4.09.2011

A rebelião das diferenças



Scherezade aprende a sobreviver. As regras da vida não estão escritas. Cabe-lhe inventá-las a cada aurora (2)”


“A memória dos Homens é curta”, dizia a minha professora de História do 7º ano. Desde então, inúmeras têm sido as ocasiões em que essa frase me vem à cabeça. Os recentes acontecimentos no mundo árabe e o comportamento do Ocidente em geral e da Europa em particular são uma dessas ocasiões.


Se nas sociedades árabes o que está a acontecer é muito mais do que simples revoluções (políticas, económicas ou sociais), a Europa e os EUA, por sua vez, já não conseguem esconder a hipocrisia que tem minado as suas políticas externas e as suas atitudes que perfazem novas formas de racismo e colonialismo. Por outro lado, persistimos no erro de nunca considerar a História a partir da “periferia” ou daquilo que julgamos ainda ser “periferias”, o que deturpa sempre essa velha senhora europeia a que chamamos História. A este nível, espero que quando a poeira assentar consigamos aprender com o que “as periferias” nos estão a mostrar (e que Prigogine já tinha descrito em As Leis do Caos): já não basta descrever as mudanças dos regimes políticos e sociais no seio da nossa concepção de História; é preciso ultrapassar este ocidentalcentrismo e dialogar com as Histórias extra-europeias para que possamos viver num contexto que não se confunda com o património ocidental. Tal como nos mostraram escritores como o jugoslavo Ivo Andric, apesar de haver sempre mais bárbaros do que construtores, no fim de cada caminho de opressão, há sempre uma luz e uma oportunidade para se criarem pontes. Andric também esteve sempre ao lado dos derrotados e insultados, ainda que compreendesse os poderosos. Esta é mais uma altura da História em que devemos fazer o mesmo, pois é um facto que o mundo não vai mudar para melhor por decreto, mas pode mudar se nos remetermos para os princípios da alteridade e da empatia que devem necessariamente nortear a vida em sociedade daqui para a frente.


As máscaras do racismo


Vejamos, então, algumas das novas formas de hipocrisia histórica e de racismo que estamos a viver, com uma breve panorâmica por alguns dos pontos geopolíticos mais quentes no momento actual.



1. Muitos dos revoltosos líbios foram abatidos com armas vendidas, no ano passado, no salão de armamento líbio no qual participaram 50 fabricantes britânicos. Isto quando o Governo britânico defende uma política de “intervencionismo liberal” para acabar com regimes não democráticos. Bom, eu não sou britânica, nem líbia, mas com certeza que não quero esta democracia de que Cameron e os seus confrades falam. Das duas uma, ou armam os opressores dos árabes ou, se falamos em intervencionismo, não vendemos armas a ditadores. Não me parece algo assim tão difícil de fazer, se se quiser, claro.



2. Em viagens recentes à Suíça, consternaram-me cartazes ofensivos em ruas tão supostamente ordenadas, que insultavam os imigrantes e exortavam à sua expulsão do país. Parece que a moda está a pegar e, recentemente, a ministra do interior da Áustria, endureceu [contra] os direitos dos estrangeiros, numa tentativa inútil de travar o afluxo de refugiados do Norte de África. E a verdadeira questão é esta: o medo, que mais não é do que uma manifestação da ignorância. Não vale a pena fingir que o medo dos Europeus perante um afluxo maciço de estrangeiros não é maior do que a sua compaixão pelas vítimas de uma ditadura. Mais uma vez, recorramos à memória. Porque é que o medo ganha perante a compaixão? Entre outras razões, porque os europeus têm tido políticas externas insensatas quanto às suas relações com ditadores (a Itália e Malta assumiram compromissos vergonhosos com Kadhafi) e ainda porque muitos países da União Europeia têm políticas internas de faz-de-conta que oscilam entre uma imigração necessária e mal-gerida e o alarmismo instrumentalizado em relação ao que sai do seu quadrado. Mas, claro, já não há problema se clandestinos africanos forem contratados para colheitas sazonais sob condições desumanas e garantirem negócios para muitos desses países que ora exploram os estrangeiros que não querem receber nem ajudar ora os querem libertar em nome de uma qualquer democracia.



3. Mas se o Ocidente pouco se importa com os banhos de sangue em África (sim, porque nem se fala nos países cujas populações ainda nem sequer se conseguiram rebelar e protestar ou aqueles, como Marrocos, em que se vive numa ditadura com os tiques democráticos ocidentais), já se preocupa com a perda de influência que está a ter no mundo árabe. O académico Anthony Cordesman sintetizou bem a coisa: “A França centra a sua atenção na Tunísia sem conseguir perceber como perdeu uma zona de influência. A Grã-Bretanha, por sua vez, volta a mostrar interesse no Egipto e no Canal de Suez”. Entretanto, os EUA continuam a procurar o Wally, i.e., islâmicos radicais entre as revoluções, os russos só querem vender armas e os chineses só atendem aos seus interesses petrolíferos. As atenções viram-se agora para a Turquia que surge em posição privilegiada para negociar com os novos quadros políticos que surgem na região. É claro que a UE se vira agora para a Turquia, a mesma que não queria integrar no seu clubinho.



Insegurança civilizacional



Estes são apenas alguns factos que rodeiam algo bem mais relevante: a hipocrisia ocidental não aprende com a História, nem com os resultados das suas próprias acções. Há muito que quer os EUA quer a Europa têm usado retratos simplistas, degradantes e, por vezes, racistas dos árabes e outros povos nos órgãos de comunicação.



Por outro lado, o espaço europeu tem estado crescentemente confrontado com um processo de heterogeneização espartilhado em duas lógicas: a lógica moderna da homogenização de pensar a Europa como um grande Estado-nação e outra, baseada num conceito de unidade bricolada na diversidade, ou seja, é como um bazar em que se negoceiam diferenças. Acontece que a cultura ocidental viveu secularmente – salvo alguns momentos críticos – numa espécie de auto-contemplação da sua própria superioridade ética e política, a qual era justificada das mais diversas formas, desde a narrativa religiosa até à narrativa filosófica. A tendência foi sempre a de encarar a nossa forma de pensar e de conhecer como sendo a mais universal e mais verdadeira, sendo as outras organizações sociais e políticas julgadas a partir dessa posição.



No entanto, vivemos agora uma altura em que a auto-segurança do Ocidente volta a ser posta em causa num movimento em que nos olhamos no espelho da nossa própria face civilizacional; os modelos de relação com as diferenças (internas e externas) que a sociedade e cultura europeias desenvolveram são, por si só, um indício da actual insegurança civilizacional. A Líbia – que não tinha nada parecido com uma sociedade civil tal como a pensamos – dá-nos agora uma lição de História. Louvável é a força colectiva de que os líbios têm dado mostras; a diplomacia, esforços revolucionários estruturados, órgãos de informação limitam-se a seguir as reivindicações e as acções do povo e isto é fascinante e inédito, pois significa que o que está a mudar é também o que significa ser árabe a nível individual e colectivo.



Se há muito que os estereótipos ocidentais têm desqualificado os árabes e celebrado invasões israelitas, britânicas e americanas em nome da “democracia”, hoje são os árabes que nos mostram a oportunidade que é a união de esforços por algo muito mais importante do que a democracia hipócrita dos que carregaram a cruz da civilização e supostamente eram detentores de uma superioridade moral que lhe dava acesso ilimitado às terras, recursos, história e dignidade dos árabes. De Napoleão a George W. Bush os árabes sempre foram definidos de acordo com os objectivos coloniais e conquistadores.



O importante a reter de tudo isto é que, como notou Robert Fisk, este segundo despertar árabe da História moderna requer algumas novas definições e novas palavras. Esta rebelião das diferenças revolta-se também contra o lugar passivo que a modernidade ocidental lhes atribuiu em termos culturais, políticos e epistemológicos. Agora, essas diferenças assumem os seus próprios discursos (da diferença e não sobre a diferença) e resistem a qualquer forma de domesticação cultural. Resta agora à cultura ocidental assumir-se também como outra diferença e não como padrão com base no qual as outras diferenças devem ser definidas ou julgadas. Ora, a evolução é isto mesmo: a transição do ser da condição de escravo à condição de senhor do seu próprio destino.


Como tão bem lembrou o educador Paulo Freire, qualquer acção modificadora não é possível se não nos distanciarmos de uma visão acomodada do mundo e se formos incapazes de nos distanciarmos desse conformismo para admirar e perceber melhor o conjunto deste mundo. As diferenças, de facto, na sua incomensurabilidade de género, raça, etnia, estilos de vida, etc., não assumem como agenda nem um princípio universal comum, nem uma agenda política comum. Porque a democracia já não é um “estádio”, mas um fim em si mesmo (ou sem fim) e a “cidadania atribuída” deu lugar “a uma “cidadania reclamada”. A realização política inerente a estas mudanças tem uma geometria variável, negociável, em rede que mostra que não somos todos diferentes e todos iguais, mas sim que não há privilégios nem para diferentes, nem para iguais, pois falamos da legitimidade das diferenças regularem as suas próprias vidas. “Eu pago impostos (dever), mas quero educar (direito) os meus filhos como bem acho que eles devem ser educados”.


Numa altura em que a Europa analisa a questão do direito ao esquecimento na Internet, não nos esqueçamos que foi a “democracia ocidental”, “a chama da civilização”, “o capitalismo europeu” que esteve na origem de grande parte dos tipos de racismo que conhecemos. Não nos esqueçamos também que o progresso da civilização passa, necessariamente, pela abolição de toda e qualquer forma de preconceito. Antes de se achar sujeito a determinada cultura, nacionalidade, etnia ou religião, o homem é um ser cósmico, um cidadão do universo e, acima de tudo, perante a lei da reencarnação, a superioridade que certos grupos étnicos atribuem a si torna-se insustentável e até ridícula. A ideia de que o homem possa encarnar como branco, negro, mulato ou índio, estabelece uma ruptura com o preconceito e a discriminação raciais e políticas. Tanto que até hoje, na Inglaterra, muitos adeptos do Neo-espiritualismo rejeitam a tese da reencarnação, por não admitirem a possibilidade de terem tido encarnações em posições inferiores quanto à raça e à condição social.


Lembremos ainda que, nos Estados Unidos, foi preciso uma guerra civil para acabar com o esclavagismo. Até à década de 60, o país mais rico e poderoso da Terra, que sempre se arvorou em campeão da democracia, praticava a segregação racial. A maioria branca impunha humilhantes restrições aos negros, que não podiam frequentar as mesmas escolas, sanitários públicos, clubes ou hospitais. Na África do Sul, em pleno continente africano, uma minoria de origem europeia sustentou, durante décadas, a separação radical, relegando os donos da casa a posições de subalternidade. No Brasil, não obstante a índole fraterna de nosso povo, durante mais de três séculos muitos achavam natural a existência de homens transformados em animais de carga.


Aproveitemos, pois, este movimento do pêndulo da História para subverter a produção de ausências em que o ocidente tem sido prolífico para transformar essas ausências em objectos presentes, tornando visível o que foi obscurecido pela sociedade (e ignorância) dominante. Já não existem realidades únicas e exclusivas e, no jogo de conhecer e ser conhecido, já não deve haver lugar para relações de dependência, pois a vida que se deseja é a que “decorre da liberdade consciente, capaz de enfrentar obstáculos e dificuldades que se apresentam no relacionamento humano e na própria individualidade”(1); é essa a meta que a consciência almeja e, na inexistência do que seja local ou global, é nessa escala que tudo se joga e para onde interessa olhar. Ouçamos, portanto, as vozes do deserto(2), porque são também as nossas vozes.


Filipa M. Ribeiro


(Jornalista e investigadora)


(1) In Franco, Divaldo. O Homem Integral (1990).


(2) Referência ao livro Vozes do deserto, de Nélida Piñon.







4.07.2011

Contos Tradicionais Asiáticos

Colecção de Contos e Novelas, nº 22


Selecção e tradução de Silvina de Troya Gomes


Prefácio de Celestino Gomes


Editorial “GLEBA”, Lda. Lisboa






Mais ou menos por meados do século passado – a coisa tem que ser datada assim, pois a impressão não era numerada nem datada naquele tempo, a contar pelo usual na lisboeta Rua de S. Lazaro onde se estabelecia a SEVERO-FREITAS-MEGA, que lhe estampou a mancha – apareceu nos escaparates este belíssimo exemplar de pequenas narrativas, a que vulgarmente chamamos contos, que não posso, por uma questão de ética, deixar de apresentar aqui. Não o faço porém à solta, porquanto aquilo que de melhor poderia dizer acerca, já foi dito, e vem no prefácio, de autoria de Celestino Gomes, que transcrevo na íntegra, para inveja dos críticos atuais.

E só por isso, calino!


PREFÁCIO


Toda a obra de arte, expressão direta e espontânea da natureza humana no que ela tem de mais humano e mais primitivo, precedendo quase o próprio pensamento, tem de aparecer "como resumo dum drama literalmente shakespeariano onde as fatalidades dos princípios complementares se combinam sem conseguirem separar-se um do outro, pondo a tragédia de viver nesta contradição que todos trazemos connosco, condenados todos a arrastar a crueldade no mais terno dos nossos gestos, e a fazer nascer a morte no leito do amor (1)". Mas a rosa do Sol, que a todos cobre por igual, nem para todos é mãe, nem para todos madrasta. Por isso, no planalto de Anahuac onde a malária e a febre amarela crescem nos campos coalhados de sáurios, e na doce paisagem do Mediterrâneo de céus azuis e pomos de oiro, os olhos dos homens não podem ver igual a vida, e a arte dos Aztecas ser igual à da Hélade. As diferenças sentimentais entre os homens começam talvez no mito bíblico dos irmãos Caim e Abel, filhos da mesma mãe, por ventura só porque um era pastor de ovelhas e outro lavrava a terra, labores tão parecidos e tão, por demais, diferentes!


Povos da China, da Mongólia e da Tartária, da Arábia, Pérsia e Índia dos nossos títulos Senhores de Aquém e Além-mar, por onde nossos avós andaram vadiando, amando e sofrendo, ficaram, a despeito de logo por eles diferençados nos recados com que suas mãos escreveram o que os olhos viram, para nós apenas como exóticos e maravilhosos seres quase desumanos. Ora nada mais compreensível do que a arte, e de todas as artes a literária, mais compreensível do que todas, destes estranhos povos que os portugueses ensinaram ao mundo. Por muito que suas línguas ficassem confundidas na barafunda de Babel, que as suas culturas e os seus sonhos os separassem na confusão híbrida de suas raças, o fundo humano é o mesmo, apenas modelado pela face da terra que lhes calhou por sorte.


Os contos tradicionais das literaturas islâmicas – árabe, iraniana, turca – podem considerar-se amplamente representados pelas Alf Leilah oua leilah a que tanto o historiador árabe, do século IX, Abul-Hassan Ali-el-Massudi(2) como Mohamed bem Is'hak Al-Nadim(3), no século X, atribuem à influência persa da coleção Hazar Afsanah; e a sua formação como obra de arte, posterior, por via da tradição oral dos contistas ambulantes, à elaboração popular, lenta e inconsciente, do folclore islamita.


Cópias e recópias de escribas anónimos, mais cultos ou menos cultos mas cada um preferindo o pitoresco de seu dialeto familiar, deram-lhes um estilo em que intervêm todas as formas do árabe. Os documentos escritos mais antigos são do século X, e daí até ao século XVI, resultando o colorido desse próprio método vivo do relato direto, como na nossa História Trágico-Marítima.


Povo nenhum no mundo conseguiu criar mais variado caleidoscópio de imagens fantásticas, mais rico técnicolor de fantasia do que esta gente criadeira de "estranhos desfiles de califas, mendigos, carrascos, cortesãos, bandoleiros, santos, corcovados, zanagas e sultões, que atravessam os caminhos soalheiros entre trapos de mil cores, fazendo gestos inverosímeis(4)". O contista público, contínuo repetidor das histórias tradicionais da alma islâmica, tempera-as sempre de alegria, mímica, bom humor, ironia, para dar mais expressão à sua narrativa e provocar no auditório uma "geral embriaguez suscitada pelas palavras e ruídos imitativos, pelo fumo do tabaco que faz sonhar, pela essência afrodisíaca que parece flutuando no espaço, o sub-aroma discreto do haxixe que é o último regalo de Allah aos homens...(5)"


A literatura oral árabe, compreendendo os contos, as lendas e as poesias tantas vezes intercaladas naqueles e contando ainda nos primeiros os contos maravilhosos, alegres, eróticos e de animais, resume-se também frequentemente ao simples motivo anedótico cuja frase breve determina a comicidade com que pretende divertir o auditório. Nunca há maldade nem segunda intenção, apesar da escabrosidade das cenas e da nudez das palavras empregadas, porque o árabe “ignora totalmente esse produto odioso da senilidade espiritual: a intenção pornográfica (6), entrando francamente no campo do cómico sem invadir o do humorismo. Margoliouth afirma, por experiência própria, que “o gosto árabe parece ter preferido de grande modo a anedota, que amiúde consta de um par de frases, ou menos, e raramente chega a encher uma página. Coleções desta índole formam a rama da literatura a que se aplica especialmente o nome que corresponde a belas letras, e na vasta série de obras que têm este título trata-se constantemente da mesma matéria (7)”. Os personagens a quem sucedem as maravilhosas aventuras e as situações divertidas são populares em todo o Islão. Entre estes, por exemplo, Yehah, ou Si Yehah – o Sr. Yehah –, que alguns creem ter sido Sheik Nassareddin Yehah ou Nassareddin Affendi Yehah, é aquele a quem são atribuídas quase todas as anedotas do mundo islâmico, Índia, Pérsia, Arábia, Turquia, Egito e Marrocos. Pois esta, dizem os contadores árabes que sucedeu a Yehah:


Costumava a mãe de Yehah levantar-se quando, sobre o al-minar da mesquita, o muezzin chamava os crentes à primeira das cinco orações do dia – Feyer, Dohor, Aasar, Mogreb e Aachah –, e, como faltasse em casa com que se agasalharem e o filho dormisse embrulhado no jaike da mãe, tinha esta de destapá-lo para se vestir, e Yehah arrefecia. «Este maldito mudden», pensava ele, «é que tem a culpa. Tenho de me desfazer dele». E certa manhã, quando o muezzin subiu ao minarete, ele aí vai atrás dele, cortou-lhe a cabeça e apresentou-a à mãe, dizendo: «Pronto. Aqui está a cabeça do nosso despertador». «Agora é que eu vejo o teu poder» disse a mãe com mal contida admiração. Mas, pelo meio-dia, deram por falta do muezzin, catam por ele, sobem ao minarete e vão dar com o homem decapitado. Um disse: «Eu vi subir, esta manhãzinha, Yehah ao minarete. Se calhar foi ele que o matou». E foram todos de rostilhada a casa de Yehah. «Si Yehah, tu matas-te o mudden?» «Eu, não. Que mal é que ele me fez para eu o matar?» «Pois vamos revistar-te a casa». E foram. Remexeram tudo, sem deixar um argueiro por esquadrilhar. Nada. Já iam a ir-se com Allah quando alguém alvitrou que procurassem no poço.


Ora Yehah, que na verdade para ali deitara a cabeça, já a tinha trocado por uma de carneiro. Um dos improvisados investigadores desce ao poço, enquanto em cima, impaciente, esperava a fila circular dos filhos do infeliz meuzzin mais os vizinhos indignados. E o que encontrou, no fundo do poço, foi a cabeça de carneiro, mirou-a por todos os lados, algo desconfiado do achado, e acabou por perguntar lá de baixo, para a identificar: «Ó filhos do mudden! Olhem lá: o vosso pai tinha cornos?»


O espírito dos contos indostânicos é, pelo contrário, austero como a própria religião búdica de ascetas e mendigos. «Entre cipós floridos passam as belas amorosas, Draupadî, Çakuntalâ, Savitrî… Nos campos sangrentos combatem esses ferozes guerreiros cujos terríveis feitos nos surpreendem. Muitas vezes têm deuses por companheiros: Krishna não desdenha guiar o carro de Arjuna – e que nobres lições, que bem-aventuradas lições dá o deus ao guerreiro! Lá ainda, numa sombra misteriosa, aparecem esses puros ascetas que, pelo rigor, pela constância das suas austeridades, nos espantam. Eles já não têm sensações humanas. Para eles, já não há prazeres nem dores: vivem um sonho que jamais findará (8)».


É de tudo isto que são feitos os contos indianos: da calma augusta dos Iluminados que, em meio da selva pantanosa, traiçoeira, onde ronda o tigre e do fausto deslumbrante dos rajás, se contentam com “dominar os sentidos como um escudeiro domina um cavalo (9)”, ter uma túnica esfarrapada de monge mendicante e a sombra fiel duma árvore que não se afaste com o rodar do sol, como o senhor Sidharta Gautama, o mestre dos Çakias, que se chamou Buda.


“O motivo habitual da meditação dos hindus é o pouco caso que eles fazem da vida. Com paixões ardentes e fortes tendências para a sensualidade, este povo não se agarra à existência: por isso vemos que a exortação do desprezo pelas coisas da terra é um lugar-comum habitual na religião, na moral e na literatura da Índia, onde se repete constantemente que é insensato entregar-se cegamente à esperança, esse sopro que nunca nos deixa e nos conduz à morte divertindo-se constantemente connosco, como o tempo, kâlas kridati; é insensato dar-se ao desejo, essa ilusão que nos impele para bens derisórios e nos força ainda a correr à conquista impossível da felicidade quando já a cabeça nos tomba e o corpo dobrado dificilmente se segura ao bordão que treme em nossa mão (10)”.


“As origens da literatura indostânica devem procurar-se nos monumentos sânscritos, e principalmente na sua poesia épica e religiosa (11)” muito anterior à nossa era. Nos contos dos Mahayana Sutras e nas histórias do Mahavertu paira o mesmo espírito filosófico e moral que caracteriza o Sadharma Pundarika e o Lalita Vistara. São sempre apólogos morais.

Uma fábula de Hitópadêça para exemplo:


Um cisne procurava para comer, certa noite em que as estrelas, flores do canteiro do céu que os invernos não desfolham, se refletiam no lago translúcido, as flores brancas de kumuda que lhe pareciam as estrelas refletidas, e apenas bicou a água. Sucedeu, porém, que no dia seguinte desabrochou um belo sitôtpala no lago. Mas o cisne disse para consigo: Debalde tentarás enganar-me outra vez, à luz do dia, porque bem vejo que não és mais do que ilusão, miragem… A alma franca, uma vez enganada, jamais crê na franqueza (12).


Através dos 4 000 anos da História da China, milhares de contos tradicionais se perderam, porque, como é natural, só muito tarde foram alguns passados da tradição oral para a linguagem escrita.


Posto que assim antiquíssima, pode dizer-se, porém, que a literatura chinesa começa no IV século (13) antes de Cristo (a.C.) com os Tsés Kong-Fu, Ming, Lao, Li e Yang e os seus célebres textos clássicos. É sob o domínio dos mongóis e talvez sob a influência arábica que aparecem os primeiros escritores de contos e romances; mas, sobre o fundo sólido da educação e culto apaixonado da moral, sobre a cultura filosófica e religiosa – a China é um país de religiões: Confucionismo, Taoismo, Budismo; – mesmo na sua maneira mais pitoresca ou mais estranha, há sempre evidente um requintado espírito de lição dos seus contos tradicionais dispersos por numerosas colectâneas, como as Sing-Che Reng Yenn e Tsinn-Ku Tsri Koann, anónimas; ou reconstituídos pelo tradicionalismo literário inato a todos os letrados chineses de todos os tempos, desde os seiscentistas P’u Sung-ling e Pao-Wung Lao-jen, até aos contemporâneos Ch’u Ta-Kao.


Citemos um pequeno conto tradicional chinês:


Um tal Chao, vendedor de loiça barata de seu ofício, estava um dia, como de costume, sentado à porta da sua pobre olaria maldizendo a sua miserável sorte. Eis senão quando para à sua frente um velho viandante que era nem mais nem menos do que o próprio deus Fó. «Nhi sciuo ti hoá thé tuo – falas demais, disse o deus; que razões de queixa tens do teu destino?» «Ora, que razões tenho! Ser toda a minha vida um mísero vendedor de van é pouco? Os meus vizinhos Li-Chenn e Chuang-I, que são ricos, levam vida regalada com as suas mulheres, e os negócios correm-lhe prósperos. A mim mal me chega para comer. Sempre gostava de saber porque é que foram distribuídos assim os nossos destinos». Então levantou-se no ar um remoinho de vento, e Chao, o descontente, sentiu-se arrebatado nos ares e viu, cheio de terror, que sob os seus pés a terra rebolava como uma laranja. O remoinho colocou-os junto de um grande pórtico, para lá do qual se estendia, a perder de vista, um grande campo coberto por milhões de sacos cheios e atados, pousados de pé, ao lado uns dos outros. «Cada um destes fardos», disse então o deus, «é o fardo de um destino, mais ou menos pesado, consoante os merecimentos de cada qual. Já que não estás satisfeito com o teu, de boa vontade te concedo que escolhas um, a teu bel-prazer, entre todos. «Quero aquele!», exclamou Chao, apontando para o mais bonito e maior que se avistava. E correu a buscá-lo. Mas, quando foi para o carregar às costas, era tão pesado que isso lhe foi de todo impossível. «Pois haverá alguém que tenha de suportar toda a vida com tal carrego?», perguntou. «Esse é o destino do Imperador», informo-o o deus, «e pesa todo o infortúnio do seu povo». Chao escolheu outro, mas ainda pesava bastante. Eram os destinos de Li-Chennn e Chuang-I. Até que descobriu um saquitel, pequeno sim, mas de alegres cores, que devia ser levíssimo, pois não chegava a inclinar as débeis ervas sobre as quais assentava. Radiante, Chao pô-lo às costas, convicto de que, desta vez, encontrara o mais leve dos destinos. Perguntou para si próprio para quem poderia estar destinado aquele deleitoso fardo, quando o deus Fó, que lhe adivinhou o pensamento, lhe disse com o mais cândido dos sorrisos a iluminar-lhe a grande barba branca: «Escolheste bem, Chao, escolheste bem; porque já era esse mesmo o teu destino de vendedor de porcelana…»


Entrecruzam-se finalmente nos contos tradicionais japoneses o instinto religioso da Índia, sobretudo o espírito budista, a serena sabedoria china e a crueldade sorridente e fria do próprio Japão. A trágica austeridade dos contos índios, ao espírito voluptuosamente humano e requintado dos contos árabes e às histórias de fantasmas que vêm trazer aos homens as sentenças de bondade e de sabedoria, opõe-se a artificiosa beleza sempre estranhamente fechada do Japão, em cujo sangue pairam, adoçando-o de inteligência, todas as hereditariedades intelectuais dos filósofos chins.


“Será por causa da sua sentimentalidade de insulares ou em resultado dos longos séculos de isolamento”, diz o depoimento de insuspeito de Tagawa Daikichiró, “mas o que é fora de dúvida é que os japoneses se olham uns para os outros, e para os estrangeiros, como inimigos; e que eles constituem um grupo combativo. Nós demonstramos mais atividade em disputar do que em qualquer outra coisa. Nada me acode dizer contra este nosso espírito de competição. Mas isto acarreta uma certa impetuosidade que é perigosa. Somos um povo excitável e a nossa excitabilidade leva-nos, por vezes, longe demais (14)".


Poucas nações têm, como o Japão, tão bem compilados os seus elementos literários tradicionais. Só Hanawa Hokuchi (1746-1821), cego como o nosso Castilho desde tenra idade, publicou à sua parte 2 820 volumes coligindo antigos documentos literários.



Um pequeno conto tradicional que dá a psicologia do povo japonês:


Tendo-se ordenado que a execução do réu se fizesse no jardim do yashiki, foi este conduzido ao local e obrigado a ajoelhar num recinto cheio de areia e atravessado por uma grande fila de tobi-ishi, ou sejam, marcos divisórios de propriedades. Ataram-lhe os braços às costas, trouxeram vários baldes de água e sacos cheios de calhaus, e com isso entulharam o condenado de modo que lhe fosse impossível mexer-se. Mas, quando o senhor chegou e se deu por satisfeito com os preparativos, o homem começou a gritar: «Honorável senhor: eu não cometi por querer a falta pela qual fui condenado. A culpa é apenas da minha grande estupidez. Ora, como eu nasci estúpido por desígnio do meu Karma, não posso evitar de errar; e matar um homem por ser estúpido é um erro grave que deve ser reparado a tempo. E, tão certo como estou que me ides cortar a cabeça, assim creio que a minha morte será vingada. O ressentimento que provocais trará a vingança. E uma injustiça desencadeará outra injustiça, e um dano outro dano…»


O samurai sabia que, quando se mata alguém no momento em que este se acha possuído dum grande ressentimento, o espírito do justiçado pode facilmente vingar-se do matador. Mas, com muita gentileza e amabilidade, respondeu diplomaticamente: «Dou-te licença que me assustes à vontade. Depois te mataremos. Mas, para nos fazeres acreditar no que dizes, és capaz de nos provar o teu grande ressentimento, apenas te cortem a cabeça?» «Sou», respondeu o condenado. «Muito bem» disse o samurai. «Vou separar-te a cabeça do corpo. Ao pé de ti está um marco. Quando não tiveres a cabeça presa, experimenta morder na pedra, parta eu ver. E, se fores capaz disso, então talvez a gente fique aterrada» … «Pois morderei, morderei, morderei…» Houve um relâmpago, um silvo, um golpe seco, e a cabeça do sentenciado caiu sobre os sacos dos calhaus, rolou lentamente até ao marco e, de repente, deu um pulo e ferrou os dentes na pedra. Ninguém disse palavra, mas todos olhavam espantados para o samurai. Desde então, toda a gente, aterrorizada, esperava a vingança do morto, alguns atreveram-se a alvitrar um sègaki para aplacar aquela alma. Mas o samurai respondeu que era completamente desnecessário, pois o morto nada podia fazer, por uma questão simplicíssima: «Só é perigosa a última vontade de um moribundo; quando o desafiei a morder a pedra para me provar a sua cólera, desviei-o de toda e qualquer vingança, pois, como a sua última intenção foi morder a pedra, já não me pode fazer mais nada. E pronto.»


De modo que não foi o Rei-Édipo, nas areias de Tebas, entre as garras descomunais da mulher-leoa, que matava os maus decifradores de charadas, nem a gnose de Pitágoras de Samos, nem ao depois o racionalismo dos enciclopedistas, antes-pelo-contrário, quem descobriu o enigma do Homem que continua desconhecido, esse desconhecido. Como o mago Khayyam que exaltava a vida em beleza, contentemo-nos com o que em todos estes contos é belo, e perdoemos a todos os homens os seus defeitos. A vida é breve, e a sua filosofia pode guardar-se toda neste belo robai de Omar Ibn Ibrahim: Bahrâm ké gûr miguerefti bé kamand, Didi ké tchégune gûr Bahrâm guerefti? – Bahrâm, o que apanhava poldros a laço, vês tu como o túmulo apanhou Bahrâm?

CELESTINO GOMES


(1) Elle Faure

(2) A. H. A. Al-Massudi – Moruf Al Dahad Oua Djanhar.

(3) M. bem Is'hak Al-Nadim – Kitab Al Fihist.

(4) E. Gomez Carrillo

(5) J. C. Mardrus

(6) Idem

(7) D. S. Margoliouth

(8) Ferdinand Herold

(9) Leis de Manu

(10) L. Leupol – Selectae è sanscriticis scriptoribus pagine

(11) Consulte-se o prefácio de Contos Indianos na Coleção «Contos e novelas» das Ed. Gleba.

(12) Hitôpadêça – perde-se, na tradução, um saboroso duplo sentido: o do kumuda, que é um loto que abre durante a noite, e o do sitôpala, que apenas abre durante o dia.

(13) Consulte-se o prefácio dos Contos Chineses, na coleção «Contos e novelas» das Ed. Gleba. (14) Tagawa Daikichiró

4.03.2011


Porque parece que algumas ondas pseudo-feministas se estão a reavivar por aí, faço aqui a minha homenagem a uma das minhas "ídolas" de juventude. Agora já não tenho ídolos, mas companhias fiéis e inspiradoras. Virginia Woolf será sempre uma delas.












O mundo não mudou por causa dos seus livros, evidentemente; mas a minha (e a de muitos) visão do mundo alterou-se bastante, sobretudo com ORLANDO, RUMO AO FAROL, MRS. DALLOWAY, AS ONDAS ou ATÉ MESMO FLUSH, UMA BIOGRAFIA ou Um quarto que seja seu. O feminismo elegeu-a como uma das suas figuras fundamentais, mas o retrato não corresponde; ela não era feminista, era apenas um espírito independente; a sua frase famosa («uma mulher deve ter dinheiro e um quarto que seja seu») referia-se à disponibilidade para escrever. E Virginia Woolf escreveu muito e marcou a modernidade de antes da guerra, quer pela sua escrita (uma torrente incessante que contrasta com a sua "fragilidade"), quer pelo papel que desempenhou como influente intelectual nesses anos difíceis e turbulentos. Virgínia Woolf (1882-1941) morreu há exactamente 70 anos [28 de Março]. Atirou-se às águas do rio Ouse com pedras nos bolsos e passos determinados; o corpo só foi encontrado a 18 de Abril.


O texto que se segue é apenas uma pequena biografia que escrevi há 5 anos; mas quem quiser sentir aquele cheirinho leve que ela deixou na atmosfera cultural adjacente, então pode sempre ver o filme As Horas. E pronto, fica feita a minha homenagem. Porque lembrar nunca é demais.


Filipa Ribeiro


A mulher que decifrou para além do algodão


Amante da vida, suicidou-se aos 59 anos. Pintora do instante, a sua obra projectou-a para o lugar das referências universais. Odiando o seu corpo, filtrou estados de espírito e continua a existir (nos outros).


Ela foi uma mulher que viu além da sua varanda (da vida). Daí viu o horizonte, sendo simplesmente uma mulher, mas com a tal visão. Acima de tudo, ela conseguiu estar nessa varanda apesar de todas as vicissitudes por que passou, entre elas: os raros momentos de intimidade que teve com uma mãe adorada e que, mais tarde, com a morte desta, representou a primeira grande viragem na vida de Virgínia Woolf (V.W.); a falta de formação escolar enquanto criança (muito por ser mulher); a convivência próxima com as depressões do pai; os abusos sexuais por parte dos meios-irmãos; o peso da sociedade vitoriana em que cresceu; os sintomas de uma perturbação mental (psicose esquizofrénica, dizia-se no seu tempo); a morte de um seu irmão; os tormentos das duas Grande Guerras e, claro, a inquietude muito própria e vital para a actividade literária. Hermeneuta da vida, segundo escreve Werner Waldmann, um dos biógrafos da autora de As Ondas, “logo a partir dos primeiros textos sente-se a obstinada procura da escritora quanto a abranger por palavras o mundo que a rodeia e toda a sua profundidade: «toda a realidade», sem ignorar gradações e afastando-se dos clichés e dos métodos literários até então experimentados”. “V.W. não pretende fantasiar histórias, mas arrancar matéria ao caos das sensações interiores, à amálgama de vozes exteriores e interiores”. Como salienta Pierre Nordon, professor emérito de literatura na Sorbonne, em Paris, no artigo A estética do fragmento, publicado no dossier dedicado a V.W, em Le Magazine Littéraire de Dezembro de 2004, “a narrativa woolfiana remete-nos sempre para o universo da pintura”. “Uma das inovações mais marcantes de Virginia é a de, voluntariamente, ter transposto para a literatura a prática dos impressionistas”. Ou seja, toda a vida da escritora foi uma prova de esforço para si própria e para a sua linguagem.




Vida até ao casamento



Filha do segundo casamento de Leslie Stephen com Julia, V.W. nasceu a 25 de Janeiro de 1882. Leslie começou como pastor numa igreja, passando, mais tarde a desempenhar funções como jornalista, biógrafo e historiador. Tido como temperamental, ambicioso e de vivo intelecto, Leslie desde cedo proporcionou um ambiente de elevada intelectualidade na sua casa. Personalidades da cultura britânica de então eram visitas regulares para a família Stephen. Virgínia e a sua adorada irmã Vanessa não receberam qualquer formação escolar, mas antes uma educação própria para senhoras (equitação, canto, música, dança), como convinha à rígida época de costumes em que viviam.


Waldman documenta que ”enquanto criança, V.W. absorvia tudo o que conseguia ouvir, mas não só idiomas. Virgínia aprendeu a ver e sentir o que a rodeava, a apreender o lado visível das coisas e as oscilações invisíveis por detrás das mesmas, todo o espectro de emoções em cada momento da vida”. “Imitava a linguagem dos adultos. Cedo começou a escrever para si, no tom dos adultos, a escrita como imitação. Para ela era um treino, exercícios de dedos para mais tarde”.


Aos 13 anos teve a sua primeira grande crise depressiva por ocasião da morte inesperada e impossível de sua mãe, o que mudou o harmonioso ambiente familiar que, com esforço, existia até àquele acontecimento. Assistir ao profundo sofrimento de Leslie devido à morte da segunda mulher, foi, ao mesmo tempo penoso, revoltante e um ponto de fuga para as irmãs inseparáveis, Virgínia e Vanessa.


É também a partir dessa idade e até aos 21 anos que Virgínia passa a ser vítima de abusos sexuais por parte do meio-irmão George Duckworth, 16 anos mais velho que ela. “Ainda me recordo da sensação quando a mão dele se enfiava por baixo do meu vestido e avançava energicamente e cada vez mais para cima. Recordo-me de como ansiava que ele se apercebesse de como me contraía e desviava quando a sua mão se aproximava das minhas partes sexuais. Recordo-me de que isso me revoltava e repelia – qual é a palavra exacta para um sentimento tão asfixiante e confuso? Deve ter sido forte, pois ainda se conserva na memória”, escreveu no diário que manteve durante toda a sua vida. Mais tarde, Virgínia viria a dizer que Duckworth havia arruinado a sua vida antes mesmo de ter começado. Muito devido a isto, VW nunca viria a desenvolver gosto pelo seu corpo e, mais tarde, nunca se sentiu atraída sexualmente por nenhum homem. “A natureza dotara-o com um excesso de vitalidade animalesca, mas não se dera ao cuidado de inserir um bom cérebro como órgão controlador”, disse sobre o seu odiado meio-irmão.


Até à morte do pai, Virgínia sentiu-se sempre acabrunhada pelo peso da sociedade vitoriana de que Leslie era um poderoso representante, revelando uma personalidade, segundo afirmam diversos críticos e biógrafos da escritora, introvertida, muito sensível, vulnerável, ansiosa, tímida e cheia de complexos de inferioridade. No entanto, o desmoronamento do cenário ideal de família que culminou com a morte de Leslie, em 1904, agravou as manifestações de perturbação psíquica que viriam a ensombrar toda a vida da romancista. Por exemplo, numa carta a Violet Dickinson, comentava que “se houvesse um Deus louvá-lo-ia por me ter liberto da infelicidade dos últimos seis meses [ouvia vozes, tinha pesadelos, nevralgias, enxaquecas]. Não podes imaginar como saboreio agora alegremente cada minuto da minha vida. Só peço que consiga chegar aos 70 anos (…) O desgosto pela morte de meu pai, como agora o sinto, contém algo de apaziguador e torna a vida, ainda que mais triste, igualmente mais valiosa”.


Bloomsburry


Foi no nº 46 de Gordon Square, Londres, que tudo começou para o Grupo Bloomsburry. Já motivada pelas discussões filosóficas que mantinha durante as refeições com o irmão Adrian, onde atiravam cubos de manteiga um ao outro, assim como pela vontade de estar à altura dos amigos do seu culto irmão Thoby e seus amigos, Bloomsburry – o espaço de tertúlias – constituiu uma grande alegria e um enorme estímulo para V.W. Além disso, tornou-se “atraente para uma certa camada social, para os intelectuais, artistas, escritores, jornalistas, pintores, estudantes, numa palavra para os boémios. Cultivava-se o liberalismo, sem grandes discursos a esse respeito”, nas palavras de Waldmann.


Mais uma vez, os seus complexos de inferioridade e o medo de ser ignorante, aguçaram-lhe o espírito para a leitura, sobretudo quando os restantes membros do grupo incitaram a grande silenciosa de Bloomsburry a ter um papel mais activo nas discussões que o grupo promovia.


Por outro lado, como escreveu Hermione Lee, a mais conceituada biógrafa de V.W., num artigo publicado no The Guardian, em Fevereiro de 2003, a autora de Orlando, passou a ser “conhecida por ser uma conversadora brilhante e divertida que arrancava gargalhadas aos amigos” e isto não como forma de provocar a hegemonia masculina da altura, mas mais como forma de dizer que também ela seria capaz, que estava ali. Outros há que associam a esta sua faceta mais social uma manifestação do que hoje se designaria por doença bipolar.


“A presença de Woolf era marcada pela magreza, a bela estrutura óssea, a fragilidade, os olhos, a voz, a mistura de angulosidade e de estranheza”, elucida ainda a investigadora.


O incondicional Leonard


Virgínia foi, apesar de tudo, uma mulher afortunada, por exemplo, quando a vida lhe ofereceu Leonard Woolf, o homem com quem viria a casar em 1912. Mais à frente neste artigo e até na sua última nota de suicídio, ela mostrará o porquê. Ora, foi também entre a intensa actividade cultural que acontecia no grupo Bloomsburry que Virgínia conheceu Leonard – o homem que estava sempre a tremer –, antes deste partir de viagem para o Ceilão. “Fiquei, como é óbvio, profundamente fascinada por este selvático, trémulo e misantropo judeu, que já erguera o punho contra a civilização”, escreveu ela no seu diário sobre o futuro marido. Para aceitar casar-se, muito contribuiu o facto de recear ser marginalizada pela sociedade que a rodeava, bem como se preocupar, como revelou em cartas enviadas à sua irmã Vanessa, em 1911, por aos 29 anos se considerar “uma falhada”, porque não era casada, nem escritora, nem tinha filhos. Afinal, também Virgínia queria partilhar o quotidiano com um companheiro, mesmo que as suas tendências sexuais pendessem para as mulheres, facto que atribuiu quer ao domínio que a figura materna teve em si até aos 40 anos, quer ao facto de saber a sua recusa de tudo o que se interligasse ao seu corpo. Ao mesmo tempo, receava e desejava o amor, os filhos, a aventura, a intimidade e o trabalho próprios do que é um casamento.


Desde a sua união com Leonard, como refere Waldmann, Virgínia não passou por anos fáceis: “a prolongada e sempre recrudescente doença, a constante ameaça de mergulhar por completo no abismo da loucura; a decepção de que problemas indissolúveis pesavam sobre o seu casamento: a falta de filhos, as dificuldades no âmbito sexual; o modesto êxito ideal e material do seu trabalho de escritora; a guerra; amizades que haviam chegado ao fim, o pálido reflexo de Bloomsbury”. Sobre a vida particular de V.W, o biógrafo escreveu: “Virgínia podia confiar em Leonard, que a aceitara tal como ela era. O amor de ambos, se é que assim lhe pode chamar, assentava em bases sólidas, jamais questionáveis. “Estou deitada e penso no meu querido monstro que torna cada dia da minha vida mais feliz do que alguma vez julgara possível. Estou sem dúvida terrivelmente apaixonada por ti. Penso sem cessar no bem que me fazes e tenho de parar – desperta-me logo o desejo de te beijar”.


Viver da e na escrita


A editora que o casal Woolf montou foi uma das maiores aventuras que ambos viveram. V.W. era a responsável editorial da familiar Hogarth Press, enquanto Leonard administrava toda a envolvência do negócio com uma competência e cabeça fria notáveis. T. S. Elliot, Tolstoi, Gorki, Tchekov, Doitoievski, Ítalo Svevo, Rainer Maria Rilke, Gertrude Stein, Vita Sackville-West, H. G. Wells, Freud (V.W. mostrou-se várias vezes céptica em relação às ideias do pai da psicanálise) são apenas alguns dos nomes que fizeram parte do catálogo da editora dos Woolf. Mas o negócio do casal também ficou conhecido por recusar Sartre e, sobretudo, por ter negado a publicação de James Joyce.


Esquizofrenia ou processo criativo?


V.W era uma mulher que vivia no seu tempo e de acordo com a ideia que dela faziam, mas nunca permitiu que isso a manietasse. Sujeitou-se a todas as pressões e impulsionou-as para dentro de si. Deprimiu-se.


Se era ou não esquizofrénica e se isso se retratava na sua escrita é ainda hoje motivo de longas dissertações entre os estudiosos. No entanto, a efabulação e as toxinas que a obrigavam a tomar por causa da tal psicose, proporcionaram-lhe um mundo onde só ela habitava. Era quase como que autista, como muitos escritores e artistas são por necessidade, mas, na verdade, V.W. intercalava alturas de grande excitação, lucidez, criatividade com outras de depressão, isolamentos, medo de não conseguir fazer mais nada. Também por essa razão, escrever um romance causava-lhe, ao mesmo tempo, prazer e terror.


Outra explicação é dada por Diane de Margerie, romancista e autora de um prefácio a uma edição de Orlando, que outorga a V.W. uma “identidade retalhada”, isto é, “à vez nostálgica, deprimida, inquieta, vital, irónica, feroz, mundana, atraente, solitária, concentrada, desconcentrada”. “Ela não poderia viver senão num instante de cada vez”, remata a também ensaísta.


Note-se, por curiosidade, que como explicou Waldmann, após receber a resposta positiva do editor do seu primeiro livro “A Viagem”, V.W. padeceu de profundas depressões e de alucinações devido ao receio da reacção do público ao seu livro. Estas crises repetiram-se sempre que terminava um romance.


Uma das suas obras mais conhecidas – Mrs. Dalloway – que teve como primeiro título As Horas, representou um verdadeiro tormento para V.W. “A concepção é tão estranha e misteriosa”, dizia, referindo-se a “uma luta dos diabos”, e de que ficaria completamente esgotada durante o tempo em que o escreveria, receando acordar novamente o que chamava de loucura. “A parte sobre a loucura põe-me tanto à prova”, clamava Virgínia. As dúvidas constantes assolavam-lhe o espírito: “Terei o poder de transmitir a verdadeira realidade? Ou escrevo apenas ensaios sobre mim própria? Responda o que responder…a minha agitação permanecerá sempre”. Apesar disto, era a escrever que V. W. sentia a força vibrante do seu ser. Penetrar no inconsciente detalhado das personagens, registar a fluidez complexa do quotidiano, confrontar as terríveis associações de que se constitui a vida humana são características claras de uma nova forma de narrativa que V.W. protagonizou e de que Mrs Dalloway é exemplo. “A obra de Woolf é a pragmatização de uma frutuosa pesquisa sobre a arte do romance, da qual resultou uma forma elástica, servida pela representação descarnada da consciência e por um ritmo cada vez mais interiorizado, demanda que consumiu e espelhou a sua vida” (Jornal de Letras, de 5 de Março de 2003). “Qual a fronteira entre o real e a ilusão?”, perguntava ela no livro Um quarto que seja seu.


As Ondas, o outro vértice do triângulo primordial da obra de V.W. (Mrs. Dalloway, As Ondas e Orlando), foi escrito no limiar de mais uma crise depressiva de V.W. Depois de o ter acabado, a autora desabafou assim: “Escrevi as últimas palavras há um quarto de hora – depois de ter desbobinado as últimas dez páginas com tal intensidade que ainda me parece estar a seguir, vacilante o eco da minha própria voz ou antes o eco da voz de alguém (como se estivesse louca) …. Seja como for, está feito e há quinze minutos que estou num estado de êxtase e calma; também chorei um pouco…Como é física a sensação do triunfo e do alívio!” O marido classificou o seu livro como uma obra-prima, o melhor dos seus livros.


Paradoxo humano


V.W., em Rumo ao Farol, apresenta uma visão segundo a qual “cada homem e mulher é uma criatura isolada e cada um deles requer e procura alguma comunicação legítima com os outros em particular e com o mundo em geral”, diz Kenneth Tighe num artigo crítico ao supracitado romance, “Arte e ateísmo em Rumo ao Farol”. Segundo o ensaísta, o isolamento individual das personagens naquele romance é sustentado pela ausência de Deus. Ou seja, sem a presença de Deus como apoio ao humano, cabe ao indivíduo atribuir ordem, significado, sentido de unidade no (seu) universo intrinsecamente caótico. Sendo assim, “para a Sra. Woolf, no romance Rumo ao Farol, a arte é a ponte que se eleva sobre a anarquia do ateísmo”, apesar de o homem e a mulher serem sempre criadores imperfeitos e falíveis. Por outro lado, é perfeitamente visível que V.W. queria um mundo onde a mulher e a diferença fosse reconhecida. Ela desenha esse mundo em Orlando. E é curioso verificar, por exemplo, que o anagrama de Orlando [Leandro] é o paradigma da obra de Lídia Jorge, escritora portuguesa, O Vento assobiando nas Gruas.


V.W. era maçónica (das lojas regulares) e debateu-se toda a vida com o estatuto de menoridade que era atribuído à mulher, inclusivamente depois de ter tido algum êxito com as suas obras. A isso se deve também o facto de se ter imbricado nas teorias humanistas da diferença. Também as suas constantes depressões que a assolaram terão derivado muito dessa dicotomia entre o mundo dos homens e das mulheres que era tão gritante para alguém que apenas queria ser vista como ser humano. Por isso e muito mais, ela tentou, com a vida e com a sua literatura, desvendar a profundidade da alma humana, o que a aproximou de autores como Rainer Maria Rilke, apesar de ambos terem tido trajectos distintos.


Morte no rio


“Tu, sobre quem cavalgo, diz-me que inimigo vemos agora avançar contra nós, neste momento em que golpeias a calçada com os teus cascos? É a Morte. A Morte é o nosso inimigo. É contra a morte que cavalgo de lança em riste e os cabelos flutuando ao vento, como os de um jovem, como os de Percival quando galopava na Índia. Cravo a esporas nos flancos do meu cavalo. Invencível e indómito é contra ti que combato, oh Morte!”, escreveu Virgínia em As Ondas.


Diane de Margerie considera que os vários acontecimentos que implicaram um sofrimento profundo em V.W. resultaram na fragmentação da identidade da escritora, apesar dela sentir uma “intensa nostalgia de uma unidade impossível de alcançar (excepto na morte)”. E é daqui que vem a resposta à frase que serviu de título ao filme de Mike Nichols e a uma peça de teatro de Edward Albee, “Quem tem medo de Virgínia Woolf?”. O mesmo é dizer quem tem medo da morte, quem tem medo do que é a vida, quem tem medo de exceder (-se) nas convenções estabelecidas. Ou seja, a morte é a mais alta forma de dignificar e valorizar a vida, porque é a mistura entre o infinito e a liberdade absoluta. O recurso à morte terá sido, para Virgínia, uma forma de se manter viva. Porque importa não esquecer que Virgínia, sendo uma espécie de morta-viva, sempre amou a vida e os outros.


Como morreu?


V. W. dizia que o oceano lhe ensinava mais sobre a natureza humana do que as próprias pessoas, mas escolheu um rio como leito da sua morte. “Woolf afogou-se num frio dia de Março num perigoso e horrível rio que corre tão rápido que nada cresce nas suas margens. Vestia um velho casaco de pele, botas e um chapéu. Se saltou, entrou ou lutou, não sabemos”, informa Hermione Lee. Com os bolsos cheios de pedras, V.W. terá tido a sua resposta, depois de ter decifrado para além do algodão (=além da realidade da natureza humana): “A morte era um desafio. A morte era uma tentativa de união ante a impossibilidade de alcançar esse centro que nos escapa; o que nos é próximo afasta-se; todo o entusiasmo desaparece; fica-se completamente só...Havia um enlace, um abraço, na morte?”. [Mrs. Dalloway, Livros do Brasil, edição de 1992].


“Mrs. Dalloway mudou a minha existência”


Michael Cunningham, que recebeu o Prémio Pulitzer, pelo romance As Horas, partiu para essa aventura de dar um renascimento à obra de V.W., quando tinha apenas 16 anos, depois de ler Mrs Dalloway. “Este livro foi realmente o primeiro a causar uma impressão real em mim, foi o primeiro a mostrar-me tudo o que se pode fazer com um pouco de tinta e de papel. Nunca mais li frases com tanta densidade, complexidade, musicalidade e beleza. Mrs Dalloway mudou a minha existência, ao revelar-me a literatura”, comentou numa entrevista concedida à ”Le magazine littéraire, edição de Dezembro de 2004. O resultado deste encanto materializou-se em 1996 quando começou a escrever As Horas. Virgínia Woolf: a irmã de Shakespeare que triunfou Um dia foi impedida de entrar numa Biblioteca Pública de Londres por não possuir uma carta do seu marido, autorizando-a para tal. E um dia, em 1929, publica Um quarto que seja seu, cuja ideia principal assenta no facto de as mulheres terem sido sempre subjugadas não devido à sua natureza, mas como resultado de algumas “tristes” circunstâncias económicas e sociais. No entanto, como é referido no livro Mulheres nas Letras, Mulheres dos livros, “aparentemente, ela desfrutava das condições que considerava essenciais para uma mulher se afirmar como escritora, advogadas no seu ensaio Um quarto que seja seu, dispor de espaço físico e psicológico e de dinheiro suficiente para se bastar a si própria”. A propósito disto, inventou uma irmã para Shakespeare que, por ser mulher, nunca poderia ser escritora.

3.31.2011

HUMILDADE

José Alencar (JA) morreu esta semana



Ex-Vice Presidente da República do Brasil



"A humildade não está na pobreza, não está na indigência, na penúria, na necessidade, na nudez e nem na fome".



Na semana passada, o vice-presidente da República, José Alencar, de 77 anos deu início a mais uma batalha contra o câncer. É o 11º tratamento ao qual se submete.



*Desde quando o senhor sabe que, do ponto de vista médico, sua doença é incurável?



JA - Os médicos chegaram a essa conclusão há uns dois anos e logo me contaram. E não poderia ser diferente, pois sempre pedi para estar plenamente informado. A informação me tranquiliza. Ela me dá armas para lutar. Sinto a obrigação de ser absolutamente transparente quando me refiro à doença em público. Ninguém tem nada a ver com o câncer do José Alencar, mas com o câncer do vice-presidente, sim. Um homem público com cargo eletivo não se pertence.



*O senhor costuma usar o futebol como metáfora para explicar a sua luta contra a doença. Certa vez, disse que estava ganhando de 1 a 0. De outra, que estava empatado. E, agora, qual é o placar?



JA - Olha, depois de todas as cirurgias pelas quais passei nos últimos anos, agora me sinto debilitado para viver o momento mais prazeroso de uma partida: vibrar quando faço um gol. Não tenho mais forças para subir no alambrado e festejar.



*Como a doença alterou a sua rotina?



JA - Mineiro costuma avaliar uma determinada situação dizendo que "o trem está bom ou ruim". O trem está ficando feio para o meu lado. Minha vida começou a mudar nos últimos meses. Ando cansado. O tratamento que eu fiz nos Estados Unidos me deu essa canseira. Ando um pouco e já me canso. Outro fato que mudou drasticamente minha rotina foi a colostomia (desvio do intestino para uma saída aberta na lateral da barriga, onde são colocadas bolsas plásticas), herança da última cirurgia, em julho. Faço o máximo de esforço para trabalhar normalmente. O trabalho me dá a sensação de cumprir com meu dever. Mas, às vezes, preciso de ajuda. Tenho a minha mulher, Mariza e a Jaciara (enfermeira da Presidência) para me auxiliarem com a colostomia. Quando, por algum motivo, elas não podem me acompanhar, recorro a outros dois enfermeiros, o Márcio e o Dirceu. Sou atendido por eles no próprio gabinete. Se estou em uma reunião, por exemplo, digo que vou ao banheiro, chamo um deles e o que tem de ser feito é feito e pronto.Sem drama nenhum.



*O senhor não passa por momentos de angústia?



JA - Você deveria me perguntar se eu sei o que é angústia. Eu lhe responderia o seguinte: desconheço esse sentimento. Nunca tive isso. Desde pequeno sou assim, e não é a doença que vai mudar isso.



*O agravamento da doença lhe trouxe algum tipo de reflexão?



JA - A doença me ensinou a ser mais humilde. Especialmente, depois da colostomia. A todo momento, peço a Deus para me conceder a graça da humildade. E Ele tem sido generoso comigo. Eu precisava disso em minha vida. Sempre fui um atrevido. Se não o fosse, não teria construído o que construí e não teria entrado na política.



*É penoso para o senhor praticar a humildade?



JA - Não, porque a humildade se desenvolve naturalmente no sofrimento. Sou obrigado a me adaptar a uma realidade em que dependo de outras pessoas para executar tarefas básicas. Pouco adianta eu ficar nervoso com determinadas limitações. Uma das lições da humildade foi perceber que existem pessoas muito mais elevadas do que eu, como os profissionais de saúde que cuidam de mim. Isso vale tanto para os médicos Paulo Hoff, Roberto Kalil, Raul Cutait e Miguel S-rougi quanto para os enfermeiros e auxiliares de enfermagem anônimos que me assistem. Cheguei à conclusão de que o que eu faço profissionalmente tem menos importância do que o que eles fazem. Isso porque meu trabalho quase não tem efeito direto sobre o próximo. Pensando bem, o sofrimento é enriquecedor.



*Essa sua consideração não seria uma forma de se preparar para a morte?



JA - Provavelmente, sim. Quando eu era menino, tinha uma professora que repetia a seguinte oração: "Livrai-nos da morte repentina". O que significa isso? Significa que a morte consciente é melhor do que a repentina. Ela nos dá a oportunidade de refletir.



*O senhor tem medo da morte?



JA - Estou preparado para a morte como nunca estive nos últimos tempos. A morte para mim hoje seria um prêmio. Tornei-me uma pessoa muito melhor. Isso não significa que tenha desistido de lutar pela vida. A luta é um princípio cristão, inclusive. Vivo dia após dia de forma plena. Até porque nem o melhor médico do mundo é capaz de prever o dia da morte de seu paciente. Isso cabe a Deus, exclusivamente.



*Se recebesse a notícia de que foi curado, o que faria primeiro?



JA -Abraçaria minha esposa, Mariza e diria: "Muito obrigado por ter cuidado tão bem de mim".



(* Repórter desconhecido, via e-mail Ivana Bussab – Suíça)

V EXPO AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS



Quarteira, Praça do Mar, 13 a 15 de Maio de 2011


De 13 a 15 de Maio de 2011 a Cidade de Quarteira vai receber pelo quinto ano consecutivo a EXPO AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS, numa organização conjunta da Junta de Freguesia de Quarteira, e do site de voluntariado ambiental http://www.algarverenovavel.com/ , com o apoio da Câmara Municipal de Loulé.


Mais uma vez a Praça do Mar, em Quarteira ficará composta de tudo aquilo que de melhor existe em Portugal em matéria de energias renováveis, veículos amigos do ambiente e tecnologias amigas do ambiente. Trata-se de uma exposição de entrada inteiramente livre, com diversas actividades de Educação Ambiental para as escolas, com várias demonstrações de tecnologias amigas do ambiente nomeadamente dos curiosos Fornos Solares, Cine ma de Educação Ambiental, e um Seminário. No decorrer da exposição, vários concertos animarão a Praça do Mar, e no Domingo, último dia, para além de uma acção de limpeza com voluntariado (para o qual todos estão convidados, seguido de almoço para os participantes), realizar-se-á o tradicional desfile de veículos ecológicos.


A V EXPO AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS é uma das mais interessantes feiras de energias renováveis e de ambiente, eminentemente prática, de entrada livre que dedica uma especial atenção à sustentabilidade ambiental e aos veículos não poluentes, constituindo um espaço de excelência para o estabelecimento de contactos, e divulgação de conhecimentos na presença daquilo que de melhor existe à venda em Portugal. Porque esta iniciativa é interessante, convidamos a vossa empresa a expor nesta exposição de Energias Renováveis , de veículos amigos do ambiente e de tecnologias de protecção ambiental. Assim, solicitamos que nos informem do interesse da presença da vossa empresa nesta exposição. Seria muito importante que se apresentassem soluções em funcionamento, tal como tem acontecido em anos anteriores.

O horário da Exposição será das 12 h às 23h e a montagem dos Stands pelos Expositores será no dia 12 de Maio de 2011.

As inscrições dos expositores para este evento deverão ser efectuadas mediante o envio da ficha de inscrição que se junta em anexo para a Junta de Freguesia de Quarteira até ao próximo dia 29 de Abril de 2011, informando o espaço e os recursos que necessitarão para a instalação dos vossos equipamentos. Sendo o espaço limitado a 18 Stands que rapidamente se esgotam(sobretudo as melhores localizações), aconselhamos a que se inscrevam com a maior brevidade.


Contamos convosco!

Pela Comissão Organizadora

António Brito

964144312



Para informações adicionais e inscrições aconselha-se que contacte directamente a Junta de Freguesia de Quarteira, para escolha dos Stands, pois as melhores opções e localizações depressa se esgotam, pois o espaço é limitado, sendo montados apenas 18 Stands:


Rua Vasco da Gama, nº 85 - r/c 8125-256

QUARTEIRA

Telf: 289 315 235 Fax: 289 314 957

No intuito de promover as boas práticas ambientais das empresas e dos organismos públicos, a AMI tem procurado disponibilizar instrumentos de recolha e tratamento de resíduos, que lhe permitem, adicionalmente e sem custo acrescido para os participantes, angariar fundos para o financiamento das suas actividades humanitárias médicas, sociais e ambientais.


Pretendemos, no seguimento de anteriores contactos, apresentar-vos uma proposta para os Resíduos de Equipamentos Eléctricos e Electrónicos de que pretendam desfazer-se.


Para conhecerem esta proposta em pormenor, contactem-nos através do e-mail reciclagem@ami.org.pt ou do número de telefone 218 362 100.


Agradecemos a disponibilidade e aguardamos o vosso contacto.
A Escola de cães-guia para cegos de Mortágua precisa de amigos para a sua manutenção.

A Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra é amiga e vai fazer, no dia 8 de Abril, um jantar de angariação de fundos para os nossos cachorros.


Gostaríamos muito de contar com a tua presença.

Podes fazer a inscrição para os seguintes nºs: 917761274 - Ana Mafalda e 966807915 - Ana Guerra. Vai haver música e muita animação.


Aparece e trás amigos!

Caso não possas aparecer, podes sempre contribuir fazendo um donativo em http://www.caesguia.org/ajudar.html

Obrigado

Júlio Damas Paiva

3.28.2011

Este ano, na sua declaração de IRS ajude a AMI sem gastar nada e exerça um acto de cidadania activa.


Basta escrever o número de contribuinte 502 744 910 no campo 9 do anexo H. Ao fazê-lo estará de imediato a ajudar a AMI com 0,5% do seu imposto já liquidado.


No último ano apurado, o valor atribuído à AMI pelos contribuintes superou os 700 mil euros. Esta verba equivale à manutenção, durante um ano, de 3 dos 11 equipamentos sociais que a AMI tem em funcionamento em Portugal. Ajude-nos a alcançar ainda mais.


Envie esta possibilidade para todos os seus amigos, colegas e familiares e peça para também eles darem o seu contributo.

Mais informações em http://www.ami.org.pt/.

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

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