ONDE HÁ SEGREDO NÃO HÁ NADA
Não… o meu amor não me faz segredos!
Antes pelo contrário: tece com seus dedos
A malha doce e leve da transparência breve
Duma semifusa dedilhada à sombra da madrugada.
Não; não guardamos segredo nenhum um do outro
E até achamos que o nosso coração plural é o nosso único corpo
Todo, de alto a baixo, e o mais que ele durante os dias faz, desde pensar
A cagar, ou mesmo a lasciva preguiçosa que antecede as frequências
Naquele ângulo de rotação exacta ao rigor da latitude para qualquer longitude
Em que nos encontremos da cama morna e fofa das manhãs frias
Garantindo que nunca a mínima distância se concretize entre ambos.
Entre nós, o meu eu e o teu, não se fazem segredos
Porque passamos os dias a dizer-nos coisas:
Umas simples e apaziguadoras, outras complexas mas sempre unas
A fazerem stripetease no nariz, comichões perigosas e fatais
Que nos obrigam a espirrar atchins de verdade – e bem reais.
Por isso, quando as coisas são malditas, repetimo-las
Exaustivamente até caírem apodrecidas a nossos pés
Que nem frutos amadurecidos à força de apalpão de língua
Uma língua que pica e fere que nem agulhas bravas
Desertas de serem toureadas nas praças do cliché defunto.
A pingarem ciprestes como os cemitérios do degredo
Porque o amor em segredo, não é amor – é medo!
Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
3.17.2005
2.09.2005
UM MILHÃO DE SOLIDÕES
O camponês na cidade
fica desorientado:
mesmo as cabeças de gado
que guardava na herdade
do patrão
tinham mais sensibilidade
que a gente a correr que passa
e o afasta de empurrão.
Tantas casas, gente a rodos!
E o camponês às aranhas
para dizer «Bom dia» a todos...
Manuel Montez
1.
O povo corre em canais
como água que embebe a terra
dos campos do Faraó...
Gotinhas todas iguais,
umas menos, outras
mais, de bigode farfalhudo
ou c'uma perna bonita,
mas gotas
todas
iguais.
As mós dos arranha-céus
fabricam
co'a a voz dos Eus
concentrado de tomate.
2.
Nos autocarros à pinha
homens de boné e velhas
com papos
funcionários de jeans (RICA LEVI'S
- PARA VIVER LIVRE)
falam de ordenados
mensais
de recordações
as velhas fotografias
das férias esta
juventude está perdida.
3.
A cidade vive
cada vez mais gorda
os peões - zero
um, zero dois
- são já instrumentos
de precisão metálica.
Mas -
ALERTA À POPULAÇÃO ATENÇÃO
ATENÇÃO PARAFUSOS!... -
A guerra ainda
Não acabou:
algumas carcaças
ainda
r e s p i r a m.
4.
Fitamo-nos
eu e ele
ela e eu
na rua que rola
que nos arrasta
a subúrbios diferentes.
Os olhos pegam-se...
empedramos o rosto
e seguimos em frente.
Mas por detrás do véu
todos nós sabemos
que os olhos ficaram
com fome.
5.
Nunca nos tínhamos
visto antes,
mas saudámo-nos...
Graciosamente!
NA GRANDE FÁBRICA DO MUNDO
Na grande fábrica do mundo
toda a gente marca passo.
E a alma? A alma...
A alma é um boato virulento
da infame reacção; é coisa
que não existe,
proclama o século vinte e um
com razão: foram os engenheiros
que a levaram
à morte por asfixia.
Na grande fábrica do mundo
não há homens,
só formigas.
INCITAMENTO AO SONHO
Parece-me que ainda não acordei
do sonho da noite passada
mas vejo muito bem as pessoas
que falam de dinheiro e enfrentam a cidade
como gente ajuizada
deixando-se suavemente transportar
sobre carris nas vidas de segunda
classe
oh os malandros dos poetas que bebem
garrafas e garrafas de segundos
e apanham bebedeiras intangíveis
para os que olham a vida com
olhos assustados
tão receosos de cometer qualquer loucura
e ignoram o singular impulso de virar
a realidade de pantanas
porque eles só podem sonhar
enquanto ressonam
e não sabem que são vítimas
de uma grande conspiração
que os persuadiu sub-repticiamente
a viver só de noite um pouco
às vezes
e a sobreviver de dia e eles
já estão tão bem treinados que desligam
o canal da fantasia
logo ao primeiro toque
do despertador
mas os poetas esses
ninguém os consegue fazer parar de delirar
mesmo nas horas do expediente
e nunca prestam para os cargos
de responsabilidade
parece-me que ainda não acordei
do sonho da noite passada:
razão tinha o meu avô que já
há duzentos anos dizia
que se passavam estranhos fenómenos
de refracção na minha cabeça
e que nela se moviam roldanas
de mecanismos completamente inúteis
que não convinha pôr em marcha
de modo nenhum.
A doença dos poetas nem sequer
é altamente contagiosa
mas os afectados os afectados
esses começam a sofrer visões
de Santidade
e não conseguem nunca opor-se
ao avanço em tropel dos
desejos fortes galopantes:
oh, viajar por todo o mundo
e ser tudo! Os momentos
formidáveis de ser o D. Juan sonhado
o astronauta de chapéu de palha do asceta ideal
o rebelde perfeito
e arquitectar como o Jeová genésico
o mundo ao sabor da fantasia
ser o Touro
e o Leão
e o Homem e a Ave de Rapina
e o Equilíbrio sim
equilíbrio que era o que eu ainda
mais gostava porque sou um desequilibrado
um desequilibrado felizmente porque os outros
que já nascem com a balança certa
esses coitadinhos não se mexem.
Parece-me que ainda não acordei
do sonho da noite passada,
parece-me que ainda não acordei
do sonho da noite passada!
NO CAFÉ
Os meninos estão no café.
Os meninos já são
uns homenzinhos.
Conversam e riem
apreciam especialmente
contar anedotas
mas por vezes a língua
cansada recusa mover-se
e o vazio é tão "chato"!
E um menino levanta-se
e dá uma voltinha. Passados
alguns círculos de saudável
exercício dos sapatos
volta a descansar os pés fumegantes
enquanto coze a fogo lento
a férrea cadeira pintada.
E os sons sem alento
caem no chão sonolento
como húmida seradura.
É deles feito o papel
em que eu escrevo
palavras que soam
como a lixa do carpinteiro.
OS POETAS AGORA
Belas paisagens de campos verdes e dourados,
riachos, alces, árvores antigas
nos deu Poe,
Jack London mostrou-nos os lobos,
os gelos eternos, as terras selvagens
onde os peitos solitários podem respirar
enfim.
E as visões amadas que deles bebemos
são mais actuais que nunca:
mais vivas agora,
agora que sonhamos com a natureza
libertada;
agora que vemos a alucinação
do desejo profundo de um novo mundo
de puros traços;
agora que já não existem
para nosso deleite e elevação
da alma
nem rios azuis
nem vivendas Landor
senão para quem tem muito dinheiro;
nem bosques sagrados onde sábios
druidas façam os seus conciliábulos.
Agora que para pasto da
imaginação clorótica dos novos poetas
só existem plantações industriais
de batateiras alinhadas;
caixotes de lixo espalhados
pelos cantos das ruas transversais
de madrugada
céus enlutados de óxido de chumbo;
águas turvas onde flutua a trampa!
Bairros económicos de solidões caseiras!
E o espírito diz: Morte.
E o espirito avisa: Desolação.
E o espírito vê: Armagedon!
Mas, na esplanada amena,
veraneantes sorvem a sua Coca-Cola
despreocupada
mente.
Lúcio Castanho
O camponês na cidade
fica desorientado:
mesmo as cabeças de gado
que guardava na herdade
do patrão
tinham mais sensibilidade
que a gente a correr que passa
e o afasta de empurrão.
Tantas casas, gente a rodos!
E o camponês às aranhas
para dizer «Bom dia» a todos...
Manuel Montez
1.
O povo corre em canais
como água que embebe a terra
dos campos do Faraó...
Gotinhas todas iguais,
umas menos, outras
mais, de bigode farfalhudo
ou c'uma perna bonita,
mas gotas
todas
iguais.
As mós dos arranha-céus
fabricam
co'a a voz dos Eus
concentrado de tomate.
2.
Nos autocarros à pinha
homens de boné e velhas
com papos
funcionários de jeans (RICA LEVI'S
- PARA VIVER LIVRE)
falam de ordenados
mensais
de recordações
as velhas fotografias
das férias esta
juventude está perdida.
3.
A cidade vive
cada vez mais gorda
os peões - zero
um, zero dois
- são já instrumentos
de precisão metálica.
Mas -
ALERTA À POPULAÇÃO ATENÇÃO
ATENÇÃO PARAFUSOS!... -
A guerra ainda
Não acabou:
algumas carcaças
ainda
r e s p i r a m.
4.
Fitamo-nos
eu e ele
ela e eu
na rua que rola
que nos arrasta
a subúrbios diferentes.
Os olhos pegam-se...
empedramos o rosto
e seguimos em frente.
Mas por detrás do véu
todos nós sabemos
que os olhos ficaram
com fome.
5.
Nunca nos tínhamos
visto antes,
mas saudámo-nos...
Graciosamente!
NA GRANDE FÁBRICA DO MUNDO
Na grande fábrica do mundo
toda a gente marca passo.
E a alma? A alma...
A alma é um boato virulento
da infame reacção; é coisa
que não existe,
proclama o século vinte e um
com razão: foram os engenheiros
que a levaram
à morte por asfixia.
Na grande fábrica do mundo
não há homens,
só formigas.
INCITAMENTO AO SONHO
Parece-me que ainda não acordei
do sonho da noite passada
mas vejo muito bem as pessoas
que falam de dinheiro e enfrentam a cidade
como gente ajuizada
deixando-se suavemente transportar
sobre carris nas vidas de segunda
classe
oh os malandros dos poetas que bebem
garrafas e garrafas de segundos
e apanham bebedeiras intangíveis
para os que olham a vida com
olhos assustados
tão receosos de cometer qualquer loucura
e ignoram o singular impulso de virar
a realidade de pantanas
porque eles só podem sonhar
enquanto ressonam
e não sabem que são vítimas
de uma grande conspiração
que os persuadiu sub-repticiamente
a viver só de noite um pouco
às vezes
e a sobreviver de dia e eles
já estão tão bem treinados que desligam
o canal da fantasia
logo ao primeiro toque
do despertador
mas os poetas esses
ninguém os consegue fazer parar de delirar
mesmo nas horas do expediente
e nunca prestam para os cargos
de responsabilidade
parece-me que ainda não acordei
do sonho da noite passada:
razão tinha o meu avô que já
há duzentos anos dizia
que se passavam estranhos fenómenos
de refracção na minha cabeça
e que nela se moviam roldanas
de mecanismos completamente inúteis
que não convinha pôr em marcha
de modo nenhum.
A doença dos poetas nem sequer
é altamente contagiosa
mas os afectados os afectados
esses começam a sofrer visões
de Santidade
e não conseguem nunca opor-se
ao avanço em tropel dos
desejos fortes galopantes:
oh, viajar por todo o mundo
e ser tudo! Os momentos
formidáveis de ser o D. Juan sonhado
o astronauta de chapéu de palha do asceta ideal
o rebelde perfeito
e arquitectar como o Jeová genésico
o mundo ao sabor da fantasia
ser o Touro
e o Leão
e o Homem e a Ave de Rapina
e o Equilíbrio sim
equilíbrio que era o que eu ainda
mais gostava porque sou um desequilibrado
um desequilibrado felizmente porque os outros
que já nascem com a balança certa
esses coitadinhos não se mexem.
Parece-me que ainda não acordei
do sonho da noite passada,
parece-me que ainda não acordei
do sonho da noite passada!
NO CAFÉ
Os meninos estão no café.
Os meninos já são
uns homenzinhos.
Conversam e riem
apreciam especialmente
contar anedotas
mas por vezes a língua
cansada recusa mover-se
e o vazio é tão "chato"!
E um menino levanta-se
e dá uma voltinha. Passados
alguns círculos de saudável
exercício dos sapatos
volta a descansar os pés fumegantes
enquanto coze a fogo lento
a férrea cadeira pintada.
E os sons sem alento
caem no chão sonolento
como húmida seradura.
É deles feito o papel
em que eu escrevo
palavras que soam
como a lixa do carpinteiro.
OS POETAS AGORA
Belas paisagens de campos verdes e dourados,
riachos, alces, árvores antigas
nos deu Poe,
Jack London mostrou-nos os lobos,
os gelos eternos, as terras selvagens
onde os peitos solitários podem respirar
enfim.
E as visões amadas que deles bebemos
são mais actuais que nunca:
mais vivas agora,
agora que sonhamos com a natureza
libertada;
agora que vemos a alucinação
do desejo profundo de um novo mundo
de puros traços;
agora que já não existem
para nosso deleite e elevação
da alma
nem rios azuis
nem vivendas Landor
senão para quem tem muito dinheiro;
nem bosques sagrados onde sábios
druidas façam os seus conciliábulos.
Agora que para pasto da
imaginação clorótica dos novos poetas
só existem plantações industriais
de batateiras alinhadas;
caixotes de lixo espalhados
pelos cantos das ruas transversais
de madrugada
céus enlutados de óxido de chumbo;
águas turvas onde flutua a trampa!
Bairros económicos de solidões caseiras!
E o espírito diz: Morte.
E o espirito avisa: Desolação.
E o espírito vê: Armagedon!
Mas, na esplanada amena,
veraneantes sorvem a sua Coca-Cola
despreocupada
mente.
Lúcio Castanho
1.27.2005
UM MODO DE VER
Pipeta em punho, o poeta esgrime
A poção mágica com que há-de matar
O desconhecido, o medo, a dor…
E nessa gota em queda, simples e sublime
Além da hipótese, testa também o amor.
Quis os elementos da tabela a dançar,
O H com o O, o e=mc2
Na relativa solução dum alfabeto composto
Como se o reflexo da água do mar
Fosse um banho por Darwin dado
Na lágrima dum Graal posto.
Alquimia, sonhos minerais
A esperança de um dia
A guerra, a opressão, a fome… JAMAIS.
Não se esqueçam que o texto sobre Alexandre Carvalho Costa também está disponível na revista Estórias da História, projecto de alunos da ESEP.
UM MODO DE VER
Pipeta em punho, o poeta esgrime
A poção mágica com que há-de matar
O desconhecido, o medo, a dor…
E nessa gota em queda, simples e sublime
Além da hipótese, testa também o amor.
Quis os elementos da tabela a dançar,
O H com o O, o e=mc2
Na relativa solução dum alfabeto composto
Como se o reflexo da água do mar
Fosse o banho por Darwin dado
Na lágrima dum Graal posto.
Alquimia, sonhos minerais
A esperança de um dia
A guerra, a opressão, a fome… JAMAIS.
UM MODO DE VER
Entendendo-se por ilustração qualquer imagem desenhada que complementa um texto, a ilustração científica é toda aquela cujo referente faz parte do universo da ciência, desde a natural à humana e tecnológica. A sua maior virtude reside na diferença entre ver e observar, porquanto a observação é também a pedra-de-toque do ilustrador científico, para a compreensão da realidade a retratar, na recolha da informação essencial, tanto a olho nu como munido de sofisticados equipamentos.
Nesta perspectiva, que tenta ir um pouco mais além da lente de objectiva, explorando o ser reproduzir mas dando-lhe simultaneamente um timbre humano, pretende-se saldar o compromisso entre comunicar ciência de uma forma criativa e a objectividade que a matéria impõe.
UM MODO DE VER, que sem dúvida superará o simples acto da visão, é igualmente uma mais valia que transpõe o olhar passivo e se acopla à intenção criadora, consequente directa do observar, desenhar e compreender os seres retratados, definindo os caracteres que fazem a diagnose das espécies e elementos em análise, ou a comparação a partir dos exemplares disponibilizados, com a ajuda da mão que desenha e é livre para recriar uma imagem onde a nitidez se estende desde o infinitamente próximo ao infinitamente distante.
EUREKA, poemas de inspiração em conteúdos ou motivos de ciência, ditos por RUI FERREIRA
Leque de autores que irão ser ditos: (Em destaque:) António Gedeão, Fernando Pessoa, Teresa Balté, Natália Correia, Vitorino Nemésio, e (de menor relevo:) Pedro Homem de Mello, Júlio Dinis, Sandra Silveira, Maria Alice Peixoto, Margarida Pedrógão, Lucília Novo Quezada, Ana Rute M. Agostinho e Ângelo Rodrigues.
A Exposição de ILUSTRAÇÂO CIENTíFICA, com trabalhos de Nilton Nunes, decorrerá de 24 de Fevereiro a 10 de Março, na Sala Polivalente 1, da Biblioteca Municipal. E a sua inauguração será dia 24 de Fevereiro, pelas 18 horas, nesse mesmo local, com Porto de Honra e 25 minutos de poesia, toda ela de temática alusiva à ciência, dita por Rui Ferreira.
Pipeta em punho, o poeta esgrime
A poção mágica com que há-de matar
O desconhecido, o medo, a dor…
E nessa gota em queda, simples e sublime
Além da hipótese, testa também o amor.
Quis os elementos da tabela a dançar,
O H com o O, o e=mc2
Na relativa solução dum alfabeto composto
Como se o reflexo da água do mar
Fosse um banho por Darwin dado
Na lágrima dum Graal posto.
Alquimia, sonhos minerais
A esperança de um dia
A guerra, a opressão, a fome… JAMAIS.
Não se esqueçam que o texto sobre Alexandre Carvalho Costa também está disponível na revista Estórias da História, projecto de alunos da ESEP.
UM MODO DE VER
Pipeta em punho, o poeta esgrime
A poção mágica com que há-de matar
O desconhecido, o medo, a dor…
E nessa gota em queda, simples e sublime
Além da hipótese, testa também o amor.
Quis os elementos da tabela a dançar,
O H com o O, o e=mc2
Na relativa solução dum alfabeto composto
Como se o reflexo da água do mar
Fosse o banho por Darwin dado
Na lágrima dum Graal posto.
Alquimia, sonhos minerais
A esperança de um dia
A guerra, a opressão, a fome… JAMAIS.
UM MODO DE VER
Entendendo-se por ilustração qualquer imagem desenhada que complementa um texto, a ilustração científica é toda aquela cujo referente faz parte do universo da ciência, desde a natural à humana e tecnológica. A sua maior virtude reside na diferença entre ver e observar, porquanto a observação é também a pedra-de-toque do ilustrador científico, para a compreensão da realidade a retratar, na recolha da informação essencial, tanto a olho nu como munido de sofisticados equipamentos.
Nesta perspectiva, que tenta ir um pouco mais além da lente de objectiva, explorando o ser reproduzir mas dando-lhe simultaneamente um timbre humano, pretende-se saldar o compromisso entre comunicar ciência de uma forma criativa e a objectividade que a matéria impõe.
UM MODO DE VER, que sem dúvida superará o simples acto da visão, é igualmente uma mais valia que transpõe o olhar passivo e se acopla à intenção criadora, consequente directa do observar, desenhar e compreender os seres retratados, definindo os caracteres que fazem a diagnose das espécies e elementos em análise, ou a comparação a partir dos exemplares disponibilizados, com a ajuda da mão que desenha e é livre para recriar uma imagem onde a nitidez se estende desde o infinitamente próximo ao infinitamente distante.
EUREKA, poemas de inspiração em conteúdos ou motivos de ciência, ditos por RUI FERREIRA
Leque de autores que irão ser ditos: (Em destaque:) António Gedeão, Fernando Pessoa, Teresa Balté, Natália Correia, Vitorino Nemésio, e (de menor relevo:) Pedro Homem de Mello, Júlio Dinis, Sandra Silveira, Maria Alice Peixoto, Margarida Pedrógão, Lucília Novo Quezada, Ana Rute M. Agostinho e Ângelo Rodrigues.
A Exposição de ILUSTRAÇÂO CIENTíFICA, com trabalhos de Nilton Nunes, decorrerá de 24 de Fevereiro a 10 de Março, na Sala Polivalente 1, da Biblioteca Municipal. E a sua inauguração será dia 24 de Fevereiro, pelas 18 horas, nesse mesmo local, com Porto de Honra e 25 minutos de poesia, toda ela de temática alusiva à ciência, dita por Rui Ferreira.
1.25.2005
O HOMEM DO SÉCULO QUE VEM
Uma pata de gato, garra de aço nos retém
Neuro-cirurgiões gritam por mais cobaias
À porta envenenada das gerais paranóias
Eis o homem esfacelado do século que vem
Sangue angústia arame farpado
Pira funerária dos homens de estado
Corpos inocentes que as bombas consomem
Eis o homem esfacelado do século que vem
Semeando a morte pela ganância cega
Poetas famintos a infância sangrada
Tudo o que ele adquire não lhe vale de nada
Eis o homem esquizóide do século que vem
O "Engate"
Ela trazia calças de veludo
preto, bicos dos seios de fora
Ele usava um realçador de formas,
trajava a última moda
A festa estava a aquecer,
todo o mundo a chocalhar
com a música almiscarada
«Parece-me que o conheço»,
diz ela toda corada
«Também me quer parecer»,
diz ele com a voz do mar
Sentam-se os dois a beber
falam em Torre de Molinos
amigos, "parties", calor
Vão os dois apanhar ar,
entram prò carro cromado
dão beijos esfomeados
dá-se início à marmelada
tentam os dois acasalar,
mas é em vão...
ele incham como uma vela,
ela incha como um balão
ficam a boiar no nada
A COR DOS MORANGOS
Ele disse-lhe
«os morangos são amarelos»
Ela ficou
loucamente apaixonada
Casaram tiveram
dois meninos bochechudos
conheceram-se bem
e ficaram fartos
mas foram aguentando o barco
E foi então que ela viu
«Que raio afinal os morangos
são mas é encarnados».
VIVOS-MORTOS
Em prazeres de mortos
que brincam aos vivos
homens de olhos tortos
sorriem cativos
sérios e cantantes
nas suas gaiolas,
de transparentes vidros
de duras argolas
eles vão gastando
o seu tempo a dormir
vão balbuciando
coisas que se esfumam
esperando a morte
que os vá desdizer
mascaram a sorte,
em berros proclamam
que é melhor esquecer
esquecer
esquecer!
São antigos monstros
já titubeantes
diz o nosso sangue
vão de vez morrer
Domingo
Os bois passam.
No doa de Domingo
ecoam vozes de roberto
relatos de futebol,
lentos roncos
do lazer.
Os nossos queridos bois
tiram a canga do trabalho,
põem a canga do prazer
e morrem aos poucos
sem dramas nem gritos
Basta-lhes apodrecer,
basta-lhes sonhar-se
dizer sim de modo
brando
ATROPELADO PELA CIDADE
O homem-sem-pele
segue por entre
os couraçados da vida
de olhos abertos
dolorosamente
vendo desesperos
vendo desesperos:
não passa de um fraco
que sente demais
na carne ferida
aqui o arrepio
as multidão cega
mais à frente o pio
cortante
da fera de lata
hordas de borracha
avançam para mm
e
a multidão corre
persegue-o na rua
a montra que acusa
a bolsa infeliz
o pregão que berra
a casa voraz
de penhores sangrentos
abocanha-lhe a perna!
ele cai pelas escadas
do horror abaixo
salta pela janela
a fábrica verde
corre sobre a relva
das velhas no parque
o som da buzina
o chiar dos pneus
a Voz gigantesca
que ataca em surdina
o baque do corpo
o girar louco das sereias
atacadas de histeria
a morte que gela
inútil sem nome
do pobre diabo
nas Augustas Ruas.
SINCRONIA
Há dias em que me sinto
lasso, e me pende fraco
o braço no leito tão desleixado;
são dias em que me finto
e deixo para trás a sombra
perdida de mim
e vivo vidas estranhas,
entre a vigília e o sono,
longe da terra enlutada...
podem chamar-me madraço,
mas então eu sem fazer nada
escalo a Torre de Babel,
vou-me a templos assombrados,
balanço-me negligente
na pontinha e um cordel
suspenso das muralhas do Castelo...
e, sem no entanto alcançá-lo,
deixo ao menos para trás
as águas frias do fosso
- um fosso meu quotidiano - onde atroam
misérias, pruridos, estranhos
pudores, e a voz sangrenta
dos motores dos cadafalsos
automáticos.
Mas quem quererá saber
das minhas viagens de cabeça?
Os mundos por que espreitei?
E eu aqui mudo e quedo!
Dou logo a seguir um salto,
sopro à pressa o pó ao quarto,
recomeço a lide a pôr
em dia, a criar a sincronia
a sincronia entre a imaginação
e a mão
que me não pode definhar
na letargia.
A VIOLÊNCIA ANDA DE LUVAS
A violência já não é como era dantes.
Já não são abusos de censuras, nem
presos isolados em frias celas obscuras
por causa das palavras proibidas.
A violência hoje usa luvas:
Não proíbe, impossibilita.
Já não faz saltar o sangue
em catadupas das gargantas
mastigadas no garrote --
-- sufoca antes,
escondendo as culpas,
os nossos sonhos nas "bicas",
no tédio das horas mortas.
Para quê os carrascos,
se há tantas sorridentes
sociedades anónimas?
A violência anda de luvas.
Nada de armas estridentes:
antes a doce paz dos cemitérios,
ajardinados bairros suburbanos.
NA RUA A ANTÓNIA
Na rua a Antónia via
tantos tanques, tantos vivas,
mil bandeiras empunhadas!
Havia um golpe de estado.
Na rua a Antónia via
nuvens de pó levantado
pelos jipes, correrias, ajuntamentos.
Brilhavam os olhos das pessoas
a ver o mundo mudar
sem que tivessem de intervir pessoalmente.
Lá vai a Antónia arrastada
nas vagas da multidão,
sempre pasmada, a olhar...
Chegou já noite a casa,
bateu-lhe o pai, a gritar.
A CIGARRA E A FORMIGA
Vinha a formiga cansada
do dia de árdua labuta,
séria, nervosa, apressada;
eis quando na rua escuta
o som do canto de alerta
que uma cigarra executa.
A curiosidade a desperta:
Pára também uns momentos,
movida por sentimentos
de uma natureza incerta.
De tédio, suor, frustração
lhe falava aquele insecto
e de sonhos (certos sonhos)
que movem o coração,
de tão belos, tão sedutores projectos
fáceis de realizar, dizia aquela,
se todos nós quisermos...
Mas a formiga interpela:
«Como podes criticar
a vida que nós levamos?
Passas a vida a cantar!
Nós é que nos esforçamos!
Para versos não temos tempo,
todo o dia trabalhamos.
Que os versos não dão sustento
e, se há pão para cantares,
é graças ao nosso alento.
Mais valia trabalhares!»
Teve a cigarra um sorriso
simples, claro, sem vaidade,
e retorquiu com aviso:
«Tu disseste uma verdade
mas, para fazer verdade inteira,
falta-te a outra metade...
que a vida não é só canseira,
luta cega pelo pão de cada dia;
faz-nos falta, é bom, o pão...
mas não basta, para nos dar alegria.
Com esta actual feição
nem eu nem tu nascemos;
e mutação em mutação
como larvas, ninfas, vivemos,
antes de insectos perfeitos;
e a forma que agora temos
não nos deixa satisfeitos
-- que ainda não somos livres,
e nos oprimem os peitos
leis que não são invencíveis...
os mundos novos que canto
não são coisas impossíveis,
basta união para tanto!
A suar as estopinhas
se passa o dia inteiro,
arrastando grãos, palhinhas
para dentro do formigueiro;
e quem tem tempo prà arte, prò desporto,
prà cultura, são os donos do celeiro!
Lá vais andando absorta,
contando o teu dinheiro...
menos viva do que morta,
sempre p'lo mesmo carreiro...
Se este formigueiro fosse
uma real comunidade,
todo o trabalho era doce:
variávamos de actividade,
cinzelando corpo e mente
segundo a nossa vontade.»
Falam animadamente
as duas p'la tarde fora...
Vai-se juntando mais gente
tem outra vida a rua, agora.
PELA RESSURREIÇÃO DA RUA
Lembro-me ainda muito bem
do primeiro mês de Maio
em liberdade.
As ruas tinham outra vida
nesses dias de revolta,
a gente não passava só
faziam-se rodas na estrada
«Eu sou o João Madeira,
tipógrafo.
Muito prazer em conhecê-lo.»
E sonhava-se em voz alta.
Mas foi sol de pouca dura:
depois das mudanças feitas
nas salas dos ministérios,
voltámos às coisas sérias
-- o trabalho, a família, o mês
de férias.
E as ruas voltaram a ser
passadeiras rolantes.
Mas eu escrevo isto
para que as gentes se não esqueçam
daqueles dias das rodas no largo,
na calçada;
e parem um pouco quando ouvirem
alguém cantar dançar
falar em voz alta
na rua.
HINO À ESFINGE
Ó Esfinge dura do Egipto antigo,
se tu não fosses tão grande e distante
como o mundo,
os chacais já te teriam comido
e enterrado os ossos na areia.
OS ADOCICADOS AMANTES
Os adocicados amantes
dão-se as mãozinhas suadas
e sorriem teatrais
embalados no bailado
da bolinha de sabão
de dois lugares.
Com tanta atenção
esboçam a dança
dos vitelos malhados
sorvendo em êxtases
melados, melados
o muco um do outro.
O amor requentado
dos pares de lapas
colados com força.
NOS EXAMES
Estava nos exames.
Ela, serena, perguntava
coisas que eu achava infames,
coisas que eu baralhava.
A vida não me sorria...
Sabia-me a boca a sal;
e a cada pergunta fria
que ela, formal, me fazia,
mostrava-me irracional.
(Feito durante as orais de Geografia,
na capa do livro desta disciplina.)
A ALCATEIA
Era uma vez um lobinho,
um pequeno lutador
que enfrentava sozinho
o rebanho, a caçadeira, o cão pastor...
A serra livre morrera:
tinha sido rodeada
por rede electrificada,
e chamavam ao lobo agora fera.
Ali já não há lugar
para os seres selvagens:
deixam-se domesticar
ou buscam outras paragens.
Mas em toda a parte é o mesmo,
e o nosso lobinho errante
vagueia p'lo mundo a esmo
sempre do seu lar distante...
No meio de uma jornada
de neve e frio e negrura
soube vencer a amargura
e forçar a solidão;
encontrou por entre o gelo
um lobinho seu irmão,
também sozinho e cansado
e fizeram uma união;
nunca mais se separaram,
seguiram o mesmo caminho.
E foi assim que toparam,
um aqui e outro além,
mais um e outro lobinho.
Foi crescendo a alcateia!
Lúcio Castanho
Uma pata de gato, garra de aço nos retém
Neuro-cirurgiões gritam por mais cobaias
À porta envenenada das gerais paranóias
Eis o homem esfacelado do século que vem
Sangue angústia arame farpado
Pira funerária dos homens de estado
Corpos inocentes que as bombas consomem
Eis o homem esfacelado do século que vem
Semeando a morte pela ganância cega
Poetas famintos a infância sangrada
Tudo o que ele adquire não lhe vale de nada
Eis o homem esquizóide do século que vem
O "Engate"
Ela trazia calças de veludo
preto, bicos dos seios de fora
Ele usava um realçador de formas,
trajava a última moda
A festa estava a aquecer,
todo o mundo a chocalhar
com a música almiscarada
«Parece-me que o conheço»,
diz ela toda corada
«Também me quer parecer»,
diz ele com a voz do mar
Sentam-se os dois a beber
falam em Torre de Molinos
amigos, "parties", calor
Vão os dois apanhar ar,
entram prò carro cromado
dão beijos esfomeados
dá-se início à marmelada
tentam os dois acasalar,
mas é em vão...
ele incham como uma vela,
ela incha como um balão
ficam a boiar no nada
A COR DOS MORANGOS
Ele disse-lhe
«os morangos são amarelos»
Ela ficou
loucamente apaixonada
Casaram tiveram
dois meninos bochechudos
conheceram-se bem
e ficaram fartos
mas foram aguentando o barco
E foi então que ela viu
«Que raio afinal os morangos
são mas é encarnados».
VIVOS-MORTOS
Em prazeres de mortos
que brincam aos vivos
homens de olhos tortos
sorriem cativos
sérios e cantantes
nas suas gaiolas,
de transparentes vidros
de duras argolas
eles vão gastando
o seu tempo a dormir
vão balbuciando
coisas que se esfumam
esperando a morte
que os vá desdizer
mascaram a sorte,
em berros proclamam
que é melhor esquecer
esquecer
esquecer!
São antigos monstros
já titubeantes
diz o nosso sangue
vão de vez morrer
Domingo
Os bois passam.
No doa de Domingo
ecoam vozes de roberto
relatos de futebol,
lentos roncos
do lazer.
Os nossos queridos bois
tiram a canga do trabalho,
põem a canga do prazer
e morrem aos poucos
sem dramas nem gritos
Basta-lhes apodrecer,
basta-lhes sonhar-se
dizer sim de modo
brando
ATROPELADO PELA CIDADE
O homem-sem-pele
segue por entre
os couraçados da vida
de olhos abertos
dolorosamente
vendo desesperos
vendo desesperos:
não passa de um fraco
que sente demais
na carne ferida
aqui o arrepio
as multidão cega
mais à frente o pio
cortante
da fera de lata
hordas de borracha
avançam para mm
e
a multidão corre
persegue-o na rua
a montra que acusa
a bolsa infeliz
o pregão que berra
a casa voraz
de penhores sangrentos
abocanha-lhe a perna!
ele cai pelas escadas
do horror abaixo
salta pela janela
a fábrica verde
corre sobre a relva
das velhas no parque
o som da buzina
o chiar dos pneus
a Voz gigantesca
que ataca em surdina
o baque do corpo
o girar louco das sereias
atacadas de histeria
a morte que gela
inútil sem nome
do pobre diabo
nas Augustas Ruas.
SINCRONIA
Há dias em que me sinto
lasso, e me pende fraco
o braço no leito tão desleixado;
são dias em que me finto
e deixo para trás a sombra
perdida de mim
e vivo vidas estranhas,
entre a vigília e o sono,
longe da terra enlutada...
podem chamar-me madraço,
mas então eu sem fazer nada
escalo a Torre de Babel,
vou-me a templos assombrados,
balanço-me negligente
na pontinha e um cordel
suspenso das muralhas do Castelo...
e, sem no entanto alcançá-lo,
deixo ao menos para trás
as águas frias do fosso
- um fosso meu quotidiano - onde atroam
misérias, pruridos, estranhos
pudores, e a voz sangrenta
dos motores dos cadafalsos
automáticos.
Mas quem quererá saber
das minhas viagens de cabeça?
Os mundos por que espreitei?
E eu aqui mudo e quedo!
Dou logo a seguir um salto,
sopro à pressa o pó ao quarto,
recomeço a lide a pôr
em dia, a criar a sincronia
a sincronia entre a imaginação
e a mão
que me não pode definhar
na letargia.
A VIOLÊNCIA ANDA DE LUVAS
A violência já não é como era dantes.
Já não são abusos de censuras, nem
presos isolados em frias celas obscuras
por causa das palavras proibidas.
A violência hoje usa luvas:
Não proíbe, impossibilita.
Já não faz saltar o sangue
em catadupas das gargantas
mastigadas no garrote --
-- sufoca antes,
escondendo as culpas,
os nossos sonhos nas "bicas",
no tédio das horas mortas.
Para quê os carrascos,
se há tantas sorridentes
sociedades anónimas?
A violência anda de luvas.
Nada de armas estridentes:
antes a doce paz dos cemitérios,
ajardinados bairros suburbanos.
NA RUA A ANTÓNIA
Na rua a Antónia via
tantos tanques, tantos vivas,
mil bandeiras empunhadas!
Havia um golpe de estado.
Na rua a Antónia via
nuvens de pó levantado
pelos jipes, correrias, ajuntamentos.
Brilhavam os olhos das pessoas
a ver o mundo mudar
sem que tivessem de intervir pessoalmente.
Lá vai a Antónia arrastada
nas vagas da multidão,
sempre pasmada, a olhar...
Chegou já noite a casa,
bateu-lhe o pai, a gritar.
A CIGARRA E A FORMIGA
Vinha a formiga cansada
do dia de árdua labuta,
séria, nervosa, apressada;
eis quando na rua escuta
o som do canto de alerta
que uma cigarra executa.
A curiosidade a desperta:
Pára também uns momentos,
movida por sentimentos
de uma natureza incerta.
De tédio, suor, frustração
lhe falava aquele insecto
e de sonhos (certos sonhos)
que movem o coração,
de tão belos, tão sedutores projectos
fáceis de realizar, dizia aquela,
se todos nós quisermos...
Mas a formiga interpela:
«Como podes criticar
a vida que nós levamos?
Passas a vida a cantar!
Nós é que nos esforçamos!
Para versos não temos tempo,
todo o dia trabalhamos.
Que os versos não dão sustento
e, se há pão para cantares,
é graças ao nosso alento.
Mais valia trabalhares!»
Teve a cigarra um sorriso
simples, claro, sem vaidade,
e retorquiu com aviso:
«Tu disseste uma verdade
mas, para fazer verdade inteira,
falta-te a outra metade...
que a vida não é só canseira,
luta cega pelo pão de cada dia;
faz-nos falta, é bom, o pão...
mas não basta, para nos dar alegria.
Com esta actual feição
nem eu nem tu nascemos;
e mutação em mutação
como larvas, ninfas, vivemos,
antes de insectos perfeitos;
e a forma que agora temos
não nos deixa satisfeitos
-- que ainda não somos livres,
e nos oprimem os peitos
leis que não são invencíveis...
os mundos novos que canto
não são coisas impossíveis,
basta união para tanto!
A suar as estopinhas
se passa o dia inteiro,
arrastando grãos, palhinhas
para dentro do formigueiro;
e quem tem tempo prà arte, prò desporto,
prà cultura, são os donos do celeiro!
Lá vais andando absorta,
contando o teu dinheiro...
menos viva do que morta,
sempre p'lo mesmo carreiro...
Se este formigueiro fosse
uma real comunidade,
todo o trabalho era doce:
variávamos de actividade,
cinzelando corpo e mente
segundo a nossa vontade.»
Falam animadamente
as duas p'la tarde fora...
Vai-se juntando mais gente
tem outra vida a rua, agora.
PELA RESSURREIÇÃO DA RUA
Lembro-me ainda muito bem
do primeiro mês de Maio
em liberdade.
As ruas tinham outra vida
nesses dias de revolta,
a gente não passava só
faziam-se rodas na estrada
«Eu sou o João Madeira,
tipógrafo.
Muito prazer em conhecê-lo.»
E sonhava-se em voz alta.
Mas foi sol de pouca dura:
depois das mudanças feitas
nas salas dos ministérios,
voltámos às coisas sérias
-- o trabalho, a família, o mês
de férias.
E as ruas voltaram a ser
passadeiras rolantes.
Mas eu escrevo isto
para que as gentes se não esqueçam
daqueles dias das rodas no largo,
na calçada;
e parem um pouco quando ouvirem
alguém cantar dançar
falar em voz alta
na rua.
HINO À ESFINGE
Ó Esfinge dura do Egipto antigo,
se tu não fosses tão grande e distante
como o mundo,
os chacais já te teriam comido
e enterrado os ossos na areia.
OS ADOCICADOS AMANTES
Os adocicados amantes
dão-se as mãozinhas suadas
e sorriem teatrais
embalados no bailado
da bolinha de sabão
de dois lugares.
Com tanta atenção
esboçam a dança
dos vitelos malhados
sorvendo em êxtases
melados, melados
o muco um do outro.
O amor requentado
dos pares de lapas
colados com força.
NOS EXAMES
Estava nos exames.
Ela, serena, perguntava
coisas que eu achava infames,
coisas que eu baralhava.
A vida não me sorria...
Sabia-me a boca a sal;
e a cada pergunta fria
que ela, formal, me fazia,
mostrava-me irracional.
(Feito durante as orais de Geografia,
na capa do livro desta disciplina.)
A ALCATEIA
Era uma vez um lobinho,
um pequeno lutador
que enfrentava sozinho
o rebanho, a caçadeira, o cão pastor...
A serra livre morrera:
tinha sido rodeada
por rede electrificada,
e chamavam ao lobo agora fera.
Ali já não há lugar
para os seres selvagens:
deixam-se domesticar
ou buscam outras paragens.
Mas em toda a parte é o mesmo,
e o nosso lobinho errante
vagueia p'lo mundo a esmo
sempre do seu lar distante...
No meio de uma jornada
de neve e frio e negrura
soube vencer a amargura
e forçar a solidão;
encontrou por entre o gelo
um lobinho seu irmão,
também sozinho e cansado
e fizeram uma união;
nunca mais se separaram,
seguiram o mesmo caminho.
E foi assim que toparam,
um aqui e outro além,
mais um e outro lobinho.
Foi crescendo a alcateia!
Lúcio Castanho
Nos wolksvagens da desgraça...
...um código que até Da Vinci contestaria!
Consta que o carro do povo dos tempos bíblicos terá sido o burro... Sobretudo se considerarmos que foi nele que a Senhora se deslocou a Belém para ter o menino! Seria?... Não seria?... O facto é que até meados do século passado ainda o era, embora o populacho o tenha substituído por besta maior, mais zurrante, potente, lesta e acomodatícia: o carocha. Ou os "wolksvagens" do progresso. E a tradição manteve-se não obstante o câmbio de alimália, para gáudio dos apologista do eterno retorno, ou aqueles que se empenham em regressar à terra tal e qual vieram ao mundo: ignorantes, brutos e bravos que nem uma vara de bronquicéfalos. Os marialvas da repetição tradicional. Os que zurzem o fado da bandeirola para exorcizar o medo de serem encavados por qualquer sem-abrigo ao cruzar da esquina. Os que se acoitam no espírito corporativista da capa (e espada) para executar a sua perversão. Com idem para os que da inveja pela sua moralidade - famosa, a do burro, como todos sabeis, se desenrolada para prazer de quem passa!... - espremem o pedal, carregado com a virilidade de quem por outro meio a desconhece, a fim de granjear os favores do sexo oposto, ou mesmo do mesmo, posto que quem come no que é seu não merece (es)conjuras.
Portanto, a primeira importante viagem que Jesus Cristo terá feito, ainda no ventre materno, do que não restam as menores dúvidas, foi num carocha 127 daquelas eras, de passo lento mas aturado, sábio inventor da subida em Z para melhorar a marcha se carregado, desovando bonicos na passagem como regalo aos que ficavam, outro sintoma de galhardia pelas tradições do pagar portagem, ou pagamento por franqueio e infiltro, no pleno respeito pelos passados antigos que já quando eram novos estavam velhos e errados e imprestáveis. (Excepção feita, é claro, para o esterco de burro, que sempre podia ser utilizado na fertilização e benfeitoria das terras onde deixava franquia... Aliás, mérito conhecidíssimo até dos plantadores de pinhais e outras monoculturas, tendentes a destruir a biodiversidade imprescindível.)
Segundo parece há quem prefira, dentro das instituições que deviam ser a vanguarda da evolução da espécie, do ambiente e da cultura ou das ideias, manter o status quo a contribuir com a sua dedicação, tempo, vantagem económica e inteligência para se desarreigar das práticas obsoletas, numa apologia ao erro, convictos assim de o tornarem menos erróneo só pelo facto de o fazer perdurar, popularizando-o inclusive, cuidando de alicerçar-se na sargentice, para justificar as suas práticas australopitecas. Tal como o comer à unha e à dentada, modo tradicional de usar o único talher que deus nos deu, tão válido antes como depois das propinas, insistem em reiterar as práticas de caserna medievais transpondo-as para os nossos dias, através daquilo que, no sufrágio da mandriice e do laxismo intelectual, é conhecido por praxes. Em vez de reivindicar o ensino gratuito, a melhoria de estruturas, técnicas como de conteúdos, equipamentos e quadros docentes, demonstrando à sociedade portuguesa quanto ganharia com isso, porquanto num futuro próximo as despesas orçamentais com a segurança social, a justiça, o parque prisional e segurança pública, a requalificação e formação profissional, a saúde e a cidadania, seriam bem menores do que actualmente são, desde que o nível de formação do povo português aumentasse, pondo-o em consonância com os níveis de desenvolvimento humano semelhantes aos dos países nórdicos, por exemplo.
Não se augura nada de bom para um país quando a sua classe estudantil abdica do seu papel reformador e se entrincheira nas surrobecas eclesiásticas para marcar a diferença com o povo que a sustenta. E muito menos quando ela se escora na tradição para manter no activo um passado inoperante, falacioso, estéril, que põe em risco a sustentabilidade nacional, quer na soberania como na identidade cultural, e nos remete para o fundo de todos os rankings de desenvolvimento, nomeadamente o da qualidade de vida.
Creio que é chegada a altura de os meninos deixarem de ir de burro para nascer. Sobretudo de se deixar de entender o conhecimento (diplomado ou não) como um Z para subir na escala social. A tradição, veículo assaz asnático de perenizar tudo, independentemente do seu valor, quer seja bom ou mau, desejável ou sociopata, é o único entrave para a aquisição de novas práticas, pelo que mantê-la quando desnecessária e prejudicial, se torna um crime de lesa democracia: institui patamares de diferença entre iguais, contrariando não só o espírito da Carta dos Direitos do Homem, como impondo pela força uma Lei que apenas não está escrita e aprovada por decreto, graças à sua universal insensatez e desumanidade.
Afiança a sabedoria popular, que é de experiência feita, que "o amor dos burros começa aos coices e acaba em cacos". O carocha do nazismo imperou pelas exigências das sociedades de produção e consumo, mas foi atirado para o ferro-velho com a implementação da sociedade de informação, que por sua vez gerou a do conhecimento e educação. Recolher os cacos desse amor asinino e vesti-los de preto, não é um factor de júbilo para ninguém, e antes um sinal de luto (nacional e europeu). Admoestar e excluir quem não lhe presta culto e vassalagem, um crime pelo qual o tempo, esse mesmo com que se tenta justificar a tradição, a breve trecho nos fará pagar. Caro. E com onerosas dívidas para gerações futuras, herança que perdurará como um código genético dos vencidos da modernidade.
Evoluir, crescer, é sobretudo contrariar e soltarmo-nos das amarras da tradicional miséria (deontológica, emocional, ética, imagética, cognitiva e económica) em que nascemos e estávamos. A mudança requer rupturas, cortes exímios com o passado, principalmente nos formatos em que ele se demonstrou ineficaz, abusivo, inútil e contraproducente à humanização da humanidade. A tradição académica, como todos os rituais guerreiros de iniciação e manutenção do espírito de caserna, monástico, de ordem e ordenança, é um deles: um formato que enfermiça e disforma qualquer formatura. Pôr-lhe fim, apenas o coup de grace, o golpe de misericórdia que a sua agonia suscita e implora de há muito. É lamentável que a beca da tradição, qual capa que outrora servia aos estudantes para lhe ocular a miséria franciscana, ou esconder e tapar o fato puído e remendado, sirva hoje para encapotar a miserabilidade do espírito estudantil, como uma tentativa de eternizar a praxis da sua ignorância. Não é concebível que alguém pretenda aprender e conhecer mais abrigando-se sob o capote da tradição, cuja é desde sempre, a subscrita reafirmação das ignorâncias. De todas elas, incluindo daquelas que se aprestam nas protecções de Drs.
...um código que até Da Vinci contestaria!
Consta que o carro do povo dos tempos bíblicos terá sido o burro... Sobretudo se considerarmos que foi nele que a Senhora se deslocou a Belém para ter o menino! Seria?... Não seria?... O facto é que até meados do século passado ainda o era, embora o populacho o tenha substituído por besta maior, mais zurrante, potente, lesta e acomodatícia: o carocha. Ou os "wolksvagens" do progresso. E a tradição manteve-se não obstante o câmbio de alimália, para gáudio dos apologista do eterno retorno, ou aqueles que se empenham em regressar à terra tal e qual vieram ao mundo: ignorantes, brutos e bravos que nem uma vara de bronquicéfalos. Os marialvas da repetição tradicional. Os que zurzem o fado da bandeirola para exorcizar o medo de serem encavados por qualquer sem-abrigo ao cruzar da esquina. Os que se acoitam no espírito corporativista da capa (e espada) para executar a sua perversão. Com idem para os que da inveja pela sua moralidade - famosa, a do burro, como todos sabeis, se desenrolada para prazer de quem passa!... - espremem o pedal, carregado com a virilidade de quem por outro meio a desconhece, a fim de granjear os favores do sexo oposto, ou mesmo do mesmo, posto que quem come no que é seu não merece (es)conjuras.
Portanto, a primeira importante viagem que Jesus Cristo terá feito, ainda no ventre materno, do que não restam as menores dúvidas, foi num carocha 127 daquelas eras, de passo lento mas aturado, sábio inventor da subida em Z para melhorar a marcha se carregado, desovando bonicos na passagem como regalo aos que ficavam, outro sintoma de galhardia pelas tradições do pagar portagem, ou pagamento por franqueio e infiltro, no pleno respeito pelos passados antigos que já quando eram novos estavam velhos e errados e imprestáveis. (Excepção feita, é claro, para o esterco de burro, que sempre podia ser utilizado na fertilização e benfeitoria das terras onde deixava franquia... Aliás, mérito conhecidíssimo até dos plantadores de pinhais e outras monoculturas, tendentes a destruir a biodiversidade imprescindível.)
Segundo parece há quem prefira, dentro das instituições que deviam ser a vanguarda da evolução da espécie, do ambiente e da cultura ou das ideias, manter o status quo a contribuir com a sua dedicação, tempo, vantagem económica e inteligência para se desarreigar das práticas obsoletas, numa apologia ao erro, convictos assim de o tornarem menos erróneo só pelo facto de o fazer perdurar, popularizando-o inclusive, cuidando de alicerçar-se na sargentice, para justificar as suas práticas australopitecas. Tal como o comer à unha e à dentada, modo tradicional de usar o único talher que deus nos deu, tão válido antes como depois das propinas, insistem em reiterar as práticas de caserna medievais transpondo-as para os nossos dias, através daquilo que, no sufrágio da mandriice e do laxismo intelectual, é conhecido por praxes. Em vez de reivindicar o ensino gratuito, a melhoria de estruturas, técnicas como de conteúdos, equipamentos e quadros docentes, demonstrando à sociedade portuguesa quanto ganharia com isso, porquanto num futuro próximo as despesas orçamentais com a segurança social, a justiça, o parque prisional e segurança pública, a requalificação e formação profissional, a saúde e a cidadania, seriam bem menores do que actualmente são, desde que o nível de formação do povo português aumentasse, pondo-o em consonância com os níveis de desenvolvimento humano semelhantes aos dos países nórdicos, por exemplo.
Não se augura nada de bom para um país quando a sua classe estudantil abdica do seu papel reformador e se entrincheira nas surrobecas eclesiásticas para marcar a diferença com o povo que a sustenta. E muito menos quando ela se escora na tradição para manter no activo um passado inoperante, falacioso, estéril, que põe em risco a sustentabilidade nacional, quer na soberania como na identidade cultural, e nos remete para o fundo de todos os rankings de desenvolvimento, nomeadamente o da qualidade de vida.
Creio que é chegada a altura de os meninos deixarem de ir de burro para nascer. Sobretudo de se deixar de entender o conhecimento (diplomado ou não) como um Z para subir na escala social. A tradição, veículo assaz asnático de perenizar tudo, independentemente do seu valor, quer seja bom ou mau, desejável ou sociopata, é o único entrave para a aquisição de novas práticas, pelo que mantê-la quando desnecessária e prejudicial, se torna um crime de lesa democracia: institui patamares de diferença entre iguais, contrariando não só o espírito da Carta dos Direitos do Homem, como impondo pela força uma Lei que apenas não está escrita e aprovada por decreto, graças à sua universal insensatez e desumanidade.
Afiança a sabedoria popular, que é de experiência feita, que "o amor dos burros começa aos coices e acaba em cacos". O carocha do nazismo imperou pelas exigências das sociedades de produção e consumo, mas foi atirado para o ferro-velho com a implementação da sociedade de informação, que por sua vez gerou a do conhecimento e educação. Recolher os cacos desse amor asinino e vesti-los de preto, não é um factor de júbilo para ninguém, e antes um sinal de luto (nacional e europeu). Admoestar e excluir quem não lhe presta culto e vassalagem, um crime pelo qual o tempo, esse mesmo com que se tenta justificar a tradição, a breve trecho nos fará pagar. Caro. E com onerosas dívidas para gerações futuras, herança que perdurará como um código genético dos vencidos da modernidade.
Evoluir, crescer, é sobretudo contrariar e soltarmo-nos das amarras da tradicional miséria (deontológica, emocional, ética, imagética, cognitiva e económica) em que nascemos e estávamos. A mudança requer rupturas, cortes exímios com o passado, principalmente nos formatos em que ele se demonstrou ineficaz, abusivo, inútil e contraproducente à humanização da humanidade. A tradição académica, como todos os rituais guerreiros de iniciação e manutenção do espírito de caserna, monástico, de ordem e ordenança, é um deles: um formato que enfermiça e disforma qualquer formatura. Pôr-lhe fim, apenas o coup de grace, o golpe de misericórdia que a sua agonia suscita e implora de há muito. É lamentável que a beca da tradição, qual capa que outrora servia aos estudantes para lhe ocular a miséria franciscana, ou esconder e tapar o fato puído e remendado, sirva hoje para encapotar a miserabilidade do espírito estudantil, como uma tentativa de eternizar a praxis da sua ignorância. Não é concebível que alguém pretenda aprender e conhecer mais abrigando-se sob o capote da tradição, cuja é desde sempre, a subscrita reafirmação das ignorâncias. De todas elas, incluindo daquelas que se aprestam nas protecções de Drs.
1.20.2005
EXPOSIÇÃO DE CANTEIROS DE GÁFETE
de 1 a 14 de Fevereiro de 2005
Sem qualquer auxílio além da sua imaginação, boa vontade, ferramentas de trabalho, braços e fôlego, os canteiros de Gáfete, desde as infâncias remotas, tanto suas como da península ibérica, quiçá por vocação e necessidade, ousam transformar a pedra rude, áspera, milenar e rupestre, em formas raras, belas, exóticas, simbólicas, úteis e decorativas, dos nossos e de todos os tempos. Assim, o desafio a que a PROMETEU se propôs, foi tão somente o de dar a conhecer uma arte ancestral, iniciada no paleolítico mas que se manteve sempre a par do crescimento evolutivo do homo sapiens, que afinal se revelou pródigo, usando-a em marcações territoriais como em altares e objectos adstritos aos rituais religiosos, no fabrico de utensílios de uso comum, doméstico, pecuário e agrícola (gamelas, balaustres, pilastras, colunas, martelos, pesos, moedas, capitéis, fontes, pias, tulhas, arcas, celeiros, nichos, pilheiras, obeliscos, túmulos, etc.), como nos da caça, desportivos e bélicos (dardos, discos, pontas de lança e de setas, facas, machados, maças, balas, etc.), ou na heráldica e estatuária divinas e profanas, através da "voz" dos seus intérpretes mais representativos da região, que não só a praticam com esmero e mestria, como igualmente são os seus dilectos devotos desde as célticas eras. Aliás, caso para dizer, que transformaram a pedra na coisa amada por virtude de tanto cinzelar, dando-nos dela a forma desejada para que todos a possamos admirar, numa apropriação da forma do soneto de Camões, já que a alma nos anda formatada pelos mesmos desígnios pátrios!...
António Louro Baptista, socialmente conhecido por "António Camilo", casado, com dois filhos, de 70 anos de idade, além de natural de Gáfete, onde também sempre residiu e aprendeu a profissão com os antigos mestres, é autor de vasta obra e continua a produzir laboriosamente as suas peças, que habitualmente vende e expõe em diversos certames da especialidade.
António Louro Zacarias, a quem os conterrâneos por afinidade à avó apelidam de António Teresa, viúvo, com dois filhos, de 76 anos de idade, exerce a profissão desde os 14, e embora tenha emigrado para a Suécia durante duas décadas, onde trabalhou numa fábrica de produção e montagem auto, bem como 18 meses na feitura de lancis e pavimentação, continua a trabalhar a pedra com criatividade e determinada desenvoltura.
Arlindo Carrilho Abreu, ex-encarregado de uma das maiores empresas do sector na região, de 60 anos e reformado por motivos de saúde, foi emigrante na Suiça em 1974/75, casado e com um filho, com obras espalhadas pelo Japão e Estados Unidos da América, exerceu a profissão de canteiro desde os treze anos, arte que terá aprendido com os antigos profissionais da região.
João Coelho Aires Garcia, fogueiro fabril em pré-reforma, natural de Gáfete mas residente em Portalegre, de 57 anos, divorciado e com duas filhas, iniciou-se como canteiro aos 12, profissão que exerceu até aos 26, e que terá aprendido sob os auspícios de seu pai, também profissional de renome, a quem se devem alguns exemplares expostos nesta cidade, inclusive o escudo heráldico do Banco Pinto Sotto Mayor, na sua ex-sede à da Rua 19 de Junho.
Joaquim do Crato, nome pelo qual é familiarmente conhecido Joaquim Baptista Garcia, viúvo, com quatro filhos, 3ª Classe de escolaridade, começou na profissão de canteiro aos 18 e, embora a tenha igualmente exercido na região da Beira Alta, nomeadamente em Freixedas, de 1970 a 1978, sempre residiu em Gáfete onde nasceu há 78 anos.
Outro Canteiro de Gáfete, cuja obra já foi por diversas vezes exposta e onde se evidenciou a sua exímia expressividade globalista, de motivos religiosos, naturais e artísticos, singularmente cinzelados.
Viriato Mafaldo, a quem se deve a autoria do símbolo ou brasão no posto da antiga Guarda Fiscal de Portalegre, ao Bonfim, tem 79 anos e trabalha na arte de canteiro desde os 11. Casado, com dois filhos, sempre residiu em Gáfete onde foi empresário do sector, pelo que chegou a ter várias pessoas a trabalhar por sua conta, disseminando a cantaria por diversas regiões portuguesas.
Para trabalhar as diferentes pedras, das variedades presentes nesta exposição (v.g. o granito amarelo de Gáfete, o azul de Alpalhão, o negro de Arronches, mármore, impala e calcário), não mais foram precisas que as tradicionais ferramentas de sempre, como a maceta, o ponteiro, o escopro, os palhetes, as brocas, a picola ou bojarda, e os esquadros, num verdadeiro hino à ancestralidade, gizando futuras formas em matérias tão antigas como a própria Terra. Talvez muitos dos seus segredos tenham assim sido desvendados... mas, do que não restam dúvidas, é que outros tantos foram forjados em seu lugar, nesse rendilhar constante e agreste de um suporte que só com o poder de enorme persistência, mestria e engenho se pode enfim domar, extorquindo-lhe a ganga bruta até delinear a beleza diamantina prevista (e desejada).
A inauguração, que decorrerá dia 1, terça-feira, pelas 18 horas, constará de um momento musical com António Eustáquio (guitarra portuguesa) e Miguel Monteiro (guitarra clássica), e beberete.
de 1 a 14 de Fevereiro de 2005
Sem qualquer auxílio além da sua imaginação, boa vontade, ferramentas de trabalho, braços e fôlego, os canteiros de Gáfete, desde as infâncias remotas, tanto suas como da península ibérica, quiçá por vocação e necessidade, ousam transformar a pedra rude, áspera, milenar e rupestre, em formas raras, belas, exóticas, simbólicas, úteis e decorativas, dos nossos e de todos os tempos. Assim, o desafio a que a PROMETEU se propôs, foi tão somente o de dar a conhecer uma arte ancestral, iniciada no paleolítico mas que se manteve sempre a par do crescimento evolutivo do homo sapiens, que afinal se revelou pródigo, usando-a em marcações territoriais como em altares e objectos adstritos aos rituais religiosos, no fabrico de utensílios de uso comum, doméstico, pecuário e agrícola (gamelas, balaustres, pilastras, colunas, martelos, pesos, moedas, capitéis, fontes, pias, tulhas, arcas, celeiros, nichos, pilheiras, obeliscos, túmulos, etc.), como nos da caça, desportivos e bélicos (dardos, discos, pontas de lança e de setas, facas, machados, maças, balas, etc.), ou na heráldica e estatuária divinas e profanas, através da "voz" dos seus intérpretes mais representativos da região, que não só a praticam com esmero e mestria, como igualmente são os seus dilectos devotos desde as célticas eras. Aliás, caso para dizer, que transformaram a pedra na coisa amada por virtude de tanto cinzelar, dando-nos dela a forma desejada para que todos a possamos admirar, numa apropriação da forma do soneto de Camões, já que a alma nos anda formatada pelos mesmos desígnios pátrios!...
António Louro Baptista, socialmente conhecido por "António Camilo", casado, com dois filhos, de 70 anos de idade, além de natural de Gáfete, onde também sempre residiu e aprendeu a profissão com os antigos mestres, é autor de vasta obra e continua a produzir laboriosamente as suas peças, que habitualmente vende e expõe em diversos certames da especialidade.
António Louro Zacarias, a quem os conterrâneos por afinidade à avó apelidam de António Teresa, viúvo, com dois filhos, de 76 anos de idade, exerce a profissão desde os 14, e embora tenha emigrado para a Suécia durante duas décadas, onde trabalhou numa fábrica de produção e montagem auto, bem como 18 meses na feitura de lancis e pavimentação, continua a trabalhar a pedra com criatividade e determinada desenvoltura.
Arlindo Carrilho Abreu, ex-encarregado de uma das maiores empresas do sector na região, de 60 anos e reformado por motivos de saúde, foi emigrante na Suiça em 1974/75, casado e com um filho, com obras espalhadas pelo Japão e Estados Unidos da América, exerceu a profissão de canteiro desde os treze anos, arte que terá aprendido com os antigos profissionais da região.
João Coelho Aires Garcia, fogueiro fabril em pré-reforma, natural de Gáfete mas residente em Portalegre, de 57 anos, divorciado e com duas filhas, iniciou-se como canteiro aos 12, profissão que exerceu até aos 26, e que terá aprendido sob os auspícios de seu pai, também profissional de renome, a quem se devem alguns exemplares expostos nesta cidade, inclusive o escudo heráldico do Banco Pinto Sotto Mayor, na sua ex-sede à da Rua 19 de Junho.
Joaquim do Crato, nome pelo qual é familiarmente conhecido Joaquim Baptista Garcia, viúvo, com quatro filhos, 3ª Classe de escolaridade, começou na profissão de canteiro aos 18 e, embora a tenha igualmente exercido na região da Beira Alta, nomeadamente em Freixedas, de 1970 a 1978, sempre residiu em Gáfete onde nasceu há 78 anos.
Outro Canteiro de Gáfete, cuja obra já foi por diversas vezes exposta e onde se evidenciou a sua exímia expressividade globalista, de motivos religiosos, naturais e artísticos, singularmente cinzelados.
Viriato Mafaldo, a quem se deve a autoria do símbolo ou brasão no posto da antiga Guarda Fiscal de Portalegre, ao Bonfim, tem 79 anos e trabalha na arte de canteiro desde os 11. Casado, com dois filhos, sempre residiu em Gáfete onde foi empresário do sector, pelo que chegou a ter várias pessoas a trabalhar por sua conta, disseminando a cantaria por diversas regiões portuguesas.
Para trabalhar as diferentes pedras, das variedades presentes nesta exposição (v.g. o granito amarelo de Gáfete, o azul de Alpalhão, o negro de Arronches, mármore, impala e calcário), não mais foram precisas que as tradicionais ferramentas de sempre, como a maceta, o ponteiro, o escopro, os palhetes, as brocas, a picola ou bojarda, e os esquadros, num verdadeiro hino à ancestralidade, gizando futuras formas em matérias tão antigas como a própria Terra. Talvez muitos dos seus segredos tenham assim sido desvendados... mas, do que não restam dúvidas, é que outros tantos foram forjados em seu lugar, nesse rendilhar constante e agreste de um suporte que só com o poder de enorme persistência, mestria e engenho se pode enfim domar, extorquindo-lhe a ganga bruta até delinear a beleza diamantina prevista (e desejada).
A inauguração, que decorrerá dia 1, terça-feira, pelas 18 horas, constará de um momento musical com António Eustáquio (guitarra portuguesa) e Miguel Monteiro (guitarra clássica), e beberete.
ACESSO AO ENSINO SUPERIOR
EXAME EXTRAORDINÁRIO DE AVALIAÇÃO DE CAPACIDADE PARA ACESSO AO ENSINO SUPERIOR/2005 (AD HOC )
Decorre de 1 a 15 de Fevereiro de 2005, o prazo de inscrição para o exame extraordinário de avaliação de capacidade para acesso ao ensino superior, conhecido como exame ad hoc.
O exame tem como objectivo possibilitar o ingresso no ensino superior aos estudantes que, não estando habilitados com um curso secundário ou equivalente (12º ano) e sendo maiores de 25 anos, mostrem possuir conhecimentos, capacidade e maturidade indispensáveis à frequência de um curso superior.
Este exame é a oportunidade para quem a não teve, de prosseguir estudos ou adquirir um curso de grau superior.
Todas as informações podem ser obtidas no Gabinete de Acesso ao Ensino Superior no Centro de Área Educativa do Alto Alentejo, sito na Avª. de Santo António, nº 18, Edifício Plátano IV, em Portalegre ou através dos telefones nº 245307320/33.
EXAME EXTRAORDINÁRIO DE AVALIAÇÃO DE CAPACIDADE PARA ACESSO AO ENSINO SUPERIOR/2005 (AD HOC )
Decorre de 1 a 15 de Fevereiro de 2005, o prazo de inscrição para o exame extraordinário de avaliação de capacidade para acesso ao ensino superior, conhecido como exame ad hoc.
O exame tem como objectivo possibilitar o ingresso no ensino superior aos estudantes que, não estando habilitados com um curso secundário ou equivalente (12º ano) e sendo maiores de 25 anos, mostrem possuir conhecimentos, capacidade e maturidade indispensáveis à frequência de um curso superior.
Este exame é a oportunidade para quem a não teve, de prosseguir estudos ou adquirir um curso de grau superior.
Todas as informações podem ser obtidas no Gabinete de Acesso ao Ensino Superior no Centro de Área Educativa do Alto Alentejo, sito na Avª. de Santo António, nº 18, Edifício Plátano IV, em Portalegre ou através dos telefones nº 245307320/33.
1.04.2005
NA COMPANHIA DO MAR
À beira da areia, entre o oceano e o som
O vidro de matosinhos emoldura azuis
Atenta e discretamente azuis escutam o to
Os olhos, a blusa de gola alta, o sorriso inteiro
Livre, amplo, arrebitado de aberto.com
O kispo branco, as mãos pequenas sereias
Da noite a fazer-se pura em ondulados de mulher
E a ditar-nos que o futuro é o que for preciso
Para ter um mundo assim: do tamanho dum sorriso
Que se quer – assim, perdido em mim de crer
Em nenhum outro nem qualquer!
Foram-se as francesinhas há pouco
Esbatidas no caldo verde louco
Com água dos mortos e tosta,
Mas eis que o sinal do rosto
É padrão a marcar o gosto
De descobrir ternura a dar à costa...
Praia Passeio do Atlântico
07.11.04 – 01:12 horas
AO ESCOAR DA NUVEM
Em Serrralves é fácil deixar escorrer o verde
Expandir-se em amarelos torrados
Pelas bruscas inversões na paleta da espera
Pão de trigo das mulheres de pastel perdidas
No Rego das alinhadas possessões trágicas
Queijo de nevoeiros nos jardins interrogadores.
Tu dizias a nave entre o verde e o azul
Caído num outono magoado por estações confundidas.
Eu era apenas o imaginado de serviço
No pousar da folha sobre o terraço
A corroer o ritmo aos minutos da brisa soalheira,
A apontar o dedo ao esquecimento da partida
Colorindo desmaiadas vozes na clepsidra
Dum toque que decepava realidades...
Mesas de taberna com cadeiras de lona
À realizador sentadas sobre a arquitectura da tarde.
Foi um filme... Somente uma história de dor
A rodar para os gerêses de jamais!
AO AZUL DO AZUL DO OLHA(MA)R
(Paisagem com rosto, ou alucinação sobre a água
fervente num pôr do sol de Foz domingueira...)
Olha as gaivotas ali linhas de voo
O seu corte pontiagudo no diamantino céu
E cristal também plácido espelho
Das águas chispando (a)deuses.
Podes pedir-lhe a calma da tarde
Que não te recusarão o destino,
Porquanto é o corpo quem parte
Mas ficando nelas o olhar menino
Deste silêncio, líquido definido
Mascando ênfase no sonho corrompido
Pelo coração em sobressalto desatino
Com a vida e seus traidores reveses,
Que nos concede sempre o que às vezes
Apenas acidente supomos no puro linho...
Não apetece ainda o escurecer.
Há caminhamantes na marginal!
Mas o soslaio do sol fisga a Pousada
E põe na grama verde a linha escalada
De romper as frestas aos molhes tristes
Nos olhos que aos olhos do Douro vistes!
Pousada da Juventude, Porto
07.11.04 – 16:30 horas
ENIGMA DA GIOCONDA
Não tens nada para me dar
Que preste; nem felicidade sequer...
És a morte, o desejo a apagar
A peste, num sorriso de mulher!
MATEMÁTICAS DE MENTIRA E MISTÉRIO
Pela penumbra das pálpebras
Descaídas em desvãos de sono,
A bela cigana das ilhas, sem dono
Escorre na languidez das puras álgebras.
São restos de um grotesco diploma
O de percorrer a noite de bar em bar,
À procura do Zé-Ninguém ideal...
A pronúncia descai-lhe da boca insonsa
Num pútrido oco impróprio e venal
Com que se adorna o gesto no (f)acto de falar.
Porém, atentas as demais escutam
Postas nos recatos silenciosos dos vagares
Simples, inúteis, com a futilidade dos ares
De quem se esmera nas insignificâncias que calam!
À beira da areia, entre o oceano e o som
O vidro de matosinhos emoldura azuis
Atenta e discretamente azuis escutam o to
Os olhos, a blusa de gola alta, o sorriso inteiro
Livre, amplo, arrebitado de aberto.com
O kispo branco, as mãos pequenas sereias
Da noite a fazer-se pura em ondulados de mulher
E a ditar-nos que o futuro é o que for preciso
Para ter um mundo assim: do tamanho dum sorriso
Que se quer – assim, perdido em mim de crer
Em nenhum outro nem qualquer!
Foram-se as francesinhas há pouco
Esbatidas no caldo verde louco
Com água dos mortos e tosta,
Mas eis que o sinal do rosto
É padrão a marcar o gosto
De descobrir ternura a dar à costa...
Praia Passeio do Atlântico
07.11.04 – 01:12 horas
AO ESCOAR DA NUVEM
Em Serrralves é fácil deixar escorrer o verde
Expandir-se em amarelos torrados
Pelas bruscas inversões na paleta da espera
Pão de trigo das mulheres de pastel perdidas
No Rego das alinhadas possessões trágicas
Queijo de nevoeiros nos jardins interrogadores.
Tu dizias a nave entre o verde e o azul
Caído num outono magoado por estações confundidas.
Eu era apenas o imaginado de serviço
No pousar da folha sobre o terraço
A corroer o ritmo aos minutos da brisa soalheira,
A apontar o dedo ao esquecimento da partida
Colorindo desmaiadas vozes na clepsidra
Dum toque que decepava realidades...
Mesas de taberna com cadeiras de lona
À realizador sentadas sobre a arquitectura da tarde.
Foi um filme... Somente uma história de dor
A rodar para os gerêses de jamais!
AO AZUL DO AZUL DO OLHA(MA)R
(Paisagem com rosto, ou alucinação sobre a água
fervente num pôr do sol de Foz domingueira...)
Olha as gaivotas ali linhas de voo
O seu corte pontiagudo no diamantino céu
E cristal também plácido espelho
Das águas chispando (a)deuses.
Podes pedir-lhe a calma da tarde
Que não te recusarão o destino,
Porquanto é o corpo quem parte
Mas ficando nelas o olhar menino
Deste silêncio, líquido definido
Mascando ênfase no sonho corrompido
Pelo coração em sobressalto desatino
Com a vida e seus traidores reveses,
Que nos concede sempre o que às vezes
Apenas acidente supomos no puro linho...
Não apetece ainda o escurecer.
Há caminhamantes na marginal!
Mas o soslaio do sol fisga a Pousada
E põe na grama verde a linha escalada
De romper as frestas aos molhes tristes
Nos olhos que aos olhos do Douro vistes!
Pousada da Juventude, Porto
07.11.04 – 16:30 horas
ENIGMA DA GIOCONDA
Não tens nada para me dar
Que preste; nem felicidade sequer...
És a morte, o desejo a apagar
A peste, num sorriso de mulher!
MATEMÁTICAS DE MENTIRA E MISTÉRIO
Pela penumbra das pálpebras
Descaídas em desvãos de sono,
A bela cigana das ilhas, sem dono
Escorre na languidez das puras álgebras.
São restos de um grotesco diploma
O de percorrer a noite de bar em bar,
À procura do Zé-Ninguém ideal...
A pronúncia descai-lhe da boca insonsa
Num pútrido oco impróprio e venal
Com que se adorna o gesto no (f)acto de falar.
Porém, atentas as demais escutam
Postas nos recatos silenciosos dos vagares
Simples, inúteis, com a futilidade dos ares
De quem se esmera nas insignificâncias que calam!
12.17.2004
12.10.2004
Alexandre Carvalho Costa - um portalegrense das letras a quem a memória escondeu o nome
"Os como tu nunca morrem! E se o fizeram
Até à morte, distraídos, recitaram
Os poemas que a seus alunos, em vida, leram."
Do poema "Saudade - Três Anos de Ausência",
In O DISTRITO DE PORTALEGRE, nº6131, de 17 de Julho de 1986
Porque nada de novo existirá debaixo do sol (nihil novi sub sole) e sabendo que raramente se é original em matéria cujo suporte é sobretudo a memória, baseada no conhecimento enciclopédico, o lema da obra de Alexandre Carvalho Costa, como ele próprio gostava de referir, era "non nova, sed nove", por quanto desde cedo reconheceu que o labor obreiro das coisas da cultura e da linguística é de contínua reciclagem idiomática, semântica, cognitiva, sustentando-se essencialmente não pela sua originalidade, posto que não serão coisas nóveis nem recentes ao povo que tradicionalmente as acolhe e resguarda, mas sim apresentadas em novo formato ou maneira, e aí propostas como factor ilustrativo de alguma mudança na forma de as ver, entender e assumir.
Dessa legitimidade resultou vasta obra que alguns dela entenderam vislumbrar três vectores classificativos ( v.g. José Martins dos Santos Conde, que o enuncia num artigo publicado no Jornal Fonte Nova, nº 9, de 19 de Dezembro de 1984), caracterizados conforme a especialidade que denotavam.
Assim num primeiro vector, onde cabem os 14 volumes dos "Entretenimentos Etnográficos e Folclóricos", os dois volumes de "Lendas, Historietas, Etimologias Populares e Outras Etimologias Respeitantes às Cidades, Vilas, Aldeias, e Lugares de Portugal Continental" e de "Reflexões Etimológicas", as suas "Nótulas Etnográficas e Linguísticas Apresentadas em Expressões Populares", (publicadas inicialmente no "Boletim de Língua Portuguesa" - 1954 e 1957), "Gente de Portugal - Sua Linguagem, Seus Costumes", 3 Volumes, ou "Notas de Divulgação Linguística" e "Filólogos Portugueses e Notas Bibliográficas Desde o século XIX", de publicação fasciculada em rodapé do Distrito de Portalegre a partir de 1946.
Em outro patamar a parte dos estudos acerca da toponímia e antroponímia, de onde fazem especial relevância os trabalhos ou brochuras relativas às origens dos nomes de todas as freguesias e concelhos do distrito de Portalegre, e nele podem classificar-se títulos do cariz de "Toponímia Alentejana", inicialmente publicada no jornal Voz de Portalegre, "Gentílicos e Prolóquios Toponímicos Transtaganos" (1956), "Apodos Tópicos Transtaganos" (1967), "Gentílicos e Apodos de Portugal Continental" (1973), "Antroponómios - Origens e Significação", "Como é a Sua Graça? - Origem e Significação de Antroponómios", que exemplificam o quanto de laborioso se concerne ao procurarmo-nos nas ancestralidades do verbo que nos nomeia e nos dá entrada no universo gregário, sem o qual seríamos simplesmente ninguém.
E numa terceira vertente, as obras adstritas à sua actividade docente, que versam principalmente o estudo da língua e da literatura portuguesa, como o exemplificam os títulos, "Apontamentos de Língua Portuguesa" (Editora Educação Nacional - Porto, 1904), "Ninharias Literárias - Resumo de Algumas Obras dos Nossos Escritores" (Editora Educação Nacional- Porto, 1941), os diversos volumes das "Questões Sobre História da Literatura Portuguesa", quer as das Edições ASA, na Enciclopédia de Estudo (Porto - 1971, Porto - 1972 e Porto - 1977), como as da Livraria Atlântida Editora - Coimbra, 1972, ou As Notas Básicas à Margem da Gramática Portuguesa, edição dos Livros Horizonte - Lisboa, em 1985, cujos conteúdos são inegavelmente de extrema importância para quem se queira (ou dedique) exímio nas manigâncias da comunicação entre as gentes da lusofonia, as ideias da lusatinidade e os reflexos da nossa cultura entre os demais povos, sempre pronta a tomar novas atitudes e qualidades denunciando como nem apenas o tempo é constante (de mudança), como o sublinha "algures" o Luís Vaz da nossa camoniedade, a quem também os contratempos e as sevícias do poder instituído aventuraram na eternidade, fazendo jus a mais uma das grandes notícias versadas na Eneida, de Vergílio, destroçando a pertinácia à vulgaridade medíocre, e, quiçá, denunciando já aquilo que em Carvalho Costa se veio a confirmar: apparent rari nantes in gurgite vasto - ou seja, aparecem raros os nadadores do vasto abismo.
Biografia:
Natural de Alagoa, concelho e distrito de Portalegre, nascido a 31 de Março de 1908,filho de Joaquim Costa e de Maria Antónia Bruno de Carvalho Costa, fez a instrução primária na escola da sua freguesia e exame de admissão ao Liceu de Portalegre, em 1920, em que cursou Letras, e de onde seguiu (em 1928) para a Secção de Filologia Clássica da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, licenciando-se aí a 24 de Julho de 1934.
Consequência das dificuldades sistemáticas e corporativistas que caracterizavam o ensino de então, só vem a ingressar no público depois de tarimbar no privado, tendo passado sucessivamente pelo Colégio Nisense (Nisa, 1934-36), Colégio Nuno Álvares (Tomar, 1937-39), Colégio Contestável (Nisa, 1939-42), Colégio Nossa Senhora de Fátima (Castelo Branco, 1949-54), e no Colégio Elvense (Elvas, 1955-56).
A par da actividade docente, cuja vínculo adquire ao ser nomeado professor de serviço eventual do 1º Grupo do Liceu Nacional de Portalegre, a funcionar antigamente nas actuais instalações da ESEP (Escola Superior de Educação de Portalegre), conforme enuncia uma Portaria de 26 de Setembro de 1926, e após primeiros contactos com o ensino oficial nos dito Liceus de Portalegre (1936), Santarém (1939), Castelo Branco (1943) e Évora (1943), foi também bibliotecário conservador do Museu Municipal de Elvas (1955-1962), bibliotecário da Câmara Municipal de Portalegre em(....???), bem como colaborador do Diário da Manhã, da Revista de Língua Portuguesa, do Boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, d’O Distrito de Portalegre, Alentejo (Cabeço de Vide, 1933-34), Notícias de Vila Viçosa (1933), Castelovidense (Castelo de Vide), Brados do Alentejo (Estremoz, desde a sua fundação em 1931), Jornal de Elvas e Linhas de Elvas, e no Reconquista, de Castelo Branco.
Com pergaminhos e provas dadas na multidisciplinaridade, é todavia a filologia a sua grande paixão, conforme o atestam a grande maioria das obras de sua extensa bibliografia, mais ou menos 75 livros e brochuras, posto que haverá ainda três ou quatro por publicar (e todo o espólio por classificar e avaliar), e o explicitaram os seus pares, dos quais Reis Brasil (ou Dr. José Gomes Brás), Paulo Catarão Soromenho, Fernando Falcão Machado, Luís Chaves, Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca, entre outros. Faleceu em .............FALTA DATA!!!!!!!!
Por conseguinte, se, tal como afirmara o seu amigo Luís Chaves em jeito de prelúdio a "Gentílicos e Apodos Tópicos de Portugal Continental" (1973), "o espólio das idades e das suas culturas" é um "estudo cumulativo da história psicológica e linguística, até mesmo da literatura", então a bagagem formativa de Alexandre Carvalho Costa, a multidisciplinaridade e teoria da vida, quer a sua experiência pedagógica, como a do quotidiano convívio, foi sempre muito para além dos "saberes fazer" académicos com que se apetrechou, primeiro para desempenhar funções de amanuense do Governo civil de Castelo Branco, onde Carlos Garcia de Castro o vai contactar a primeira vez a fim de lhe solicitar os préstimos em explicações de Latim e Grego, e depois enquanto docente, articulista, bibliotecário, conservador museológico, filólogo e etnógrafo, amigo, crítico, etc.
Mas irremediavelmente vocacionado ao esquecimento público e institucional porque cometeu em vida o maior crime que os fundamentalistas supõem existir à face da terra (do céu e arredores), os apaniguados da sigla bíblica e defensores do "quem não é por mim é contra mim", que é o de, por lhe bastarem e preencher a existência os pormenores da sua gaia especialidade (a palavra e seus diferentes modos de uso), não se ter ilustrado na política nem ter angariado estatuto de vítima do regime ou de seu subscritor. Aliás hediondo crime este de ser gente a quem o humanismo não se equaciona na sua etiqueta partidária, pois lhe é apostrofada a dúvida rebelde, ou de opositor, mais depressa que a certeza acólita, criando-lhe voluntariosos adversários num lado e outro, demonstrando que isso de semear ventos para colher tempestades é já mentira grossa nos tempos que correm, pois que estar quietérrimo no seu canto ou no embalo das filólogas lides, pode muito bem trazer o mesmíssimo efeito. O que foi sobejamente confirmado por quantos com ele privaram, não só na tertúlia cavaqueira, como os Doutores Francisco Subtil, João Tavares, Manuel Ferreira, Luís Bacharel ou José Conde, mas igualmente os funcionários e alunos dos estabelecimentos de ensino onde exerceu o seu magistério, ou a este vosso apontador de casos, a quem nunca sonegou atenção, ajuda nos tratos do linguajar, nem polimento de etiqueta para as vestes gramaticais.
"Os como tu nunca morrem! E se o fizeram
Até à morte, distraídos, recitaram
Os poemas que a seus alunos, em vida, leram."
Do poema "Saudade - Três Anos de Ausência",
In O DISTRITO DE PORTALEGRE, nº6131, de 17 de Julho de 1986
Porque nada de novo existirá debaixo do sol (nihil novi sub sole) e sabendo que raramente se é original em matéria cujo suporte é sobretudo a memória, baseada no conhecimento enciclopédico, o lema da obra de Alexandre Carvalho Costa, como ele próprio gostava de referir, era "non nova, sed nove", por quanto desde cedo reconheceu que o labor obreiro das coisas da cultura e da linguística é de contínua reciclagem idiomática, semântica, cognitiva, sustentando-se essencialmente não pela sua originalidade, posto que não serão coisas nóveis nem recentes ao povo que tradicionalmente as acolhe e resguarda, mas sim apresentadas em novo formato ou maneira, e aí propostas como factor ilustrativo de alguma mudança na forma de as ver, entender e assumir.
Dessa legitimidade resultou vasta obra que alguns dela entenderam vislumbrar três vectores classificativos ( v.g. José Martins dos Santos Conde, que o enuncia num artigo publicado no Jornal Fonte Nova, nº 9, de 19 de Dezembro de 1984), caracterizados conforme a especialidade que denotavam.
Assim num primeiro vector, onde cabem os 14 volumes dos "Entretenimentos Etnográficos e Folclóricos", os dois volumes de "Lendas, Historietas, Etimologias Populares e Outras Etimologias Respeitantes às Cidades, Vilas, Aldeias, e Lugares de Portugal Continental" e de "Reflexões Etimológicas", as suas "Nótulas Etnográficas e Linguísticas Apresentadas em Expressões Populares", (publicadas inicialmente no "Boletim de Língua Portuguesa" - 1954 e 1957), "Gente de Portugal - Sua Linguagem, Seus Costumes", 3 Volumes, ou "Notas de Divulgação Linguística" e "Filólogos Portugueses e Notas Bibliográficas Desde o século XIX", de publicação fasciculada em rodapé do Distrito de Portalegre a partir de 1946.
Em outro patamar a parte dos estudos acerca da toponímia e antroponímia, de onde fazem especial relevância os trabalhos ou brochuras relativas às origens dos nomes de todas as freguesias e concelhos do distrito de Portalegre, e nele podem classificar-se títulos do cariz de "Toponímia Alentejana", inicialmente publicada no jornal Voz de Portalegre, "Gentílicos e Prolóquios Toponímicos Transtaganos" (1956), "Apodos Tópicos Transtaganos" (1967), "Gentílicos e Apodos de Portugal Continental" (1973), "Antroponómios - Origens e Significação", "Como é a Sua Graça? - Origem e Significação de Antroponómios", que exemplificam o quanto de laborioso se concerne ao procurarmo-nos nas ancestralidades do verbo que nos nomeia e nos dá entrada no universo gregário, sem o qual seríamos simplesmente ninguém.
E numa terceira vertente, as obras adstritas à sua actividade docente, que versam principalmente o estudo da língua e da literatura portuguesa, como o exemplificam os títulos, "Apontamentos de Língua Portuguesa" (Editora Educação Nacional - Porto, 1904), "Ninharias Literárias - Resumo de Algumas Obras dos Nossos Escritores" (Editora Educação Nacional- Porto, 1941), os diversos volumes das "Questões Sobre História da Literatura Portuguesa", quer as das Edições ASA, na Enciclopédia de Estudo (Porto - 1971, Porto - 1972 e Porto - 1977), como as da Livraria Atlântida Editora - Coimbra, 1972, ou As Notas Básicas à Margem da Gramática Portuguesa, edição dos Livros Horizonte - Lisboa, em 1985, cujos conteúdos são inegavelmente de extrema importância para quem se queira (ou dedique) exímio nas manigâncias da comunicação entre as gentes da lusofonia, as ideias da lusatinidade e os reflexos da nossa cultura entre os demais povos, sempre pronta a tomar novas atitudes e qualidades denunciando como nem apenas o tempo é constante (de mudança), como o sublinha "algures" o Luís Vaz da nossa camoniedade, a quem também os contratempos e as sevícias do poder instituído aventuraram na eternidade, fazendo jus a mais uma das grandes notícias versadas na Eneida, de Vergílio, destroçando a pertinácia à vulgaridade medíocre, e, quiçá, denunciando já aquilo que em Carvalho Costa se veio a confirmar: apparent rari nantes in gurgite vasto - ou seja, aparecem raros os nadadores do vasto abismo.
Biografia:
Natural de Alagoa, concelho e distrito de Portalegre, nascido a 31 de Março de 1908,filho de Joaquim Costa e de Maria Antónia Bruno de Carvalho Costa, fez a instrução primária na escola da sua freguesia e exame de admissão ao Liceu de Portalegre, em 1920, em que cursou Letras, e de onde seguiu (em 1928) para a Secção de Filologia Clássica da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, licenciando-se aí a 24 de Julho de 1934.
Consequência das dificuldades sistemáticas e corporativistas que caracterizavam o ensino de então, só vem a ingressar no público depois de tarimbar no privado, tendo passado sucessivamente pelo Colégio Nisense (Nisa, 1934-36), Colégio Nuno Álvares (Tomar, 1937-39), Colégio Contestável (Nisa, 1939-42), Colégio Nossa Senhora de Fátima (Castelo Branco, 1949-54), e no Colégio Elvense (Elvas, 1955-56).
A par da actividade docente, cuja vínculo adquire ao ser nomeado professor de serviço eventual do 1º Grupo do Liceu Nacional de Portalegre, a funcionar antigamente nas actuais instalações da ESEP (Escola Superior de Educação de Portalegre), conforme enuncia uma Portaria de 26 de Setembro de 1926, e após primeiros contactos com o ensino oficial nos dito Liceus de Portalegre (1936), Santarém (1939), Castelo Branco (1943) e Évora (1943), foi também bibliotecário conservador do Museu Municipal de Elvas (1955-1962), bibliotecário da Câmara Municipal de Portalegre em(....???), bem como colaborador do Diário da Manhã, da Revista de Língua Portuguesa, do Boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, d’O Distrito de Portalegre, Alentejo (Cabeço de Vide, 1933-34), Notícias de Vila Viçosa (1933), Castelovidense (Castelo de Vide), Brados do Alentejo (Estremoz, desde a sua fundação em 1931), Jornal de Elvas e Linhas de Elvas, e no Reconquista, de Castelo Branco.
Com pergaminhos e provas dadas na multidisciplinaridade, é todavia a filologia a sua grande paixão, conforme o atestam a grande maioria das obras de sua extensa bibliografia, mais ou menos 75 livros e brochuras, posto que haverá ainda três ou quatro por publicar (e todo o espólio por classificar e avaliar), e o explicitaram os seus pares, dos quais Reis Brasil (ou Dr. José Gomes Brás), Paulo Catarão Soromenho, Fernando Falcão Machado, Luís Chaves, Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca, entre outros. Faleceu em .............FALTA DATA!!!!!!!!
Por conseguinte, se, tal como afirmara o seu amigo Luís Chaves em jeito de prelúdio a "Gentílicos e Apodos Tópicos de Portugal Continental" (1973), "o espólio das idades e das suas culturas" é um "estudo cumulativo da história psicológica e linguística, até mesmo da literatura", então a bagagem formativa de Alexandre Carvalho Costa, a multidisciplinaridade e teoria da vida, quer a sua experiência pedagógica, como a do quotidiano convívio, foi sempre muito para além dos "saberes fazer" académicos com que se apetrechou, primeiro para desempenhar funções de amanuense do Governo civil de Castelo Branco, onde Carlos Garcia de Castro o vai contactar a primeira vez a fim de lhe solicitar os préstimos em explicações de Latim e Grego, e depois enquanto docente, articulista, bibliotecário, conservador museológico, filólogo e etnógrafo, amigo, crítico, etc.
Mas irremediavelmente vocacionado ao esquecimento público e institucional porque cometeu em vida o maior crime que os fundamentalistas supõem existir à face da terra (do céu e arredores), os apaniguados da sigla bíblica e defensores do "quem não é por mim é contra mim", que é o de, por lhe bastarem e preencher a existência os pormenores da sua gaia especialidade (a palavra e seus diferentes modos de uso), não se ter ilustrado na política nem ter angariado estatuto de vítima do regime ou de seu subscritor. Aliás hediondo crime este de ser gente a quem o humanismo não se equaciona na sua etiqueta partidária, pois lhe é apostrofada a dúvida rebelde, ou de opositor, mais depressa que a certeza acólita, criando-lhe voluntariosos adversários num lado e outro, demonstrando que isso de semear ventos para colher tempestades é já mentira grossa nos tempos que correm, pois que estar quietérrimo no seu canto ou no embalo das filólogas lides, pode muito bem trazer o mesmíssimo efeito. O que foi sobejamente confirmado por quantos com ele privaram, não só na tertúlia cavaqueira, como os Doutores Francisco Subtil, João Tavares, Manuel Ferreira, Luís Bacharel ou José Conde, mas igualmente os funcionários e alunos dos estabelecimentos de ensino onde exerceu o seu magistério, ou a este vosso apontador de casos, a quem nunca sonegou atenção, ajuda nos tratos do linguajar, nem polimento de etiqueta para as vestes gramaticais.
12.03.2004
In Consciência
Dissimulados, os homens
nus seus compridos capotes de teatrais dias
oblíquos passam pelo mundo e a passo
em deambulantes movimentos migratórios
a ausência-consciência
sacode-lhes a roupa interior.
Depois a sede, o fel, a morte
o desespero sentado
o Minotauro louco
absorto
embaraçado.
Dissimulados, os homens apressados
atravessam-se e em compasso
o mundo passa por eles.
Helder Faria
Dissimulados, os homens
nus seus compridos capotes de teatrais dias
oblíquos passam pelo mundo e a passo
em deambulantes movimentos migratórios
a ausência-consciência
sacode-lhes a roupa interior.
Depois a sede, o fel, a morte
o desespero sentado
o Minotauro louco
absorto
embaraçado.
Dissimulados, os homens apressados
atravessam-se e em compasso
o mundo passa por eles.
Helder Faria
11.24.2004
NO GOLFINHAR DOS OCASOS
És igualmente dos que nasceram desconstruídos
E ergueram a tarefa dos dias no sol a sol da vida.
Tens o cérebro pejado de centopeias ovovíparas
Enroladas sobre si, os teleodentritos a dar passou-
Bens umas às outras, conversando animadas
Como quem discute barbaridades da vizinhança.
Desenrolas-te em sinapses de silêncio contrafeito
Mas é sempre a ronronar que vociferas escondido
Na sugestão de uma elipse entre os ramos da fala.
Dizes bom dia, portanto para lá de todas as indormidas
Concavidades repletas de absoluto e creme solipsista,
Ideais de ventres inchados pela fome das gentes gentias
Inseguras aos impérios, rebeldes na voz, fiéis ao mar
Ao grito fastidioso das ondas na rebentação do dizer
Estremunhadas, a afugentar os sonhos, enleados esses
Que nem centopeias a dar os pés numa roda de dança.
E adormecer silêncios escondidos nas esquinas do córtex
Sapateando sílabas soltas à beira ecolalia de escorreitos sados!
CANDEIA DE ÁGUA
Aberto estás no estuário do dia
Mas as portas do sol-pôr
Quase cerradas pela baía
Oscilam ainda nos gonzos do passado.
Coloca a luz a Ocidente
E aguarda simplesmente o dourar
A voz de cada espiga cerce o mar.
Setúbal, 20.11.04 – 18 horas
És igualmente dos que nasceram desconstruídos
E ergueram a tarefa dos dias no sol a sol da vida.
Tens o cérebro pejado de centopeias ovovíparas
Enroladas sobre si, os teleodentritos a dar passou-
Bens umas às outras, conversando animadas
Como quem discute barbaridades da vizinhança.
Desenrolas-te em sinapses de silêncio contrafeito
Mas é sempre a ronronar que vociferas escondido
Na sugestão de uma elipse entre os ramos da fala.
Dizes bom dia, portanto para lá de todas as indormidas
Concavidades repletas de absoluto e creme solipsista,
Ideais de ventres inchados pela fome das gentes gentias
Inseguras aos impérios, rebeldes na voz, fiéis ao mar
Ao grito fastidioso das ondas na rebentação do dizer
Estremunhadas, a afugentar os sonhos, enleados esses
Que nem centopeias a dar os pés numa roda de dança.
E adormecer silêncios escondidos nas esquinas do córtex
Sapateando sílabas soltas à beira ecolalia de escorreitos sados!
CANDEIA DE ÁGUA
Aberto estás no estuário do dia
Mas as portas do sol-pôr
Quase cerradas pela baía
Oscilam ainda nos gonzos do passado.
Coloca a luz a Ocidente
E aguarda simplesmente o dourar
A voz de cada espiga cerce o mar.
Setúbal, 20.11.04 – 18 horas
11.17.2004
Ali bem perto um monte de gente os aguardava,
Mas a semi-noite dificultava a sua identificação...
Silenciavam-se sem esforço, e voava o pensamento;
Esperavam integrar-se naquele grupo que olhava,
A Era negra de trabalho em contínua produção
Com que a experiência ensina aos novos velhos ensinamentos.
E... juntos, mal provavam algum pirão atrasado
Aos repelões uns aos outros se formigavam,
Percorrendo a penumbra ainda curta da manhã,
Furando o cacimbo no ar quente semeado,
Humedecendo os trapos que as costuras aguentavam,
Assim iam... numa entristecida procissão cristã!
A distância a percorrer ainda longa do local
Onde a agricultura, as sementes germinavam
Floridas, enfrutecidas os aguardavam...
Era percorrida, empurrada bem ou mal
Pelas plantas dos pés febris... calçavam
A miséria dos suores sugados que a nada pagavam.
“Ani xocá ku tátê”...a manhã acordavam...
“Mutima kundundum”... o carreiro humedeciam...
Eram enormes as cruzes que os vergavam,
Feitas de madeira negra de tanta saudade,
Pregada pelo bater dos corações que choravam
Matando a sede à esperança na liberdade...
...Se a regra laboral obrigava a comunhão da experiência
Mandava também a saudade que se ensinasse
O cântico aprendido por muito se dizer e repetir,
A poucas gargantas no início, com reticências
Empurrando outras mais, e o coro aumentasse,
O cântico que o tempo gravava sempre a sentir...
Que nem formiguinhas juntas no carreiro
Ia-se da vista, no horizonte percorrendo,
Entre a mata e o céu ainda enegrecido,
Cintilando sumindo o som do berreiro
Dos capatazes, bem perto vigiando,
Cutucando um ou outro ser desfalecido...
Aos berros, cutuques e tropeços, empurrados
Aos campos de trabalho se chegava...
Enorme e a perder de vista na distância...
Ali as energias do corpo se mortificava
Em cada cavadela e em cada suspiro em cadência...
Em cada chicotada nos lombos bem suados...
Distribuídos os sachos por cada um dos contratados,
Lado a lado se enfileiravam à distância do medo,
Facilitando a sua vigilância sempre redobrada,
Percorrida cadentemente pelos capatazes a dedo,
Por traz das suas costas, dos corpos dobrados
Sobre os ventres doloridos pela força aplicada.
Dos cânticos irmanavam o consentimento,
Cantando, gritava-se ao questionável Senhor,
Cantando, chorava-se a arredia ajuda...
E... quanto mais se aprendia outro lamento
Outro cântico de saudade, até mesmo amor
Concluía-se que a liberdade afinal era surda.
A palmo de ombro a distância media-se
O suspirar e o cântico dos companheiros
Beijando a terra a compasso da enxada...
O seu bafo aquecido cheirava-se, sentia-se...
Ensalivando com o suor os secos canteiros
Sulcados nas faces ardentemente cavados.
A vegetação ali semeada, plantada, bem tratada,
Em altura, era maior que os corpos dobrados...
Que a sonolência ou distracção dos capatazes
Permitia aos seres ali depenicando, à porrada,
Desaparecerem do horizonte, por ela abraçados
Aliviando-lhes o sol que queimava os rapazes...
Seu lamento cantando,... pelo céu sumindo
O chicote nos lombos a esquartejar
A gritos dos capatazes praguejando e rindo
Do seu cansaço aumentado sem lamentar
O que a nada o seu suor lhes pagavam
A sua mescla de dor... e ainda cantavam...
Os dias e dias os corpos iam consumindo
O sol em fogo os corpos ia queimando
O cacimbo na pele os corpos derretendo
As lágrimas a dor no corpo dissolvendo
À chuva salgada as almas baptizando
Gotejavam o pó da terra seca... gemendo...
Eram meses e anos em esperas... esperando
O que se sentia jamais neles a libertar...
A esperança a tempo tornava-se mais pesada
Por tantas esperas com tanto tempo engordando
Tanto que os corpos se negavam a suportar
Adoecendo ou aventurando-se à caminhada.
Sem esperança no salário que endividava
Pelo desmedido preço da reles refeição do dia
Acumulando-se em espirais de escravidão e dor
Que, quanto mais no trabalho se escravizava
Maior se tornava a dívida do que não se comia
Eternizando-a, empenhando o corpo ao senhor-
Ali, tornava-se impossível a liberdade
Ali, a fé no trabalho mais desgraçava...
Ali, qualquer comportamento amordaçava
Ali, os deuses desistiam da sua religiosidade
Ali, nem sequer humano algum se habitava
Ali, a terra engolia os corpos que matava...
Os que se recusavam a adoecer suportando...
À caminhada que parecia incerta iam-se aventurando
E enquanto no valor da terra iam depenicando
Escondidos pela vegetação, aos pares fugiam
Tanto... mas tanto,... que os corações batiam
Nas gargantas ardentes e secas enquanto corriam...
O Cansaço e o terror obrigava-os a pararem
Arfando tanto que o silêncio era ameaçado...
Apuravam mais ainda os ouvidos escutando
Os fantasmas das cabeças ali a soltarem...,
A sede enorme queimava o corpo cansado
Tremiam no medo incerto incomodando...
Corriam e fugiam... loucamente corriam...
Entre montes e vales, rios e ribeiros,
Lavando, lagrimavam as feridas ardentes
Dos pés, que por onde pisar mal escolhiam
Esmagavam-se nas rochas e nos espinhos
Assustando os animais da selva... descrentes.
Se o cansaço físico e o dos sentidos vencessem
Escondiam-se ambos em silêncio arfando
Por entre as moitas perigosas da floresta
Para que os seus medos adormecessem
Naquele deserto de segurança ausentando
Que à morte se agigantava de escura infesta...
Se o dia amedrontava os bichos perigosos,
Também ameaçava a caminhada segura...
Se a noite os animais selvagens aguçava
Também os afastava dos caminhos duvidosos,
Naquelas almas a certeza era insegura
Tudo desconheciam e tudo os ameaçava...
Daquele terror sentiam um medo só
Nem nos bichos selvagens pensavam
Nem dos fantasmas da noite escura
Daqueles terrores um único medo só
Do retorno ao inferno que os infernavam
Naqueles homens que os viviam em tortura...
Dormitando no mato incerto e desconhecido
A penumbra da noite ambos iam aguardando
Enfraquecendo o físico desnutrido e a paciência...
Afinal a noite escura perturbava o sentido
Os animais selvagens e ferozes iam acordando
Guardava-os unicamente o sentido da proveniência...
A lua que nas suas terras ajudava à brincadeira
Enquanto meninos ela esticava a luz do dia
Na fuga desprotegia-os da penumbra requerida
E entregava-os aos olhos do horizonte inteiro
Arriscando-os à prisão que nenhum merecia
Aumentando a espera na ansiedade contida...
Entre esperas, desesperos e adormecimentos,...
Enquanto os raios da lua as estrelas atropelavam
Percorrendo o horizonte escuro até se esconder,
Iam-se assustando com as correrias e movimentos
Dos animais selvagens... os berros... os urros...caçavam
Pelos gemidos... caçados... sentiam-se a morrer...
O tempo não lhes dera seu pedaço para sentirem
Aqueles silêncios do mato que ali respiravam...
O zumbido de asas dos insectos a zumbirem...
As aves feias que na noite se encorajavam e cantavam
O cheiro da erva seca... a terra nas narinas a cheirarem...
Ocupavam-se de susto em susto enquanto aguardavam.
Finalmente a noite que esperavam, surgia...
Enegrecia todo o universo o negro de escuridão
Ao ponto de não verem o que e onde calcavam...
Quando as solas dos pés em anestesia
Não incomodavam, parecia que não havia chão
De tão escuro enegrecido,... “até flutuavam”...
Obrigavam então o corpo dolorido à caminhada
Não falavam mas entendiam-se pelo respirar
Com os mesmos pensamentos sem rumo iam...
Com a atenção alerta requerida e redobrada...
Distâncias desconhecidas sempre a andar
Sem sequer se lembrarem do que comiam.
Assolapando-se aqui e acolá no escuro chão
Pelos ruídos que aquelas almas desconheciam
Pelos ruídos que aqueles corpos rejeitavam
Angustiando-lhes a liberdade ainda obscura
Iam até uma estrada mais próxima encontrarem...
E, como bússola a ela se apegavam...
À sorte mentalmente escolhiam um norte
Olhando de um lado e outro lado do asfalto
Quer a norte quer a sul sumia-se no escuro
Com movimento automóvel de pouco porte...
De faróis ao longe alumiando o céu bem alto
Quer a norte quer a sul sumia-se no escuro.
Voltar atrás... já era impossível tal acção...,
Não porque se aumentasse neles o arrependimento
Não porque se não sentisse neles os cansaços...
O arrependimento, o cansaço e a desorientação
Enormes, que seriam suficientes no momento
À derrota e destruição dos seus passos...
Desconhecidos, conhecendo-se se amigavam
Sem promessas, naquele universo se aumentando,
Ambos, a medo... rebuscando outros caminhos...
Que,... de mãos dadas a desnorte tacteavam...
Pelo aquecido asfalto as areias esquentando
Os furos dos desgastados “nonkhakos” os pezinhos.
Perfurando aqueles profundos escuros,
A compasso das solas carcomidas pelo chão
Preenchido a semibreves de silêncios
Que os pulmões espremiam na respiração
Regulando ao coração seus batimentos
Caminhavam na pauta do futuro inseguro...
Manuel Angelo
Mas a semi-noite dificultava a sua identificação...
Silenciavam-se sem esforço, e voava o pensamento;
Esperavam integrar-se naquele grupo que olhava,
A Era negra de trabalho em contínua produção
Com que a experiência ensina aos novos velhos ensinamentos.
E... juntos, mal provavam algum pirão atrasado
Aos repelões uns aos outros se formigavam,
Percorrendo a penumbra ainda curta da manhã,
Furando o cacimbo no ar quente semeado,
Humedecendo os trapos que as costuras aguentavam,
Assim iam... numa entristecida procissão cristã!
A distância a percorrer ainda longa do local
Onde a agricultura, as sementes germinavam
Floridas, enfrutecidas os aguardavam...
Era percorrida, empurrada bem ou mal
Pelas plantas dos pés febris... calçavam
A miséria dos suores sugados que a nada pagavam.
“Ani xocá ku tátê”...a manhã acordavam...
“Mutima kundundum”... o carreiro humedeciam...
Eram enormes as cruzes que os vergavam,
Feitas de madeira negra de tanta saudade,
Pregada pelo bater dos corações que choravam
Matando a sede à esperança na liberdade...
...Se a regra laboral obrigava a comunhão da experiência
Mandava também a saudade que se ensinasse
O cântico aprendido por muito se dizer e repetir,
A poucas gargantas no início, com reticências
Empurrando outras mais, e o coro aumentasse,
O cântico que o tempo gravava sempre a sentir...
Que nem formiguinhas juntas no carreiro
Ia-se da vista, no horizonte percorrendo,
Entre a mata e o céu ainda enegrecido,
Cintilando sumindo o som do berreiro
Dos capatazes, bem perto vigiando,
Cutucando um ou outro ser desfalecido...
Aos berros, cutuques e tropeços, empurrados
Aos campos de trabalho se chegava...
Enorme e a perder de vista na distância...
Ali as energias do corpo se mortificava
Em cada cavadela e em cada suspiro em cadência...
Em cada chicotada nos lombos bem suados...
Distribuídos os sachos por cada um dos contratados,
Lado a lado se enfileiravam à distância do medo,
Facilitando a sua vigilância sempre redobrada,
Percorrida cadentemente pelos capatazes a dedo,
Por traz das suas costas, dos corpos dobrados
Sobre os ventres doloridos pela força aplicada.
Dos cânticos irmanavam o consentimento,
Cantando, gritava-se ao questionável Senhor,
Cantando, chorava-se a arredia ajuda...
E... quanto mais se aprendia outro lamento
Outro cântico de saudade, até mesmo amor
Concluía-se que a liberdade afinal era surda.
A palmo de ombro a distância media-se
O suspirar e o cântico dos companheiros
Beijando a terra a compasso da enxada...
O seu bafo aquecido cheirava-se, sentia-se...
Ensalivando com o suor os secos canteiros
Sulcados nas faces ardentemente cavados.
A vegetação ali semeada, plantada, bem tratada,
Em altura, era maior que os corpos dobrados...
Que a sonolência ou distracção dos capatazes
Permitia aos seres ali depenicando, à porrada,
Desaparecerem do horizonte, por ela abraçados
Aliviando-lhes o sol que queimava os rapazes...
Seu lamento cantando,... pelo céu sumindo
O chicote nos lombos a esquartejar
A gritos dos capatazes praguejando e rindo
Do seu cansaço aumentado sem lamentar
O que a nada o seu suor lhes pagavam
A sua mescla de dor... e ainda cantavam...
Os dias e dias os corpos iam consumindo
O sol em fogo os corpos ia queimando
O cacimbo na pele os corpos derretendo
As lágrimas a dor no corpo dissolvendo
À chuva salgada as almas baptizando
Gotejavam o pó da terra seca... gemendo...
Eram meses e anos em esperas... esperando
O que se sentia jamais neles a libertar...
A esperança a tempo tornava-se mais pesada
Por tantas esperas com tanto tempo engordando
Tanto que os corpos se negavam a suportar
Adoecendo ou aventurando-se à caminhada.
Sem esperança no salário que endividava
Pelo desmedido preço da reles refeição do dia
Acumulando-se em espirais de escravidão e dor
Que, quanto mais no trabalho se escravizava
Maior se tornava a dívida do que não se comia
Eternizando-a, empenhando o corpo ao senhor-
Ali, tornava-se impossível a liberdade
Ali, a fé no trabalho mais desgraçava...
Ali, qualquer comportamento amordaçava
Ali, os deuses desistiam da sua religiosidade
Ali, nem sequer humano algum se habitava
Ali, a terra engolia os corpos que matava...
Os que se recusavam a adoecer suportando...
À caminhada que parecia incerta iam-se aventurando
E enquanto no valor da terra iam depenicando
Escondidos pela vegetação, aos pares fugiam
Tanto... mas tanto,... que os corações batiam
Nas gargantas ardentes e secas enquanto corriam...
O Cansaço e o terror obrigava-os a pararem
Arfando tanto que o silêncio era ameaçado...
Apuravam mais ainda os ouvidos escutando
Os fantasmas das cabeças ali a soltarem...,
A sede enorme queimava o corpo cansado
Tremiam no medo incerto incomodando...
Corriam e fugiam... loucamente corriam...
Entre montes e vales, rios e ribeiros,
Lavando, lagrimavam as feridas ardentes
Dos pés, que por onde pisar mal escolhiam
Esmagavam-se nas rochas e nos espinhos
Assustando os animais da selva... descrentes.
Se o cansaço físico e o dos sentidos vencessem
Escondiam-se ambos em silêncio arfando
Por entre as moitas perigosas da floresta
Para que os seus medos adormecessem
Naquele deserto de segurança ausentando
Que à morte se agigantava de escura infesta...
Se o dia amedrontava os bichos perigosos,
Também ameaçava a caminhada segura...
Se a noite os animais selvagens aguçava
Também os afastava dos caminhos duvidosos,
Naquelas almas a certeza era insegura
Tudo desconheciam e tudo os ameaçava...
Daquele terror sentiam um medo só
Nem nos bichos selvagens pensavam
Nem dos fantasmas da noite escura
Daqueles terrores um único medo só
Do retorno ao inferno que os infernavam
Naqueles homens que os viviam em tortura...
Dormitando no mato incerto e desconhecido
A penumbra da noite ambos iam aguardando
Enfraquecendo o físico desnutrido e a paciência...
Afinal a noite escura perturbava o sentido
Os animais selvagens e ferozes iam acordando
Guardava-os unicamente o sentido da proveniência...
A lua que nas suas terras ajudava à brincadeira
Enquanto meninos ela esticava a luz do dia
Na fuga desprotegia-os da penumbra requerida
E entregava-os aos olhos do horizonte inteiro
Arriscando-os à prisão que nenhum merecia
Aumentando a espera na ansiedade contida...
Entre esperas, desesperos e adormecimentos,...
Enquanto os raios da lua as estrelas atropelavam
Percorrendo o horizonte escuro até se esconder,
Iam-se assustando com as correrias e movimentos
Dos animais selvagens... os berros... os urros...caçavam
Pelos gemidos... caçados... sentiam-se a morrer...
O tempo não lhes dera seu pedaço para sentirem
Aqueles silêncios do mato que ali respiravam...
O zumbido de asas dos insectos a zumbirem...
As aves feias que na noite se encorajavam e cantavam
O cheiro da erva seca... a terra nas narinas a cheirarem...
Ocupavam-se de susto em susto enquanto aguardavam.
Finalmente a noite que esperavam, surgia...
Enegrecia todo o universo o negro de escuridão
Ao ponto de não verem o que e onde calcavam...
Quando as solas dos pés em anestesia
Não incomodavam, parecia que não havia chão
De tão escuro enegrecido,... “até flutuavam”...
Obrigavam então o corpo dolorido à caminhada
Não falavam mas entendiam-se pelo respirar
Com os mesmos pensamentos sem rumo iam...
Com a atenção alerta requerida e redobrada...
Distâncias desconhecidas sempre a andar
Sem sequer se lembrarem do que comiam.
Assolapando-se aqui e acolá no escuro chão
Pelos ruídos que aquelas almas desconheciam
Pelos ruídos que aqueles corpos rejeitavam
Angustiando-lhes a liberdade ainda obscura
Iam até uma estrada mais próxima encontrarem...
E, como bússola a ela se apegavam...
À sorte mentalmente escolhiam um norte
Olhando de um lado e outro lado do asfalto
Quer a norte quer a sul sumia-se no escuro
Com movimento automóvel de pouco porte...
De faróis ao longe alumiando o céu bem alto
Quer a norte quer a sul sumia-se no escuro.
Voltar atrás... já era impossível tal acção...,
Não porque se aumentasse neles o arrependimento
Não porque se não sentisse neles os cansaços...
O arrependimento, o cansaço e a desorientação
Enormes, que seriam suficientes no momento
À derrota e destruição dos seus passos...
Desconhecidos, conhecendo-se se amigavam
Sem promessas, naquele universo se aumentando,
Ambos, a medo... rebuscando outros caminhos...
Que,... de mãos dadas a desnorte tacteavam...
Pelo aquecido asfalto as areias esquentando
Os furos dos desgastados “nonkhakos” os pezinhos.
Perfurando aqueles profundos escuros,
A compasso das solas carcomidas pelo chão
Preenchido a semibreves de silêncios
Que os pulmões espremiam na respiração
Regulando ao coração seus batimentos
Caminhavam na pauta do futuro inseguro...
Manuel Angelo
11.02.2004
AS COGITAÇÕES DE XERAZADE (3)
Reza por reza, então, cá vai!...
Foi-nos garantido pela Comissão Europeia que, além de não cumprirmos três dos mais sonantes critérios do Pacto de Estabilidade (défice de 3%, dívida de 60% do PIB e descida do défice estrutural de meio ponto), bateremos o recorde dos países em march'atrás, porquanto o nosso nível de vida, embora o nível de vida médio europeu tenha sido recalibrado por baixo com o alargamento aos 25, sofrerá contínua descida até 2006, pelo menos, altura em que a relação PIB per capita descambará até aos 72,7 %, sendo de supor todavia que não se fique por aí nos anos consequentes, mas sim que mantenha a embalagem de queda, pois que o relatório mais não adianta nem vaticina, provavelmente com a explícita intenção de dar a Fátima os créditos por milagre nos quatro anos que faltam aos dez primeiros do III Milénio. E tanto faz reclamarmos como não, que os números são impávidos e não se deixam comover com rezas ou velas, ainda que os políticos tenham feito tanta cera que dê para fabricar uma do tamanho de Portugal, para oferecer à Senhora a fim de a influenciar no milagre da nossa recuperação, e que Cavaco acenderia com boa fé desde que pudesse chegar-lhe o facho presidencial ao pavio!... (O que se me assemelha a mais um milagre, se considerarmos que se não é eleito somente pelas sondagens Expresso-Sic mas sim por votos expressos em urna, e que não é lá pelo facto de a Direita ter já quatro candidatos ao cargo - Freitas do Amaral, Marcelo Rebelo de Sousa e Pinto Balsemão, ainda que este seja só para disfarçar, como os cabelinhos na anedota do ovo - "qual é a coisa, qual é ela, que cai no chão fica amarela e com três cabelinhos à volta", lembram-se?!... -, e a Esquerda nenhum que a primeira ganhará, visto que se a segunda apresentar alguém que reuna consenso, torna indubitavelmente verídico o ditado popular de que "caga mais um boi que mil mosquitos", batendo logo à primeira volta Cavaco ou qualquer outro!)
Portanto, seria de bom tom que se acabasse de vez com a pistoleirice política, aliás prática igualmente pronunciada com o pedido de ratificação referendária, em que os políticos já aceitaram o Tratado de Constituição Europeia, mas querem agora que em Maio lhe batamos com um "sim" na suã, para que se garanta a substancial entrada de fundos que eles continuarão a repartir entre si, estando-se bem lixando para qualidade de vida, vontade de cidadania, direitos e liberdades dos demais portugueses, sobretudo dos trabalhadores por conta de outrem e empresários, que além de condenados a verem desbaratar a receita dos impostos e contribuições, terão que continuar a assistir à ostensiva riqueza dos gestores públicos, autarcas, ministérios e dirigentes vários, quer nos chalés de luxo das arrábidas que constróem no nosso parque, quer nas frotas topo de gama em que se locomovem.
Porque se ao povo são ouvidas as preces e rezas, é bem provável que o marquês venha cá a baixo outra vez, e torne inoperantes as teorias prevalecentes da conspiração cabalística, do bode expiatório, do braço de ferro político, do princípio do contraditório, da profundidade utópica ou da recuperação medieval esclavagista, tudo numa assentada e só acto da peça denominada simplesmente pelo "DESPERTAR DOS MÁGICOS" - ou aqueles que acreditam ser possível mudar o status quo, e não se sentem vocacionados para eternas vítimas do sistema, ainda que democrático lhe chamem, à falta de melhor termo com que classificar a oligarquia político-económico-religiosa reinante.
Principalmente porque se nos mandam rezar a gente pode radicalizar, e pedir também nas preces que a Senhora nos liberte igualmente de políticos, e, ouvidos nos pedidos, Fátima nos contemple com o milagre, que é coisa assim parecida com as bruxas de Unamuno, que não se crêem existir mas que sem dúvida há! Pois.
Reza por reza, então, cá vai!...
Foi-nos garantido pela Comissão Europeia que, além de não cumprirmos três dos mais sonantes critérios do Pacto de Estabilidade (défice de 3%, dívida de 60% do PIB e descida do défice estrutural de meio ponto), bateremos o recorde dos países em march'atrás, porquanto o nosso nível de vida, embora o nível de vida médio europeu tenha sido recalibrado por baixo com o alargamento aos 25, sofrerá contínua descida até 2006, pelo menos, altura em que a relação PIB per capita descambará até aos 72,7 %, sendo de supor todavia que não se fique por aí nos anos consequentes, mas sim que mantenha a embalagem de queda, pois que o relatório mais não adianta nem vaticina, provavelmente com a explícita intenção de dar a Fátima os créditos por milagre nos quatro anos que faltam aos dez primeiros do III Milénio. E tanto faz reclamarmos como não, que os números são impávidos e não se deixam comover com rezas ou velas, ainda que os políticos tenham feito tanta cera que dê para fabricar uma do tamanho de Portugal, para oferecer à Senhora a fim de a influenciar no milagre da nossa recuperação, e que Cavaco acenderia com boa fé desde que pudesse chegar-lhe o facho presidencial ao pavio!... (O que se me assemelha a mais um milagre, se considerarmos que se não é eleito somente pelas sondagens Expresso-Sic mas sim por votos expressos em urna, e que não é lá pelo facto de a Direita ter já quatro candidatos ao cargo - Freitas do Amaral, Marcelo Rebelo de Sousa e Pinto Balsemão, ainda que este seja só para disfarçar, como os cabelinhos na anedota do ovo - "qual é a coisa, qual é ela, que cai no chão fica amarela e com três cabelinhos à volta", lembram-se?!... -, e a Esquerda nenhum que a primeira ganhará, visto que se a segunda apresentar alguém que reuna consenso, torna indubitavelmente verídico o ditado popular de que "caga mais um boi que mil mosquitos", batendo logo à primeira volta Cavaco ou qualquer outro!)
Portanto, seria de bom tom que se acabasse de vez com a pistoleirice política, aliás prática igualmente pronunciada com o pedido de ratificação referendária, em que os políticos já aceitaram o Tratado de Constituição Europeia, mas querem agora que em Maio lhe batamos com um "sim" na suã, para que se garanta a substancial entrada de fundos que eles continuarão a repartir entre si, estando-se bem lixando para qualidade de vida, vontade de cidadania, direitos e liberdades dos demais portugueses, sobretudo dos trabalhadores por conta de outrem e empresários, que além de condenados a verem desbaratar a receita dos impostos e contribuições, terão que continuar a assistir à ostensiva riqueza dos gestores públicos, autarcas, ministérios e dirigentes vários, quer nos chalés de luxo das arrábidas que constróem no nosso parque, quer nas frotas topo de gama em que se locomovem.
Porque se ao povo são ouvidas as preces e rezas, é bem provável que o marquês venha cá a baixo outra vez, e torne inoperantes as teorias prevalecentes da conspiração cabalística, do bode expiatório, do braço de ferro político, do princípio do contraditório, da profundidade utópica ou da recuperação medieval esclavagista, tudo numa assentada e só acto da peça denominada simplesmente pelo "DESPERTAR DOS MÁGICOS" - ou aqueles que acreditam ser possível mudar o status quo, e não se sentem vocacionados para eternas vítimas do sistema, ainda que democrático lhe chamem, à falta de melhor termo com que classificar a oligarquia político-económico-religiosa reinante.
Principalmente porque se nos mandam rezar a gente pode radicalizar, e pedir também nas preces que a Senhora nos liberte igualmente de políticos, e, ouvidos nos pedidos, Fátima nos contemple com o milagre, que é coisa assim parecida com as bruxas de Unamuno, que não se crêem existir mas que sem dúvida há! Pois.
10.28.2004
AS COGITAÇÕES DE XERAZADE (1)
"As bombas vêm de fogo, e juntamente
As panelas sulfúreas, tão danosas;
Porém aos de Vulcano não consente
Que dêem fogo às bombardas temerosas;
Porque o generoso ânimo e valente,
Entre gentes tão poucas e medrosas,
Não mostra quanto pode; e com razão:
Que é fraqueza entre ovelhas ser leão."
(Luís Vaz e Camões, in OS LUSÍADAS)
É cada vez mais notória a influência que os políticos tiveram na ideia de instrumentalização dos órgãos de comunicação: popularizou-se em termos perniciosos e geniais. Agora, toda a gente pensa que é legítimo servir-se desta sempre que precisa dela para mostrar a sua argumentação contra as injustiças, embora ninguém se deixe ver quando está em causa. Foi assim em Coimbra, quando os estudantes estavam a levar solha da polícia, que os envolvidos chamaram a atenção das televisões para os factos, mas depois tentaram tapar as câmaras com jornais e mãos na altura da libertação do estudante preso e/ou agredido. Seguiu-se o mesmo, mas de forma inversa, em que o sargento da GNR nunca se manifestou até à altura em que foi sentenciado, após o que, intencional e propositadamente, se dirigiu às televisões presentes para passar o recado da sua inocência aos pais. Idem no caso do 1º ministro quando quis falar à nação acerca de tudo e nada, e principalmente demonstrar o seu incómodo perante o caso Marcelo Rebelo de Sousa, de que se manifestou vítima absoluta, comentador que a usou quanto achou por bem, e todavia alimentou tabu desde a sua demissão da TVI até ontem, quarta-feira expectante, a gozar em pleno as cinzentas cinzas duma tempestade anunciada.
Não se sabe ao certo onde se chegará, com a relativa apetência pelos mass media, mas é de supor que não voltaremos a descobrir o caminho marítimo (e de progresso tecnológico) para as Índias, ou sociedade do conhecimento, porquanto de há muito outros valores se "alevantaram". Até porque prevista no roteiro está a dimensão europeia, com o seu tratado constitutivo e moderato modus vivendi social, apetrechado por todos os compromissos de convergência e legislação que a suporta. Algo anda realmente mal no reino das comarcas, e muito dificilmente se passará esponja conciliadora sobre o pó da memória de suas recentes intervenções, decisões e (in)consequências. Além do que suas majestades, os políticos do status quo vigente, agarrados que estão ao baronato, se não apercebem que estão debaixo da mirada dos eleitores, que não andam assim tão distraídos como aparentam e que se não se manifestam é somente porque reconhecem a enorme fragilidade do poder, dando-lhe corda para se enforcar, sobretudo a classe média arrolada como principal pagadora das crises, e que mantém em pena suspensa os últimos desmandos governamentais: taxas moderadoras, lei das rendas, colocação de professores, distribuição arbitrária da verba orçamental, que lesa substancialmente os sectores da educação, saúde, trabalho e segurança social, atirando para o saco sem fundo do desperdício algumas reformas em curso sem terem chegado ao fim, e, por conseguinte, não colmataram ou resolveram os problemas que as geraram.
Hoje, quando me levantei, ainda os cães da madrugada ladravam. Indistintos os reflexos da aurora, ditavam, pouco a pouco, que a pressão censória dos grupos económicos, dos partidos políticos e dos corpos colegiais de algumas instituições do Estado, é indesmentivelmente eficaz sobre os fazedores de opinião, e que esta é um obstáculo (facilmente removível, ao que parece) para a consolidação de estratégias de promiscuidade entre os governos, entidades financeiras e as administrações da maioria dos órgãos de comunicação portugueses. Que o presidente da nossa república sabia o que se estava a passar, mas preferiu honrar o compromisso de sigilo duma conversa que tivera em privado, e fechar-se em copas, preferindo assistir de camarote ao desenrolar dos acontecimentos, ou a garantir que uma instituição de Abril, a Liberdade de Expressão, se mantivesse intacta. Que o Parlamento pode ser instrumentalizado por grupos económicos exteriores consoante as suas necessidades de financiamento, e que as cabalas involuntárias são uma ficção paranóide susceptível de activar a capacidade e precisão afirmativa do criancismo ministerial. Que Santana Lopes não acertou à primeira, e que se prepara para recuar, fazendo uma remodelação do governo, mas agora tarde, a más horas e à semelhança do que o seu antecessor (Durão Barroso) terá feito em Estrasburgo, embora que por motivos diversos, pois que enquanto o presidente político da Europa o faz para evitar dissabores, o primeiro ministro será para remediar e limpar o serviço que fez. Que as pessoas, principalmente os gestores e presidentes administrativos, deixam de o ser logo que não estejam nas instalações das empresas e institutos que gerem, mesmo que estejam a jantar com amigos num hotel qualquer e durante essa refeição não falem de outra coisa senão da actividade da empresa, dos seus negócios, estratégias, dificuldades, fundamentos e objectivos. Que tudo aquilo que é pode ser e não ser ao mesmo tempo, segundo a nova lógica da sociedade de comunicação. E que se os jornalistas se andaram a formar para fazer bem o seu serviço, parvos foram eles, visto que a única regra deontológica que rege a sua actividade é a visão que o proprietário tem de órgão de comunicação, assim como das suas estratégias administrativas pontuais.
Ou seja: não é de admirar que qualquer borra-botas popular se ache no direito de determinar o que é ou não é noticiável, exigir das câmaras e dos jornalistas que lhe sirvam os argumentos, interesses, propaganda, jocosidade lamechas, receios e recados, visto que toda a gente com responsabilidades políticas, económicas, religiosas, empresariais, financeiras, de reitorias, associações de estudantes, dirigentes de clubes de futebol, da coisa e da ordem pública, criminalidade e quejandos, instalados nos meandros do poder de decisão, considera que é para isso mesmo (e só isso) que eles servem: para os convocarem e acorrerem lestos, sorridentes e prazenteiros, sempre que algum deles está com o rabiosque às bufas! Para os aliviar nas exigentes tarefas da hegemonia e ajudar a construir o seu imperiosinho napoleóptico! Enfim, para ouvir as preces, de quem até já a Fátima foi, e não obteve milagre... Principalmente porque sabem, que se lhe acenarem com parangonas e chavões, eles caem, e aos saltinhos eles vão; pois como diziam Camões, entre ovelhas, santos, santinhos e madonas, é grande fraqueza ser-se leão!
AS COGITAÇÕES DE XERAZADE (2)
Sem dúvida estaremos a construir a nossa desgraça, com a benfazeja acomodação às agendas capitais, oriundas do parlamento, governo, presidência e tribunais, e a embarcar no mesmo jogo alienatório que sustentou a vida à filha do grã-vizir que, não obstante saber do juramento do sultão em se não deitar mais do que uma noite com a mesma mulher, para lhe tirar a vida no dia seguinte, preferiu usufruir as honras do seu leito, arriscando a existência por um capricho da esperança e elevado crédito nas qualidades da narrativa. No entanto, é sobejamente conhecido, que o risco é uma profissão segura para quem supõe que o presente não passa de um futuro a fazer-se ontem, com os sobressaltos correspondentes, as arrelias concomitantes e os desaforos que o tempo (relógio) biológico nos tem de há muito reservados. Por isso, em pleito do tem que ser, adiantemos mais um capítulo, antes que o capitular se nos imponha.
E por diversas razões, mas sobretudo por uma. Porque de igual modo nos pode acontecer o que ao Orlando Cardoso (OC), de Pombal, sucedeu; que o apagaram do mapa on line, o despediram do emprego, e lhe queimaram a reputação, a fim de que mais ninguém o admita ao seu serviço, com receio de quantas sevícias lhe reservem pela ousadia. Ali, no coração de Portugal, à beirinha do pinhal de Leiria!
Segundo reza o mail que o próprio emitiu, na sequência do caso Marcelo, tinha OC um blog, que administrava com perícia e desenvoltura tamanha que nos dois meses de existência abichara 6 700 visitas, além da entrada na ordem do dia em conversas e comentários pé de esquina, o que o tornara incómodo para a edilidade local. Ora, tendo a empresa em que o bloguista trabalhava negócios com a autarquia, o edil visado não esteve com meias medidas e pressionou o empresário a despedir o energúmeno, o terrorista, o franco-atirador, o escolho, o Cheguevara do Litoral, o ferrabrás, o agitador, que lhe empecilhava os mandos municipais, denunciando-os como desmandos. É claro que o facto deste ter dois filhos para criar e cuidar, mulher desempregada, e letras para pagar, o não demoveu de caciquismos obsoletos e antidemocráticos, mas antes, pelo contrário, o inspirou tamanha fragilidade do incauto comunicador, para fazer-se valer da sua posição de autarca e político do partido da governação, logo de peso e apoiado parlamentarmente, e assim remover o obstáculo que lhe obstruía as vias narcísicas à sua napoleidade. O que considera legítimo e praticável, porquanto vê como enorme injustiça o ser-se ameaçado um imperador no seu próprio império, agravada ainda esta com a possibilidade de lho altercarem e subtraírem... Até porque segundo a engenharia maquiavélica da sua mente possessa, não pode haver imperador sem império, nem trono sem chibata!(Aliás, ideia comungada pela maioria dos (pseudo) empresários da comunicação, ao considerar os comentadores, analistas, opinion makers, simples e insignificantes assalariados ao seu dispor, mão-de-obra barata para faltas, quedas nos rankings e quebras de audiência, testas-de-ferro para intimidar políticos, críticos e concorrência, cabos de guerra com título de "amigos", carne para canhão e propriedade sua, utensílios de arremesso para as demandas pessoais, estratégicas e de tráfico e influências. Que sustenta que um órgão é um órgão do seu corpo capital, e não qualquer instância de caridade de onde a prática do bem, das boas maneiras, falas e intenções, lá por ter já gerado um primeiro ministro e um secretário geral do principal partido da oposição, não quer com isso dizer que se arrisque na repetição da manobra, assim de borla e ingenuamente, em produzir também um presidente da república - ainda que dos bananas!... Porque dono é dono, mesmo que só do feijão preto que lhe meteram no cu, para aprender a andar sem deixar cair tudo quanto tem e seu - pelo menos consoante o que diz o povo, clarificando sabiamente que "se dermos dez tostões a um pobre, criaremos um soberbo" -, e os donos da comunicação social, directores, proprietários e editores, acham absolutamente normal puxar as orelhas aos comentadores, chamar-lhes a atenção para o que dizem, como o fazem e sobre quem, ou despedi-los desde que suspeitem estarem a ameaçar-lhes os negócios e/ou prestígio.)
Agora, o curioso da questão, é que este caso, além de inscrito na linha de crimes contra a Liberdade de Expressão no nosso país, leva-nos para um outro campo, que é o da credibilidade do suporte electrónico e da validade legal dos documentos emitidos ou recebidos por esta via. Ou seja: nenhum político, empresário, legalista, gestor, reconhece como válidas as comunicações (electrónicas) de natureza digital, equiparadas nos efeitos com aquilo que se atribui a uma carta registada ou fax, de notificação, rescisão de contratos, prova factual, mas é passível de validade e reconhecida eficácia na divulgação de conhecimentos científicos e didácticos, de publicidade e negócio, de propaganda e promoção divina, territorial e cultural.
(CONTINUA...)
"As bombas vêm de fogo, e juntamente
As panelas sulfúreas, tão danosas;
Porém aos de Vulcano não consente
Que dêem fogo às bombardas temerosas;
Porque o generoso ânimo e valente,
Entre gentes tão poucas e medrosas,
Não mostra quanto pode; e com razão:
Que é fraqueza entre ovelhas ser leão."
(Luís Vaz e Camões, in OS LUSÍADAS)
É cada vez mais notória a influência que os políticos tiveram na ideia de instrumentalização dos órgãos de comunicação: popularizou-se em termos perniciosos e geniais. Agora, toda a gente pensa que é legítimo servir-se desta sempre que precisa dela para mostrar a sua argumentação contra as injustiças, embora ninguém se deixe ver quando está em causa. Foi assim em Coimbra, quando os estudantes estavam a levar solha da polícia, que os envolvidos chamaram a atenção das televisões para os factos, mas depois tentaram tapar as câmaras com jornais e mãos na altura da libertação do estudante preso e/ou agredido. Seguiu-se o mesmo, mas de forma inversa, em que o sargento da GNR nunca se manifestou até à altura em que foi sentenciado, após o que, intencional e propositadamente, se dirigiu às televisões presentes para passar o recado da sua inocência aos pais. Idem no caso do 1º ministro quando quis falar à nação acerca de tudo e nada, e principalmente demonstrar o seu incómodo perante o caso Marcelo Rebelo de Sousa, de que se manifestou vítima absoluta, comentador que a usou quanto achou por bem, e todavia alimentou tabu desde a sua demissão da TVI até ontem, quarta-feira expectante, a gozar em pleno as cinzentas cinzas duma tempestade anunciada.
Não se sabe ao certo onde se chegará, com a relativa apetência pelos mass media, mas é de supor que não voltaremos a descobrir o caminho marítimo (e de progresso tecnológico) para as Índias, ou sociedade do conhecimento, porquanto de há muito outros valores se "alevantaram". Até porque prevista no roteiro está a dimensão europeia, com o seu tratado constitutivo e moderato modus vivendi social, apetrechado por todos os compromissos de convergência e legislação que a suporta. Algo anda realmente mal no reino das comarcas, e muito dificilmente se passará esponja conciliadora sobre o pó da memória de suas recentes intervenções, decisões e (in)consequências. Além do que suas majestades, os políticos do status quo vigente, agarrados que estão ao baronato, se não apercebem que estão debaixo da mirada dos eleitores, que não andam assim tão distraídos como aparentam e que se não se manifestam é somente porque reconhecem a enorme fragilidade do poder, dando-lhe corda para se enforcar, sobretudo a classe média arrolada como principal pagadora das crises, e que mantém em pena suspensa os últimos desmandos governamentais: taxas moderadoras, lei das rendas, colocação de professores, distribuição arbitrária da verba orçamental, que lesa substancialmente os sectores da educação, saúde, trabalho e segurança social, atirando para o saco sem fundo do desperdício algumas reformas em curso sem terem chegado ao fim, e, por conseguinte, não colmataram ou resolveram os problemas que as geraram.
Hoje, quando me levantei, ainda os cães da madrugada ladravam. Indistintos os reflexos da aurora, ditavam, pouco a pouco, que a pressão censória dos grupos económicos, dos partidos políticos e dos corpos colegiais de algumas instituições do Estado, é indesmentivelmente eficaz sobre os fazedores de opinião, e que esta é um obstáculo (facilmente removível, ao que parece) para a consolidação de estratégias de promiscuidade entre os governos, entidades financeiras e as administrações da maioria dos órgãos de comunicação portugueses. Que o presidente da nossa república sabia o que se estava a passar, mas preferiu honrar o compromisso de sigilo duma conversa que tivera em privado, e fechar-se em copas, preferindo assistir de camarote ao desenrolar dos acontecimentos, ou a garantir que uma instituição de Abril, a Liberdade de Expressão, se mantivesse intacta. Que o Parlamento pode ser instrumentalizado por grupos económicos exteriores consoante as suas necessidades de financiamento, e que as cabalas involuntárias são uma ficção paranóide susceptível de activar a capacidade e precisão afirmativa do criancismo ministerial. Que Santana Lopes não acertou à primeira, e que se prepara para recuar, fazendo uma remodelação do governo, mas agora tarde, a más horas e à semelhança do que o seu antecessor (Durão Barroso) terá feito em Estrasburgo, embora que por motivos diversos, pois que enquanto o presidente político da Europa o faz para evitar dissabores, o primeiro ministro será para remediar e limpar o serviço que fez. Que as pessoas, principalmente os gestores e presidentes administrativos, deixam de o ser logo que não estejam nas instalações das empresas e institutos que gerem, mesmo que estejam a jantar com amigos num hotel qualquer e durante essa refeição não falem de outra coisa senão da actividade da empresa, dos seus negócios, estratégias, dificuldades, fundamentos e objectivos. Que tudo aquilo que é pode ser e não ser ao mesmo tempo, segundo a nova lógica da sociedade de comunicação. E que se os jornalistas se andaram a formar para fazer bem o seu serviço, parvos foram eles, visto que a única regra deontológica que rege a sua actividade é a visão que o proprietário tem de órgão de comunicação, assim como das suas estratégias administrativas pontuais.
Ou seja: não é de admirar que qualquer borra-botas popular se ache no direito de determinar o que é ou não é noticiável, exigir das câmaras e dos jornalistas que lhe sirvam os argumentos, interesses, propaganda, jocosidade lamechas, receios e recados, visto que toda a gente com responsabilidades políticas, económicas, religiosas, empresariais, financeiras, de reitorias, associações de estudantes, dirigentes de clubes de futebol, da coisa e da ordem pública, criminalidade e quejandos, instalados nos meandros do poder de decisão, considera que é para isso mesmo (e só isso) que eles servem: para os convocarem e acorrerem lestos, sorridentes e prazenteiros, sempre que algum deles está com o rabiosque às bufas! Para os aliviar nas exigentes tarefas da hegemonia e ajudar a construir o seu imperiosinho napoleóptico! Enfim, para ouvir as preces, de quem até já a Fátima foi, e não obteve milagre... Principalmente porque sabem, que se lhe acenarem com parangonas e chavões, eles caem, e aos saltinhos eles vão; pois como diziam Camões, entre ovelhas, santos, santinhos e madonas, é grande fraqueza ser-se leão!
AS COGITAÇÕES DE XERAZADE (2)
Sem dúvida estaremos a construir a nossa desgraça, com a benfazeja acomodação às agendas capitais, oriundas do parlamento, governo, presidência e tribunais, e a embarcar no mesmo jogo alienatório que sustentou a vida à filha do grã-vizir que, não obstante saber do juramento do sultão em se não deitar mais do que uma noite com a mesma mulher, para lhe tirar a vida no dia seguinte, preferiu usufruir as honras do seu leito, arriscando a existência por um capricho da esperança e elevado crédito nas qualidades da narrativa. No entanto, é sobejamente conhecido, que o risco é uma profissão segura para quem supõe que o presente não passa de um futuro a fazer-se ontem, com os sobressaltos correspondentes, as arrelias concomitantes e os desaforos que o tempo (relógio) biológico nos tem de há muito reservados. Por isso, em pleito do tem que ser, adiantemos mais um capítulo, antes que o capitular se nos imponha.
E por diversas razões, mas sobretudo por uma. Porque de igual modo nos pode acontecer o que ao Orlando Cardoso (OC), de Pombal, sucedeu; que o apagaram do mapa on line, o despediram do emprego, e lhe queimaram a reputação, a fim de que mais ninguém o admita ao seu serviço, com receio de quantas sevícias lhe reservem pela ousadia. Ali, no coração de Portugal, à beirinha do pinhal de Leiria!
Segundo reza o mail que o próprio emitiu, na sequência do caso Marcelo, tinha OC um blog, que administrava com perícia e desenvoltura tamanha que nos dois meses de existência abichara 6 700 visitas, além da entrada na ordem do dia em conversas e comentários pé de esquina, o que o tornara incómodo para a edilidade local. Ora, tendo a empresa em que o bloguista trabalhava negócios com a autarquia, o edil visado não esteve com meias medidas e pressionou o empresário a despedir o energúmeno, o terrorista, o franco-atirador, o escolho, o Cheguevara do Litoral, o ferrabrás, o agitador, que lhe empecilhava os mandos municipais, denunciando-os como desmandos. É claro que o facto deste ter dois filhos para criar e cuidar, mulher desempregada, e letras para pagar, o não demoveu de caciquismos obsoletos e antidemocráticos, mas antes, pelo contrário, o inspirou tamanha fragilidade do incauto comunicador, para fazer-se valer da sua posição de autarca e político do partido da governação, logo de peso e apoiado parlamentarmente, e assim remover o obstáculo que lhe obstruía as vias narcísicas à sua napoleidade. O que considera legítimo e praticável, porquanto vê como enorme injustiça o ser-se ameaçado um imperador no seu próprio império, agravada ainda esta com a possibilidade de lho altercarem e subtraírem... Até porque segundo a engenharia maquiavélica da sua mente possessa, não pode haver imperador sem império, nem trono sem chibata!(Aliás, ideia comungada pela maioria dos (pseudo) empresários da comunicação, ao considerar os comentadores, analistas, opinion makers, simples e insignificantes assalariados ao seu dispor, mão-de-obra barata para faltas, quedas nos rankings e quebras de audiência, testas-de-ferro para intimidar políticos, críticos e concorrência, cabos de guerra com título de "amigos", carne para canhão e propriedade sua, utensílios de arremesso para as demandas pessoais, estratégicas e de tráfico e influências. Que sustenta que um órgão é um órgão do seu corpo capital, e não qualquer instância de caridade de onde a prática do bem, das boas maneiras, falas e intenções, lá por ter já gerado um primeiro ministro e um secretário geral do principal partido da oposição, não quer com isso dizer que se arrisque na repetição da manobra, assim de borla e ingenuamente, em produzir também um presidente da república - ainda que dos bananas!... Porque dono é dono, mesmo que só do feijão preto que lhe meteram no cu, para aprender a andar sem deixar cair tudo quanto tem e seu - pelo menos consoante o que diz o povo, clarificando sabiamente que "se dermos dez tostões a um pobre, criaremos um soberbo" -, e os donos da comunicação social, directores, proprietários e editores, acham absolutamente normal puxar as orelhas aos comentadores, chamar-lhes a atenção para o que dizem, como o fazem e sobre quem, ou despedi-los desde que suspeitem estarem a ameaçar-lhes os negócios e/ou prestígio.)
Agora, o curioso da questão, é que este caso, além de inscrito na linha de crimes contra a Liberdade de Expressão no nosso país, leva-nos para um outro campo, que é o da credibilidade do suporte electrónico e da validade legal dos documentos emitidos ou recebidos por esta via. Ou seja: nenhum político, empresário, legalista, gestor, reconhece como válidas as comunicações (electrónicas) de natureza digital, equiparadas nos efeitos com aquilo que se atribui a uma carta registada ou fax, de notificação, rescisão de contratos, prova factual, mas é passível de validade e reconhecida eficácia na divulgação de conhecimentos científicos e didácticos, de publicidade e negócio, de propaganda e promoção divina, territorial e cultural.
(CONTINUA...)
10.25.2004
OS RATOS
De: António Moncada Sousa Mendes.
Encenação: José Mascarenhas.
Cenografia e figurinos: Sónia Tavares.
Interpretação: Adriano Bailadeira, Rui Ferreira e Verónica Barata.
Luminotécnica: Armando Mafra.
Sonoplastia: Hélio Pereia.
Vozes off: Susana Teixeira e José Mascarenhas.
Em exibição na Igreja de S. Francisco, em Portalegre, nos dias úteis às 21:30 horas, e matinée aos domingos, até finais de Novembro.
A propósito desta peça, é legítimo sublinhar três aspectos primordiais (encenação, modernidade do discurso e trabalho dos actores), que lhe emprestam notória mais-valia.
PRIMEIRO - Num ambiente de cave, underground, tipo bunker do blitz, atelier de Jô, pintor neo-expressionista e obscuro das particularidades da angústia e desesperança universais, e Bill, autor diletante e multitalentoso, formam os ângulos base do triângulo (quase amoroso) cujo vértice é Maria, uma emigrante polaca, tão desejável quão desprotegida, órfã, ou tão despudorada quanto ingénua, casadoira, com problemas de Visto à perna e solução conjugal em vista, como recurso previsto para permanecer nos EUA, a democracia dos seus encantamentos. É um mundo fechado, calafetado, comprometido com o individualismo solitário da criação plástica, ensimesmado nos afazeres e preocupações de um artista que desacreditou nas grandes causas, desiludido com os sistemas e as políticas, com os valores humanos, mas extraordinariamente dependente, quer dos produtos alienatórios, como droga, álcool, aparelhos de comunicação, como dos afectos, tanto, que até os quadros que pinta, e que evidenciam a angústia primária da incomunicabilidade, são normalmente retocados por Bill, estimulados pelas considerações deste, onde a guerra dos mundos, não obstante a actualidade do momento, continua a chegar via rádio, embora que também transformado em despertador, à semelhança do que Orson Wells terá feito, através do contacto comercial com a mercearia ou bar da esquina, ou pelo morse sapateado de uma figura do leste, que vive no piso acima e lhe acende as expectativas de romance, ou lhe anuncia a perestróika, a solidariedade e o fim da guerra fria, e a quem ele deixa bilhetinhos à porta.
SEGUNDO - Neto de Aristides de Sousa Mendes, cônsul português que à revelia do Estado Novo facultou a fuga da Europa a milhares de judeus durante a II Guerra, autor de outras peças já representadas pela CTP/Companhia de Teatro de Portalegre ("OS DEGRAUS DA FORCA", em 2001, "EMIGRANTES", em 1997, e "ARISTIDES, O CÔNSUL QUE DESOBEDECEU", em 1996), António envereda pela reposição de um diálogo urbano onde a realidade é reflexo da emergência globalista, reproduzindo na súmula os principais momentos que marcaram a história da humanidade no último quartel do século XX.
(continua...)
CONTE COMIGO
De António Torrado
Encenação de Victor Pires
Cenografia e figurinos de Sónia Tavares
Luminotécnica de Armando Mafra
Sonoplastia de Hélio Pereira
Elenco: Adriano Bailadeira (Lourenço), Rui Ferreira (Carlos), Susana Teixeira (Laura), Verónica Barata (Maquilhadora), Armando Mafra (Realizador), Hélio Pereira (Câmara Man)e Maria Ricardo (Voz Off).
Suficientemente conhecido e reconhecido dos meios intelectuais, artísticos e académicos para demais referências biográficas, António Torrado narra nesta peça, caracteristicamente uma comédia de enganos, numa ambiência de talk-show telivisivo, "as fronteiras resvaladiças entre amizades e amores, alguns fantasmas sexuais e as desprogramações do comportamento afectivo dos 30 para os 40 anos", num encadeado jogo de equívocos, onde "a aparência de verdade se esconde sob a aparência de mentira" e vice-versa, demonstrando quanto as imagens virtuais são passíveis de despenhar-se "no chão da realidade", cujos estilhaços atingem inicialmente as vedetas mediáticas, como a enunciada no apresentador Lourenço, tão seguro e sedutor mas igualmente frágil e desamparado, e posteriormente todos os personagens, desde os técnicos do programa e estação televisiva, até aos ausentes, como no caso da esposa do apresentador, que nunca entra em cena mas que é uma das principais agentes do processo narrativo.
No imbricado universo de cenário dum mass media que pretende iluminar com luz fulcral e irónica as sombras e bastidores da nossa actualidade, esta peça em dois actos, em que o directo serve quase de separador entre ambos, relata os escaparates da traição conjugal, infundada mas fundamentada, confessada pela vítima (Laura, esposa de Carlos) ao suposto motivador dela (Lourenço, marido de Sofia),alvitrando para uma relação homossexual entre os dois amigos de longa data, desvendando assim um dos seus mais profundos receios, ou do marido a haver trocado por outrem, e logo um homem!, terrível infâmia, que de certo modo lhe obstruem a visão da realidade, quedando-se por desconfiar do absurdo para esconder o óbvio: que o Carlos tinha uma paixão, sim, mas com outra mulher. E que mulher!...
Por ser turno, Lourenço, o imaculado e brilhante apresentador de TV, a braços com a urgência profissional de pôr no ar mais uma das suas pérolas criativas, que lhe começa a correr pessimamente, fica trancado nos estúdios, a sua redoma de defesa, logo totalmente à mercê da inesperada revelação da mulher do seu melhor amigo (e admirador), sucumbe às suas ancestrais dúvidas sobre o carácter da sua masculinidade, vacila, claudica, entra em ruptura de personalidade, revelando o lado obscuro do seu brilhantismo, põe a nu a mácula não revelada pela sua face pública, associa condições e situações inassociáveis, enreda-se nas desconfianças de Laura, perde a áurea de espectacular apresentador, e, quando no final do programa recebe a anunciada visita de Carlos, que lhe vem confessar "algo igualmente inconfessável", é defrontado, além de com uma nova ordem de arrumação de conceitos existenciais, também com a constatação de que entre amizades antigas um engano nuca vem só, e que se é verdade que a traição de Carlos a Laura tem algo a ver com ele, é simplesmente porque ela é praticada desde longa data com a sua mulher, que ele pressupunha fiel, apagada e submissa esposa, mas que brilha numa outra esfera, sem ribaltas nem destaques, que é a de transformar tendências recalcadas em presentes assumidos e consumados. Enfim, uma peça que trabalha a percepção do espectador por socalcos de significação, ou níveis de compreensão, cuja acção principal acontece fora de cena, mas nem por isso diminui a hilaridade duma comédia que nos leva essencialmente a desacreditar nas aparências. Sobretudo, nas de semântica. E no (encadeado) jogo de réplicas que remontam a um quotidiano que nos é (invulgarmente) familiar, porquanto nos entra portas adentro sempre que a TV é ligada e compramos alguma revista dela, sobre ela, de diz-que-disse nela, que reflicta o mundo do espectáculo e da telenovela.
(NOTA: Esta peça estará em cena, em Elvas, no Cineteatro, dia 7 de Novembro, às 16 horas)
De: António Moncada Sousa Mendes.
Encenação: José Mascarenhas.
Cenografia e figurinos: Sónia Tavares.
Interpretação: Adriano Bailadeira, Rui Ferreira e Verónica Barata.
Luminotécnica: Armando Mafra.
Sonoplastia: Hélio Pereia.
Vozes off: Susana Teixeira e José Mascarenhas.
Em exibição na Igreja de S. Francisco, em Portalegre, nos dias úteis às 21:30 horas, e matinée aos domingos, até finais de Novembro.
A propósito desta peça, é legítimo sublinhar três aspectos primordiais (encenação, modernidade do discurso e trabalho dos actores), que lhe emprestam notória mais-valia.
PRIMEIRO - Num ambiente de cave, underground, tipo bunker do blitz, atelier de Jô, pintor neo-expressionista e obscuro das particularidades da angústia e desesperança universais, e Bill, autor diletante e multitalentoso, formam os ângulos base do triângulo (quase amoroso) cujo vértice é Maria, uma emigrante polaca, tão desejável quão desprotegida, órfã, ou tão despudorada quanto ingénua, casadoira, com problemas de Visto à perna e solução conjugal em vista, como recurso previsto para permanecer nos EUA, a democracia dos seus encantamentos. É um mundo fechado, calafetado, comprometido com o individualismo solitário da criação plástica, ensimesmado nos afazeres e preocupações de um artista que desacreditou nas grandes causas, desiludido com os sistemas e as políticas, com os valores humanos, mas extraordinariamente dependente, quer dos produtos alienatórios, como droga, álcool, aparelhos de comunicação, como dos afectos, tanto, que até os quadros que pinta, e que evidenciam a angústia primária da incomunicabilidade, são normalmente retocados por Bill, estimulados pelas considerações deste, onde a guerra dos mundos, não obstante a actualidade do momento, continua a chegar via rádio, embora que também transformado em despertador, à semelhança do que Orson Wells terá feito, através do contacto comercial com a mercearia ou bar da esquina, ou pelo morse sapateado de uma figura do leste, que vive no piso acima e lhe acende as expectativas de romance, ou lhe anuncia a perestróika, a solidariedade e o fim da guerra fria, e a quem ele deixa bilhetinhos à porta.
SEGUNDO - Neto de Aristides de Sousa Mendes, cônsul português que à revelia do Estado Novo facultou a fuga da Europa a milhares de judeus durante a II Guerra, autor de outras peças já representadas pela CTP/Companhia de Teatro de Portalegre ("OS DEGRAUS DA FORCA", em 2001, "EMIGRANTES", em 1997, e "ARISTIDES, O CÔNSUL QUE DESOBEDECEU", em 1996), António envereda pela reposição de um diálogo urbano onde a realidade é reflexo da emergência globalista, reproduzindo na súmula os principais momentos que marcaram a história da humanidade no último quartel do século XX.
(continua...)
CONTE COMIGO
De António Torrado
Encenação de Victor Pires
Cenografia e figurinos de Sónia Tavares
Luminotécnica de Armando Mafra
Sonoplastia de Hélio Pereira
Elenco: Adriano Bailadeira (Lourenço), Rui Ferreira (Carlos), Susana Teixeira (Laura), Verónica Barata (Maquilhadora), Armando Mafra (Realizador), Hélio Pereira (Câmara Man)e Maria Ricardo (Voz Off).
Suficientemente conhecido e reconhecido dos meios intelectuais, artísticos e académicos para demais referências biográficas, António Torrado narra nesta peça, caracteristicamente uma comédia de enganos, numa ambiência de talk-show telivisivo, "as fronteiras resvaladiças entre amizades e amores, alguns fantasmas sexuais e as desprogramações do comportamento afectivo dos 30 para os 40 anos", num encadeado jogo de equívocos, onde "a aparência de verdade se esconde sob a aparência de mentira" e vice-versa, demonstrando quanto as imagens virtuais são passíveis de despenhar-se "no chão da realidade", cujos estilhaços atingem inicialmente as vedetas mediáticas, como a enunciada no apresentador Lourenço, tão seguro e sedutor mas igualmente frágil e desamparado, e posteriormente todos os personagens, desde os técnicos do programa e estação televisiva, até aos ausentes, como no caso da esposa do apresentador, que nunca entra em cena mas que é uma das principais agentes do processo narrativo.
No imbricado universo de cenário dum mass media que pretende iluminar com luz fulcral e irónica as sombras e bastidores da nossa actualidade, esta peça em dois actos, em que o directo serve quase de separador entre ambos, relata os escaparates da traição conjugal, infundada mas fundamentada, confessada pela vítima (Laura, esposa de Carlos) ao suposto motivador dela (Lourenço, marido de Sofia),alvitrando para uma relação homossexual entre os dois amigos de longa data, desvendando assim um dos seus mais profundos receios, ou do marido a haver trocado por outrem, e logo um homem!, terrível infâmia, que de certo modo lhe obstruem a visão da realidade, quedando-se por desconfiar do absurdo para esconder o óbvio: que o Carlos tinha uma paixão, sim, mas com outra mulher. E que mulher!...
Por ser turno, Lourenço, o imaculado e brilhante apresentador de TV, a braços com a urgência profissional de pôr no ar mais uma das suas pérolas criativas, que lhe começa a correr pessimamente, fica trancado nos estúdios, a sua redoma de defesa, logo totalmente à mercê da inesperada revelação da mulher do seu melhor amigo (e admirador), sucumbe às suas ancestrais dúvidas sobre o carácter da sua masculinidade, vacila, claudica, entra em ruptura de personalidade, revelando o lado obscuro do seu brilhantismo, põe a nu a mácula não revelada pela sua face pública, associa condições e situações inassociáveis, enreda-se nas desconfianças de Laura, perde a áurea de espectacular apresentador, e, quando no final do programa recebe a anunciada visita de Carlos, que lhe vem confessar "algo igualmente inconfessável", é defrontado, além de com uma nova ordem de arrumação de conceitos existenciais, também com a constatação de que entre amizades antigas um engano nuca vem só, e que se é verdade que a traição de Carlos a Laura tem algo a ver com ele, é simplesmente porque ela é praticada desde longa data com a sua mulher, que ele pressupunha fiel, apagada e submissa esposa, mas que brilha numa outra esfera, sem ribaltas nem destaques, que é a de transformar tendências recalcadas em presentes assumidos e consumados. Enfim, uma peça que trabalha a percepção do espectador por socalcos de significação, ou níveis de compreensão, cuja acção principal acontece fora de cena, mas nem por isso diminui a hilaridade duma comédia que nos leva essencialmente a desacreditar nas aparências. Sobretudo, nas de semântica. E no (encadeado) jogo de réplicas que remontam a um quotidiano que nos é (invulgarmente) familiar, porquanto nos entra portas adentro sempre que a TV é ligada e compramos alguma revista dela, sobre ela, de diz-que-disse nela, que reflicta o mundo do espectáculo e da telenovela.
(NOTA: Esta peça estará em cena, em Elvas, no Cineteatro, dia 7 de Novembro, às 16 horas)
10.19.2004
OS RATOS
Companhia de Teatro de Portalegre
Igreja de S. Francisco
22.10.2004 – 21:30 horas
Companhia de Teatro de Portalegre
Igreja de S. Francisco
22.10.2004 – 21:30 horas
"- Não vou conseguir pensar. Não vou conseguir trabalhar.
- Nada vai interferir no teu trabalho mais do que o suicídio. "
Anda-me a cabeça à roda com o silêncio ruidoso do Marcelo (MRS), mas continuo a não permitir que alguém, seja quem for e por motivos mais bem intencionados que tenha, me pergunte a idade. Sobretudo porque não interessa, porque não quero saber dela, nem conta absolutamente para nada. Porque é simplesmente a suficiente e necessária para viver, porquanto já nasci e ainda não me chegou aos ouvidos a notícia da minha morte. Daí que no dia 22 deste mês, sexta-feira, vá ao teatro, à estreia de OS RATOS, peça inédita de António Moncada de Sousa Mendes – sim, exactamente esse, o familiar do português que salvou de morte certa milhares de judeus durante o reinado nazi –, encenada por José Mascarenhas, representada por Verónica Barata, Rui Ferreira e Adriano Bailadeira, com cenografia de Sónia Tavares, luminotécnica de Armando Mafra e sonoplastia de Hélio Pereira.
E porquê? Porque prefiro os dramas urbanos que debatem a actualidade, a representação dos triângulos amorosos de disputa por uma fémea, a questionação da guerra, dos interesses petrolíferos e fecais da alta finança, a deixar-me apodrecer de tédio na fumaça punheteira dos bares, encharcando-me de shots rodeado de putéfias baratas, escanzeladas que dão a greta ou fazem broche por um charro e 20 paus, ou conviver mesas meias com artistas esquizofrénicos fumadores de haxixe, cuja afectada criatividade advém e depende exclusivamente da quantidade de droga aspirada.
Bem como também não perderei, igualmente, o monólogo de Sarah Kane, intitulado "4:48 PSICOSE - Ou talvez não seja assim...", dito por Rui Ferreira, no dia 4 de Novembro, provavelmente na sala polivalente 1, da Biblioteca Municipal, profunda e maquiavelicamente underground, urbano, mas que reflecte a outra parte (estragada) da história da humanidade, aquela das pessoas perdidas no caos do universo, alimentadas pelo fogo e febre do medo e ansiedade, capazes de se autodestruírem, e que preferem atirar-se de encontro à morte a arderem no quotidiano da vida, que lhes é tão terrivelmente surpreendente que nunca se sentem estar preparados para a consolidarem em si. Porque essa personagem que se quer matar artisticamente pelas três maneiras possíveis e mais eficazes de se fazer (envenenamento, corte de pulsos e enforcamento), todas ao mesmo tempo, como quem usa três chaves e três fechaduras para se fechar por dentro da mesma porta, é o espelho desses alguéns anónimos, insignificantes e descartáveis, pessoas que têm tanto medo do que se passa lá fora que se previnem e garantem que jamais isso as venha a penetrar, lhes entre em casa por descuido ou permissão, preferindo morrer intoxicadas de solidão e abandono, a correr semelhantes riscos de contágio do outro. Peça que é uma sinfonia a solo
às 4:48
hora feliz
quando a claridade visita
a escuridão quente
que alaga os olhos
de uma dramaturga inglesa que se suicidou em Londres, sua cidade natal (03.02.1971), a 20 de Fevereiro de 1999, talvez traçando a saga precoce do futuro da humanidade a braços com a descaracterização genética da espécie, com a redução do seu quociente de deslumbramento, e para quem a vida não é mais aquele palco onde se representa a suprema loucura de nela acreditar, propõe o lúdico do ilúdico na aspereza
de quem às 4:48
quando o desespero a visitar
se enforcará
ao som da respiração do seu amante.
Um momento a que quer fugir mas já não quer fugir. Porque algumas pessoas se supõem terem nascido sem soluções para contrariar as contrariedades, e se entregam por inteiro aos seus fados, e se imolam na febre dos seus temores, ou se arrepiam ao sabor dos inversos, Sarah Kane a primeira autora maldita do século XXI, profaniza o silêncio dos sem-voz, dos que desconseguiram a fome, o afecto, o sono, o apetite sexual, a vontade de comunicar, e em desespero reconstroem cada etapa da sua vida à semelhança da rejeição activa e falta de educação democrática de que foram alvo na infância, atirando-os para a experiência rebelde, agressiva, provocadora, quezilenta, afectivamente instável, da qual foram obrigados a socorrer-se para não perecer prematuramente, mas a que sucumbem finalmente num acto "trágico" como estes últimos momentos duma existência reflectem, na imbricada elaboração da mente psicótica, em exercício de futurologia do que pouco mais tarde veio a suceder com a autora.
Principalmente porque quando se tem medo da solidão, ou do mal que se pode fazer a si próprio quando se está definitivamente sozinho, também se procura ensaiá-la até aos seus derradeiros limites, no desespero duma aposta de tudo ou nada, mas com a certeza de que algo chega "finalmente" ao fim, sobretudo esse doer crónico sem causa aparente que é a moléstia da alma, alicerçada na canga química e farmacológica em que se sobrevive, e onde o ser nunca é, posto que subjugado à alucinação contínua, eis que 4:48 se consolida como o magnânimo instante de uma epopeia atribulada, circunscrita numa vida intensa mas desordenada, sem rumo explícito e indubitavelmente vincada pela falha consciência dos projectos de sustentação, dependente do imediatismo consumista da felicidade, quiçá a todo o custo.
Marcadamente artaudiano, mas com referências de Brecht, Beckett, Pinter, esta psicose com hora certa à precisão do minuto, é a consumação de uma forma de estar na arte como na vida, que nunca se podem desligar uma da outra nem interpenetrar-se mutuamente, que não se limita ao figurativo em obra, ou no faz-de-conta dramático, e antes insiste em arrastar para as vozes representantes o que se passará directamente na mente da autora, dos seus estádios emocionais e escores de acuidade, das suas relações com a doença e as terapias consequentes, nomeadamente com a enumeração dos fármacos que estão adjacentes (Setralina, Zoplicone, Melleril, Citalopram, Fluoxefina, Thorazine, Venlafaxine, etc.), incluindo as reacções e discurso dos psicoterapeutas, a cru, sem concessões estético-metafóricas, impondo a cadência desgarrada, solta, anacrónica, caótica, de quem já não pretende nem finge querer seduzir, querer agradar a um público ou colectividade, e opta por sinalizar apenas a nebulosa em que habita, sublinhando simplesmente algumas poeiras mais concentráveis, esporadicamente agrupando-as em cintilações de esperança e compreensão possíveis, podendo até configurar-se em óbvias constelações, rematando a criação completa (as anteriores são RUÍNAS, O AMOR DE FEDRA, PURIFICADOS E FALTA, não havendo registo de qualquer outra depois de PSICOSE) duma dramaturga que teve a eleição de encenadores do gabarito de Peter Zadek, Bernard Sobel, Jean-Marie P., Barbara Naviti, Thomas Ostermeier, Vicky Featherstone, João Fiadeiro, Jorge de Silva Melo, Nelson de Sá, entre muitos outros por esse mundo fora.
(Mas não só. Até porque estão programadas para Novembro as representações de CONTE COMIGO, no dia 7, ERA UMA VEZ, dia 14, OLEANNA - de que se seguem abaixo mais algumas informações complementares -, dia 21 e OS RATOS, dia 28, em Elvas, no Cineteatro desta cidade, e sempre às 16 horas, bem como a reposição destas e doutras peças numa mostra que sucederá pelos finais deste ano, quando se reinstalar a CTP na Igreja de Santa Clara, actualmente quase reconstruída e reparada, deixando definitivamente as instalações provisórias em S. Francisco, onde ainda está.)
Oleanna – a peça de Mamet com uma contemporaneidade desgraçada
Entrevista com Adriano Bailadeira que a encena para o Teatro de Portalegre
David Mamet (n. em Chicago, a 30.11.1947), é um autor neo-realista norte-americano cujo estilo de linguagem marcadamente naturalista tem vindo a ser comparado com escritores da nomeada de um Ernest Hemingway, do irlandês Samuel Beckett, do inglês Harold Pinter ou do dramaturgo grego Aristophanes, galardoado com os prémios Village Voice Obie (1983, por Edmond), os Pulitzer Drama e Pulitzer da Crítica, em 1984, contemplando essencialmente Glengarry Glen Ross. Enquanto romancista, ensaísta, argumentista – faceta pela qual é mais conhecido em Portugal dada a sua assinatura em O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, O Veredicto, Os Intocáveis, Jogo Fatal e As Coisas Mudam, por exemplo, posto que dos dois últimos filmes é também o director exclusivo –, realizador cinematográfico e dramaturgo, esteve durante a década de 70 associado ao movimento regional de teatro de Chicago, influências que jamais renunciou, e devem-se-lhe títulos como American Buffalo (1977), Praire du Chien (1978), Some Freaks (1989), Lakeboat (1980), The Village (1995), The Crytogram ou Dangerous Corner (1995), entre muitos outros, e de Oleanna, publicado em 1992 e adaptado a cinema em 1994, igualmente sob a sua direcção.
Oleanna é uma peça de teatro que se desenrola no gabinete claustrofóbico dum professor universitário, sumidade exemplar da máxima racionalidade, que vive num mundo preciso, previsível, regular, estabilizado, mas que é de súbito afectado pela presença duma aluna (Carol) que lhe está nos antípodas, pela sua fragilidade, insegurança, carência emocional e cognitiva, dependente do sucesso escolar, no que ambos se vêem enredados e compelidos para a intrincada trama do dogma, da lei e da teia de normas do sistema de ensino. Estreará entre nós em Fevereiro, através da Companhia de Teatro de Portalegre (CTP), ali à Igreja de S. Francisco, com representação ao cuidado de Victor Pires (professor) e Susana Teixeira (aluna). Mas a encenação é de Adriano Bailadeira, cursado em Turismo e Termalismo, na Escola Superior de Educação de Portalegre, em Teatro, pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, em Técnica de Máscara, por Filipe Crawford, e actualmente a frequentar o curso de Estudos Teatrais na Universidade de Évora, que ainda antigo estagiário no CTP participou em Leonel (em 1994, uma adaptação dramática a partir do Príncipe com Orelhas de Burro, de Régio), O Jardim Público (de Jaime Salazar Sampaio, em 1995) e Ursos e Cisnes (de Tchecov, no mesmo ano), que integrou o elenco de séries televisivas como A Raia dos Medos (RTP, 1999), Uma Aventura (SIC, 2000) e Espírito da Lei (SIC, 2000), que participou na Real Caçada ao Sol (de Peter Shaffer, no Teatro Nacional D. Maria II, 2000) e Os Bons Malandros, adaptação e encenação de Paula Pedregal da Crónica dos Bons Malandros, de Mário Zambujal, em 2001), para finalmente regressar à CTP em 2001, onde participou no Meu Caso, de Régio, História Breve da Lua, de António Gedeão, O Marionetista de Lodz, de Gilles Segal, Visitação, Farelos e Índia, de Gil Vicente, O Leão Apaixonado, de Esopo e/ou La Fontaine, Os Degraus da Forca, de António Moncada Sousa Mendes, O Fidalgo Aprendiz e Outros Diálogos, de D. Francisco Manuel de Mello, Maré Alta, de João Pedro de Andrade, Júlia, a partir de texto de August Strindberg, e Esperança, de Jaime Salazar Sampaio, além de ter concebido em conjunto com outros actores o espectáculo de comemoração dos 25 anos do Grupo de Teatro Pedra- Mó, da Ilha Terceira, nos Açores, Um Urso e Um Pedido de Casamento. Por isso falou-se com ele, a fim de levantar aquela ponta do pano sob a qual se escondem as artimanhas do ofício do espectáculo, considerando que se havia alguém em posição de o fazer não podia ser outrem.
Apostar no pessoal da casa
Joaquim Castanho – Até aqui, ou até há muito pouco tempo, não era hábito da Companhia de Teatro de Portalegre (CTP) rodar as encenações por mais do que uma pessoa... Esta nova atitude, o facto de seres tu o encenador, vem reflectir-se de alguma forma como uma nova tomada de consciência da realidade daquilo que é o teatro em Portugal, e sobretudo em Portalegre, ou é também uma aposta na multidisclipinaridade das recém formações artísticas?
Adriano Bailadeira – Passa um pouco por isso tudo... De facto, em primeiro lugar, é uma aposta da Companhia abrir o leque dos encenadores que tem, apostando na prata da casa, por quanto é preferível apostar inicialmente no pessoal da casa e, depois, então, convidar outras pessoas de fora. E em segundo lugar, por uma questão de linguagem, já que cada pessoa é uma pessoa e tem a sua leitura ou forma de estar, diversa e enriquecedora, e é muito importante, a esse nível, que estas leituras sejam apresentadas. Até porque o teatro não é uma arte única e unificada, pronta e acabada... Não é do género “este teatro é o que existe”, é bom e é assim, e não existe mais nenhum! Há vários caminhos. Há diversos pontos de vista que devem ser dados a conhecer... Não só das diferentes peças, ou repertório, mas também do ponto de vista de quem as encena, de quem as prepara, de quem as analisa, para que o próprio público possa fruir dele, de uma leitura mais abrangente e de linguagens mais diversificadas.
JC – A partir do momento em que as linguagens são diversificadas é impossível não abranger outros públicos, não focar outras malhas da diversidade e multidisciplinaridade, novas direcções e alvos, atingir novas audiências e plateias. Para além deste “facto circunstancial” como é que é representar este outro papel, pela primeira vez, que é o da encenação, precisamente com colegas que giravam na mesma esfera de acção?
AB – Para já, é um desafio interessante! Nunca tinha feito uma encenação a solo, embora já tivesse naqueles projectos com colegas de escola, a nível académico, ou como workshop de férias, mas sozinho nunca, o que é mais complicado, pois sabemos que a opinião final é sempre a nossa... Tivemos o projecto das Palavras, espectáculos de leitura encenada, no entanto isto é um pouquinho diferente! Isto é um processo acabado que irá ter um produto final. E estar a trabalhar com os meus colegas não é mais do que ter o privilégio de também ir aprender com eles. A encenação nunca poderá ser um processo fechado.
JC – E então?...
AB – Então, neste momento, em termos de encenação, aceitei o desafio com este sentido: tornar-me a pessoa que toma as decisões finais, mas sobretudo aquela que ouve a opinião dos colegas para que, em conjunto, visto que o teatro é cada vez mais uma arte de equipa, de grupo, sendo eu o receptor da informação, a processa, filtra, até escolher o caminho mais correcto, segundo o nosso ponto de vista. Acho que passa um bocado por aí... Ainda não tenho sequer 30 anos ou uma carreira assim tão grande, mas abalançar-me na encenação cumpre completamente a minha noção de desafio, pois quem gosta muito de uma coisa e tem ambições próprias de querer fazer bem, não tem que ter medo de abraçar esse tipo de desafios!
JC – Já tinhas tido outros contactos com Mamet?
AB – Com Mamet, muito poucos... E mais cinéfilos, do que dramatúrgicos.
Há uma briga a dois níveis
JC – Nem com esta peça, precisamente?... Tinhas visto anteriormente alguma representação dela?
AB – Desta peça apenas vira um extracto a nível académico, na minha escola, de uma ou duas cenas, que colegas meus fizeram. E naquela altura chamou-me a atenção! Depois li o texto e fiquei com ele na cabeça, por achar que era um texto com uma força tremenda, com uma contemporaneidade desgraçada e que espelha uma situação com que era fácil identificarmo-nos. Qualquer pessoa que tenha passado por uma sala de aulas pode aperceber-se dos sintomas enunciados...
JC – Efectuar projecções e transferências?
AB – Completamente.
JC – Mas para além desta identificação, qual a mais-valia que defines como essencial e imprescindível para teres escolhido esta peça e não outra qualquer?
AB – Os pontos chaves dela – o que lhe dá reconhecimento, o que lhe dá valor... E posso dizer que nela há uma briga a dois níveis, no sentido de briga enquanto evidência de paradoxo entre dois ou três conceitos básicos. Em primeiro lugar a autoridade e o poder: quem é que de facto detém o poder? Numa forma pontual, no ensino... e numa forma mais vasta, que pode abranger toda a comunidade?... Quem é que determinou que essa pessoa devia ter o poder? Quem estipulou as normas? E o que é que acontece quando essas normas se quebram? Quando o próprio professor diz que devem quebrar-se as normas mas depois é a aluna quem as rompe?... E se o detentor da autoridade quebra as normas, que é que acontece se aquela que não tem autoridade nenhuma as quebra também?
Em segundo lugar, o pormenor mais gritante desta peça, que é a evidência do erro de comunicação. Temos um facto, um momento, um acontecimento, e temos duas verdades para ele. Mas qual delas é que é a mais importante? Haverá legitimidade para afirmar, só porque os estatutos do professor ou da aluna não são iguais, que uma é mais verdadeira do que a outra? Ora, isto é um bocado complicado, e sofre bastantes pressões mundanas!...
E por último, o plano da ambiguidade das acções, dos gestos, do jogo de exposição/retracção, do toque e foge latente, a que toda a ambiência obriga. E como se coabita num espaço tão pequeno que é quase impossível respirar sem invadir a intimidade do outro...
JC – E quanto ao elenco? O facto de conheceres a peça e a CTP, as pessoas que a integram, não te levaram a escolhê-lo por afinidade ou colagem entre as personagens e aquilo que já conheces da personalidade dos eus colegas?
AB – Eu, quando pensei propor e propus esta peça, ao pensar no elenco, fi-lo de acordo com as seguintes questões: visualmente – como é que eu via os personagens; e objectivamente – ou daquilo que os actores podem dar ou contribuir para a imagem final, e que eu tenho na cabeça como ideal para a peça. Apesar de Mamet ser um cinéfilo, e ao contrário do sistema cinematográfico, não acho que os actores tenham que corresponder exactamente à descrição física da personagem. Aliás, precisamente por isso, é que se faz uma coisa chamada trabalho de composição!... O que eu achei é que seria interessante, pegando nos dois actores que fazem a peça, desenvolver um esforço para desconstruir imagens anteriores, de personagens passadas, e dar-lhes uma roupagem nova, utilizando estas pessoas sim, mas com um registo diferente do que se tem feito até agora. E nesta perspectiva a peça pode encaixar-se em qualquer personalidade, pois existe uma tão grande veracidade literária nas personagens, que qualquer pessoa pode encaixar nelas. Estas duas pessoas naquele espaço são as que mais se aproximam e melhor combinam com a imagem que tenho na cabeça dos perfis físicos e psicológicos das personagens!
Enfim, do que além se soube se não dá conta, sobretudo porque se anseia pelo momento da estreia, para a qual desde já, aqui ficam os votos de muita m.... – piiiiii!.... Ou não fora o teatro também uma das artes que nos reinventa, sublinha e converte o nosso dia a dia de rotina em magia esforçadamente conseguida.
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