos sexuais por parte do meio-irmão George Duckworth, 16 anos mais velho que ela. “Ainda me recordo da sensação quando a mão dele se enfiava por baixo do meu vestido e avançava energicamente e cada vez mais para cima. Recordo-me de como ansiava que ele se apercebesse de como me contraía e desviava quando a sua mão se aproximava das minhas partes sexuais. Recordo-me de que isso me revoltava e repelia – qual é a palavra exacta para um sentimento tão asfixiante e confuso? Deve ter sido forte, pois ainda se conserva na memória”, escreveu no diário que manteve durante toda a sua vida. Mais tarde, Virgínia viria a dizer que Duckworth havia arruinado a sua vida antes mesmo de ter começado. Muito devido a isto, VW nunca viria a desenvolver gosto pelo seu corpo e, mais tarde, nunca se sentiu atraída sexualmente por nenhum homem. “A natureza dotara-o com um excesso de vitalidade animalesca, mas não se dera ao cuidado de inserir um bom cérebro como órgão controlador”, disse sobre o seu odiado meio-irmão.


Até à morte do pai, Virgínia sentiu-se sempre acabrunhada pelo peso da sociedade vitoriana de que Leslie era um poderoso representante, revelando uma personalidade, segundo afirmam diversos críticos e biógrafos da escritora, introvertida, muito sensível, vulnerável, ansiosa, tímida e cheia de complexos de inferioridade. No entanto, o desmoronamento do cenário ideal de família que culminou com a morte de Leslie, em 1904, agravou as manifestações de perturbação psíquica que viriam a ensombrar toda a vida da romancista. Por exemplo, numa carta a Violet Dickinson, comentava que “se houvesse um Deus louvá-lo-ia por me ter liberto da infelicidade dos últimos seis meses [ouvia vozes, tinha pesadelos, nevralgias, enxaquecas]. Não podes imaginar como saboreio agora alegremente cada minuto da minha vida. Só peço que consiga chegar aos 70 anos (…) O desgosto pela morte de meu pai, como agora o sinto, contém algo de apaziguador e torna a vida, ainda que mais triste, igualmente mais valiosa”.


Bloomsburry


Foi no nº 46 de Gordon Square, Londres, que tudo começou para o Grupo Bloomsburry. Já motivada pelas discussões filosóficas que mantinha durante as refeições com o irmão Adrian, onde atiravam cubos de manteiga um ao outro, assim como pela vontade de estar à altura dos amigos do seu culto irmão Thoby e seus amigos, Bloomsburry – o espaço de tertúlias – constituiu uma grande alegria e um enorme estímulo para V.W. Além disso, tornou-se “atraente para uma certa camada social, para os intelectuais, artistas, escritores, jornalistas, pintores, estudantes, numa palavra para os boémios. Cultivava-se o liberalismo, sem grandes discursos a esse respeito”, nas palavras de Waldmann.


Mais uma vez, os seus complexos de inferioridade e o medo de ser ignorante, aguçaram-lhe o espírito para a leitura, sobretudo quando os restantes membros do grupo incitaram a grande silenciosa de Bloomsburry a ter um papel mais activo nas discussões que o grupo promovia.


Por outro lado, como escreveu Hermione Lee, a mais conceituada biógrafa de V.W., num artigo publicado no The Guardian, em Fevereiro de 2003, a autora de Orlando, passou a ser “conhecida por ser uma conversadora brilhante e divertida que arrancava gargalhadas aos amigos” e isto não como forma de provocar a hegemonia masculina da altura, mas mais como forma de dizer que também ela seria capaz, que estava ali. Outros há que associam a esta sua faceta mais social uma manifestação do que hoje se designaria por doença bipolar.


“A presença de Woolf era marcada pela magreza, a bela estrutura óssea, a fragilidade, os olhos, a voz, a mistura de angulosidade e de estranheza”, elucida ainda a investigadora.


O incondicional Leonard


Virgínia foi, apesar de tudo, uma mulher afortunada, por exemplo, quando a vida lhe ofereceu Leonard Woolf, o homem com quem viria a casar em 1912. Mais à frente neste artigo e até na sua última nota de suicídio, ela mostrará o porquê. Ora, foi também entre a intensa actividade cultural que acontecia no grupo Bloomsburry que Virgínia conheceu Leonard – o homem que estava sempre a tremer –, antes deste partir de viagem para o Ceilão. “Fiquei, como é óbvio, profundamente fascinada por este selvático, trémulo e misantropo judeu, que já erguera o punho contra a civilização”, escreveu ela no seu diário sobre o futuro marido. Para aceitar casar-se, muito contribuiu o facto de recear ser marginalizada pela sociedade que a rodeava, bem como se preocupar, como revelou em cartas enviadas à sua irmã Vanessa, em 1911, por aos 29 anos se considerar “uma falhada”, porque não era casada, nem escritora, nem tinha filhos. Afinal, também Virgínia queria partilhar o quotidiano com um companheiro, mesmo que as suas tendências sexuais pendessem para as mulheres, facto que atribuiu quer ao domínio que a figura materna teve em si até aos 40 anos, quer ao facto de saber a sua recusa de tudo o que se interligasse ao seu corpo. Ao mesmo tempo, receava e desejava o amor, os filhos, a aventura, a intimidade e o trabalho próprios do que é um casamento.


Desde a sua união com Leonard, como refere Waldmann, Virgínia não passou por anos fáceis: “a prolongada e sempre recrudescente doença, a constante ameaça de mergulhar por completo no abismo da loucura; a decepção de que problemas indissolúveis pesavam sobre o seu casamento: a falta de filhos, as dificuldades no âmbito sexual; o modesto êxito ideal e material do seu trabalho de escritora; a guerra; amizades que haviam chegado ao fim, o pálido reflexo de Bloomsbury”. Sobre a vida particular de V.W, o biógrafo escreveu: “Virgínia podia confiar em Leonard, que a aceitara tal como ela era. O amor de ambos, se é que assim lhe pode chamar, assentava em bases sólidas, jamais questionáveis. “Estou deitada e penso no meu querido monstro que torna cada dia da minha vida mais feliz do que alguma vez julgara possível. Estou sem dúvida terrivelmente apaixonada por ti. Penso sem cessar no bem que me fazes e tenho de parar – desperta-me logo o desejo de te beijar”.


Viver da e na escrita


A editora que o casal Woolf montou foi uma das maiores aventuras que ambos viveram. V.W. era a responsável editorial da familiar Hogarth Press, enquanto Leonard administrava toda a envolvência do negócio com uma competência e cabeça fria notáveis. T. S. Elliot, Tolstoi, Gorki, Tchekov, Doitoievski, Ítalo Svevo, Rainer Maria Rilke, Gertrude Stein, Vita Sackville-West, H. G. Wells, Freud (V.W. mostrou-se várias vezes céptica em relação às ideias do pai da psicanálise) são apenas alguns dos nomes que fizeram parte do catálogo da editora dos Woolf. Mas o negócio do casal também ficou conhecido por recusar Sartre e, sobretudo, por ter negado a publicação de James Joyce.


Esquizofrenia ou processo criativo?


V.W era uma mulher que vivia no seu tempo e de acordo com a ideia que dela faziam, mas nunca permitiu que isso a manietasse. Sujeitou-se a todas as pressões e impulsionou-as para dentro de si. Deprimiu-se.


Se era ou não esquizofrénica e se isso se retratava na sua escrita é ainda hoje motivo de longas dissertações entre os estudiosos. No entanto, a efabulação e as toxinas que a obrigavam a tomar por causa da tal psicose, proporcionaram-lhe um mundo onde só ela habitava. Era quase como que autista, como muitos escritores e artistas são por necessidade, mas, na verdade, V.W. intercalava alturas de grande excitação, lucidez, criatividade com outras de depressão, isolamentos, medo de não conseguir fazer mais nada. Também por essa razão, escrever um romance causava-lhe, ao mesmo tempo, prazer e terror.


Outra explicação é dada por Diane de Margerie, romancista e autora de um prefácio a uma edição de Orlando, que outorga a V.W. uma “identidade retalhada”, isto é, “à vez nostálgica, deprimida, inquieta, vital, irónica, feroz, mundana, atraente, solitária, concentrada, desconcentrada”. “Ela não poderia viver senão num instante de cada vez”, remata a também ensaísta.


Note-se, por curiosidade, que como explicou Waldmann, após receber a resposta positiva do editor do seu primeiro livro “A Viagem”, V.W. padeceu de profundas depressões e de alucinações devido ao receio da reacção do público ao seu livro. Estas crises repetiram-se sempre que terminava um romance.


Uma das suas obras mais conhecidas – Mrs. Dalloway – que teve como primeiro título As Horas, representou um verdadeiro tormento para V.W. “A concepção é tão estranha e misteriosa”, dizia, referindo-se a “uma luta dos diabos”, e de que ficaria completamente esgotada durante o tempo em que o escreveria, receando acordar novamente o que chamava de loucura. “A parte sobre a loucura põe-me tanto à prova”, clamava Virgínia. As dúvidas constantes assolavam-lhe o espírito: “Terei o poder de transmitir a verdadeira realidade? Ou escrevo apenas ensaios sobre mim própria? Responda o que responder…a minha agitação permanecerá sempre”. Apesar disto, era a escrever que V. W. sentia a força vibrante do seu ser. Penetrar no inconsciente detalhado das personagens, registar a fluidez complexa do quotidiano, confrontar as terríveis associações de que se constitui a vida humana são características claras de uma nova forma de narrativa que V.W. protagonizou e de que Mrs Dalloway é exemplo. “A obra de Woolf é a pragmatização de uma frutuosa pesquisa sobre a arte do romance, da qual resultou uma forma elástica, servida pela representação descarnada da consciência e por um ritmo cada vez mais interiorizado, demanda que consumiu e espelhou a sua vida” (Jornal de Letras, de 5 de Março de 2003). “Qual a fronteira entre o real e a ilusão?”, perguntava ela no livro Um quarto que seja seu.


As Ondas, o outro vértice do triângulo primordial da obra de V.W. (Mrs. Dalloway, As Ondas e Orlando), foi escrito no limiar de mais uma crise depressiva de V.W. Depois de o ter acabado, a autora desabafou assim: “Escrevi as últimas palavras há um quarto de hora – depois de ter desbobinado as últimas dez páginas com tal intensidade que ainda me parece estar a seguir, vacilante o eco da minha própria voz ou antes o eco da voz de alguém (como se estivesse louca) …. Seja como for, está feito e há quinze minutos que estou num estado de êxtase e calma; também chorei um pouco…Como é física a sensação do triunfo e do alívio!” O marido classificou o seu livro como uma obra-prima, o melhor dos seus livros.


Paradoxo humano


V.W., em Rumo ao Farol, apresenta uma visão segundo a qual “cada homem e mulher é uma criatura isolada e cada um deles requer e procura alguma comunicação legítima com os outros em particular e com o mundo em geral”, diz Kenneth Tighe num artigo crítico ao supracitado romance, “Arte e ateísmo em Rumo ao Farol”. Segundo o ensaísta, o isolamento individual das personagens naquele romance é sustentado pela ausência de Deus. Ou seja, sem a presença de Deus como apoio ao humano, cabe ao indivíduo atribuir ordem, significado, sentido de unidade no (seu) universo intrinsecamente caótico. Sendo assim, “para a Sra. Woolf, no romance Rumo ao Farol, a arte é a ponte que se eleva sobre a anarquia do ateísmo”, apesar de o homem e a mulher serem sempre criadores imperfeitos e falíveis. Por outro lado, é perfeitamente visível que V.W. queria um mundo onde a mulher e a diferença fosse reconhecida. Ela desenha esse mundo em Orlando. E é curioso verificar, por exemplo, que o anagrama de Orlando [Leandro] é o paradigma da obra de Lídia Jorge, escritora portuguesa, O Vento assobiando nas Gruas.


V.W. era maçónica (das lojas regulares) e debateu-se toda a vida com o estatuto de menoridade que era atribuído à mulher, inclusivamente depois de ter tido algum êxito com as suas obras. A isso se deve também o facto de se ter imbricado nas teorias humanistas da diferença. Também as suas constantes depressões que a assolaram terão derivado muito dessa dicotomia entre o mundo dos homens e das mulheres que era tão gritante para alguém que apenas queria ser vista como ser humano. Por isso e muito mais, ela tentou, com a vida e com a sua literatura, desvendar a profundidade da alma humana, o que a aproximou de autores como Rainer Maria Rilke, apesar de ambos terem tido trajectos distintos.


Morte no rio


“Tu, sobre quem cavalgo, diz-me que inimigo vemos agora avançar contra nós, neste momento em que golpeias a calçada com os teus cascos? É a Morte. A Morte é o nosso inimigo. É contra a morte que cavalgo de lança em riste e os cabelos flutuando ao vento, como os de um jovem, como os de Percival quando galopava na Índia. Cravo a esporas nos flancos do meu cavalo. Invencível e indómito é contra ti que combato, oh Morte!”, escreveu Virgínia em As Ondas.


Diane de Margerie considera que os vários acontecimentos que implicaram um sofrimento profundo em V.W. resultaram na fragmentação da identidade da escritora, apesar dela sentir uma “intensa nostalgia de uma unidade impossível de alcançar (excepto na morte)”. E é daqui que vem a resposta à frase que serviu de título ao filme de Mike Nichols e a uma peça de teatro de Edward Albee, “Quem tem medo de Virgínia Woolf?”. O mesmo é dizer quem tem medo da morte, quem tem medo do que é a vida, quem tem medo de exceder (-se) nas convenções estabelecidas. Ou seja, a morte é a mais alta forma de dignificar e valorizar a vida, porque é a mistura entre o infinito e a liberdade absoluta. O recurso à morte terá sido, para Virgínia, uma forma de se manter viva. Porque importa não esquecer que Virgínia, sendo uma espécie de morta-viva, sempre amou a vida e os outros.


Como morreu?


V. W. dizia que o oceano lhe ensinava mais sobre a natureza humana do que as próprias pessoas, mas escolheu um rio como leito da sua morte. “Woolf afogou-se num frio dia de Março num perigoso e horrível rio que corre tão rápido que nada cresce nas suas margens. Vestia um velho casaco de pele, botas e um chapéu. Se saltou, entrou ou lutou, não sabemos”, informa Hermione Lee. Com os bolsos cheios de pedras, V.W. terá tido a sua resposta, depois de ter decifrado para além do algodão (=além da realidade da natureza humana): “A morte era um desafio. A morte era uma tentativa de união ante a impossibilidade de alcançar esse centro que nos escapa; o que nos é próximo afasta-se; todo o entusiasmo desaparece; fica-se completamente só...Havia um enlace, um abraço, na morte?”. [Mrs. Dalloway, Livros do Brasil, edição de 1992].


“Mrs. Dalloway mudou a minha existência”


Michael Cunningham, que recebeu o Prémio Pulitzer, pelo romance As Horas, partiu para essa aventura de dar um renascimento à obra de V.W., quando tinha apenas 16 anos, depois de ler Mrs Dalloway. “Este livro foi realmente o primeiro a causar uma impressão real em mim, foi o primeiro a mostrar-me tudo o que se pode fazer com um pouco de tinta e de papel. Nunca mais li frases com tanta densidade, complexidade, musicalidade e beleza. Mrs Dalloway mudou a minha existência, ao revelar-me a literatura”, comentou numa entrevista concedida à ”Le magazine littéraire, edição de Dezembro de 2004. O resultado deste encanto materializou-se em 1996 quando começou a escrever As Horas. Virgínia Woolf: a irmã de Shakespeare que triunfou Um dia foi impedida de entrar numa Biblioteca Pública de Londres por não possuir uma carta do seu marido, autorizando-a para tal. E um dia, em 1929, publica Um quarto que seja seu, cuja ideia principal assenta no facto de as mulheres terem sido sempre subjugadas não devido à sua natureza, mas como resultado de algumas “tristes” circunstâncias económicas e sociais. No entanto, como é referido no livro Mulheres nas Letras, Mulheres dos livros, “aparentemente, ela desfrutava das condições que considerava essenciais para uma mulher se afirmar como escritora, advogadas no seu ensaio Um quarto que seja seu, dispor de espaço físico e psicológico e de dinheiro suficiente para se bastar a si própria”. A propósito disto, inventou uma irmã para Shakespeare que, por ser mulher, nunca poderia ser escritora.

3.31.2011

HUMILDADE

José Alencar (JA) morreu esta semana



Ex-Vice Presidente da República do Brasil



"A humildade não está na pobreza, não está na indigência, na penúria, na necessidade, na nudez e nem na fome".



Na semana passada, o vice-presidente da República, José Alencar, de 77 anos deu início a mais uma batalha contra o câncer. É o 11º tratamento ao qual se submete.



*Desde quando o senhor sabe que, do ponto de vista médico, sua doença é incurável?



JA - Os médicos chegaram a essa conclusão há uns dois anos e logo me contaram. E não poderia ser diferente, pois sempre pedi para estar plenamente informado. A informação me tranquiliza. Ela me dá armas para lutar. Sinto a obrigação de ser absolutamente transparente quando me refiro à doença em público. Ninguém tem nada a ver com o câncer do José Alencar, mas com o câncer do vice-presidente, sim. Um homem público com cargo eletivo não se pertence.



*O senhor costuma usar o futebol como metáfora para explicar a sua luta contra a doença. Certa vez, disse que estava ganhando de 1 a 0. De outra, que estava empatado. E, agora, qual é o placar?



JA - Olha, depois de todas as cirurgias pelas quais passei nos últimos anos, agora me sinto debilitado para viver o momento mais prazeroso de uma partida: vibrar quando faço um gol. Não tenho mais forças para subir no alambrado e festejar.



*Como a doença alterou a sua rotina?



JA - Mineiro costuma avaliar uma determinada situação dizendo que "o trem está bom ou ruim". O trem está ficando feio para o meu lado. Minha vida começou a mudar nos últimos meses. Ando cansado. O tratamento que eu fiz nos Estados Unidos me deu essa canseira. Ando um pouco e já me canso. Outro fato que mudou drasticamente minha rotina foi a colostomia (desvio do intestino para uma saída aberta na lateral da barriga, onde são colocadas bolsas plásticas), herança da última cirurgia, em julho. Faço o máximo de esforço para trabalhar normalmente. O trabalho me dá a sensação de cumprir com meu dever. Mas, às vezes, preciso de ajuda. Tenho a minha mulher, Mariza e a Jaciara (enfermeira da Presidência) para me auxiliarem com a colostomia. Quando, por algum motivo, elas não podem me acompanhar, recorro a outros dois enfermeiros, o Márcio e o Dirceu. Sou atendido por eles no próprio gabinete. Se estou em uma reunião, por exemplo, digo que vou ao banheiro, chamo um deles e o que tem de ser feito é feito e pronto.Sem drama nenhum.



*O senhor não passa por momentos de angústia?



JA - Você deveria me perguntar se eu sei o que é angústia. Eu lhe responderia o seguinte: desconheço esse sentimento. Nunca tive isso. Desde pequeno sou assim, e não é a doença que vai mudar isso.



*O agravamento da doença lhe trouxe algum tipo de reflexão?



JA - A doença me ensinou a ser mais humilde. Especialmente, depois da colostomia. A todo momento, peço a Deus para me conceder a graça da humildade. E Ele tem sido generoso comigo. Eu precisava disso em minha vida. Sempre fui um atrevido. Se não o fosse, não teria construído o que construí e não teria entrado na política.



*É penoso para o senhor praticar a humildade?



JA - Não, porque a humildade se desenvolve naturalmente no sofrimento. Sou obrigado a me adaptar a uma realidade em que dependo de outras pessoas para executar tarefas básicas. Pouco adianta eu ficar nervoso com determinadas limitações. Uma das lições da humildade foi perceber que existem pessoas muito mais elevadas do que eu, como os profissionais de saúde que cuidam de mim. Isso vale tanto para os médicos Paulo Hoff, Roberto Kalil, Raul Cutait e Miguel S-rougi quanto para os enfermeiros e auxiliares de enfermagem anônimos que me assistem. Cheguei à conclusão de que o que eu faço profissionalmente tem menos importância do que o que eles fazem. Isso porque meu trabalho quase não tem efeito direto sobre o próximo. Pensando bem, o sofrimento é enriquecedor.



*Essa sua consideração não seria uma forma de se preparar para a morte?



JA - Provavelmente, sim. Quando eu era menino, tinha uma professora que repetia a seguinte oração: "Livrai-nos da morte repentina". O que significa isso? Significa que a morte consciente é melhor do que a repentina. Ela nos dá a oportunidade de refletir.



*O senhor tem medo da morte?



JA - Estou preparado para a morte como nunca estive nos últimos tempos. A morte para mim hoje seria um prêmio. Tornei-me uma pessoa muito melhor. Isso não significa que tenha desistido de lutar pela vida. A luta é um princípio cristão, inclusive. Vivo dia após dia de forma plena. Até porque nem o melhor médico do mundo é capaz de prever o dia da morte de seu paciente. Isso cabe a Deus, exclusivamente.



*Se recebesse a notícia de que foi curado, o que faria primeiro?



JA -Abraçaria minha esposa, Mariza e diria: "Muito obrigado por ter cuidado tão bem de mim".



(* Repórter desconhecido, via e-mail Ivana Bussab – Suíça)

V EXPO AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS



Quarteira, Praça do Mar, 13 a 15 de Maio de 2011


De 13 a 15 de Maio de 2011 a Cidade de Quarteira vai receber pelo quinto ano consecutivo a EXPO AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS, numa organização conjunta da Junta de Freguesia de Quarteira, e do site de voluntariado ambiental http://www.algarverenovavel.com/ , com o apoio da Câmara Municipal de Loulé.


Mais uma vez a Praça do Mar, em Quarteira ficará composta de tudo aquilo que de melhor existe em Portugal em matéria de energias renováveis, veículos amigos do ambiente e tecnologias amigas do ambiente. Trata-se de uma exposição de entrada inteiramente livre, com diversas actividades de Educação Ambiental para as escolas, com várias demonstrações de tecnologias amigas do ambiente nomeadamente dos curiosos Fornos Solares, Cine ma de Educação Ambiental, e um Seminário. No decorrer da exposição, vários concertos animarão a Praça do Mar, e no Domingo, último dia, para além de uma acção de limpeza com voluntariado (para o qual todos estão convidados, seguido de almoço para os participantes), realizar-se-á o tradicional desfile de veículos ecológicos.


A V EXPO AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS é uma das mais interessantes feiras de energias renováveis e de ambiente, eminentemente prática, de entrada livre que dedica uma especial atenção à sustentabilidade ambiental e aos veículos não poluentes, constituindo um espaço de excelência para o estabelecimento de contactos, e divulgação de conhecimentos na presença daquilo que de melhor existe à venda em Portugal. Porque esta iniciativa é interessante, convidamos a vossa empresa a expor nesta exposição de Energias Renováveis , de veículos amigos do ambiente e de tecnologias de protecção ambiental. Assim, solicitamos que nos informem do interesse da presença da vossa empresa nesta exposição. Seria muito importante que se apresentassem soluções em funcionamento, tal como tem acontecido em anos anteriores.

O horário da Exposição será das 12 h às 23h e a montagem dos Stands pelos Expositores será no dia 12 de Maio de 2011.

As inscrições dos expositores para este evento deverão ser efectuadas mediante o envio da ficha de inscrição que se junta em anexo para a Junta de Freguesia de Quarteira até ao próximo dia 29 de Abril de 2011, informando o espaço e os recursos que necessitarão para a instalação dos vossos equipamentos. Sendo o espaço limitado a 18 Stands que rapidamente se esgotam(sobretudo as melhores localizações), aconselhamos a que se inscrevam com a maior brevidade.


Contamos convosco!

Pela Comissão Organizadora

António Brito

964144312



Para informações adicionais e inscrições aconselha-se que contacte directamente a Junta de Freguesia de Quarteira, para escolha dos Stands, pois as melhores opções e localizações depressa se esgotam, pois o espaço é limitado, sendo montados apenas 18 Stands:


Rua Vasco da Gama, nº 85 - r/c 8125-256

QUARTEIRA

Telf: 289 315 235 Fax: 289 314 957

No intuito de promover as boas práticas ambientais das empresas e dos organismos públicos, a AMI tem procurado disponibilizar instrumentos de recolha e tratamento de resíduos, que lhe permitem, adicionalmente e sem custo acrescido para os participantes, angariar fundos para o financiamento das suas actividades humanitárias médicas, sociais e ambientais.


Pretendemos, no seguimento de anteriores contactos, apresentar-vos uma proposta para os Resíduos de Equipamentos Eléctricos e Electrónicos de que pretendam desfazer-se.


Para conhecerem esta proposta em pormenor, contactem-nos através do e-mail reciclagem@ami.org.pt ou do número de telefone 218 362 100.


Agradecemos a disponibilidade e aguardamos o vosso contacto.
A Escola de cães-guia para cegos de Mortágua precisa de amigos para a sua manutenção.

A Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra é amiga e vai fazer, no dia 8 de Abril, um jantar de angariação de fundos para os nossos cachorros.


Gostaríamos muito de contar com a tua presença.

Podes fazer a inscrição para os seguintes nºs: 917761274 - Ana Mafalda e 966807915 - Ana Guerra. Vai haver música e muita animação.


Aparece e trás amigos!

Caso não possas aparecer, podes sempre contribuir fazendo um donativo em http://www.caesguia.org/ajudar.html

Obrigado

Júlio Damas Paiva

3.28.2011

Este ano, na sua declaração de IRS ajude a AMI sem gastar nada e exerça um acto de cidadania activa.


Basta escrever o número de contribuinte 502 744 910 no campo 9 do anexo H. Ao fazê-lo estará de imediato a ajudar a AMI com 0,5% do seu imposto já liquidado.


No último ano apurado, o valor atribuído à AMI pelos contribuintes superou os 700 mil euros. Esta verba equivale à manutenção, durante um ano, de 3 dos 11 equipamentos sociais que a AMI tem em funcionamento em Portugal. Ajude-nos a alcançar ainda mais.


Envie esta possibilidade para todos os seus amigos, colegas e familiares e peça para também eles darem o seu contributo.

Mais informações em http://www.ami.org.pt/.

A Coragem do Erro

Par de Tango/a prà Dança do à Rasca

“Quem lava uma coisa lavada

Ou é burro, ou anda com ela fisgada!”

Provérbio popular casalparadense

Nestas (an)danças, estou convencido que havemos de fazer uma boa parelha, tu e eu, pois assim poderemos arremeter contra as intempéries e agruras do quotidiano como se de uma empresa fizéssemos parte. E como sócios maioritários. De responsabilidade ilimitada, embora que na medida das possibilidades de cada um. Mas não esquecendo nunca que a alma humana não tem fronteiras nem determinações absolutas. É uma unidade coletiva dentro do ramo do para o que-der-e-vier, com atividade (con)centrada na felicidade de lutar, ou cujo essencial motivo reside em proporcionarmos o máximo da felicidade imaginável, uma ao outro, e a outra a um, porque só assim é possível alcançar o maior número de vitórias, êxitos nos empreendimentos, sucessos nas demandas. Todavia, convenhamos, esse objetivo encontrará diversas resistências num ambiente cultural que se caracteriza sobretudo pela ordem inversa da lógica e racional, enfim numa sociedade onde os que têm habilitações para o desempenho das funções inerentes à sua profissão fazem os serviços menores, carregam mobílias e caixotes, fazem biscates de consertos vários, são caixas de hipermercado ou serventes de obras, ou seja, fazem o trabalho indiferenciado, e os que não sabem fazer absolutamente nada ficam a ver e a mandar, são coordenadores ou encarregados disto e daquilo, ou ficam sentados em secretárias, durante o horário de expediente, como se fossem doutores, quadros superiores, mestres e engenheiros. Creio que é necessário errar para avançar seja no que for, mas nada de abusos: insistir na mediocridade atribuindo aos inúteis a valia que cabe aos competentes e eficazes, sob o pretexto da humanidade igualitária, pode trazer enormes dissabores e desmandos, que nos agravarão a crise nas partes (Hui!), instituição a instituição, como no todo, diminuindo a eficiência e eficácia das políticas e planos de estabilidade e crescimento – os célebres QREN’s e PEC’s dos nossos pecados. Num país em que os melhores são os pior tratados, a falência e a banca rota são apenas, como perspectiva, a única possibilidade previsível com larga prioridade nos resultados.

Por outro lado, devemos reconhecer, que o país, a nação, a nossa pátria, não são os outros, nem algo que nos é alheio, nas condições e diagnósticos como nas estratégias e programas: somos nós. Cada qual é um órgão elementar e inalienável desse todo que se quer coeso e histórico. Por isso, seria aconselhável deixar para trás a abdicação e o laxismo. Porque ele, ou ela, a pátria, é a imagem perfeita do povo que a contém. Se somos corruptos, é ela corrupta também. Se somos surrealistas na administração do Estado, então o caos social não nasceu por ordem e graça do espírito santo, fomos nós que o criámos. Mas não por erro, que esse ainda é o único caminho possível para o êxito e desenvolvimento (: só crescemos e nos desenvolvemos por engano, como sucedeu com a descoberta do Brasil e, depois, com a sua independência). Por burrice e corporativismo, que o mesmo é dizer, por comodismo desinteligente e criminoso, sob o explícito fim de trambicar e burlar o próximo.

Quando era pequeno – embora nunca tenham sido grande, uma vez que 1,60 m não garante a nenhum adulto chegar à prateleira de cima de qualquer hipermercado ou mijar nos urinóis (públicos) dos homens sem se pôr em bicos dos pés – explicaram-me que estávamos a dirigir-nos para a Utopia, e que isso era mau, era péssimo, pois se lá chegássemos só nos restariam duas formas radicais de tédio: A Cidade do Sol, ou A Ilha da Sociedade Socialista, SS, que por sinal, foi exatamente a sigla da polícia secreta e especial de Hitler, demonstrando bem como os extremos se tocam neste género de definições. E empreendimentos.

A sociedade do futuro não agoirava nada de bom, principalmente se tivermos em conta que os melhores projetos, encabeçados pelos Admirável Mundo Novo (Huxley) e 1984 (Orwell), deixavam muito a desejar, no capítulo das garantias, direitos e liberdades, como no do bem-estar, qualidade de vida e sustentabilidade planetária. E Portugal estava enraizado em ambas, pela rota da agonia sistemática, entre a ditadura e a democracia do assim-assim. Vegetávamos na praia do não-me-comprometas a ver o que dava, e eis no que deu!

Porém, lá rumámos à Europa, ao sabor dos Fundos de coesão e convergência, plantando alcatrão e espalhando CO2 por todos os baldios e charnecas, a que chamávamos crescimento e progresso. Semeámos também algumas catedrais do conhecimento enciclopédico no intuito de criar massa crítica, contudo apenas frutificou em novas oportunidades azedas e muita parra preta nas arruadas da copofonia. Empestámos os lençóis freáticos, os campos e rios com pesticidas, inseticidas e herbicidas, e as praias com lixeiras de garrafas, plásticos, beatas e latas de conserva ou refrigerantes. E as piscinas, e arrozais com buracos de golfe ou estádios para campeonatos de desportos moribundos – e mundiais que não passaram de projetos a concurso.

Então, de acordo com as circunstâncias, e atendendo que é preciso ter coragem para errar, podemos dizer que somos todos uns valentes. Autênticos e olímpicos na manobra do esconder com perícia e da metáfora: para nós nunca nada foi o que pareceu – pois quanto aparentou foi sempre outra coisa, e essa jamais se fundamentou no que era mas no que queríamos ou quiseram que fosse. Progresso foi metáfora de desenvolvimento, mas apenas gerou estagnação surripiadora de fundos e subsídios, visto que em Casal Parado ficou tudo na mesma, e quando falhámos foi só em não conseguirmos fazer ainda pior do que já estava, que é precisamente esse o significado de insustentabilidade. E até na verdade fizemos dumping(1), tendo uma lá para fora e outra cá para dentro, vendendo por depreciação o que se enaltecera anteriormente, umas vezes, ou apresentando como dados estatísticos aquilo que não passava de resultados de estimativas ou sondagens encomendadas, outras.

E se fomos campeões em alguma coisa, não resta agora a mínima dúvida, terá sido unicamente em desperdiçar, edificando prédios sem racionalização energética nem acesso universal, cidades inaptas para pedestres, transportes públicos altamente poluentes e exclusivamente dependentes de combustíveis importados, com promontórios de subida e descida que obstaculizam o acesso a deficientes e idosos, desertificámos o interior e sobrepovoámos os litorais, criando megazonas metropolitanas, contribuindo para o aquecimento global e alterações climáticas valentemente.

Porém, estivemos sempre prontos a crucificar os demais se trabalhassem ou criassem algo, difamando-os em prol da defesa da nossa corporação, clube ou partido, diminuindo quanto fizessem, e sobretudo, com afinco e militância permanente, apelidámo-los de excêntricos e iluminados se não subscreveram ou elogiaram a mediocridade geral, como de exibicionistas ostensivos e se calaram perante o que mostrámos,quanto fizéramos ou pensáramos. Até que finalmente o conseguimos e presentemente estamos todos na merda, corajosamente entranhados nela e heroicamente convictos que a culpa foi da crise. Qual crise? Excelsa e exclusivamente essa: a da nossa identidade. Ou que a culpa foi da oposição, que se negou a colaborar corajosamente no erro até ao colapso final. Ah, valentes! Sim senhora, dignos de um hino que vista com ouros e brocados as armas e brasões [barões?] assinalados que da ocidental praia lusitana foram por défices nunca antes alcançados. Isso. E valentemente! Que agora cá estamos eu e tu, para dançarmos numa roda-viva tentando sobreviver entre a desonra de sermos portugueses e a indignidade sermos vistos pela Europa como incapazes de nos governarmos sem a caridade dos fundos comunitários.

Ou pequenos mas infantis!... Que quem derruba um governo que já não governa, quer é esmolas, papas e taberna.

(1)Dumping – (economia) Venda de produtos no estrangeiro a preços mais baixos do que os praticados no mercado interno com o objetivo de dominar o mercado e afastar a concorrência.

3.25.2011


DEIXEM DE IR A "JARDINS ZOOLÓGICOS"



Quando as pessoas são hipócritas entre si, o problema é delas e lá saberão o que fazer. Agora quando são hipócritas entre si e com isso prejudicam outras espécies, o caso muda de figura.
Já vou tendo pouca paciência para intelectuais que gozam e criticam reality shows ou a programação das nossas televisões, mas depois masturbam-se "intelectual" e "socialmente" em facebooks, blogs e outros que tais, participando em reality-shows auto-(re)criados até à exaustão.

Tudo bem, aceito que os que reclamam de tudo isto não desliguem a televisão, não vão a manifestações porque não acordaram a tempo ou se distraíram com qualquer afazer pessoal, aceito que não possa já ir ao cinema sem ser em gaiolas gigantes a que deram o nome de centros comerciais ou shoppings, aceito que essas gaiolas ensurdecedoras sejam o limite da criatividade de centenas de pessoas que se repetem semanalmente nos mesmos rituais atávicos; aceito que não possa ir à praia junto a minha casa a partir de março, pois o que deveria ser um lugar "saudável" se transforma num parque de estacionamento e de trânsito caótico porque as pessoas não se lembram que um das funções dos seus membros inferiores é andar (e podem fazê-lo com várias ajudas desde bicicletas, patins em linha, trotinetes, skates,e tc), enfim a lista continuava.

Agora, o que não aceito é que à custa de formas de entretenimento mórbido outras espécies morram. Não falo das corridas de galgos ou de pitbulls, não falo da pesca, ou da caça. Falo do Knut, um pobre urso polar que foi transformado em mercadoria de marketing de um jardim zoológico de uma das cidades supostamente mais evoluídas da Europa, Berlim ( http://www.publico.pt/Sociedade/morreu-knut-o-urso-mais-famoso-do-mundo_1485835 ). Não aceito que pessoas que se chamam a si mesmos pais levem os seus filhos, que dizem estar a educar para o futuro, a prisões onde a diversidade da vida é transformada em produto de entretenimento barato e sem sentido. Atiram-se moedinhas aos elefantes, umas sardinhas aos ursos e diz-se "ai que giro" ou "ai que medo" conforme a sensibilidade, mas depois vão todos para casa felizes por terem visto bichinhos giros, tirado umas fotos de circunstância e cumprido o sagrado dever de passar uma tarde em família. Mas, claro, essas famílias vão para casa de carro, mesmo que morem a 30 mins de distância, pois o giro é ver o ursinho polar ali ao pé de nós atrás de umas grades. Que importa que os outros, ainda na vida selvagem, vejam os seus habitats cada vez mais destruídos pelo aquecimento global, pesca excessiva, e outras coisas mais directamente relacionadas com a actividade humana?

De notar que zoológico significa "estudo relativo a animais". E nesses antros faz-se tudo menos estudos e nem as desculpas, que alguns utilizam dizendo que têm projectos de recuperação de espécies, servem para amenizar a brutalidade desses sítios, pois esses estudos devem ser feitos em locais mais recatados. Tal como aconteceu com o Knut, muitas dessas espécies acabam por desenvolver doenças terríveis devido a alterações comportamentais derivadas da exposição permanente aos guinchos, risos e demais ruídos dos humanos que os vão "ver".

O knut morreu e independentemente do que venham a dizer os responsáveis do jardim sobre a sua morte, a causa mais imediata e inegável é o seu esgotamento por ter sido transformado em cabeça de cartaz de um espectáculo miserável. O irónico e absurdamente hipócrito é que os que causaram a sua morte, ou seja, todos os que o foram visitar naquele sítio, criam agora um livro de condolências e fazem-lhe homenagens. Quantos mais vão ter de morrer para que passemos a entender que a vida é para ser sentida, partilhada e, acima de tudo, respeitada em todas as suas dimensões e que as outras espécies não são objecto de uso do homem para seu bel-pazer? Os "jardins zoológicos" são extensões dos antigos circos romanos. Se os queremos de volta, coloquemos neles apenas homens, tal como acontecia na altura, façamos touradas só com homens e não com touros, façamos corridas de apostas só entre homens e não com cavalos, cães ou galos. Se querem ver animais em exposição, vão ao Red Light Distric em Amsterdão onde pelo menos 3000 prostitutas estão expostas em vitrinas (e agora até já vão pagar impostos). Façam o que quiserem entre humanos, pois estes ainda são dotados de livre-arbítrio e temos uma eternidade para pagar as nossas dívidas. Agora, pelo menos, no meio de toda a nossa cobardia, hipocrisia e atavismo, não sujeitemos outras espécies aos nossos vícios e à nossa pequenez.

Se não queremos o Big Brother, a solução é simples. Desliguemos a televisão.

Se não queremos ser assassinos de animais como o Knut, a solução também é simples: DEIXEM DE IR A "JARDINS ZOOLÓGICOS". Porque a ignorância já não é desculpa.


(Obrigada)
Filipa M. Ribeiro

3.21.2011

Uma Questão de Ética Não é Uma Falsa Questão


Quem ateia fogo à noite, de manhã come-lhe as cinzas. Pese embora haver basta gente que o desconheça, esta é mais uma daquelas realidades que não se incomodam nem debilitam pela ignorância dos que a sofrem, e sobre os quais recai, independentemente de a contemplarem e reconhecerem, ou não. Tal como as leis, ninguém se pode esquivar a cumpri-las argumentando o seu desconhecimento. Para uns pode ser o poder da ressaca, para outros a evidente valia da resiliência. Agora, do que dificilmente nos alhearemos, é que se fizermos alguma coisa de acalorado e exigente esforço num dia, ao outro sentimo-lhe os efeitos, mais ou menos nefastos, é claro, conforme o grau de intensidade e a nossa capacidade de encaixe, ou resistência, o determinarem. E nas relações interpessoais, isso está igualmente estabelecido e atuante.
Por outras palavras, os impulsos e repentes de exagerada visibilidade pagam-se. E não raras vezes, com um preço elevadíssimo e juros de mora.
Suponhamos que alguém que nos é estimado e nos estima, respeita e acarinha, ajuda e apoia, se confia e partilha, sabe de fonte fidedigna que a traímos contando a terceiros o que só a nós confiou, ou nos ama mas nós preterimos na hora de dar e recolher prazer, fazendo-o com outrem. Devemos depois esperar e exigir que essa pessoa continue a ser para nós o que antes era?
É sobrenatural quem o for, e desumano quem criou semelhante expectativa. A dignidade e a integridade, física ou moral, não são lixo que se possa varrer para debaixo do tapete descurando a hipótese de que alguém o levante ou puxe. E então, o sarilho dá-se. A coisa estoura. O vulcão entra em erupção. O incêndio deflagra. A tragédia eclode. E quem são os verdadeiros culpados? Nós que traímos, ou aqueles que confiaram?
Se um governante que nos tutela os destinos, que nós elegemos e em quem confiámos, vai para o estrangeiro contar pormenores da nossa actividade sócio-económica sem que ter consultado acerca dessa iniciativa, então não pode esperar depois que os governados estejam disponíveis para a concretização desses detalhes, sobretudo se eles mexerem directamente com o seu nível de vida e poder de compra.
José Sócrates, não obstante, cometeu exatamente essa afronta, tanto aos que nele votaram, como aos que se lhe opuseram. Tripudiou em cima de todos, sem excepção nem vergonha, tendo descaradamente de seguida exigido, por uma questão de interesse nacional, colaboração na execução prática – via PEC IV – dessas medidas de austeridade, que alardeia serem fundamentais para superar "a crise". Pois bem, estas coisas têm o seu preço. Vai esperar por eleições no final do mandato, ou gostaria de matar a curiosidade mais cedo? Ora, o que é certo, é que Passos Coelho seria capaz de fazer o mesmo se estivesse nas mesmas circunstâncias... Porque não é com chiliques e arroubos de líder tocado pela graça histriónica, na mira do poder, pela via das SCUT carreiristas, que ficamos convencidos que entre duas iguais uma é melhor que a outra. George Orwell já nos contou essa fábula no século passado, e todos a compreendemos, pese embora muitos vivessem na quinta sem nunca terem ido à escola.
Então!, ainda estão à espera de ver para crer? Entre os homens de bem, uma questão de ética foi sempre, e continuará a ser, uma verdadeira questão.
([Segunda]Fotografia de Sukha, autoria de Carlos Garrido)

3.17.2011

Uma escola para tolos?


Por João Ruivo



http://www.educare.pt/educare/Opiniao.Artigo.aspx?contentid=90393CD536DFF36DE0400A0AB8001D4D&opsel=2&channelid

Com o decorrer dos anos, os governantes, lá no alto do seu douto saber, entenderam que, já agora, os professores e a escola poderiam também cumprir uma imensidão de funções até então cometidas ao Estado, às famílias e à sociedade.

O teimoso prosseguimento da implementação das atuais medidas de política educativa anuncia uma clara mudança de paradigma: a transição do modelo sixty da "escola para todos", para o modelo pós-modernista da "escola para tolos"
A grande reforma educativa sorvida dos quentes e vibrantes anos do final da década de sessenta, consubstanciada nas filosofias do maio de 68, apontava para uma escola aberta, universal, inclusiva, interclassista, meritocrática, solidária, promotora da cidadania e, até, niveladora, no sentido que deveria esbater as desigualdades sociais detetadas à entrada do percurso escolar.
Os professores passavam a ser mediadores da aprendizagem, promotores da socialização e do trabalho partilhado. Os alunos metamorfoseavam-se em aprendentes ativos, participativos, concretizadores, colíderes da sala de aula e do rumo a dar às planificações. Os pais, descolarizados ou iletrados, por vergonhosa opção de quatro décadas de ditadura, entregavam os seus filhos naqueles centros de promoção do sucesso social. Era a escola aberta à comunidade, uma escola moderna, que se impunha à escola tradicional. Era, enfim, a escola para todos.
Com o decorrer dos anos, os governantes, lá no alto do seu douto saber, entenderam que, já agora, os professores e a escola poderiam também cumprir uma imensidão de funções até então cometidas ao Estado, às famílias e à sociedade. Mesmo que não tivessem tido preparação para isso, os professores tinham demonstrado que sabiam desenvencilhar-se e, sobretudo, que não sabiam dizer não.
E desde então, essas passaram também a ser tarefas e funções da escola e dos seus docentes. A partir desse momento singular, passámos a ter uma escola que, por acaso, também era um local de aprendizagem formal, mas que, sobretudo, se foi desenvolvendo como um espaço de aprendizagens sociais, informais, socializadoras. E foi assim que se baralhou e se desvirtuou uma escola que, altruisticamente, queria ser para todos, transformando-a numa escola onde tudo cabia. Era a escola para tudo.
Mais recentemente (reportando-nos ao baronato de Maria de Lurdes Rodrigues e ao principado de Isabel Alçada), entendeu-se que a escola gastava muito e os professores, numa indolência secular, pouco faziam. Logo, quem sabe? até poderiam ser substituídos uns pelos outros, à molhada, degradantemente. Ou até secundarizados por "skinnerianas" máquinas de ensinar, que apressadamente se viram batizadas de Magalhães, porque os governantes portugueses gostam que a História, tal como as telenovelas, se repita.

A Liga Árabe acabou de propor uma resolução formal ao Conselho de Segurança da ONU pela criação da zona de exclusão aérea sobre a Líbia. Depois de semanas de um impasse internacional, este é o momento da verdade, se nós não conseguirmos persuadir a ONU a agir agora, nós poderemos testemunhar na Líbia um dos maiores massacres deste novo século.

As forças do Kadafi estão esmagando os manifestantes cidade por cidade. Se eles retomarem o país, uma retaliação brutal aguarda os líbios que desafiaram o regime. Relatos de tortura e assassinato já estão vazando das áreas retomadas.

Cidadãos líbios comuns estão pedindo que o mundo não os abandone. A comunidade Avaaz está profundamente comprometida com a não-violência, mas a imposição de uma zona de exclusão aérea para manter os aviões de guerra do Kadafi no chão é um caso específico onde uma ação militar liderada pela ONU é realmente necessária. Um questionário enviado para a nossa comunidade mostra que 86% das pessoas apóiam a zona de exclusão aérea. Agora, no momento em que o voto da ONU se aproxima, chegou a hora de aumentar ainda mais a nossa pressão.

Nós torcemos quando o povo da Líbia saiu às ruas e agora não podemos, e não devemos, ignorar o seu pedido de ajuda neste momento tão difícil. Mesmo se você já participou, clique abaixo para enviar uma mensagem para o Conselho de Segurança da ONU:

http://www.avaaz.org/po/libya_no_fly_zone_3/?vl

A ONU está dividida, mas a situação está mudando rapidamente. A China, Rússia e Alemanha são contra enquanto a Liga Árabe, a Confederação Islâmica, o Reino Unido e a França são a favor. Os EUA e Índia estão em cima do muro. Este não é o velho debate Ocidente versus Oriente, nem, como alguns suspeitam, uma conspiração de interesses petrolíferos. O Conselho Nacional de Transição da Líbia, que a França reconheceu como o governo legítimo está desesperadamente pedindo uma zona de exclusão aérea e apóio internacional. Porém a cada dia que passa, o perigo aumenta de que qualquer ajuda chegará tarde demais.

Uma zona de exclusão aérea sozinha não é a solução final, ela deverá ser apoiada por sanções direcionadas e congelamento das contas do regime, a interrupção da transmissão das declarações do Kadafi incitando a violência, e mais países reconhecendo diplomaticamente o Conselho Nacional de Transição da Líbia. Mesmo tudo isso poderá não ser suficiente. Porém aqueles que opõe uma ação forte devem se perguntar se, com dezenas de milhares de vidas em jogo, eles estão dispostos a defender a passividade.

A lei internacional e o Conselho de Segurança da ONU deixaram claro que, quando crimes contra a humanidade são cometidos, a comunidade internacional tem a responsabilidade de proteger os povos destes crimes, mesmo que o agressor seja o seu próprio governo. Mesmo que ainda não conhecemos a total magnitude dos crimes do Kadafi, nós não podemos virar as costas neste momento. Clique para enviar uma mensagem urgente para os delegados do Conselho de Segurança da ONU:

http://www.avaaz.org/po/libya_no_fly_zone_3/?vl

Na melhor das hipóteses, o Kadafi irá reagir à resolução da ONU sobre a zona de exclusão aérea, parando os ataques aéreos. Porém se ele não parar, a imposição da zona de exclusão aérea terá que ser feita com ataques diretos aos caças que ele tentar usar e possivelmente ataques aéreos aos sistemas de mísseis antiaéreos. Há também a possibilidade de uma zona de exclusão aérea levar a um envolvimento militar mais profundo na Líbia.

Enquanto o mundo (e a Avaaz) criticaram fortemente a guerra do George W. Bush no Iraque, e defendemos soluções pacíficas para conflitos em muitos lugares, este não é o Iraque. Se não agirmos logo, a Líbia poderá se tornar Darfur, com graves crimes contra a humanidade cometidos contra comunidades inteiras. O regime do Kadafi tem um longo histórico de tortura, massacrando o seu próprio povo e financiando o terrorismo internacional. Mas o povo líbio está unido contra as tropas do Kadafi -- mesmo a sua própria tribo e cidade natal se distanciou das suas ações.

A situação da Líbia, e a reação internacional a ela, é complexa, com muitos atores e agendas, assim como o futuro de uma Líbia pós-Kadafi ainda é incerto. Esta complexidade deve guiar o cuidado que temos em nossas ações porém, pelas vidas de dezenas de milhares de líbios, nós não podemos ficar parados. Vamos tomar a melhor decisão que podemos e agir, agora.

Com esperança,

Stephanie, Ricken, Ben, Alice, Benjamin, Rewan e toda a equipe Avaaz

Leia mais:

Forças de Kadafi continuam avançando; aeroporto de Benghazi é bombardeado:
http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,forcas-de-kadafi-continuam-avancando-aeroporto-de-benghazi-e-bombardeado,692670,0.htm

Resolução sobre zona de exclusão aérea na Líbia chega ao Conselho de Segurança:
http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=1806717

Aviões de Kadafi bombardeiam principal reduto rebelde em Benghazi:
http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI4995259-EI17594,00-Avioes+de+Kadafi+bombardeiam+principal+reduto+rebelde+em+Benghazi.html

ONU não chega a consenso sobre a Líbia:
http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2011/03/15/onu-nao-chega-consenso-sobre-libia-924013475.asp

Sarkozy pede que ONU adote zona de exclusão aérea sobre a Líbia:
http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,sarkozy-pede-que-onu-adote-zona-de-exclusao-aerea-sobre-a-libia,692829,0.htm

3.04.2011


Há Pessoas Capazes de Tudo!

A minha casa tem sete portas
Todas abertas de par em par,
Aquelas em que o Sol não entra
É porque estão viradas prò Luar.

In Terceiro Passo, poema de Joaquim Castanho, incluído no livro Nova Razão: Velha Aliança.

Acordar é um ritual que se reflete no carácter de cada qual, havendo quem tome as medidas adequadas à circunstância, e escolha aquilo com que o despertar melhor lhe caia para se entrincheirar num novo dia, como se a segurança e confiança fossem o principal reflexo e espelho do amor-próprio, ou o seu sucesso (existencial, incluindo a identidade) dependesse absolutamente desse momento. Não sou diferente de ninguém, nesse capítulo – pelo menos (e até ver). Todavia, embora frio o dia me entrasse pela janela da sala, que ocupa toda a largura dela, envolvendo a casa numa saudação de inesgotável irradiação, não me antevia disposto a “partilhar”, termo que atualmente no jargão das TIC serve para quase tudo, com Shara a acontecência ou sucedância da véspera. Porém, depois de ingeridas aquelas tostas estaladiças acompanhadas com geleia de morango que recheiam qualquer estômago com a suculenta mistura do cereal nobre (trigo) com o fruto açucarado dos corações ao rubro, não pude evitar-me ao sabor requintado de um café Qharacter Delta Q, intenso, mesclado, de aroma sofisticado e sublime, o preferido de quem não se deixa adormecer (e enredar) pelos placebos de viver, procurando lá fora, entre as erectas (quase românticas senão góticas) ramadas dos ciprestes os pintassilgos que costumam fazer seus ninhos onde a vizinhança me é mais próxima, precisamente na ponta do nariz, a meia sílaba de um trinado de alma cristalina, dei comigo a considerar que não tinha cometido qualquer falta grave, e que seria mesmo divertido ver-lhe a cara de espanto, de incredulidade, que faria se lho contasse.
Reparei que os pintassilgos não estavam lá. Tinham-se levantado mais cedo. Ou eu sensivelmente tarde do que o habitual… – que era o mais certo! – dando-me a sensata perspetiva de uma outra maneira de alinhavar o tempo conforme o modo de vida, uma vez que eles se teriam deitado, como aliás é seu costume, muito mais cedo e aproveitado a longa manhã para esperar a Primavera, a distar não mais que quinze dias, que no calendário das aves deve ser ainda menos que um saltinho de pisco ou toutinegra. Creio que o fazia para evitar decidir-me, adiar o momento em que o pão-pão, queijo-queijo, me encostariam à parede do agora-ou-nunca, inspirando-me no voo da fuga através da vizinhança, num Ícaro pouco convincente, confesso, embora a meiose de saudável engenho traga o morse do dit dit da da da dit dit dit de um pedido de socorro, e dizer-lhe quanto me sucedera naquele ápice e entrementes da saída de tua casa até entrar na minha.
Contudo, eis que o meu raciocínio foi de pantanas e as hesitações bateram em retirada, porquanto uma chave girou na fechadura da porta, e esta se escancarou, jorrando-te como faria qualquer vulcão administrando lava pelas redondezas. E não vinhas só, pois trazias contigo toda a ironia metediça de quem acordara com a pirraça na mente, a traquinice a todo o pano, de um veleiro com vento forte – e a favor. «Bom djia!!...» trinaste ainda mal entraras, a saracoterar naquele sorriso de quem a traz fisgada e pretende levá-la até ao fim, só para ver no que dá. Pura curiosidade feminina, suponho. Maquiavélica, é certo, diabolicamente tentadora, não resta a mínima dúvida, mas infinitamente desarmante, e devastadora, se atendermos à tempestade de confuso e controverso efeito para onde nos atira, sempre e impreterivelmente sempre com inocente intenção, no sem-querer que tanto provoca como seduz, até magoar na demasia de preferir, envolver e viciar.
«Viva, viva» atalhei supérfluo a refazer-me na alvoraçada temperança, cuja derrocada, de latente, se anunciava prestes. «Já de pé!… Não estou atrasado, pois não?», redargui tentando recuperar o equilíbrio para lhe afincar o salto leonino que me devolvesse a confiança, mordendo-a de seguida com as palavras que a situação pedia. «Só combinámos que almoçaríamos juntos, e ainda tenho muito tempo para o fazer… Mudaste de planos?»
«NÃO, queridinho! E este não é válido para as duas perguntas: não estás atrasado, nem mudei de planos. Sonhei é que tinhas qualquer coisa importante para me contar, e não quis deixar-te a sofrer na espera. E da espera» me elucidou, como se necessária fosse tal precisão, considerando o aturado treino que ela desde sempre me impôs, quer dizer, a que tu me obrigaste continuamente. Já esqueceste?
«Como assim?! O que é que pode haver tão importante que não possa esperar até ao meio-dia e meia?»
«Tu é que sabes» replicou assertiva, seca e de imediato, quando quase ainda eu, nem sequer, terminara a pergunta. «Ou será, que estás a insinuar, que ando a sonhar coisas. Coisas!»
Empaquei. Fiquei com a resposta atravessada, a raspar o céu-da-boca, mas sem a mínima esperança de ouvi-la sair. Às vezes estas ninharias acontecem aos melhores comunicadores. São brancas que nos escurecem o ânimo, anunciam apocalipses e fomentam dilúvios de saliva que nos apressamos a engolir, para disfarçar, enquanto ginasticamos a glote em seco como um êmbolo de motor acelerado.
«Cheira aqui bem… Este cafezinho também me dava jeito» a mim, que me prontifiquei a tirar-lho, com superior mestria e requinte.
«Então, conta lá» sugeriu, garantindo-me quanto levara a sério as minhas desculpas, e recusas, sonegações e esquivas, acerca do assunto que a trouxera. Pronto, desembuchei: «Foi a vizinha ali da frente que me pediu um livro emprestado, ontem à noite, e eu dei-lhe aquele que fiz para ti. Não devia tê-lo feito? Podia ter-te perguntado antes… Mas» ela aplicou-me o «fizeste muito bem. Àquela hora não ias telefonar-me só para me perguntar isso. Ias?»
Nem tal me passara pela cabeça! Passei-lhe a chávena fumegante. A mão dela segurou na minha, enquanto a chávena transitava entre ambas, ao que, fixando-me incisiva sobre a ondulada espiral de fumo que se evolava, adiantou um «e?» que bateu na consciência como um aguilhão em fogo.
«E?», repetiu. «E?»
«E nada, foi tudo o que passou», refilei.
«Ok. Vou fingir que acredito. Logo ao almoço contas o resto.»
Pousou a chávena sobre o livro aberto que me preparava para ler. E… Saiu! Saiu pela mesma porta por que entrara, deixando as demais – seis – escancaradas para o ventinho da inquietação que me começava a corroer a alma. Apenas saiu. (E nem um beijinho de despedida… Há pessoas capazes de tudo!)

3.01.2011


Anfiteatro Nobre


9:30-10:30
Alexandra Serapicos (UCP)
Palestra Inaugural: “Utopia e Cinema. Algumas Notas e Derivas.”

10:45- 12:45
Miguel Santa & Vasco Pucarinho (UCP)
“Fragmentos de um Filme — Utópico”

Lídia Queirós (UCP)
“Sleeper: Inesperadas Possibilidades Cómicas da Distopia no Cinema”

Flávio Pires (UCP)
“Utopia vs. Identidade: a Sociedade e o Indivíduo em Farenheit 451”

Dep.º de Estudos Anglo-Americanos (2.º Piso, Torre A)

14:30 - 17:00
Filipa Paiva (FLUP)
“As Políticas de Normalização em V for Vendetta: Espacialidade, Deslocações e Organização Social”

Inês Botelho (FLUP)
"No Início e no Fim: da Utopia e da Distopia em Lord of the Flies"

Joana C.S. Caetano (FLUP)
“La Fin est proche: Visões Apocalípticas em Les Derniers Jours du Monde”

Miguel Ramalhete (FLUP)
"'Nunca Nada Acaba': O Fim de uma História Distópica em Watchmen

Dep.º de Estudos Anglo-Americanos (2.º Piso, Torre A)

17:30 - 19:30
Márcia Lemos (FLUP)
“Esse est percipi: Percepção, Dualidade e Angústia em Film, de Samuel Beckett”

Filipa M. Ribeiro (FLUP)
“Documentário e Comunicação de Ciência: Dialécticas e Sedutoras Utopias”

Hélia Saraiva (FLUP)
“A Utopia de um Professor Paraplégico: ‘A Convivência Pacífica entre Humanos e Mutantes’”

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português