O poder do esquecimento
"Se a política é meio de elevação e libertação do homem,
sejamos políticos. Se a política é limitação da mente,
saibamos perguntar para que serve. "
Júlio Roberto
As origens do sofrimento humano estão profundamente ligadas às condições da sua existência.
Conforme terá afirmado Louis-Ferdinand Céline, na sua Viagem ao Fim da Noite, o esquecimento é o único pecado que não tem perdão. Porque é imperdoável esquecer o que homens e animais sofreram durante a II Guerra Mundial, da mesma forma que é igualmente inolvidável a experiência por que passaram os “hóspedes” dos campos de concentração nazi, as mulheres violadas nos Balcãs, os “apartados” da África do Sul ou os torturados de Cuba.
Há dias atrás, aquando do 13º aniversário da APPACDM (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente), de Portalegre, me cruzei nas instalações desta associação com o presidente da edilidade local, garantiu-me ele o feito no dito de que desta vez se tinha esquecido de me oferecer o bilhete para a tourada, e que suponho referir-se à costumeira da das Feiras das Cebolas. Esquecera-se porque se não lembrara, e pronto!, que estas coisas da memória são exactamente assim, sempre dependentes dos alzheimers do dia a dia.
Com toda a sinceridade não gosto de espectáculos que estropiem, utilizem, chacinem ou torturem animais, e muito menos que os enjaulem num reduto fechado para os humilhar perante babosas aficcions. A perda fora menor, portanto. Mas deu-me o mote para aquilo que realmente estava e está em questão: se a minha felicidade dependesse directamente desse gesto ou bilhete, eu teria sido um dos mais infelizes seres humanos do planeta e arredores. Teria sofrido a dor das expectativas defraudadas, a elementar carência de algo que fora considerado essencial. Sobretudo porque havia alinhavado a satisfação de um desejo com as linhas da esperança e fé nos meus semelhantes.
Ora, o que é indesmentível é que se o esquecimento pode ser pecado, em relação à história, ao conhecimento, aos afectos, às fés, também pode ser crime, quando é cometido sobre alguém que depende de nós. Se os familiares se esquecerem de ministrar a vacina a uma criança, como me sucedeu a mim com a da poliomielite, isso fará com que ela carregue toda a vida com as sequelas e estigmas concomitantes; se eu me esquecer de dar alimento ou água a um animal que prendi à minha porta, para me guardar dos intrusos, e ele perecer por isso; se alguém se tiver comprometido a pagar qualquer salário do qual depende a sobrevivência de um agregado familiar e se esquecer de o fazer, fazendo perigar a vida, bem-estar e harmonia dos seus membros; se deixarem esquecido ou fechado alguém num ermo isolado e sem meios de comunicação; se ao conduzirmos nos esquecermos de parar na zebra no preciso momento que um peão a atravessa, atropelando-o; se, enfim, nos esquecermos de atender a um pedido de socorro ou de contribuir com a parte correspondente e imposta por lei dos nossos rendimentos para o erário público… Então, não há dúvidas nenhumas que o esquecimento é igualmente crime. Nem que a negligência é uma arma mortífera!
E porque aos olvidados se não podem por si mesmos defender, além de pecado é assassínio, e mais que homicídio, é crime contra a humanidade. Principalmente porquanto o poder só se lembra de pugnar pela resolução dos problemas dos humanos subtraídos quando se esquece dos seus interesses arrivistas, particulares e materiais, tal como a todos nós é dado observar em Portalegre, onde ninguém pode, em seu juízo, deixar de reconhecer que o poder se lembrou e teve dinheiro para fazer inúmeras pontes eifelianas sobre rios inexistentes, mas as crianças da APPACDM têm que ir fazer hidroterapia a piscinas de outro concelho, mais precisamente no Crato. Como também não pode deixar de ver que o poder se lembrou de pagar balúrdios para criar novas e jesuíticas instalações autárquicas no Colégio de S. Sebastião, vulgo Fábrica Real, mas se esqueceu de providenciar a edificação do Módulo de Administração e Apoios Gerais da sede da APPACDM, ali à Moita, projecto ofertado por um arquitecto a executar num terreno doado pelo pai de uma utente. Que o poder se lembrou de fazer umas quantas azinhagas em novo empedrado para a cidade ficar mais bonita, mas se esqueceu de acautelar os acessos a esta APPACDM que têm que ser feitos atravessando propriedades particulares, sob o excelso favor dos seus proprietários. Que o poder se lembrou de reivindicar a feitura de um novo hotel de luxo na zona industrial, para carpir os eventos do gregário feudalismo sustentável, mas se esqueceu de complementar o dito projecto da APPACDM com o seu Módulo Residencial, essencial para a melhoria de qualidade de vida dos seus membros, tanto utentes como pessoal auxiliar e especializado. Que o poder se lembrou de fazer parques/bunkers de estacionamento para os seus kamhikazes de monóxido de carbono, mas se esqueceu de facultar à APPACDM um autocarro próprio e condigno às necessidades dos cidadãos que a integram. Que o poder se lembrou de transformar dois jardins para ficarem ainda menos úteis do que já eram, mas se esqueceu de instar à criação do Jardim e Horta Pedagógica correspondentes ao mesmo projecto da APPACDM, com fins óbvios para a formação e integração das suas crianças e adultos. Que o poder se lembrou de edificar um Centro Cultural topo de gama mas que se esqueceu que a civilização também é cultura, que o respeito pelas diferenças um espectáculo dignificante e o desenvolvimento humano um direito de todos. Que o poder se lembrou de utilizar os dinheiros públicos para se tornar mais poder, mas se esqueceu de socorrer às necessidades especiais de quem até para expressar o seu voto precisa de acompanhamento responsável. Que o poder se lembrou de promover a imagem de uma cidade mas se esqueceu que há pessoas que vêem o mundo e a vida de uma perspectiva diferente da nossa, cujas carências e formas de comunicar não se pautam pelos nossos códigos de linguagem, que praticam uma afectividade que nos é incompreensível, são incapazes da consciente emancipação, mas a quem o desenho e a escultura, a dança e o canto, a colagem, a pintura, o bordado, a carpintaria, as representações dramáticas, o hipismo, a natação, a marcha, a ginástica, o cuidar de animais, a horticultura, o cultivo e arranjos de flores, o convívio com os outros, a arte e a natureza, são mais que actividades económicas, mas antes tarefas de superação do seu isolamento, elos imprescindíveis para se ligarem à sociedade a que também pertencem, por direito e condição, e a sua especial maneira de nos dizerem quanto nos amam.
Quando, num país com o défice de 6,83 sem a fatia das autarquias e regiões autónomas, assistimos ao desbaratar do erário público, na propaganda partidária onde se enaltecem as obras feitas em prol da carreira política deste ou daquele que quer prolongar a sua estadia à frente dos desígnios de uma cidade, que é insuficiente para atender às necessidades vitais daqueles que de si dependem, cuja deficiente memória não chega nem para se lembrarem das suas responsabilidades cívicas primárias, e esquecem que o futuro resulta sobretudo da forma como acondicionarmos o presente e o passado, então não restam dúvidas de que com este quorum político nunca alcançaremos os patamares europeus, jamais teremos um estatuto de cidade madura e emancipada, como as congéneres da restante Europa desenvolvida, por mais que lhe lavem a cara e lhe vistam os trajes do folclore domingueiro, a fim de desfilar nas passarelles da vaidade provinciana.
Ou seja: já que temos uns políticos que não se lembram de contemplar na sua escala de prioridades programáticas, a resolução dos problemas do nosso dia a dia, os nossos direitos de cidadania, a melhoria da qualidade de vida, a humanização da cidade, a modernidade e o desenvolvimento sustentável da nossa região, a coesão social e os cuidados essenciais dos nossos familiares e amigos, mas sim se preocupam com satisfazer uma megalomania inusitada à sensatez, então é bem provável que também nós nos esqueçamos de votar neles, quando no próximo dia 9 de Outubro formos exercer o único acto que em democracia tem as qualidades do algodão que não engana: a alvura da nossa esperança. Especialmente porque não bastam a nenhuma existência as intenções constitucionais e apoios ministeriais, nem o exclusivo empenho dos familiares dos nossos conterrâneos com deficiência mental, para consolidarem a entrosagem social que merecem. É igualmente necessário compreender que o esforço de adaptação de qualquer indivíduo à sociedade é uma dádiva que ele nos concede a todos nós, e que sempre que lho inviabilizamos é um pedaço precioso que amputamos à humanidade. E que por cada oportunidade que lhe negamos ou dificuldade que não lhe abreviamos é uma mancha de malévola oxidação que acrescentamos à memória da nossa espécie, que não só ofuscará a imagem que os vindouros dela farão, como nos sonegará a consideração e reconhecimento dos países mais desenvolvidos do mundo, afinal os únicos que podem investir em nós – ou como prova e na justa medida daquilo em que a História se tornou exímia: que o esquecimento com esquecimento se paga.
Que o mesmo é dizer, já que aos nossos obreiros políticos não é dada a elevação moral de pugnar pelas nossas ansiedades e expectativas, então devemos responder-lhe que são um roubo para a nação, que não servem para nada, e muito menos para nos governar, em consonância com as inquietações enunciadas no pródromo, por Júlio Roberto.
Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
10.03.2005
9.21.2005
Sempre, sempre mais e ainda melhor (es)
Companheiros e companheiras:
Em conformidade com as linhas programáticas aprovadas na VII Convenção Nacional Ecológica, de 22 e 23 de Junho de 1996, na certificação de uma acção política baseada e consciente da relação simbiótica entre o homem e a natureza, a cultura e o meio ambiente, entendíveis como componentes da ecosfera reciprocamente condicionáveis, que assistem à génese do Movimento Ecologista Português – Partido OS VERDES, directamente germinado na necessidade de agir pela paz, pela desmilitarização, pelo desarmamento, pela desnuclearização, pelos direitos cívicos e de expressão ideológica, pela implementação da ecologia e pela procura constante de formas alternativas de entender a vida e organizar a sociedade sob a bitola de um progresso e desenvolvimento solidários e sustentáveis, pautado por princípios que se adjuvem ao pugnar evidente, eficaz, frontal, transparente, contínuo e democrático que faculte a crescente humanização da cidade de Portalegre, acelere os maquinismos sistemáticos de descentralização do Estado, incentive e efective o aumento da participação da região e suas gentes no processo de democratização da sociedade, propicie notória melhoria na qualidade de vida dos portalegrenses, incremente e acompanhe de forma envolvida e responsável a problemática da globalização cumprindo no quotidiano a definitiva instituição do “pensar global agir local” que a caracteriza, concretize a multicultura e diversidade como itens ou indícios latentes da sustentabilidade ambiental, social, económica, biológica e cultural, o Partido Ecologista OS VERDES e eu, na qualidade de candidato à Assembleia Municipal de Portalegre, na tentativa de ajudar a edificar uma sociedade ecologista e emancipada, que valorize o conhecimento e a tecnologia, a consciência cívica e a cidadania, e igualmente corporize o ideal libertador e progressista do 25 de Abril, aos níveis político, económico, social, cultural e ambiental, reforçando sempre o cariz e o sentido da solidariedade, da igualdade, da cooperação entre as instituições públicas e privadas na produção da qualidade de vida, da convivência harmoniosa entre grupos e sectores da sociedade, e humanização da malha urbana histórica e periférica/campesina desta capital de distrito, propomos:
1) Deliberar e intervir em favor de um gradual aumento quantitativo e qualificativo da utilização dos transportes públicos na cidade, da cidade e para a cidade, bem como providenciar para que se não compre mais qualquer veículo movido a energias tóxicas não renováveis (gasolina e gasóleo), aumentar as frequências nos horários e número de carreiras, adequar os horários à vida da cidade e necessidades de deslocação da população estudantil e autóctone, sobretudo dos residentes nos bairros dos Assentos e Atalaião, corrigir os trajectos actuais e multiplicar o número de paragens estendendo os percursos às novas urbanizações (Lysias, Santana, Carvalhinhas, Fonte dos Fornos, Areeiro, por exemplo), alargar o serviço de transportes (incluindo com carreiras nocturnas) às populações das restantes freguesias do concelho (Carreiras, Fortios, Reguengo, Ribeira de Nisa, Urra, Alegrete, Alagoa, etc.) com vista a dinamizar, revitalizar e facilitar a vida recreativa e comercial da cidade histórica, e garantir que cada um dos veículos de passageiros a gasolina e gasóleo se vendam e sejam substituídos gradualmente, a curto e médio prazo, por veículos equivalentes mas ecologicamente desejáveis, movidos a gás e/ou electricidade.
2) Contrariar a predominância de plátanos nos passeios públicos e jardins, providenciando o transplante dos que se manifestem incomportáveis com o espaço urbano em que se encontram para zonas em que não agridam a biosfera, plantando em seu lugar outros espécimens vegetais mais conformes à flora da região, susceptíveis de amenizar o secular confronto entre o ambiente serrano e o citadino, em observância à progressiva integração da vertente decorativa urbana na da decoração paisagista regional, tentando esbater e eliminar quaisquer factores de contradição ambiental adversos à biodiversidade, confluência de interesses entre a sustentabilidade ambiental e a qualidade urbana, quer do ar como da comunidade biológica, do habitat ou do espaço reservado à convivência diária das famílias citadinas; assim como contrariar a expansão industrial e urbana promovida sem regras e obedecendo apenas aos interesses da especulação imobiliária e do lucro fácil, que incentiva a ocupação e destruição das hortas e demais terrenos aráveis da periferia da cidade, com graves consequências na perda da qualidade ambiental, evidente subtracção da diversidade biológica, e elevado contributo para a descaracterização da paisagem regional e local, para o desequilíbrio ecológico, situação que além de impedir a utilização desse solo circunstante como gerador de riqueza, é igualmente produtora de doenças civilizacionais anexas à degradação ambiental, causadora de infelicidade generalizada, sufocação, stress e inúmeras doenças do foro psicossomático que em realidade já afectam vasta camada dos nossos conterrâneos citadinos.
3) Humanizar o espaço histórico da cidade, actualmente esvaziado de famílias como de pequenas empresas que lhe davam uma dinâmica e pulsar próprios eivados de substancial harmonia económica, cultural e social que contribuíam grandemente para a segurança pública, reabilitando para a habitação familiar a preços sustentáveis e/ou sociais todos os fogos devolutos e degradados de intra e extra muros, com vista a facilitar a coesão social e integração de estudantes e emigrantes, promovendo a sua fixação na região, em acelerado decréscimo demográfico desde remotas eras, o que em muito tem contribuído para o seu subdesenvolvimento.
4) Aumentar o número de ruas sem trânsito e fomentar a implementação e unidades de produção circunscritas à cultura, conhecimento e inovação tecnológica, bem como das actividades artística, comercial, turística e de serviços, cuja produção de mais-valias colectáveis seja também garante de sustentabilidade económica e melhor qualidade de vida dos portalegrenses.
5) Alterar radicalmente o conceito o de pavimentação urbana: as vias para circulação automóvel são lisas, onde é fácil caminhar e de materiais não escorregadios, mas os passeios e ruas para circulação de pessoas são invariavelmente de empedrado manhoso, de difícil aderência, escorregadios q.b., impróprios e arriscados para a locomoção humana, sobretudo dos mais idosos, que até podem ser muito bonitinhos mas que se demonstram cada vez mais inúteis para aquilo para que realmente foram feitos: servir as pessoas em liberdade.
6) Recanalizar toda a água das nascentes e linhas fluviais urbanas hoje em dia desperdiçadas e canalizadas para a rede de esgotos ou espelhos de água, espécie similar a céu aberto, que sempre sujos e inestéticos ficam à autarquia tão onerosos como produtores da sua imagem pública pouco transparente e estagnada, para reservatórios e estações e gestão de recurso a fim de ficarem disponíveis para usos industriais e de rega dos jardins públicos e privados que a requeiram por mais barata, impregnando a autarquia da prática de poupança de um bem escasso tal e qual como esta já aconselha ao cidadão comum, dando o exemplo daquilo que se pede.
7) Apostar no desenvolvimento sustentável é garantir o equilíbrio ecológico e assumir a responsabilidade de estar solidário com as gerações vindouras. Tentaremos por conseguinte combater e denunciar qualquer linha identificadora de insustentabilidade que reflicta, de forma mais o menos camuflada, qualquer prática de exploração do homem pelo homem, cativação e transformação selvagem produtivista dos recursos naturais da região, subordinação da vontade política aos interesses particulares e económicos, na perspectiva de corrigir assimetrias e desigualdades regionais, nomeadamente as de oferta de qualidade de vida e motivação cultural entre a cidade propriamente dita e as freguesias rurais, resolver e colmatar as injustiças sócio-culturais que historicamente têm penalizado o nosso interior desfavorecido, estimular a participação democrática dos portalegrenses na resolução dos problemas locais, regionais e nacionais, recorrendo ao referendo sempre que se avizinhe útil e oportuno, racionalizar a gestão dos espaços públicos urbanos, pôr termo à destruição acelerada da orla hortícola da cidade para fins habitacionais que apenas respondem aos interesses particulares de construtores civis e unidades bancárias de crédito, enfatizando deveras quanto estamos empenhados na criação de bem-estar individual e colectivo, na salvaguarda e promoção dos valores culturais, ambientais, paisagísticos e ecológicos, assim como na promoção e defesa das riquezas locais sem descurar o seu reflexo no equilíbrio regional, nacional e global, capaz de inibir as tentativas economicistas geradoras de crise de sobreprodução e emprego, consumo forçado e destruição dos recursos limitados mas imprescindíveis à vida.
8) Providenciar uma cidade para todos edificando plataformas de acessibilidade ou instalando elevadores em todos os serviços públicos e facilitar as obras nos privados que os queiram efectuar, quer no transporte dos materiais como no fornecimento de máquinas, licenciamentos, projecto arquitectónico e mão-de-obra especializada.
9) Providenciar para que a participação e qualidade da cidadania do sector feminino da população ganhe projecção e protagonismo estabelecendo um timing operativo favorável, nomeadamente nas reuniões partidárias, nas Assembleias Municipais e Assembleias de Freguesia, nos eventos oficiais autárquicos, posto que sendo estes sempre efectuados em horários nocturnos e terminando invariavelmente altas horas da noite, a indispõem à participação cívica e lhe sonegam a possibilidade de discussão e esclarecimento da problemática sócio-política, incompatibilizando a vida pública da mulher com a sua vida familiar ou necessidades de assistência familiar.
10) Criar o Conselho Autárquico para o qual serão convidados a participar todas as individualidades de destaque das áreas empresariais, profissionais, culturais, artísticas e cognitivas, com o único objectivo de reflectir, enunciar, promover e consolidar o harmonioso desenvolvimento do concelho, na prossecução de uma sociedade para todos.
11) Pugnar pela criação de um canil hospital/hospedaria em condições de higiene, estruturais, de manutenção e de serviço clínico-veterinário suficientes e capazes, onde se possam abrigar não só os animais abandonados mas também hospedar aos que os seus donos queiram acondicionar temporariamente, por vontade expressa e mediante pagamento para o efeito, ou os enfermos que carenciem de cuidados especializados, apoio educativo e convívio com outros da sua espécie.
12) Estimular a construção de uma estufa e/ou reptilário, para fins turísticos e pedagógicos, onde se possam observar e reconhecer todas as espécies de flora e répteis existentes na região de S. Mamede, a fim de os poder divulgar e valorizar, rentabilizar e promover sem interferir nem prejudicar no seu habitat selvagem, o Parque Natural da Serra de S. Mamede e áreas adjacentes.
13) Acelererar a concretização do Parque de Merendas, Desportos e Lazer junto ao Estádio Municipal, conforme o aprovado anteriormente.
14) Deliberar a favor da implementação de um RMPA (Regulamento Municipal de Protecção dos Animais) no qual se definam, de harmonia com a legislação nacional em vigor, normas municipais estritas e firmes, verdadeiramente eficazes para dissuadir e punir quem maltrate, abandone, descure, use para fins comerciais ou abuse de animais na cidade.
15) Instituir e definir um compromisso autárquico de não autorização e não licenciamento de espectáculos e divertimentos cruéis com animais no concelho, nomeadamente circos, rodeios, carrosséis de póneis ou de outros equídeos, bem como touradas em praças desmontáveis.
16) Indisponibilizar totalmente os materiais, equipamentos e mão-de-obra para manter ou efectuar qualquer melhoria na praça de touros, assim como não permitir que os veículos dos transportes municipalizados efectuem carreiras ou sirvam de promoção aos espectáculos tauromáticos, nomeadamente na deslocação de grupos de forcados.
17) Instigar todos os serviços administrativos autárquicos a não usarem outro papel que não o reciclado, e afectar nesta medida também todos os estabelecimento de ensino cuja tutela de materiais, equipamentos e manutenção lhes esteja ligada, como é o caso dos pré-primários (creches e infantários) e 1º Ciclo do Ensino Básico, assim como providenciar a circulação da agenda cultural e demais informação respeitante aos serviços camarários e/ou municipalizados, como cortes de água, cortes de ruas ao trânsito, alterações de horários nos transportes públicos ou funcionamento dos serviços, eventos recreativos, desportivos, culturais ou oficiais, se faça por via SMS, como à semelhança daquilo que já se pratica, p. e., em Estarreja ou Entroncamento.
18) Reprogramar a atitude cultural do município de forma a fomentar a criação e usufruto dos produtos culturais numa perspectiva de disseminação da sociedade para todos, aposta não só centrada nas vertentes da multidisciplinaridade e multiculturalidade mas igualmente no capítulo das filosofias da ética e da estética à luz das quais todos os seres são iguais em dignidade e direitos, a educação ambiental sejam um dos itens inalienáveis, a biodiversidade um valor intrínseco à vida e o respeito pelas diferenças como principal suporte no qual se devem estabelecer todas as relações interpessoais e inter-institucionais, com transparência de processos, diálogo na prossecução dos intentos e estratégias, determinação nas atitudes, coerência nas propostas e solidariedade na expressão dos eventos.
19) Reeditar a Festa dos Aventais, criando uma Comissão de Cidadãos para o efeito, mas garantindo-lhes da parte da autarquia espaço apropriado, apoio logístico, equipamentos de realização, financiar, suportar e facilitar o material gráfico de promoção conveniente[1], bem como encetar diligências para que as associações, empresas e demais forças vivas da cidade se envolvam no evento, se integrem rotativamente na sua gestão e organização, e estabeleçam entre si estudos e possibilidades de melhorias e adequação aos tempos presentes.
20) Sensibilizar a autarquia para instituir e implementar uma Feira de Reciclados, com criação de espaço de aprovisionamento, mostra, recolha, restauro, troca, compra e venda na Fundação Robinson, onde decorrerão a feira mensal e certame anual de antiguidades e usados, não só para evitar o elevado nível de desperdícios da nossa postura consumista, como igualmente para propiciar aos mais desfavorecidos e coleccionadores a aquisição de bens ainda em condições de circulação por preços acessíveis.
21) Instituir as estruturas básicas fundamentais e logísticas suficientes para criar, formatar, fomentar, promover e manter operativo o PROGRAMA HELP – Hoje Estamos Livres Para…, que articule simultaneamente a educação ambiental, a actividade recreativa e desportiva dos jovens, a solidariedade e participação democrática, a integração dos mais novos ou recém-chegados à cidade e consolidação dos seus direitos de cidadania, com vista a facilitar a sua emancipação. E numa perspectiva de sublinhar que HOJE ESTAMOS LIVRES PARA… nos organizarmos, lutarmos por nós e pelas nossas ideias, combatermos o especismo, a homofobia, o sexismo e a xenofobia, reflectirmos o passado, resolvermos o presente e inventarmos o futuro, na sã convivência com os restantes seres da nossa comunidade ecológica e/ou habitat, com respeito pela vida e meio ambiente ou dispostos a renegociar o nosso desenvolvimento sem o tradicional recurso ao parasitivismo fundamental, à exploração desregrada dos recursos naturais, eivados de economicismo antropocentrista com que nos temos conduzido na nosso soberano provincianismo obsoleto.
22) Providenciar a construção de uma central de compostagem e distribuição/construção dos respectivos recipientes pela cidade, não só para produzir fertilizantes de uso nos jardins públicos, como para venda aos horticultores e agricultores da região a preços de produção.
23) Impedir a destruição das hortas da periferia urbana reformulando-as, bem como motivando os seus proprietários a proporcionar-lhe também uma utilidade pedagógica, didáctica e de elevado interesse formativo da nossa identidade local e regional, na prossecução da agricultura biológica ali praticada desde remotas datas e que foi uma tradição da região, um valor etnográfico reconhecido pelo folclore e linguagem praticados, na tentativa de preservar a nossa cultura originária, urbana mas fortemente enraizada nos formatos hortícolas e campesinos que a sustentaram, possibilitando assim aos vindouros portalegrenses e visitantes o reconhecimento histórico e a mais-valia da produção e comercialização dos bens que consequentemente dela sempre resultaram e ainda podem continuar a resultar.
24) Baptizar, identificar e etiquetar cada elemento da flora (árvore ou arbustro) dos nossos jardins públicos, atribuindo-lhe um estatuto mais dignificante do que o actual, reconhecendo-lhe o seu valor na renovação do ar urbano respirável, na produção de qualidade de vida e seu contributo para a saúde dos residentes urbanos, instituindo um “programa autárquico de baptizo” de cada árvore, através de convite a personalidades ilustres, visitantes ou autóctones que demonstrem a sua anuência ao programa e queiram ficar ligados à história da cidade pela sua componente de cidade para todos.
25) Providenciar a criação de estruturas para a prática de desportos urbanos e de parques infantis em todos os bairros ou zonas residenciais da população activa, e assim possibilitar às camadas jovens da população a prática dos denominados desportos cosmopolitas do nosso tempo (atletismo, patins, skate, etc., etc.), como é comum em outras localidades europeias.
26) Distribuir mais contendores de selecção de lixos (ecopontos) pela cidade, facilitando o seu acesso aos utentes, e rareando os contentores de lixo geral, dificultando-lhe o acesso, como medida incentivadora de selecção dos lixos domésticos, com vista a cumprir os preceitos ambientais e europeus de reciclagem.
27) Combater a info-exclusão, providenciando novos espaços de formação, serviços e consulta on line, nos demais bairros da cidade, bem como implementar o Wireless municipal, com vista a dinamizar uma sociedade da informação para todos, conforme o plano de acção eEurope 2005, inscrevendo definitivamente a cidade nas rotas das novas tecnologias da comunicação.
Portalegre tem uma palavra e um contributo importante a dar acerca da descontaminação do planeta, da requalificação da ecosfera, da redução do aquecimento global, das alterações climáticas, da qualidade do ar, da água e dos solos, da defesa da Terra como único lar da humanidade, da qual não abdicará, nem prescindirá das suas responsabilidades na construção de um mundo melhor para todos, alicerçado e consolidado na inovação tecnológica, na valorização do ambiente e do conhecimento, enquanto verdadeiros índices da sua emancipação. Porque, enfim, não podemos pertencer ao nosso tempo sem simultaneamente pugnarmos pelo futuro da nossa terra e das nossas gentes, numa opção de desenvolvimento sustentável, pela conservação da natureza e defesa do meio ambiente, pela dignificação da vida e humanização do concelho, por uma democracia directa, cada vez mais participada e aprofundada, no dia a dia como postulados constitucionais, por uma sociedade ecologista, consciente e emancipada.
VIVA o 25 de Abril!
VIVA Portalegre!
Viva a CDU!
Viva Portugal!
PELA PAZ, PELA TERRA, PELA VIDA: VIVA O PARTIDO ECOLOGISTA OS VERDES – VIVA!!!!
[1] Festas dos Aventais, uma tradição extinta. Festa de arreigado espírito democrata e bairrista, com o fito de se passar um alegre dia sob as frondes das árvores das redondezas de Portalegre, sem espírito de classe nem preocupações de estirpe, sem ódios de seita nem divisões por princípios ideológicos ou confessionais, cujos fundamentos elementares residiam na confraternização entre "lagóias", ao ar livre, na Quinta-Feira de Ascensão, Dia da Espiga, teve a sua primeira edição em 9 e Maio de 1907, embora que ainda sem a típica denominação de Festa dos Aventais, nem o concurso das intituladas vestes, o que só viria a acontecer mais tarde, na Fonte Fria, em 16 de Maio de 1912, sob os auspícios dos carolas da "Merenda", que aí se organizaram então como Comissão de Festas (composta por José António Dias, João Baptista Caldeira, João Marcelino Barata, João António Bugalho e Silvestre de Sousa - regente da Banda dos Bombeiros), que se compromete e responsabiliza pela sua realização no ano seguinte. O nome derivou-lhe, segundo informação prestada pelos cronistas locais, do facto de todas as donas de casa, na altura de servirem o repasto aos seus familiares, terem posto este resguardo, na tentativa de evitarem sujar as vestes domingueiras que envergavam. Para mais informações consultar no blog http://www.viverliteraturaviva.blogspot.com o artigo com mesmo título.
Companheiros e companheiras:
Em conformidade com as linhas programáticas aprovadas na VII Convenção Nacional Ecológica, de 22 e 23 de Junho de 1996, na certificação de uma acção política baseada e consciente da relação simbiótica entre o homem e a natureza, a cultura e o meio ambiente, entendíveis como componentes da ecosfera reciprocamente condicionáveis, que assistem à génese do Movimento Ecologista Português – Partido OS VERDES, directamente germinado na necessidade de agir pela paz, pela desmilitarização, pelo desarmamento, pela desnuclearização, pelos direitos cívicos e de expressão ideológica, pela implementação da ecologia e pela procura constante de formas alternativas de entender a vida e organizar a sociedade sob a bitola de um progresso e desenvolvimento solidários e sustentáveis, pautado por princípios que se adjuvem ao pugnar evidente, eficaz, frontal, transparente, contínuo e democrático que faculte a crescente humanização da cidade de Portalegre, acelere os maquinismos sistemáticos de descentralização do Estado, incentive e efective o aumento da participação da região e suas gentes no processo de democratização da sociedade, propicie notória melhoria na qualidade de vida dos portalegrenses, incremente e acompanhe de forma envolvida e responsável a problemática da globalização cumprindo no quotidiano a definitiva instituição do “pensar global agir local” que a caracteriza, concretize a multicultura e diversidade como itens ou indícios latentes da sustentabilidade ambiental, social, económica, biológica e cultural, o Partido Ecologista OS VERDES e eu, na qualidade de candidato à Assembleia Municipal de Portalegre, na tentativa de ajudar a edificar uma sociedade ecologista e emancipada, que valorize o conhecimento e a tecnologia, a consciência cívica e a cidadania, e igualmente corporize o ideal libertador e progressista do 25 de Abril, aos níveis político, económico, social, cultural e ambiental, reforçando sempre o cariz e o sentido da solidariedade, da igualdade, da cooperação entre as instituições públicas e privadas na produção da qualidade de vida, da convivência harmoniosa entre grupos e sectores da sociedade, e humanização da malha urbana histórica e periférica/campesina desta capital de distrito, propomos:
1) Deliberar e intervir em favor de um gradual aumento quantitativo e qualificativo da utilização dos transportes públicos na cidade, da cidade e para a cidade, bem como providenciar para que se não compre mais qualquer veículo movido a energias tóxicas não renováveis (gasolina e gasóleo), aumentar as frequências nos horários e número de carreiras, adequar os horários à vida da cidade e necessidades de deslocação da população estudantil e autóctone, sobretudo dos residentes nos bairros dos Assentos e Atalaião, corrigir os trajectos actuais e multiplicar o número de paragens estendendo os percursos às novas urbanizações (Lysias, Santana, Carvalhinhas, Fonte dos Fornos, Areeiro, por exemplo), alargar o serviço de transportes (incluindo com carreiras nocturnas) às populações das restantes freguesias do concelho (Carreiras, Fortios, Reguengo, Ribeira de Nisa, Urra, Alegrete, Alagoa, etc.) com vista a dinamizar, revitalizar e facilitar a vida recreativa e comercial da cidade histórica, e garantir que cada um dos veículos de passageiros a gasolina e gasóleo se vendam e sejam substituídos gradualmente, a curto e médio prazo, por veículos equivalentes mas ecologicamente desejáveis, movidos a gás e/ou electricidade.
2) Contrariar a predominância de plátanos nos passeios públicos e jardins, providenciando o transplante dos que se manifestem incomportáveis com o espaço urbano em que se encontram para zonas em que não agridam a biosfera, plantando em seu lugar outros espécimens vegetais mais conformes à flora da região, susceptíveis de amenizar o secular confronto entre o ambiente serrano e o citadino, em observância à progressiva integração da vertente decorativa urbana na da decoração paisagista regional, tentando esbater e eliminar quaisquer factores de contradição ambiental adversos à biodiversidade, confluência de interesses entre a sustentabilidade ambiental e a qualidade urbana, quer do ar como da comunidade biológica, do habitat ou do espaço reservado à convivência diária das famílias citadinas; assim como contrariar a expansão industrial e urbana promovida sem regras e obedecendo apenas aos interesses da especulação imobiliária e do lucro fácil, que incentiva a ocupação e destruição das hortas e demais terrenos aráveis da periferia da cidade, com graves consequências na perda da qualidade ambiental, evidente subtracção da diversidade biológica, e elevado contributo para a descaracterização da paisagem regional e local, para o desequilíbrio ecológico, situação que além de impedir a utilização desse solo circunstante como gerador de riqueza, é igualmente produtora de doenças civilizacionais anexas à degradação ambiental, causadora de infelicidade generalizada, sufocação, stress e inúmeras doenças do foro psicossomático que em realidade já afectam vasta camada dos nossos conterrâneos citadinos.
3) Humanizar o espaço histórico da cidade, actualmente esvaziado de famílias como de pequenas empresas que lhe davam uma dinâmica e pulsar próprios eivados de substancial harmonia económica, cultural e social que contribuíam grandemente para a segurança pública, reabilitando para a habitação familiar a preços sustentáveis e/ou sociais todos os fogos devolutos e degradados de intra e extra muros, com vista a facilitar a coesão social e integração de estudantes e emigrantes, promovendo a sua fixação na região, em acelerado decréscimo demográfico desde remotas eras, o que em muito tem contribuído para o seu subdesenvolvimento.
4) Aumentar o número de ruas sem trânsito e fomentar a implementação e unidades de produção circunscritas à cultura, conhecimento e inovação tecnológica, bem como das actividades artística, comercial, turística e de serviços, cuja produção de mais-valias colectáveis seja também garante de sustentabilidade económica e melhor qualidade de vida dos portalegrenses.
5) Alterar radicalmente o conceito o de pavimentação urbana: as vias para circulação automóvel são lisas, onde é fácil caminhar e de materiais não escorregadios, mas os passeios e ruas para circulação de pessoas são invariavelmente de empedrado manhoso, de difícil aderência, escorregadios q.b., impróprios e arriscados para a locomoção humana, sobretudo dos mais idosos, que até podem ser muito bonitinhos mas que se demonstram cada vez mais inúteis para aquilo para que realmente foram feitos: servir as pessoas em liberdade.
6) Recanalizar toda a água das nascentes e linhas fluviais urbanas hoje em dia desperdiçadas e canalizadas para a rede de esgotos ou espelhos de água, espécie similar a céu aberto, que sempre sujos e inestéticos ficam à autarquia tão onerosos como produtores da sua imagem pública pouco transparente e estagnada, para reservatórios e estações e gestão de recurso a fim de ficarem disponíveis para usos industriais e de rega dos jardins públicos e privados que a requeiram por mais barata, impregnando a autarquia da prática de poupança de um bem escasso tal e qual como esta já aconselha ao cidadão comum, dando o exemplo daquilo que se pede.
7) Apostar no desenvolvimento sustentável é garantir o equilíbrio ecológico e assumir a responsabilidade de estar solidário com as gerações vindouras. Tentaremos por conseguinte combater e denunciar qualquer linha identificadora de insustentabilidade que reflicta, de forma mais o menos camuflada, qualquer prática de exploração do homem pelo homem, cativação e transformação selvagem produtivista dos recursos naturais da região, subordinação da vontade política aos interesses particulares e económicos, na perspectiva de corrigir assimetrias e desigualdades regionais, nomeadamente as de oferta de qualidade de vida e motivação cultural entre a cidade propriamente dita e as freguesias rurais, resolver e colmatar as injustiças sócio-culturais que historicamente têm penalizado o nosso interior desfavorecido, estimular a participação democrática dos portalegrenses na resolução dos problemas locais, regionais e nacionais, recorrendo ao referendo sempre que se avizinhe útil e oportuno, racionalizar a gestão dos espaços públicos urbanos, pôr termo à destruição acelerada da orla hortícola da cidade para fins habitacionais que apenas respondem aos interesses particulares de construtores civis e unidades bancárias de crédito, enfatizando deveras quanto estamos empenhados na criação de bem-estar individual e colectivo, na salvaguarda e promoção dos valores culturais, ambientais, paisagísticos e ecológicos, assim como na promoção e defesa das riquezas locais sem descurar o seu reflexo no equilíbrio regional, nacional e global, capaz de inibir as tentativas economicistas geradoras de crise de sobreprodução e emprego, consumo forçado e destruição dos recursos limitados mas imprescindíveis à vida.
8) Providenciar uma cidade para todos edificando plataformas de acessibilidade ou instalando elevadores em todos os serviços públicos e facilitar as obras nos privados que os queiram efectuar, quer no transporte dos materiais como no fornecimento de máquinas, licenciamentos, projecto arquitectónico e mão-de-obra especializada.
9) Providenciar para que a participação e qualidade da cidadania do sector feminino da população ganhe projecção e protagonismo estabelecendo um timing operativo favorável, nomeadamente nas reuniões partidárias, nas Assembleias Municipais e Assembleias de Freguesia, nos eventos oficiais autárquicos, posto que sendo estes sempre efectuados em horários nocturnos e terminando invariavelmente altas horas da noite, a indispõem à participação cívica e lhe sonegam a possibilidade de discussão e esclarecimento da problemática sócio-política, incompatibilizando a vida pública da mulher com a sua vida familiar ou necessidades de assistência familiar.
10) Criar o Conselho Autárquico para o qual serão convidados a participar todas as individualidades de destaque das áreas empresariais, profissionais, culturais, artísticas e cognitivas, com o único objectivo de reflectir, enunciar, promover e consolidar o harmonioso desenvolvimento do concelho, na prossecução de uma sociedade para todos.
11) Pugnar pela criação de um canil hospital/hospedaria em condições de higiene, estruturais, de manutenção e de serviço clínico-veterinário suficientes e capazes, onde se possam abrigar não só os animais abandonados mas também hospedar aos que os seus donos queiram acondicionar temporariamente, por vontade expressa e mediante pagamento para o efeito, ou os enfermos que carenciem de cuidados especializados, apoio educativo e convívio com outros da sua espécie.
12) Estimular a construção de uma estufa e/ou reptilário, para fins turísticos e pedagógicos, onde se possam observar e reconhecer todas as espécies de flora e répteis existentes na região de S. Mamede, a fim de os poder divulgar e valorizar, rentabilizar e promover sem interferir nem prejudicar no seu habitat selvagem, o Parque Natural da Serra de S. Mamede e áreas adjacentes.
13) Acelererar a concretização do Parque de Merendas, Desportos e Lazer junto ao Estádio Municipal, conforme o aprovado anteriormente.
14) Deliberar a favor da implementação de um RMPA (Regulamento Municipal de Protecção dos Animais) no qual se definam, de harmonia com a legislação nacional em vigor, normas municipais estritas e firmes, verdadeiramente eficazes para dissuadir e punir quem maltrate, abandone, descure, use para fins comerciais ou abuse de animais na cidade.
15) Instituir e definir um compromisso autárquico de não autorização e não licenciamento de espectáculos e divertimentos cruéis com animais no concelho, nomeadamente circos, rodeios, carrosséis de póneis ou de outros equídeos, bem como touradas em praças desmontáveis.
16) Indisponibilizar totalmente os materiais, equipamentos e mão-de-obra para manter ou efectuar qualquer melhoria na praça de touros, assim como não permitir que os veículos dos transportes municipalizados efectuem carreiras ou sirvam de promoção aos espectáculos tauromáticos, nomeadamente na deslocação de grupos de forcados.
17) Instigar todos os serviços administrativos autárquicos a não usarem outro papel que não o reciclado, e afectar nesta medida também todos os estabelecimento de ensino cuja tutela de materiais, equipamentos e manutenção lhes esteja ligada, como é o caso dos pré-primários (creches e infantários) e 1º Ciclo do Ensino Básico, assim como providenciar a circulação da agenda cultural e demais informação respeitante aos serviços camarários e/ou municipalizados, como cortes de água, cortes de ruas ao trânsito, alterações de horários nos transportes públicos ou funcionamento dos serviços, eventos recreativos, desportivos, culturais ou oficiais, se faça por via SMS, como à semelhança daquilo que já se pratica, p. e., em Estarreja ou Entroncamento.
18) Reprogramar a atitude cultural do município de forma a fomentar a criação e usufruto dos produtos culturais numa perspectiva de disseminação da sociedade para todos, aposta não só centrada nas vertentes da multidisciplinaridade e multiculturalidade mas igualmente no capítulo das filosofias da ética e da estética à luz das quais todos os seres são iguais em dignidade e direitos, a educação ambiental sejam um dos itens inalienáveis, a biodiversidade um valor intrínseco à vida e o respeito pelas diferenças como principal suporte no qual se devem estabelecer todas as relações interpessoais e inter-institucionais, com transparência de processos, diálogo na prossecução dos intentos e estratégias, determinação nas atitudes, coerência nas propostas e solidariedade na expressão dos eventos.
19) Reeditar a Festa dos Aventais, criando uma Comissão de Cidadãos para o efeito, mas garantindo-lhes da parte da autarquia espaço apropriado, apoio logístico, equipamentos de realização, financiar, suportar e facilitar o material gráfico de promoção conveniente[1], bem como encetar diligências para que as associações, empresas e demais forças vivas da cidade se envolvam no evento, se integrem rotativamente na sua gestão e organização, e estabeleçam entre si estudos e possibilidades de melhorias e adequação aos tempos presentes.
20) Sensibilizar a autarquia para instituir e implementar uma Feira de Reciclados, com criação de espaço de aprovisionamento, mostra, recolha, restauro, troca, compra e venda na Fundação Robinson, onde decorrerão a feira mensal e certame anual de antiguidades e usados, não só para evitar o elevado nível de desperdícios da nossa postura consumista, como igualmente para propiciar aos mais desfavorecidos e coleccionadores a aquisição de bens ainda em condições de circulação por preços acessíveis.
21) Instituir as estruturas básicas fundamentais e logísticas suficientes para criar, formatar, fomentar, promover e manter operativo o PROGRAMA HELP – Hoje Estamos Livres Para…, que articule simultaneamente a educação ambiental, a actividade recreativa e desportiva dos jovens, a solidariedade e participação democrática, a integração dos mais novos ou recém-chegados à cidade e consolidação dos seus direitos de cidadania, com vista a facilitar a sua emancipação. E numa perspectiva de sublinhar que HOJE ESTAMOS LIVRES PARA… nos organizarmos, lutarmos por nós e pelas nossas ideias, combatermos o especismo, a homofobia, o sexismo e a xenofobia, reflectirmos o passado, resolvermos o presente e inventarmos o futuro, na sã convivência com os restantes seres da nossa comunidade ecológica e/ou habitat, com respeito pela vida e meio ambiente ou dispostos a renegociar o nosso desenvolvimento sem o tradicional recurso ao parasitivismo fundamental, à exploração desregrada dos recursos naturais, eivados de economicismo antropocentrista com que nos temos conduzido na nosso soberano provincianismo obsoleto.
22) Providenciar a construção de uma central de compostagem e distribuição/construção dos respectivos recipientes pela cidade, não só para produzir fertilizantes de uso nos jardins públicos, como para venda aos horticultores e agricultores da região a preços de produção.
23) Impedir a destruição das hortas da periferia urbana reformulando-as, bem como motivando os seus proprietários a proporcionar-lhe também uma utilidade pedagógica, didáctica e de elevado interesse formativo da nossa identidade local e regional, na prossecução da agricultura biológica ali praticada desde remotas datas e que foi uma tradição da região, um valor etnográfico reconhecido pelo folclore e linguagem praticados, na tentativa de preservar a nossa cultura originária, urbana mas fortemente enraizada nos formatos hortícolas e campesinos que a sustentaram, possibilitando assim aos vindouros portalegrenses e visitantes o reconhecimento histórico e a mais-valia da produção e comercialização dos bens que consequentemente dela sempre resultaram e ainda podem continuar a resultar.
24) Baptizar, identificar e etiquetar cada elemento da flora (árvore ou arbustro) dos nossos jardins públicos, atribuindo-lhe um estatuto mais dignificante do que o actual, reconhecendo-lhe o seu valor na renovação do ar urbano respirável, na produção de qualidade de vida e seu contributo para a saúde dos residentes urbanos, instituindo um “programa autárquico de baptizo” de cada árvore, através de convite a personalidades ilustres, visitantes ou autóctones que demonstrem a sua anuência ao programa e queiram ficar ligados à história da cidade pela sua componente de cidade para todos.
25) Providenciar a criação de estruturas para a prática de desportos urbanos e de parques infantis em todos os bairros ou zonas residenciais da população activa, e assim possibilitar às camadas jovens da população a prática dos denominados desportos cosmopolitas do nosso tempo (atletismo, patins, skate, etc., etc.), como é comum em outras localidades europeias.
26) Distribuir mais contendores de selecção de lixos (ecopontos) pela cidade, facilitando o seu acesso aos utentes, e rareando os contentores de lixo geral, dificultando-lhe o acesso, como medida incentivadora de selecção dos lixos domésticos, com vista a cumprir os preceitos ambientais e europeus de reciclagem.
27) Combater a info-exclusão, providenciando novos espaços de formação, serviços e consulta on line, nos demais bairros da cidade, bem como implementar o Wireless municipal, com vista a dinamizar uma sociedade da informação para todos, conforme o plano de acção eEurope 2005, inscrevendo definitivamente a cidade nas rotas das novas tecnologias da comunicação.
Portalegre tem uma palavra e um contributo importante a dar acerca da descontaminação do planeta, da requalificação da ecosfera, da redução do aquecimento global, das alterações climáticas, da qualidade do ar, da água e dos solos, da defesa da Terra como único lar da humanidade, da qual não abdicará, nem prescindirá das suas responsabilidades na construção de um mundo melhor para todos, alicerçado e consolidado na inovação tecnológica, na valorização do ambiente e do conhecimento, enquanto verdadeiros índices da sua emancipação. Porque, enfim, não podemos pertencer ao nosso tempo sem simultaneamente pugnarmos pelo futuro da nossa terra e das nossas gentes, numa opção de desenvolvimento sustentável, pela conservação da natureza e defesa do meio ambiente, pela dignificação da vida e humanização do concelho, por uma democracia directa, cada vez mais participada e aprofundada, no dia a dia como postulados constitucionais, por uma sociedade ecologista, consciente e emancipada.
VIVA o 25 de Abril!
VIVA Portalegre!
Viva a CDU!
Viva Portugal!
PELA PAZ, PELA TERRA, PELA VIDA: VIVA O PARTIDO ECOLOGISTA OS VERDES – VIVA!!!!
[1] Festas dos Aventais, uma tradição extinta. Festa de arreigado espírito democrata e bairrista, com o fito de se passar um alegre dia sob as frondes das árvores das redondezas de Portalegre, sem espírito de classe nem preocupações de estirpe, sem ódios de seita nem divisões por princípios ideológicos ou confessionais, cujos fundamentos elementares residiam na confraternização entre "lagóias", ao ar livre, na Quinta-Feira de Ascensão, Dia da Espiga, teve a sua primeira edição em 9 e Maio de 1907, embora que ainda sem a típica denominação de Festa dos Aventais, nem o concurso das intituladas vestes, o que só viria a acontecer mais tarde, na Fonte Fria, em 16 de Maio de 1912, sob os auspícios dos carolas da "Merenda", que aí se organizaram então como Comissão de Festas (composta por José António Dias, João Baptista Caldeira, João Marcelino Barata, João António Bugalho e Silvestre de Sousa - regente da Banda dos Bombeiros), que se compromete e responsabiliza pela sua realização no ano seguinte. O nome derivou-lhe, segundo informação prestada pelos cronistas locais, do facto de todas as donas de casa, na altura de servirem o repasto aos seus familiares, terem posto este resguardo, na tentativa de evitarem sujar as vestes domingueiras que envergavam. Para mais informações consultar no blog http://www.viverliteraturaviva.blogspot.com o artigo com mesmo título.
9.12.2005
Lição de biologia
A vida é rosa de lava
Pétala incandescente:
E é a ternura quem a incandesce
Nela sobe e desce
Gemina e cresce
Como nas veias da gente;
Porquanto nunca esquece
Que quem se merece
Além de flor
E fruto do amor,
É também semente!
Álgebra sentimental
Qual o peso do beijo na ternura?...
Se as tuas mãos tocassem as minhas
E sentissem meus lábios nesta altura,
Teriam colinas em vez de linhas
E nelas minas… de lava pura!
A vida é rosa de lava
Pétala incandescente:
E é a ternura quem a incandesce
Nela sobe e desce
Gemina e cresce
Como nas veias da gente;
Porquanto nunca esquece
Que quem se merece
Além de flor
E fruto do amor,
É também semente!
Álgebra sentimental
Qual o peso do beijo na ternura?...
Se as tuas mãos tocassem as minhas
E sentissem meus lábios nesta altura,
Teriam colinas em vez de linhas
E nelas minas… de lava pura!
9.02.2005
DAS HONRAS DA CASA...
" Quem a lava e não entende
Mais a suja do que defende "
Lavar a cara à cidade tem as suas cautelas. Senão, o negócio pode tornar-se uma complicação geral…
Noutros tempos, era costume nas pessoas do povo, tomarem apenas dois banhos durante a sua vida: ao casar e ao morrer. Os mais saudáveis, é claro! Que os que adoeciam nunca poderiam entrar no hospital sem a dita limpeza. Sem a respectiva barrela!… Provavelmente foi daí que nasceu a antiga superstição de que lavarmo-nos faz mal, é para doentes ou mania de quem não bate bem da bola.
Felizmente os tempos mudaram e a higiene, segurança e cuidados com o físico deixaram de ser defeitos. Hoje andar sujo e malcheiroso é estar fora de moda, ser presença indesejável e um incómodo para os demais. Com as cidades isto é igualmente verdade: devem ser bonitas, desejáveis e cómodas. Devem ser funcionais, saudáveis, históricas, cultas, abertas e promover o desenvolvimento humanizado e sustentável, a qualidade de vida e usufruto da cidadania. E podem sê-lo!
Podem ter ruas em vez de azinhagas novas, jardins em vez de alegretes, autocarros em vez de carretas a motor de petróleo, espaços de desporto e lazer em vez de descampados prò contribuinte Todo-o-Terreno, soluções multiculturais em vez de festinhas e arraiais de bairrinho engalanado. Podem.
Mas também não desconhecemos que para isso se conseguir há que fazer modificações nelas; enfim, têm que requalificar-se. Têm que fazer-se obras. Ainda que estas sejam um transtorno para toda a gente. À semelhança do que acontece na casa de cada um de nós, se acaso queremos melhorar a decoração da sala, as acessibilidades, as capacidades da cozinha, a comodidade dos quartos, a categoria funcional das casas de banho.
Então, se precisamos de efectuar benfeitorias no nosso lar, podemos recorrer a duas modalidades possíveis: metemos lá dentro os pedreiros e materiais, que nos assaltam a casa e se assenhoram dela, as 24 horas do dia e enquanto as obras durarem; ou fazemos as ditas por partes de forma a podermos continuar a habitar a moradia, com certas restrições e alterações de horários, mas sem nunca deixarmos de ser seus donos nem prescindirmos dela totalmente. Se somos ricos, temos outras casinhas por aí, uma família que não dá valor aos tarecos, nem se preocupa com o bem-estar dos seus, optamos pela primeira; se prezamos a mobília, gostamos de conviver e damos significado a cada um dos membros do clã, nos preocupamos com o seu dia a dia e necessidades pessoais, escolhemos a última.
Se queremos molestar os nossos familiares e os vizinhos, transtornar as suas vidinhas, destruir-lhe o habitat e o sossego, causar-lhe stress desnecessário, impedir que se desloquem naquilo que é seu, quebrar-lhes as rotinas e souvenirs, riscar-lhe os cobres, embutidos e areados, vamos pela primeira opção; agora, se ao invés, pretendemos respeitar o quotidiano e dignidade dos demais condóminos, nutrimos apreço pelo seu descanso, nos orgulhamos de nunca desejar para os outros aquilo que também não queremos para nós, aí não restam dúvidas, e enveredamos pela segunda.
Portanto, é impossível não estar de acordo com as pessoas que se têm manifestado adversas à forma como estas “obras gerais” citadinas têm vindo a ser feitas. Embora sejam as primeiras a reconhecer que algumas alterações do espaço urbano, além de urgentes, necessárias e imprescindíveis, apenas pecam por serem tão tardias, a verdade é que não se podem alhear da forma como têm sido geridas, os dissabores diários que causaram, a confusão que criaram, as expulsões de clientela que motivaram a diversos estabelecimentos comerciais que, consequência da época do ano e do fraco poder de compra dos portalegrenses, já de si se encontravam com sérias dificuldades em manter as portas abertas ao público.
Como elas, também nós não percebemos, porque é que de um dia para o outro cortaram uma rua onde precisávamos de passar todos os dias, sem ninguém se dignar e ter a hombridade, a educação cívica, de no-lo comunicar com a antecedência suficiente para que não batêssemos com as trombas na porta quando aí precisássemos de passar novamente;
Como elas, também nós não compreendemos para que serve um executivo camarário, se quem manda na cidade são as empresas de construção civil e obras públicas, a quem foi adjudicada a cidade, juntamente com as obras;
Como elas, também nós não entendemos como se destrói uma fluência precária na circulação automóvel e transportes públicos, para a tornar ainda mais complexa e difícil, obrigando os munícipes ao desperdício do seu tempo, além do múltiplo e óbvio desgaste nas suas viaturas;
Enfim, como elas, também nós não podemos ser coniventes e permissivos com as políticas de desenvolvimento que, em nome dos fins, não têm o mínimo pejo de atropelar tudo e todos para os conseguir, que descuram os meios e desumanizam os objectivos, na inequívoca intenção de recolher benesses políticas com as necessidades alheias, na mira explícita do aproveitamento eleitoral dessas obras, como o demonstra a determinação do timing das mesmas, forçadas que foram a fazerem-se e aprontarem-se imediatamente antes, durante e após as eleições autárquicas, cujo afunilamento de prazos é por demais evidente.
É lamentável que tenha acontecido, não duvidemos. E sabemos que este nosso desabafo em nada poderá alterar o autêntico estado de sítio que se instituiu. Contudo, temos consciência e não esquecemos que aqueles, que afinal são quase todos os portalegrenses sem oportunidade de mudar de cidade enquanto as obras durarem, que é a única cidade da sua vida e não têm posses para comprar outra, como sucede às pessoas que precisam de fazer obras em sua casa, e que também não teriam outra para onde se mudar se nela quisessem fazer obras, mereciam ter sido consideradas, respeitadas, contadas neste alvoroço, a fim de lhe terem sido minimizados os estragos em seu diário viver (e conviver).
Porque a cidade é a casa de todos nós, não poderemos deixar de ser solidários com elas, com cada um dos que resistiram e aturaram estoicamente todos contratempos a que foram obrigados, porquanto a nenhum de nós passaria pela cabeça requalificar o nosso lar de forma a que nele não pudéssemos morar (ou, fazendo-o, se lhe imporiam perigos e guerras esforçados mais do que permite à força humana); nem conseguimos entender como racional o desacato a que fomos sujeitos. E em nome de quê? Não é pelo facto de o progresso ser pago às custas da qualidade de vida dos que menos podem que ele se transforma em mais e melhor progresso.
Pelo contrário. Que isto de crescer e salvar a imagem pública das donzelas, tem preceitos e subtilezas de enamorado em duelo ou convicção de medieval e monástica cavalaria, no que até lembra o que sentia, pensava e dizia, o povo doutros tempos acerca da honra: que
“ quem a lava e não entende,
mais a suja do que defende. “
Isto é, como dizemos nós, repetindo o que o nosso povo pensa actualmente, embora que dito de outro modo e em jeito menos rebuscado: que
“quem lava e não se enxuga,
toda a pele se lhe enruga... "
Outro facto acerca do qual também não haverá dúvidas nenhumas!
Escombros
I
Ecoam na vida mais vivida
Viciante vida que nos escorrega pelas mãos
Como água bentificada
Após aqueles instantes de tortura ingénua,
Ela aprecia o chá,
Quente, macio de flores brancas
Tão ingénuas como a própria tortura
Que lhe evapora dos poros da pele suada, tocada.
Escombros que iludem a própria origem
Vagina:
Quero percorrer-te
Refugiar-me no útero materno
Aninhar-me lá
Como antes.
Quero regressar à origem.
Quero abandonar aquilo que não é meu por direito
Quero entregar-me ao trilho escuro
Quero ser-me
Possuir-me
Desejo-o de mim para mim
Será cruel?
Cruz de mim que me invade
Loucura crua que saboreio
P’las papilas gustativas da língua
Unhas roídas
Carne carcomida durante o tempo da vida da carne
Queiram que viva
Queiram que chore só
Queiram que sinta o universo dentro de mim!
Feios e porcos
Que se alojam nos outros
Antes de se alojarem em si mesmos
Que inveja lhes tenho!
Insensíveis de uma coerência nutritiva.
II
Porque se destrói
Porque ama o sofrimento
Porque mo ensinou a amar
Encorajo-o a tomar-me como uma rainha do seu mundo!
A vida é impura para aqueles que lhe fogem
Estúpidos vagabundos esfomeados de ilusões
(Rio)
Eu sempre as consumi.
Destruí-me?
Sempre as implorei a meu dono do amor.
Pedia-lhe ilusões
Como as outras pedem jóias.
Truz! Truz! Truz!
Quero ter um filho teu.
Aqui dentro, onde já tiveste.
Carne penetrada pelo teu eu verdadeiro
Um filho da tua e da minha carne
Rebenta-me a veia!
Porquê tu?
Ensina-me as leis de teu universo
A matéria com que trabalhas
Actor da vida
Tão feliz que és...
Ou será visão minha?
Ou será do meu amor
Que esconde os escombros do real
Porquê ninguém vê o que tu és?
Só, eu,
Tão invisível que és
Tão puro de maldade inútil
Corres-me nas veias
Como se tudo fosse teu;
Mentes porque respiras;
Amas-me porque vives do teu reflexo nos meus olhos;
Foges da explosão provocada por teu próprio combustível
Cobarde
Sorte a tua!
És dono do todo,
Tu nunca tens nada;
Cristalizas nos outros
Como em ti mesmo.
Ensinaste-me como o tempo percorre o espaço
O simples caminhar
Encandeada pelo foco de luz
Sem ser derrubada pelos monstros mentais.
És mágico!
Monte de ossos que mia para mim
Que mentindo, ronrona para mim
Gato bravio
Independente que és
Sofrido, violado por todos
Usado e destroçado
Invejo-te como invejo a chuva que
Beija o mundo sem ninguém dar conta!
Sabes-me de cor,
Lambeste-me por dentro e por fora
Que barbárie!
Ensanguentei-me sem a dor
Conquistei-te
Não é divino?
III
A vingança.
Aprender o que me pregaste:
A invenção do amor
Entre entrefalas falseantes.
Dançarino da vida,
Põe a tigela na nuca e consome-me!
Ecoam feridas por lamber
Silêncios de abraços em telhados instáveis
Que nos mostravam o caminho para os céus.
Tal como tu te apresentaste
“Palhaço da vida”!
Já rompeste a minha nata de carne
Que pratos deliciosos de tenras carnes,
Virgens, te tentaram?
Capricho
Porque é que as futilidades nos apatizam?
Ambos amamos o mesmo
O caos.
A caotização do pleno universo
Partículas e mais partículas
Que um dia nos irão absorver.
Partirei agora desse cais?
Amanha será o amanha de tantas coisas
A espera é precisa
Amada e sofrida
Sofrer é criar
E criar também é sofrer
Quero eternizar o amor
Esculpi-lo, acabá-lo e fechá-lo à chave num quarto escuro e poeirento
Como sábio prestidigitador,
Sabe filtrar verdades
Quem precisa de verdades?
Quem precisa da verdade das verdades?
Tu és o maestro da vida!
Sempre o soubeste
Sóbrio que és,
Obsesionas-me,
Carente da mulher que me transformei
Em teus braços e palavras de embalo.
Cresci em ti e por ti, meu caro amor!
Temo a pistola que guardas para ti.
Pressionas o gatilho
Sempre que precisas de ouvir um som
Que mata
Afogas meus prantos, num mar de sereias
Aí tenho a certeza que não faço parte do real.
Protagonizo mais uma mentira tua
O acto ilusório concebeu-me
Nasci para a mente de um sofredor
Que não tinha que amar.
Carmen
"Vou adormecer, beijando-te aqui e agora
Eternizando nosso amor
Com palavras
Sempre partilhaste tudo comigo"
volinte
" Quem a lava e não entende
Mais a suja do que defende "
Lavar a cara à cidade tem as suas cautelas. Senão, o negócio pode tornar-se uma complicação geral…
Noutros tempos, era costume nas pessoas do povo, tomarem apenas dois banhos durante a sua vida: ao casar e ao morrer. Os mais saudáveis, é claro! Que os que adoeciam nunca poderiam entrar no hospital sem a dita limpeza. Sem a respectiva barrela!… Provavelmente foi daí que nasceu a antiga superstição de que lavarmo-nos faz mal, é para doentes ou mania de quem não bate bem da bola.
Felizmente os tempos mudaram e a higiene, segurança e cuidados com o físico deixaram de ser defeitos. Hoje andar sujo e malcheiroso é estar fora de moda, ser presença indesejável e um incómodo para os demais. Com as cidades isto é igualmente verdade: devem ser bonitas, desejáveis e cómodas. Devem ser funcionais, saudáveis, históricas, cultas, abertas e promover o desenvolvimento humanizado e sustentável, a qualidade de vida e usufruto da cidadania. E podem sê-lo!
Podem ter ruas em vez de azinhagas novas, jardins em vez de alegretes, autocarros em vez de carretas a motor de petróleo, espaços de desporto e lazer em vez de descampados prò contribuinte Todo-o-Terreno, soluções multiculturais em vez de festinhas e arraiais de bairrinho engalanado. Podem.
Mas também não desconhecemos que para isso se conseguir há que fazer modificações nelas; enfim, têm que requalificar-se. Têm que fazer-se obras. Ainda que estas sejam um transtorno para toda a gente. À semelhança do que acontece na casa de cada um de nós, se acaso queremos melhorar a decoração da sala, as acessibilidades, as capacidades da cozinha, a comodidade dos quartos, a categoria funcional das casas de banho.
Então, se precisamos de efectuar benfeitorias no nosso lar, podemos recorrer a duas modalidades possíveis: metemos lá dentro os pedreiros e materiais, que nos assaltam a casa e se assenhoram dela, as 24 horas do dia e enquanto as obras durarem; ou fazemos as ditas por partes de forma a podermos continuar a habitar a moradia, com certas restrições e alterações de horários, mas sem nunca deixarmos de ser seus donos nem prescindirmos dela totalmente. Se somos ricos, temos outras casinhas por aí, uma família que não dá valor aos tarecos, nem se preocupa com o bem-estar dos seus, optamos pela primeira; se prezamos a mobília, gostamos de conviver e damos significado a cada um dos membros do clã, nos preocupamos com o seu dia a dia e necessidades pessoais, escolhemos a última.
Se queremos molestar os nossos familiares e os vizinhos, transtornar as suas vidinhas, destruir-lhe o habitat e o sossego, causar-lhe stress desnecessário, impedir que se desloquem naquilo que é seu, quebrar-lhes as rotinas e souvenirs, riscar-lhe os cobres, embutidos e areados, vamos pela primeira opção; agora, se ao invés, pretendemos respeitar o quotidiano e dignidade dos demais condóminos, nutrimos apreço pelo seu descanso, nos orgulhamos de nunca desejar para os outros aquilo que também não queremos para nós, aí não restam dúvidas, e enveredamos pela segunda.
Portanto, é impossível não estar de acordo com as pessoas que se têm manifestado adversas à forma como estas “obras gerais” citadinas têm vindo a ser feitas. Embora sejam as primeiras a reconhecer que algumas alterações do espaço urbano, além de urgentes, necessárias e imprescindíveis, apenas pecam por serem tão tardias, a verdade é que não se podem alhear da forma como têm sido geridas, os dissabores diários que causaram, a confusão que criaram, as expulsões de clientela que motivaram a diversos estabelecimentos comerciais que, consequência da época do ano e do fraco poder de compra dos portalegrenses, já de si se encontravam com sérias dificuldades em manter as portas abertas ao público.
Como elas, também nós não percebemos, porque é que de um dia para o outro cortaram uma rua onde precisávamos de passar todos os dias, sem ninguém se dignar e ter a hombridade, a educação cívica, de no-lo comunicar com a antecedência suficiente para que não batêssemos com as trombas na porta quando aí precisássemos de passar novamente;
Como elas, também nós não compreendemos para que serve um executivo camarário, se quem manda na cidade são as empresas de construção civil e obras públicas, a quem foi adjudicada a cidade, juntamente com as obras;
Como elas, também nós não entendemos como se destrói uma fluência precária na circulação automóvel e transportes públicos, para a tornar ainda mais complexa e difícil, obrigando os munícipes ao desperdício do seu tempo, além do múltiplo e óbvio desgaste nas suas viaturas;
Enfim, como elas, também nós não podemos ser coniventes e permissivos com as políticas de desenvolvimento que, em nome dos fins, não têm o mínimo pejo de atropelar tudo e todos para os conseguir, que descuram os meios e desumanizam os objectivos, na inequívoca intenção de recolher benesses políticas com as necessidades alheias, na mira explícita do aproveitamento eleitoral dessas obras, como o demonstra a determinação do timing das mesmas, forçadas que foram a fazerem-se e aprontarem-se imediatamente antes, durante e após as eleições autárquicas, cujo afunilamento de prazos é por demais evidente.
É lamentável que tenha acontecido, não duvidemos. E sabemos que este nosso desabafo em nada poderá alterar o autêntico estado de sítio que se instituiu. Contudo, temos consciência e não esquecemos que aqueles, que afinal são quase todos os portalegrenses sem oportunidade de mudar de cidade enquanto as obras durarem, que é a única cidade da sua vida e não têm posses para comprar outra, como sucede às pessoas que precisam de fazer obras em sua casa, e que também não teriam outra para onde se mudar se nela quisessem fazer obras, mereciam ter sido consideradas, respeitadas, contadas neste alvoroço, a fim de lhe terem sido minimizados os estragos em seu diário viver (e conviver).
Porque a cidade é a casa de todos nós, não poderemos deixar de ser solidários com elas, com cada um dos que resistiram e aturaram estoicamente todos contratempos a que foram obrigados, porquanto a nenhum de nós passaria pela cabeça requalificar o nosso lar de forma a que nele não pudéssemos morar (ou, fazendo-o, se lhe imporiam perigos e guerras esforçados mais do que permite à força humana); nem conseguimos entender como racional o desacato a que fomos sujeitos. E em nome de quê? Não é pelo facto de o progresso ser pago às custas da qualidade de vida dos que menos podem que ele se transforma em mais e melhor progresso.
Pelo contrário. Que isto de crescer e salvar a imagem pública das donzelas, tem preceitos e subtilezas de enamorado em duelo ou convicção de medieval e monástica cavalaria, no que até lembra o que sentia, pensava e dizia, o povo doutros tempos acerca da honra: que
“ quem a lava e não entende,
mais a suja do que defende. “
Isto é, como dizemos nós, repetindo o que o nosso povo pensa actualmente, embora que dito de outro modo e em jeito menos rebuscado: que
“quem lava e não se enxuga,
toda a pele se lhe enruga... "
Outro facto acerca do qual também não haverá dúvidas nenhumas!
Escombros
I
Ecoam na vida mais vivida
Viciante vida que nos escorrega pelas mãos
Como água bentificada
Após aqueles instantes de tortura ingénua,
Ela aprecia o chá,
Quente, macio de flores brancas
Tão ingénuas como a própria tortura
Que lhe evapora dos poros da pele suada, tocada.
Escombros que iludem a própria origem
Vagina:
Quero percorrer-te
Refugiar-me no útero materno
Aninhar-me lá
Como antes.
Quero regressar à origem.
Quero abandonar aquilo que não é meu por direito
Quero entregar-me ao trilho escuro
Quero ser-me
Possuir-me
Desejo-o de mim para mim
Será cruel?
Cruz de mim que me invade
Loucura crua que saboreio
P’las papilas gustativas da língua
Unhas roídas
Carne carcomida durante o tempo da vida da carne
Queiram que viva
Queiram que chore só
Queiram que sinta o universo dentro de mim!
Feios e porcos
Que se alojam nos outros
Antes de se alojarem em si mesmos
Que inveja lhes tenho!
Insensíveis de uma coerência nutritiva.
II
Porque se destrói
Porque ama o sofrimento
Porque mo ensinou a amar
Encorajo-o a tomar-me como uma rainha do seu mundo!
A vida é impura para aqueles que lhe fogem
Estúpidos vagabundos esfomeados de ilusões
(Rio)
Eu sempre as consumi.
Destruí-me?
Sempre as implorei a meu dono do amor.
Pedia-lhe ilusões
Como as outras pedem jóias.
Truz! Truz! Truz!
Quero ter um filho teu.
Aqui dentro, onde já tiveste.
Carne penetrada pelo teu eu verdadeiro
Um filho da tua e da minha carne
Rebenta-me a veia!
Porquê tu?
Ensina-me as leis de teu universo
A matéria com que trabalhas
Actor da vida
Tão feliz que és...
Ou será visão minha?
Ou será do meu amor
Que esconde os escombros do real
Porquê ninguém vê o que tu és?
Só, eu,
Tão invisível que és
Tão puro de maldade inútil
Corres-me nas veias
Como se tudo fosse teu;
Mentes porque respiras;
Amas-me porque vives do teu reflexo nos meus olhos;
Foges da explosão provocada por teu próprio combustível
Cobarde
Sorte a tua!
És dono do todo,
Tu nunca tens nada;
Cristalizas nos outros
Como em ti mesmo.
Ensinaste-me como o tempo percorre o espaço
O simples caminhar
Encandeada pelo foco de luz
Sem ser derrubada pelos monstros mentais.
És mágico!
Monte de ossos que mia para mim
Que mentindo, ronrona para mim
Gato bravio
Independente que és
Sofrido, violado por todos
Usado e destroçado
Invejo-te como invejo a chuva que
Beija o mundo sem ninguém dar conta!
Sabes-me de cor,
Lambeste-me por dentro e por fora
Que barbárie!
Ensanguentei-me sem a dor
Conquistei-te
Não é divino?
III
A vingança.
Aprender o que me pregaste:
A invenção do amor
Entre entrefalas falseantes.
Dançarino da vida,
Põe a tigela na nuca e consome-me!
Ecoam feridas por lamber
Silêncios de abraços em telhados instáveis
Que nos mostravam o caminho para os céus.
Tal como tu te apresentaste
“Palhaço da vida”!
Já rompeste a minha nata de carne
Que pratos deliciosos de tenras carnes,
Virgens, te tentaram?
Capricho
Porque é que as futilidades nos apatizam?
Ambos amamos o mesmo
O caos.
A caotização do pleno universo
Partículas e mais partículas
Que um dia nos irão absorver.
Partirei agora desse cais?
Amanha será o amanha de tantas coisas
A espera é precisa
Amada e sofrida
Sofrer é criar
E criar também é sofrer
Quero eternizar o amor
Esculpi-lo, acabá-lo e fechá-lo à chave num quarto escuro e poeirento
Como sábio prestidigitador,
Sabe filtrar verdades
Quem precisa de verdades?
Quem precisa da verdade das verdades?
Tu és o maestro da vida!
Sempre o soubeste
Sóbrio que és,
Obsesionas-me,
Carente da mulher que me transformei
Em teus braços e palavras de embalo.
Cresci em ti e por ti, meu caro amor!
Temo a pistola que guardas para ti.
Pressionas o gatilho
Sempre que precisas de ouvir um som
Que mata
Afogas meus prantos, num mar de sereias
Aí tenho a certeza que não faço parte do real.
Protagonizo mais uma mentira tua
O acto ilusório concebeu-me
Nasci para a mente de um sofredor
Que não tinha que amar.
Carmen
"Vou adormecer, beijando-te aqui e agora
Eternizando nosso amor
Com palavras
Sempre partilhaste tudo comigo"
volinte
8.27.2005
Excerto da obra inédita ESTRELA, de Gabriel Raimundo, já no prelo, e a ser lançada em Outubro, provavelmente na Covilhã e aqui em Portalegre.
Capítulo IV
SAGA DO REI FRANCISCO
Dinis, o Príncipe das Pedras Brancas, mais parece vocacionado para cronista da corte que gira em torno de sua mãe Rainha do que propriamente inclinado a desgovernar a região em que implantou o lustroso e confortável Castelo do Amor e Ventos Prósperos.
Foi, precisamente a uma observação da mãe neste sentido, que ele retorquiu com um argumento de se lhe tirar um chapéu da cor da azeitona galega: - Se eu consegui tornar-me perito em Turismo e Comunicação, não foi para vender aos deslumbrados da neve e das nossas belezas naturais os estereótipos dos compêndios de História e Geografia, nem o conteúdo veiculado pelos folhetos vistosos dos departamentos de propaganda do nosso Património. O que eu pretendo é colher troncos e ramas do saber popular, conhecer a fundo a nossa Geografia Humana e as aspirações dos nossos conterrâneos.
- Quem te ouvir falar assim, meu filho, vai julgar que te queres candidatar a Presidente da Câmara – espicaça-o a Rainha, adivinhadora dos planos profundos do seu rebento primeiro.
Ambos sabiam que se tratava de uma brincadeira, pelo que Dinis tomou a iniciativa de colocar mais questões, a quem o gerou e toda a disponibilidade e paciência do mundo mostra em esclarecê-lo, principalmente acerca de assuntos, inerentes ao reinado para que foi investida pelo pai Rei que, generosamente, abdicou do trono em proveito da sucessora ímpar, com a mesma determinação com que o faria, se da Rainha de Inglaterra se tratasse.
- Fale-me da actividade profissional de Rei Francisco, o meu avô...
Sorrindo, perante mais este trocadilho de seu dilecto Dinis, a Rainha do Casal procura não defraudar a veia de bom ouvinte e incansável investigador do seu interlocutor:
- O meu pai trabalhou que nem um dos actuais imigrantes do Leste, por todos os rincões em que pediam braços ágeis para as tarefas agrícolas.
Contém a comoção real, não tardando a abrir a cascata das recordações:
- Quem precisava de pessoal para trabalhar à jorna, deslocava-se à hoje Praça da Liberdade. Até havia uns que vinham do Dominguiso, dos Vales, das aldeias do rio-abaixo. Eu passava ali muitas vezes e via lá uns moços com a enxada aos pés. Aqueles que arranjavam patrão iam trabalhar. Os outros voltavam com a merenda para casa, o que nunca aconteceu com o meu querido pai, tal o apreço com que era tido na bolsa dos agricultores da meia-lua do rio Zêzere, bordada de oldeiros propícios à expansão de pomares, vinha, milho, legumes.
Por outro lado, é dos poucos habitantes da freguesia que altivamente pode subscrever a afirmação, em relação ao centro mais nobre da Vila dos Tecidos: - Eu nunca perdi tempo a pintar o tecto à Praça!
Lamentavelmente, este é um passatempo favorito de muitos jovens, de pré-reformados e idosos, gentes sem objectivos socioculturais ou meros subsidiodependentes do Ministério do Ócio.
Mouros façanhudos e Ratinhos ridentes
Ilustra as qualidades braçais de Rei Francisco com um dado fabuloso:
- Chegou a integrar-se num rancho de Ratinhos do concelho de Pombal para as tradicionais ceifas calorosas, nas herdades da região considerada o Celeiro da Nação. Um manajeiro e angariador de mão-de-obra valorosa que um dia se cruzara com ele na Ponte Pedrinha, gostou do seu porte humilde e decidido e nunca mais lhe perdeu o rasto.
Chegou a fazer o trajecto a pé até ao Rossio de S. Brás, o ponto de encontro na capital do Alentejo, tal qual os parceiros no desbaste das searas, que ao principio as camionetas da carreira eram de horário espaçado e bilhete caro...
- Qualquer outro Rei iria de caleche – chalaceia o neto que vagamente conhecera o avô...
- Ou na charrete de um desses abastados lavradores que passavam dias a fio, jogando à batota num dos manhosos casinos, estrategicamente colocados entre o sul e a capital do Reino – satiriza a Rainha do Casal, no que deixou espantado o filho, pela amplitude dos conhecimentos demonstrados, certamente colhidos nalgum almanaque de anarquistas, uma molhada de cidadãos bombásticos que se divertiam a contestar o regime monárquico e a denegrir a República e que tinham o desplante de reivindicar o desalojamento dos defuntos de terrenos considerados sagrados, com o pretexto de que a terra deve pertencer a quem a trabalha...
Rei Francisco alimentou-se das migas dos alguidares que lhe facultavam e conheceu outros velhos comeres dos ganhões da região, em que os temperos com poejos, espargos e outras ervas aromáticas faziam esquecer o azeite, ao mesmo tempo que se deliciou com carnes de porco e borrego, os enchidos, produtos copiosamente servidos na mesa de capatazes e do pessoal da casa. A míngua do vinhito que lhe acelerava o pulsar das veias, compensava-o com os goles de água da infusa e as pancadas secas nas hastes das espigas carregadas de grãos, nunca se afastando da frente dos mais audazes segadores.
Por voltas do S. Pedro já se encontrava em casa a remirar os cobres de reserva.
- Os alentejões puseram-nos a alcunha de Ratinhos, devido ao nosso aspecto atarracado e teimoso no meio das searas, onde dão nas vistas os nossos dentes brancos nos rostos morenos, tudo levando na frente, como se ali caísse de repente um exército de seres roedores – explicava-nos ele já no lar, à roda de uma malga de caldo de feijão que lhe puxava pela língua. Claro está que mais depressa lhe rolavam as palavras contra os dentes, se a ceia fosse acompanhada por uma pinguita do garrafão, comprado na tasca do primo Ribolache, o homem que em noites de alma quentinha gritava do terreiro em frente: - Aqui é o Céu!...
A Rainha nada esconde a Dinis, cada dia mais interessado em vasculhar nos compartimentos históricos maternos. Outra revelação faz ao filho:
- Contou-me uma noite o meu pai que os alentejões – nome que ele dava aos habitantes dessas terras de planície, de muitos calores estivais perfurando as copas dos chaparros e das azinheiras, e fortes geadas no Inverno – não acolhem muito bem os Ratinhos que - de empreitada - ceifam nos campos da sua região, porque dizem que tais ranchos os vão prejudicar, ao aceitarem efectuar aquele duro trabalho por um preço irrisório. Inclusive, os agrários chegam a recrutar pessoal na Beira, em Trás-os-Montes e no Algarve, nos momentos em que os assalariados da zona se recusam a efectuar as tarefas inadiáveis, pela tabela que os latifundiários lhes pretendem impor. Segredou-me o meu pai que já chegou lá a haver tiros e desgraças, por causa desses desentendimentos regulares...
Nem só adversários encontraram os Ratinhos, também apelidados de Galegos, porque originários de localidades acima do Tejo (como desforra, os de além-Tejo não se livram de ser designados de Mouros).
- Nada nos metia medo – afiançava o meu pai, homem pacífico. – As mulheres de chapéu de abas largas e roupas coloridas a cobrir-lhes todas as partes do corpo, como as árabes, gostavam de nós. No baile de despedida, por alturas do S. João, alguns companheiros agarravam-se a elas como os grilos à serradela. Raro era o ano em que não ficava por lá um dos elementos do nosso rancho, casado ou amigado, consoante as posses. Por sinal, há várias famílias como o apelido de Rato, entre Évora e Portalegre, pelo menos, e mais do que uma loja ou café ou restaurante com o reclame de Ratinho... Nos Canaviais, freguesia que medrou em volta do Convento do Espinheiro, aglomeraram-se largos núcleos de originários da área de Pombal e arrabaldes. Primeiro ficaram os Ratinhos mais atrevidos e, aos poucos, foram ali desembarcando os parentes com ofícios de ganha-pão garantido no concelho eborense, desde o alfaiate ao leiteiro, padeiro, serralheiro, pedreiro, pintor, empreiteiro de obras, carpinteiro, canalizador, mecânico, sapateiro, barbeiro, quer dizer, os homens dos ofícios em crescente valorização e que não precisavam de carta de chamada para ingresso e radicação em sítio de fisionomia ainda indefinida, mas cá dentro... Eu não fui na cantiga de nenhuma ceifeira, porque te tinha a ti e à mãe Hortense – confidencia o Rei à menina de seus olhos, à sua Maria Rainha.
O manajeiro, o capataz geral, os patrões e os companheiros de rancho apreciavam a frontalidade e a capacidade de trabalho do serrano Rei Francisco, habituado a oferecer a força braçal, desde a meninice, de cujas brincadeiras mal desfrutou, uma vez que a sua escola foram os campos das redondezas, com quadros a céu aberto e lições ao relento, seguindo atento as fúrias e humores variáveis da Professora Natureza.
Dos 20 aos 60 anos foi um dos esteios do rancho de ceifeiros de Pombal que ele servia com devoção, por achar uma coincidência - fora do comum - ele também habitar no número 1 da rua do Pombal no Casal da Serra!
No meio das espigas carregadinhas de grãos de oiro, debaixo de um céu semeado de lanternas que lhe lembravam o naco de firmamento que avistava da janela de sua casa na comunidade casalense, Rei Francisco dormia envolvido num casaco defensivo da poalha dourada e das picadas dos insectos, ávidos de sangue serrano... Não virou costas ao pão pedregoso nem à água choca, chupou caroços de azeitonas britadas, ingeriu gaspachos destemperados, trincou linguiças e torresmos de sortido duvidoso.
Gradualmente, lavradores, capatazes, manajeiros e companheiros de percurso viram nele um patriarca emblemático, capaz de arbitrar qualquer conflito.
Humilhação e queda real
Até que um jovem recentemente promovido a manajeiro, enciumado com o prestígio que o Rei alcançara no círculo dos ceifeiros meteu na cabeça que urgia dispensar-lhe os serviços, como se faz a um seringa descartável.
Um dia, esse badameco conhecido por Zé Bode, teve o descaramento de gritar à frente de todos, no instante na pausa que o Rei aproveitara para refrescar a garganta e limpar o suor que lhe escorria em bica, quando o termómetro marcava 41 graus:
- Ó Rei! Você não pode com uma gata pelo rabo, já não vale nada. Fique em casa no próximo ano! – foi a sentença fatal, da parte de um fedelho que tomara o lugar do pai – o Albano de orelhas de abano – homem cordato e compreensivo para com o parceiro, fosse ele de trás-de-serra ou do lado do Sol a escorrer pelas encostas da Cova da Cereja.
- Então, agora como é que vamos sobreviver? – preocupou-se a sua Hortense, habituada que estava a esse pé-de-meia anual, complemento que conseguia aos incertos ganhos, auferidos nos breves períodos em que laborava nas propriedades de notáveis e abastados, ora na poda de vinhas e árvores frutícolas, ora na rega, no arranque de batatas ou na plantação de novos pomares.
- Ó minha mãe, não chore! Não se apoquente, mulher! Alguma coisa se há-de arranjar. Uma fatia de pão que eu tenha, reparto-a com vossemecês! – a Rainha em amadurecimento encorajava a progenitora.
A solução imediata não tardou. Rei Francisco passou a ajudar a irmã Piedade dos Bigodes, mulher de bater o pé ao carrapato do marido – Arménio da Onça – um pegamasso sempre de roda do cigarrito de enrolar em papel fino e fechar com lambidela de beiços, assustador da passarada com pragas constantes, capazes de corar as maçãs do rosto de uma rameira.
Porém, a irmã não lhe dava um vintém. Rezava esta estranha ladainha pelos cantos: - Ai dinheiro! É os infernos!...
Rei Francisco chega a casa com uma cestita meia de batatas, ao fim-de-semana.
- Olha! Só se come batatas – desabafava a minha mãe e chorava muito.
- Seque as lágrimas, minha mãe! Comemos todos da mesma panela – tentava mais uma vez consolá-la.
O Rei andava arrombado de todo, em consequência do mau passadio, batucando nos madrastos torrões com a enxada obediente. Um final triste estava para ocorrer...
Certo dia, depois de vender a carga de hortícolas no Mercado Municipal da Covilhã, como acontecia com regularidade, sofreu um acidente fatal. Em vez de montar na posição normal, sentou-se de lado, à maneira das senhoras de alta roda em passeio citadino. O cavalo não estava habituado ao movimento intenso dos carros e espantou-se numa curva da via inclinada...
Maria Rainha revive a tragédia de voz soluçante:
- O meu pai foi projectado para o meio da estrada de paralelos, partiu a espinha. Ainda o levámos ao endireita de Caria e a seguir a um médico conhecido.
Ao fim de três semanas, acabou-se o martírio do Rei que nunca viu o sangue azul correr-lhe nas veias, nem beneficiou de qualquer benesse do tesouro real.
Beirões nos campos d’ Além-Tejo
Dinis procurou honrar a memória de seu avô Rei Francisco, através da divulgação dos dados apurados acerca dos Ratinhos. Eis o trabalho que enviou para um periódico das cercanias do Guadiana, mas que nunca viu a luz do dia, pelo que teve de resguardá-lo no cofre das memórias pendentes, até que agora se decidiu a revelá-lo:
Chegavam em ranchos, com fisionomias graníticas buriladas pelas tempestades do Norte. Daí o apelidarem-nos de Galegos, uns, enquanto as gentes da ceifa os apelidavam de Ratinhos – a estatura atarracada e a predisposição para mostrarem os dentinhos nas densas searas, mais os andrajos negros que lhes revestiam a pele terrosa, evocavam esses seres saltitantes e determinados debaixo de um céu sufocante. Mas, acabaram por se misturar com os naturais, pelo que hoje vivem nos limites de Évora e noutros recantos do Alentejo risonhos descendentes dessas pessoas sofredoras, empurradas a transpor o grande rio, deitando para trás das costas a saudade das parcelas de chão de penedos, carqueja e urze, regadas a geadas intempestivas e suores de teimosa enxada.
Presentemente, na freguesia de Canaviais, os originários nortenhos cantam com a voz da terra que ajudaram a tornar madura e amadurecida, com raízes bem fundas neste Alentejo hospitaleiro.
Surpreendidos pelos horizontes de fazer esquecer as hortas hereditárias de trás de serra, depressa muitos deles se decidiram pela transferência de região. Canaviais foi uma das zonas de eleição para pessoas como o Ti’ Zé do Moinho, como é popularmente conhecido José Gonçalves.
Relata a seguir o jovem investigador que o nonagenário do concelho de Pombal constrói a rua da Paz:
Pelo olhar de quem nasceu em 29 de Novembro de 1907 em Vila Chã, ainda perpassam as faúlhas de vivacidade e energia que o animaram a dar forma de povoado sólido aos Canaviais. Dos seus 90 anos bem preenchidos, conta 63 de vida regular no perímetro de Évora.
A memória de Ti’ Zé do Moinho é uma nascente de Primavera:
- Comecei a vir com 7 anos à ceifa, na companhia de um manajeiro lá do Norte que trazia 30 homens para a Herdade da Preguicite Aguda, e uns rapazes novos. Ele também era empreiteiro. Andei meia dúzia de anos a fazer a ceifa, até que me casei. Passados três anos, vim falar com o meu padrinho de nascimento – o Dr. Bento Pouca Roupa – que era o Provedor da Misericórdia e me convidou para tomar conta da azenha - localizada no Degebe - com a minha mulher Conceição Fatigada. Fui eu que fiz as mós e pus o moinho a funcionar a cem por cento...
Prossegue o nosso paciente interlocutor:
- Ah! Mas a seguir à ceifa, aprendi a carpinteiro na terra e fui trabalhar para Lisboa com um indivíduo que tomava obras de empreitada... Voltei ao Norte e, já casado, comecei a andar no negócio de ambulante com o meu pai – vendíamos loiça de Coimbra, e também peles e trapos velhos para fazer mantas, a uma fábrica de tomar.
Vim para baixo como carpinteiro e tornei-me moleiro, a pedido de meu padrinho... Até que pensei em arranjar uma quinta de renda e assim me aguentei, ao longo de 18 anos... Acabei por comprar um naco da Quinta Nova dos Canaviais, onde nos encontramos.
Remontamos aos primórdios do povoamento da zona que não cessou de se expandir e tornar numa freguesia com um núcleo acentuadamente urbano, sem perder as características da inicial tranquilidade rural, na orla dos eixos rodoviários que a servem.
- Isto era uma área muito grande. Uns senhores compraram-na e retalharam-na em talhões, para vender. Houve um que me agradou e não descansei enquanto não o comprei.
Vim cá vê-lo a uma segunda-feira e passou a ser meu à terça – era o Dia do Senhor Porco, porque os lavradores e os quintaneiros tinham então o costume de se juntar na Praça do Giraldo para negociar porcos e ovelhas. Comprei o talhão com o dinheiro emprestado pelo meu padrinho... Havia um bocado de vinha no terreno e uma só oliveira. Depois vendi uma parte do ribeiro para lá, para amortizar a dívida... Comecei logo a fazer umas casitas e, passado algum tempo, o prédio onde ainda vivo. Mas arrendei a parte de baixo para taberna, agora café...
A entreajuda da filha professora:
Acordámos numa pausa para o homem dos 90 anos, um misto de vitalidade entre o castanheiro e o sobreiro, e passámos a dialogar com a filha, D. Zilda, professora reformada:
- Viemos morar para cá em 1955. Foi quando eu saí professora, por isso é que eu sei!
- E depois – retoma o tranquilo ancião – fui construindo todas as casas à volta da estrada, hoje rua da Paz. À medida que fazia uma casa, hipotecava-a e, a seguir, erguia outra. Fiz uma dezena de moradias e nunca fiquei a dever nada a ninguém, graças a Deus! Eu é que fiquei a arder com alguns calotes...
Continuei a construir casas e a negociar em cereais. Juntava um dinheiro, outro tirava-o do Banco por empréstimo. Ia pagando e fazendo outras habitações, mantendo encargos bancários na ordem dos cento e tal contos. Naquele tempo, representava uma soma enorme, mas pagava sempre na altura certa – liquidava um para levantar outro, estudei a maneira de trabalhar!
Noutra fase, passei a negociar em azeitonas de conserva. No quintal há umas talhas grandes, apropriadas para tal. Comprava-as, meti-as no tanque e, à medida que ficavam prontas, destinava-as à região de Lisboa... Comprei logo uma camioneta e percorria o Barreiro, Setúbal, Palmela... E carregava também areia com a minha camioneta. Trabalhava dia e noite – só eu é que sei... Tive três filhos e estudaram todos!
Este Além-Tejo transformou-lhe o modo de encarar a vida:
- De cá, tenho boas lembranças, mas algumas menos boas do Norte! Adaptei-me bem ao negócio e ao Alentejo. Levei uma vida tranquila e os meus filhos não me ajudaram em nada. Foram para a escola e seguiram o seu caminho... A minha mulher é que me auxiliou muito.
Em jeito de retrospectiva:
- Foi uma vida um bocado apertada, graças a Deus não estou arrependido do que fiz. Não cheguei a tirar a 4ª. Classe, mas aprendi a ler e escrever... A minha filha sabe mais que eu. Ela também negoceia. Reformou-se muito cedo, aos 52 anos de idade, já com 32 de professora, e vai vender queijos à capital e ao Algarve...
Auscultados os vizinhos de Ti’ Zé do Moinho, vemos confirmadas as suas afirmações... Deste modo constatamos que as gentes do Norte, radicadas nos Canaviais, se dedicavam aos ofícios – padeiros, sapateiros, uns dedicados à venda e arranjo de bicicletas, outros taberneiros, carvoeiros, costureiras quase todas as donas de casas, havia pequenos proprietários de imobiliário – investiam na habitação, como aconteceu com o Ti’ Zé do Moinho e com o Sr. Aires que tinha uma correnteza de casas compridas e com chaminés que, pela sua semelhança, era conhecida por Comboio.
Este pessoal foi atraído pelas gerações anteriores que chegaram por ocasião das ceifas e outros trabalhos agrícolas. Os primeiros Galegos compraram terras, fixaram-se e deram origem ao incremento de um núcleo urbano com alguma importância. Gradualmente foram atraindo parentes e amigos, já voltados para outras artes, complementares das exigências de um bairro moderno, envolvido por quintinhas, formando a actual Freguesia dos Canaviais, povoada por pessoas com amor à terra, à Natureza.
Conclui Dinis a peça jornalística com esta observação do quotidiano eborense:
Terminara à Porta Nova o percurso do cliente, em vésperas da Feira de S. João, e discutia o troco com o taxista. Este só tinha uma nota de dois mil escudos e até confiava em receber o custo da corrida, na próxima ocasião, aproveitando o ensejo para lançar a pergunta:
- O Senhor é do Norte, não é? Pela pronúncia...
- Sou das abas da Serra da Estrela. E o Senhor?
- Sou de Chaves e estou cá há 20 anos. Chamo-me Sousa... Os meus colegas dizem que eu sou Galego, mas eu não me importo! Riram-se ambos. Afinal, eram mais dois Galegos que o acaso tornara amigos!
SAGA DO REI FRANCISCO
Dinis, o Príncipe das Pedras Brancas, mais parece vocacionado para cronista da corte que gira em torno de sua mãe Rainha do que propriamente inclinado a desgovernar a região em que implantou o lustroso e confortável Castelo do Amor e Ventos Prósperos.
Foi, precisamente a uma observação da mãe neste sentido, que ele retorquiu com um argumento de se lhe tirar um chapéu da cor da azeitona galega: - Se eu consegui tornar-me perito em Turismo e Comunicação, não foi para vender aos deslumbrados da neve e das nossas belezas naturais os estereótipos dos compêndios de História e Geografia, nem o conteúdo veiculado pelos folhetos vistosos dos departamentos de propaganda do nosso Património. O que eu pretendo é colher troncos e ramas do saber popular, conhecer a fundo a nossa Geografia Humana e as aspirações dos nossos conterrâneos.
- Quem te ouvir falar assim, meu filho, vai julgar que te queres candidatar a Presidente da Câmara – espicaça-o a Rainha, adivinhadora dos planos profundos do seu rebento primeiro.
Ambos sabiam que se tratava de uma brincadeira, pelo que Dinis tomou a iniciativa de colocar mais questões, a quem o gerou e toda a disponibilidade e paciência do mundo mostra em esclarecê-lo, principalmente acerca de assuntos, inerentes ao reinado para que foi investida pelo pai Rei que, generosamente, abdicou do trono em proveito da sucessora ímpar, com a mesma determinação com que o faria, se da Rainha de Inglaterra se tratasse.
- Fale-me da actividade profissional de Rei Francisco, o meu avô...
Sorrindo, perante mais este trocadilho de seu dilecto Dinis, a Rainha do Casal procura não defraudar a veia de bom ouvinte e incansável investigador do seu interlocutor:
- O meu pai trabalhou que nem um dos actuais imigrantes do Leste, por todos os rincões em que pediam braços ágeis para as tarefas agrícolas.
Contém a comoção real, não tardando a abrir a cascata das recordações:
- Quem precisava de pessoal para trabalhar à jorna, deslocava-se à hoje Praça da Liberdade. Até havia uns que vinham do Dominguiso, dos Vales, das aldeias do rio-abaixo. Eu passava ali muitas vezes e via lá uns moços com a enxada aos pés. Aqueles que arranjavam patrão iam trabalhar. Os outros voltavam com a merenda para casa, o que nunca aconteceu com o meu querido pai, tal o apreço com que era tido na bolsa dos agricultores da meia-lua do rio Zêzere, bordada de oldeiros propícios à expansão de pomares, vinha, milho, legumes.
Por outro lado, é dos poucos habitantes da freguesia que altivamente pode subscrever a afirmação, em relação ao centro mais nobre da Vila dos Tecidos: - Eu nunca perdi tempo a pintar o tecto à Praça!
Lamentavelmente, este é um passatempo favorito de muitos jovens, de pré-reformados e idosos, gentes sem objectivos socioculturais ou meros subsidiodependentes do Ministério do Ócio.
Mouros façanhudos e Ratinhos ridentes
Ilustra as qualidades braçais de Rei Francisco com um dado fabuloso:
- Chegou a integrar-se num rancho de Ratinhos do concelho de Pombal para as tradicionais ceifas calorosas, nas herdades da região considerada o Celeiro da Nação. Um manajeiro e angariador de mão-de-obra valorosa que um dia se cruzara com ele na Ponte Pedrinha, gostou do seu porte humilde e decidido e nunca mais lhe perdeu o rasto.
Chegou a fazer o trajecto a pé até ao Rossio de S. Brás, o ponto de encontro na capital do Alentejo, tal qual os parceiros no desbaste das searas, que ao principio as camionetas da carreira eram de horário espaçado e bilhete caro...
- Qualquer outro Rei iria de caleche – chalaceia o neto que vagamente conhecera o avô...
- Ou na charrete de um desses abastados lavradores que passavam dias a fio, jogando à batota num dos manhosos casinos, estrategicamente colocados entre o sul e a capital do Reino – satiriza a Rainha do Casal, no que deixou espantado o filho, pela amplitude dos conhecimentos demonstrados, certamente colhidos nalgum almanaque de anarquistas, uma molhada de cidadãos bombásticos que se divertiam a contestar o regime monárquico e a denegrir a República e que tinham o desplante de reivindicar o desalojamento dos defuntos de terrenos considerados sagrados, com o pretexto de que a terra deve pertencer a quem a trabalha...
Rei Francisco alimentou-se das migas dos alguidares que lhe facultavam e conheceu outros velhos comeres dos ganhões da região, em que os temperos com poejos, espargos e outras ervas aromáticas faziam esquecer o azeite, ao mesmo tempo que se deliciou com carnes de porco e borrego, os enchidos, produtos copiosamente servidos na mesa de capatazes e do pessoal da casa. A míngua do vinhito que lhe acelerava o pulsar das veias, compensava-o com os goles de água da infusa e as pancadas secas nas hastes das espigas carregadas de grãos, nunca se afastando da frente dos mais audazes segadores.
Por voltas do S. Pedro já se encontrava em casa a remirar os cobres de reserva.
- Os alentejões puseram-nos a alcunha de Ratinhos, devido ao nosso aspecto atarracado e teimoso no meio das searas, onde dão nas vistas os nossos dentes brancos nos rostos morenos, tudo levando na frente, como se ali caísse de repente um exército de seres roedores – explicava-nos ele já no lar, à roda de uma malga de caldo de feijão que lhe puxava pela língua. Claro está que mais depressa lhe rolavam as palavras contra os dentes, se a ceia fosse acompanhada por uma pinguita do garrafão, comprado na tasca do primo Ribolache, o homem que em noites de alma quentinha gritava do terreiro em frente: - Aqui é o Céu!...
A Rainha nada esconde a Dinis, cada dia mais interessado em vasculhar nos compartimentos históricos maternos. Outra revelação faz ao filho:
- Contou-me uma noite o meu pai que os alentejões – nome que ele dava aos habitantes dessas terras de planície, de muitos calores estivais perfurando as copas dos chaparros e das azinheiras, e fortes geadas no Inverno – não acolhem muito bem os Ratinhos que - de empreitada - ceifam nos campos da sua região, porque dizem que tais ranchos os vão prejudicar, ao aceitarem efectuar aquele duro trabalho por um preço irrisório. Inclusive, os agrários chegam a recrutar pessoal na Beira, em Trás-os-Montes e no Algarve, nos momentos em que os assalariados da zona se recusam a efectuar as tarefas inadiáveis, pela tabela que os latifundiários lhes pretendem impor. Segredou-me o meu pai que já chegou lá a haver tiros e desgraças, por causa desses desentendimentos regulares...
Nem só adversários encontraram os Ratinhos, também apelidados de Galegos, porque originários de localidades acima do Tejo (como desforra, os de além-Tejo não se livram de ser designados de Mouros).
- Nada nos metia medo – afiançava o meu pai, homem pacífico. – As mulheres de chapéu de abas largas e roupas coloridas a cobrir-lhes todas as partes do corpo, como as árabes, gostavam de nós. No baile de despedida, por alturas do S. João, alguns companheiros agarravam-se a elas como os grilos à serradela. Raro era o ano em que não ficava por lá um dos elementos do nosso rancho, casado ou amigado, consoante as posses. Por sinal, há várias famílias como o apelido de Rato, entre Évora e Portalegre, pelo menos, e mais do que uma loja ou café ou restaurante com o reclame de Ratinho... Nos Canaviais, freguesia que medrou em volta do Convento do Espinheiro, aglomeraram-se largos núcleos de originários da área de Pombal e arrabaldes. Primeiro ficaram os Ratinhos mais atrevidos e, aos poucos, foram ali desembarcando os parentes com ofícios de ganha-pão garantido no concelho eborense, desde o alfaiate ao leiteiro, padeiro, serralheiro, pedreiro, pintor, empreiteiro de obras, carpinteiro, canalizador, mecânico, sapateiro, barbeiro, quer dizer, os homens dos ofícios em crescente valorização e que não precisavam de carta de chamada para ingresso e radicação em sítio de fisionomia ainda indefinida, mas cá dentro... Eu não fui na cantiga de nenhuma ceifeira, porque te tinha a ti e à mãe Hortense – confidencia o Rei à menina de seus olhos, à sua Maria Rainha.
O manajeiro, o capataz geral, os patrões e os companheiros de rancho apreciavam a frontalidade e a capacidade de trabalho do serrano Rei Francisco, habituado a oferecer a força braçal, desde a meninice, de cujas brincadeiras mal desfrutou, uma vez que a sua escola foram os campos das redondezas, com quadros a céu aberto e lições ao relento, seguindo atento as fúrias e humores variáveis da Professora Natureza.
Dos 20 aos 60 anos foi um dos esteios do rancho de ceifeiros de Pombal que ele servia com devoção, por achar uma coincidência - fora do comum - ele também habitar no número 1 da rua do Pombal no Casal da Serra!
No meio das espigas carregadinhas de grãos de oiro, debaixo de um céu semeado de lanternas que lhe lembravam o naco de firmamento que avistava da janela de sua casa na comunidade casalense, Rei Francisco dormia envolvido num casaco defensivo da poalha dourada e das picadas dos insectos, ávidos de sangue serrano... Não virou costas ao pão pedregoso nem à água choca, chupou caroços de azeitonas britadas, ingeriu gaspachos destemperados, trincou linguiças e torresmos de sortido duvidoso.
Gradualmente, lavradores, capatazes, manajeiros e companheiros de percurso viram nele um patriarca emblemático, capaz de arbitrar qualquer conflito.
Humilhação e queda real
Até que um jovem recentemente promovido a manajeiro, enciumado com o prestígio que o Rei alcançara no círculo dos ceifeiros meteu na cabeça que urgia dispensar-lhe os serviços, como se faz a um seringa descartável.
Um dia, esse badameco conhecido por Zé Bode, teve o descaramento de gritar à frente de todos, no instante na pausa que o Rei aproveitara para refrescar a garganta e limpar o suor que lhe escorria em bica, quando o termómetro marcava 41 graus:
- Ó Rei! Você não pode com uma gata pelo rabo, já não vale nada. Fique em casa no próximo ano! – foi a sentença fatal, da parte de um fedelho que tomara o lugar do pai – o Albano de orelhas de abano – homem cordato e compreensivo para com o parceiro, fosse ele de trás-de-serra ou do lado do Sol a escorrer pelas encostas da Cova da Cereja.
- Então, agora como é que vamos sobreviver? – preocupou-se a sua Hortense, habituada que estava a esse pé-de-meia anual, complemento que conseguia aos incertos ganhos, auferidos nos breves períodos em que laborava nas propriedades de notáveis e abastados, ora na poda de vinhas e árvores frutícolas, ora na rega, no arranque de batatas ou na plantação de novos pomares.
- Ó minha mãe, não chore! Não se apoquente, mulher! Alguma coisa se há-de arranjar. Uma fatia de pão que eu tenha, reparto-a com vossemecês! – a Rainha em amadurecimento encorajava a progenitora.
A solução imediata não tardou. Rei Francisco passou a ajudar a irmã Piedade dos Bigodes, mulher de bater o pé ao carrapato do marido – Arménio da Onça – um pegamasso sempre de roda do cigarrito de enrolar em papel fino e fechar com lambidela de beiços, assustador da passarada com pragas constantes, capazes de corar as maçãs do rosto de uma rameira.
Porém, a irmã não lhe dava um vintém. Rezava esta estranha ladainha pelos cantos: - Ai dinheiro! É os infernos!...
Rei Francisco chega a casa com uma cestita meia de batatas, ao fim-de-semana.
- Olha! Só se come batatas – desabafava a minha mãe e chorava muito.
- Seque as lágrimas, minha mãe! Comemos todos da mesma panela – tentava mais uma vez consolá-la.
O Rei andava arrombado de todo, em consequência do mau passadio, batucando nos madrastos torrões com a enxada obediente. Um final triste estava para ocorrer...
Certo dia, depois de vender a carga de hortícolas no Mercado Municipal da Covilhã, como acontecia com regularidade, sofreu um acidente fatal. Em vez de montar na posição normal, sentou-se de lado, à maneira das senhoras de alta roda em passeio citadino. O cavalo não estava habituado ao movimento intenso dos carros e espantou-se numa curva da via inclinada...
Maria Rainha revive a tragédia de voz soluçante:
- O meu pai foi projectado para o meio da estrada de paralelos, partiu a espinha. Ainda o levámos ao endireita de Caria e a seguir a um médico conhecido.
Ao fim de três semanas, acabou-se o martírio do Rei que nunca viu o sangue azul correr-lhe nas veias, nem beneficiou de qualquer benesse do tesouro real.
Beirões nos campos d’ Além-Tejo
Dinis procurou honrar a memória de seu avô Rei Francisco, através da divulgação dos dados apurados acerca dos Ratinhos. Eis o trabalho que enviou para um periódico das cercanias do Guadiana, mas que nunca viu a luz do dia, pelo que teve de resguardá-lo no cofre das memórias pendentes, até que agora se decidiu a revelá-lo:
Chegavam em ranchos, com fisionomias graníticas buriladas pelas tempestades do Norte. Daí o apelidarem-nos de Galegos, uns, enquanto as gentes da ceifa os apelidavam de Ratinhos – a estatura atarracada e a predisposição para mostrarem os dentinhos nas densas searas, mais os andrajos negros que lhes revestiam a pele terrosa, evocavam esses seres saltitantes e determinados debaixo de um céu sufocante. Mas, acabaram por se misturar com os naturais, pelo que hoje vivem nos limites de Évora e noutros recantos do Alentejo risonhos descendentes dessas pessoas sofredoras, empurradas a transpor o grande rio, deitando para trás das costas a saudade das parcelas de chão de penedos, carqueja e urze, regadas a geadas intempestivas e suores de teimosa enxada.
Presentemente, na freguesia de Canaviais, os originários nortenhos cantam com a voz da terra que ajudaram a tornar madura e amadurecida, com raízes bem fundas neste Alentejo hospitaleiro.
Surpreendidos pelos horizontes de fazer esquecer as hortas hereditárias de trás de serra, depressa muitos deles se decidiram pela transferência de região. Canaviais foi uma das zonas de eleição para pessoas como o Ti’ Zé do Moinho, como é popularmente conhecido José Gonçalves.
Relata a seguir o jovem investigador que o nonagenário do concelho de Pombal constrói a rua da Paz:
Pelo olhar de quem nasceu em 29 de Novembro de 1907 em Vila Chã, ainda perpassam as faúlhas de vivacidade e energia que o animaram a dar forma de povoado sólido aos Canaviais. Dos seus 90 anos bem preenchidos, conta 63 de vida regular no perímetro de Évora.
A memória de Ti’ Zé do Moinho é uma nascente de Primavera:
- Comecei a vir com 7 anos à ceifa, na companhia de um manajeiro lá do Norte que trazia 30 homens para a Herdade da Preguicite Aguda, e uns rapazes novos. Ele também era empreiteiro. Andei meia dúzia de anos a fazer a ceifa, até que me casei. Passados três anos, vim falar com o meu padrinho de nascimento – o Dr. Bento Pouca Roupa – que era o Provedor da Misericórdia e me convidou para tomar conta da azenha - localizada no Degebe - com a minha mulher Conceição Fatigada. Fui eu que fiz as mós e pus o moinho a funcionar a cem por cento...
Prossegue o nosso paciente interlocutor:
- Ah! Mas a seguir à ceifa, aprendi a carpinteiro na terra e fui trabalhar para Lisboa com um indivíduo que tomava obras de empreitada... Voltei ao Norte e, já casado, comecei a andar no negócio de ambulante com o meu pai – vendíamos loiça de Coimbra, e também peles e trapos velhos para fazer mantas, a uma fábrica de tomar.
Vim para baixo como carpinteiro e tornei-me moleiro, a pedido de meu padrinho... Até que pensei em arranjar uma quinta de renda e assim me aguentei, ao longo de 18 anos... Acabei por comprar um naco da Quinta Nova dos Canaviais, onde nos encontramos.
Remontamos aos primórdios do povoamento da zona que não cessou de se expandir e tornar numa freguesia com um núcleo acentuadamente urbano, sem perder as características da inicial tranquilidade rural, na orla dos eixos rodoviários que a servem.
- Isto era uma área muito grande. Uns senhores compraram-na e retalharam-na em talhões, para vender. Houve um que me agradou e não descansei enquanto não o comprei.
Vim cá vê-lo a uma segunda-feira e passou a ser meu à terça – era o Dia do Senhor Porco, porque os lavradores e os quintaneiros tinham então o costume de se juntar na Praça do Giraldo para negociar porcos e ovelhas. Comprei o talhão com o dinheiro emprestado pelo meu padrinho... Havia um bocado de vinha no terreno e uma só oliveira. Depois vendi uma parte do ribeiro para lá, para amortizar a dívida... Comecei logo a fazer umas casitas e, passado algum tempo, o prédio onde ainda vivo. Mas arrendei a parte de baixo para taberna, agora café...
A entreajuda da filha professora:
Acordámos numa pausa para o homem dos 90 anos, um misto de vitalidade entre o castanheiro e o sobreiro, e passámos a dialogar com a filha, D. Zilda, professora reformada:
- Viemos morar para cá em 1955. Foi quando eu saí professora, por isso é que eu sei!
- E depois – retoma o tranquilo ancião – fui construindo todas as casas à volta da estrada, hoje rua da Paz. À medida que fazia uma casa, hipotecava-a e, a seguir, erguia outra. Fiz uma dezena de moradias e nunca fiquei a dever nada a ninguém, graças a Deus! Eu é que fiquei a arder com alguns calotes...
Continuei a construir casas e a negociar em cereais. Juntava um dinheiro, outro tirava-o do Banco por empréstimo. Ia pagando e fazendo outras habitações, mantendo encargos bancários na ordem dos cento e tal contos. Naquele tempo, representava uma soma enorme, mas pagava sempre na altura certa – liquidava um para levantar outro, estudei a maneira de trabalhar!
Noutra fase, passei a negociar em azeitonas de conserva. No quintal há umas talhas grandes, apropriadas para tal. Comprava-as, meti-as no tanque e, à medida que ficavam prontas, destinava-as à região de Lisboa... Comprei logo uma camioneta e percorria o Barreiro, Setúbal, Palmela... E carregava também areia com a minha camioneta. Trabalhava dia e noite – só eu é que sei... Tive três filhos e estudaram todos!
Este Além-Tejo transformou-lhe o modo de encarar a vida:
- De cá, tenho boas lembranças, mas algumas menos boas do Norte! Adaptei-me bem ao negócio e ao Alentejo. Levei uma vida tranquila e os meus filhos não me ajudaram em nada. Foram para a escola e seguiram o seu caminho... A minha mulher é que me auxiliou muito.
Em jeito de retrospectiva:
- Foi uma vida um bocado apertada, graças a Deus não estou arrependido do que fiz. Não cheguei a tirar a 4ª. Classe, mas aprendi a ler e escrever... A minha filha sabe mais que eu. Ela também negoceia. Reformou-se muito cedo, aos 52 anos de idade, já com 32 de professora, e vai vender queijos à capital e ao Algarve...
Auscultados os vizinhos de Ti’ Zé do Moinho, vemos confirmadas as suas afirmações... Deste modo constatamos que as gentes do Norte, radicadas nos Canaviais, se dedicavam aos ofícios – padeiros, sapateiros, uns dedicados à venda e arranjo de bicicletas, outros taberneiros, carvoeiros, costureiras quase todas as donas de casas, havia pequenos proprietários de imobiliário – investiam na habitação, como aconteceu com o Ti’ Zé do Moinho e com o Sr. Aires que tinha uma correnteza de casas compridas e com chaminés que, pela sua semelhança, era conhecida por Comboio.
Este pessoal foi atraído pelas gerações anteriores que chegaram por ocasião das ceifas e outros trabalhos agrícolas. Os primeiros Galegos compraram terras, fixaram-se e deram origem ao incremento de um núcleo urbano com alguma importância. Gradualmente foram atraindo parentes e amigos, já voltados para outras artes, complementares das exigências de um bairro moderno, envolvido por quintinhas, formando a actual Freguesia dos Canaviais, povoada por pessoas com amor à terra, à Natureza.
Conclui Dinis a peça jornalística com esta observação do quotidiano eborense:
Terminara à Porta Nova o percurso do cliente, em vésperas da Feira de S. João, e discutia o troco com o taxista. Este só tinha uma nota de dois mil escudos e até confiava em receber o custo da corrida, na próxima ocasião, aproveitando o ensejo para lançar a pergunta:
- O Senhor é do Norte, não é? Pela pronúncia...
- Sou das abas da Serra da Estrela. E o Senhor?
- Sou de Chaves e estou cá há 20 anos. Chamo-me Sousa... Os meus colegas dizem que eu sou Galego, mas eu não me importo! Riram-se ambos. Afinal, eram mais dois Galegos que o acaso tornara amigos!
8.16.2005
Fragmentos do dizer
4.
Haverá um lugar onde nada é tudo
Aquilo que nos acontece é sempre sinal
De outro tanto interpretável à luz fria
Transparente do facto no espelhado reflexo
Ou água de mistério no olhar de um rio
Na subterrânea cave dos sentimentos, as rosas
Eriçam seus espinhos de sangue coagulado…
Mas na orla do tempo que se vê escorrer
Como um mar esmaecido pela voz das profundezas
As barcas nas correntes lisas ante a praia
Os remos de abraçar forças desaçaimadas
O simples gesto da foz escolhendo murmúrios
Ou o compósito da tarde no solfejo do ocaso
Brilha lazarento para lavar-te os pés nus
Empresta à espuma uma solidão efervescente
No regaço dos dedos sob a sombra das unhas
Pintadas de carne apagada ou lava encarnecida.
Não, a insistência não modifica a gente
Apenas empurra quem já de si quer ser
E sendo evolui tornando-o diferente
Ajusta, acerta, aponta, afina o querer
Para somar vitórias, seguir em frente.
Porque é aí, entre perguntas e resposta
Viradas prò desígnio de quem se aposta
Que a árvore se faz folhas, ramos, tronco, poesia
E do dizer a alma nasce também o dizer da magia...
5.
Distribuo-te pelos meus versos
Como se fosses o sal que os tempera
A verdade insuspeita que os habita
A cor que matiza a fala simples
O nome insurrecto que teima em permanecer
Mesmo muito depois de ser dito, repetido e redito
Confrontado com o seu eco no desfiladeiro do meu desassossego
Que vocifera o receio da alma na certeza que a desmente.
Viver é ter um grande amor e ser-lhe fiel
Até ao limite de todos os limites inclusive
Este: o de alguma vez tentar sobreviver-lhe.
Portanto, quando sentes familiares os meus versos
Assim como que inscritos no íntimo secreto da voz
A germinar químicas soluções para a refracção do desejo
Ou a contemplar o manso exemplo da luz nos contornos do dia,
Tens toda a razão: porque eles falam sim falam do ser
Do amor que é a nossa casa, quarto, sala comum
Cozinha de confeccionar o quotidiano na originalidade de cada segundo.
Falam de sentir prazer em dar prazer
Em naufragar nas ondas tempestuosas do sonho
Surfar nas linhas das mãos e escalar teus lábios
Ou na alpinia de escutar os segredos do tacto.
4.
Haverá um lugar onde nada é tudo
Aquilo que nos acontece é sempre sinal
De outro tanto interpretável à luz fria
Transparente do facto no espelhado reflexo
Ou água de mistério no olhar de um rio
Na subterrânea cave dos sentimentos, as rosas
Eriçam seus espinhos de sangue coagulado…
Mas na orla do tempo que se vê escorrer
Como um mar esmaecido pela voz das profundezas
As barcas nas correntes lisas ante a praia
Os remos de abraçar forças desaçaimadas
O simples gesto da foz escolhendo murmúrios
Ou o compósito da tarde no solfejo do ocaso
Brilha lazarento para lavar-te os pés nus
Empresta à espuma uma solidão efervescente
No regaço dos dedos sob a sombra das unhas
Pintadas de carne apagada ou lava encarnecida.
Não, a insistência não modifica a gente
Apenas empurra quem já de si quer ser
E sendo evolui tornando-o diferente
Ajusta, acerta, aponta, afina o querer
Para somar vitórias, seguir em frente.
Porque é aí, entre perguntas e resposta
Viradas prò desígnio de quem se aposta
Que a árvore se faz folhas, ramos, tronco, poesia
E do dizer a alma nasce também o dizer da magia...
5.
Distribuo-te pelos meus versos
Como se fosses o sal que os tempera
A verdade insuspeita que os habita
A cor que matiza a fala simples
O nome insurrecto que teima em permanecer
Mesmo muito depois de ser dito, repetido e redito
Confrontado com o seu eco no desfiladeiro do meu desassossego
Que vocifera o receio da alma na certeza que a desmente.
Viver é ter um grande amor e ser-lhe fiel
Até ao limite de todos os limites inclusive
Este: o de alguma vez tentar sobreviver-lhe.
Portanto, quando sentes familiares os meus versos
Assim como que inscritos no íntimo secreto da voz
A germinar químicas soluções para a refracção do desejo
Ou a contemplar o manso exemplo da luz nos contornos do dia,
Tens toda a razão: porque eles falam sim falam do ser
Do amor que é a nossa casa, quarto, sala comum
Cozinha de confeccionar o quotidiano na originalidade de cada segundo.
Falam de sentir prazer em dar prazer
Em naufragar nas ondas tempestuosas do sonho
Surfar nas linhas das mãos e escalar teus lábios
Ou na alpinia de escutar os segredos do tacto.
8.09.2005
Fragmentos do Dizer Fragmentos
1.
Já era quase noite neste dia ainda o mesmo dia
Quando comecei a escrever-te mas é de madrugada
Quando a aurora do odor do teu corpo se mistura
E dilui em brasa no perfume acidulado da rosa canina
E seu fumo evola e dança entre nós urgentes e nus
Que os ventres se requerem desesperados e sôfregos
E se fundem num só fogo de igual fragrância de sangue
Latejante sangue, febril e avassalador de esquecimento
Que cheira tão bem que até dói custoso de acreditar
As folhas a arderem estralejando desde a semente à raiz
Libertando fleumas de convergir na morrinha da manhã.
Eu confesso que também não sei quase nada das horas
Dos dias e do tempo apenas reconheço os minutos que sinto
Na intensidade dos sessenta segundos de pensar em ti em ti
Em ti no analógico desmedido até ferver cachoeiras de DNA
Furnas de lava ácida nucleónica borbulhante nas lagoas cerebrais
Ou desmesuradas quedas de água interior a despencar abruptas
Precipícios líquidos do desejo com que te dissolves em mim.
Há outras coisas que quero igualmente dizer-te sem parar
Claro, mas que podem esperar ainda pelo sacrifício do verbo
Quando o degolarmos na pedra ou altar de todos os silêncios
E o seu latido agonizante raspar o arrepio e sulcar a alma
Com as pontas de diamante das estrelas que anavalham o medo
O rasgam de alto a baixo e esfaqueando-o como cristais cintilantes
Plantam nas telas do céu diamantinos e fulgentes soslaios
Esses teus com que dizes não à morte de nenhum animal
Flor, árvore, ideia, cor, som, gesto, expressão de agora ser
Porque tu preferes que profira a vida em linhas de horizontes
Paralelos sobre a paralelidade como socalcos de aproximação
Palavras sobre palavras a irromper no imo seio das veias
E pulsantes impulsionem as correntes águas a espraiarem-se
Até não podermos mais de tanto ruborizarmos no inconfessável
Vermelho desejo do tumescente segredo no beijo sequestrado.
Porque quando se é julgado por incendiário e ter ateado fogo
À floresta dos sonhos incondicionais e estes em labaredas
Te incendiarem o corpo no suplício da obsessiva possessão
E me possuíres em ti como um crime consumado no imo foro
Então poderei explicar sem as usuais contundências iludórias
Da retórica dos remorsos e rebates dos desejos arrependidos
Que mergulhei na morte abraçado ao meteorito incandescente
Do teu beijo e atravessei-a toda num golpe de adaga imperial
Em voo picado de corvo marinho sobre o oceano do tempo
Separando a eternidade em duas metades como fruto maduro
Cometa acutilante de unha felina a dizer a fresta que nos une.
2.
Ninguém soletra o meu nome assim como tu assim
Ninguém lhe reconhece sentidos novos de dizê-lo
Simplesmente como se ele estivesse à porta e esfinge
Fosse do ARN mensageiro a resposta electrodérmica
A genética dos significados universais que há em cada um
O alfabeto ancestral que nos circunscreve o ritmo circadiano.
Quando dizes Joaquim eu percebo imediata e exactamente
Como pode uma mão tão pequena guardar tantos segredos
Ou quem sou eu para calar o indizível se atómico, nuclear
Dos sentidos a condição sine quoi non da notícia garrafal
A espalhar a ocorrência de um substantivo que desnaufragou!
Sim, quem sou eu para desoxirribonucleizar o silabar da voz
Erigir barragens sucedâneas para os rios e lagos amnióticos
E sereno me quedar fumando cigarro atrás de cigarro na tarde
Enquanto se pratica a traição do verbo estanque intransitivo
Quieto que nem uma bruma branca no gris artificial do modo
Permitindo ao sol depositar seus óvulos de solidão sobreaquecida
Pelos protozoários da incerteza na frigideira da planície afogueada!
Não; não esquecerei jamais as linhas esquerdas da tua mão
Repetindo que há outra vida na própria vida que eterniza a vida
Qual paixão dum girassol celestial a seguir a luz do teu olhar
Cruzando os tempos e distâncias imemoriais apenas na esperança
De rever teu sorriso pleno de mansidão confiada na minha fidelidade
Que já não inventa significados adversos por cada nome que repetes.
Mesmo que às vezes dê comigo a esbracejar enredos prò teu silêncio
Receios nebulosos nos dentritos aferentes dos axiomas da insegurança
Da angústia de não poder despir a molécula do destino com a língua solta
Obrigar as sinapses ao strip-tease profundo da história da espécie
Tecer com elas a malha, a teia, a rede, a cama elástica, o trapézio
Onde as hipérboles e elipses helicoidais do futuro nos balançam...
Ainda que sôfrego consuma cada segundo apressando a tua chegada
Hei-de ser-te fiel até à voz do restolho nas estepes
Quando sussurra seu grito estaladiço sob os pés
E nus desvendam o segredo da raiz na morte inerte
Ali sucumbido ao impudor escaldante do sol abrasador
Aquecerei meu sangue como lagarto na laje dos morouços
A absorver sequioso o secreto sigilo de teus sonhos e gestos.
Indubitavelmente. Ali... Fiel até às palavras que nunca me dirás!
1.
Já era quase noite neste dia ainda o mesmo dia
Quando comecei a escrever-te mas é de madrugada
Quando a aurora do odor do teu corpo se mistura
E dilui em brasa no perfume acidulado da rosa canina
E seu fumo evola e dança entre nós urgentes e nus
Que os ventres se requerem desesperados e sôfregos
E se fundem num só fogo de igual fragrância de sangue
Latejante sangue, febril e avassalador de esquecimento
Que cheira tão bem que até dói custoso de acreditar
As folhas a arderem estralejando desde a semente à raiz
Libertando fleumas de convergir na morrinha da manhã.
Eu confesso que também não sei quase nada das horas
Dos dias e do tempo apenas reconheço os minutos que sinto
Na intensidade dos sessenta segundos de pensar em ti em ti
Em ti no analógico desmedido até ferver cachoeiras de DNA
Furnas de lava ácida nucleónica borbulhante nas lagoas cerebrais
Ou desmesuradas quedas de água interior a despencar abruptas
Precipícios líquidos do desejo com que te dissolves em mim.
Há outras coisas que quero igualmente dizer-te sem parar
Claro, mas que podem esperar ainda pelo sacrifício do verbo
Quando o degolarmos na pedra ou altar de todos os silêncios
E o seu latido agonizante raspar o arrepio e sulcar a alma
Com as pontas de diamante das estrelas que anavalham o medo
O rasgam de alto a baixo e esfaqueando-o como cristais cintilantes
Plantam nas telas do céu diamantinos e fulgentes soslaios
Esses teus com que dizes não à morte de nenhum animal
Flor, árvore, ideia, cor, som, gesto, expressão de agora ser
Porque tu preferes que profira a vida em linhas de horizontes
Paralelos sobre a paralelidade como socalcos de aproximação
Palavras sobre palavras a irromper no imo seio das veias
E pulsantes impulsionem as correntes águas a espraiarem-se
Até não podermos mais de tanto ruborizarmos no inconfessável
Vermelho desejo do tumescente segredo no beijo sequestrado.
Porque quando se é julgado por incendiário e ter ateado fogo
À floresta dos sonhos incondicionais e estes em labaredas
Te incendiarem o corpo no suplício da obsessiva possessão
E me possuíres em ti como um crime consumado no imo foro
Então poderei explicar sem as usuais contundências iludórias
Da retórica dos remorsos e rebates dos desejos arrependidos
Que mergulhei na morte abraçado ao meteorito incandescente
Do teu beijo e atravessei-a toda num golpe de adaga imperial
Em voo picado de corvo marinho sobre o oceano do tempo
Separando a eternidade em duas metades como fruto maduro
Cometa acutilante de unha felina a dizer a fresta que nos une.
2.
Ninguém soletra o meu nome assim como tu assim
Ninguém lhe reconhece sentidos novos de dizê-lo
Simplesmente como se ele estivesse à porta e esfinge
Fosse do ARN mensageiro a resposta electrodérmica
A genética dos significados universais que há em cada um
O alfabeto ancestral que nos circunscreve o ritmo circadiano.
Quando dizes Joaquim eu percebo imediata e exactamente
Como pode uma mão tão pequena guardar tantos segredos
Ou quem sou eu para calar o indizível se atómico, nuclear
Dos sentidos a condição sine quoi non da notícia garrafal
A espalhar a ocorrência de um substantivo que desnaufragou!
Sim, quem sou eu para desoxirribonucleizar o silabar da voz
Erigir barragens sucedâneas para os rios e lagos amnióticos
E sereno me quedar fumando cigarro atrás de cigarro na tarde
Enquanto se pratica a traição do verbo estanque intransitivo
Quieto que nem uma bruma branca no gris artificial do modo
Permitindo ao sol depositar seus óvulos de solidão sobreaquecida
Pelos protozoários da incerteza na frigideira da planície afogueada!
Não; não esquecerei jamais as linhas esquerdas da tua mão
Repetindo que há outra vida na própria vida que eterniza a vida
Qual paixão dum girassol celestial a seguir a luz do teu olhar
Cruzando os tempos e distâncias imemoriais apenas na esperança
De rever teu sorriso pleno de mansidão confiada na minha fidelidade
Que já não inventa significados adversos por cada nome que repetes.
Mesmo que às vezes dê comigo a esbracejar enredos prò teu silêncio
Receios nebulosos nos dentritos aferentes dos axiomas da insegurança
Da angústia de não poder despir a molécula do destino com a língua solta
Obrigar as sinapses ao strip-tease profundo da história da espécie
Tecer com elas a malha, a teia, a rede, a cama elástica, o trapézio
Onde as hipérboles e elipses helicoidais do futuro nos balançam...
Ainda que sôfrego consuma cada segundo apressando a tua chegada
Hei-de ser-te fiel até à voz do restolho nas estepes
Quando sussurra seu grito estaladiço sob os pés
E nus desvendam o segredo da raiz na morte inerte
Ali sucumbido ao impudor escaldante do sol abrasador
Aquecerei meu sangue como lagarto na laje dos morouços
A absorver sequioso o secreto sigilo de teus sonhos e gestos.
Indubitavelmente. Ali... Fiel até às palavras que nunca me dirás!
8.02.2005
E = mc2
Primeiro Andamento
As botas rangem – maruja lá fora
O gesto repentino da criança rufia –
E mais, mais ainda que as botas
Os homens crescem, crescem andando.
Os homens batem, marcham, rangem
Proferem que é botas partindo...
Exijo-me soletração calçada
( Ainda não morreram os preconceitos! )
Plástica evasiva de caminhar cabisbaixo
: Se é assim que se esvaem os pesadelos...
Ontem, à mesma hora de hoje,
Ouvi dizer a um companheiro:
“ Nasci agora três vezes... Três! E é fantástico...
Nem por isso me sinto fatigado! “
HÁ PESSOAS CAPAZES DE TUDO.
As botas rangem ( raque, raque, raque
Raque ), como uma coisa a perguntar-nos:
Quantos restam ainda? Quantos restam ainda?
Quantos restam ainda? Quantos restam ainda?
Segundo Andamento
Tu: Tu és um criminoso!
O teu crime é trabalhares
Mais que o necessário,
E permitires que o lucro que dás
O teu suor, o teu esforço
O teu tempo, o teu sangue
A tua fome, a tua mão
Sejam usados contra o teu companheiro
Homem da mesma fábrica
Homem do mesmo escritório
Homem da mesma repartição
Homem do mesmo campo
Homem do mesmo mar
Homem do mesmo Homem.
Tu: Tu és um criminoso!
Temer é medrar. Engorda,
Engorda em ti o canibal antigo,
O teu gesto de indiferente.
Tu: Tu és um criminoso!
E o teu crime evidente,
O mais de entre os mais que todos,
É dar a título de imposto
O teu voto, o teu trabalho
O valor acrescentado, a quota fiscal
Com que a tirania dos fundamentalismos te
Prende
Mata
Exila
E há-de comprar
Fazer
Usar
Inventar
Alugar
Distribuir, o armamento ideal
Com que possa repetir Hiroximas
Cubas
Líbanos
Angolas
Áfricas do sul
Argentinas
Leninegrados
Jugoslávias
Timores
Moçambiques
Haitis
Iraques
São Salvadores
Sem conto nem fim...
Tu: Tu és um criminoso!
E o teu crime perfeito
É a mentira do teu voto
E o voto da tua mentira
Onde te trocas, meia dose de angústia
Disfarçada
Hondtorizada
Calibrada
E premeditada.
Tu: Tu és um criminoso!
E o teu crime ímpar
É o gesto de morte da baleia do mar do norte.
Tu: Tu és um criminoso!
E é inegável o teu crime
Naquela barriga sobressaída
Naquela ruga precoce
Naquela praia poluída
Naquela flor murchada
Naquela jovem violada
Naquela casa desabitada
Naquela robusta lápide
Onde se inscrevem as saudades mais imediatas.
Tu: Tu és um criminoso!
Nunca a indiferença o foi mais
Que isso
Por isso
Inscrita como epígrafe de nós.
Terceiro Andamento
Foi promulgado, de imprevisto
E ninguém quis acreditar, por si só:
“ Aos vinte dias do mês de ontem, a morte morreu. “
Mas nós estávamos lá
E usámos o refrão:
A morte é morta.
E então foi verdade,
E corremos pelos campos
À procura dos campos
Dos campos.
E então foi verdade,
E corremos pelas fábricas
À procura das fábricas
Das fábricas.
E então foi verdade,
E corremos pelos mares
À procura dos mares
Doutros mares.
E então foi verdade,
E corremos na multidão
À procura de cada nós
Em cada um.
E então foi verdade,
E corremos na ousadia
À procura da aurora
À procura do novo dia.
E então foi verdade,
E corremos na verdade
À procura da procura
Em busca de nós.
E então não foi mentira!
Nenhuma. Mesmo a sós.
AUTO DA VISITAÇÃO
1.
Chiam travões, bate uma porta
E a tarde perde a calma monótona.
A mosca abandona a migalha sobre a mesa;
Há ainda a bolsa do casqueiro
A corna das azeitonas
Um pichel destapado
Uma rodilha sobre o oleado
Um corcho de cortiça
Um cântaro com a asa partida.
« Quem será? » ... os patrões foram a banhos,
O gado está no curral,
O carteiro já veio esta semana.
A terra não pode com amanhos,
As searas foram vendidas;
Crescem olhos tamanhos – quem será??
2.
Ressalva-a, emenda a voz
Estende os braços ao rés do tempo
Ao degrau da entrada, à sombra
Do umbral a moldura faz.
Pestaneja quando eu chegar!
Diz do trigo a colheita sólida
Do fruto a amora brava,
O suco revertendo do olhar,
Posto lá na linha da planície
Mais perto do mar do céu
Que barcos sonhos navegam
Na desvendação do futuro.
Deixa uma calça arregaçada sobre
As fivelas de couro com sola de pneu
O boné dependurado do trinco;
A porta a esconder-se na penumbra.
À telefonia... Essa, que soe baixo
Que a hora é de sesta.
Tem para mim um sorriso
De quem percebe porquê o sol
Tão quente, a fralda de fora.
Depois enxota uma mosca
Enrola um cigarro
E volta a entrar como se nada fosse...
« Maria!?! É o teu filho que chegou.
Partimos a melancia maior!! »
FOLGA DO GANHÃO
( Despique, à janela do moinho )
Medir-te-ei a alma
Dê bem ou mal medida
Pois gela quem acalma
E cede com medo à vida
Ela:
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr
Lide eu só de domar
Áleas de milhos meados
Que mesmo assim o semear
Me tomará braços suados
Ela:
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr
No doce e no alimento
No mel, lameiro e eira
Iluminai e dai-me alento
Sê como a lei primeira
Ela:
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr
* * *
Nos lemes há sal e prata
Nos campos lume pedra e pó
Mas sei que o tempo trata
Mui pior quem canta só
Ele:
Com o tempo qu’inda temos
Bem podias um favor
Malha e sega humilde
Vira a leiva no sopé
Cresta mel, colhe vide
Que serás como quem é
Ele:
Com o tempo qu’inda temos
Bem podias um favor
Cresce a flor anainha
No pousio ou seara fútil
Mas se não for regada
Fica pequena e inútil
Ele e ela:
Inda mal nos conhecemos
Já me aparto com dor
Inda mal nos conhecemos
Já me aparto com dor
PERFUME DE RECORDAR
“ Il ne reste que moi qui ne suis pas à vendre
Alors tu es passée et je me suis donné
A toi
Pour rien “
( À VENDRE, de Léo Ferré )
No baralho do universo os naipes são Deus, Homem, Natureza e o trunfo é sonho.
Mas nós acima de tudo somos gesto, ombros só quase...
Coisas que carregam anos infinitos
Extensões de lábios que não se uniram
E ninguém!, ninguém!, quando estamos abraçados
É capaz de dizer qual é o macho e qual é a fêmea.
Um poema que se não dá é um cadáver!
Isto são actos que se podem cometer, uns aos outros
Num só dia. No entanto eu, eu que sou memória e gesto e celebração
Eu! Eu, que em calhando é o que é, nada
Mais: Eu, lúdico jogador de empréstimo
( Como no futebol ), levei anos e anos
A desvendar-lhe a saturação e a polpa.
Oh, podemos acontecer...
Oh, podemos acontecer...
Por isso não irão usar-me como trampolim para alcançarem o que querem
( Os trampolins também sabem saltar... )
Porque o amor embora se não saiba o que em verdade é
E o ar, sente-se-lhes sempre a falta
E se prefere este total, ao bacanal
Ao de todos o seu igual, pois é preciso recarregar as baterias
Já que o XXI vai ser enérgica e pedagogicamente mais escrupuloso!
Um poema que se não dá é um cadáver...
Já todos sabem... Já todos viram os abutres voar...
E o nevoeiro de Outono?... – Está frio amiga... Tanto! Tanto!
E tu tão longe... – E chuvisca.
Está frio, amiga – e deste pranto
A mão aconchega a gola da pelica
E o Eu colo-me às paredes brancas e frias
Com a esperança de que cá estejas um destes dias...
( Um poema que se não dá é um cadáver! )
Oh, podemos acontecer...
Oh, podemos acontecer...
O suicídio é um Outono que não chega a Inverno.
Esquecemos o nosso cadáver na gaveta da Primavera
E agora surpreendemo-nos ao compreender que está frio...
Se pelo menos o nosso cadáver nos acompanhasse!...
É o conforto de estarmos sós... Podemos adormecer.
Oh, podemos adormecer...
Oh, podemos acontecer...
Oh, podemos ser perfume!...
DOS GATOS
“ O amor de um pelo outro é como uma extensa sombra
que se beija, sem qualquer esperança de realidade. “
Anais Nin, in A Casa do Incesto
Havia naquela tarde uma luz insuportável
E escorriam dos muros e árvores líquidos viscosos
E os caminhos terminavam sempre antes do fim
E eu e tu não nos entendíamos, sós
Como um pomar abandonado e os lagartos e as aranhas a correr por entre as folhas
mortas,
E também não nos queríamos entender
Porque havia naquela tarde uma luz insuportável.
Havia naquela tarde um cheiro fétido e nojento
E os homens passavam carrancudos e arrepanhados
E chiavam as rodas das carretas de madeira e bois de tela
E ouviam-se sinos vindos de muito longe,
E o vento soprava contínuo e frio e cru
E nós tínhamos medos nos olhos e não nos víamos
Porque tínhamos receio que nos lêssemos a vontade assassina,
Pois havia naquela tarde um cheiro fétido e nojento.
Havia naquela tarde um velho e uma lanterna
E nós queríamos a tarde para o velho,
E o velho não queria a tarde porque a tarde era dele.
Havia naquela tarde o troar da tempestade
E nós envelhecíamos sem dar conta anos sem medida
E confundíamo-nos com verde-escuro das folhas
E a nossa pele era como as cascas dos carvalhos
E os nossos pés estavam gretados e o chão também
E os nossos pêlos pareciam musgo outonal
E os nossos dedos foram trôpegos e frios
Porque havia naquela tarde o troar da tempestade.
Havia naquela tarde um bordão e uma trouxa abandonada
E nos regatos passavam sapatos velhos de criança
E as mães andavam vestidas de negro com as caras tapadas
E a água fazia rum-tchac, rum-tchac
E batiam as folhas nas folhas dos carvalhos e as cancelas
E as vozes tremiam mas os ecos nnãããoooooooo,
E a catedral era de madeira ardida e escura
Pois havia naquela tarde um bordão e uma trouxa abandonada.
Havia naquela tarde um gato negro-cinzento miando
Pardo no cocuruto dum muro cinzento-negro
E nós queríamos a tarde para o gato
Mas o gato não queria a tarde porque a tarde era dele.
Havia naquela tarde um quá-quá dos patos
E nas traseiras das casas a roupa debatia-se e contorcia-se
Como se tivesse gente mole dentro dela,
E as salamandras subiam aos alpendres,
E os sapos passeavam nos canteiros
E as flores estavam todas fechadas
E as nossas mãos não queriam tocar-se
E nós queríamos dar a tarde às nossas mãos
Mas as nossas mãos não queriam a tarde
Porque as nossas mãos sabiam que a tarde era delas.
Havia naquela tarde dentes escarnados
E compridos e caninos
E as nossas mãos nunca taparam os orifícios bucais
E nós tínhamos que ver os dentes grandes
Escarnados, amarelentos, com coroas negras sobre o sangue das gengivas
E nós queríamos ver a tarde
Porque ela era a nossa tarde
E por isso nós queríamos a tarde porque ela era nossa.
Nossa,
Como o ronronar é dos gatos.
2.
Soubemos que vinhas de longe
Do lado de lá de Mitilene
E que ainda proferes as estrofes de Safo
E quisemos honrar-te com a nossa presença.
É a tua chegada!
Bem-vindas sejam as que acreditam no seu ventre frutuoso!
Bem-vindas sejam as que querem partir para lá do lá!
Bem-vindas!
Soubemos que gostavas de ouvir cantar
E por isso entoámos murmúrios dulciquentes
E assim quisemos beijar-te na madrugada da madrugada
Da tua chegada.
Bem-vindas sejam as que ainda querem gritar o seu encanto!
Bem-vindas sejam as que sabem regressar para partir!
Bem-vindas!
Soubemos que guardas a imagem do último espelho
E que fremes incestuosamente leda.
E por isso convidámos os mais belos espectros
E por isso convocámos os druidas mais românticos
E por isso ilibámos cada fada e prostituta
E por isso entregámos as salvas de prata
E por isso depusemos os lençóis de cetim
E por isso quisemos celebrar a festa do teu corpo.
Bem-vindas sejam as que ainda celebram o gesto!
Bem-vindas sejam as que ainda ensaiam o grito!
Bem-vindas!
Soubemos que o inferno é cruel como a menstruação.
Soubemos que a progesterona fere como o ácido.
Soubemos que andas no mundo para obter prazer
E nuvens polvilhadas de afrodites.
Por isso deixámos a sopa a cozer
E os martelos da fábrica
E os programas lectivos
E a mesa do café
E o volante da camioneta
E os ficheiros de clientes
E as reuniões episcopais
E os partidos constitucionais
E os desafios de futebol
Para te vir receber.
Bem-vindas sejam as que se conhecem e entendem!
Bem-vindas sejam as que sabem assentar o calcanhar no chão!
Bem-vindas sejam as que parem alegria!
Bem-vindas!
Ao contrário do cisne
Soubemos que cantas melhor quando chegas.
Seremos teus jograis e amanuenses
E imunes ao movimento da clepsidra
Entraremos de mãos dadas triunfantes
Na cidade de cristal onde a felicidade é inútil
Porque sabe que ninguém deseja aquilo que já tem
Ou porque não quer viver paredes meias com o bem-estar e prazer.
E por isso reunimos todos os tempos à volta do tempo
E teremos bem vincado em nossos rostos
Que todos os dias são o primeiro dia
Que todas as vezes serão a primeira vez
Que todos os amores são o primeiro amor
Que todos os gestos são o primeiro gesto
Que todos os olhos são os primeiros olhos
Que todos os lábios são os primeiros lábios
Que todos os beijos são a primeira palavra
E que essa é o corpo da festa originária.
Soubemos que gostas de amoras e uvas orvalhadas...
Bem-vindas sejam as que sabem adaptar o corpo às estações
Ano a ano e comer ( amar ) o f(r)uto(uro) da colheita!
Bem-vindas!
Bem-vindas as que abandonaram a coprofagia
E se repastam com o corpo de seus corpos!
Bem-vindas!
Soubemos que gostavas de te ver nascer
De ti própria em grito selvagem.
E por isso plantámos estes lagos puros e limpos
Para que nos bebesses enquanto te acariciávamos os seios
E onde podes entrar como em fruto maduro e suculento
De caroço e realidade!
Bem-vindas as que sabem rodear-nos com sua língua de pétalas de rosa vermelha
E ousam investir o íman incestuoso do corpo!
Bem-vindas as que não mitigam!
Bem-vindas!
SOLAR 21
1.
Janelas cerradas. Mesmo assim.
Gostava de ser aquela partícula
Gostava de ser aquela faúlha
Gostava de ser aquele arlequim
Gostava de andar no sopro do vento
E sonho lá fora.
Causa vertigens cortar palavras
Desflorar janelas
Entrar nos vestidos colegiais
E esquecer o regresso.
A lareira arrefece a memória.
O reverso está riscado,
E as metonímias são aspas.
Se o semítico fosse investidor
( O touro gosta de grandes planos
Em todos os filmes a preto e branco )
Abria uma agência de viagens;
Uma sucursal do sonho.
E se entrássemos prò poema...?
Pomos a mesa junto ao fogo
Damos cartas, e jogamos pragmática
Como bons velhos reformados que somos.
“ Sem parceiros! Cada um para si.
Dobrem as apostas: é finados. “
O ás é rei e trunfo.
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
“ Meta mais cem “
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
“ Queres desforra? “
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pib-pi-pi-pib-pi
Pi-pi-pi-pi-pi-pi-pib
Pi-pi-pib-pi-pib-pi
Pi-pi-pib-pi-pi-pib
Pib-pi-pi-pi-pi-pi-pi
Pi-pib-pi-pi-pi-pi-pi-piiiiii...
Sincopada a moral cai
Neve néon sobre a zebra:
A sintaxe está certa quando a semântica
Semantica, e o justifica:
O nosso anacoluto é existir –
Outro hiato a que nos permitimos.
A caserna da puberdade está lotada;
Os cabelos desalinhados, húmidos
São mãos aflitas que vagam.
Por exemplo, temos o v. g. que ainda não chegou
Embora tenha combinado desta trazer bom produto
Para despirmos no jardim fronteiro
( Os alfandegários... Sempre os judiciários!... )
Enquanto sorvemos a lareira que ex-pira.
Há restos na cozinha e os livros repastam-se livres,
Porque os dias ronronam ao borralho;
Antes de o serão findar
( Os fantasmas têm que regressar antes da aurora )
Aglutinaremos o texto injectando sangue de salamandra
E entoaremos hinos ciprianos.
2.
Nesta reescrição há um tempo corrupto
E um modo de estar sem ser:
Faz-se manhã porque é morta a madrugada:
Cada coisa é a sua própria regra transformacional.
É, a cada um, lícito, agora dizer:
Tu és a minha morte que sou a tua –
Assim por diante, numa sequência infinita
Até ao ser saído do caldo oceânico, que é o fim de anteriores formas.
Após a última partida de Whist,
Soprados os lampiões e abotoados os capotes
Passaram pelas mentes imagens senis
Vindas de retinas com amplo diferencial correlativo,
Morreram todos os adjectivos que eram próprios
E os nomes repudiaram os seus verbos
E as coisas perderam o seu número e qualidade
E tudo foi sombra duma sombra,
Que é a quantidade mais imediata.
Abriram-se as janelas, e as cadeiras ficaram na mesma:
Mais tarde – soube-se – vaporosos vestidos posaram, ocos
E o pintor desembainhou a honra.
VIRGEM ESTÁTUA VIVA
( Óleo impressionista de rapariga subindo a escadaria de entrada duma
Escola Secundária, a fim de ir fazer exames. )
Nos degraus das escadas os olhos postos
Sobem lestos e azulíneos através dos rostos
Cínzeos de bronze e pedra lacerados cedo.
Tão de repente demasiados dos sustos
Há órbitas sôfregas em ausentes custos
E rangem os granitos sob os pés do medo.
Fitam-se ângulos rasantes à íngreme escalada
Horizontes tangentes chocando estrelas no vértice
Só de humano nos esgares perpendiculares da escada.
Raios disparam-se em traços de ícones formas em hélice
Ferindo plásticas portas encimando telas
Feitas das lonas tostadas nos mastros das velas.
Fendem-se os gestos no cinzento dos gritos!
Gemem lágrimas dos ângulos aflitos!
Gladiam-se os exteriores em espólia conquista.
Esvoaçam tecidos frémitos adolescentes; crista
De onda em plúmbeo orgasmo de atritos!...
NAMORO
Há sempre livros possíveis
Entre nossas mãos
Um sorriso jovial, um beijo
Roubado sou quando me lembras
Distante.
Podia minha voz sussurrar-te
A distância transponível
A minha cabeça entre teu colo?
Mas há sempre um MAS
Que a vida tece
Com as linhas que nos pede emprestadas
E tu não me escutas, nem eu repouso...
Por isso, nas horas vagas
Em que me alinhavo e descoso
Continuamente visando o mar e as vagas
Em que vou e venho
Um rumo me impele, e ouso...
E sonho...
... E tenho.
Primeiro Andamento
As botas rangem – maruja lá fora
O gesto repentino da criança rufia –
E mais, mais ainda que as botas
Os homens crescem, crescem andando.
Os homens batem, marcham, rangem
Proferem que é botas partindo...
Exijo-me soletração calçada
( Ainda não morreram os preconceitos! )
Plástica evasiva de caminhar cabisbaixo
: Se é assim que se esvaem os pesadelos...
Ontem, à mesma hora de hoje,
Ouvi dizer a um companheiro:
“ Nasci agora três vezes... Três! E é fantástico...
Nem por isso me sinto fatigado! “
HÁ PESSOAS CAPAZES DE TUDO.
As botas rangem ( raque, raque, raque
Raque ), como uma coisa a perguntar-nos:
Quantos restam ainda? Quantos restam ainda?
Quantos restam ainda? Quantos restam ainda?
Segundo Andamento
Tu: Tu és um criminoso!
O teu crime é trabalhares
Mais que o necessário,
E permitires que o lucro que dás
O teu suor, o teu esforço
O teu tempo, o teu sangue
A tua fome, a tua mão
Sejam usados contra o teu companheiro
Homem da mesma fábrica
Homem do mesmo escritório
Homem da mesma repartição
Homem do mesmo campo
Homem do mesmo mar
Homem do mesmo Homem.
Tu: Tu és um criminoso!
Temer é medrar. Engorda,
Engorda em ti o canibal antigo,
O teu gesto de indiferente.
Tu: Tu és um criminoso!
E o teu crime evidente,
O mais de entre os mais que todos,
É dar a título de imposto
O teu voto, o teu trabalho
O valor acrescentado, a quota fiscal
Com que a tirania dos fundamentalismos te
Prende
Mata
Exila
E há-de comprar
Fazer
Usar
Inventar
Alugar
Distribuir, o armamento ideal
Com que possa repetir Hiroximas
Cubas
Líbanos
Angolas
Áfricas do sul
Argentinas
Leninegrados
Jugoslávias
Timores
Moçambiques
Haitis
Iraques
São Salvadores
Sem conto nem fim...
Tu: Tu és um criminoso!
E o teu crime perfeito
É a mentira do teu voto
E o voto da tua mentira
Onde te trocas, meia dose de angústia
Disfarçada
Hondtorizada
Calibrada
E premeditada.
Tu: Tu és um criminoso!
E o teu crime ímpar
É o gesto de morte da baleia do mar do norte.
Tu: Tu és um criminoso!
E é inegável o teu crime
Naquela barriga sobressaída
Naquela ruga precoce
Naquela praia poluída
Naquela flor murchada
Naquela jovem violada
Naquela casa desabitada
Naquela robusta lápide
Onde se inscrevem as saudades mais imediatas.
Tu: Tu és um criminoso!
Nunca a indiferença o foi mais
Que isso
Por isso
Inscrita como epígrafe de nós.
Terceiro Andamento
Foi promulgado, de imprevisto
E ninguém quis acreditar, por si só:
“ Aos vinte dias do mês de ontem, a morte morreu. “
Mas nós estávamos lá
E usámos o refrão:
A morte é morta.
E então foi verdade,
E corremos pelos campos
À procura dos campos
Dos campos.
E então foi verdade,
E corremos pelas fábricas
À procura das fábricas
Das fábricas.
E então foi verdade,
E corremos pelos mares
À procura dos mares
Doutros mares.
E então foi verdade,
E corremos na multidão
À procura de cada nós
Em cada um.
E então foi verdade,
E corremos na ousadia
À procura da aurora
À procura do novo dia.
E então foi verdade,
E corremos na verdade
À procura da procura
Em busca de nós.
E então não foi mentira!
Nenhuma. Mesmo a sós.
AUTO DA VISITAÇÃO
1.
Chiam travões, bate uma porta
E a tarde perde a calma monótona.
A mosca abandona a migalha sobre a mesa;
Há ainda a bolsa do casqueiro
A corna das azeitonas
Um pichel destapado
Uma rodilha sobre o oleado
Um corcho de cortiça
Um cântaro com a asa partida.
« Quem será? » ... os patrões foram a banhos,
O gado está no curral,
O carteiro já veio esta semana.
A terra não pode com amanhos,
As searas foram vendidas;
Crescem olhos tamanhos – quem será??
2.
Ressalva-a, emenda a voz
Estende os braços ao rés do tempo
Ao degrau da entrada, à sombra
Do umbral a moldura faz.
Pestaneja quando eu chegar!
Diz do trigo a colheita sólida
Do fruto a amora brava,
O suco revertendo do olhar,
Posto lá na linha da planície
Mais perto do mar do céu
Que barcos sonhos navegam
Na desvendação do futuro.
Deixa uma calça arregaçada sobre
As fivelas de couro com sola de pneu
O boné dependurado do trinco;
A porta a esconder-se na penumbra.
À telefonia... Essa, que soe baixo
Que a hora é de sesta.
Tem para mim um sorriso
De quem percebe porquê o sol
Tão quente, a fralda de fora.
Depois enxota uma mosca
Enrola um cigarro
E volta a entrar como se nada fosse...
« Maria!?! É o teu filho que chegou.
Partimos a melancia maior!! »
FOLGA DO GANHÃO
( Despique, à janela do moinho )
Medir-te-ei a alma
Dê bem ou mal medida
Pois gela quem acalma
E cede com medo à vida
Ela:
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr
Lide eu só de domar
Áleas de milhos meados
Que mesmo assim o semear
Me tomará braços suados
Ela:
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr
No doce e no alimento
No mel, lameiro e eira
Iluminai e dai-me alento
Sê como a lei primeira
Ela:
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr
* * *
Nos lemes há sal e prata
Nos campos lume pedra e pó
Mas sei que o tempo trata
Mui pior quem canta só
Ele:
Com o tempo qu’inda temos
Bem podias um favor
Malha e sega humilde
Vira a leiva no sopé
Cresta mel, colhe vide
Que serás como quem é
Ele:
Com o tempo qu’inda temos
Bem podias um favor
Cresce a flor anainha
No pousio ou seara fútil
Mas se não for regada
Fica pequena e inútil
Ele e ela:
Inda mal nos conhecemos
Já me aparto com dor
Inda mal nos conhecemos
Já me aparto com dor
PERFUME DE RECORDAR
“ Il ne reste que moi qui ne suis pas à vendre
Alors tu es passée et je me suis donné
A toi
Pour rien “
( À VENDRE, de Léo Ferré )
No baralho do universo os naipes são Deus, Homem, Natureza e o trunfo é sonho.
Mas nós acima de tudo somos gesto, ombros só quase...
Coisas que carregam anos infinitos
Extensões de lábios que não se uniram
E ninguém!, ninguém!, quando estamos abraçados
É capaz de dizer qual é o macho e qual é a fêmea.
Um poema que se não dá é um cadáver!
Isto são actos que se podem cometer, uns aos outros
Num só dia. No entanto eu, eu que sou memória e gesto e celebração
Eu! Eu, que em calhando é o que é, nada
Mais: Eu, lúdico jogador de empréstimo
( Como no futebol ), levei anos e anos
A desvendar-lhe a saturação e a polpa.
Oh, podemos acontecer...
Oh, podemos acontecer...
Por isso não irão usar-me como trampolim para alcançarem o que querem
( Os trampolins também sabem saltar... )
Porque o amor embora se não saiba o que em verdade é
E o ar, sente-se-lhes sempre a falta
E se prefere este total, ao bacanal
Ao de todos o seu igual, pois é preciso recarregar as baterias
Já que o XXI vai ser enérgica e pedagogicamente mais escrupuloso!
Um poema que se não dá é um cadáver...
Já todos sabem... Já todos viram os abutres voar...
E o nevoeiro de Outono?... – Está frio amiga... Tanto! Tanto!
E tu tão longe... – E chuvisca.
Está frio, amiga – e deste pranto
A mão aconchega a gola da pelica
E o Eu colo-me às paredes brancas e frias
Com a esperança de que cá estejas um destes dias...
( Um poema que se não dá é um cadáver! )
Oh, podemos acontecer...
Oh, podemos acontecer...
O suicídio é um Outono que não chega a Inverno.
Esquecemos o nosso cadáver na gaveta da Primavera
E agora surpreendemo-nos ao compreender que está frio...
Se pelo menos o nosso cadáver nos acompanhasse!...
É o conforto de estarmos sós... Podemos adormecer.
Oh, podemos adormecer...
Oh, podemos acontecer...
Oh, podemos ser perfume!...
DOS GATOS
“ O amor de um pelo outro é como uma extensa sombra
que se beija, sem qualquer esperança de realidade. “
Anais Nin, in A Casa do Incesto
Havia naquela tarde uma luz insuportável
E escorriam dos muros e árvores líquidos viscosos
E os caminhos terminavam sempre antes do fim
E eu e tu não nos entendíamos, sós
Como um pomar abandonado e os lagartos e as aranhas a correr por entre as folhas
mortas,
E também não nos queríamos entender
Porque havia naquela tarde uma luz insuportável.
Havia naquela tarde um cheiro fétido e nojento
E os homens passavam carrancudos e arrepanhados
E chiavam as rodas das carretas de madeira e bois de tela
E ouviam-se sinos vindos de muito longe,
E o vento soprava contínuo e frio e cru
E nós tínhamos medos nos olhos e não nos víamos
Porque tínhamos receio que nos lêssemos a vontade assassina,
Pois havia naquela tarde um cheiro fétido e nojento.
Havia naquela tarde um velho e uma lanterna
E nós queríamos a tarde para o velho,
E o velho não queria a tarde porque a tarde era dele.
Havia naquela tarde o troar da tempestade
E nós envelhecíamos sem dar conta anos sem medida
E confundíamo-nos com verde-escuro das folhas
E a nossa pele era como as cascas dos carvalhos
E os nossos pés estavam gretados e o chão também
E os nossos pêlos pareciam musgo outonal
E os nossos dedos foram trôpegos e frios
Porque havia naquela tarde o troar da tempestade.
Havia naquela tarde um bordão e uma trouxa abandonada
E nos regatos passavam sapatos velhos de criança
E as mães andavam vestidas de negro com as caras tapadas
E a água fazia rum-tchac, rum-tchac
E batiam as folhas nas folhas dos carvalhos e as cancelas
E as vozes tremiam mas os ecos nnãããoooooooo,
E a catedral era de madeira ardida e escura
Pois havia naquela tarde um bordão e uma trouxa abandonada.
Havia naquela tarde um gato negro-cinzento miando
Pardo no cocuruto dum muro cinzento-negro
E nós queríamos a tarde para o gato
Mas o gato não queria a tarde porque a tarde era dele.
Havia naquela tarde um quá-quá dos patos
E nas traseiras das casas a roupa debatia-se e contorcia-se
Como se tivesse gente mole dentro dela,
E as salamandras subiam aos alpendres,
E os sapos passeavam nos canteiros
E as flores estavam todas fechadas
E as nossas mãos não queriam tocar-se
E nós queríamos dar a tarde às nossas mãos
Mas as nossas mãos não queriam a tarde
Porque as nossas mãos sabiam que a tarde era delas.
Havia naquela tarde dentes escarnados
E compridos e caninos
E as nossas mãos nunca taparam os orifícios bucais
E nós tínhamos que ver os dentes grandes
Escarnados, amarelentos, com coroas negras sobre o sangue das gengivas
E nós queríamos ver a tarde
Porque ela era a nossa tarde
E por isso nós queríamos a tarde porque ela era nossa.
Nossa,
Como o ronronar é dos gatos.
2.
Soubemos que vinhas de longe
Do lado de lá de Mitilene
E que ainda proferes as estrofes de Safo
E quisemos honrar-te com a nossa presença.
É a tua chegada!
Bem-vindas sejam as que acreditam no seu ventre frutuoso!
Bem-vindas sejam as que querem partir para lá do lá!
Bem-vindas!
Soubemos que gostavas de ouvir cantar
E por isso entoámos murmúrios dulciquentes
E assim quisemos beijar-te na madrugada da madrugada
Da tua chegada.
Bem-vindas sejam as que ainda querem gritar o seu encanto!
Bem-vindas sejam as que sabem regressar para partir!
Bem-vindas!
Soubemos que guardas a imagem do último espelho
E que fremes incestuosamente leda.
E por isso convidámos os mais belos espectros
E por isso convocámos os druidas mais românticos
E por isso ilibámos cada fada e prostituta
E por isso entregámos as salvas de prata
E por isso depusemos os lençóis de cetim
E por isso quisemos celebrar a festa do teu corpo.
Bem-vindas sejam as que ainda celebram o gesto!
Bem-vindas sejam as que ainda ensaiam o grito!
Bem-vindas!
Soubemos que o inferno é cruel como a menstruação.
Soubemos que a progesterona fere como o ácido.
Soubemos que andas no mundo para obter prazer
E nuvens polvilhadas de afrodites.
Por isso deixámos a sopa a cozer
E os martelos da fábrica
E os programas lectivos
E a mesa do café
E o volante da camioneta
E os ficheiros de clientes
E as reuniões episcopais
E os partidos constitucionais
E os desafios de futebol
Para te vir receber.
Bem-vindas sejam as que se conhecem e entendem!
Bem-vindas sejam as que sabem assentar o calcanhar no chão!
Bem-vindas sejam as que parem alegria!
Bem-vindas!
Ao contrário do cisne
Soubemos que cantas melhor quando chegas.
Seremos teus jograis e amanuenses
E imunes ao movimento da clepsidra
Entraremos de mãos dadas triunfantes
Na cidade de cristal onde a felicidade é inútil
Porque sabe que ninguém deseja aquilo que já tem
Ou porque não quer viver paredes meias com o bem-estar e prazer.
E por isso reunimos todos os tempos à volta do tempo
E teremos bem vincado em nossos rostos
Que todos os dias são o primeiro dia
Que todas as vezes serão a primeira vez
Que todos os amores são o primeiro amor
Que todos os gestos são o primeiro gesto
Que todos os olhos são os primeiros olhos
Que todos os lábios são os primeiros lábios
Que todos os beijos são a primeira palavra
E que essa é o corpo da festa originária.
Soubemos que gostas de amoras e uvas orvalhadas...
Bem-vindas sejam as que sabem adaptar o corpo às estações
Ano a ano e comer ( amar ) o f(r)uto(uro) da colheita!
Bem-vindas!
Bem-vindas as que abandonaram a coprofagia
E se repastam com o corpo de seus corpos!
Bem-vindas!
Soubemos que gostavas de te ver nascer
De ti própria em grito selvagem.
E por isso plantámos estes lagos puros e limpos
Para que nos bebesses enquanto te acariciávamos os seios
E onde podes entrar como em fruto maduro e suculento
De caroço e realidade!
Bem-vindas as que sabem rodear-nos com sua língua de pétalas de rosa vermelha
E ousam investir o íman incestuoso do corpo!
Bem-vindas as que não mitigam!
Bem-vindas!
SOLAR 21
1.
Janelas cerradas. Mesmo assim.
Gostava de ser aquela partícula
Gostava de ser aquela faúlha
Gostava de ser aquele arlequim
Gostava de andar no sopro do vento
E sonho lá fora.
Causa vertigens cortar palavras
Desflorar janelas
Entrar nos vestidos colegiais
E esquecer o regresso.
A lareira arrefece a memória.
O reverso está riscado,
E as metonímias são aspas.
Se o semítico fosse investidor
( O touro gosta de grandes planos
Em todos os filmes a preto e branco )
Abria uma agência de viagens;
Uma sucursal do sonho.
E se entrássemos prò poema...?
Pomos a mesa junto ao fogo
Damos cartas, e jogamos pragmática
Como bons velhos reformados que somos.
“ Sem parceiros! Cada um para si.
Dobrem as apostas: é finados. “
O ás é rei e trunfo.
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
“ Meta mais cem “
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
“ Queres desforra? “
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pib-pi-pi-pib-pi
Pi-pi-pi-pi-pi-pi-pib
Pi-pi-pib-pi-pib-pi
Pi-pi-pib-pi-pi-pib
Pib-pi-pi-pi-pi-pi-pi
Pi-pib-pi-pi-pi-pi-pi-piiiiii...
Sincopada a moral cai
Neve néon sobre a zebra:
A sintaxe está certa quando a semântica
Semantica, e o justifica:
O nosso anacoluto é existir –
Outro hiato a que nos permitimos.
A caserna da puberdade está lotada;
Os cabelos desalinhados, húmidos
São mãos aflitas que vagam.
Por exemplo, temos o v. g. que ainda não chegou
Embora tenha combinado desta trazer bom produto
Para despirmos no jardim fronteiro
( Os alfandegários... Sempre os judiciários!... )
Enquanto sorvemos a lareira que ex-pira.
Há restos na cozinha e os livros repastam-se livres,
Porque os dias ronronam ao borralho;
Antes de o serão findar
( Os fantasmas têm que regressar antes da aurora )
Aglutinaremos o texto injectando sangue de salamandra
E entoaremos hinos ciprianos.
2.
Nesta reescrição há um tempo corrupto
E um modo de estar sem ser:
Faz-se manhã porque é morta a madrugada:
Cada coisa é a sua própria regra transformacional.
É, a cada um, lícito, agora dizer:
Tu és a minha morte que sou a tua –
Assim por diante, numa sequência infinita
Até ao ser saído do caldo oceânico, que é o fim de anteriores formas.
Após a última partida de Whist,
Soprados os lampiões e abotoados os capotes
Passaram pelas mentes imagens senis
Vindas de retinas com amplo diferencial correlativo,
Morreram todos os adjectivos que eram próprios
E os nomes repudiaram os seus verbos
E as coisas perderam o seu número e qualidade
E tudo foi sombra duma sombra,
Que é a quantidade mais imediata.
Abriram-se as janelas, e as cadeiras ficaram na mesma:
Mais tarde – soube-se – vaporosos vestidos posaram, ocos
E o pintor desembainhou a honra.
VIRGEM ESTÁTUA VIVA
( Óleo impressionista de rapariga subindo a escadaria de entrada duma
Escola Secundária, a fim de ir fazer exames. )
Nos degraus das escadas os olhos postos
Sobem lestos e azulíneos através dos rostos
Cínzeos de bronze e pedra lacerados cedo.
Tão de repente demasiados dos sustos
Há órbitas sôfregas em ausentes custos
E rangem os granitos sob os pés do medo.
Fitam-se ângulos rasantes à íngreme escalada
Horizontes tangentes chocando estrelas no vértice
Só de humano nos esgares perpendiculares da escada.
Raios disparam-se em traços de ícones formas em hélice
Ferindo plásticas portas encimando telas
Feitas das lonas tostadas nos mastros das velas.
Fendem-se os gestos no cinzento dos gritos!
Gemem lágrimas dos ângulos aflitos!
Gladiam-se os exteriores em espólia conquista.
Esvoaçam tecidos frémitos adolescentes; crista
De onda em plúmbeo orgasmo de atritos!...
NAMORO
Há sempre livros possíveis
Entre nossas mãos
Um sorriso jovial, um beijo
Roubado sou quando me lembras
Distante.
Podia minha voz sussurrar-te
A distância transponível
A minha cabeça entre teu colo?
Mas há sempre um MAS
Que a vida tece
Com as linhas que nos pede emprestadas
E tu não me escutas, nem eu repouso...
Por isso, nas horas vagas
Em que me alinhavo e descoso
Continuamente visando o mar e as vagas
Em que vou e venho
Um rumo me impele, e ouso...
E sonho...
... E tenho.
7.26.2005
EIS ANKH EIS
Gosto das palavras indizíveis por dizer
As que insubmissas e infiéis espartilham o homem
O atiram ao fundo de si mesmo sem qualquer significado
E lhe vociferam ou estilhaçam a alma solta em cada sílaba
Em cada estremeção da carne viva perante a impiedosa brisa
Essa igual que acaricia as frondes das acácias
Nos outeiros dispostos sob o acaso do olhar
Ali, interrompendo a linha do horizonte marchetado
Na paisagem dos dias sob a paleta das vozes íntimas.
São para ti na erosão corrosiva dos sentidos
Horas únicas ao resfolegar da planície seca e aberta
Ao grito do fogo posto de não estares presente, nó de Isis
Entre os seios no lúdico sustenido do coração ansioso
Longe mas desesperado de tão próximo, próximo aproximo
Os lábios e nele reponho meu beijo de sofreguidão perpétua.
Morrer para a eternidade é apenas um gesto, palavra
Dita sem eco a resvalar na curva apertada do tempo
Mas sucumbir ao ritmo do teu pulsar no convulso arquear
Do dorso e desferir a seta do desejo num disparo sem volta,
Eis igualmente como nos entregamos um ao outro e sós
Infinitamente sós renascemos do exíguo fio de prumo
Pendulando na fala inesgotável de dizer sempre o derradeiro
Lugar da história comum ao espaço-quando dos corpos jungidos
Que se aspiram e fundem num apenas um grito de liberdade
Disferida por mil sóis que nos rebentam no simultâneo da nuca.
Eis por que eis o porquê do laço que nos une sobre a cruz
Alicerçada no elo esfíngico de aglutinar o verbo inicial primaz
O que encerra todos os indizíveis ainda por dizer ou que ditos
Vogam na celestial aspereza da lonjura inominável – eis
O porquê de que por eis se manifesta presente dum futuro
Sem contorno definido está o nome, aquele que pronunciado
Invoca a eternidade perene e duradoura do sentimento
Que não desfalece e solto volta ao princípio dos princípios
Primordial como se a luz nascesse de si própria em si outra
Luz renovada essa de denunciar a paixão cometida do silêncio
Abrigo da voz ao ciciar do desejo incontornável do corpo
Aberto e pleno de entrega final sem parangonas desmedidas.
Porque épico é o abraço na distância de morder o tempo,
Abocanhar o laço de que a cruz é nó e sinal e sustento
Do sustenido inconstante de dizer-me Aqui, eis-me pronto
A receber-te plural na infinita agitação da espiral dissolvente
A que joga os pedaços de mim e de ti aspergindo o cosmos.
EIS! (in the sky with diamonds)
Gosto das palavras indizíveis por dizer
As que insubmissas e infiéis espartilham o homem
O atiram ao fundo de si mesmo sem qualquer significado
E lhe vociferam ou estilhaçam a alma solta em cada sílaba
Em cada estremeção da carne viva perante a impiedosa brisa
Essa igual que acaricia as frondes das acácias
Nos outeiros dispostos sob o acaso do olhar
Ali, interrompendo a linha do horizonte marchetado
Na paisagem dos dias sob a paleta das vozes íntimas.
São para ti na erosão corrosiva dos sentidos
Horas únicas ao resfolegar da planície seca e aberta
Ao grito do fogo posto de não estares presente, nó de Isis
Entre os seios no lúdico sustenido do coração ansioso
Longe mas desesperado de tão próximo, próximo aproximo
Os lábios e nele reponho meu beijo de sofreguidão perpétua.
Morrer para a eternidade é apenas um gesto, palavra
Dita sem eco a resvalar na curva apertada do tempo
Mas sucumbir ao ritmo do teu pulsar no convulso arquear
Do dorso e desferir a seta do desejo num disparo sem volta,
Eis igualmente como nos entregamos um ao outro e sós
Infinitamente sós renascemos do exíguo fio de prumo
Pendulando na fala inesgotável de dizer sempre o derradeiro
Lugar da história comum ao espaço-quando dos corpos jungidos
Que se aspiram e fundem num apenas um grito de liberdade
Disferida por mil sóis que nos rebentam no simultâneo da nuca.
Eis por que eis o porquê do laço que nos une sobre a cruz
Alicerçada no elo esfíngico de aglutinar o verbo inicial primaz
O que encerra todos os indizíveis ainda por dizer ou que ditos
Vogam na celestial aspereza da lonjura inominável – eis
O porquê de que por eis se manifesta presente dum futuro
Sem contorno definido está o nome, aquele que pronunciado
Invoca a eternidade perene e duradoura do sentimento
Que não desfalece e solto volta ao princípio dos princípios
Primordial como se a luz nascesse de si própria em si outra
Luz renovada essa de denunciar a paixão cometida do silêncio
Abrigo da voz ao ciciar do desejo incontornável do corpo
Aberto e pleno de entrega final sem parangonas desmedidas.
Porque épico é o abraço na distância de morder o tempo,
Abocanhar o laço de que a cruz é nó e sinal e sustento
Do sustenido inconstante de dizer-me Aqui, eis-me pronto
A receber-te plural na infinita agitação da espiral dissolvente
A que joga os pedaços de mim e de ti aspergindo o cosmos.
EIS! (in the sky with diamonds)
Subscrever:
Mensagens (Atom)
La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos
Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu
Arquivo do blogue
- ► 2019 (152)
- ► 2017 (160)
Links
- A Aliança
- A Cidade e as serras
- A Dobra do Grito
- A Espuma dos Dias
- A Sul
- A Vida Não É Um Sonho
- AMI
- Abrupto
- Ad-Extra
- Aldeia T
- Alentejanos de Todo o Mundo Uni-vos
- Alexandria à Gomes de cá
- Algarve Renovável
- Alguém Me Ouve
- Almocreve das Petas
- AmBio
- Amazónia
- Amigos do Botânico
- An Ordinary Girl
- Ante-Cinema
- Ao Sabor do Toque
- Astronomia 2009
- Aves de Portugal
- Azinheira Gate
- BEDE
- BIBLIOTECÁRIO DE BABEL
- Barros Bar
- Bea
- Bede
- Biblio
- BiblioWiki
- Bibliofeira
- Bibliofeira
- Biblioteca António Botto
- Biblioteca Digital
- Biblioteca Nacional
- Biblioteca Nacional Digital
- Biblioteca Nómada
- Biblioteca do IC
- Bibliotecas Portuguesas
- Bibliotecas Públicas Espanholas
- Bibliotecas-
- Bibliotecário de Babel
- Bibliotecários Sem Fronteiras
- Biodiversidade
- Biosfera
- Blog dos Profs
- Blogs em Bibliotecas
- Blogue de Letras
- Boneca de Porcelana
- Burricadas
- CEAI
- CFMC
- CIBERESCRITAS
- Cachimbo de Magritte
- Caderno de Paris
- Campo de Ideias
- Canil do daniel
- Cantinho das Aromáticas
- Canto do Leitor
- Capas
- Casa da Leitura
- Centenário da República
- Centro Nacional de Cultura
- Centro de Estudos Socialistas
- Cercal da Eira
- Ciberdúvidas
- Circos
- Citador
- Ciência Viva
- Clima 2008
- Clube de Jornalistas
- Coisas Simples e Pequenas
- Coisas da Cristina
- Coisitas do Vitorino
- Comer Peixe
- Cometas e estrelas
- Comissão Europeia Portuguesa
- Companha
- Conjugador de Verbos
- Crescer Com Saúde
- Crítica Literária
- Crónicas do Planalto
- Câmara Clara
- DAR
- Da Literatura
- Da Poesia
- Deixa Arder
- Depois do Desenvolvimento
- Devaneios
- Diagonal do Olhar
- Dias com Árvores
- Dicionário de termos Literários
- Diário da República
- Doce Mistério
- Dona Gata
- Dreams
- Ecologia Urbana
- Ecosfera
- Edit On Web
- Educação Ambiental na Net
- Ellenismos
- Ensayo Pessoa
- Escola Pública
- Escolhas de Sofia
- Escribalistas
- Espiritismo
- Estação Liberdade
- Estudio Raposa
- Eurocid
- Evolução da Espécie
- Extratexto
- Farol de Ideias
- Fauna do Cerrado
- Ferrus
- Ficção
- Floresta do Interior
- Folhas de Poesia
- Fongsoi
- Fonte de Letras
- Fotos da Natureza
- Fotos do Nick Brandt
- Fratal 67
- Frenesi
- Fundo Português do Carbono
- GOSGO
- Google News
- Governo
- Gulbenkian
- HSI
- Habitat Ecológico
- História universal
- IDP Democracia Portuguesa
- Ideotário
- Impressões Literárias
- Incrivelmente Perto
- Infografando
- Instituto Camões
- Jacques Brel
- Jornal das Freguesias
- José Saramago
- Justiça e Cidadania
- Justiça e Democracia
- Kampus de Ideias
- LER
- Leite de Pato
- Leitora Crítica
- Leoa Verde
- Linha de Pesca
- Literatura e-
- Livre Expressão
- Livros e Críticas
- Lumiarte
- Lusa
- Lusitânica
- Luso Borboletas
- Madeja de Palabras
- Malaposta
- Maldita Honey
- Manuela
- Maria Clara
- Missixty
- Movimento Perpétuo
- Movimento Rio Tinto
- Mundo Ecológico
- Mundo de Pessoa
- Mundo dos Golfinhos
- Mutações
- NICK BRANDT
- Nada Niente
- National Geographic
- Natura
- Nick Brandt
- Nobel Prize
- Notas e Apostillas
- Notícias de Castelo de Vide
- Nova Economia
- Nova Floresta
- O Bocas
- O Boomerang
- O Coiso
- O Currupião
- O Escribalista
- O Fingidor
- O Indigente
- O Janesista
- O Parcial
- O Silêncio dos Livros
- OIT
- OREE
- Objectiva Campo Maior
- Oficina de Poesia
- Olho Neles
- Omj
- Ondas 3
- Opinião Socialista
- Os Ribeirinhos
- Os Verdes
- Othersky
- POUS
- POUS Portalegre
- Palavra Criativa
- Pandora e Adrian
- Parlamento
- Parlamento Global
- Partido Pelos Animais
- Pedro Marques
- Per-Tempus
- Photo-a-Trois
- Photos e Scriptos
- Pimenta Negra
- Planeta Azul
- Planeta Azul
- Plano Nacional de Leitura
- Podolatria
- Poemas Diários
- Poesia Ilimitada
- Poesia Saiu à Rua
- Poesia de Gabriela Mistral
- Poesias e Prosas
- Ponto
- Ponto Cinza
- Por Mão Própria
- Por Um Mundo Melhor
- Porbase
- Porosidade Etérea
- Portal da Literatura
- Portal da Língua
- Portalegre On Line
- Português Exacto
- Presidência da República
- Projecto Gutenberg
- Projector do Sótão
- Putas Resolutas
- Pés de Gata
- Qualidade do Ar
- Queridas Bibliotecas
- Quintas Com Livros
- RELEITURAS
- Raquel
- Raízes
- Receitas da Lígia
- Reconstruir a Esperança
- Rede Cultural
- Releituras
- República Laica
- Reservas Naturais
- Retalhos de Leitura
- Revista Diplomática
- Revista Portuguesa
- Rio das Maçãs
- Robot Intergaláctico
- Rouge de Garance
- Rua Nove
- SEVE
- SOS Praia Azul
- SOS Vida
- Sais de Prata
- Sara
- Sara P
- Saumon
- Schmoo-Schmoo
- Schopenhauer
- Selvagens
- Seve
- Sinusite Crónica
- Sob Pressão Não Consigo
- Sociedade Civil
- Sombra Verde
- SonoPoesia
- Stand-Up
- Tempo das Cerejas
- Terra de Encanto
- Todas as Letras
- Tu Indecisa
- UALG
- UNESCO
- Umbigo
- Ursula
- Usina de Letras
- Utopia
- Verduras Factuais
- Verão Verde
- Viagens no Meu Sofá
- Viajarte
- Vida Involuntária
- Vida das Coisas
- Viver Literatura
- Walkyria
- Wild Wonders
- Wildlife
- Y2Y
- Zeariel
- e-cultura
- kARINA
- À Margem
- Árvores do Norte
Acerca de mim
- Joaquim Maria Castanho
- Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português