8.07.2024

Light in Babylon - MORENICA

O MITO E A CRIAÇÃO

 


 

O MITO E A CRIAÇÃO

 

 

Pode parecer absurdo, contudo para quem se habituou a viver antes de se habituar a pensar, há nisto uma clarividência inegável: «A pétala de rosa, o marco quilométrico ou a mão humana, têm tanta importância como o amor, o desejo ou as leis da gravitação. Pensar já não é unificar, tornar familiar a aparência sob a face de um grande princípio. Pensar é reaprender a ver, a ser atento, é dirigir a consciência, é fazer de cada ideia e de cada imagem, à maneira de Proust, um lugar privilegiado. O que justifica o pensamento é a sua extrema consciência*», como refere Albert Camus.

 

«Criar é viver duas vezes**», dar uma outra expressão àquilo que pretendemos se venha a repetir com maior frequência enquanto congeminamos acerca das razões do mundo, porque «a expressão começa onde o pensamento termina**», e se concretiza, rumo à criação que «tem do amor o deslumbramento inicial e a ruminação fecunda***», tornando-a indubitavelmente romance, ou narrativa, expressão romanceada da sua constatação que nos liberta para de seguida nos prender a ela, uma vez que o nosso olhar e entendimento sobre o mundo e sobre as coisas passa a ser diferente do que antes tínhamos.   

 

É dessa repetição absurda mas contínua que nascem os mitos. Incluindo o de Sísifo, a reiterada e eterna repetição duma lembrança voltada para o futuro, que nos fará correr atrás dos mesmos anseios que tivemos como objetivos anteriores, as pedras da felicidade, por exemplo, que levámos para o cume da montanha durante o sonho, mas que transportamos novamente para o sopé do quotidiano a fim de que as possamos devolver ao alto da montanha ao adormecer na noite seguinte.   

 

Joaquim Maria Castanho

 

O MITO DE SÍSIFO

Albert Camus

Trad. Urbano Tavares Rodrigues e Ana de Freitas

Edição «Livros do Brasil»

Págs. 39*, 113**, e 126***

7.27.2024

LER NÃO É PASSAR TEMPO


 

LER NÃO É PASSAR TEMPO

 

“Só se pensa através de imagens. Se queres ser filósofo, escreve romances.”

Albert Camus*

 

A realidade não se compadece com quem a evita. Analisá-la é uma tarefa que compete a quem vive, pois só lhe restam duas possibilidades quanto a isso: ou a absorvemos, ou somos cilindrados por ela. E, para estarmos preparados para esse confronto, precisamos de descomplicá-la o melhor que pudermos. 

 

Ora, para o fazermos, temos que apetrecharmo-nos com os recursos, competências e ferramentas que o facilitem. Meios que nos tornem aptos para a tarefa de existir. E que já fizeram prova de serventia e utilidade: as novelas e os romances.

 

Entre os quais os escritos por aqueles autores que se preocuparam com o mesmo mundo em que vivemos, embora tenham frequentado outros tempos, bairros, ruas e cafés.

 

Albert Camus foi um desses escritores. Porque para ele, como para nós, atualmente, a literatura era o único laboratório plausível para ensaiar a nossa filosofia de vida, ou painel de imagens fundamentais que sustentam a nossa existência, sempre breve e precária, é certo, por mais afortunados que sejamos – e duradouros.

 

Portanto, ninguém escreve para estar ocupado… Nem ninguém lê para passar tempo.  

 

Joaquim Maria Castanho

 

*PRIMEIROS CADERNOS

Prefácio de António Quadros

Edição «Livros do Brasil»

Caderno nº 1, pág. 18

 

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

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Também pode alcançar o céu

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