A JÓIA QUE O REI NÃO QUIS
MÓNICA BELLO
Revisão de Raquel de Jesus
Guerra e Paz, Editores, Lda.
170 págs.
by
JOAQUIM MARIA CASTANHO
Reportagem virtual, ou relatório
ficcionado, de um contrato de compra e venda que naufragou, ou crónica
de uma encomenda não consumada, é a demonstração cabal, lógica, sensata e
ponderada de como o trágico imprevisto pode ser colmatado pela prudente e
disciplinada intervenção do mutualismo
português que nasceu quase em simultâneo com os nossos Descobrimentos,
autenticando assim, em letra de forma, numa mancha gráfica de ótimo aspeto,
cujo miolo é recheado pela palavra cinzelada de Mónica Bello,
que a executa em modelo anglossaxónico, com parágrafos limpos, escorreitos,
objetivos, cumulativos, estruturados (encabeçados) por leads concisos, sintéticos, que raramente vão além da frase de uma
só oração, ocupando apenas a primeira linha, quase como títulos dos parágrafos
que a seguir se esmiúçam, em discurso preponderantemente dramático, isto é,
ancorado na 3ª pessoa do singular.
E
reportagem virtual porquê? Porque apenas
plausível, embora que sustentada em alguns factos históricos devidamente
documentados. A recensão dum livro
é sempre uma resenha descritiva e discussão valorativa desse livro. Um processo
crítico de ponderação e julgamento, a fim de salientar tanto os méritos como os
handicaps que caraterizam essa obra. E
um dos méritos com que mais rapidamente nos familiarizamos, é a qualidade do
parágrafo que reporta sem importunar nem saturar o leitor com narizes de cera
nem exaustivas descrições, e aponta, informa, promete, elucida, desde a
primeira linha quanto e como o seu conteúdo interessa ao leitor como à
narrativa. Porque sendo como é a reportagem
já em si a ação, mas também a técnica de plasmar a dita em si mesma, porquanto
sendo ela originariamente francesa, não só ofereceu a sua valência às correntes
existencialistas francófonas, como consolidou a literatura numa arte universal
em que inúmeros escritores, alguns dos quais laureados com o Nobel, nos têm
oferecido obras inesquecíveis, a exemplo de Truman Capote (A Sangue Frio), Gabriel Garcia Márquez (Cem Anos de Solidão e Crónica
de Uma Morte Anunciada, p. e.), Vergílio Ferreira, Daniel Defoe, José
Saramago, etc., etc., também tem beneficiado muito o jornalismo de investigação
e de qualidade, uma vez que este se faz com maior desenvolvimento, “em que se
presta particular atenção às causas e consequências de acontecimentos atuais”
ou de acontecimentos que supostamente tiveram lugar no passado, próximo como
longínquo, emprestando-lhe a mesma virtualidade de rigor que assiste ao
realmente visto e confirmado, ainda que esse rigor seja dependente dos
documentos que lhes corroborem a factualidade, bem como a interpretação que
deles é feita. Fazendo-o assim de forma díspar da literatura pura, posto que
sucederam sempre fora do livro, do romance ou novela, exigindo-nos confiar em
quem lhes assistiu e no-los conta, a narradora ou narrador, o ou a personagem
envolvida, que nunca é o autor, nem a autora, que os imaginaram, e sim antes quem
os viveu e concretizou na sua plausível factualidade, dando-lhe voz e
peculiares maneiras de entendimento.
E,
na apressada atualidade, um parágrafo por extenso que seja, se tiver um bom lead, que elucida por inteiro da sua natureza
semântica e do desenvolvimento que terá no corpo, além de propiciar o tema dá também
o leitmotiv,
sendo uma enorme ajuda que se faculta a qualquer leitor, poupando-lhe tempo e
aligeirando-lhe esforço na interpretação, uma vez que o tema geral é a
atividade duma seguradora e a atitude profissional dos seus colaboradores
durante um período de tempo da sua existência que, neste caso, se relaciona com
um motivo – igualmente expresso em título – ou bem de inegável valor histórico,
artístico e fiduciário: a faca de punho e bainha esculpidos em prata, faca
de mato de dois gumes
que levou 11 anos a fazer mas que o rei D. Fernando II não comprou, embora
tenha sido uma encomenda sua, ou favor
pedido – e cópia de uma outra com cabo e bainha em marfim, que já possuía – ao
ourives Rafael Zacarias da Costa, lavrante de prata da baixa lisboeta, que se
iniciou mais precisamente na rua Bela da Rainha,
ora rua da Prata, e se instalou na rua Áurea (rua do Ouro) depois de aprendido
o ofício, nos meados do século XIX – que é, exatamente, o leitmotiv desta obra. Contribuindo assim para que tudo neste
romance pareça autêntico, verdadeiro, desde os acontecimentos aos personagens,
desde a faca à traficante Eva Mayer, ao curador Carlos Coelho de Sousa, ao
professor Jorge Ferreira, ao consultor Pedro Araújo de Brito, ao representante
da Fidelidade Manuel Lacerda, ao mergulhador José dos Anjos e ao guardador e
cronista
Jerónimo Chagas, até ao desfecho e conjunto que são notoriamente falsos, pois a
verosimilhança de pormenores é sempre um meio de criar ilusões, ou isca para
conduzir os leitores a essa situação incrível quão improvável, que inclui
essoutra «verdade real»
mas mais profunda que os sentidos e sentimentos circunstanciais, que carateriza
a obra romanesca, sobretudo o romance picaresco, transformando a anedota de
tipos sociais assim noutra coisa, espécie de novela
com resultados muito próximos do romance filosófico,
de onde podemos deduzir pelo menos cinco grandes lições: I – Que quem é
manipulador é igualmente manipulável;
II – Em literatura não basta nomear ou adjetivar para fazer acontecer; III – A
pré-perceção e perceção motivada só são concludentes depois de confrontadas com
a realidade e esta as corroborar; IV – Que a ficção não é uma mentira recheada
de pequenas verdades, e que não vale tudo para o conseguir; e V – Que os exercícios
de narcisismo, mesmo se elaborados com cinzelamento de filigrana e motivação
coletiva, não deixam de ser simples exercícios de puro narcisismo, e que até os
reis precisavam de receber cem contos anuais para poderem cumprir as suas
promessas e concretizar as suas extravagâncias. Ou seja, que quem quer rainhas,
paga-as
– e os reis também.
Todavia,
ninguém junta duas personagens (pícaras) cujos nomes sejam Eva (a bíblica
ancestral hebraica) e Pedro (o patrono do cristianismo, com basílica sobre o túmulo
de Constantino) à volta duma mesma faca de
prata de dois fios (e linhagens – Antigo [Paraíso] Testamento e Novo [Cristianismo]
Testamento –) por acaso, sem um propósito definido, pois os nomes são
falsificáveis mas nunca os seus significados, para se instrumentalizarem uma ao
outro e vice-versa, se não tiver em mente algo maior, porquanto se a primeira
inventou o pecado e a culpa, o segundo ungiu o perdão em consequência da
confissão e do arrependimento. Exatamente de prata – porém com lâmina da aço, o
que para o efeito previsto se vê em contradição, e apenas a fé um dia ousará
explicar –, que é metal infalível para matar mortais e imortais, tanto naturais
como viventes do oculto, bruxas, aventesmas e lobisomens, por exemplo. Isto é,
a verdadeira joia que a coroa não quis… exatamente aquela que por ter levado 11
anos a fazer detinha o poder da luz como das trevas, e podia ter salvado a
monarquia portuguesa de tantos dissabores, desastres e crises até à república
final; porque se D. Fernando II se tivesse mantido fiel à falecida D. Maria II
manteria o seu direito aos cem contos que lhe dariam para comprar a faca que
encomendara – e muitas mais. E, não o fazendo, a credibilidade da coroa perante
os súbditos degradou-se ainda mais do que já estava.
Sobretudo
porque qualquer manifestação artística estabelece e compreende uma dinâmica
própria entre as suas partes, mas também entre elas e o seu todo, e a
literatura (romance, novela, drama, poema, que sejam) é uma criação artística
(técnica), e se Pedro tem comido “a maçã” que Eva realmente lhe oferecera, as
consequências teriam sido obrigatoriamente outras. Ou seja, quando as
personagens se instrumentalizam umas às outras pelas mesmas causas mas com
diferentes motivações, os desfechos saem destorcidos, tal como na História de
Portugal outro desfecho se daria se D. Fernando, o rei-artista, tivesse honrado
a sua palavra, não obstante o lato intervalo entre o tê-la dado e o tê-la
cumprido. E na História, como neste romance, pese embora tudo continuasse a ser
verdade, o seu conjunto seria, como realmente é, uma ilusão desmedida. Uma
mentira que não depende da nossa vontade de nela acreditar para se tornar
verdade, não obstante as nossas crenças se vejam espelhadas e refletidas nela.
Pelo
que, uma vez que a ficção exige ser feita de intenções verdadeiras ou de sonhos
que podem expandir-se para o coletivo, outra seria a faca se cortasse com
prata, ou que o seu aço tivesse um leve banho de prata no vértice dos cortes,
suscitando-lhe assim novos enredos e demandas, pois que dificilmente a fantasia
popular a deixaria ser o que apenas aparenta para ajudar a ajustar contas com a
História, onde a Excalibur e o mito ocupam lugares cimeiros, inspiradores e
justiceiros, capazes de fazer pulsar os corações em romances que propiciassem
renovar o esplendor da lusitanidade que se mantém em contínua e duradora
convalescença desde o reinado filipino que nos abalou as fundações. Depois, Eva
e Pedro, até podiam passar mais tempo numa estância turística Suíça, pois teriam
quem lhe pagasse as contas… Sempre. E a horas.
Arte significa exatamente expressão
técnica de algo ou “conjunto dos meios pelos quais é possível obter a
realização prática de algo. = TÉCNICA” – "arte", in Dicionário
Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2025, https://dicionario.priberam.org/arte.