RETRATO DE UM HOMEM EM CORPO INTEIRO
JOSÉ MARTINS DOS SANTOS CONDE
CORAGEM!
“É preciso vencer a angústia e os medos, para
recuperar a coragem de viver e, sobretudo,
de viver um projecto de qualidade.”
In AS CHAVES DA VIDA
Homem que pautou toda a sua vida por princípios e valores, cujas ideias-sentimento (resumidas por si mesmo em nove, e a saber: calma, paz, alegria, coragem, compreensão, solidariedade, justiça, integração e amor universal), chaves de conduta intelectual e moral que sem dúvida lhe vincaram inclusive a actividade de professor (norteada por três preocupações maiores: 1 - fazer o acompanhamento assíduo das turmas, nunca tendo excedido o número de três faltas por ano lectivo; 2 - perspectivar a História numa permanente ligação com o mundo actual; 3 - aprender a História fazendo-a, levando sempre os seus alunos a apreciar o contacto com as fontes), de autor e de cidadão, nasceu a 6 de Julho de 1934, na aldeia de Santa Madalena, freguesia de Vila Fernando, concelho e distrito da Guarda, e faleceu em Portalegre, na sua residência, em 16 de Agosto de 2003, José Martins dos Santos Conde, além de nos legar uma obra vasta e variada, abrangendo desde a poesia ao ensaio, passando pela monografia e artigos avulsos, contribuiu também com o seu exemplo e dedicação aos outros e à sociedade para a revolução ética e necessária do nosso dia a dia, sublinhando como a vida é um tirocínio perfeito onde aprender é mudar, talvez em excelsa demonstração daquilo que sempre foram as suas principais características: flexibilidade de espírito e ambientação imediata.
Humanista, filósofo, frade, teólogo, historiador, docente, tradutor, jornalista, poeta, chefe de família, companheiro e amigo, indivíduo enraizado no meio mas igualmente cidadão do mundo, cujo pensamento eivado de influências diversas, como culturalmente universais, caso das perspectivas existenciais de Satre, como budistas, cristãs e ameríndias, raiando as essências profundas desde o Ioga e Lao-Tsé até à imagética de Florbela Espanca ou Vergilio Ferreira, revelando um ecletismo apurado e exigente, todavia simultaneamente tolerante e apoiado na moral científica, consciente da problemática regional, jamais deixou de registar, divulgar e descodificar os valores da nossa região em pessoas e coisas, de fazer o levantamento de conflitos ou situações, de procurar dar-lhe uma explicação ou resposta, bem como de partilhar informação objectiva, interessante e peculiar acerca dela, tentando fintar o destino ao provincianismo paupérrimo e desolador que nos acomete desde os tempos imemoriais.
Senhor de DUAS VIDAS que abriu e fechou com as chaves da determinação, pensamento e moral insuspeitáveis, depois de ter palmilhado as veredas da formação mística, cursado humanidades e teologias (Seminário de Vila Nova de Gaia – de 1946 a 1952; Seminário Maior de S. Alfonso, em Valhadolid/Espanha – entre 1952 e 1960, onde fez “profissão perpétua” como frade redentorista; Institut Catholique de Paris – em 1967), sofrido os tormentos da repressão vocacional num esgotamento nervoso com 14 anos de tratamento adiado, que transformaram um jovem líder libertário amante de poesia, literatura e música, discípulo de Guerra Junqueiro e Gomes Leal, num borrego dócil e cabisbaixo que seguia atrás do rebanho politicamente correcto, cuja tortura o levou até a leccionar Português e Latim no Seminário de Vila Nova de Gaia onde começara os estudos, mas também a aproximar-se de Portalegre, via Castelo Branco, onde no seminário local leccionou Filosofia Antiga, Literatura e Arte (de 1964/67) e aprendeu Ioga, que o ajudou a recuperar a autoestima, confiança e gosto pela vida real, pontos de partida fundamentais que inspiraram a lutar pela autenticidade e estabelecer contacto (carta e telefone) com Angelina Pires de Sousa Gomes, natural de Portalegre, enamorando-se, e com a qual veio a contrair matrimónio em 22 de Setembro de 1968 (na Igreja e S. Lourenço, com copo de água no Café-Restaurante Amaia), renascendo assim outro mas bastante mais próximo da sua vocação primária, posto que é partir de então que se licencia em História (Universidade de Coimbra, 1979), conclui o curso de pós-graduação de História Cultural e Política (Universidade Nova de Lisboa, 1992) ou defende a tese de mestrado (1995), cria família própria (três filhos: Paulo, José e Ana Raquel) e inicia a sua carreira literária, publicando primeiramente O Ensino Primário no Distrito de Portalegre (1983 – edição da Assembleia Distrital de Portalegre, em colaboração com Dionísio Cebola, Director Escolar do Distrito de Portalegre), a que se seguiram Rostos e Gostos do Norte Alentejano (publicado em vários semanários, desde 1983), Escritores do Distrito e Portalegre (publicado no jornal Fonte Nova, desde 1984), Luís Gomes – Perfil e Obras de Um Portalegrense (edição de O Semeador, em 1985), Diálogos do Fim de Século (publicado no jornal Notícias de Elvas, desde 1987) António Silvestre, Artista em Ponte de Sor (Folheto comemorativo, Ponte de Sor, em 1987), Festa dos Aventais – Festa Popular, Regionalista, Republicana e Laica (edição da ESSL – Escola Secundária de S. Lourenço, em 1987), Teatro de Portalegre (edição do autor, em1987), Um Minuto de Olhos Fechados (poemas publicados no Notícias de Elvas, desde 1987), José Maria Grande – Figura Nacional do Liberalismo (Edições Colibri, em 1998), Luzia, o Eça de Queiroz de Saias (edição do autor, em 1990), As Chaves da Vida (publicado pela ESSE – Artes Gráficas, Lda, Lisboa, em 2002), Duas Vidas – Poemas (conjunto de versos de 1962 a 1999, editado por Produções Gráficas UNP, Lda, Lisboa, em 2003, cujo lançamento acontecerá durante as Festas da Cidade, com apresentação/leitura de Joelle Ghazarian e Júlio Henriques, e espectáculo de Ana Raquel Conde, numa performance de interactividade multidisciplinar de música, som, vídeo, gestos, movimento e palavras) e, para publicação, Beatriz Emília Rente – Glória de Portalegre nos Palcos Nacionais (rubrica inserida na revista Miradouro, mas que, segundo vontade expressa do autor, só será publicado em livro se a Câmara Municipal de Portalegre tomar a seu cargo iniciativa e custos, o que caso contrário nunca acontecerá), Instantâneos (com publicação prevista para este ano, espécie de fragmentos que retratam o alter-ego do autor, repartindo-o por momentos, situações e relatos avulso) ou Pronomes (Marvão – 2002, conjunto de quadros burlesco-satíricos, onde se descrevem com ironia e graça algumas figuras típicas do quotidiano português).
Se enquanto colaborador de diversos títulos da imprensa regional – colaborou na revista Miriam (de índole teológica, entre 1960 e 1967), nos jornais Fonte Nova (de 1984 a 1988), O Distrito de Portalegre (e 1985 a 1989), Notícias de Elvas (1987 a 1989), O Arraiano (de Elvas, em 1990), e na revista cultural portalegrense Miradouro, em 1989, ou como tradutor (traduziu do italiano, francês e castelhano cinco livros de divulgação teológica, publicados em 1969/70) – a sua atitude não foi a de profundo empenhamento, já enquanto professor se não pode dizer o mesmo, posto que no campo profissional excedeu sobremaneira as exigências do ensino, quer no sector privado, onde leccionou Língua e Literatura Portuguesa (nomeadamente no Seminário de Cristo Rei – Vila Nova de Gaia, Colégio La Salle – Abrantes, Colégio Municipal de Serpa Pinto – Angola, e Salas de Estudo “Renascença”, do qual foi também director em 1970/72, entre 1960 e 1972), quer no ensino oficial, que marcou multidisciplinarmente, onde ingressou em 1972 para leccionar Português e Latim em Malange, Benguela, Bailundo e Batalha, até 1977, e a partir daí como professor de História (Escolas Secundárias de S. Lourenço e Mouzinho da Silveira - ESMS, em Portalegre, e D. Dinis, em Lisboa), não se limitando contudo a ministrar conhecimentos mas sim também a participar activamente em Conselhos Directivos (Escolas Secundárias de Vila Teixeira da Silva e ESMS – 1974/75 e 1978/9, respectivamente), ora fazendo estágios (Estágio do 10º Grupo A, na Escola Secundária D. Dinis, em Lisboa, em 1979/80), ora enquanto orientador de estágio (zona sete, distritos do Alentejo, em 1984/85 e 1985/86), ora como director de turmas ou delegado de grupo (p.e. na ESMS, durante os anos lectivos de 198/81, 1981/82 e 1982/83, e na ESSL, em 1986/87 e 1987/88), bibliotecário (ESSL, nos anos lectivos de 1986/87, 1987/88, 1990/91 e 1991/92), professor de Português e Mundo Actual (Centro de Formação Profissional do Instituto do Emprego), planificador de visitas de estudo nacionais e internacionais, assim como definiu e orientou actividades de pesquisa em bibliotecas e arquivos.
Adepto do riso vital e da ironia mansa, jocosa, apaixonada de prazer e de alegria, consciente da sua pequenez na imensidade do Universo, mas também da importância que tem para o seu equilíbrio o tudo está relacionado com tudo, os elementos naturais e as pequenas coisas e seres, despojado de egoísmo messiânico fundamental, embora cada um dos seus livros possua valor intrínseco e interesse pontual, é em Luís Gomes – Perfil e Obra de um Portalegrense, Chaves da Vida e Duas Vidas que melhor se notam a pujança discursiva e acutilante de um espírito universal e convicto do papel reservado ao homem no planeta e o deste para a humanidade e vida. Desencantado mas lúcido, tranquilo, fluente, mas igualmente rigoroso e objectivo, o seu discurso espelha a determinação, segurança e coragem de uma pessoa habituada a encontrar-se consigo mesmo sem subterfúgios nem esquizofrenias. Ali, onde no olhar de quem se reinventou quotodianamente entre a moral e a ética, entre o pedagogo e o chefe de família, entre o historiador e o poeta, entre o passado e o (então) presente, entre o religioso e o social, com que sublinhou figuras esquecidas que se empenharam na prossecução do bem público com capacidade de entrega ao trabalho e ao dever, na defesa intransigente dos valores em que acreditavam (José Maria Grande – Figura Nacional do Liberalismo) ou personagens primeiríssimas no panorama das literaturas femininas europeias, enaltecendo-lhe a sensibilidade profunda e vibrátil, destruindo preconceitos e restabelecendo a verdade que circunscreveu Luzia, o Eça de Queiroz de Saias, ou ainda assentando a importância histórica dos tradicionais festejos dos caixeiros no Dia da Espiga (A Festa dos Aventais – Festa Popular, Regionalista, Republicana e Laica), bem como tecendo a panorâmica da actividade dramática em Portalegre através dos tempos (Teatro em Portalegre), cresceu uma personalidade exemplar e um cidadão modelo. Porque quem como ele soube o que é a fraternidade universal, reconheceu que a solidariedade significa estar com os outros, pagar a sua parte de obrigação ou de soldo, navegar no mesmo barco e prosseguir a mesma viagem, em igualdade de circunstâncias e sentimentos, se edificou no sacrifício e abdicação, retirando das horas amargas lições de luta, franqueza e galhardia, e enfrentou com riso e temperança os dissabores com que a mediocridade adversa bastas vezes lhe foi atreita, como no caso do concurso ao Ensino Superior Politécnico, em que foi preterido em favor de um estagiário sem a mínima prova dada, e denunciou apropriações autorais (soneto de Luís Gomes reciclado por José Régio, in Fonte Nova nº 31, de 29 de Maio de 1985), e jamais deixou de crer na democracia e liberdade, nem de ser firme na salvaguarda da vida, como valor essencial do Universo, de proteger os animais (v. g. os cães Becas e Pixy) e a natureza da inconsciência e do terrorismo humano, guardar o património artístico e histórico da humanidade, apoiar os criadores da beleza, pugnar pelo aumento de paz, justiça e verdade n mundo... Enfim, um homem que sempre esteve à altura da sua nobreza, e que até no leito de morte soube legar aos que lhe sobreviveram o melhor da sua existência, incutindo-lhes esperança numa última e derradeira palavra: «coragem!» - tal e qual como lhes disse. Coragem, de coração, praticando com os seus aquilo que a muitos ensinou!
Joaquim Castanho
Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
4.29.2004
4.20.2004
UM POETA NASCEU
Quando alguém vir
Parir
Um coração
Quando alguém vir
Uma flor a abrir
E dela sair
Um fruto são
Quando alguém vir
Uma luz acesa
Que nas trevas se acendeu
Foi de certeza
Que um poeta nasceu!
NO SILÊNCIO DAS NOITES PERDIDAS
Corpos adormecidos,
Pontas de cigarros,
Jarras partidas,
Copos entornados,
Flores ressequidas.
Almas esquecidas
No silêncio das coisas mortas.
Camas desfeitas,
Sonhos vazios.
Rostos amalgamados
- Sem sorrir.
Corações ignorados
- Sem ódio nem amores.
Comprimidos de todas as cores
- Para dormir.
Memórias cansadas
Por nada pensar.
Mundos nunca encontrados.
Luzes apagadas,
Sangues viciados.
No silêncio das noites curtidas
- Vidas perdidas!
A REVOLTA DO POETA
Sobre nuvens
Ele voa
Dentro do sonho
Ele vai
Ouve-se o grito
Que da garganta lhe não sai
E ouvem-se por resposta
Gargalhadas
Descontroladas,
Descabidas,
Saindo de bocas
Ainda mais perdidas
Numa onda
Ele navega
E troveja
Escorrega
E naufraga.
O meu coração é um relógio
Que bate em compasso
As horas felizes
E as horas tristes
Ninguém dorme em meu regaço
Não há calor que o aconchegue
Não há pé que o agarre
Nem há peso que ele não carregue
Há um mar de sangue
Há um horizonte de angústia
E sofrimento
Há bondade
E há maldade
E há tormento
Ele vê e ele sente
O mundo mudado
Punhal que se lhe espeta
É a revolta do poeta!
Maria Isabel Gaspar
Quando alguém vir
Parir
Um coração
Quando alguém vir
Uma flor a abrir
E dela sair
Um fruto são
Quando alguém vir
Uma luz acesa
Que nas trevas se acendeu
Foi de certeza
Que um poeta nasceu!
NO SILÊNCIO DAS NOITES PERDIDAS
Corpos adormecidos,
Pontas de cigarros,
Jarras partidas,
Copos entornados,
Flores ressequidas.
Almas esquecidas
No silêncio das coisas mortas.
Camas desfeitas,
Sonhos vazios.
Rostos amalgamados
- Sem sorrir.
Corações ignorados
- Sem ódio nem amores.
Comprimidos de todas as cores
- Para dormir.
Memórias cansadas
Por nada pensar.
Mundos nunca encontrados.
Luzes apagadas,
Sangues viciados.
No silêncio das noites curtidas
- Vidas perdidas!
A REVOLTA DO POETA
Sobre nuvens
Ele voa
Dentro do sonho
Ele vai
Ouve-se o grito
Que da garganta lhe não sai
E ouvem-se por resposta
Gargalhadas
Descontroladas,
Descabidas,
Saindo de bocas
Ainda mais perdidas
Numa onda
Ele navega
E troveja
Escorrega
E naufraga.
O meu coração é um relógio
Que bate em compasso
As horas felizes
E as horas tristes
Ninguém dorme em meu regaço
Não há calor que o aconchegue
Não há pé que o agarre
Nem há peso que ele não carregue
Há um mar de sangue
Há um horizonte de angústia
E sofrimento
Há bondade
E há maldade
E há tormento
Ele vê e ele sente
O mundo mudado
Punhal que se lhe espeta
É a revolta do poeta!
Maria Isabel Gaspar
4.08.2004
Viva, pessoal! Como vêem a Ana já aderiu ao reino da literatura viva, e ainda não tinha visto tudo para manifestar a sua predilecção... è assim: tiro e queda! Se quiserem colaborar, ponham as vossas dicas através do e-mail grokare@hotmail.com e estarão editadas num pulo! Força... A poesia, a prosa, o romance é de todos... E a LIBERDADE TAMBÉM! Celebremos Abril JÁ!!!!
4.03.2004
PORTUGUÊS SUAVE
Perto da alvorada um barco parte.
Solitário. Altivo. Mastro desvirgindo
Desflora plúmbeos anjos fugindo
Dum luso quadro de engenho e arte.
Leva no bojo um nome escrito –
Que mal se vê, que mal se soletra –
E por vela enrolado manuscrito
Que vírgil mão em seus dedos aperta.
Foi homem e rei ao seu leme
Que mais que homem foi também nação;
E em cada vez que o cordame geme
Lhe estremece a voz, o fado e o coração
No peito uma madrugada sustenida
Que ao vaivém das ondas o ritmo bate
Levando-lhe também a própria vida...
OUTRO REINO PARA INÊS
É preciso amar as sombras que me falam de ti
Ou as nuvens quando estas ganham formas
Que em tudo se assemelham às tuas ausências;
É preciso. E ser lesto no referir dos olhos
Amoras silvestres de ouvir os gestos
Falar às fontes de teus lábios gomosos lineares
Ou descer pela seda ondeada castanho-escuro escorreita
De teus cabelos partidos ao meio dos sonhos iguais.
É preciso esconder as mãos nas ânsias de ser,
Meter os dedos nos refegos e costuras de existir
E saber que continuar é uma metafísica adiada,
Uma ontologia auspiciosamente pejorativa preterida
Como se de uma vergonhosa mania íntima se tratasse,
Sem recear as curvas derrapantes ou as agulhas marginais,
As culpas assumidas e as projecções perversas,
Os fundamentalismos intolerantes ou as crostas
Sempre demasiadamente rígidas das dores alheias.
Porque é preciso a cada hora minuto segundo reconverter
A ausência saudade em espaço quando imagem acabada
Suficiência compensatória do quanto é irremediável viver
Não sei onde, não sei porquê, mas saber é bastante
É bom ouvir o telefone de “ podes ser tu a tocar “
Retinir insistentemente insistes em esconder o nome
No alô impessoal, profano, thriller mal contado
À beira dos dedos com unhas roídas até à pele de veludo
Acariciante dos gomos sensuais e meigos em leque dispersos
Pelos gestos indomáveis da fala sublinhando iluminuras.
Sei isso e muito mais que tu também não esqueces
Nunca jamais seremos outros em nós ainda que importe
A conjuntura, o carro novo, a mobília a prestações.
E quando é preciso as coisas acontecerem, acontecem
Ninguém pode mudar a lei porque a lei é a Lei
Não uma decisão da assembleia que calhou votar assim
Tão-só assim, precisamente não doutra lei mas daquela.
É não estares aqui ou eu aí o único órgão que me pesa
Nunca os pés, as pálpebras, a língua também entaramelada.
A sonolência é outra coisa não parecida com languidez,
Mas pode ser um despertar para o reino do sonho
Navegar entre as tuas coxas naufragar e naufragar
Não importa esquecendo, esquecendo, esquecendo sempre,
Até ao fim do gesto morno de estender os ombros e gritar.
Gostava de pensar que me esperas os olhos postos na porta
A respiração suspensa a cada sombra que se aproxima
Um formigueiro na espinha e as espáduas que fremem
Embalam expectante fantasia no perfil convergente à ombreira
« Eu vou voltar!... » - A certeza cresce ainda cresce
Não repete, não pára, não fica aí como se fosse estádio
Mas paragem à tona fluente terna dos absolutos possíveis.
PÃO E VINHO
Fazer um poema não é como fazer um filho.
Não é partir uma vidraça. Nem é olhar uma cria
Enquanto brinca nas ruas do crescer
Nas escolas do crescer
Nas rampas do crescer
Nas pistas do crescer
Nas balizas do crescer
Nas passerelles do crescer
Nas discotecas do crescer
Nas tabernas do crescer
Nas avenidas do crescer
Nas câmaras do crescer
Nas camas do crescer
Nas bolsas do crescer
Nas reformas do crescer.
Não é. Mas comer uma azeitona de Elvas também não;
E todavia, ambas as coisas dão imenso gosto e prazer.
Perto da alvorada um barco parte.
Solitário. Altivo. Mastro desvirgindo
Desflora plúmbeos anjos fugindo
Dum luso quadro de engenho e arte.
Leva no bojo um nome escrito –
Que mal se vê, que mal se soletra –
E por vela enrolado manuscrito
Que vírgil mão em seus dedos aperta.
Foi homem e rei ao seu leme
Que mais que homem foi também nação;
E em cada vez que o cordame geme
Lhe estremece a voz, o fado e o coração
No peito uma madrugada sustenida
Que ao vaivém das ondas o ritmo bate
Levando-lhe também a própria vida...
OUTRO REINO PARA INÊS
É preciso amar as sombras que me falam de ti
Ou as nuvens quando estas ganham formas
Que em tudo se assemelham às tuas ausências;
É preciso. E ser lesto no referir dos olhos
Amoras silvestres de ouvir os gestos
Falar às fontes de teus lábios gomosos lineares
Ou descer pela seda ondeada castanho-escuro escorreita
De teus cabelos partidos ao meio dos sonhos iguais.
É preciso esconder as mãos nas ânsias de ser,
Meter os dedos nos refegos e costuras de existir
E saber que continuar é uma metafísica adiada,
Uma ontologia auspiciosamente pejorativa preterida
Como se de uma vergonhosa mania íntima se tratasse,
Sem recear as curvas derrapantes ou as agulhas marginais,
As culpas assumidas e as projecções perversas,
Os fundamentalismos intolerantes ou as crostas
Sempre demasiadamente rígidas das dores alheias.
Porque é preciso a cada hora minuto segundo reconverter
A ausência saudade em espaço quando imagem acabada
Suficiência compensatória do quanto é irremediável viver
Não sei onde, não sei porquê, mas saber é bastante
É bom ouvir o telefone de “ podes ser tu a tocar “
Retinir insistentemente insistes em esconder o nome
No alô impessoal, profano, thriller mal contado
À beira dos dedos com unhas roídas até à pele de veludo
Acariciante dos gomos sensuais e meigos em leque dispersos
Pelos gestos indomáveis da fala sublinhando iluminuras.
Sei isso e muito mais que tu também não esqueces
Nunca jamais seremos outros em nós ainda que importe
A conjuntura, o carro novo, a mobília a prestações.
E quando é preciso as coisas acontecerem, acontecem
Ninguém pode mudar a lei porque a lei é a Lei
Não uma decisão da assembleia que calhou votar assim
Tão-só assim, precisamente não doutra lei mas daquela.
É não estares aqui ou eu aí o único órgão que me pesa
Nunca os pés, as pálpebras, a língua também entaramelada.
A sonolência é outra coisa não parecida com languidez,
Mas pode ser um despertar para o reino do sonho
Navegar entre as tuas coxas naufragar e naufragar
Não importa esquecendo, esquecendo, esquecendo sempre,
Até ao fim do gesto morno de estender os ombros e gritar.
Gostava de pensar que me esperas os olhos postos na porta
A respiração suspensa a cada sombra que se aproxima
Um formigueiro na espinha e as espáduas que fremem
Embalam expectante fantasia no perfil convergente à ombreira
« Eu vou voltar!... » - A certeza cresce ainda cresce
Não repete, não pára, não fica aí como se fosse estádio
Mas paragem à tona fluente terna dos absolutos possíveis.
PÃO E VINHO
Fazer um poema não é como fazer um filho.
Não é partir uma vidraça. Nem é olhar uma cria
Enquanto brinca nas ruas do crescer
Nas escolas do crescer
Nas rampas do crescer
Nas pistas do crescer
Nas balizas do crescer
Nas passerelles do crescer
Nas discotecas do crescer
Nas tabernas do crescer
Nas avenidas do crescer
Nas câmaras do crescer
Nas camas do crescer
Nas bolsas do crescer
Nas reformas do crescer.
Não é. Mas comer uma azeitona de Elvas também não;
E todavia, ambas as coisas dão imenso gosto e prazer.
1.
Cor-de-laranja acentuadamente acordado de mansinho….
Sim, por ti, meu amor grego de unhas pintadas
Por acaso úrsulas caminhantes de areia pisada
Calcada por aqueles que te amam sem saber
Mendigo angélico, vem a meu canto burguês
Vem que eu te amo… A correr como quem descasca bananas
A olhar o céu – sim, é assim que quero amar o mundo
Usando plenamente todos os poros que abundam
A minha cheirosa pele, segundo diz o meu amor.
Quero beber todo o sangue humano do mundo!
Quero lamber as lágrimas dos anjos-que-não-sabem-que-são-anjos.
Quero quebrar o silêncio morto das fantasias impúdicas.
Oh, meu anjo bíblico, porque não sabem eles o que perdem?
Porque desconhecem o poder das contracções ritmicamente acentuadas
A atmosfera pressionando o corpo dos que não têm medo de mostrar quem são?
Sabeis? Sabeis que, mel-de-abelhas-casmurras, correr, correr
Correr de encontro ao mal é como comer biscoitos com manteiga?...
Ris?? Ri. Ri! Ri!!! Sente as cócegas cornucopiantes de amarelo-torrado
Correntes de ar com perfumes não usados por humana gente.
Ri; imortaliza-me! Faz-me vibrar de medo, medo morto
Morto muito morto, capaz de se desfazer ao toque
Ao suspiro da princesa cabelo-cor-de-mel, coitadinha que chora
Que chora… Não, ela não perdeu o sapatinho de falso cabedal
Porque nessa festa ela não foi, e nem sequer foi convidada!
Ah, e também não acordou pelo beijo do seu príncipe encantado:
Quando adormeceu no sofá, frente à TV, com a pantufa no colo
(Coitadita, faltou à festa…) só acordou quando o lobo-mais-que-mau
(Trrriiiimmm-Trrriiiiim) lhe tocou à porta a pedir a contagem da luz!...
Vá, chora... Chora. Chora! Chora!!!... Vejo o grande fio cor-de-marfim
Enrolado na menina que descobriu quem está dentro dela... Feliz!
Estendida na estrada negra alcatroadamente enfeitada de traços brancos
Ora contínuos, ora descontínuos, com ou sem relevo, como tudo na vida
E de todas as cores vividas por todas as pessoas que querem saber todas as coisas
Coisas que todas as canetas sabem rabiscar, rabiscos em todas as direcções
Todas as maneiras possíveis de preencher e ser-se preenchido
Tal como todos os seres, humanos a orgasmiar que nem lobos na floresta
Sábios do sadismo de amar para enlouquecer o seu eu e o mundo em que vivem.
Amo-me! Amo-me! Quero agora! Quero possuir-me aqui e agora, já
Neste autocarro em que mais trinta pessoas viajam comigo, púdicas
Efémeras, pujantes na frigidez do prazer que acorda todas as manhãs
Todas, para acariciar o mundo deslizando, caminhando nele... Silêncio!!!
Quero lacrimar meu sangue sofrido aqui e ali, sofrido além e acolá
Tal como todos os homens se fertilizam com a mente, vasta, vasta, vasta.
Sufoco de prazer sem ninguém saber, ninguém ver, ninguém sentir...
Porque não querem ver, não querem saber, não querem querer!
Repito: não querem sentir o mundo onde apoiam seus pés...
Senti-lo tal e qual ele é, sem ilusões... estúpidos carnívoros!
Amantes da quase apaixonante carnificina na ilusão do mundo
Ilusão sem limites que apenas os humanos vêem com portas
Portas bem fechadas para o ar respirável dos duendes (feios
Feios, feios – como eu vos amo, meu deus!... ) lindos de tão feios
Não entrarem pelas portas fechadas, bem fechadas, até ao trinco
Mel mundano que adocica nos cabelos cor-de-milho-ainda-verde
De Melinda, princesa extraditada, Rapunzel ibero-lusitana...
Mas nas portas lêem-se cartazes: “ABRIR SÓ NO MUNDO DOS SONHOS ”
Letreiros anunciadores dos estúpidos carnívoros
Abri, abri, abri as portadas, que a rainha louca quer entrar!
E o povo grita: “Loca! Loca! Sois uma putanita loquita!
Sois uma devassa com os parafusos a menos e desaparafusados!”
No entanto, lamenta-a: “coitadita, pobre doida tresloucada!...”
Mas eu transbordo na fluidez dos prazeres corporais e mentais
Desejo, desejo como nunca desejei nada na vida, entrar por aquela porta
Na liquefacção do meu corpo resultante das altas temperaturas
Com que chicoteio todas as minhas subalternas veias
Quais nuvens de ameixas lançadas do céu pelos magos celestes
Fumadores de orações incensadas, garota da minha pátria
“God save the queen” dito em desejo, desejo, desejo carnal
De entrar no mundo da loucura extasiante ao descontrolo oblíquo
Amavelmente riscado e pintado com cores que ninguém entende!...
Eis a porta dos sete orgasmos! Sim, sete cornucopiantes flagélicos
Ablascentes e floridos absolutamente mortíferos imortalizantes orgasmos!
O primeiro... (continua)
2.
Não sei o que está dentro de mim... É algo que explode de vez em quando
E quando isto acontece, choram-me lágrimas, lágrimas que levam consigo
O cheiro a carne humana, a carne humana raivosa, carne sufocada
Inebriada por cheiros de aqui e acolá, coroada pelo amor dos deuses
Rasgada pelas unhas do cão suculento e amarelo-torrado
Que passeia na vida sem saber, sem saber porquê nem para quê...
Amo o Heitor, mas ele sufoca-me! Prometi ajudá-lo. Ele vai precisar
É de mim daqui a alguns anos... Daqui a alguns anos irei ajudá-lo!
Ele merece. Ele amou-me. Deu-se-me todo... Deu-se sem limites!
Quero cuidar dele; quero fazê-lo adormecer no meu colo,
Quero dar-lhe o banho salgado e duro e cruel de minhas lágrimas
E com meu sangue íntimo fosforescente hei-de pintar nele o arco-íris!
Quero tanto que ele seja feliz... Mas eu sei que não mereço a infelicidade,
E é tão difícil sermos ambos felizes, que só tentar, é de si demasiado insano!
Olho para trás... Tudo quanto ele me provocou
Tudo quanto ele em mim libertou ou despertou
Tanto amor, tanta raiva, tanta pena, tanta amizade
Tanta curiosidade pela vida, a enorme vontade e olhar o mundo
De tirar o melhor que há em mim, a grande força do sexo
O de querer amar para reproduzir e criar esses rebentos...
Eu quis ter filhos dele! Ser mãe dos filhos dele...
E quis morrer por e para ele, com ele... quis que nos fundíssemos num só ser!
Foi ele quem despertou os sentimentos mais puros e mais humanos
Em mim ele é especial, só por isto, terá de ser especial...
Ele vê para além dos traços do mundo, para além dos pêlos da pele
Portanto, mesmo que amanhã ele não venha como prometeu
A minha casa, mesmo que nunca mais me telefone
Nem com ele converse, mesmo que a morte nos procure antes e nos encontrarmos
Eu amo-o e sei, tenho a certeza, de que ele me ama também,
Que nos amamos de e para sempre, porque meu coração e alma não têm limites!
Por isso amo muitas pessoas, muitas... E entre elas, amo nem mais nem menos
Amo diferente! Se todas despertaram algo diferente em mim, para quê compará-las?
Amo homens, mulheres, gordos, magros, feios, bonitos, lindos, horríveis
Bem cheirosos, fedorentos, altos, baixos, cabeçudos, carecas, brilhantes
Sombrios, bem vestidos, maltrapilhos, velhos, novos, mansos, rebeldes
Com ou sem adjectivo – tudo nomes e renomes concebidos pelos outros...
Pois que para mim todos têm outros nomes, que os identificam no que em mim são!
Deixa ver as pessoas que amo... Amo o Heitor!
O Heitor para mim é água, água pura, cristalina, etérea
Impossível de aprisionar em qualquer recipiente, água que é vida,
Que tal como ele, que em si mesmo a transporta, com tudo o que ela tem
Amor, ódio, tristezas, alegrias, e vive-os! Ele é o homem
Literalmente vivo, não os homens ditos vivos mas que passeiam pela crusta
Terrestre, mortos, inteira e eroticamente mortos! Ele não; ele está vivo e passeia
Passeia e está louco... Porque quem vive é louco! É a própria loucura!
Sim... Acabei agora mesmo de o descobrir: quem vive é louco
À semelhança do que afirma o ditado massai acerca do Heitor
Que “primeiro a loucura, depois a sabedoria” assim dito verdade pura
Também o Heitor vive, no seu coração e de quem o rodeia, vive
E põe flores onde nunca ninguém admitiu a hipótese de haver vida
Ele põe flores, flores loucas, as magníficas flores das loucuras!...
3.
A vida pesa nos ombros de quem a leva pesada...
Naquilo que as pessoas vêem e não olham
Aquilo que quero perante ti e mim
Ás escuras, no trampolim dos tecidos fluorescentes
Que a vida murcha nas flores atiradas à sombra
Que sombra minha abrange os outros?
Que sombra minha abrange o mundo?
Iluminação dos dentes brancos, com carapinha emaranhada
De terra vermelha africana
Luz de mim e ti
Escolhas perante cruzamentos de olhos moldados em ti
Escolhas do Mundo vestido de castanho em pó
Amavelmente cai em Terra...
Tenta...
Trémula...
Vivida...
Fujo dos olhos que me traem por trás dos ombros...
Fujo do mundo que me quer derrotar...
Fujo de mim...dos limites que delineei...
Ou que me delinearam por ser humana
Por ser Mulher
Por amar os cornos da Vida Terrestre
A cinza cresce nos meus músculos
Não consigo respirar...
O mundo sufoca-me e não me deixa crescer
Poros da minha pele amuralhados pela realidade
Realidade?
Passas-me o pão todos os dias de manhã?
Poros da minha pele obstruídos pelas minha visões...humanas..
Sinto-me enlouquecer a cada segundo que passa
Sinto a descoordenação mental, a desarticulação de tudo
O que me compõe como ser
Sinto a quebra do lápis com que escrevo a vida
Poros obstruídos por tudo o que olho e não vejo.
Não vejo...
Limites que me impõem...
Impõem como me impuseram o leite materno á nascença...
Outras formas de comunicar?
Não sei!...pressinto-as?
Não sei!
Sinto a vida? Sinto a morte?
Sinto a morte como um encontro final e completo comigo mesma...
Só lá me encontrarei com a minha verdadeira alma..
Alma
Alma que me persegue e eu fujo...
Fujo do seu encontro...
Fujo da morte... mentalmente...
Fujo do que me persegue e que amo...
Amo a morte.
Amo a morte da vida...
Amo as palavras que me compõem
Amo o que me persegue e não controlo
Amo o descontrolo que compõe as linhas de minha mão.
Verdades escondidas no corpo?
Devaneios na pele que nos fronteiriza com o mundo?
Assim quero viver...
Tremo só de pensar que vivo aqui, comigo...
Tremo de ódio? Prazer?
Já não me interessa nomear sentimentos...
Já não me interessam nomear as coisas que vejo...
Não gosto de nomeações..
Vou inventar uma língua que não nomeia coisas
LI
Cor-de-laranja acentuadamente acordado de mansinho….
Sim, por ti, meu amor grego de unhas pintadas
Por acaso úrsulas caminhantes de areia pisada
Calcada por aqueles que te amam sem saber
Mendigo angélico, vem a meu canto burguês
Vem que eu te amo… A correr como quem descasca bananas
A olhar o céu – sim, é assim que quero amar o mundo
Usando plenamente todos os poros que abundam
A minha cheirosa pele, segundo diz o meu amor.
Quero beber todo o sangue humano do mundo!
Quero lamber as lágrimas dos anjos-que-não-sabem-que-são-anjos.
Quero quebrar o silêncio morto das fantasias impúdicas.
Oh, meu anjo bíblico, porque não sabem eles o que perdem?
Porque desconhecem o poder das contracções ritmicamente acentuadas
A atmosfera pressionando o corpo dos que não têm medo de mostrar quem são?
Sabeis? Sabeis que, mel-de-abelhas-casmurras, correr, correr
Correr de encontro ao mal é como comer biscoitos com manteiga?...
Ris?? Ri. Ri! Ri!!! Sente as cócegas cornucopiantes de amarelo-torrado
Correntes de ar com perfumes não usados por humana gente.
Ri; imortaliza-me! Faz-me vibrar de medo, medo morto
Morto muito morto, capaz de se desfazer ao toque
Ao suspiro da princesa cabelo-cor-de-mel, coitadinha que chora
Que chora… Não, ela não perdeu o sapatinho de falso cabedal
Porque nessa festa ela não foi, e nem sequer foi convidada!
Ah, e também não acordou pelo beijo do seu príncipe encantado:
Quando adormeceu no sofá, frente à TV, com a pantufa no colo
(Coitadita, faltou à festa…) só acordou quando o lobo-mais-que-mau
(Trrriiiimmm-Trrriiiiim) lhe tocou à porta a pedir a contagem da luz!...
Vá, chora... Chora. Chora! Chora!!!... Vejo o grande fio cor-de-marfim
Enrolado na menina que descobriu quem está dentro dela... Feliz!
Estendida na estrada negra alcatroadamente enfeitada de traços brancos
Ora contínuos, ora descontínuos, com ou sem relevo, como tudo na vida
E de todas as cores vividas por todas as pessoas que querem saber todas as coisas
Coisas que todas as canetas sabem rabiscar, rabiscos em todas as direcções
Todas as maneiras possíveis de preencher e ser-se preenchido
Tal como todos os seres, humanos a orgasmiar que nem lobos na floresta
Sábios do sadismo de amar para enlouquecer o seu eu e o mundo em que vivem.
Amo-me! Amo-me! Quero agora! Quero possuir-me aqui e agora, já
Neste autocarro em que mais trinta pessoas viajam comigo, púdicas
Efémeras, pujantes na frigidez do prazer que acorda todas as manhãs
Todas, para acariciar o mundo deslizando, caminhando nele... Silêncio!!!
Quero lacrimar meu sangue sofrido aqui e ali, sofrido além e acolá
Tal como todos os homens se fertilizam com a mente, vasta, vasta, vasta.
Sufoco de prazer sem ninguém saber, ninguém ver, ninguém sentir...
Porque não querem ver, não querem saber, não querem querer!
Repito: não querem sentir o mundo onde apoiam seus pés...
Senti-lo tal e qual ele é, sem ilusões... estúpidos carnívoros!
Amantes da quase apaixonante carnificina na ilusão do mundo
Ilusão sem limites que apenas os humanos vêem com portas
Portas bem fechadas para o ar respirável dos duendes (feios
Feios, feios – como eu vos amo, meu deus!... ) lindos de tão feios
Não entrarem pelas portas fechadas, bem fechadas, até ao trinco
Mel mundano que adocica nos cabelos cor-de-milho-ainda-verde
De Melinda, princesa extraditada, Rapunzel ibero-lusitana...
Mas nas portas lêem-se cartazes: “ABRIR SÓ NO MUNDO DOS SONHOS ”
Letreiros anunciadores dos estúpidos carnívoros
Abri, abri, abri as portadas, que a rainha louca quer entrar!
E o povo grita: “Loca! Loca! Sois uma putanita loquita!
Sois uma devassa com os parafusos a menos e desaparafusados!”
No entanto, lamenta-a: “coitadita, pobre doida tresloucada!...”
Mas eu transbordo na fluidez dos prazeres corporais e mentais
Desejo, desejo como nunca desejei nada na vida, entrar por aquela porta
Na liquefacção do meu corpo resultante das altas temperaturas
Com que chicoteio todas as minhas subalternas veias
Quais nuvens de ameixas lançadas do céu pelos magos celestes
Fumadores de orações incensadas, garota da minha pátria
“God save the queen” dito em desejo, desejo, desejo carnal
De entrar no mundo da loucura extasiante ao descontrolo oblíquo
Amavelmente riscado e pintado com cores que ninguém entende!...
Eis a porta dos sete orgasmos! Sim, sete cornucopiantes flagélicos
Ablascentes e floridos absolutamente mortíferos imortalizantes orgasmos!
O primeiro... (continua)
2.
Não sei o que está dentro de mim... É algo que explode de vez em quando
E quando isto acontece, choram-me lágrimas, lágrimas que levam consigo
O cheiro a carne humana, a carne humana raivosa, carne sufocada
Inebriada por cheiros de aqui e acolá, coroada pelo amor dos deuses
Rasgada pelas unhas do cão suculento e amarelo-torrado
Que passeia na vida sem saber, sem saber porquê nem para quê...
Amo o Heitor, mas ele sufoca-me! Prometi ajudá-lo. Ele vai precisar
É de mim daqui a alguns anos... Daqui a alguns anos irei ajudá-lo!
Ele merece. Ele amou-me. Deu-se-me todo... Deu-se sem limites!
Quero cuidar dele; quero fazê-lo adormecer no meu colo,
Quero dar-lhe o banho salgado e duro e cruel de minhas lágrimas
E com meu sangue íntimo fosforescente hei-de pintar nele o arco-íris!
Quero tanto que ele seja feliz... Mas eu sei que não mereço a infelicidade,
E é tão difícil sermos ambos felizes, que só tentar, é de si demasiado insano!
Olho para trás... Tudo quanto ele me provocou
Tudo quanto ele em mim libertou ou despertou
Tanto amor, tanta raiva, tanta pena, tanta amizade
Tanta curiosidade pela vida, a enorme vontade e olhar o mundo
De tirar o melhor que há em mim, a grande força do sexo
O de querer amar para reproduzir e criar esses rebentos...
Eu quis ter filhos dele! Ser mãe dos filhos dele...
E quis morrer por e para ele, com ele... quis que nos fundíssemos num só ser!
Foi ele quem despertou os sentimentos mais puros e mais humanos
Em mim ele é especial, só por isto, terá de ser especial...
Ele vê para além dos traços do mundo, para além dos pêlos da pele
Portanto, mesmo que amanhã ele não venha como prometeu
A minha casa, mesmo que nunca mais me telefone
Nem com ele converse, mesmo que a morte nos procure antes e nos encontrarmos
Eu amo-o e sei, tenho a certeza, de que ele me ama também,
Que nos amamos de e para sempre, porque meu coração e alma não têm limites!
Por isso amo muitas pessoas, muitas... E entre elas, amo nem mais nem menos
Amo diferente! Se todas despertaram algo diferente em mim, para quê compará-las?
Amo homens, mulheres, gordos, magros, feios, bonitos, lindos, horríveis
Bem cheirosos, fedorentos, altos, baixos, cabeçudos, carecas, brilhantes
Sombrios, bem vestidos, maltrapilhos, velhos, novos, mansos, rebeldes
Com ou sem adjectivo – tudo nomes e renomes concebidos pelos outros...
Pois que para mim todos têm outros nomes, que os identificam no que em mim são!
Deixa ver as pessoas que amo... Amo o Heitor!
O Heitor para mim é água, água pura, cristalina, etérea
Impossível de aprisionar em qualquer recipiente, água que é vida,
Que tal como ele, que em si mesmo a transporta, com tudo o que ela tem
Amor, ódio, tristezas, alegrias, e vive-os! Ele é o homem
Literalmente vivo, não os homens ditos vivos mas que passeiam pela crusta
Terrestre, mortos, inteira e eroticamente mortos! Ele não; ele está vivo e passeia
Passeia e está louco... Porque quem vive é louco! É a própria loucura!
Sim... Acabei agora mesmo de o descobrir: quem vive é louco
À semelhança do que afirma o ditado massai acerca do Heitor
Que “primeiro a loucura, depois a sabedoria” assim dito verdade pura
Também o Heitor vive, no seu coração e de quem o rodeia, vive
E põe flores onde nunca ninguém admitiu a hipótese de haver vida
Ele põe flores, flores loucas, as magníficas flores das loucuras!...
3.
A vida pesa nos ombros de quem a leva pesada...
Naquilo que as pessoas vêem e não olham
Aquilo que quero perante ti e mim
Ás escuras, no trampolim dos tecidos fluorescentes
Que a vida murcha nas flores atiradas à sombra
Que sombra minha abrange os outros?
Que sombra minha abrange o mundo?
Iluminação dos dentes brancos, com carapinha emaranhada
De terra vermelha africana
Luz de mim e ti
Escolhas perante cruzamentos de olhos moldados em ti
Escolhas do Mundo vestido de castanho em pó
Amavelmente cai em Terra...
Tenta...
Trémula...
Vivida...
Fujo dos olhos que me traem por trás dos ombros...
Fujo do mundo que me quer derrotar...
Fujo de mim...dos limites que delineei...
Ou que me delinearam por ser humana
Por ser Mulher
Por amar os cornos da Vida Terrestre
A cinza cresce nos meus músculos
Não consigo respirar...
O mundo sufoca-me e não me deixa crescer
Poros da minha pele amuralhados pela realidade
Realidade?
Passas-me o pão todos os dias de manhã?
Poros da minha pele obstruídos pelas minha visões...humanas..
Sinto-me enlouquecer a cada segundo que passa
Sinto a descoordenação mental, a desarticulação de tudo
O que me compõe como ser
Sinto a quebra do lápis com que escrevo a vida
Poros obstruídos por tudo o que olho e não vejo.
Não vejo...
Limites que me impõem...
Impõem como me impuseram o leite materno á nascença...
Outras formas de comunicar?
Não sei!...pressinto-as?
Não sei!
Sinto a vida? Sinto a morte?
Sinto a morte como um encontro final e completo comigo mesma...
Só lá me encontrarei com a minha verdadeira alma..
Alma
Alma que me persegue e eu fujo...
Fujo do seu encontro...
Fujo da morte... mentalmente...
Fujo do que me persegue e que amo...
Amo a morte.
Amo a morte da vida...
Amo as palavras que me compõem
Amo o que me persegue e não controlo
Amo o descontrolo que compõe as linhas de minha mão.
Verdades escondidas no corpo?
Devaneios na pele que nos fronteiriza com o mundo?
Assim quero viver...
Tremo só de pensar que vivo aqui, comigo...
Tremo de ódio? Prazer?
Já não me interessa nomear sentimentos...
Já não me interessam nomear as coisas que vejo...
Não gosto de nomeações..
Vou inventar uma língua que não nomeia coisas
LI
DISTRACÇÕES
Esquecidas no tempo
num saco sem fundo
algures num espaço desequilibrado,
sentadas, as palavras
revelaram-se solidárias
libertaram-se
vaguearam de mãos dadas
e pensaram serenamente
ARMARAM-SE
SITIARAM
invadiram milhões de páginas
anónimas
dissolutas
esquecidas
que ganharam vida
Lutaram contra prefácios ocos
derrubaram frases vazias
desordenaram batalhões de ideias
detalhadas
Assaltaram parágrafos
e arrasaram capítulos
Venceram a lassidão
E o autor, aspirante a poeta
criticou
claudicou.
Zélia Marchão
ESCRITA DOMÉSTICA
Por cima dos telhados oblíquos
pairam frases gramaticalmente harmoniosas
pelos canais de telhas gastas de adjectivos
deslizam palavras simples e melodiosas
das goteiras, sílabas caem-me gradualmente
nas mãos em concha
E numa página em branco
construo metáforas
tentando disfarçar o pensamento
De vez em quando um salpico de pretérito
invade um espaço ou outro
Das chaminés, em espirais enfeitiçadas
fluem, subindo, preposições desordenadas
pousando a pouco e pouco na roupa do estendal
E o vento chega, forte, para baralhar
toda a ortografia
Desejo que a neve traga
as pontuações certas
Porque, neste inverno, presumo que
não se construam textos seriamente delineados
Talvez, quem sabe, o ferro de engomar
quente, escaldante de realidade
alguma coisa, ainda, possa salvar
Cada peça é moldada por dedos de tinta
acariciando as linhas de lã
para simplesmente se aculturar com todo
o tipo de verbos alinhados, metodicamente, na gaveta
Por fim, após um banho quente de diversão
prosas de cetim arrepiam-me a pele
perfumada de poemas
que se soltam de primaveras melódicas, passadas.
Zélia Marchão
Esquecidas no tempo
num saco sem fundo
algures num espaço desequilibrado,
sentadas, as palavras
revelaram-se solidárias
libertaram-se
vaguearam de mãos dadas
e pensaram serenamente
ARMARAM-SE
SITIARAM
invadiram milhões de páginas
anónimas
dissolutas
esquecidas
que ganharam vida
Lutaram contra prefácios ocos
derrubaram frases vazias
desordenaram batalhões de ideias
detalhadas
Assaltaram parágrafos
e arrasaram capítulos
Venceram a lassidão
E o autor, aspirante a poeta
criticou
claudicou.
Zélia Marchão
ESCRITA DOMÉSTICA
Por cima dos telhados oblíquos
pairam frases gramaticalmente harmoniosas
pelos canais de telhas gastas de adjectivos
deslizam palavras simples e melodiosas
das goteiras, sílabas caem-me gradualmente
nas mãos em concha
E numa página em branco
construo metáforas
tentando disfarçar o pensamento
De vez em quando um salpico de pretérito
invade um espaço ou outro
Das chaminés, em espirais enfeitiçadas
fluem, subindo, preposições desordenadas
pousando a pouco e pouco na roupa do estendal
E o vento chega, forte, para baralhar
toda a ortografia
Desejo que a neve traga
as pontuações certas
Porque, neste inverno, presumo que
não se construam textos seriamente delineados
Talvez, quem sabe, o ferro de engomar
quente, escaldante de realidade
alguma coisa, ainda, possa salvar
Cada peça é moldada por dedos de tinta
acariciando as linhas de lã
para simplesmente se aculturar com todo
o tipo de verbos alinhados, metodicamente, na gaveta
Por fim, após um banho quente de diversão
prosas de cetim arrepiam-me a pele
perfumada de poemas
que se soltam de primaveras melódicas, passadas.
Zélia Marchão
4.02.2004
escuta o olhar da sonhadora
ela vê para além do visível
ela ouve para além do audível
e sente para além do sensível
está tudo escrito no brilho apaixonado dos seus olhos
todas as noites a sonhadora vai à janela
e olha para as estrelas
ela sabe que há uma que um dia brilhará mais
nesse mesmo dia, as suas asas estarão prontas para voar
para a levarem a essa estrela...
... a TAL
não deixes que a chama se apague
Philipa B. Antunes
ela vê para além do visível
ela ouve para além do audível
e sente para além do sensível
está tudo escrito no brilho apaixonado dos seus olhos
todas as noites a sonhadora vai à janela
e olha para as estrelas
ela sabe que há uma que um dia brilhará mais
nesse mesmo dia, as suas asas estarão prontas para voar
para a levarem a essa estrela...
... a TAL
não deixes que a chama se apague
Philipa B. Antunes
ROMANCE CLANDESTINO
O menino, com sua mão frágil
No papel desenhou a floresta,
Desenhou a cabana,
E num repente ágil
Colocou dentro desta
A mais linda cigana.
Depois pintou um príncipe
Chamado de João,
Que lhe bateu à porta
Pedindo com brandura
Um pouco de água e pão,
E que ao ver a formosura
Se lhe prostra em oração.
« Levanta-te e entra »,
Lhe disse a cigana linda
« Pois te esperava e certa
Estava de ainda chegares
Antes de a tarde finda. »
Brilharam doces seus olhares
Para logo seus brilhos se apagarem.
« Mas senhora!, como poderei
Depois sair sem morrer
De saudade? »
E após se beijarem,
Cigana e filho de rei,
Nela entraram sem querer
Saber da dura verdade.
João ao palácio não quis
Jamais voltar até que seu pai
A todos ordenou encontrá-lo.
A seus exércitos diz:
« Tragam-no vivo e dai
A morte a quem tentou raptá-lo. »
Os soldados cumpridores
Batem montes,
Batem vales e rios,
Perguntam aos pastores,
Perscrutam horizontes
E inquirem doutores.
Sofrem os tempos de calores,
Calores e frios.
E é quando um dia
À volta da floresta se juntam
Como soubessem só poderem estar além
Que um velho guia
Informa os generais do rei
Haver nela dois amantes que andam
Felizes a brincar ao “ pai-e-mãe “
Sem se importarem com a lei.
Então, o menino pára.
“ Desenhar, para quê?... “
Se aqueles que ele tanto amara
Por sabê-los como seu pai e sua mãe,
Tão iguais para quem os vê,
Têm que vir a sofrer também
A imposição da corte e seus porquês
“ Como se foram Pedro e Inês... “
Se... Mas não! Não!!
Ninguém lhe iria levar a melhor!
E num gesto rápido e exigente
Pega na tesoura do papel.
Com ela vai ao desenho saído de sua mão
Com tanto carinho e calor,
E num corte lacrimoso e tremente
Retira à floresta a cabana
Em que estão o príncipe e a cigana
E corre a escondê-la no sótão.
O rei e seus generais
Percorrem a floresta de lés a lés;
Atiçam os cães, erguem os punhais,
Cansam os cavalos, ferem os pés.
Mas de nenhum têm sinal!
Nasce-lhes aos poucos a desilusão.
Corre-lhes a vida mais que mal,
E abrem as bocas de espanto: “ Onde estão!!...
Onde estão?!... “
Depois o menino, suspirou e sorriu.
Feliz, contente com seu feito
Segredou a si, em inocente jeito:
« Pschiu!... Ninguém viu. Ninguém viu!... »
ODISSEIA III
EUFALO...
( Eu falo do lado de lá do lá )
Partiu um dia
À procura de sua mãe.
E no calo
Da linguagem – EUCALO,
O calo da alegria –
Levava uma mulher de ninguém.
Percorreu montes e rios.
Fez viver flores onde
Se torrava a erva pelos frios
Havia a veste do pária e do conde.
Fez o riso e a dor
No seio pequeno novo
Correu como se fosse amor
De penetrar EULOUVO.
Eu louvo tudo quanto é belo!
( A mãe assim... Os seios livres e tomados...
A boca sugando... ) A língua?... O selo?...
A conquista de sermos conquistados.
E Eulouvo casou com Eufalo.
Fez um lindo par!
Inda hoje, Eucalo
Diz que a cerimónia foi amar.
CÂNTICO CLARO
( Dedicado a Portalegre)
O teu olhar parecia dizer:
“ Aquele que me amar está perdido. “
Mas mesmo assim
Do interior de mim
Ecoava um cântico muito antigo:
“ Enquanto viver
Estou contigo. “
A minha certeza é única:
Sou ponte entre aqui e além.
Que minha fala é a túnica
Do romeiro que se chama Ninguém.
Enquanto viver estou
Contigo nos morros, nas praias;
E dançarei até que o voo
Das gaivotas se liberte das saias,
Dos batuques, dos sambas
Dos corais, dos cantares de amigo.
Que isto de cruzar cordas bambas
Só foi verdade por um crer:
“ Enquanto viver
Estou contigo. “
E se sou zambo ou mestiço
Foi porque Deus quis partilhar
Comigo seus poderes de criador
Ao trocar a guerra pelo amor.
Por isso, quando ouço cantar
O gaio, o canário, o carriço
Faço-me ao Porto e dou-me ao mar
Que combate o amarelo outoniço.
E então sou tão eu de mim – eu,
Com todas as minhas correntes
As minhas veias, o meu céu
O multicolor das minhas gentes
Livres e capazes e ousadas e objectivas e transparentes,
Que cresço nos milhões de bocas
Mostrando suas línguas loucas.
Quem me invoca é Sagres e Vera Cruz; o resto é pó.
Minhas testemunhas são duas numa só.
Que Santa Cruz continue a ser onda e clamor
Ventos de liberdade a soprar por Timor.
Mas que ninguém me pergunte porquê,
Nem me peça segredos que não sei,
Ou me ofereça outro castigo.
Que meu ser é o mar que se navegou.
É o corpo indígena que se amou.
Que me curtiu e salvou
Educou e fez crescer
E o querer com que digo:
“ Enquanto viver
Estou contigo. “
Lisboa, 23 de Maio de l999
A CAUSA DAS COISAS
1.
Vê como o sol, embora o não queiramos
Nasce todos os dias!... – quem lho teria ordenado?
Talvez o sonho daquela criança que todos amamos,
Que escreve e desenha, e esconde romances no sobrado!
Talvez o silêncio morninho do olhar
Ou a mão que afaga descontraída
Para em cada letra de brincar
Inventar a palavra vida...
Talvez a necessidade
Que o mundo tem de ter cor...
Talvez a verdade...
Ou, porque não!?... O amor.
2.
Quem diz da voz o lugar imprevisto?
Quem diz da boca a fonte?
Dos olhos a mágoa de partir
Num amo, logo insisto,
Numa vida em que o ser não desconte
Anos como paga de existir?!
Quem se debruça da janela
Recolhe a pétala, afasta a madeixa...
Quem doma o sonho fraterno
Lhe monta o dorso, lhe põe a sela,
E quer correr na brisa que desleixa
De ser livre e não eterno?
Quem pelos jardins corre ligeiro
Anda de bicicleta, atira flechas
Faz castelos e nos acorda pela manhã,
Ou se quer no lugar primeiro
Duma vida a que acendemos mechas
De ternura, para que se não torne vã?
Quem é capaz de ainda chorar
Por nós, nos pede pão, dá lições
De abrir as mãos sem fazer batota,
E à montra dum comércio quer parar
Para com quaisquer dez tostões
Comprar gelados, bater à porta?
Quem?! Quem nos diz da simplicidade
Ser tão bela como a confiança?
Ou se surpreende com a verdade...
Quem?
Quem?
Quem?
A criança.
PASSEIO EXISTENCIAL
( Av. da Liberdade )
No fundo do amor está o amor.
À volta, no cimo, estão diversas coisas
Que às vezes nos entretêm: os nomes,
Principalmente, os nomes!
Somos todos iniciados na técnica de compreender
Que Outono é quando as folhas caem!
Podíamos passar por entre elas...
Ser-lhes a invocação imediata...
Enfim! Sermos díspares parcelas
Desse jogo infinito, a concordata...
...Um tratado! Caminhamos..., elas caem,
O sol vem recortante, capilar,
E os olhos descem e cerram, descem
Para dentro em busca do seu começar!
As pombas rodam, rodam as árvores,
Codificam-se os gestos e as cores
E faz imenso vento ruissussurrante
Mexendo as vestes, os cabelos
Os endereços, os remetentes, os selos
A imagética do corpo tonificante
E o chiar dos pneus, o tilintar eléctrico
A voz anunciante, o nome métrico.
Se nos liquidamos as pombas saem
Do quadro – é melhor deixá-las ficar
Como se fossem paz à volta do amor
Coisas, nomes principalmente, a rodar
A voar!...
Estamos num jardim: um qualquer!
Faz menção de sermos homem e mulher
( É que podíamos!... Deveras! ) Ou avenida!
Porque não sonhos?... O sonho também!
Um saco deles! Bagagem de mistério...
Um livro... Um quarto de aluguer...
Pessoas amorfas que vão e que vêm
E que arrastam consigo toda a vida,
E um odor a incesto e adultério...
E os olhos cerram, descem, descem...
E os olhos cerram, descem, descem...
Deixámos os lábios que sabem a amizade:
Deixámos as roupas que usam o desejo:
Deixámos o sangue que cozinha prazer:
Deixámos as mãos que esculpem carinho:
Deixámos a palavra que recita a verdade:
Deixámos a despedida que encontra o beijo:
Deixámos o sol que encanta o crescer:
Deixámos o vento que murmura caminho:
Mas os olhos cerram, descem, descem...
Mas os olhos cerram, descem, descem...
Mas os olhos cerram, descem, descem...
Há, então, um pestanejar: o sonho agita-se.
E os olhos cerrados, descidos, perguntam:
« Para onde vais? » - somos feitos assim!
E cada um pensa e contrai-se.
Fecha-se. Circula. E as respostas ecoam:
« À procura de mim » « À procura de mim »
« À procura de mim » « À procura de mim »
« À procura de mim » « À procura de mim »
ENCONTRO FINAL
Quem sabe do amor
A palavra certa?
Exacta.
Secreta.
O nome.
O dia.
A hora?
Quem se busca?
Descobre a luz exígua.
O menino, com sua mão frágil
No papel desenhou a floresta,
Desenhou a cabana,
E num repente ágil
Colocou dentro desta
A mais linda cigana.
Depois pintou um príncipe
Chamado de João,
Que lhe bateu à porta
Pedindo com brandura
Um pouco de água e pão,
E que ao ver a formosura
Se lhe prostra em oração.
« Levanta-te e entra »,
Lhe disse a cigana linda
« Pois te esperava e certa
Estava de ainda chegares
Antes de a tarde finda. »
Brilharam doces seus olhares
Para logo seus brilhos se apagarem.
« Mas senhora!, como poderei
Depois sair sem morrer
De saudade? »
E após se beijarem,
Cigana e filho de rei,
Nela entraram sem querer
Saber da dura verdade.
João ao palácio não quis
Jamais voltar até que seu pai
A todos ordenou encontrá-lo.
A seus exércitos diz:
« Tragam-no vivo e dai
A morte a quem tentou raptá-lo. »
Os soldados cumpridores
Batem montes,
Batem vales e rios,
Perguntam aos pastores,
Perscrutam horizontes
E inquirem doutores.
Sofrem os tempos de calores,
Calores e frios.
E é quando um dia
À volta da floresta se juntam
Como soubessem só poderem estar além
Que um velho guia
Informa os generais do rei
Haver nela dois amantes que andam
Felizes a brincar ao “ pai-e-mãe “
Sem se importarem com a lei.
Então, o menino pára.
“ Desenhar, para quê?... “
Se aqueles que ele tanto amara
Por sabê-los como seu pai e sua mãe,
Tão iguais para quem os vê,
Têm que vir a sofrer também
A imposição da corte e seus porquês
“ Como se foram Pedro e Inês... “
Se... Mas não! Não!!
Ninguém lhe iria levar a melhor!
E num gesto rápido e exigente
Pega na tesoura do papel.
Com ela vai ao desenho saído de sua mão
Com tanto carinho e calor,
E num corte lacrimoso e tremente
Retira à floresta a cabana
Em que estão o príncipe e a cigana
E corre a escondê-la no sótão.
O rei e seus generais
Percorrem a floresta de lés a lés;
Atiçam os cães, erguem os punhais,
Cansam os cavalos, ferem os pés.
Mas de nenhum têm sinal!
Nasce-lhes aos poucos a desilusão.
Corre-lhes a vida mais que mal,
E abrem as bocas de espanto: “ Onde estão!!...
Onde estão?!... “
Depois o menino, suspirou e sorriu.
Feliz, contente com seu feito
Segredou a si, em inocente jeito:
« Pschiu!... Ninguém viu. Ninguém viu!... »
ODISSEIA III
EUFALO...
( Eu falo do lado de lá do lá )
Partiu um dia
À procura de sua mãe.
E no calo
Da linguagem – EUCALO,
O calo da alegria –
Levava uma mulher de ninguém.
Percorreu montes e rios.
Fez viver flores onde
Se torrava a erva pelos frios
Havia a veste do pária e do conde.
Fez o riso e a dor
No seio pequeno novo
Correu como se fosse amor
De penetrar EULOUVO.
Eu louvo tudo quanto é belo!
( A mãe assim... Os seios livres e tomados...
A boca sugando... ) A língua?... O selo?...
A conquista de sermos conquistados.
E Eulouvo casou com Eufalo.
Fez um lindo par!
Inda hoje, Eucalo
Diz que a cerimónia foi amar.
CÂNTICO CLARO
( Dedicado a Portalegre)
O teu olhar parecia dizer:
“ Aquele que me amar está perdido. “
Mas mesmo assim
Do interior de mim
Ecoava um cântico muito antigo:
“ Enquanto viver
Estou contigo. “
A minha certeza é única:
Sou ponte entre aqui e além.
Que minha fala é a túnica
Do romeiro que se chama Ninguém.
Enquanto viver estou
Contigo nos morros, nas praias;
E dançarei até que o voo
Das gaivotas se liberte das saias,
Dos batuques, dos sambas
Dos corais, dos cantares de amigo.
Que isto de cruzar cordas bambas
Só foi verdade por um crer:
“ Enquanto viver
Estou contigo. “
E se sou zambo ou mestiço
Foi porque Deus quis partilhar
Comigo seus poderes de criador
Ao trocar a guerra pelo amor.
Por isso, quando ouço cantar
O gaio, o canário, o carriço
Faço-me ao Porto e dou-me ao mar
Que combate o amarelo outoniço.
E então sou tão eu de mim – eu,
Com todas as minhas correntes
As minhas veias, o meu céu
O multicolor das minhas gentes
Livres e capazes e ousadas e objectivas e transparentes,
Que cresço nos milhões de bocas
Mostrando suas línguas loucas.
Quem me invoca é Sagres e Vera Cruz; o resto é pó.
Minhas testemunhas são duas numa só.
Que Santa Cruz continue a ser onda e clamor
Ventos de liberdade a soprar por Timor.
Mas que ninguém me pergunte porquê,
Nem me peça segredos que não sei,
Ou me ofereça outro castigo.
Que meu ser é o mar que se navegou.
É o corpo indígena que se amou.
Que me curtiu e salvou
Educou e fez crescer
E o querer com que digo:
“ Enquanto viver
Estou contigo. “
Lisboa, 23 de Maio de l999
A CAUSA DAS COISAS
1.
Vê como o sol, embora o não queiramos
Nasce todos os dias!... – quem lho teria ordenado?
Talvez o sonho daquela criança que todos amamos,
Que escreve e desenha, e esconde romances no sobrado!
Talvez o silêncio morninho do olhar
Ou a mão que afaga descontraída
Para em cada letra de brincar
Inventar a palavra vida...
Talvez a necessidade
Que o mundo tem de ter cor...
Talvez a verdade...
Ou, porque não!?... O amor.
2.
Quem diz da voz o lugar imprevisto?
Quem diz da boca a fonte?
Dos olhos a mágoa de partir
Num amo, logo insisto,
Numa vida em que o ser não desconte
Anos como paga de existir?!
Quem se debruça da janela
Recolhe a pétala, afasta a madeixa...
Quem doma o sonho fraterno
Lhe monta o dorso, lhe põe a sela,
E quer correr na brisa que desleixa
De ser livre e não eterno?
Quem pelos jardins corre ligeiro
Anda de bicicleta, atira flechas
Faz castelos e nos acorda pela manhã,
Ou se quer no lugar primeiro
Duma vida a que acendemos mechas
De ternura, para que se não torne vã?
Quem é capaz de ainda chorar
Por nós, nos pede pão, dá lições
De abrir as mãos sem fazer batota,
E à montra dum comércio quer parar
Para com quaisquer dez tostões
Comprar gelados, bater à porta?
Quem?! Quem nos diz da simplicidade
Ser tão bela como a confiança?
Ou se surpreende com a verdade...
Quem?
Quem?
Quem?
A criança.
PASSEIO EXISTENCIAL
( Av. da Liberdade )
No fundo do amor está o amor.
À volta, no cimo, estão diversas coisas
Que às vezes nos entretêm: os nomes,
Principalmente, os nomes!
Somos todos iniciados na técnica de compreender
Que Outono é quando as folhas caem!
Podíamos passar por entre elas...
Ser-lhes a invocação imediata...
Enfim! Sermos díspares parcelas
Desse jogo infinito, a concordata...
...Um tratado! Caminhamos..., elas caem,
O sol vem recortante, capilar,
E os olhos descem e cerram, descem
Para dentro em busca do seu começar!
As pombas rodam, rodam as árvores,
Codificam-se os gestos e as cores
E faz imenso vento ruissussurrante
Mexendo as vestes, os cabelos
Os endereços, os remetentes, os selos
A imagética do corpo tonificante
E o chiar dos pneus, o tilintar eléctrico
A voz anunciante, o nome métrico.
Se nos liquidamos as pombas saem
Do quadro – é melhor deixá-las ficar
Como se fossem paz à volta do amor
Coisas, nomes principalmente, a rodar
A voar!...
Estamos num jardim: um qualquer!
Faz menção de sermos homem e mulher
( É que podíamos!... Deveras! ) Ou avenida!
Porque não sonhos?... O sonho também!
Um saco deles! Bagagem de mistério...
Um livro... Um quarto de aluguer...
Pessoas amorfas que vão e que vêm
E que arrastam consigo toda a vida,
E um odor a incesto e adultério...
E os olhos cerram, descem, descem...
E os olhos cerram, descem, descem...
Deixámos os lábios que sabem a amizade:
Deixámos as roupas que usam o desejo:
Deixámos o sangue que cozinha prazer:
Deixámos as mãos que esculpem carinho:
Deixámos a palavra que recita a verdade:
Deixámos a despedida que encontra o beijo:
Deixámos o sol que encanta o crescer:
Deixámos o vento que murmura caminho:
Mas os olhos cerram, descem, descem...
Mas os olhos cerram, descem, descem...
Mas os olhos cerram, descem, descem...
Há, então, um pestanejar: o sonho agita-se.
E os olhos cerrados, descidos, perguntam:
« Para onde vais? » - somos feitos assim!
E cada um pensa e contrai-se.
Fecha-se. Circula. E as respostas ecoam:
« À procura de mim » « À procura de mim »
« À procura de mim » « À procura de mim »
« À procura de mim » « À procura de mim »
ENCONTRO FINAL
Quem sabe do amor
A palavra certa?
Exacta.
Secreta.
O nome.
O dia.
A hora?
Quem se busca?
Descobre a luz exígua.
Multidão
Cruzam-se olhares
melhor dizendo, pensares
de almas fugidias
de um hábito de dias.
É a multidão!
E lá em cima, tranquilo
o Homem do Leme observa
um oceano de cores
sentimentos inequívocos
vários sentidos perdidos...
aromas, cheiros, perfumes
O que será?
Deliciosa sensação
preenche-me o espírito
bebo tal utopia
embriago-me nela
perco-me, encontro-me,
volto a perder-me
Procuro uma brisa,
uma direcção, que me leve
ao cume daquela montanha
de sentidos flutuantes,
de melodias penetrantes
que trespassam almas e corpos...
Descubro-me num sonho
(ser realista!)
com tons musicais, transcendentes
Caleidoscópio de emoções,
universo de visões,
miragens, viagens,
já não sei para onde vou
já não sei quem sou
tantas vidas a passar
são ondas de um outro mar
são vagas de uma maré
ou destino, ou fé
ou aquilo em que se possa
num segundo
acreditar!!
Helder Faria
Cruzam-se olhares
melhor dizendo, pensares
de almas fugidias
de um hábito de dias.
É a multidão!
E lá em cima, tranquilo
o Homem do Leme observa
um oceano de cores
sentimentos inequívocos
vários sentidos perdidos...
aromas, cheiros, perfumes
O que será?
Deliciosa sensação
preenche-me o espírito
bebo tal utopia
embriago-me nela
perco-me, encontro-me,
volto a perder-me
Procuro uma brisa,
uma direcção, que me leve
ao cume daquela montanha
de sentidos flutuantes,
de melodias penetrantes
que trespassam almas e corpos...
Descubro-me num sonho
(ser realista!)
com tons musicais, transcendentes
Caleidoscópio de emoções,
universo de visões,
miragens, viagens,
já não sei para onde vou
já não sei quem sou
tantas vidas a passar
são ondas de um outro mar
são vagas de uma maré
ou destino, ou fé
ou aquilo em que se possa
num segundo
acreditar!!
Helder Faria
3.23.2004
A próxima edição da Comunidade de Leitores recairá sobre o romance O PROCESSO, de Franz Kafka. Por enquanto temos disponíveis três traduções que servirão de base de trabalho. A data ainda não foi determinada mas calcula-se que acontecerá para meados de Abril. Assim que se escolher a data, dar-se-á a informação. Boa leitura!
3.09.2004
2.28.2004
2.26.2004
2.21.2004
2.13.2004
Das próximas sessões da Comunidade de Leitores apenas se sabe que a primeira acontecerá durante a semana da poesia subordinada ao tema CLUBE DOS POETAS VIVOS e terá como protagonistas diversos poetas portalegrenses, com ou sem livros publicados. A segunda, será à volta de uma figura das letras bastante esquecida, que nasceu em Alegrete, viveu a maior parte da vida no Porto, e foi casada com Abel Santos, pintor e professor de renome no velho regime: ISAURA CORREIA DOS SANTOS. Do que mais houver se dará conta atempadamente
2.05.2004
Os cartazes já estão na rua, com imagens retiradas ao Principezinho e tonalidades azuis. Não ficou feito com o tempo de antecedência que seria preferível, mas ainda chegou a tempo. Tudo quanto se pede é reconhecer que a literatura infantil nos garante que se começarmos a vida com boas histórias, as demais que a vida nos reserva jamais lhe conseguirão subtrair o valor e o arrebatamento. Há quem leve livros dos mais incomuns!... Eu descobri O PÁSSARO AZUL, de Leyguarda Ferreira, editado em 1966, pela Romano Torres. Haverá outras iguarias? De certeza que sim!...
1.29.2004
De acordo com o que irá ser anunciado na Agenda Cultural de Portalegre, a próxima sessão da Comunidade de Leitores, será dia 10 de Fevereiro, com abordagem à Literatura Infantil. O princípio básico é que cada um leve as suas preferências neste capítulo e as divulgue perante os restantes membros da Comunidade... A ideia está no ar!
1.22.2004
UM CANTO NA HISTÓRIA (DAS ESTÓRIAS)
“E nisto o rouxinol começou com os seus trilos.
– É ele! – exclamou a rapariguinha. – Oiçam, oiçam! E está mesmo ali.
E apontou para um passarinho cinzento, pousado em cima de um ramo.”
Numa altura em que a legislação sobre direitos autorais se apresta a alteração, quiçá corrigindo algumas incoerências que vigoram sobre o assunto, a Comunidade de Leitores de Portalegre (CLP) incentiva a sua actividade com uma proposta fora da polémica, visto que a escolha recai numa obra que há muito perdeu a pertinência dos ditos: o conto de Hans Christian Andersen, considerado como o primeiro na modalidade com abordagem ecológica – O Rouxinol do Imperador.
Mas talvez a preferência não seja tão ingénua com se supõe... Escolher um conto, um género cuja simplicidade em quase nada reflecte os tempos actuais, onde predominam as complexas questões da pedofilia e do segredo de justiça, o palimpsesto político do aborto e o referendo ilegal para o Tratado de Constituição Europeia, das greves e congelamento de salários da função publica, da retoma da economia e do défice democrático, da coesão social e da cidadania, aliás exemplarmente enunciado na última edição da Fonte Nova através do texto de Fernando Mano, é, ou pode ser, quase uma pincelada de inocência sobre as matérias publicáveis e em alternidade com elas.
Que surpreende pelo desprendimento tanto como pela acutilância, pelo floreado estilístico como pela sentença judiciosa acerca da dicotomia progresso tecnológico vs natureza, e que põe em evidência a atitude humana face à utilização e usufruto das máquinas, mas que inclusive nos propõe alguma reflexão sobre a necessidade de sonhar a beleza se queremos manter acesa a utopia da sanidade – mental e física. Até porque numa Europa em construção se perdermos a capacidade de ser felizes com as pequenas coisas como o canto das aves, é bem provável que fiquemos amputados da melhor forma de a reconhecer: na sua fantasia e cultura, milenar e reconhecidamente influente na civilização global que ora eclode.
Este sonho peregrino, que acalentou alquimistas na procura da pedra filosofal, como os gentis-homens na busca do Santo Gral, esclareceu as mentes juvenis à sombra dos embondeiros como os remansos dos cavaleiros andantes sob as ramagens dos carvalhos nas clareiras das florestas e das missões superiores, nos convés dos vapores como nos bancos dos combóios, na fuga às matemáticas dos currículos como no refúgio do quarto durante as festas sociais da família, e impregnou de irreverência o espírito abúlico das classes serviçais, dos mais fracos e geniais em sua modéstia de conhecer os mistérios indizíveis do paradeiro dos cantadores insubstituíveis, para os elevar à categoria de seres capazes de navegar ainda além de todas as Taprobanas, numa minúscula epopeia que é o segredo do encontro do homem consigo mesmo, aquele que resiste a perder-se no exclusivo desgaste do dia a dia. Ou salteou com algo de sublime a agressividade do seu compromisso com a sobrevivência...
Porque em matéria de sonho é sempre a realidade quem leva a palma! Portanto, e não obstante os boatos de fragilidade e reticente continuação, a CLP veio para ficar, assentando a tónica na periodicidade quinzenal, tendo já agendada, para além desta sessão, que decorrerá no dia 27 deste mês, terça-feira, às 17:30 horas, na Sala Polivalente 1 da Biblioteca Municipal, também outra, mas de âmbito tematicamente mais alargado, que circunscreverá a Literatura Infantil, tentando assim determinar a pedra-de-toque daquilo que em princípio a todos foi comum e se alicerça no verbo que se fez génese, ao edificar o ser que a palavra não evita.
Mais: é bem provável que cada sessão venha a ter o aperitivo do vídeo sempre que haja algum filme baseado na obra sobre a qual ela recai, como é o caso de O Rouxinol do Imperador, possibilitando assim constatar quanto da disparidade nos suportes se avizinham e usufruem da mesma técnica e resultados narrativos, posto que é de há muito consciente entre nós que a complementar audiovisual cabe absolutamente na polissemia literária.
Concluindo, apraz-me convidar todos quantos já tenham lido, estejam a ler ou pretendam fazê-lo, a vir partilhar com a CLP as suas impressões sobre o conto citado, e testemunhar o deslumbramento dos imperadores face a um canto singelo mas universalmente reconhecido, deveras elogiado por intelectuais e artistas, mas cuja morada era sobretudo conhecida da menina que levava as sobras do palácio à sua avó. Que negava solidão das gerações e ditava com seu gesto que a esperança dos adultos se cimenta nos corações da criança que não adormeceu. Que está vigilante aos trilos das aves no crepúsculo da História!
“E nisto o rouxinol começou com os seus trilos.
– É ele! – exclamou a rapariguinha. – Oiçam, oiçam! E está mesmo ali.
E apontou para um passarinho cinzento, pousado em cima de um ramo.”
Numa altura em que a legislação sobre direitos autorais se apresta a alteração, quiçá corrigindo algumas incoerências que vigoram sobre o assunto, a Comunidade de Leitores de Portalegre (CLP) incentiva a sua actividade com uma proposta fora da polémica, visto que a escolha recai numa obra que há muito perdeu a pertinência dos ditos: o conto de Hans Christian Andersen, considerado como o primeiro na modalidade com abordagem ecológica – O Rouxinol do Imperador.
Mas talvez a preferência não seja tão ingénua com se supõe... Escolher um conto, um género cuja simplicidade em quase nada reflecte os tempos actuais, onde predominam as complexas questões da pedofilia e do segredo de justiça, o palimpsesto político do aborto e o referendo ilegal para o Tratado de Constituição Europeia, das greves e congelamento de salários da função publica, da retoma da economia e do défice democrático, da coesão social e da cidadania, aliás exemplarmente enunciado na última edição da Fonte Nova através do texto de Fernando Mano, é, ou pode ser, quase uma pincelada de inocência sobre as matérias publicáveis e em alternidade com elas.
Que surpreende pelo desprendimento tanto como pela acutilância, pelo floreado estilístico como pela sentença judiciosa acerca da dicotomia progresso tecnológico vs natureza, e que põe em evidência a atitude humana face à utilização e usufruto das máquinas, mas que inclusive nos propõe alguma reflexão sobre a necessidade de sonhar a beleza se queremos manter acesa a utopia da sanidade – mental e física. Até porque numa Europa em construção se perdermos a capacidade de ser felizes com as pequenas coisas como o canto das aves, é bem provável que fiquemos amputados da melhor forma de a reconhecer: na sua fantasia e cultura, milenar e reconhecidamente influente na civilização global que ora eclode.
Este sonho peregrino, que acalentou alquimistas na procura da pedra filosofal, como os gentis-homens na busca do Santo Gral, esclareceu as mentes juvenis à sombra dos embondeiros como os remansos dos cavaleiros andantes sob as ramagens dos carvalhos nas clareiras das florestas e das missões superiores, nos convés dos vapores como nos bancos dos combóios, na fuga às matemáticas dos currículos como no refúgio do quarto durante as festas sociais da família, e impregnou de irreverência o espírito abúlico das classes serviçais, dos mais fracos e geniais em sua modéstia de conhecer os mistérios indizíveis do paradeiro dos cantadores insubstituíveis, para os elevar à categoria de seres capazes de navegar ainda além de todas as Taprobanas, numa minúscula epopeia que é o segredo do encontro do homem consigo mesmo, aquele que resiste a perder-se no exclusivo desgaste do dia a dia. Ou salteou com algo de sublime a agressividade do seu compromisso com a sobrevivência...
Porque em matéria de sonho é sempre a realidade quem leva a palma! Portanto, e não obstante os boatos de fragilidade e reticente continuação, a CLP veio para ficar, assentando a tónica na periodicidade quinzenal, tendo já agendada, para além desta sessão, que decorrerá no dia 27 deste mês, terça-feira, às 17:30 horas, na Sala Polivalente 1 da Biblioteca Municipal, também outra, mas de âmbito tematicamente mais alargado, que circunscreverá a Literatura Infantil, tentando assim determinar a pedra-de-toque daquilo que em princípio a todos foi comum e se alicerça no verbo que se fez génese, ao edificar o ser que a palavra não evita.
Mais: é bem provável que cada sessão venha a ter o aperitivo do vídeo sempre que haja algum filme baseado na obra sobre a qual ela recai, como é o caso de O Rouxinol do Imperador, possibilitando assim constatar quanto da disparidade nos suportes se avizinham e usufruem da mesma técnica e resultados narrativos, posto que é de há muito consciente entre nós que a complementar audiovisual cabe absolutamente na polissemia literária.
Concluindo, apraz-me convidar todos quantos já tenham lido, estejam a ler ou pretendam fazê-lo, a vir partilhar com a CLP as suas impressões sobre o conto citado, e testemunhar o deslumbramento dos imperadores face a um canto singelo mas universalmente reconhecido, deveras elogiado por intelectuais e artistas, mas cuja morada era sobretudo conhecida da menina que levava as sobras do palácio à sua avó. Que negava solidão das gerações e ditava com seu gesto que a esperança dos adultos se cimenta nos corações da criança que não adormeceu. Que está vigilante aos trilos das aves no crepúsculo da História!
1.14.2004
12.30.2003
PASSEIO EXISTENCIAL
( Av. da Liberdade )
No fundo do amor está o amor.
À volta, no cimo, estão diversas coisas
Que às vezes nos entretêm: os nomes,
Principalmente, os nomes!
Somos todos iniciados na técnica de compreender
Que Outono é quando as folhas caem!
Podíamos passar por entre elas...
Ser-lhes a invocação imediata...
Enfim! Sermos díspares parcelas
Desse jogo infinito, a concordata...
...Um tratado! Caminhamos..., elas caem,
O sol vem recortante, capilar,
E os olhos descem e cerram, descem
Para dentro em busca do seu começar!
As pombas rodam, rodam as árvores,
Codificam-se os gestos e as cores
E faz imenso vento ruissussurrante
Mexendo as vestes, os cabelos
Os endereços, os remetentes, os selos
A imagética do corpo tonificante
E o chiar dos pneus, o tilintar eléctrico
A voz anunciante, o nome métrico.
Se nos liquidamos as pombas saem
Do quadro – é melhor deixá-las ficar
Como se fossem paz à volta do amor
Coisas, nomes principalmente, a rodar
A voar!...
Estamos num jardim: um qualquer!
Faz menção de sermos homem e mulher
( É que podíamos!... Deveras! ) Ou avenida!
Porque não sonhos?... O sonho também!
Um saco deles! Bagagem de mistério...
Um livro... Um quarto de aluguer...
Pessoas amorfas que vão e que vêm
E que arrastam consigo toda a vida,
E um odor a incesto e adultério...
E os olhos cerram, descem, descem...
E os olhos cerram, descem, descem...
Deixámos os lábios que sabem a amizade:
Deixámos as roupas que usam o desejo:
Deixámos o sangue que cozinha prazer:
Deixámos as mãos que esculpem carinho:
Deixámos a palavra que recita a verdade:
Deixámos a despedida que encontra o beijo:
Deixámos o sol que encanta o crescer:
Deixámos o vento que murmura caminho:
Mas os olhos cerram, descem, descem...
Mas os olhos cerram, descem, descem...
Mas os olhos cerram, descem, descem...
Há, então, um pestanejar: o sonho agita-se.
E os olhos cerrados, descidos, perguntam:
« Para onde vais? » - somos feitos assim!
E cada um pensa e contrai-se.
Fecha-se. Circula. E as respostas ecoam:
« À procura de mim » « À procura de mim »
« À procura de mim » « À procura de mim »
« À procura de mim » « À procura de mim »
( Av. da Liberdade )
No fundo do amor está o amor.
À volta, no cimo, estão diversas coisas
Que às vezes nos entretêm: os nomes,
Principalmente, os nomes!
Somos todos iniciados na técnica de compreender
Que Outono é quando as folhas caem!
Podíamos passar por entre elas...
Ser-lhes a invocação imediata...
Enfim! Sermos díspares parcelas
Desse jogo infinito, a concordata...
...Um tratado! Caminhamos..., elas caem,
O sol vem recortante, capilar,
E os olhos descem e cerram, descem
Para dentro em busca do seu começar!
As pombas rodam, rodam as árvores,
Codificam-se os gestos e as cores
E faz imenso vento ruissussurrante
Mexendo as vestes, os cabelos
Os endereços, os remetentes, os selos
A imagética do corpo tonificante
E o chiar dos pneus, o tilintar eléctrico
A voz anunciante, o nome métrico.
Se nos liquidamos as pombas saem
Do quadro – é melhor deixá-las ficar
Como se fossem paz à volta do amor
Coisas, nomes principalmente, a rodar
A voar!...
Estamos num jardim: um qualquer!
Faz menção de sermos homem e mulher
( É que podíamos!... Deveras! ) Ou avenida!
Porque não sonhos?... O sonho também!
Um saco deles! Bagagem de mistério...
Um livro... Um quarto de aluguer...
Pessoas amorfas que vão e que vêm
E que arrastam consigo toda a vida,
E um odor a incesto e adultério...
E os olhos cerram, descem, descem...
E os olhos cerram, descem, descem...
Deixámos os lábios que sabem a amizade:
Deixámos as roupas que usam o desejo:
Deixámos o sangue que cozinha prazer:
Deixámos as mãos que esculpem carinho:
Deixámos a palavra que recita a verdade:
Deixámos a despedida que encontra o beijo:
Deixámos o sol que encanta o crescer:
Deixámos o vento que murmura caminho:
Mas os olhos cerram, descem, descem...
Mas os olhos cerram, descem, descem...
Mas os olhos cerram, descem, descem...
Há, então, um pestanejar: o sonho agita-se.
E os olhos cerrados, descidos, perguntam:
« Para onde vais? » - somos feitos assim!
E cada um pensa e contrai-se.
Fecha-se. Circula. E as respostas ecoam:
« À procura de mim » « À procura de mim »
« À procura de mim » « À procura de mim »
« À procura de mim » « À procura de mim »
12.18.2003
12.10.2003
OFERENDA
“ Ler é compreender; e compreender é criar. “
Albert Camus
Talvez que escrever um livro seja pouco!...
Quem sabe?! Mas lê-lo é muito mais
Se a cada momento de soletrar rouco
O leitor, o escritor e o homem se tornarem iguais.
Em si próprios, perto da aventura,
Rés da esperança, filhos de si mesmos;
Sem pais –
Numa orfandade que não perdura
Mais
Que o ínfimo momento em que nos esquecemos
Que somos fulanos tai$!...
Ou belos, ou feios, ou reais.
Ou assim, ou assado e frito,
Mas que a cada sentimento nos damos fiéis
Sem saber como nem porquê,
Como se fosse cada um que lê
Aquele que o tivera escrito!
(Nota: Este poema e muitos mais podem ser lidos e/ou copiados/impressos, na página www.gatomontez.no.sapo.pt que é igualmente um "sítio" dos nossos Leitores. Quem sabe se aí se encontrarão novas versões de histórias muito antigas!... Quem sabe?!)
“ Ler é compreender; e compreender é criar. “
Albert Camus
Talvez que escrever um livro seja pouco!...
Quem sabe?! Mas lê-lo é muito mais
Se a cada momento de soletrar rouco
O leitor, o escritor e o homem se tornarem iguais.
Em si próprios, perto da aventura,
Rés da esperança, filhos de si mesmos;
Sem pais –
Numa orfandade que não perdura
Mais
Que o ínfimo momento em que nos esquecemos
Que somos fulanos tai$!...
Ou belos, ou feios, ou reais.
Ou assim, ou assado e frito,
Mas que a cada sentimento nos damos fiéis
Sem saber como nem porquê,
Como se fosse cada um que lê
Aquele que o tivera escrito!
(Nota: Este poema e muitos mais podem ser lidos e/ou copiados/impressos, na página www.gatomontez.no.sapo.pt que é igualmente um "sítio" dos nossos Leitores. Quem sabe se aí se encontrarão novas versões de histórias muito antigas!... Quem sabe?!)
Malta!
Durante a tarde de hoje, dia 10, passará continuamente no átrio da Biblioteca Municipal a versão DVD do THE PARIS CONCERT FOR AMNESTY INTERNATIONAL, como entrada ou aperitivo para a sessão da Comunidade de Leitores. Quem quiser aparecer, não se evite, e traga quantos entender por bem!... A Liberdade agradece!
Durante a tarde de hoje, dia 10, passará continuamente no átrio da Biblioteca Municipal a versão DVD do THE PARIS CONCERT FOR AMNESTY INTERNATIONAL, como entrada ou aperitivo para a sessão da Comunidade de Leitores. Quem quiser aparecer, não se evite, e traga quantos entender por bem!... A Liberdade agradece!
Olá, amigo Castanho:
Como não posso estar presente no dia 10 na comunidade de leitores, junto envio uma cópia das páginas 22 e 23 de "Viver para Contá-la"de G. G. Márquez, numa tradução de Maria do C. Abreu e edição do Círculo de Leitores em 2003.
O autor narra neste primeiro capítulo desta obra auto-biográfica a sua viagem a Aracataca, sua terra natal, com a sua mãe que quer vender a casa de família. É, também, uma viagem a memoria, da infancia nessa casa, e, em geral, da historia da própria família, que apresenta diversas semelhanças com o romance "Cem Anos de Solidão".
Assim é o caso do massacre dos trabalhadores da companhia bananeira na praça central, que terá causado três mil mortos.
Fica, também, esta consideração para o dia da cidadania, de uma altura em que os direitos dos cidadaos, aparentemente, não existiam, nem mesmo o direito à vida e à dignidade do trabalho.
Abracos,
Joao Paulo
Como não posso estar presente no dia 10 na comunidade de leitores, junto envio uma cópia das páginas 22 e 23 de "Viver para Contá-la"de G. G. Márquez, numa tradução de Maria do C. Abreu e edição do Círculo de Leitores em 2003.
O autor narra neste primeiro capítulo desta obra auto-biográfica a sua viagem a Aracataca, sua terra natal, com a sua mãe que quer vender a casa de família. É, também, uma viagem a memoria, da infancia nessa casa, e, em geral, da historia da própria família, que apresenta diversas semelhanças com o romance "Cem Anos de Solidão".
Assim é o caso do massacre dos trabalhadores da companhia bananeira na praça central, que terá causado três mil mortos.
Fica, também, esta consideração para o dia da cidadania, de uma altura em que os direitos dos cidadaos, aparentemente, não existiam, nem mesmo o direito à vida e à dignidade do trabalho.
Abracos,
Joao Paulo
12.02.2003
Da lista de obras e autores para escolha de leitura em celebração do Dia Mundial da Cidadania, há algumas incorrecções "ortográficas" que não foram assinaladas e se devem sobretudo à escassez de tempo disponível para utilizar a net, no depositar de texto. Uma delas refere-se à autoria do título "Tecido de Outono", que não é de Batista Bastos mas de Alçada Batista. O seu a seu dono!
Outra é acerca da obra de Virginia Woolf, que se intitula "Um Quarto Que Meu" e não "Seu", como ali figurava.
Mas está também um sério hiato em relação aos títulos sugeridos, pois, na lista, não figura um dos maiores e melhores romances sobre a temática, e que é o de Richard Wright, intitulado "UM NEGRO QUE QUIS VIVER".
É, ou fica a ser a partir de agora, a obra que apresentarei como "Meu Livro / Meu Irmão", sub-tema definido para a sessão da CLP, a 10 de Dezembro próximo.
O objectivo da sessão é pôr na mesa o nosso livro sobre a temática e convencer os demais a lê-lo também. A cidadania não é apenas um tema, mas também uma forma de pensar literatura de intervenção social. Que cada um faça a sua opção e a participe é a ideia principal
Outra é acerca da obra de Virginia Woolf, que se intitula "Um Quarto Que Meu" e não "Seu", como ali figurava.
Mas está também um sério hiato em relação aos títulos sugeridos, pois, na lista, não figura um dos maiores e melhores romances sobre a temática, e que é o de Richard Wright, intitulado "UM NEGRO QUE QUIS VIVER".
É, ou fica a ser a partir de agora, a obra que apresentarei como "Meu Livro / Meu Irmão", sub-tema definido para a sessão da CLP, a 10 de Dezembro próximo.
O objectivo da sessão é pôr na mesa o nosso livro sobre a temática e convencer os demais a lê-lo também. A cidadania não é apenas um tema, mas também uma forma de pensar literatura de intervenção social. Que cada um faça a sua opção e a participe é a ideia principal
11.27.2003
Ainda não foram escolhidas as obras para a próxima sessão da CLP embora já existam algumas preferências apontadas, cuja maioria assenta no Amada de Toni Morrison. Portanto seria justo que o pessoal se aprontasse com a opção, a fim de dar tempo para a leitura, o que se demonstra dia a dia cada vez mais difícil, visto que este livro é "seriamente" volumoso...
Mas há, no entanto, outra sugestão: que tal fazer uma sessão diferente? Em vez de se ler uma só obra, não se poderia, por exemplo, levar cada um de nós um livro que estivesse relacionado com a temática do Dia da Cidadania e que gostávamos de indicar como exemplar nesse sentido?... Houve, em tempos, uma espécie de encontros entre pessoas que se apresentavam através de um livro de que tivessem gostado sobremaneira... Pois bem, esta ideia, não seria a de nos apresentarmos uns aos outros, pois já nos conhecemos bem (ou quase), mas sim a de envolver a temática com a mais-valia da preferência de cada membro, apontando para a problemática em causa... Que tal? Vamos nessa? Se sim ou não, o importante é comunicá-lo. grokare@hotmail.com está ao vosso dispor. Ok?
Mas há, no entanto, outra sugestão: que tal fazer uma sessão diferente? Em vez de se ler uma só obra, não se poderia, por exemplo, levar cada um de nós um livro que estivesse relacionado com a temática do Dia da Cidadania e que gostávamos de indicar como exemplar nesse sentido?... Houve, em tempos, uma espécie de encontros entre pessoas que se apresentavam através de um livro de que tivessem gostado sobremaneira... Pois bem, esta ideia, não seria a de nos apresentarmos uns aos outros, pois já nos conhecemos bem (ou quase), mas sim a de envolver a temática com a mais-valia da preferência de cada membro, apontando para a problemática em causa... Que tal? Vamos nessa? Se sim ou não, o importante é comunicá-lo. grokare@hotmail.com está ao vosso dispor. Ok?
11.18.2003
“Nunca mais me esqueceu a manhã virginal da Madeira, e as cores
que iam do cinzento ao doirado, do doirado ao azul-índigo – nem a montanha
entreaberta saindo do mar diante de mim, a escorrer azul e verde...”
Raul Brandão, in As Ilhas Desconhecidas
Se considerarmos o muito que se tem dito acerca da Pérola do Atlântico, das paisagens, praias, clima, produtos naturais e situação geográfica, já não é tão efusiva a literatura sobre as suas gentes. Ou por outra: não era. Porque agora, talvez estabelecendo uma equiparidade que faltava, Gabriel Raimundo, jornalista e escritor com créditos acumulados em diversos órgãos de comunicação social regional, autor a quem se devem algumas das mais interessantes páginas da nossa literatura de emigração, qual bússola inquieta sempre apontando para um Norte que é inclusive outro traço essencial para a caracterização da nossa nacionalidade, cujos títulos (Na Estranja – 1979; Gritos de Guerra – 1980; Natal Crítico – 1980; Construtores de Pontes, Usinas e Maisons – 1981; Rafael, o Montanhês – 1981; Vidas Desvitaminadas – 1982; Cantares de Amigo – 1982; A Batalha de Pedra – 1984; Tear de Tomates – 1984; A Diáspora em Letra Viva – 1988; Tarrafal, Meu Amor Verdeano! – 1993; Sonhos no Zimbro – 1994; Estórias para Brancos e Negros – 1994; Mundo Mareado – 1997; Alentejo 2000, Novos Tempos – 200, por exemplo), repartidos por crónica, ficção, poesia e entrevista, reflectem e atestam, não só uma invulgar flexibilidade genérica, como também a preocupação constante em relatar o perfil apaixonado, andarilho e viageiro da alma lusitana, por quem diz que “é andando, teimando e a cantar que um homem acerta o passo e desata a língua”, e vai ainda além no reportar das intimidades familiares, ou da solidariedade entre o português e portuguesa na luta pela sobrevivência e pela criação de um Portugal cada vez melhor.
Neste caso particular, odisseia de um madeirense que regressa à sua ilha onde outra Penélope ou Palmira o aguarda criando os filhos numa perspectiva de vida mais desafogada, recheada de peripécias sentimentais, encontros e desencontros camonianos, dissabores e desenrascanços típicos do navegar lusófono, acrioulados de lisbonês ou francemandeirês, num discurso contido mas vivo, sério mas jocoso, que aquilata para a faceta cosmopolita da nossa personalidade, marcada pelo compasso donjuanino de pola lei e pola grei com que o homem português segurou o leme e marcou o seu destino, Gabriel Raimundo descreve, em Emigrante da Madeira Reencontra o Paraíso, a saga do humilde e inocente pecador Manel de Porto da Cruz, cujo primeiro emprego continental é o de adjunto de merceeiros de secos e pingados, ali ao Martim Moniz, numa Lisboa diferente da actual mas já bastante vincada pelo quotidiano multicultural e pluralismo de hoje, pois estava-se então “muito antes do 25 de Abril, que não se sabia se viria a acontecer, como depois se verificou”, duas vezes emigrado, ilhéu aqui e português em França, trabalhador sempre que anseia regressar à sua terra natal com o estatuto de empresário.
Romance meticuloso, embora curto – 120 páginas, mais ou menos –, demonstra bem quanto é verdade que para dizer tudo não é preciso escrever muito nem obrigar o leitor a peregrinações pormenorizadas e excessivas, tem contudo um alcance histórico e literário que transcende a sua reduzida extensão: sintetiza numa única vida toda a diáspora portuguesa. Principalmente aquela (ou a daqueles) de quem a História menos falou: a dos obreiros de um povo composto por gente que se aventurou no mundo para ser alguém – e o conseguiu.
Para no-lo apresentar e falar dele, estará no próximo dia 25 de Novembro, na Sala Polivalente 1 da Biblioteca Municipal e Portalegre, o seu autor, talvez cumprindo o mesmo destino de outros conterrâneos que de terra em terra foram desvendando novos mundos ao mundo. Serranos, transmontanos, minhotos, beirões, madeirenses, açoreanos, homens e mulheres de qualidade e valor, que com engenho e galhardia souberam edificar este “reino” que tanto sublimamos e pelo qual pelejamos dia a dia, acentuando com a língua a identidade pátria numa Europa una que ora se constitui. Lá estaremos, porque certamente jamais iremos permitir esquecer de quanto todos somos grande parte daquilo que fomos.
que iam do cinzento ao doirado, do doirado ao azul-índigo – nem a montanha
entreaberta saindo do mar diante de mim, a escorrer azul e verde...”
Raul Brandão, in As Ilhas Desconhecidas
Se considerarmos o muito que se tem dito acerca da Pérola do Atlântico, das paisagens, praias, clima, produtos naturais e situação geográfica, já não é tão efusiva a literatura sobre as suas gentes. Ou por outra: não era. Porque agora, talvez estabelecendo uma equiparidade que faltava, Gabriel Raimundo, jornalista e escritor com créditos acumulados em diversos órgãos de comunicação social regional, autor a quem se devem algumas das mais interessantes páginas da nossa literatura de emigração, qual bússola inquieta sempre apontando para um Norte que é inclusive outro traço essencial para a caracterização da nossa nacionalidade, cujos títulos (Na Estranja – 1979; Gritos de Guerra – 1980; Natal Crítico – 1980; Construtores de Pontes, Usinas e Maisons – 1981; Rafael, o Montanhês – 1981; Vidas Desvitaminadas – 1982; Cantares de Amigo – 1982; A Batalha de Pedra – 1984; Tear de Tomates – 1984; A Diáspora em Letra Viva – 1988; Tarrafal, Meu Amor Verdeano! – 1993; Sonhos no Zimbro – 1994; Estórias para Brancos e Negros – 1994; Mundo Mareado – 1997; Alentejo 2000, Novos Tempos – 200, por exemplo), repartidos por crónica, ficção, poesia e entrevista, reflectem e atestam, não só uma invulgar flexibilidade genérica, como também a preocupação constante em relatar o perfil apaixonado, andarilho e viageiro da alma lusitana, por quem diz que “é andando, teimando e a cantar que um homem acerta o passo e desata a língua”, e vai ainda além no reportar das intimidades familiares, ou da solidariedade entre o português e portuguesa na luta pela sobrevivência e pela criação de um Portugal cada vez melhor.
Neste caso particular, odisseia de um madeirense que regressa à sua ilha onde outra Penélope ou Palmira o aguarda criando os filhos numa perspectiva de vida mais desafogada, recheada de peripécias sentimentais, encontros e desencontros camonianos, dissabores e desenrascanços típicos do navegar lusófono, acrioulados de lisbonês ou francemandeirês, num discurso contido mas vivo, sério mas jocoso, que aquilata para a faceta cosmopolita da nossa personalidade, marcada pelo compasso donjuanino de pola lei e pola grei com que o homem português segurou o leme e marcou o seu destino, Gabriel Raimundo descreve, em Emigrante da Madeira Reencontra o Paraíso, a saga do humilde e inocente pecador Manel de Porto da Cruz, cujo primeiro emprego continental é o de adjunto de merceeiros de secos e pingados, ali ao Martim Moniz, numa Lisboa diferente da actual mas já bastante vincada pelo quotidiano multicultural e pluralismo de hoje, pois estava-se então “muito antes do 25 de Abril, que não se sabia se viria a acontecer, como depois se verificou”, duas vezes emigrado, ilhéu aqui e português em França, trabalhador sempre que anseia regressar à sua terra natal com o estatuto de empresário.
Romance meticuloso, embora curto – 120 páginas, mais ou menos –, demonstra bem quanto é verdade que para dizer tudo não é preciso escrever muito nem obrigar o leitor a peregrinações pormenorizadas e excessivas, tem contudo um alcance histórico e literário que transcende a sua reduzida extensão: sintetiza numa única vida toda a diáspora portuguesa. Principalmente aquela (ou a daqueles) de quem a História menos falou: a dos obreiros de um povo composto por gente que se aventurou no mundo para ser alguém – e o conseguiu.
Para no-lo apresentar e falar dele, estará no próximo dia 25 de Novembro, na Sala Polivalente 1 da Biblioteca Municipal e Portalegre, o seu autor, talvez cumprindo o mesmo destino de outros conterrâneos que de terra em terra foram desvendando novos mundos ao mundo. Serranos, transmontanos, minhotos, beirões, madeirenses, açoreanos, homens e mulheres de qualidade e valor, que com engenho e galhardia souberam edificar este “reino” que tanto sublimamos e pelo qual pelejamos dia a dia, acentuando com a língua a identidade pátria numa Europa una que ora se constitui. Lá estaremos, porque certamente jamais iremos permitir esquecer de quanto todos somos grande parte daquilo que fomos.
Sobre os Cem Anos de Solidão, aqui ficam as minhas considerações:
Ainda não pude averiguar a realidade da existência do personagem Aureliano Buendía, logo te informo das descobertas;
Quando os soldados fazem a revista à casa dos Buendía à procura do sindicalista, é-lhes oferecido um peixinho, mas no final da obra diz-se que estes foram escondidos dos soldados. Incongruência, lapso, ou propositado?
Mais profundo é o tema do incesto, entre irmãos e, sobretudo, entre tia e sobrinho. Será um fantasma, uma reflexão ou?
O papel do capitalismo, sob a forma da exploração bananeira, da mentira da sua existência, e da desgraça que causou à população, afinal, qual é?
O destino trágico da família, como que traçado, afinal esta escrito nos manuscritos, numa referência a alguns contos de J. L. Borges, face aos avanços da investigação sobre o genoma humano, será mesmo inevitável?
A forma de encarar o sexo como uma necessidade inultrapassável, mas ao mesmo tempo um caminho para o amor pleno.
O papel dos mitos, como o de Moisés, descoberto pelas águas, por exemplo, será um reinventar dos mitos?
A personagem, deliberadamente ou não, esquecida de Santa, que é, apenas realçada no final da obra, será um exemplo das mulheres dedicadas à casa e que, passando despercebidas, têm um papel fundamental na vida de muitas pessoas?
Fico por aqui, pois a mensagem alonga-se, e fico à espera de novidades!
Abraço,
João Paulo
Ainda não pude averiguar a realidade da existência do personagem Aureliano Buendía, logo te informo das descobertas;
Quando os soldados fazem a revista à casa dos Buendía à procura do sindicalista, é-lhes oferecido um peixinho, mas no final da obra diz-se que estes foram escondidos dos soldados. Incongruência, lapso, ou propositado?
Mais profundo é o tema do incesto, entre irmãos e, sobretudo, entre tia e sobrinho. Será um fantasma, uma reflexão ou?
O papel do capitalismo, sob a forma da exploração bananeira, da mentira da sua existência, e da desgraça que causou à população, afinal, qual é?
O destino trágico da família, como que traçado, afinal esta escrito nos manuscritos, numa referência a alguns contos de J. L. Borges, face aos avanços da investigação sobre o genoma humano, será mesmo inevitável?
A forma de encarar o sexo como uma necessidade inultrapassável, mas ao mesmo tempo um caminho para o amor pleno.
O papel dos mitos, como o de Moisés, descoberto pelas águas, por exemplo, será um reinventar dos mitos?
A personagem, deliberadamente ou não, esquecida de Santa, que é, apenas realçada no final da obra, será um exemplo das mulheres dedicadas à casa e que, passando despercebidas, têm um papel fundamental na vida de muitas pessoas?
Fico por aqui, pois a mensagem alonga-se, e fico à espera de novidades!
Abraço,
João Paulo
11.12.2003
BOM DIA COMUNIDADE!!...
“Quando se consegue alguma coisa que se deseja, é muito bom deixá-la onde está.”
W. Churchil
Eu devia começar por referir a minha indignação sobre o holocausto dos animais e das circunstâncias que rodearam ou foram consequentes à temática do recente “Planeta Azul”, bem como de salientar que o Dia Europeu Sem Carros não serve para fazer macacadas políticas, mas sim para meditar e reflectir sobre os efeitos do excesso de carbono na atmosfera, e de como esta elevada comparticipação na composição do ar afecta o nosso metabolismo, que está “programado” para recebê-lo em percentagens de oxigénio, azoto e carbono, muito diferentes daquelas que é obrigado a receber actualmente. Ou por outra: se fosse um cidadão empenhado e informado como deve ser qualquer indivíduo adulto europeu, responsável por si e pelos seus familiares, conterrâneos, patriotas, continentais e irmãos de espécie – a que se convencionou chamar humanidade –, eu estaria moralmente obrigado a manifestar o meu repúdio e não subscrição dessas duas atitudes humanas que colocam o homem com um QI (Quociente de Inteligência) muito inferior ao de qualquer galinha, bicho doméstico sobre o qual rezam as crónicas e más-línguas populares enaltecendo-lhe singularmente a sua estupidez natural, desinteresse estético, a ditadura política ou carismática do galo, e o gregarismo primário, quase resumido ao cantar de pôr ovo, arrulhar de ensinar pintos a conhecer grãos comestíveis, esgaravatar na vida e esganiçar-se com alarido se acossadas. Mas não irei fazê-lo, dado que esses acontecimentos são indignos de figurar lado a lado com iniciativas de portalegrenses que negam a baixeza geral e demonstram que há outros caminhos e veredas passíveis de serem trilhados pelos que querem fugir à bestialidade: o da leitura de obras literárias, gerando com ela convívio, debate, troca e partilha de saberes ou afectos, conhecimentos diversos, confrontos de projectos de sociedade e teorias comunitárias, aprofundamento da democracia e valorização pessoal – enfim, o manifesto interesse na criação de uma Comunidade de Leitores em Portalegre.
E o que é uma Comunidade de Leitores? Confesso que não sei!... Podia responder que é cozido e assado, ou que existem em Portugal diversas deste ou daquele estilo, como podia salientar que se fosse eu a idealizá-la teria esta ou aquela particularidade que a identificaria face às demais existente pelo país fora. Todavia, se o fizesse estaria simplesmente a fazer demagogia barata e prognóstico de intenções... e a comportar-me como qualquer cocó que quer poleiro e milho fresco.
Portanto, embora reconheça que é uma acção cultural que teve enunciados anteriores e cuja originalidade é tão grande aqui, onde em períodos recentes e distintos aconteceu pelo menos duas vezes ( uma na Biblioteca Municipal de Portalegre sob a coordenação de Inês Pedrosa, e outra na Escola Superior de Educação com a responsabilidade projectiva de um grupo de alunos do curso de Jornalismo e Comunicação), como em qualquer outra parte do planeta, trazendo a lume modalidades, enquadramentos, autores, obras e quoruns emblemáticos de outras tantas maneiras de abordar o conceito e realizar a ideia, estou em crer que finalmente existe na cidade um conjunto de pessoas interessadas na iniciativa e essencialmente empenhadas em levá-la por diante, se atender sobretudo ao que me disseram aquelas com quem pessoalmente contactei acerca dela.
Nesta perspectiva, talvez entusiasmado por uma motivação antiga e por demais conhecida da maioria dos portalegrenses, ouso salientar o meu agrado perante o facto, assim como apresentar publicamente a minha candidatura a integrá-la como qualquer outro leitor que, por diferentes motivações ou expectativas, a ela pertença e se não importe – ou tolere – a colaboração de quem é subversivamente indisciplinado em termos de leitura, e pavoneia o seu diletantismo nestas páginas. Mas que gosta de ler! E que aprendeu o significado da palavra sonho nos romances que sua avó lhe leu nas tardes estivais à sombra de um limoeiro ou nos contos que lhe narrava à lareira, nas noites de Inverno. Que assimilou três coisas distintas e as uniu numa só, a que mais tarde veio a reconhecer como próximo daquilo que as enciclopédias definem como literatura, entrelaçando as pontas da esperança, da liberdade e fantasia, fazendo com elas aquele tapete voador que as mil e uma leituras lhe emprestaram à realidade, mas que ao invés de evasão lhe propuseram novos problemas e questões, inquietudes e preocupações, sensibilidade e dispares técnicas de abordagem a ela. E assim aprendeu que dizer amo-te, tanto pode dito usando só duas palavras como com milhentas páginas delas, resmas e resmas de obras, ou pode ser dirigida a inúmeros seres e universos, desde as coisas á natureza, dos cosmos à simples formiga, à miss universo como à ervinha minúscula dada por inútil, que ninguém hesita em arrancar dos seus canteiros... Porque...
Porque não desconheço a palavra gratidão e sei dizer, obrigado companheiros! Obrigado comunidade! Obrigado aventureira do além e lá na eternidade esperas por mim, à sombra dos limoeiros celestes, a fim me contares todas as histórias que não tiveste tempo de contar-me aqui na terra... E obrigado palavra, que inventaste para todas as coisas e seres a certeza de eternidade!
“Quando se consegue alguma coisa que se deseja, é muito bom deixá-la onde está.”
W. Churchil
Eu devia começar por referir a minha indignação sobre o holocausto dos animais e das circunstâncias que rodearam ou foram consequentes à temática do recente “Planeta Azul”, bem como de salientar que o Dia Europeu Sem Carros não serve para fazer macacadas políticas, mas sim para meditar e reflectir sobre os efeitos do excesso de carbono na atmosfera, e de como esta elevada comparticipação na composição do ar afecta o nosso metabolismo, que está “programado” para recebê-lo em percentagens de oxigénio, azoto e carbono, muito diferentes daquelas que é obrigado a receber actualmente. Ou por outra: se fosse um cidadão empenhado e informado como deve ser qualquer indivíduo adulto europeu, responsável por si e pelos seus familiares, conterrâneos, patriotas, continentais e irmãos de espécie – a que se convencionou chamar humanidade –, eu estaria moralmente obrigado a manifestar o meu repúdio e não subscrição dessas duas atitudes humanas que colocam o homem com um QI (Quociente de Inteligência) muito inferior ao de qualquer galinha, bicho doméstico sobre o qual rezam as crónicas e más-línguas populares enaltecendo-lhe singularmente a sua estupidez natural, desinteresse estético, a ditadura política ou carismática do galo, e o gregarismo primário, quase resumido ao cantar de pôr ovo, arrulhar de ensinar pintos a conhecer grãos comestíveis, esgaravatar na vida e esganiçar-se com alarido se acossadas. Mas não irei fazê-lo, dado que esses acontecimentos são indignos de figurar lado a lado com iniciativas de portalegrenses que negam a baixeza geral e demonstram que há outros caminhos e veredas passíveis de serem trilhados pelos que querem fugir à bestialidade: o da leitura de obras literárias, gerando com ela convívio, debate, troca e partilha de saberes ou afectos, conhecimentos diversos, confrontos de projectos de sociedade e teorias comunitárias, aprofundamento da democracia e valorização pessoal – enfim, o manifesto interesse na criação de uma Comunidade de Leitores em Portalegre.
E o que é uma Comunidade de Leitores? Confesso que não sei!... Podia responder que é cozido e assado, ou que existem em Portugal diversas deste ou daquele estilo, como podia salientar que se fosse eu a idealizá-la teria esta ou aquela particularidade que a identificaria face às demais existente pelo país fora. Todavia, se o fizesse estaria simplesmente a fazer demagogia barata e prognóstico de intenções... e a comportar-me como qualquer cocó que quer poleiro e milho fresco.
Portanto, embora reconheça que é uma acção cultural que teve enunciados anteriores e cuja originalidade é tão grande aqui, onde em períodos recentes e distintos aconteceu pelo menos duas vezes ( uma na Biblioteca Municipal de Portalegre sob a coordenação de Inês Pedrosa, e outra na Escola Superior de Educação com a responsabilidade projectiva de um grupo de alunos do curso de Jornalismo e Comunicação), como em qualquer outra parte do planeta, trazendo a lume modalidades, enquadramentos, autores, obras e quoruns emblemáticos de outras tantas maneiras de abordar o conceito e realizar a ideia, estou em crer que finalmente existe na cidade um conjunto de pessoas interessadas na iniciativa e essencialmente empenhadas em levá-la por diante, se atender sobretudo ao que me disseram aquelas com quem pessoalmente contactei acerca dela.
Nesta perspectiva, talvez entusiasmado por uma motivação antiga e por demais conhecida da maioria dos portalegrenses, ouso salientar o meu agrado perante o facto, assim como apresentar publicamente a minha candidatura a integrá-la como qualquer outro leitor que, por diferentes motivações ou expectativas, a ela pertença e se não importe – ou tolere – a colaboração de quem é subversivamente indisciplinado em termos de leitura, e pavoneia o seu diletantismo nestas páginas. Mas que gosta de ler! E que aprendeu o significado da palavra sonho nos romances que sua avó lhe leu nas tardes estivais à sombra de um limoeiro ou nos contos que lhe narrava à lareira, nas noites de Inverno. Que assimilou três coisas distintas e as uniu numa só, a que mais tarde veio a reconhecer como próximo daquilo que as enciclopédias definem como literatura, entrelaçando as pontas da esperança, da liberdade e fantasia, fazendo com elas aquele tapete voador que as mil e uma leituras lhe emprestaram à realidade, mas que ao invés de evasão lhe propuseram novos problemas e questões, inquietudes e preocupações, sensibilidade e dispares técnicas de abordagem a ela. E assim aprendeu que dizer amo-te, tanto pode dito usando só duas palavras como com milhentas páginas delas, resmas e resmas de obras, ou pode ser dirigida a inúmeros seres e universos, desde as coisas á natureza, dos cosmos à simples formiga, à miss universo como à ervinha minúscula dada por inútil, que ninguém hesita em arrancar dos seus canteiros... Porque...
Porque não desconheço a palavra gratidão e sei dizer, obrigado companheiros! Obrigado comunidade! Obrigado aventureira do além e lá na eternidade esperas por mim, à sombra dos limoeiros celestes, a fim me contares todas as histórias que não tiveste tempo de contar-me aqui na terra... E obrigado palavra, que inventaste para todas as coisas e seres a certeza de eternidade!
11.08.2003
O grande carnaval
“Pessoa chata é aquela que, quando se lhe pergunta como está, vai contando, contando...”
Bert Taylor
O destino dos portugueses, sabe-se agora, graças à descoberta de alguns génios e talentos antes encerrados no limbo do anonimato, é de natureza cíclica e dependente sobretudo de modas, tal e qual como o mau tempo, as férias em ilhas do terceiro mundo ou a tendência outonal para as tonalidades castanhas e amarelas, não esquecendo as mini-saias em amarelo torrado que assentam muito bem no café-com-leite. Mais ou menos todos os anos, por esta altura, os órgãos de comunicação social repetem a dose das greves, propinas e reivindicações estudantis, os problemas da justiça e as questões orçamentais, Fátima e a divina comédia papal da sucessão, o atraso dos portugueses face ao resto da Europa, a fuga aos impostos e a generalizada corrupção, os nóbeis e as consequências globais do 11 de Setembro, as acções sindicais em torno da legislação laboral, os aumentos salariais e as actualizações das reformas ou pensões. Digamos que é a altura de fazer a cartinha prò Pai Natal a encomendar o presente, visto que o passado não valeu grande coisa e o futuro se avizinha contaminado pela qualidade dos tempos anteriores a ele. Às vezes, mais esporadicamente e à má fila, entrevista-se o presidente da república e aproveita-se a oportunidade para anunciar os próximos candidatos ao cargo!
Vindos de fora, em alguns rasgos periclitantes, repentinos e sincopados das agências noticiosas internacionais, sabe-se que o mundo pula e avança todavia, ressentidos do impasse a que somos obrigados, dizemos que é muito bem-feita e que não temos nada com isso... O que em certa medida é verdade (ou infelizmente verídico), e à semelhança dos governos que quando se propõem a enfrentar as dificuldades a primeira coisa que fazem é atribui-las à oposição, tal como o marido impotente afirma que a culpa do seu fraco desempenho se deve exclusivamente à fealdade da esposa, conformamo-nos com a ideia de que se estamos atrasados em termos científicos, económicos, culturais, de desenvolvimento humano e coesão social, a responsabilidade não é nossa mas sim desses países avançados que não esperam por nós, não nos puxam e acarinham, e ainda por cima disparam a aprovar textos fundamentais para o progresso sem sequer nos perguntarem como redigi-los, a exemplo vivo do que foram os casos do Pacto Para o Desenvolvimento do Milénio, a Carta dos Direitos da Natureza ou a Constituição Europeia.
Alguns, deveras optimistas e crentes nos poderes das águas santas e sulfurosas das nossas safras serranas, cientes de que somos um país de intelectuais e cujos 1300 cursos do sistema hão-de dar frutos sábios, nem que seja por enxerto genético que garanta evidenciada melhoria nas biologias e matemáticas, não duvidam minimamente do nosso poder de remendeiros com engenho e arte, e aceleram a coisa destruindo jardins e derrubando árvores a fim e fazer parques de estacionamento para os seus popós mais dos dos funcionários públicos que os servem, contribuindo assim com outra imaginativa e genuína interpretação de desenvolvimento sustentado para a terminologia da gaia ciência e progresso mundial. Exemplo vivo daquilo que um sistema educativo pode fazer por nós e pelo nosso futuro, eis que se aprontam a obrar catacumbas onde esconder as suas armas de destruição maciça à base de monóxido de carbono, quais apóstolos das grandes certezas universais baseadas no antropocêntrico sentimento comum a quem lida com o erário público, que é o desde que estejamos bem os demais que se lixem!
Por outro lado, e fazendo jus nas medidas de contenção da despesa ou cortes no investimento público, aplicando os respectivos tabefes na cultura e defesa ambiental, pondo de rastos e a pedir por portas iniciativas que valorizavam a região e sensibilizavam a população mundial para os graves problemas da nossa actualidade, como era o caso do Festival Ambiente – Encontros de Imagem e Som do Norte Alentejano, financiam-se e patrocinam-se obras intragáveis de promoção pessoal, teses de doutoramento, palimpsestos de cordel para empalar ceguinhos, que se não fossem os prefácios e introduções a dar-lhe sustância, caíam na gorpelha dos nunca abertos nem desfolhados... Como? Porquê? A quem assiste o direito de tirar o pão da boca e qualidade de vida de aqueloutros que também são homens mas não investem na regra dos dois pesos e duas medidas? Por onde andam a consciência cívica e democrática daqueles que, não por falta de conhecimentos, de estatuto social ou habilitações, deviam ser os primeiros a pugnar e a corrigir as desigualdades ou atropelos de cidadania?...
Eu respondo que não sei, e não serei o único a dar tamanha resposta. Contudo, tenho uma certeza porém: é que o carnaval é só em Fevereiro do ano que vem! É que, acreditem ou não, o calendário e o bom senso não se mudam de um dia para o outro, e se César Augusto o fez quanto aos meses do ano, aumentando-os, teve também que reduzi-los no número de dias... Que o mesmo é dizer, que quando os meios são restritos e as necessidades diversas, as prioridades residem naquilo que é essencial.
“Pessoa chata é aquela que, quando se lhe pergunta como está, vai contando, contando...”
Bert Taylor
O destino dos portugueses, sabe-se agora, graças à descoberta de alguns génios e talentos antes encerrados no limbo do anonimato, é de natureza cíclica e dependente sobretudo de modas, tal e qual como o mau tempo, as férias em ilhas do terceiro mundo ou a tendência outonal para as tonalidades castanhas e amarelas, não esquecendo as mini-saias em amarelo torrado que assentam muito bem no café-com-leite. Mais ou menos todos os anos, por esta altura, os órgãos de comunicação social repetem a dose das greves, propinas e reivindicações estudantis, os problemas da justiça e as questões orçamentais, Fátima e a divina comédia papal da sucessão, o atraso dos portugueses face ao resto da Europa, a fuga aos impostos e a generalizada corrupção, os nóbeis e as consequências globais do 11 de Setembro, as acções sindicais em torno da legislação laboral, os aumentos salariais e as actualizações das reformas ou pensões. Digamos que é a altura de fazer a cartinha prò Pai Natal a encomendar o presente, visto que o passado não valeu grande coisa e o futuro se avizinha contaminado pela qualidade dos tempos anteriores a ele. Às vezes, mais esporadicamente e à má fila, entrevista-se o presidente da república e aproveita-se a oportunidade para anunciar os próximos candidatos ao cargo!
Vindos de fora, em alguns rasgos periclitantes, repentinos e sincopados das agências noticiosas internacionais, sabe-se que o mundo pula e avança todavia, ressentidos do impasse a que somos obrigados, dizemos que é muito bem-feita e que não temos nada com isso... O que em certa medida é verdade (ou infelizmente verídico), e à semelhança dos governos que quando se propõem a enfrentar as dificuldades a primeira coisa que fazem é atribui-las à oposição, tal como o marido impotente afirma que a culpa do seu fraco desempenho se deve exclusivamente à fealdade da esposa, conformamo-nos com a ideia de que se estamos atrasados em termos científicos, económicos, culturais, de desenvolvimento humano e coesão social, a responsabilidade não é nossa mas sim desses países avançados que não esperam por nós, não nos puxam e acarinham, e ainda por cima disparam a aprovar textos fundamentais para o progresso sem sequer nos perguntarem como redigi-los, a exemplo vivo do que foram os casos do Pacto Para o Desenvolvimento do Milénio, a Carta dos Direitos da Natureza ou a Constituição Europeia.
Alguns, deveras optimistas e crentes nos poderes das águas santas e sulfurosas das nossas safras serranas, cientes de que somos um país de intelectuais e cujos 1300 cursos do sistema hão-de dar frutos sábios, nem que seja por enxerto genético que garanta evidenciada melhoria nas biologias e matemáticas, não duvidam minimamente do nosso poder de remendeiros com engenho e arte, e aceleram a coisa destruindo jardins e derrubando árvores a fim e fazer parques de estacionamento para os seus popós mais dos dos funcionários públicos que os servem, contribuindo assim com outra imaginativa e genuína interpretação de desenvolvimento sustentado para a terminologia da gaia ciência e progresso mundial. Exemplo vivo daquilo que um sistema educativo pode fazer por nós e pelo nosso futuro, eis que se aprontam a obrar catacumbas onde esconder as suas armas de destruição maciça à base de monóxido de carbono, quais apóstolos das grandes certezas universais baseadas no antropocêntrico sentimento comum a quem lida com o erário público, que é o desde que estejamos bem os demais que se lixem!
Por outro lado, e fazendo jus nas medidas de contenção da despesa ou cortes no investimento público, aplicando os respectivos tabefes na cultura e defesa ambiental, pondo de rastos e a pedir por portas iniciativas que valorizavam a região e sensibilizavam a população mundial para os graves problemas da nossa actualidade, como era o caso do Festival Ambiente – Encontros de Imagem e Som do Norte Alentejano, financiam-se e patrocinam-se obras intragáveis de promoção pessoal, teses de doutoramento, palimpsestos de cordel para empalar ceguinhos, que se não fossem os prefácios e introduções a dar-lhe sustância, caíam na gorpelha dos nunca abertos nem desfolhados... Como? Porquê? A quem assiste o direito de tirar o pão da boca e qualidade de vida de aqueloutros que também são homens mas não investem na regra dos dois pesos e duas medidas? Por onde andam a consciência cívica e democrática daqueles que, não por falta de conhecimentos, de estatuto social ou habilitações, deviam ser os primeiros a pugnar e a corrigir as desigualdades ou atropelos de cidadania?...
Eu respondo que não sei, e não serei o único a dar tamanha resposta. Contudo, tenho uma certeza porém: é que o carnaval é só em Fevereiro do ano que vem! É que, acreditem ou não, o calendário e o bom senso não se mudam de um dia para o outro, e se César Augusto o fez quanto aos meses do ano, aumentando-os, teve também que reduzi-los no número de dias... Que o mesmo é dizer, que quando os meios são restritos e as necessidades diversas, as prioridades residem naquilo que é essencial.
10.31.2003
Lista de autores e obras propostas para a sessão da Comunidade de Leitores, do dia 10 de Dezembro de 2003:
Clarice Lispector - A Hora da Estrela;
José Saramago - Levantado do Chão;
José Cardoso Pires - A Balada da Praia dos Cães, Alexandra Alpha e Dinossauro Excelentíssimo;
Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser;
Marguerite Duras - A Dor;
Fred Ulman - Reencontro;
Toni Morrison - Amada;
Fernando Savater - O Jardim das Dúvidas;
Jorge Semprun - A Escrita ou a Vida;
Steven Lukes - O Curioso Iluminismo do prof. Caritat;
José Rodrigues Miguéis – O Milagre Segundo Salomé;
António Lobo Antunes - Manual dos Inquisidores e Os Cus de Judas;
Denis Diderot - A Religiosa;
Batista Bastos – Tecido de Outono;
Boris Vian – A Espuma dos Dias;
Stendhal - O Vermelho e o Negro;
Franz Kafka - O Processo;
Virginia Wolf - Um Quarto Que Seja Seu;
Graciliano Ramos - Vidas Secas;
John Steinbeck - As Vinhas da Ira;
Anne Frank - Diário;
Oscar Wilde - De Profundis;
Robert A. Heinlein – Um Estranho Numa Terra Estranha;
Vandam Chalamov - Os Contos de Kolimá;
Primo Levi - Se Isto é um Homem;
Marguerite Yourcenar - A Obra ao Negro.
Aceitam-se propostas, mas convinha que fôssemos apurando a nossa escolha até ao dia 22 de Novembro, para não perdermos demasiado tempo a discutir qual a eleita.
Obrigado
Saudações
JCastanho
Fernando Mano propõe “Levantado do Chão”, de José Saramago, e “Se Isto é um Homem”, de Primo Levi.
José Mourato propõe “Um Estranho Numa Terra Estranha”, de Robert A. Heinlein.
Filipa Ribeiro propõe além de "A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson Através da Suécia", de Selma Lagerlof, e "Um Estranho Numa Terra Estranha", de Robert A. Heinlein, para novas sessões, também, e para esta, "A Dor", de Marguerite Duras, "O Jardim das Dúvidas", de Fernando Savater, "A Escrita ou a Vida", de Jorge Semprun, "O Processo", de Franz Kafka, e "Um Quarto Que Seja Meu", de Virginia Wolf.
Haja mais sugestões!... O mail oficial é o grokare@hotmail.com
Usem-no.
Clarice Lispector - A Hora da Estrela;
José Saramago - Levantado do Chão;
José Cardoso Pires - A Balada da Praia dos Cães, Alexandra Alpha e Dinossauro Excelentíssimo;
Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser;
Marguerite Duras - A Dor;
Fred Ulman - Reencontro;
Toni Morrison - Amada;
Fernando Savater - O Jardim das Dúvidas;
Jorge Semprun - A Escrita ou a Vida;
Steven Lukes - O Curioso Iluminismo do prof. Caritat;
José Rodrigues Miguéis – O Milagre Segundo Salomé;
António Lobo Antunes - Manual dos Inquisidores e Os Cus de Judas;
Denis Diderot - A Religiosa;
Batista Bastos – Tecido de Outono;
Boris Vian – A Espuma dos Dias;
Stendhal - O Vermelho e o Negro;
Franz Kafka - O Processo;
Virginia Wolf - Um Quarto Que Seja Seu;
Graciliano Ramos - Vidas Secas;
John Steinbeck - As Vinhas da Ira;
Anne Frank - Diário;
Oscar Wilde - De Profundis;
Robert A. Heinlein – Um Estranho Numa Terra Estranha;
Vandam Chalamov - Os Contos de Kolimá;
Primo Levi - Se Isto é um Homem;
Marguerite Yourcenar - A Obra ao Negro.
Aceitam-se propostas, mas convinha que fôssemos apurando a nossa escolha até ao dia 22 de Novembro, para não perdermos demasiado tempo a discutir qual a eleita.
Obrigado
Saudações
JCastanho
Fernando Mano propõe “Levantado do Chão”, de José Saramago, e “Se Isto é um Homem”, de Primo Levi.
José Mourato propõe “Um Estranho Numa Terra Estranha”, de Robert A. Heinlein.
Filipa Ribeiro propõe além de "A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson Através da Suécia", de Selma Lagerlof, e "Um Estranho Numa Terra Estranha", de Robert A. Heinlein, para novas sessões, também, e para esta, "A Dor", de Marguerite Duras, "O Jardim das Dúvidas", de Fernando Savater, "A Escrita ou a Vida", de Jorge Semprun, "O Processo", de Franz Kafka, e "Um Quarto Que Seja Meu", de Virginia Wolf.
Haja mais sugestões!... O mail oficial é o grokare@hotmail.com
Usem-no.
10.30.2003
As histórias repetem-se em trinta exemplos e os porquês continuam por esclarecer
“Quando vemos a carrinha aproximar-se, dispersamos”
“Sou um toxicodependente assumido. Estou aqui também por causa disso”, diz João Miguel, arrumador de carros na área do Bom Sucesso, no Porto, para quem arrumar carros é claramente uma opção que aceitou na sua vida, como sendo a única resposta que obteve sem fazer qualquer questão.
João Miguel, arrumador há dois anos, reconhece que a zona onde normalmente arruma carros tem sido muito policiada, o que dificulta o seu trabalho mas não o impede. “Temos de estar sempre alerta. Quando vemos a carrinha a aproximar-se ou eles [os agentes da polícia municipal] a passearem por aí, dispersamos para que eles não nos levem.” É que já o levaram algumas vezes para a sede da polícia municipal (PM), onde teve de ficar retido durante algumas horas. Mas o pior mesmo, segundo disse foi quando o levaram para os Carvalhos. “Meteram-me na carrinha e levaram-me para os Carvalhos, para perto de um largo onde fazem a feira. Deixaram-me lá só para voltar a pé para aqui. Isso não está certo”, conta. “E ainda me bateram porque eu não queria entrar na carrinha. Só se fosse parvo é que ia querer. Não estou a roubar nem a fazer mal a ninguém. Para que é que me chateiam?”, acrescenta. João Miguel é daqueles casos que não quer nem ouvir falar no programa Porto Feliz, promovido pela Câmara Municipal do Porto (CMP), pois, nas suas próprias palavras, “aquilo é como estar preso”.
Entretanto, aproxima-se Vítor, de 35 anos e arrumador há 12, sempre no Bom Sucesso que está inserido no programa Porto Feliz, tendo já iniciado o tratamento com metadona. “Preciso de dinheiro na mesma. Não tenho emprego e se o peço, só me dizem para esperar. Tenho de esperar para tudo e até lá tenho de comer. Nós já consumimos [droga] há muitos anos e se não for isto também não arranjamos nada”, reconhece. Para piorar a sua situação, diz que as pessoas “influenciadas pela publicidade da CMP, já não dão tanto como antes”. Por dia, soma entre cinco a dez euros por arrumar carros. “Tudo o que queria era ter um emprego, um sítio para dormir e comer todos os dias”, desabafa.
Nuno Nogueira é arrumador há 11 anos. Há cerca de três meses, foi levado duas vezes seguidas pela polícia com “fitas verdes nos bonés que mais parecem azulejos de casa de banho, como o estádio do Sporting”. É assim que descreve os agentes que operam na PM. “Fiquei duas horas lá na Pasteleira e depois tive de voltar a pé. Numa das vezes, recusei-me a ir e eles ameaçaram-me e chamaram-me nomes”, reclama. “É claro que acho mal que nos levem porque eles só querem é falar sem nos ouvirem em altura nenhuma. Além disso, não nos ajudam. Esta mentalidade portuguesa é muito hipócrita”. Apesar disso, vai dizendo que os polícias andam mais “tranquilos”, pois “também eles já estão contra o Rio”.
A lista de testemunhos continua. Flávio, arrumador de carros há quatro anos na Ribeira do Porto, foi levado para a sede da PM, na Pasteleira, pela última vez fazem agora duas semanas. Se foi maltratado? “Nunca somos muito bem tratados, eles estão sempre a dizer “bocas”, mas fisicamente não fui agredido nas duas vezes que tive de ir”. Para Flávio, a CMP “não tinha nada que se meter com os arrumadores”. Manuel Oliveira arruma carros sobretudo na Praça da Liberdade. Nunca foi levado pela PM, segundo ele, porque está em tratamento no CAT- Centro de apoio aos toxicodependentes. “Pois, mas o CAT não nos dá comida nem trabalho. Aliás, soube que alguns colegas meus conseguiram um emprego lá com o programa do “Porto Feliz” e já perguntei o que preciso de fazer e responderam-me que andasse na rua a arrumar carros que eles acabariam por me levar”.
António Fontes, de 36 anos, também já foi levado três vezes pela PM, a última foi há, aproximadamente, um mês. “Como sou de Famalicão não sou levado tantas vezes. Na última vez que fui, perguntei-lhes se queriam que fosse roubar e responderam-me com pontapés. E ainda tive de estar lá na “seca” de duas horas e voltar, depois, a pé”. Já Júlio, nome fictício, diz não ter queixas da polícia municipal, o mesmo já não se passando com a PSP. “Andam aí dois que estão marcadinhos. Estou só à espera que hajam partilhas lá em casa para ter um carrinho e me pôr atrás deles. Olhe, isto é graças a eles”, comenta mostrando a mão inchada e uma perna com alguns hematomas. De acordo com Júlio, os agentes da PSP já o levaram várias vezes, tendo a última ocorrido há oito dias. “Ficam-nos com o dinheiro e ainda gozam connosco. Só meus já lá ficaram com cerca de 100 euros. Põem o dinheiro num envelope para nos taparem os olhos, mas vão é gastá-lo em bares”.
Paulo Fernandes, arrumador de carros há cinco anos, é frequentemente levado por agentes da PSP, pois na zona onde trabalha existe uma esquadra daquela força policial. “Vá lá, desde a passada quinta-feira que não me levam. Até já são eles que me dizem para ir para outro lado porque ali ao fundo moram familiares do Rui Rio. É que assim ele pensa que acaba connosco”, ironiza.
“Acho mal levarem-nos para a Pasteleira porque é muito longe daqui (Santa Catarina), não se preocupam connosco. Sabem que não temos dinheiro para táxi nem para autocarro”, refere João Carlos, de 32 anos. Para este arrumador o programa Porto Feliz não resolve todos os seus problemas nem lhes dá dinheiro para sobreviverem. “Não tenho razões de queixa da PM, já fui levado duas vezes, mas nunca me trataram mal, embora perceba que isso é uma questão de sorte, até porque só lá estive duas horas de castigo”, explica. Um castigo que não percebe por que acontece.
Henrique Ribeiro é toxicodependente há 29 anos e arrumador de carros na Ribeira do Porto, onde vive com a mulher, a filha e duas netas, durante quase outros tantos anos. “Nunca estive preso e a polícia não me incomoda, já me conhecem e sabem que já faço “parte da mobília” aqui da zona”, explica. Henrique soube desta nova metodologia da PM através de Nuno Cardoso, ex-presidente da CMP, que lhe veio perguntar se já tinha sido levado pelos agentes. “Eu nunca fui, mas sei de muitos que já foram. Uma coisa é certa, 90% dos arrumadores roubam e isso baixou com a polícia, a qual agora anda aqui muito. Mas o que o Rio gasta em cartazes com mensagens para as pessoas não darem moedas, bem podia fazer de facto alguma coisa que nos ajudasse, como por exemplo, arranjar algumas casas como aquela em que vivo. É uma miséria”, critica. No passado dia 9 de Setembro, Henrique foi aceite no projecto “Porto Feliz”, mas não vai continuar, pois, segundo diz, “é como estar preso”. “Falta-me é apoio em casa, essa é que era a terapia que eu precisava”, considera.
É automático: uma carrinha da PSP passa e Humberto, nome fictício, afasta-se rapidamente da rotunda onde está a arrumar carros. Pouco depois, quando já não se vêem polícias, lá vem ele. “É melhor até para os polícias que eu fuja e que não os veja”, diz com visível agressividade. Já foi levado pela PM por três vezes, a última das quais aconteceu há quinze dia, em que, pelo que afirma, “foi puxado violentamente para dentro da carrinha da PM. “Eles agora estão tramados comigo, não pensem que me levam e que eu fico lá quieto no banquinho a vê-los tirarem-me o dinheiro e a gozarem com a minha cara”, ameaça. “Também tenho em casa uma coisa que faz buracos e perdido por cem, perdido por mil. É preciso é saber fazer as coisas”, continua, alegando que tem o direito de trabalhar para sustentar os seus vícios. “É claro que fico chateado quando não me dão nada, mas não posso obrigar as pessoas a fazê-lo. Agora, a CMP quer acabar connosco, mas o Rio devia era ter juízo e sair lá do seu luxo para ver como é a vida na cidade onde ele pensa que manda”.
Joaquim Gomes dos Santos, 37 anos, e já foi levado três vezes pela PM. “Por acaso não fui muito mal tratado, mas ‘tava doente e não me deixaram sair. Ainda por cima sou eu que trato da minha mãe, que está acamada e por volta das seis da tarde tenho de lhe ir dar os medicamentos”, conta Joaquim que, da última vez que lá esteve, há cerca de três semanas, ficou retido durante três horas. “Não fazemos mal a ninguém, ninguém nos apoia. Só, de vez em quando é que nos vêm aqui dar umas refeições. Mas o que precisava mesmo era de um emprego. Estava disposto a fazer qualquer coisa”. Para Joaquim, a CMP “não dá nada e agora as pessoas dão menos dinheiro por causa dele. Só consigo fazer cerca de dez euros por dia”. Assim, na opinião de Joaquim, o que a polícia devia fazer era “apanhar aqueles que vendem droga. Esses é que nos arruinam”, reconhece.
É num pequeno jardim junto ao Hospital Conde Ferreira que o JN vai encontra um grupo numeroso de arrumadores de carros, quase todos inseridos no programa “Porto Feliz”. Vítor é um deles. Já foi levado três vezes pela PM, a última vez foi há cerca de dois meses. “Se nos recusamos a ir, agridem-nos e não querem saber se somos doentes, se estamos de muletas, não lhes interessa coisa alguma sobre nós”, reclama. O Vítor caiu quando ia a entrar no autocarro e desde aí tem que usar muletas. O diálogo entre os arrumadores começa de imediato. “Dão-te casa, emprego, comida decente?”, pergunta Luís, que também está inserido no programa promovido pela CMP. Para este último, é “natural” que os polícias “percam a cabeça”. Afinal, diz, “são homens como nós”. Já Gonçalo, nome falso, não perdoa e revolta-se facilmente com as autoridades e explica porquê: “Dizem-nos que somos delinquentes, que nunca nos vamos curar, ainda nos batem por estarmos a tentar fazer algum dinheiro. Qual é o sentido de nos fecharem numa esquadra durante três horas e depois mandarem-nos embora? Quem é que querem enganar?”, questiona indignado. Mais não diz porque o tempo para almoçar no Hospital é pouco. Entretanto, chega a hora de Luís ir “fazer o tratamento”. Já na enfermaria, toma três comprimidos receitados pela sua psiquiatra. “É a medicação para malucos”, ironiza. Segue-se o teste dos limites, ou seja, verificar através da análise à urina que drogas foram consumidas. No caso do Luís, apenas deu positivo o teste do haxixe. À saída, diz “Que bom, ainda na 6ª feira consumi cocaína e não acusou”.
Outro caso especial é o de “Quicas”, nome por que é conhecido um outro arrumador de carros, na área do Bom Sucesso e da Praça da Galiza. “Não consegui fugir às minhas circunstâncias e não sei quem o conseguiria”, afirma. E estas foram as suas circunstâncias de vida, desde sempre. Quicas é toxicodependente assim como os seus irmãos, nasceu num dos bairros degradados do Porto, a mãe é doente, o pai suicidou-se já há alguns anos e, entretanto, contraiu o vírus da sida. Também já foi levado pela PM por duas vezes. “Acho que já todos fomos e todos continuamos na rua, só me chateia que fiquem com o nosso dinheiro. Não acho que seja justo. De resto, é só mais uma coisa entre tantas. Não nos vai ajudar em nada. O que nós fazemos, por vezes, é um serviço público”, opina. Isto porque “nos carros que arrumo, ninguém mexe. Iso é certo”, reitera. Para “Quicas”, a prova de que a CMP “não sabe o que anda a fazer é a história das licenças para arrumadores. Grande anedota que isso foi”. “Ainda diz que só existem quarenta arrumadores na cidade. Ele que saia ali de casa e comece a contá-los. É preciso é ter coragem para mentir”, refere.
Filipa Ribeiro
“Quando vemos a carrinha aproximar-se, dispersamos”
“Sou um toxicodependente assumido. Estou aqui também por causa disso”, diz João Miguel, arrumador de carros na área do Bom Sucesso, no Porto, para quem arrumar carros é claramente uma opção que aceitou na sua vida, como sendo a única resposta que obteve sem fazer qualquer questão.
João Miguel, arrumador há dois anos, reconhece que a zona onde normalmente arruma carros tem sido muito policiada, o que dificulta o seu trabalho mas não o impede. “Temos de estar sempre alerta. Quando vemos a carrinha a aproximar-se ou eles [os agentes da polícia municipal] a passearem por aí, dispersamos para que eles não nos levem.” É que já o levaram algumas vezes para a sede da polícia municipal (PM), onde teve de ficar retido durante algumas horas. Mas o pior mesmo, segundo disse foi quando o levaram para os Carvalhos. “Meteram-me na carrinha e levaram-me para os Carvalhos, para perto de um largo onde fazem a feira. Deixaram-me lá só para voltar a pé para aqui. Isso não está certo”, conta. “E ainda me bateram porque eu não queria entrar na carrinha. Só se fosse parvo é que ia querer. Não estou a roubar nem a fazer mal a ninguém. Para que é que me chateiam?”, acrescenta. João Miguel é daqueles casos que não quer nem ouvir falar no programa Porto Feliz, promovido pela Câmara Municipal do Porto (CMP), pois, nas suas próprias palavras, “aquilo é como estar preso”.
Entretanto, aproxima-se Vítor, de 35 anos e arrumador há 12, sempre no Bom Sucesso que está inserido no programa Porto Feliz, tendo já iniciado o tratamento com metadona. “Preciso de dinheiro na mesma. Não tenho emprego e se o peço, só me dizem para esperar. Tenho de esperar para tudo e até lá tenho de comer. Nós já consumimos [droga] há muitos anos e se não for isto também não arranjamos nada”, reconhece. Para piorar a sua situação, diz que as pessoas “influenciadas pela publicidade da CMP, já não dão tanto como antes”. Por dia, soma entre cinco a dez euros por arrumar carros. “Tudo o que queria era ter um emprego, um sítio para dormir e comer todos os dias”, desabafa.
Nuno Nogueira é arrumador há 11 anos. Há cerca de três meses, foi levado duas vezes seguidas pela polícia com “fitas verdes nos bonés que mais parecem azulejos de casa de banho, como o estádio do Sporting”. É assim que descreve os agentes que operam na PM. “Fiquei duas horas lá na Pasteleira e depois tive de voltar a pé. Numa das vezes, recusei-me a ir e eles ameaçaram-me e chamaram-me nomes”, reclama. “É claro que acho mal que nos levem porque eles só querem é falar sem nos ouvirem em altura nenhuma. Além disso, não nos ajudam. Esta mentalidade portuguesa é muito hipócrita”. Apesar disso, vai dizendo que os polícias andam mais “tranquilos”, pois “também eles já estão contra o Rio”.
A lista de testemunhos continua. Flávio, arrumador de carros há quatro anos na Ribeira do Porto, foi levado para a sede da PM, na Pasteleira, pela última vez fazem agora duas semanas. Se foi maltratado? “Nunca somos muito bem tratados, eles estão sempre a dizer “bocas”, mas fisicamente não fui agredido nas duas vezes que tive de ir”. Para Flávio, a CMP “não tinha nada que se meter com os arrumadores”. Manuel Oliveira arruma carros sobretudo na Praça da Liberdade. Nunca foi levado pela PM, segundo ele, porque está em tratamento no CAT- Centro de apoio aos toxicodependentes. “Pois, mas o CAT não nos dá comida nem trabalho. Aliás, soube que alguns colegas meus conseguiram um emprego lá com o programa do “Porto Feliz” e já perguntei o que preciso de fazer e responderam-me que andasse na rua a arrumar carros que eles acabariam por me levar”.
António Fontes, de 36 anos, também já foi levado três vezes pela PM, a última foi há, aproximadamente, um mês. “Como sou de Famalicão não sou levado tantas vezes. Na última vez que fui, perguntei-lhes se queriam que fosse roubar e responderam-me com pontapés. E ainda tive de estar lá na “seca” de duas horas e voltar, depois, a pé”. Já Júlio, nome fictício, diz não ter queixas da polícia municipal, o mesmo já não se passando com a PSP. “Andam aí dois que estão marcadinhos. Estou só à espera que hajam partilhas lá em casa para ter um carrinho e me pôr atrás deles. Olhe, isto é graças a eles”, comenta mostrando a mão inchada e uma perna com alguns hematomas. De acordo com Júlio, os agentes da PSP já o levaram várias vezes, tendo a última ocorrido há oito dias. “Ficam-nos com o dinheiro e ainda gozam connosco. Só meus já lá ficaram com cerca de 100 euros. Põem o dinheiro num envelope para nos taparem os olhos, mas vão é gastá-lo em bares”.
Paulo Fernandes, arrumador de carros há cinco anos, é frequentemente levado por agentes da PSP, pois na zona onde trabalha existe uma esquadra daquela força policial. “Vá lá, desde a passada quinta-feira que não me levam. Até já são eles que me dizem para ir para outro lado porque ali ao fundo moram familiares do Rui Rio. É que assim ele pensa que acaba connosco”, ironiza.
“Acho mal levarem-nos para a Pasteleira porque é muito longe daqui (Santa Catarina), não se preocupam connosco. Sabem que não temos dinheiro para táxi nem para autocarro”, refere João Carlos, de 32 anos. Para este arrumador o programa Porto Feliz não resolve todos os seus problemas nem lhes dá dinheiro para sobreviverem. “Não tenho razões de queixa da PM, já fui levado duas vezes, mas nunca me trataram mal, embora perceba que isso é uma questão de sorte, até porque só lá estive duas horas de castigo”, explica. Um castigo que não percebe por que acontece.
Henrique Ribeiro é toxicodependente há 29 anos e arrumador de carros na Ribeira do Porto, onde vive com a mulher, a filha e duas netas, durante quase outros tantos anos. “Nunca estive preso e a polícia não me incomoda, já me conhecem e sabem que já faço “parte da mobília” aqui da zona”, explica. Henrique soube desta nova metodologia da PM através de Nuno Cardoso, ex-presidente da CMP, que lhe veio perguntar se já tinha sido levado pelos agentes. “Eu nunca fui, mas sei de muitos que já foram. Uma coisa é certa, 90% dos arrumadores roubam e isso baixou com a polícia, a qual agora anda aqui muito. Mas o que o Rio gasta em cartazes com mensagens para as pessoas não darem moedas, bem podia fazer de facto alguma coisa que nos ajudasse, como por exemplo, arranjar algumas casas como aquela em que vivo. É uma miséria”, critica. No passado dia 9 de Setembro, Henrique foi aceite no projecto “Porto Feliz”, mas não vai continuar, pois, segundo diz, “é como estar preso”. “Falta-me é apoio em casa, essa é que era a terapia que eu precisava”, considera.
É automático: uma carrinha da PSP passa e Humberto, nome fictício, afasta-se rapidamente da rotunda onde está a arrumar carros. Pouco depois, quando já não se vêem polícias, lá vem ele. “É melhor até para os polícias que eu fuja e que não os veja”, diz com visível agressividade. Já foi levado pela PM por três vezes, a última das quais aconteceu há quinze dia, em que, pelo que afirma, “foi puxado violentamente para dentro da carrinha da PM. “Eles agora estão tramados comigo, não pensem que me levam e que eu fico lá quieto no banquinho a vê-los tirarem-me o dinheiro e a gozarem com a minha cara”, ameaça. “Também tenho em casa uma coisa que faz buracos e perdido por cem, perdido por mil. É preciso é saber fazer as coisas”, continua, alegando que tem o direito de trabalhar para sustentar os seus vícios. “É claro que fico chateado quando não me dão nada, mas não posso obrigar as pessoas a fazê-lo. Agora, a CMP quer acabar connosco, mas o Rio devia era ter juízo e sair lá do seu luxo para ver como é a vida na cidade onde ele pensa que manda”.
Joaquim Gomes dos Santos, 37 anos, e já foi levado três vezes pela PM. “Por acaso não fui muito mal tratado, mas ‘tava doente e não me deixaram sair. Ainda por cima sou eu que trato da minha mãe, que está acamada e por volta das seis da tarde tenho de lhe ir dar os medicamentos”, conta Joaquim que, da última vez que lá esteve, há cerca de três semanas, ficou retido durante três horas. “Não fazemos mal a ninguém, ninguém nos apoia. Só, de vez em quando é que nos vêm aqui dar umas refeições. Mas o que precisava mesmo era de um emprego. Estava disposto a fazer qualquer coisa”. Para Joaquim, a CMP “não dá nada e agora as pessoas dão menos dinheiro por causa dele. Só consigo fazer cerca de dez euros por dia”. Assim, na opinião de Joaquim, o que a polícia devia fazer era “apanhar aqueles que vendem droga. Esses é que nos arruinam”, reconhece.
É num pequeno jardim junto ao Hospital Conde Ferreira que o JN vai encontra um grupo numeroso de arrumadores de carros, quase todos inseridos no programa “Porto Feliz”. Vítor é um deles. Já foi levado três vezes pela PM, a última vez foi há cerca de dois meses. “Se nos recusamos a ir, agridem-nos e não querem saber se somos doentes, se estamos de muletas, não lhes interessa coisa alguma sobre nós”, reclama. O Vítor caiu quando ia a entrar no autocarro e desde aí tem que usar muletas. O diálogo entre os arrumadores começa de imediato. “Dão-te casa, emprego, comida decente?”, pergunta Luís, que também está inserido no programa promovido pela CMP. Para este último, é “natural” que os polícias “percam a cabeça”. Afinal, diz, “são homens como nós”. Já Gonçalo, nome falso, não perdoa e revolta-se facilmente com as autoridades e explica porquê: “Dizem-nos que somos delinquentes, que nunca nos vamos curar, ainda nos batem por estarmos a tentar fazer algum dinheiro. Qual é o sentido de nos fecharem numa esquadra durante três horas e depois mandarem-nos embora? Quem é que querem enganar?”, questiona indignado. Mais não diz porque o tempo para almoçar no Hospital é pouco. Entretanto, chega a hora de Luís ir “fazer o tratamento”. Já na enfermaria, toma três comprimidos receitados pela sua psiquiatra. “É a medicação para malucos”, ironiza. Segue-se o teste dos limites, ou seja, verificar através da análise à urina que drogas foram consumidas. No caso do Luís, apenas deu positivo o teste do haxixe. À saída, diz “Que bom, ainda na 6ª feira consumi cocaína e não acusou”.
Outro caso especial é o de “Quicas”, nome por que é conhecido um outro arrumador de carros, na área do Bom Sucesso e da Praça da Galiza. “Não consegui fugir às minhas circunstâncias e não sei quem o conseguiria”, afirma. E estas foram as suas circunstâncias de vida, desde sempre. Quicas é toxicodependente assim como os seus irmãos, nasceu num dos bairros degradados do Porto, a mãe é doente, o pai suicidou-se já há alguns anos e, entretanto, contraiu o vírus da sida. Também já foi levado pela PM por duas vezes. “Acho que já todos fomos e todos continuamos na rua, só me chateia que fiquem com o nosso dinheiro. Não acho que seja justo. De resto, é só mais uma coisa entre tantas. Não nos vai ajudar em nada. O que nós fazemos, por vezes, é um serviço público”, opina. Isto porque “nos carros que arrumo, ninguém mexe. Iso é certo”, reitera. Para “Quicas”, a prova de que a CMP “não sabe o que anda a fazer é a história das licenças para arrumadores. Grande anedota que isso foi”. “Ainda diz que só existem quarenta arrumadores na cidade. Ele que saia ali de casa e comece a contá-los. É preciso é ter coragem para mentir”, refere.
Filipa Ribeiro
10.29.2003
Conta-me um conto...
“Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, (...) O mundo
era tão recente que muitas coisas careciam de nome e, para mencioná-las,
era preciso apontar com o dedo.” – in CEM ANOS DE SOLIDÃO, de G.G. Márquez
Se para algumas pessoas ler é já de si uma actividade que implica tortura e sacrifício, para muitas de entre estas é ainda mais constrangedor fazê-lo em conjunto. São demasiadas as que sucumbiram ao prazer solitário e onanista da leitura (e até da criação literária). Nem sempre foi assim! Segundo rezam as crónicas, que não têm que ser verdade ou mentira, terá a escrita nascido da oralidade e na impossibilidade desta...
As Mil e uma noites, A Odisseia, O Amadis de Gaula, o D. Quixote, livros que remontam à nossa ancestralidade ficcional, eram contados aos serões por pessoas que anteriormente os tinham também ouvido contar, e assim semeavam entre os restantes os germes do sonho e da fantasia. Se o faziam profissionalmente ou por puro prazer não consta das relações tributárias, embora houvesse quem andasse de terra em terra espalhando o seu testemunho acerca dos casos fantásticos que vivera!
Mais tarde, e porque quem conta um conto acrescenta-lhe sempre um ponto, as estórias avolumaram-se, ganharam corpo e personalidade, e exigiram dos homens consenso, unificação e identidade. Ao cada um conta de maneira diferente implantaram o seu teor e puseram fim no regabofe fazendo com que alguém lhe traçasse escritura. Ao acto social da literatura acrescentou-se o não menos social acto do registo. Se este facto sucedeu há pouco menos de dois mil anos entre nós, visto constar que na China, Assíria, Egipto, etc., terá acontecido bastante antes, a oralidade e convívio à volta de um enredo remetem-nos ainda para o tempo das cavernas. Não sabemos ao certo quando é que um sacana qualquer para deslumbrar a sua amada ou meter macaquinhos na cabeça do chefe da tribo se pôs a papaguear pinderiquices que tanto assustam como arrebatam, mas o que é certo é que o fez, embora a TV e a rádio não tenham dado a devida cobertura ao acontecimento.
Ora, ainda este vício andava de gatas e já havia quem lhe pusesse asas no dorso como os que inventavam antídotos para lhe combater o mal e contágio nas massas... Uns tinham razão porque os outros a não tinham, como aos outros lhe assistia porque a uns lhe faltava! Se muitos foram obrigados a beber a cicuta, pagando com a dor e a morte, todo o prazer que as estórias e a palavra lhe concederam durante a vida, não menos quantos houve que lhe invejaram o dom e os mandaram para os trabalhos forçados, masmorras e degredos! No entanto, do que ninguém duvida, quase todos sabemos quem foi Sócrates mas ninguém se lembra do nome do presidente da Câmara da Lisboa de há 200 anos atrás, embora entre um e outro haja tantos milénios de distância quer no tempo como de quilómetros no espaço que habitaram...
Actualmente, numa sociedade circunscrita ao poder da imagem, acesso total à informação, vertiginoso ritmo de vida, expansão da cultura facilitista, solicitação e usufruto dos prazeres imediatos, que tende a dispensar os benefícios da leitura (criação de imagens, mobilidade, flexibilidade e enriquecimento vocabular, facilitação do processo de aprendizagem, contacto e apreensão de emoções exteriores, relacionamento de conhecimentos adquiridos com novos sentidos, construções sintácticas e significados, por exemplo), esse acto deveras social da leitura está a irradicar-se dos nossos hábitos, principalmente se não forem tomadas precauções adultas para contrariar o modus vivendi actual. Entre elas cabe a criação de comunidades de leitores, tal como vão surgindo um pouco por todo o país, na tentativa de reabilitar obras e autores que marcaram ou marcam os nossos tradicionais modos de ser e estar, enquanto cidadãos do e para o mundo.
A Comunidade de Leitores de Portalegre convida, portanto, nesta perspectiva, à leitura do romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, com que iniciará a sua actividade em sessão a realizar no mês de Novembro, cuja data precisa será atempadamente divulgada, a fim de que também nós, portalegrenses, possamos ajudar a inventar o futuro reerguendo do passado uma modalidade sócio-cultural que contribuiu em grande parte na formação da cidade que nos acolhe ou em que vivemos.
Há diversas maneiras de contarmos contos uns aos outros e esta é outra entre tantas mais de inscrevermos os nossos passos na resenha da actualidade. A melhor forma de mudar o mundo é começarmos por modificar-nos a nós mesmos, tomando novas atitudes perante hábitos antigos, costumes e consciência participativa na evolução da democracia. A mais-valia de Gabriel García Márquez, quer como jornalista, quer como romancista galardoado pelo Nobel, é inegável e tem entre nós bastantes adeptos, leitores assíduos dos seus títulos, ou mesmo que lhe acompanharam o percurso profissional. Creio que foi uma boa escolha, que encorpará o nosso grupo de leitores com variadas visões deste romance, tal como da obra em geral, e que poderá pôr em contacto pessoas que de há muito têm um gosto comum, bem assim de suscitar naqueles que ainda o não conheçam apetência para o fazerem.
Por conseguinte, aqui fica a nota de boas-vindas e votos de que se divirtam com a saga mirabulante de Aureliano Buendía, que possui todos os ingredientes para guiar-nos através de uma aventura ao realismo fantástico do século passado... E com óptimo cicerone!
grokare@hotmail.com
“Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, (...) O mundo
era tão recente que muitas coisas careciam de nome e, para mencioná-las,
era preciso apontar com o dedo.” – in CEM ANOS DE SOLIDÃO, de G.G. Márquez
Se para algumas pessoas ler é já de si uma actividade que implica tortura e sacrifício, para muitas de entre estas é ainda mais constrangedor fazê-lo em conjunto. São demasiadas as que sucumbiram ao prazer solitário e onanista da leitura (e até da criação literária). Nem sempre foi assim! Segundo rezam as crónicas, que não têm que ser verdade ou mentira, terá a escrita nascido da oralidade e na impossibilidade desta...
As Mil e uma noites, A Odisseia, O Amadis de Gaula, o D. Quixote, livros que remontam à nossa ancestralidade ficcional, eram contados aos serões por pessoas que anteriormente os tinham também ouvido contar, e assim semeavam entre os restantes os germes do sonho e da fantasia. Se o faziam profissionalmente ou por puro prazer não consta das relações tributárias, embora houvesse quem andasse de terra em terra espalhando o seu testemunho acerca dos casos fantásticos que vivera!
Mais tarde, e porque quem conta um conto acrescenta-lhe sempre um ponto, as estórias avolumaram-se, ganharam corpo e personalidade, e exigiram dos homens consenso, unificação e identidade. Ao cada um conta de maneira diferente implantaram o seu teor e puseram fim no regabofe fazendo com que alguém lhe traçasse escritura. Ao acto social da literatura acrescentou-se o não menos social acto do registo. Se este facto sucedeu há pouco menos de dois mil anos entre nós, visto constar que na China, Assíria, Egipto, etc., terá acontecido bastante antes, a oralidade e convívio à volta de um enredo remetem-nos ainda para o tempo das cavernas. Não sabemos ao certo quando é que um sacana qualquer para deslumbrar a sua amada ou meter macaquinhos na cabeça do chefe da tribo se pôs a papaguear pinderiquices que tanto assustam como arrebatam, mas o que é certo é que o fez, embora a TV e a rádio não tenham dado a devida cobertura ao acontecimento.
Ora, ainda este vício andava de gatas e já havia quem lhe pusesse asas no dorso como os que inventavam antídotos para lhe combater o mal e contágio nas massas... Uns tinham razão porque os outros a não tinham, como aos outros lhe assistia porque a uns lhe faltava! Se muitos foram obrigados a beber a cicuta, pagando com a dor e a morte, todo o prazer que as estórias e a palavra lhe concederam durante a vida, não menos quantos houve que lhe invejaram o dom e os mandaram para os trabalhos forçados, masmorras e degredos! No entanto, do que ninguém duvida, quase todos sabemos quem foi Sócrates mas ninguém se lembra do nome do presidente da Câmara da Lisboa de há 200 anos atrás, embora entre um e outro haja tantos milénios de distância quer no tempo como de quilómetros no espaço que habitaram...
Actualmente, numa sociedade circunscrita ao poder da imagem, acesso total à informação, vertiginoso ritmo de vida, expansão da cultura facilitista, solicitação e usufruto dos prazeres imediatos, que tende a dispensar os benefícios da leitura (criação de imagens, mobilidade, flexibilidade e enriquecimento vocabular, facilitação do processo de aprendizagem, contacto e apreensão de emoções exteriores, relacionamento de conhecimentos adquiridos com novos sentidos, construções sintácticas e significados, por exemplo), esse acto deveras social da leitura está a irradicar-se dos nossos hábitos, principalmente se não forem tomadas precauções adultas para contrariar o modus vivendi actual. Entre elas cabe a criação de comunidades de leitores, tal como vão surgindo um pouco por todo o país, na tentativa de reabilitar obras e autores que marcaram ou marcam os nossos tradicionais modos de ser e estar, enquanto cidadãos do e para o mundo.
A Comunidade de Leitores de Portalegre convida, portanto, nesta perspectiva, à leitura do romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, com que iniciará a sua actividade em sessão a realizar no mês de Novembro, cuja data precisa será atempadamente divulgada, a fim de que também nós, portalegrenses, possamos ajudar a inventar o futuro reerguendo do passado uma modalidade sócio-cultural que contribuiu em grande parte na formação da cidade que nos acolhe ou em que vivemos.
Há diversas maneiras de contarmos contos uns aos outros e esta é outra entre tantas mais de inscrevermos os nossos passos na resenha da actualidade. A melhor forma de mudar o mundo é começarmos por modificar-nos a nós mesmos, tomando novas atitudes perante hábitos antigos, costumes e consciência participativa na evolução da democracia. A mais-valia de Gabriel García Márquez, quer como jornalista, quer como romancista galardoado pelo Nobel, é inegável e tem entre nós bastantes adeptos, leitores assíduos dos seus títulos, ou mesmo que lhe acompanharam o percurso profissional. Creio que foi uma boa escolha, que encorpará o nosso grupo de leitores com variadas visões deste romance, tal como da obra em geral, e que poderá pôr em contacto pessoas que de há muito têm um gosto comum, bem assim de suscitar naqueles que ainda o não conheçam apetência para o fazerem.
Por conseguinte, aqui fica a nota de boas-vindas e votos de que se divirtam com a saga mirabulante de Aureliano Buendía, que possui todos os ingredientes para guiar-nos através de uma aventura ao realismo fantástico do século passado... E com óptimo cicerone!
grokare@hotmail.com
A D U A S M Ã O S
Por Joaquim Castanho e Filipa Ribeiro
“O rei vai nu”, disse o rapazito
“A engenharia genética condensa, como nenhuma outra tecnologia,
tanto as nossas aspirações quanto as nossas desconfianças”
Margarida Silva
Vem este artigo a propósito do lançamento do livro “Alimentos Transgénicos – um guia para consumidores cautelosos”, de Margarida Silva, professora de biotecnologia no Porto e vice-presidente da Quercus, da Universidade Católica Editora. Os Organismos Geneticamente Modificados (OGM) são organismos que adquirem, pelo uso de técnicas modernas de engenharia genética, características de um outro organismo, o qual, em algumas vezes, é bastante distante do ponto de vista evolutivo. Esta é, sumariamente, a sua definição técnica. Em termos de indústria agro-alimentar e da aplicação que fazem dos OGM, estes são, como disse e muito bem Luísa Schmidt, uma “coqueluche” que “é apresentada sedutoramente aos países pobres, a quem se acena com a quimera da abundância e do fim do problema da fome” (Expresso, Dezembro de 1999).
Com efeito, apesar de poucas, erguem-se já algumas vozes do interior da comunidade científica para alertar sobre as implicações dos OGM na saúde humana, sobre os riscos para o ambiente, para a agricultura e para a sociedade. E fazem-no porque, ao contrário do que se possa pensar, os OGM são uma realidade e todos estamos sujeitos a consumi-los sem sequer disso termos consciência. E é para essa tomada de consciência, esclarecida e rigorosa, que este último trabalho de Margarida Silva contribui, dado existirem várias leituras possíveis desta questão transgénica.
É aqui que a comunicação social é importante na tentativa que deve fazer para despertar nos cidadãos a atenção e posicionamento eficazes face a um dos problemas mais actuais para a qualidade de vida no nosso planeta. Infelizmente, isto é o que não se tem feito, porque simplesmente não é possível quando até os media se declaram, impunemente, indisponíveis para darem espaço nas páginas dos jornais, mediação televisiva integrada e não repetida, cobertura diversificada e personalizada na rádio, internet e afins. Porque as questões científicas e ambientais não podem ser atiradas para a geral condição de produto estratégico na imparável senda de mais e diferentes audiências, segundo a qual a comunicação de questões de grande interesse social relativas à saúde pública e ao ambiente sustentado se cinge ao ciclo hermético e/ou apanágio para fins político-económicos pouco sustentáveis pelos custos que comportam à vida do planeta.
Perante aquela que pode ser a mais radical experiência no mundo natural, temos de estar esclarecidos, posto que esse é um esforço mútuo para cientistas, industriais, políticos, empresas, legisladores e consumidores. É neste sentido, portanto, que surge este “Alimentos Transgénicos – um guia para consumidores cautelosos”, o qual é desprovido de uma gíria demasiado técnica e que tenta, deliberadamente, abrir os olhos e o diálogo com o consumidor. E fá-lo dando conta da controvérsia em torno desta questão desde que surgiu a primeira planta transgénica, em 1983. Assim, a autora começa por enumerar as vantagens dos OGM apontadas por diversos grupos científicos, políticos e de cientistas, mas pelo tom usado percebe-se que as vai atacar, ou seja, que vai dissecar, recorrendo a uma análise cientificamente fundamentada, cada um dos argumentos que são discutidos neste prós e contras dos transgénicos.
Entre os benefícios para quem vende OGM, Margarida Silva indica os seguintes: o aumento da produtividade agrícola (maior resistência a pragas), redução nas aplicações de pesticidas (melhoria ambiental, inúmeras variações especializadas para agradar tanto a agricultor como consumidor e industrial, gestor e necessidades do 3º mundo. Dizem que ainda ninguém morreu por causa dos transgénicos e que os OGM são as plantas mais estudadas do mundo.
Ora, para começar, a nível mundial, apenas 4 países produzem 99% de todos os OGM: EUA (66%), Argentina (23%), Canadá (6%) e China (4%), o que não deixa de ser sintomático do aproveitamento económico e político que apenas visa lutar contra a morte por fome. Pois sim... Além disso, a agricultura insustentável é uma das características da nossa sociedade onde ainda predomina uma cultura alimentar que privilegia as farinhas, os óleos e a distribuição personalizada dos alimentos cuja proveniência e conteúdo são questionáveis. Por outro lado, a estrutura administrativa social fundamentada em representantes que beneficiam grupos económicos em detrimento de valores humanitários básicos, a isenção da responsabilidade pessoal para com a saúde e educação, delegando-a a profissionais formados em perspectiva mercantilista, eliminam o desejável empenho pessoal na vigilância da qualidade dos alimentos. Como é possível que esta esmagadora minoria interessada nos OGMA ignore a perda de equilíbrio ecológico de espaços selvagens e agrícolas, os riscos da introdução na cadeia alimentar animal e humana de substâncias que nunca dela fizeram parte, da contaminação generalizada dos alimentos não transgénicos, da manipulação abusiva e mecanicista da vida e, por fim, do domínio económico do planeta pelas grandes empresas mundiais. Como é possível, que tudo isto se resuma a patentear sementes que sempre foram e deviam continuar a ser um bem comum e de livre acesso? Sim porque a incorporação de um gene significa, que alguma parte do organismo receptor vá produzir uma nova proteína e o aparecimento de uma nova característica, a qula é transmitida de geração em geração? Estão todos cegos perante esta nova “bomba atómica para o mundo natural e humano? Provavelmente, tal como aconteceu com os resultados da bomba atómica de Nagasaki e Hiroshima, quando se perceber as reais consequências dos OGM, então, mais uma vez, será tarde demais e poderão não haver trancas para pôr na porta.
Torna-se, pois, claro que os OGM representam para políticos e cientistas uma solução fácil que consiste na interpretação errónea daquilo que a biotecnologia em particular e a ciência, em geral, podem fazer. A acrescentar a isto está o facto de ainda não existirem, até hoje, provas científicas demonstrativas da segurança dos transgénicos na alimentação humana e animal. Mais: porque a circulação comercial dos alimentos transgénicos só começou em 1996, ainda não decorreu o tempo necessário para aferir das consequências dos agrotóxicos nestes. Na altura em que se completam 50 anos desde a descoberta de Watson e Crick, urge analisar o potencial da genética, pois é notório que um simples gene, na sua complexidade, apresenta infindáveis extensões e, como explica Margarida Silva, “um gene fora do ecossistema molecular onde a evolução facilitou a adaptação mútua torna-se imprevisível e, ao ser inserido, num genoma estranho através de um evento fortuito, num local ao acaso, o seu comportamento pode ficar radicalmente alterado”.
grokare@hotmail.com
Por Joaquim Castanho e Filipa Ribeiro
“O rei vai nu”, disse o rapazito
“A engenharia genética condensa, como nenhuma outra tecnologia,
tanto as nossas aspirações quanto as nossas desconfianças”
Margarida Silva
Vem este artigo a propósito do lançamento do livro “Alimentos Transgénicos – um guia para consumidores cautelosos”, de Margarida Silva, professora de biotecnologia no Porto e vice-presidente da Quercus, da Universidade Católica Editora. Os Organismos Geneticamente Modificados (OGM) são organismos que adquirem, pelo uso de técnicas modernas de engenharia genética, características de um outro organismo, o qual, em algumas vezes, é bastante distante do ponto de vista evolutivo. Esta é, sumariamente, a sua definição técnica. Em termos de indústria agro-alimentar e da aplicação que fazem dos OGM, estes são, como disse e muito bem Luísa Schmidt, uma “coqueluche” que “é apresentada sedutoramente aos países pobres, a quem se acena com a quimera da abundância e do fim do problema da fome” (Expresso, Dezembro de 1999).
Com efeito, apesar de poucas, erguem-se já algumas vozes do interior da comunidade científica para alertar sobre as implicações dos OGM na saúde humana, sobre os riscos para o ambiente, para a agricultura e para a sociedade. E fazem-no porque, ao contrário do que se possa pensar, os OGM são uma realidade e todos estamos sujeitos a consumi-los sem sequer disso termos consciência. E é para essa tomada de consciência, esclarecida e rigorosa, que este último trabalho de Margarida Silva contribui, dado existirem várias leituras possíveis desta questão transgénica.
É aqui que a comunicação social é importante na tentativa que deve fazer para despertar nos cidadãos a atenção e posicionamento eficazes face a um dos problemas mais actuais para a qualidade de vida no nosso planeta. Infelizmente, isto é o que não se tem feito, porque simplesmente não é possível quando até os media se declaram, impunemente, indisponíveis para darem espaço nas páginas dos jornais, mediação televisiva integrada e não repetida, cobertura diversificada e personalizada na rádio, internet e afins. Porque as questões científicas e ambientais não podem ser atiradas para a geral condição de produto estratégico na imparável senda de mais e diferentes audiências, segundo a qual a comunicação de questões de grande interesse social relativas à saúde pública e ao ambiente sustentado se cinge ao ciclo hermético e/ou apanágio para fins político-económicos pouco sustentáveis pelos custos que comportam à vida do planeta.
Perante aquela que pode ser a mais radical experiência no mundo natural, temos de estar esclarecidos, posto que esse é um esforço mútuo para cientistas, industriais, políticos, empresas, legisladores e consumidores. É neste sentido, portanto, que surge este “Alimentos Transgénicos – um guia para consumidores cautelosos”, o qual é desprovido de uma gíria demasiado técnica e que tenta, deliberadamente, abrir os olhos e o diálogo com o consumidor. E fá-lo dando conta da controvérsia em torno desta questão desde que surgiu a primeira planta transgénica, em 1983. Assim, a autora começa por enumerar as vantagens dos OGM apontadas por diversos grupos científicos, políticos e de cientistas, mas pelo tom usado percebe-se que as vai atacar, ou seja, que vai dissecar, recorrendo a uma análise cientificamente fundamentada, cada um dos argumentos que são discutidos neste prós e contras dos transgénicos.
Entre os benefícios para quem vende OGM, Margarida Silva indica os seguintes: o aumento da produtividade agrícola (maior resistência a pragas), redução nas aplicações de pesticidas (melhoria ambiental, inúmeras variações especializadas para agradar tanto a agricultor como consumidor e industrial, gestor e necessidades do 3º mundo. Dizem que ainda ninguém morreu por causa dos transgénicos e que os OGM são as plantas mais estudadas do mundo.
Ora, para começar, a nível mundial, apenas 4 países produzem 99% de todos os OGM: EUA (66%), Argentina (23%), Canadá (6%) e China (4%), o que não deixa de ser sintomático do aproveitamento económico e político que apenas visa lutar contra a morte por fome. Pois sim... Além disso, a agricultura insustentável é uma das características da nossa sociedade onde ainda predomina uma cultura alimentar que privilegia as farinhas, os óleos e a distribuição personalizada dos alimentos cuja proveniência e conteúdo são questionáveis. Por outro lado, a estrutura administrativa social fundamentada em representantes que beneficiam grupos económicos em detrimento de valores humanitários básicos, a isenção da responsabilidade pessoal para com a saúde e educação, delegando-a a profissionais formados em perspectiva mercantilista, eliminam o desejável empenho pessoal na vigilância da qualidade dos alimentos. Como é possível que esta esmagadora minoria interessada nos OGMA ignore a perda de equilíbrio ecológico de espaços selvagens e agrícolas, os riscos da introdução na cadeia alimentar animal e humana de substâncias que nunca dela fizeram parte, da contaminação generalizada dos alimentos não transgénicos, da manipulação abusiva e mecanicista da vida e, por fim, do domínio económico do planeta pelas grandes empresas mundiais. Como é possível, que tudo isto se resuma a patentear sementes que sempre foram e deviam continuar a ser um bem comum e de livre acesso? Sim porque a incorporação de um gene significa, que alguma parte do organismo receptor vá produzir uma nova proteína e o aparecimento de uma nova característica, a qula é transmitida de geração em geração? Estão todos cegos perante esta nova “bomba atómica para o mundo natural e humano? Provavelmente, tal como aconteceu com os resultados da bomba atómica de Nagasaki e Hiroshima, quando se perceber as reais consequências dos OGM, então, mais uma vez, será tarde demais e poderão não haver trancas para pôr na porta.
Torna-se, pois, claro que os OGM representam para políticos e cientistas uma solução fácil que consiste na interpretação errónea daquilo que a biotecnologia em particular e a ciência, em geral, podem fazer. A acrescentar a isto está o facto de ainda não existirem, até hoje, provas científicas demonstrativas da segurança dos transgénicos na alimentação humana e animal. Mais: porque a circulação comercial dos alimentos transgénicos só começou em 1996, ainda não decorreu o tempo necessário para aferir das consequências dos agrotóxicos nestes. Na altura em que se completam 50 anos desde a descoberta de Watson e Crick, urge analisar o potencial da genética, pois é notório que um simples gene, na sua complexidade, apresenta infindáveis extensões e, como explica Margarida Silva, “um gene fora do ecossistema molecular onde a evolução facilitou a adaptação mútua torna-se imprevisível e, ao ser inserido, num genoma estranho através de um evento fortuito, num local ao acaso, o seu comportamento pode ficar radicalmente alterado”.
grokare@hotmail.com
10.27.2003
A próxima sessão da Comunidade de Leitores está a receber aderências, sobretudo de pessoas que já leram o livro. Creio que isso não diminuirá o interesse nem o debate, pois não será pelo facto de o terem lido anteriormente que lhe perderam o enredo e arrebatamento. Gabriel García Márquez é um autor que aguenta bem duas leituras sem perder o interesse. Para o dia 10 de Dezembro, Dia Mundial da Cidadania, é provável que tenhamos nova sessão da CL à volta dessa temática... A cidadania!
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- Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português