E = mc2
Primeiro Andamento
As botas rangem – maruja lá fora
O gesto repentino da criança rufia –
E mais, mais ainda que as botas
Os homens crescem, crescem andando.
Os homens batem, marcham, rangem
Proferem que é botas partindo...
Exijo-me soletração calçada
( Ainda não morreram os preconceitos! )
Plástica evasiva de caminhar cabisbaixo
: Se é assim que se esvaem os pesadelos...
Ontem, à mesma hora de hoje,
Ouvi dizer a um companheiro:
“ Nasci agora três vezes... Três! E é fantástico...
Nem por isso me sinto fatigado! “
HÁ PESSOAS CAPAZES DE TUDO.
As botas rangem ( raque, raque, raque
Raque ), como uma coisa a perguntar-nos:
Quantos restam ainda? Quantos restam ainda?
Quantos restam ainda? Quantos restam ainda?
Segundo Andamento
Tu: Tu és um criminoso!
O teu crime é trabalhares
Mais que o necessário,
E permitires que o lucro que dás
O teu suor, o teu esforço
O teu tempo, o teu sangue
A tua fome, a tua mão
Sejam usados contra o teu companheiro
Homem da mesma fábrica
Homem do mesmo escritório
Homem da mesma repartição
Homem do mesmo campo
Homem do mesmo mar
Homem do mesmo Homem.
Tu: Tu és um criminoso!
Temer é medrar. Engorda,
Engorda em ti o canibal antigo,
O teu gesto de indiferente.
Tu: Tu és um criminoso!
E o teu crime evidente,
O mais de entre os mais que todos,
É dar a título de imposto
O teu voto, o teu trabalho
O valor acrescentado, a quota fiscal
Com que a tirania dos fundamentalismos te
Prende
Mata
Exila
E há-de comprar
Fazer
Usar
Inventar
Alugar
Distribuir, o armamento ideal
Com que possa repetir Hiroximas
Cubas
Líbanos
Angolas
Áfricas do sul
Argentinas
Leninegrados
Jugoslávias
Timores
Moçambiques
Haitis
Iraques
São Salvadores
Sem conto nem fim...
Tu: Tu és um criminoso!
E o teu crime perfeito
É a mentira do teu voto
E o voto da tua mentira
Onde te trocas, meia dose de angústia
Disfarçada
Hondtorizada
Calibrada
E premeditada.
Tu: Tu és um criminoso!
E o teu crime ímpar
É o gesto de morte da baleia do mar do norte.
Tu: Tu és um criminoso!
E é inegável o teu crime
Naquela barriga sobressaída
Naquela ruga precoce
Naquela praia poluída
Naquela flor murchada
Naquela jovem violada
Naquela casa desabitada
Naquela robusta lápide
Onde se inscrevem as saudades mais imediatas.
Tu: Tu és um criminoso!
Nunca a indiferença o foi mais
Que isso
Por isso
Inscrita como epígrafe de nós.
Terceiro Andamento
Foi promulgado, de imprevisto
E ninguém quis acreditar, por si só:
“ Aos vinte dias do mês de ontem, a morte morreu. “
Mas nós estávamos lá
E usámos o refrão:
A morte é morta.
E então foi verdade,
E corremos pelos campos
À procura dos campos
Dos campos.
E então foi verdade,
E corremos pelas fábricas
À procura das fábricas
Das fábricas.
E então foi verdade,
E corremos pelos mares
À procura dos mares
Doutros mares.
E então foi verdade,
E corremos na multidão
À procura de cada nós
Em cada um.
E então foi verdade,
E corremos na ousadia
À procura da aurora
À procura do novo dia.
E então foi verdade,
E corremos na verdade
À procura da procura
Em busca de nós.
E então não foi mentira!
Nenhuma. Mesmo a sós.
AUTO DA VISITAÇÃO
1.
Chiam travões, bate uma porta
E a tarde perde a calma monótona.
A mosca abandona a migalha sobre a mesa;
Há ainda a bolsa do casqueiro
A corna das azeitonas
Um pichel destapado
Uma rodilha sobre o oleado
Um corcho de cortiça
Um cântaro com a asa partida.
« Quem será? » ... os patrões foram a banhos,
O gado está no curral,
O carteiro já veio esta semana.
A terra não pode com amanhos,
As searas foram vendidas;
Crescem olhos tamanhos – quem será??
2.
Ressalva-a, emenda a voz
Estende os braços ao rés do tempo
Ao degrau da entrada, à sombra
Do umbral a moldura faz.
Pestaneja quando eu chegar!
Diz do trigo a colheita sólida
Do fruto a amora brava,
O suco revertendo do olhar,
Posto lá na linha da planície
Mais perto do mar do céu
Que barcos sonhos navegam
Na desvendação do futuro.
Deixa uma calça arregaçada sobre
As fivelas de couro com sola de pneu
O boné dependurado do trinco;
A porta a esconder-se na penumbra.
À telefonia... Essa, que soe baixo
Que a hora é de sesta.
Tem para mim um sorriso
De quem percebe porquê o sol
Tão quente, a fralda de fora.
Depois enxota uma mosca
Enrola um cigarro
E volta a entrar como se nada fosse...
« Maria!?! É o teu filho que chegou.
Partimos a melancia maior!! »
FOLGA DO GANHÃO
( Despique, à janela do moinho )
Medir-te-ei a alma
Dê bem ou mal medida
Pois gela quem acalma
E cede com medo à vida
Ela:
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr
Lide eu só de domar
Áleas de milhos meados
Que mesmo assim o semear
Me tomará braços suados
Ela:
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr
No doce e no alimento
No mel, lameiro e eira
Iluminai e dai-me alento
Sê como a lei primeira
Ela:
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr
* * *
Nos lemes há sal e prata
Nos campos lume pedra e pó
Mas sei que o tempo trata
Mui pior quem canta só
Ele:
Com o tempo qu’inda temos
Bem podias um favor
Malha e sega humilde
Vira a leiva no sopé
Cresta mel, colhe vide
Que serás como quem é
Ele:
Com o tempo qu’inda temos
Bem podias um favor
Cresce a flor anainha
No pousio ou seara fútil
Mas se não for regada
Fica pequena e inútil
Ele e ela:
Inda mal nos conhecemos
Já me aparto com dor
Inda mal nos conhecemos
Já me aparto com dor
PERFUME DE RECORDAR
“ Il ne reste que moi qui ne suis pas à vendre
Alors tu es passée et je me suis donné
A toi
Pour rien “
( À VENDRE, de Léo Ferré )
No baralho do universo os naipes são Deus, Homem, Natureza e o trunfo é sonho.
Mas nós acima de tudo somos gesto, ombros só quase...
Coisas que carregam anos infinitos
Extensões de lábios que não se uniram
E ninguém!, ninguém!, quando estamos abraçados
É capaz de dizer qual é o macho e qual é a fêmea.
Um poema que se não dá é um cadáver!
Isto são actos que se podem cometer, uns aos outros
Num só dia. No entanto eu, eu que sou memória e gesto e celebração
Eu! Eu, que em calhando é o que é, nada
Mais: Eu, lúdico jogador de empréstimo
( Como no futebol ), levei anos e anos
A desvendar-lhe a saturação e a polpa.
Oh, podemos acontecer...
Oh, podemos acontecer...
Por isso não irão usar-me como trampolim para alcançarem o que querem
( Os trampolins também sabem saltar... )
Porque o amor embora se não saiba o que em verdade é
E o ar, sente-se-lhes sempre a falta
E se prefere este total, ao bacanal
Ao de todos o seu igual, pois é preciso recarregar as baterias
Já que o XXI vai ser enérgica e pedagogicamente mais escrupuloso!
Um poema que se não dá é um cadáver...
Já todos sabem... Já todos viram os abutres voar...
E o nevoeiro de Outono?... – Está frio amiga... Tanto! Tanto!
E tu tão longe... – E chuvisca.
Está frio, amiga – e deste pranto
A mão aconchega a gola da pelica
E o Eu colo-me às paredes brancas e frias
Com a esperança de que cá estejas um destes dias...
( Um poema que se não dá é um cadáver! )
Oh, podemos acontecer...
Oh, podemos acontecer...
O suicídio é um Outono que não chega a Inverno.
Esquecemos o nosso cadáver na gaveta da Primavera
E agora surpreendemo-nos ao compreender que está frio...
Se pelo menos o nosso cadáver nos acompanhasse!...
É o conforto de estarmos sós... Podemos adormecer.
Oh, podemos adormecer...
Oh, podemos acontecer...
Oh, podemos ser perfume!...
DOS GATOS
“ O amor de um pelo outro é como uma extensa sombra
que se beija, sem qualquer esperança de realidade. “
Anais Nin, in A Casa do Incesto
Havia naquela tarde uma luz insuportável
E escorriam dos muros e árvores líquidos viscosos
E os caminhos terminavam sempre antes do fim
E eu e tu não nos entendíamos, sós
Como um pomar abandonado e os lagartos e as aranhas a correr por entre as folhas
mortas,
E também não nos queríamos entender
Porque havia naquela tarde uma luz insuportável.
Havia naquela tarde um cheiro fétido e nojento
E os homens passavam carrancudos e arrepanhados
E chiavam as rodas das carretas de madeira e bois de tela
E ouviam-se sinos vindos de muito longe,
E o vento soprava contínuo e frio e cru
E nós tínhamos medos nos olhos e não nos víamos
Porque tínhamos receio que nos lêssemos a vontade assassina,
Pois havia naquela tarde um cheiro fétido e nojento.
Havia naquela tarde um velho e uma lanterna
E nós queríamos a tarde para o velho,
E o velho não queria a tarde porque a tarde era dele.
Havia naquela tarde o troar da tempestade
E nós envelhecíamos sem dar conta anos sem medida
E confundíamo-nos com verde-escuro das folhas
E a nossa pele era como as cascas dos carvalhos
E os nossos pés estavam gretados e o chão também
E os nossos pêlos pareciam musgo outonal
E os nossos dedos foram trôpegos e frios
Porque havia naquela tarde o troar da tempestade.
Havia naquela tarde um bordão e uma trouxa abandonada
E nos regatos passavam sapatos velhos de criança
E as mães andavam vestidas de negro com as caras tapadas
E a água fazia rum-tchac, rum-tchac
E batiam as folhas nas folhas dos carvalhos e as cancelas
E as vozes tremiam mas os ecos nnãããoooooooo,
E a catedral era de madeira ardida e escura
Pois havia naquela tarde um bordão e uma trouxa abandonada.
Havia naquela tarde um gato negro-cinzento miando
Pardo no cocuruto dum muro cinzento-negro
E nós queríamos a tarde para o gato
Mas o gato não queria a tarde porque a tarde era dele.
Havia naquela tarde um quá-quá dos patos
E nas traseiras das casas a roupa debatia-se e contorcia-se
Como se tivesse gente mole dentro dela,
E as salamandras subiam aos alpendres,
E os sapos passeavam nos canteiros
E as flores estavam todas fechadas
E as nossas mãos não queriam tocar-se
E nós queríamos dar a tarde às nossas mãos
Mas as nossas mãos não queriam a tarde
Porque as nossas mãos sabiam que a tarde era delas.
Havia naquela tarde dentes escarnados
E compridos e caninos
E as nossas mãos nunca taparam os orifícios bucais
E nós tínhamos que ver os dentes grandes
Escarnados, amarelentos, com coroas negras sobre o sangue das gengivas
E nós queríamos ver a tarde
Porque ela era a nossa tarde
E por isso nós queríamos a tarde porque ela era nossa.
Nossa,
Como o ronronar é dos gatos.
2.
Soubemos que vinhas de longe
Do lado de lá de Mitilene
E que ainda proferes as estrofes de Safo
E quisemos honrar-te com a nossa presença.
É a tua chegada!
Bem-vindas sejam as que acreditam no seu ventre frutuoso!
Bem-vindas sejam as que querem partir para lá do lá!
Bem-vindas!
Soubemos que gostavas de ouvir cantar
E por isso entoámos murmúrios dulciquentes
E assim quisemos beijar-te na madrugada da madrugada
Da tua chegada.
Bem-vindas sejam as que ainda querem gritar o seu encanto!
Bem-vindas sejam as que sabem regressar para partir!
Bem-vindas!
Soubemos que guardas a imagem do último espelho
E que fremes incestuosamente leda.
E por isso convidámos os mais belos espectros
E por isso convocámos os druidas mais românticos
E por isso ilibámos cada fada e prostituta
E por isso entregámos as salvas de prata
E por isso depusemos os lençóis de cetim
E por isso quisemos celebrar a festa do teu corpo.
Bem-vindas sejam as que ainda celebram o gesto!
Bem-vindas sejam as que ainda ensaiam o grito!
Bem-vindas!
Soubemos que o inferno é cruel como a menstruação.
Soubemos que a progesterona fere como o ácido.
Soubemos que andas no mundo para obter prazer
E nuvens polvilhadas de afrodites.
Por isso deixámos a sopa a cozer
E os martelos da fábrica
E os programas lectivos
E a mesa do café
E o volante da camioneta
E os ficheiros de clientes
E as reuniões episcopais
E os partidos constitucionais
E os desafios de futebol
Para te vir receber.
Bem-vindas sejam as que se conhecem e entendem!
Bem-vindas sejam as que sabem assentar o calcanhar no chão!
Bem-vindas sejam as que parem alegria!
Bem-vindas!
Ao contrário do cisne
Soubemos que cantas melhor quando chegas.
Seremos teus jograis e amanuenses
E imunes ao movimento da clepsidra
Entraremos de mãos dadas triunfantes
Na cidade de cristal onde a felicidade é inútil
Porque sabe que ninguém deseja aquilo que já tem
Ou porque não quer viver paredes meias com o bem-estar e prazer.
E por isso reunimos todos os tempos à volta do tempo
E teremos bem vincado em nossos rostos
Que todos os dias são o primeiro dia
Que todas as vezes serão a primeira vez
Que todos os amores são o primeiro amor
Que todos os gestos são o primeiro gesto
Que todos os olhos são os primeiros olhos
Que todos os lábios são os primeiros lábios
Que todos os beijos são a primeira palavra
E que essa é o corpo da festa originária.
Soubemos que gostas de amoras e uvas orvalhadas...
Bem-vindas sejam as que sabem adaptar o corpo às estações
Ano a ano e comer ( amar ) o f(r)uto(uro) da colheita!
Bem-vindas!
Bem-vindas as que abandonaram a coprofagia
E se repastam com o corpo de seus corpos!
Bem-vindas!
Soubemos que gostavas de te ver nascer
De ti própria em grito selvagem.
E por isso plantámos estes lagos puros e limpos
Para que nos bebesses enquanto te acariciávamos os seios
E onde podes entrar como em fruto maduro e suculento
De caroço e realidade!
Bem-vindas as que sabem rodear-nos com sua língua de pétalas de rosa vermelha
E ousam investir o íman incestuoso do corpo!
Bem-vindas as que não mitigam!
Bem-vindas!
SOLAR 21
1.
Janelas cerradas. Mesmo assim.
Gostava de ser aquela partícula
Gostava de ser aquela faúlha
Gostava de ser aquele arlequim
Gostava de andar no sopro do vento
E sonho lá fora.
Causa vertigens cortar palavras
Desflorar janelas
Entrar nos vestidos colegiais
E esquecer o regresso.
A lareira arrefece a memória.
O reverso está riscado,
E as metonímias são aspas.
Se o semítico fosse investidor
( O touro gosta de grandes planos
Em todos os filmes a preto e branco )
Abria uma agência de viagens;
Uma sucursal do sonho.
E se entrássemos prò poema...?
Pomos a mesa junto ao fogo
Damos cartas, e jogamos pragmática
Como bons velhos reformados que somos.
“ Sem parceiros! Cada um para si.
Dobrem as apostas: é finados. “
O ás é rei e trunfo.
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
“ Meta mais cem “
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
“ Queres desforra? “
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pib-pi-pi-pib-pi
Pi-pi-pi-pi-pi-pi-pib
Pi-pi-pib-pi-pib-pi
Pi-pi-pib-pi-pi-pib
Pib-pi-pi-pi-pi-pi-pi
Pi-pib-pi-pi-pi-pi-pi-piiiiii...
Sincopada a moral cai
Neve néon sobre a zebra:
A sintaxe está certa quando a semântica
Semantica, e o justifica:
O nosso anacoluto é existir –
Outro hiato a que nos permitimos.
A caserna da puberdade está lotada;
Os cabelos desalinhados, húmidos
São mãos aflitas que vagam.
Por exemplo, temos o v. g. que ainda não chegou
Embora tenha combinado desta trazer bom produto
Para despirmos no jardim fronteiro
( Os alfandegários... Sempre os judiciários!... )
Enquanto sorvemos a lareira que ex-pira.
Há restos na cozinha e os livros repastam-se livres,
Porque os dias ronronam ao borralho;
Antes de o serão findar
( Os fantasmas têm que regressar antes da aurora )
Aglutinaremos o texto injectando sangue de salamandra
E entoaremos hinos ciprianos.
2.
Nesta reescrição há um tempo corrupto
E um modo de estar sem ser:
Faz-se manhã porque é morta a madrugada:
Cada coisa é a sua própria regra transformacional.
É, a cada um, lícito, agora dizer:
Tu és a minha morte que sou a tua –
Assim por diante, numa sequência infinita
Até ao ser saído do caldo oceânico, que é o fim de anteriores formas.
Após a última partida de Whist,
Soprados os lampiões e abotoados os capotes
Passaram pelas mentes imagens senis
Vindas de retinas com amplo diferencial correlativo,
Morreram todos os adjectivos que eram próprios
E os nomes repudiaram os seus verbos
E as coisas perderam o seu número e qualidade
E tudo foi sombra duma sombra,
Que é a quantidade mais imediata.
Abriram-se as janelas, e as cadeiras ficaram na mesma:
Mais tarde – soube-se – vaporosos vestidos posaram, ocos
E o pintor desembainhou a honra.
VIRGEM ESTÁTUA VIVA
( Óleo impressionista de rapariga subindo a escadaria de entrada duma
Escola Secundária, a fim de ir fazer exames. )
Nos degraus das escadas os olhos postos
Sobem lestos e azulíneos através dos rostos
Cínzeos de bronze e pedra lacerados cedo.
Tão de repente demasiados dos sustos
Há órbitas sôfregas em ausentes custos
E rangem os granitos sob os pés do medo.
Fitam-se ângulos rasantes à íngreme escalada
Horizontes tangentes chocando estrelas no vértice
Só de humano nos esgares perpendiculares da escada.
Raios disparam-se em traços de ícones formas em hélice
Ferindo plásticas portas encimando telas
Feitas das lonas tostadas nos mastros das velas.
Fendem-se os gestos no cinzento dos gritos!
Gemem lágrimas dos ângulos aflitos!
Gladiam-se os exteriores em espólia conquista.
Esvoaçam tecidos frémitos adolescentes; crista
De onda em plúmbeo orgasmo de atritos!...
NAMORO
Há sempre livros possíveis
Entre nossas mãos
Um sorriso jovial, um beijo
Roubado sou quando me lembras
Distante.
Podia minha voz sussurrar-te
A distância transponível
A minha cabeça entre teu colo?
Mas há sempre um MAS
Que a vida tece
Com as linhas que nos pede emprestadas
E tu não me escutas, nem eu repouso...
Por isso, nas horas vagas
Em que me alinhavo e descoso
Continuamente visando o mar e as vagas
Em que vou e venho
Um rumo me impele, e ouso...
E sonho...
... E tenho.
Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
8.02.2005
7.26.2005
EIS ANKH EIS
Gosto das palavras indizíveis por dizer
As que insubmissas e infiéis espartilham o homem
O atiram ao fundo de si mesmo sem qualquer significado
E lhe vociferam ou estilhaçam a alma solta em cada sílaba
Em cada estremeção da carne viva perante a impiedosa brisa
Essa igual que acaricia as frondes das acácias
Nos outeiros dispostos sob o acaso do olhar
Ali, interrompendo a linha do horizonte marchetado
Na paisagem dos dias sob a paleta das vozes íntimas.
São para ti na erosão corrosiva dos sentidos
Horas únicas ao resfolegar da planície seca e aberta
Ao grito do fogo posto de não estares presente, nó de Isis
Entre os seios no lúdico sustenido do coração ansioso
Longe mas desesperado de tão próximo, próximo aproximo
Os lábios e nele reponho meu beijo de sofreguidão perpétua.
Morrer para a eternidade é apenas um gesto, palavra
Dita sem eco a resvalar na curva apertada do tempo
Mas sucumbir ao ritmo do teu pulsar no convulso arquear
Do dorso e desferir a seta do desejo num disparo sem volta,
Eis igualmente como nos entregamos um ao outro e sós
Infinitamente sós renascemos do exíguo fio de prumo
Pendulando na fala inesgotável de dizer sempre o derradeiro
Lugar da história comum ao espaço-quando dos corpos jungidos
Que se aspiram e fundem num apenas um grito de liberdade
Disferida por mil sóis que nos rebentam no simultâneo da nuca.
Eis por que eis o porquê do laço que nos une sobre a cruz
Alicerçada no elo esfíngico de aglutinar o verbo inicial primaz
O que encerra todos os indizíveis ainda por dizer ou que ditos
Vogam na celestial aspereza da lonjura inominável – eis
O porquê de que por eis se manifesta presente dum futuro
Sem contorno definido está o nome, aquele que pronunciado
Invoca a eternidade perene e duradoura do sentimento
Que não desfalece e solto volta ao princípio dos princípios
Primordial como se a luz nascesse de si própria em si outra
Luz renovada essa de denunciar a paixão cometida do silêncio
Abrigo da voz ao ciciar do desejo incontornável do corpo
Aberto e pleno de entrega final sem parangonas desmedidas.
Porque épico é o abraço na distância de morder o tempo,
Abocanhar o laço de que a cruz é nó e sinal e sustento
Do sustenido inconstante de dizer-me Aqui, eis-me pronto
A receber-te plural na infinita agitação da espiral dissolvente
A que joga os pedaços de mim e de ti aspergindo o cosmos.
EIS! (in the sky with diamonds)
Gosto das palavras indizíveis por dizer
As que insubmissas e infiéis espartilham o homem
O atiram ao fundo de si mesmo sem qualquer significado
E lhe vociferam ou estilhaçam a alma solta em cada sílaba
Em cada estremeção da carne viva perante a impiedosa brisa
Essa igual que acaricia as frondes das acácias
Nos outeiros dispostos sob o acaso do olhar
Ali, interrompendo a linha do horizonte marchetado
Na paisagem dos dias sob a paleta das vozes íntimas.
São para ti na erosão corrosiva dos sentidos
Horas únicas ao resfolegar da planície seca e aberta
Ao grito do fogo posto de não estares presente, nó de Isis
Entre os seios no lúdico sustenido do coração ansioso
Longe mas desesperado de tão próximo, próximo aproximo
Os lábios e nele reponho meu beijo de sofreguidão perpétua.
Morrer para a eternidade é apenas um gesto, palavra
Dita sem eco a resvalar na curva apertada do tempo
Mas sucumbir ao ritmo do teu pulsar no convulso arquear
Do dorso e desferir a seta do desejo num disparo sem volta,
Eis igualmente como nos entregamos um ao outro e sós
Infinitamente sós renascemos do exíguo fio de prumo
Pendulando na fala inesgotável de dizer sempre o derradeiro
Lugar da história comum ao espaço-quando dos corpos jungidos
Que se aspiram e fundem num apenas um grito de liberdade
Disferida por mil sóis que nos rebentam no simultâneo da nuca.
Eis por que eis o porquê do laço que nos une sobre a cruz
Alicerçada no elo esfíngico de aglutinar o verbo inicial primaz
O que encerra todos os indizíveis ainda por dizer ou que ditos
Vogam na celestial aspereza da lonjura inominável – eis
O porquê de que por eis se manifesta presente dum futuro
Sem contorno definido está o nome, aquele que pronunciado
Invoca a eternidade perene e duradoura do sentimento
Que não desfalece e solto volta ao princípio dos princípios
Primordial como se a luz nascesse de si própria em si outra
Luz renovada essa de denunciar a paixão cometida do silêncio
Abrigo da voz ao ciciar do desejo incontornável do corpo
Aberto e pleno de entrega final sem parangonas desmedidas.
Porque épico é o abraço na distância de morder o tempo,
Abocanhar o laço de que a cruz é nó e sinal e sustento
Do sustenido inconstante de dizer-me Aqui, eis-me pronto
A receber-te plural na infinita agitação da espiral dissolvente
A que joga os pedaços de mim e de ti aspergindo o cosmos.
EIS! (in the sky with diamonds)
7.22.2005
E X P E C T A T I V A
Os sonhos vão, vêm, voltam e morrem, mas o homem fica. Condenado. Irremediavelmente vivo e sofrendo-os como a uma hipoteca que, mais cedo ou mais tarde, sem dúvida terá de liquidar. Que paga, paga. Tanto importa que sejam de justiça e de beleza, de amor e de bem-estar, como dos seus contrários, que o fado cumpre-se com a igual fatalidade implacável e desumana.
Jaime Sousa regista mentalmente a temperatura indicada no termómetro da cozinha e espreita a rua, pela vidraça da marquise. Chove torrencialmente e, segundo a inclinação dos pingos ao baterem no vidro, conclui que o vento está de sudoeste. É provável que continue a chover por mais dois ou três dias; ou pare, o vento mude de direcção, e o frio retorne. De qualquer forma não lhe importa grandemente, dado que não sairá dali na presente semana. Nem na seguinte.
Do sótão, vêm um baque seco com uma praga.
«Raios partam isto!!»
Depois, é o silêncio. Aquele género de silêncio que acompanha as faltas humanas, quando as reconhecemos.
“Não foi nada”, pensa ele, enquanto se dirige para o armário à procura duma lata de sardinhas em conserva. Com ela nas mãos, como se esta fosse uma granada, o dedo indicador esquerdo na cavilha de abertura, lança a vista em derredor na busca dum prato e do garrafão do vinho. É hábito antigo dos pratos o de estarem todos sujos quando são precisos, mas desta vez não, estão lavados e a escorrer no lava-louça. Positivamente. Um óptimo sinal... e o garrafão encontra-se no chão, junto ao frigorífico, entre este e a porta da rua. Pega-lhe pelo lado contrário, tocando o gargalo com as costas da mão, apoiando-lhe o bojo na curva do cotovelo, pelo lado de fora, desarrolha-o com os dentes, cospe a cortiça, e verte meio quartilho num copo, no qual se nota ainda o tinto sarro da última utilização. Após o que se senta, pousando-o ao lado de si, para futuras e novas arremetidas.
Então, grita para cima:
«O pequeno almoço está pronto!!»
( “Está proontoo!... Está proontoo!...”, responde o eco. )
«Vou já» informa Lina, ao que se sucede novo baque de queda. «Vou já!!»
A porta interior dá de frente para as escadas do sótão, que ele perscruta ao ouvir ranger as tábuas dos primeiros degraus. De início aparecem os ténis e as calças de ganga desembainhadas; depois, as pernas desbotadas e ruças, conforme cada passada dela.
«O caralho da prateleira ia-me fodendo os pés!...» afirma Lina, indignada e de pronto.
“Começamos bem...”, reflecte Jaime. “Hoje vestiu a sua personalidade de tunante académica.”
«E como?» Quis ele saber.
«Ora! Despregou-se com o peso dos livros e caiu. Temos que arranjar outra estante.»
Nessa ocasião já se lhe via o corpo todo, à excepção do rosto. Tem a blusa turca do pijama cor-de-rosa, e percebe-se que não pôs o soutien. Os seios balançam a cada degrau. “São belos e preciosos”, considera Jaime. O que é verdade, em absolutérrimo grau, e dos quais ela se orgulha, visto que todos os homens e algumas mulheres lhos fitam enquanto lhe falam, esquecendo-se até de que também ela os/as está observando naquele meio-tempo. Cheios, redondos, mamilos sempre a espichar, sem precisarem de qualquer suporte para se manterem firmes e alçados, embora que proporcionalmente grandes face à fragilidade do dorso. Contudo, tal não a incomoda. Pelo contrário; fá-la sentir-se ainda mais fértil e feminina.
«Provavelmente, amanhã», elucida ele.
“Para ti é sempre e eternamente amanhã”, pensa ela ao cruzar o umbral, com as mãos espalmadas enfiadas nos bolsos do cu, a bater os cotovelos, como se fossem asas e ela quisesse levantar voo. O que superiormente lhe realça e atira para cima o excelso busto.
«Claro» acata ela. «A-ma-nhã. E o pão?...»
«Está no congelador.»
«Já calculava.» Sublinha, encaminhando-se para ele. Tira-o e coloca-o no microondas. Liga-o e regula-o. É rápido. «Prontinho!...»
Enquanto depõe as três carcaças, ao centro de mesa, sobre um guardanapo que tivera melhores dias, Jaime procura visar-lhe o rosto arredondado, sardento, de boca pequena e lábios em subtil biquinho de pato, olhos cinzentos salpicados a negro, com sinais de contrariedade, sorvendo do copo. Mas este demonstra-se-lhe estoicamente impassível. Inexpressivo quase. Ela sacode os cabelos compridos, castanhos-claros, para trás, abanando a cabeça, à medida que se senta no banco da cozinha em tubo de ferro e fundo de fórmica.
É no momento em que ambos estendem as mãos para o pão, que o telefone toca. Suspendem o gesto, cada um à espera que seja o outro a levantar-se para o ir atender. Repete-se o toque duas vezes consecutivas, naquele grilar incomodativo de animal electrónico.
Finalmente, ele ergue-se, depondo o copo meio de vinho sobre o tampo da mesa, com agressividade, com brusquidão, fazendo-o transbordar.
Ao ouvir-se, da sala, a voz dele, desinteressada, denuncia frete e frivolidade. Nota-se que escureceu, submergindo a tarde, por mor de alguma nuvem mais baixa, em passagem.
«Sim, sim. Sim... Certíssimo. Também me pareceu... Calculei logo.»
Clic.
Regressa.
Senta-se. Estica as pernas, tocando propositadamente com uma no joelho esquerdo de Lina, e diz, com os polegares e indicadores das duas mãos a esfregar ostensivamente os colhões, por cima das calças, num suspiro:
«E vão quatro. Do departamento editorial da Framboesa Books informam, que, não obstante a qualidade das obras propostas, não podem considerar a sua publicação, por estar preenchido o leque de edições, planeado para os próximos dois anos. Caras de pau!»
«Muito simpático, da parte deles... Sabem mentir com diplomacia.» Comenta ela, baixando o olhar, escondendo-o num apreciar de unhas.
Entrementes, duas moscas pousaram sobre as sardinhas intocadas, tranquilamente, esfregando os focinhos com as patas dianteiras. Na vidraça, a chuva mantinha o ritmo de batida, regular, insistente. Ping-ping. Toc-toc. Ping-ping. Toc-toc. Ping-ping. Toc-toc.
E o quadro assumiu um abandono de Os Bêbados, digno da paleta de um José Malhoa.
Os sonhos vão, vêm, voltam e morrem, mas o homem fica. Condenado. Irremediavelmente vivo e sofrendo-os como a uma hipoteca que, mais cedo ou mais tarde, sem dúvida terá de liquidar. Que paga, paga. Tanto importa que sejam de justiça e de beleza, de amor e de bem-estar, como dos seus contrários, que o fado cumpre-se com a igual fatalidade implacável e desumana.
Jaime Sousa regista mentalmente a temperatura indicada no termómetro da cozinha e espreita a rua, pela vidraça da marquise. Chove torrencialmente e, segundo a inclinação dos pingos ao baterem no vidro, conclui que o vento está de sudoeste. É provável que continue a chover por mais dois ou três dias; ou pare, o vento mude de direcção, e o frio retorne. De qualquer forma não lhe importa grandemente, dado que não sairá dali na presente semana. Nem na seguinte.
Do sótão, vêm um baque seco com uma praga.
«Raios partam isto!!»
Depois, é o silêncio. Aquele género de silêncio que acompanha as faltas humanas, quando as reconhecemos.
“Não foi nada”, pensa ele, enquanto se dirige para o armário à procura duma lata de sardinhas em conserva. Com ela nas mãos, como se esta fosse uma granada, o dedo indicador esquerdo na cavilha de abertura, lança a vista em derredor na busca dum prato e do garrafão do vinho. É hábito antigo dos pratos o de estarem todos sujos quando são precisos, mas desta vez não, estão lavados e a escorrer no lava-louça. Positivamente. Um óptimo sinal... e o garrafão encontra-se no chão, junto ao frigorífico, entre este e a porta da rua. Pega-lhe pelo lado contrário, tocando o gargalo com as costas da mão, apoiando-lhe o bojo na curva do cotovelo, pelo lado de fora, desarrolha-o com os dentes, cospe a cortiça, e verte meio quartilho num copo, no qual se nota ainda o tinto sarro da última utilização. Após o que se senta, pousando-o ao lado de si, para futuras e novas arremetidas.
Então, grita para cima:
«O pequeno almoço está pronto!!»
( “Está proontoo!... Está proontoo!...”, responde o eco. )
«Vou já» informa Lina, ao que se sucede novo baque de queda. «Vou já!!»
A porta interior dá de frente para as escadas do sótão, que ele perscruta ao ouvir ranger as tábuas dos primeiros degraus. De início aparecem os ténis e as calças de ganga desembainhadas; depois, as pernas desbotadas e ruças, conforme cada passada dela.
«O caralho da prateleira ia-me fodendo os pés!...» afirma Lina, indignada e de pronto.
“Começamos bem...”, reflecte Jaime. “Hoje vestiu a sua personalidade de tunante académica.”
«E como?» Quis ele saber.
«Ora! Despregou-se com o peso dos livros e caiu. Temos que arranjar outra estante.»
Nessa ocasião já se lhe via o corpo todo, à excepção do rosto. Tem a blusa turca do pijama cor-de-rosa, e percebe-se que não pôs o soutien. Os seios balançam a cada degrau. “São belos e preciosos”, considera Jaime. O que é verdade, em absolutérrimo grau, e dos quais ela se orgulha, visto que todos os homens e algumas mulheres lhos fitam enquanto lhe falam, esquecendo-se até de que também ela os/as está observando naquele meio-tempo. Cheios, redondos, mamilos sempre a espichar, sem precisarem de qualquer suporte para se manterem firmes e alçados, embora que proporcionalmente grandes face à fragilidade do dorso. Contudo, tal não a incomoda. Pelo contrário; fá-la sentir-se ainda mais fértil e feminina.
«Provavelmente, amanhã», elucida ele.
“Para ti é sempre e eternamente amanhã”, pensa ela ao cruzar o umbral, com as mãos espalmadas enfiadas nos bolsos do cu, a bater os cotovelos, como se fossem asas e ela quisesse levantar voo. O que superiormente lhe realça e atira para cima o excelso busto.
«Claro» acata ela. «A-ma-nhã. E o pão?...»
«Está no congelador.»
«Já calculava.» Sublinha, encaminhando-se para ele. Tira-o e coloca-o no microondas. Liga-o e regula-o. É rápido. «Prontinho!...»
Enquanto depõe as três carcaças, ao centro de mesa, sobre um guardanapo que tivera melhores dias, Jaime procura visar-lhe o rosto arredondado, sardento, de boca pequena e lábios em subtil biquinho de pato, olhos cinzentos salpicados a negro, com sinais de contrariedade, sorvendo do copo. Mas este demonstra-se-lhe estoicamente impassível. Inexpressivo quase. Ela sacode os cabelos compridos, castanhos-claros, para trás, abanando a cabeça, à medida que se senta no banco da cozinha em tubo de ferro e fundo de fórmica.
É no momento em que ambos estendem as mãos para o pão, que o telefone toca. Suspendem o gesto, cada um à espera que seja o outro a levantar-se para o ir atender. Repete-se o toque duas vezes consecutivas, naquele grilar incomodativo de animal electrónico.
Finalmente, ele ergue-se, depondo o copo meio de vinho sobre o tampo da mesa, com agressividade, com brusquidão, fazendo-o transbordar.
Ao ouvir-se, da sala, a voz dele, desinteressada, denuncia frete e frivolidade. Nota-se que escureceu, submergindo a tarde, por mor de alguma nuvem mais baixa, em passagem.
«Sim, sim. Sim... Certíssimo. Também me pareceu... Calculei logo.»
Clic.
Regressa.
Senta-se. Estica as pernas, tocando propositadamente com uma no joelho esquerdo de Lina, e diz, com os polegares e indicadores das duas mãos a esfregar ostensivamente os colhões, por cima das calças, num suspiro:
«E vão quatro. Do departamento editorial da Framboesa Books informam, que, não obstante a qualidade das obras propostas, não podem considerar a sua publicação, por estar preenchido o leque de edições, planeado para os próximos dois anos. Caras de pau!»
«Muito simpático, da parte deles... Sabem mentir com diplomacia.» Comenta ela, baixando o olhar, escondendo-o num apreciar de unhas.
Entrementes, duas moscas pousaram sobre as sardinhas intocadas, tranquilamente, esfregando os focinhos com as patas dianteiras. Na vidraça, a chuva mantinha o ritmo de batida, regular, insistente. Ping-ping. Toc-toc. Ping-ping. Toc-toc. Ping-ping. Toc-toc.
E o quadro assumiu um abandono de Os Bêbados, digno da paleta de um José Malhoa.
7.19.2005
EIS ANKH EIS
Gosto das palavras indizíveis por dizer
As que insubmissas e infiéis espartilham o homem
O atiram ao fundo de si mesmo sem qualquer significado
E lhe vociferam ou estilhaçam a alma solta em cada sílaba
Em cada estremeção da carne viva perante a impiedosa brisa
Essa igual que acaricia as frondes das acácias
Nos outeiros dispostos sob o acaso do olhar
Ali, interrompendo a linha do horizonte marchetado
Na paisagem dos dias sob a paleta das vozes íntimas.
São para ti na erosão corrosiva dos sentidos
Horas únicas ao resfolegar da planície seca e aberta
Ao grito do fogo posto de não estares presente, nó de Isis
Entre os seios no lúdico sustenido do coração ansioso
Longe mas desesperado de tão próximo, próximo aproximo
Os lábios e nele reponho meu beijo de sofreguidão perpétua.
Morrer para a eternidade é apenas um gesto, palavra
Dita sem eco a resvalar na curva apertada do tempo
Mas sucumbir ao ritmo do teu pulsar no convulso arquear
Do dorso e desferir a seta do desejo num disparo sem volta,
Eis igualmente como nos entregamos um ao outro e sós
Infinitamente sós renascemos do exíguo fio de prumo
Pendulando na fala inesgotável de dizer sempre o derradeiro
Lugar da história comum ao espaço-quando dos corpos jungidos
Que se aspiram e fundem num apenas um grito de liberdade
Disferida por mil sóis que nos rebentam no simultâneo da nuca.
Eis por que eis o porquê do laço que nos une
Gosto das palavras indizíveis por dizer
As que insubmissas e infiéis espartilham o homem
O atiram ao fundo de si mesmo sem qualquer significado
E lhe vociferam ou estilhaçam a alma solta em cada sílaba
Em cada estremeção da carne viva perante a impiedosa brisa
Essa igual que acaricia as frondes das acácias
Nos outeiros dispostos sob o acaso do olhar
Ali, interrompendo a linha do horizonte marchetado
Na paisagem dos dias sob a paleta das vozes íntimas.
São para ti na erosão corrosiva dos sentidos
Horas únicas ao resfolegar da planície seca e aberta
Ao grito do fogo posto de não estares presente, nó de Isis
Entre os seios no lúdico sustenido do coração ansioso
Longe mas desesperado de tão próximo, próximo aproximo
Os lábios e nele reponho meu beijo de sofreguidão perpétua.
Morrer para a eternidade é apenas um gesto, palavra
Dita sem eco a resvalar na curva apertada do tempo
Mas sucumbir ao ritmo do teu pulsar no convulso arquear
Do dorso e desferir a seta do desejo num disparo sem volta,
Eis igualmente como nos entregamos um ao outro e sós
Infinitamente sós renascemos do exíguo fio de prumo
Pendulando na fala inesgotável de dizer sempre o derradeiro
Lugar da história comum ao espaço-quando dos corpos jungidos
Que se aspiram e fundem num apenas um grito de liberdade
Disferida por mil sóis que nos rebentam no simultâneo da nuca.
Eis por que eis o porquê do laço que nos une
6.13.2005
Companheiros e companheiras:
Em conformidade com as linhas programáticas aprovadas na VII Convenção Nacional Ecológica, de 22 e 23 de Junho de 1996, na certificação de uma acção política baseada e consciente da relação simbiótica entre o homem e a natureza, a cultura e o meio ambiente, entendíveis como componentes da ecosfera reciprocamente condicionáveis, que assistem à génese do Movimento Ecologista Português – Partido OS VERDES, directamente germinado na necessidade de agir pela paz, pela desmilitarização, pelo desarmamento, pela desnuclearização, pelos direitos cívicos e de expressão ideológica, pela implementação da ecologia e pela procura constante de formas alternativas de entender a vida e organizar a sociedade sob a bitola de um progresso e desenvolvimento solidários e sustentáveis, pautado por princípios que se adjuvem ao pugnar evidente, eficaz, frontal, transparente, contínuo e democrático que faculte a crescente humanização da cidade de Portalegre, acelere os maquinismos sistemáticos de descentralização do Estado, incentive e efective o aumento da participação da região e suas gentes no processo de democratização da sociedade, propicie notória melhoria na qualidade de vida dos portalegrenses, incremente e acompanhe de forma envolvida e responsável a problemática da globalização cumprindo no quotidiano a definitiva instituição do “pensar global agir local” que a caracteriza, concretize a multicultura e diversidade como itens ou indícios latentes da sustentabilidade ambiental, social, económica, biológica e cultural, o Partido Ecologista OS VERDES e eu, na qualidade de candidato às Assembleias Municipal de Portalegre e da Junta de Freguesia da Sé, na tentativa de ajudar a edificar uma sociedade ecologista e emancipada, que valorize o conhecimento e a tecnologia, a consciência cívica e a cidadania, e igualmente corporize o ideal libertador e progressista do 25 de Abril, aos níveis político, económico, social, cultural e ambiental, reforçando sempre o cariz e o sentido da solidariedade, da igualdade, da cooperação entre as instituições públicas e privadas na produção da qualidade de vida, da convivência harmoniosa entre grupos e sectores da sociedade, e humanização da malha urbana histórica e periférica/campesina desta capital de distrito, propomos:
1) deliberar e intervir em favor de um gradual aumento quantitativo e qualificativo da utilização dos transportes públicos na cidade, da cidade e para a cidade, bem como providenciar para que se não compre mais qualquer veículo movido a energias tóxicas não renováveis (gasolina e gasóleo), aumentar as frequências nos horários e número de carreiras, adequar os horários à vida da cidade e necessidades de deslocação da população estudantil e autóctone, sobretudo dos residentes nos bairros dos Assentos e Atalaião, corrigir os trajectos actuais e multiplicar o número de paragens estendendo os percursos às novas urbanizações (Lysias, Santana, Carvalhinhas, Fonte dos Fornos, Areeiro, por exemplo), alargar o serviço de transportes (incluindo com carreiras nocturnas) às populações das restantes freguesias do concelho (Carreiras, Fortios, Reguengo, Ribeira de Nisa, Urra, Alegrete, etc.) com vista a dinamizar, revitalizar e facilitar a vida recreativa e comercial da cidade histórica, e garantir que cada um dos veículos de passageiros a gasolina e gasóleo se vendam e sejam substituídos gradualmente, a curto e médio prazo, por veículos equivalentes mas ecologicamente desejáveis, movidos a gás e/ou electricidade.
2) Contrariar a predominância de plátanos nos passeios públicos e jardins, providenciando o transplante dos que se manifestem incomportáveis com o espaço urbano em que se encontram para zonas em que não agridam a biosfera, plantando em seu lugar outros espécimens vegetais mais conformes à flora da região, susceptíveis de amenizar o secular confronto entre o ambiente serrano e o citadino, em observância à progressiva integração da vertente decorativa urbana na da decoração paisagista regional, tentando esbater e eliminar quaisquer factores de contradição ambiental adversos à biodiversidade, confluência de interesses entre a sustentabilidade ambiental e a qualidade urbana, quer do ar como da comunidade biológica, do habitat ou do espaço reservado à convivência diária das famílias citadinas; assim como contrariar a expansão industrial e urbana promovida sem regras e obedecendo apenas aos interesses da especulação imobiliária e do lucro fácil, que incentiva a ocupação e destruição das hortas e demais terrenos aráveis da periferia da cidade, com graves consequências na perda da qualidade ambiental, evidente subtracção da diversidade biológica, e elevado contributo para a descaracterização da paisagem regional e local, para o desequilíbrio ecológico, situação que além de impedir a utilização desse solo circunstante como gerador de riqueza, é igualmente produtora de doenças civilizacionais anexas à degradação ambiental, causadora de infelicidade generalizada, sufocação, stress e inúmeras doenças do foro psicossomático que em realidade já afectam vasta camada dos nossos conterrâneos citadinos.
3) Humanizar o espaço histórico da cidade, actualmente esvaziado de famílias como de pequenas empresas que lhe davam uma dinâmica e pulsar próprios eivados de substancial harmonia económica, cultural e social que contribuíam grandemente para a segurança pública, reabilitando para a habitação familiar a preços sustentáveis e/ou sociais todos os fogos devolutos e degradados de intra e extra muros, com vista a facilitar a coesão social e integração de estudantes e emigrantes, promovendo a sua fixação na região, em acelerado decréscimo demográfico desde remotas eras, o que em muito tem contribuído para o seu subdesenvolvimento.
4) Recanalizar toda a água das nascentes e linhas fluviais urbanas hoje em dia desperdiçadas e canalizadas para a rede de esgotos ou espelhos de água, espécie similar a céu aberto, que sempre sujos e inestéticos ficam à autarquia tão onerosos como produtores da sua imagem pública pouco transparente e estagnada, para reservatórios e estações e gestão de recurso a fim de ficarem disponíveis para usos industriais e de rega dos jardins públicos e privados que a requeiram por mais barata, impregnando a autarquia da prática de poupança de um bem escasso tal e qual como esta já aconselha ao cidadão comum, dando o exemplo daquilo que se pede.
5) Aumentar o número de ruas sem trânsito e fomentar a implementação e unidades de produção circunscritas à cultura, conhecimento e inovação tecnológica, bem como das actividades artística, comercial, turística e de serviços, cuja produção de mais-valias colectáveis seja também garante de sustentabilidade económica e melhor qualidade de vida dos portalegrenses.
6) Apostar no desenvolvimento sustentável é garantir o equilíbrio ecológico e assumir a responsabilidade de estar solidário com as gerações vindouras. Tentaremos por conseguinte combater e denunciar qualquer linha identificadora de insustentabilidade que reflicta, de forma mais o menos camuflada, qualquer prática de exploração do homem pelo homem, cativação e transformação selvagem produtivista dos recursos naturais da região, subordinação da vontade política aos interesses particulares e económicos, na perspectiva de corrigir assimetrias e desigualdades regionais, nomeadamente as de oferta de qualidade de vida e motivação cultural entre a cidade propriamente dita e as freguesias rurais, resolver e colmatar as injustiças sócio-culturais que historicamente têm penalizado o nosso interior desfavorecido, estimular a participação democrática dos portalegrenses na resolução dos problemas locais, regionais e nacionais, recorrendo ao referendo sempre que se avizinhe útil e oportuno, racionalizar a gestão dos espaços públicos urbanos, pôr termo à destruição acelerada da orla hortícola da cidade para fins habitacionais que apenas respondem aos interesses particulares de construtores civis e unidades bancárias de crédito, enfatizando deveras quanto estamos empenhados na criação de bem-estar individual e colectivo, na salvaguarda e promoção dos valores culturais, ambientais, paisagísticos e ecológicos, assim como na promoção e defesa das riquezas locais sem descurar o seu reflexo no equilíbrio regional, nacional e global, capaz de inibir as tentativas economicistas geradoras de crise de sobreprodução e emprego, consumo forçado e destruição dos recursos limitados mas imprescindíveis à vida.
7) Providenciar uma cidade para todos edificando plataformas de acessibilidade ou instalando elevadores em todos os serviços públicos e facilitar as obras nos privados que os queiram efectuar, quer no transporte dos materiais como no fornecimento de máquinas, licenciamentos, projecto arquitectónico e mão-de-obra especializada.
8) Pugnar pela criação de um canil hospital/hospedaria em condições de higiene, estruturais, de manutenção e de serviço clínico-veterinário suficientes e capazes, onde se possam abrigar não só os animais abandonados mas também hospedar aos que os seus donos queiram acondicionar temporariamente, por vontade expressa e mediante pagamento para o efeito, ou os enfermos que carenciem de cuidados especializados, apoio educativo e convívio com outros da sua espécie.
9) Estimular a construção de uma estufa e/ou reptilário, para fins turísticos e pedagógicos, onde se possam observar e reconhecer todas as espécies de flora e répteis existentes na região de S. Mamede, a fim de os poder divulgar e valorizar, rentabilizar e promover sem interferir nem prejudicar no seu habitat selvagem, o Parque Natural da Serra de S. Mamede e áreas adjacentes.
10) Instigar todos os serviços administrativos autárquicos a não usarem outro papel que não o reciclado, e afectar nesta medida também todos os estabelecimento de ensino cuja tutela de materiais, equipamentos e manutenção lhes esteja ligada, como é o caso dos pré-primários (creches e infantários) e 1º Ciclo do Ensino Básico, assim como providenciar a circulação da agenda cultural e demais informação respeitante aos serviços camarários e/ou municipalizados, como cortes de água, cortes de ruas ao trânsito, alterações de horários nos transportes públicos ou funcionamento dos serviços, eventos recreativos, desportivos, culturais ou oficiais, se faça por via SMS, como à semelhança daquilo que já se pratica, p. e., em Estarreja ou Entroncamento.
11) Reprogramar a atitude cultural do município de forma a fomentar a criação e usufruto dos produtos culturais numa perspectiva de disseminação da sociedade para todos, aposta não só centrada nas vertentes da multidisciplinaridade e multiculturalidade mas igualmente no capítulo das filosofias da ética e da estética à luz das quais todos os seres são iguais em dignidade e direitos, a educação ambiental sejam um dos itens inalienáveis, a biodiversidade um valor intrínseco à vida e o respeito pelas diferenças como principal suporte no qual se devem estabelecer todas as relações interpessoais e inter-institucionais, com transparência de processos, diálogo na prossecução dos intentos e estratégias, determinação nas atitudes, coerência nas propostas e solidariedade na expressão dos eventos.
12) Reeditar a Festa dos Aventais, criando uma Comissão de Cidadãos para o efeito, mas garantindo-lhes da parte da autarquia espaço apropriado, apoio logístico, equipamentos de realização, financiar, suportar e facilitar o material gráfico de promoção conveniente[1], bem como encetar diligências para que as associações, empresas e demais forças vivas da cidade se envolvam no evento, se integrem rotativamente na sua gestão e organização, e estabeleçam entre si estudos e possibilidades de melhorias e adequação aos tempos presentes.
13) Sensibilizar a autarquia para instituir e implementar uma Feira de Reciclados, com criação espaço de aprovisionamento, mostra, recolha, restauro, troca, compra e venda na Fundação Robinson, feira mensal e certame anual de antiguidades e usados, não só para evitar o elevado nível de desperdícios da nossa postura consumista, como igualmente para propiciar aos mais desfavorecidos e coleccionadores a aquisição de bens ainda em condições de circulação por preços acessíveis.
14) Instituir as estruturas básicas fundamentais e logísticas suficientes para criar, formatar, fomentar, promover e manter operativo o PROGRAMA HELP – Hoje Estamos Livres Para…, que articule simultaneamente a educação ambiental, a actividade recreativa e desportiva dos jovens, a solidariedade e participação democrática, a integração dos mais novos ou recém-chegados à cidade e consolidação dos seus direitos de cidadania, com vista a facilitar a sua emancipação. E numa perspectiva de sublinhar que HOJE ESTAMOS LIVRES PARA… nos organizarmos, lutarmos por nós e pelas nossas ideias, combatermos o especismo, a homofobia, o sexismo e a xenofobia, reflectirmos o passado, resolvermos o presente e inventarmos o futuro, na sã convivência com os restantes seres da nossa comunidade ecológica e/ou habitat, com respeito pela vida e meio ambiente ou dispostos a renegociar o nosso desenvolvimento sem o tradicional recurso ao parasitivismo fundamental, à exploração desregrada dos recursos naturais, eivados de economicismo antropocentrista com que nos temos conduzido na nosso soberano provincianismo obsoleto.
15) Providenciar a construção de uma central de compostagem e distribuição/construção dos respectivos recipientes pela cidade, não só para produzir fertilizantes de uso nos jardins públicos, como para venda aos horticultores e agricultores da região a preços de produção.
16) Providenciar a criação de estruturas para a prática de desportos urbanos e de parques infantis em todos os bairros ou zonas residenciais da população activa, e assim possibilitar às camadas jovens da população a prática dos denominados desportos cosmopolitas do nosso tempo (atletismo, patins, skate, etc., etc.), como é comum em outras localidades europeias.
17) Distribuir mais contendores de selecção de lixos (ecopontos) pela cidade, facilitando o seu acesso aos utentes, e rareando os contentores de lixo geral, dificultando-lhe o acesso, como medida incentivadora de selecção dos lixos domésticos, com vista a cumprir os preceitos ambientais e europeus de reciclagem.
18) Combater a info-exclusão, providenciando espaços de formação, serviços e consulta on line, com vista a dinamizar uma sociedade da informação para todos, conforme o plano de acção eEurope 2005, inscrevendo a cidade nas rotas das novas tecnologias da informação.
Portalegre tem uma palavra e um contributo importante a dar acerca da descontaminação do planeta, da requalificação da ecosfera, da redução do aquecimento global, das alterações climáticas, da qualidade do ar, da água e dos solos, da defesa da Terra como único lar da humanidade, da qual não abdicará, nem prescindirá das suas responsabilidades na construção de um mundo melhor para todos, alicerçado e consolidado na inovação tecnológica, na valorização do ambiente e do conhecimento, enquanto verdadeiros índices da sua emancipação. Porque, enfim, não podemos pertencer ao nosso tempo sem simultaneamente pugnarmos pelo futuro da nossa terra e das nossas gentes, numa opção de desenvolvimento sustentável, pela conservação da natureza e defesa do meio ambiente, pela dignificação da vida e humanização do conselho, por uma democracia directa, cada vez mais participada e aprofundada, no dia a dia como postulados constitucionais, por uma sociedade ecologista, consciente e emancipada
[1] Festas dos Aventais, uma tradição extinta. Festa de arreigado espírito democrata e bairrista, com o fito de se passar um alegre dia sob as frondes das árvores das redondezas de Portalegre, sem espírito de classe nem preocupações de estirpe, sem ódios de seita nem divisões por princípios ideológicos ou confessionais, cujos fundamentos elementares residiam na confraternização entre "lagóias", ao ar livre, na Quinta-Feira de Ascensão, Dia da Espiga, teve a sua primeira edição em 9 e Maio de 1907, embora que ainda sem a típica denominação de Festa dos Aventais, nem o concurso das intituladas vestes, o que só viria a acontecer mais tarde, na Fonte Fria, em 16 de Maio de 1912, sob os auspícios dos carolas da "Merenda", que aí se organizaram então como Comissão de Festas (composta por José António Dias, João Baptista Caldeira, João Marcelino Barata, João António Bugalho e Silvestre de Sousa - regente da Banda dos Bombeiros), que se compromete e responsabiliza pela sua realização no ano seguinte. O nome derivou-lhe, segundo informação prestada pelos cronistas locais, do facto de todas as donas de casa, na altura de servirem o repasto aos seus familiares, terem posto este resguardo, na tentativa de evitarem sujar as vestes domingueiras que envergavam. Para mais informações consultar no blog http://www.viverliteraturaviva.blogspot.com o artigo com mesmo título.
Em conformidade com as linhas programáticas aprovadas na VII Convenção Nacional Ecológica, de 22 e 23 de Junho de 1996, na certificação de uma acção política baseada e consciente da relação simbiótica entre o homem e a natureza, a cultura e o meio ambiente, entendíveis como componentes da ecosfera reciprocamente condicionáveis, que assistem à génese do Movimento Ecologista Português – Partido OS VERDES, directamente germinado na necessidade de agir pela paz, pela desmilitarização, pelo desarmamento, pela desnuclearização, pelos direitos cívicos e de expressão ideológica, pela implementação da ecologia e pela procura constante de formas alternativas de entender a vida e organizar a sociedade sob a bitola de um progresso e desenvolvimento solidários e sustentáveis, pautado por princípios que se adjuvem ao pugnar evidente, eficaz, frontal, transparente, contínuo e democrático que faculte a crescente humanização da cidade de Portalegre, acelere os maquinismos sistemáticos de descentralização do Estado, incentive e efective o aumento da participação da região e suas gentes no processo de democratização da sociedade, propicie notória melhoria na qualidade de vida dos portalegrenses, incremente e acompanhe de forma envolvida e responsável a problemática da globalização cumprindo no quotidiano a definitiva instituição do “pensar global agir local” que a caracteriza, concretize a multicultura e diversidade como itens ou indícios latentes da sustentabilidade ambiental, social, económica, biológica e cultural, o Partido Ecologista OS VERDES e eu, na qualidade de candidato às Assembleias Municipal de Portalegre e da Junta de Freguesia da Sé, na tentativa de ajudar a edificar uma sociedade ecologista e emancipada, que valorize o conhecimento e a tecnologia, a consciência cívica e a cidadania, e igualmente corporize o ideal libertador e progressista do 25 de Abril, aos níveis político, económico, social, cultural e ambiental, reforçando sempre o cariz e o sentido da solidariedade, da igualdade, da cooperação entre as instituições públicas e privadas na produção da qualidade de vida, da convivência harmoniosa entre grupos e sectores da sociedade, e humanização da malha urbana histórica e periférica/campesina desta capital de distrito, propomos:
1) deliberar e intervir em favor de um gradual aumento quantitativo e qualificativo da utilização dos transportes públicos na cidade, da cidade e para a cidade, bem como providenciar para que se não compre mais qualquer veículo movido a energias tóxicas não renováveis (gasolina e gasóleo), aumentar as frequências nos horários e número de carreiras, adequar os horários à vida da cidade e necessidades de deslocação da população estudantil e autóctone, sobretudo dos residentes nos bairros dos Assentos e Atalaião, corrigir os trajectos actuais e multiplicar o número de paragens estendendo os percursos às novas urbanizações (Lysias, Santana, Carvalhinhas, Fonte dos Fornos, Areeiro, por exemplo), alargar o serviço de transportes (incluindo com carreiras nocturnas) às populações das restantes freguesias do concelho (Carreiras, Fortios, Reguengo, Ribeira de Nisa, Urra, Alegrete, etc.) com vista a dinamizar, revitalizar e facilitar a vida recreativa e comercial da cidade histórica, e garantir que cada um dos veículos de passageiros a gasolina e gasóleo se vendam e sejam substituídos gradualmente, a curto e médio prazo, por veículos equivalentes mas ecologicamente desejáveis, movidos a gás e/ou electricidade.
2) Contrariar a predominância de plátanos nos passeios públicos e jardins, providenciando o transplante dos que se manifestem incomportáveis com o espaço urbano em que se encontram para zonas em que não agridam a biosfera, plantando em seu lugar outros espécimens vegetais mais conformes à flora da região, susceptíveis de amenizar o secular confronto entre o ambiente serrano e o citadino, em observância à progressiva integração da vertente decorativa urbana na da decoração paisagista regional, tentando esbater e eliminar quaisquer factores de contradição ambiental adversos à biodiversidade, confluência de interesses entre a sustentabilidade ambiental e a qualidade urbana, quer do ar como da comunidade biológica, do habitat ou do espaço reservado à convivência diária das famílias citadinas; assim como contrariar a expansão industrial e urbana promovida sem regras e obedecendo apenas aos interesses da especulação imobiliária e do lucro fácil, que incentiva a ocupação e destruição das hortas e demais terrenos aráveis da periferia da cidade, com graves consequências na perda da qualidade ambiental, evidente subtracção da diversidade biológica, e elevado contributo para a descaracterização da paisagem regional e local, para o desequilíbrio ecológico, situação que além de impedir a utilização desse solo circunstante como gerador de riqueza, é igualmente produtora de doenças civilizacionais anexas à degradação ambiental, causadora de infelicidade generalizada, sufocação, stress e inúmeras doenças do foro psicossomático que em realidade já afectam vasta camada dos nossos conterrâneos citadinos.
3) Humanizar o espaço histórico da cidade, actualmente esvaziado de famílias como de pequenas empresas que lhe davam uma dinâmica e pulsar próprios eivados de substancial harmonia económica, cultural e social que contribuíam grandemente para a segurança pública, reabilitando para a habitação familiar a preços sustentáveis e/ou sociais todos os fogos devolutos e degradados de intra e extra muros, com vista a facilitar a coesão social e integração de estudantes e emigrantes, promovendo a sua fixação na região, em acelerado decréscimo demográfico desde remotas eras, o que em muito tem contribuído para o seu subdesenvolvimento.
4) Recanalizar toda a água das nascentes e linhas fluviais urbanas hoje em dia desperdiçadas e canalizadas para a rede de esgotos ou espelhos de água, espécie similar a céu aberto, que sempre sujos e inestéticos ficam à autarquia tão onerosos como produtores da sua imagem pública pouco transparente e estagnada, para reservatórios e estações e gestão de recurso a fim de ficarem disponíveis para usos industriais e de rega dos jardins públicos e privados que a requeiram por mais barata, impregnando a autarquia da prática de poupança de um bem escasso tal e qual como esta já aconselha ao cidadão comum, dando o exemplo daquilo que se pede.
5) Aumentar o número de ruas sem trânsito e fomentar a implementação e unidades de produção circunscritas à cultura, conhecimento e inovação tecnológica, bem como das actividades artística, comercial, turística e de serviços, cuja produção de mais-valias colectáveis seja também garante de sustentabilidade económica e melhor qualidade de vida dos portalegrenses.
6) Apostar no desenvolvimento sustentável é garantir o equilíbrio ecológico e assumir a responsabilidade de estar solidário com as gerações vindouras. Tentaremos por conseguinte combater e denunciar qualquer linha identificadora de insustentabilidade que reflicta, de forma mais o menos camuflada, qualquer prática de exploração do homem pelo homem, cativação e transformação selvagem produtivista dos recursos naturais da região, subordinação da vontade política aos interesses particulares e económicos, na perspectiva de corrigir assimetrias e desigualdades regionais, nomeadamente as de oferta de qualidade de vida e motivação cultural entre a cidade propriamente dita e as freguesias rurais, resolver e colmatar as injustiças sócio-culturais que historicamente têm penalizado o nosso interior desfavorecido, estimular a participação democrática dos portalegrenses na resolução dos problemas locais, regionais e nacionais, recorrendo ao referendo sempre que se avizinhe útil e oportuno, racionalizar a gestão dos espaços públicos urbanos, pôr termo à destruição acelerada da orla hortícola da cidade para fins habitacionais que apenas respondem aos interesses particulares de construtores civis e unidades bancárias de crédito, enfatizando deveras quanto estamos empenhados na criação de bem-estar individual e colectivo, na salvaguarda e promoção dos valores culturais, ambientais, paisagísticos e ecológicos, assim como na promoção e defesa das riquezas locais sem descurar o seu reflexo no equilíbrio regional, nacional e global, capaz de inibir as tentativas economicistas geradoras de crise de sobreprodução e emprego, consumo forçado e destruição dos recursos limitados mas imprescindíveis à vida.
7) Providenciar uma cidade para todos edificando plataformas de acessibilidade ou instalando elevadores em todos os serviços públicos e facilitar as obras nos privados que os queiram efectuar, quer no transporte dos materiais como no fornecimento de máquinas, licenciamentos, projecto arquitectónico e mão-de-obra especializada.
8) Pugnar pela criação de um canil hospital/hospedaria em condições de higiene, estruturais, de manutenção e de serviço clínico-veterinário suficientes e capazes, onde se possam abrigar não só os animais abandonados mas também hospedar aos que os seus donos queiram acondicionar temporariamente, por vontade expressa e mediante pagamento para o efeito, ou os enfermos que carenciem de cuidados especializados, apoio educativo e convívio com outros da sua espécie.
9) Estimular a construção de uma estufa e/ou reptilário, para fins turísticos e pedagógicos, onde se possam observar e reconhecer todas as espécies de flora e répteis existentes na região de S. Mamede, a fim de os poder divulgar e valorizar, rentabilizar e promover sem interferir nem prejudicar no seu habitat selvagem, o Parque Natural da Serra de S. Mamede e áreas adjacentes.
10) Instigar todos os serviços administrativos autárquicos a não usarem outro papel que não o reciclado, e afectar nesta medida também todos os estabelecimento de ensino cuja tutela de materiais, equipamentos e manutenção lhes esteja ligada, como é o caso dos pré-primários (creches e infantários) e 1º Ciclo do Ensino Básico, assim como providenciar a circulação da agenda cultural e demais informação respeitante aos serviços camarários e/ou municipalizados, como cortes de água, cortes de ruas ao trânsito, alterações de horários nos transportes públicos ou funcionamento dos serviços, eventos recreativos, desportivos, culturais ou oficiais, se faça por via SMS, como à semelhança daquilo que já se pratica, p. e., em Estarreja ou Entroncamento.
11) Reprogramar a atitude cultural do município de forma a fomentar a criação e usufruto dos produtos culturais numa perspectiva de disseminação da sociedade para todos, aposta não só centrada nas vertentes da multidisciplinaridade e multiculturalidade mas igualmente no capítulo das filosofias da ética e da estética à luz das quais todos os seres são iguais em dignidade e direitos, a educação ambiental sejam um dos itens inalienáveis, a biodiversidade um valor intrínseco à vida e o respeito pelas diferenças como principal suporte no qual se devem estabelecer todas as relações interpessoais e inter-institucionais, com transparência de processos, diálogo na prossecução dos intentos e estratégias, determinação nas atitudes, coerência nas propostas e solidariedade na expressão dos eventos.
12) Reeditar a Festa dos Aventais, criando uma Comissão de Cidadãos para o efeito, mas garantindo-lhes da parte da autarquia espaço apropriado, apoio logístico, equipamentos de realização, financiar, suportar e facilitar o material gráfico de promoção conveniente[1], bem como encetar diligências para que as associações, empresas e demais forças vivas da cidade se envolvam no evento, se integrem rotativamente na sua gestão e organização, e estabeleçam entre si estudos e possibilidades de melhorias e adequação aos tempos presentes.
13) Sensibilizar a autarquia para instituir e implementar uma Feira de Reciclados, com criação espaço de aprovisionamento, mostra, recolha, restauro, troca, compra e venda na Fundação Robinson, feira mensal e certame anual de antiguidades e usados, não só para evitar o elevado nível de desperdícios da nossa postura consumista, como igualmente para propiciar aos mais desfavorecidos e coleccionadores a aquisição de bens ainda em condições de circulação por preços acessíveis.
14) Instituir as estruturas básicas fundamentais e logísticas suficientes para criar, formatar, fomentar, promover e manter operativo o PROGRAMA HELP – Hoje Estamos Livres Para…, que articule simultaneamente a educação ambiental, a actividade recreativa e desportiva dos jovens, a solidariedade e participação democrática, a integração dos mais novos ou recém-chegados à cidade e consolidação dos seus direitos de cidadania, com vista a facilitar a sua emancipação. E numa perspectiva de sublinhar que HOJE ESTAMOS LIVRES PARA… nos organizarmos, lutarmos por nós e pelas nossas ideias, combatermos o especismo, a homofobia, o sexismo e a xenofobia, reflectirmos o passado, resolvermos o presente e inventarmos o futuro, na sã convivência com os restantes seres da nossa comunidade ecológica e/ou habitat, com respeito pela vida e meio ambiente ou dispostos a renegociar o nosso desenvolvimento sem o tradicional recurso ao parasitivismo fundamental, à exploração desregrada dos recursos naturais, eivados de economicismo antropocentrista com que nos temos conduzido na nosso soberano provincianismo obsoleto.
15) Providenciar a construção de uma central de compostagem e distribuição/construção dos respectivos recipientes pela cidade, não só para produzir fertilizantes de uso nos jardins públicos, como para venda aos horticultores e agricultores da região a preços de produção.
16) Providenciar a criação de estruturas para a prática de desportos urbanos e de parques infantis em todos os bairros ou zonas residenciais da população activa, e assim possibilitar às camadas jovens da população a prática dos denominados desportos cosmopolitas do nosso tempo (atletismo, patins, skate, etc., etc.), como é comum em outras localidades europeias.
17) Distribuir mais contendores de selecção de lixos (ecopontos) pela cidade, facilitando o seu acesso aos utentes, e rareando os contentores de lixo geral, dificultando-lhe o acesso, como medida incentivadora de selecção dos lixos domésticos, com vista a cumprir os preceitos ambientais e europeus de reciclagem.
18) Combater a info-exclusão, providenciando espaços de formação, serviços e consulta on line, com vista a dinamizar uma sociedade da informação para todos, conforme o plano de acção eEurope 2005, inscrevendo a cidade nas rotas das novas tecnologias da informação.
Portalegre tem uma palavra e um contributo importante a dar acerca da descontaminação do planeta, da requalificação da ecosfera, da redução do aquecimento global, das alterações climáticas, da qualidade do ar, da água e dos solos, da defesa da Terra como único lar da humanidade, da qual não abdicará, nem prescindirá das suas responsabilidades na construção de um mundo melhor para todos, alicerçado e consolidado na inovação tecnológica, na valorização do ambiente e do conhecimento, enquanto verdadeiros índices da sua emancipação. Porque, enfim, não podemos pertencer ao nosso tempo sem simultaneamente pugnarmos pelo futuro da nossa terra e das nossas gentes, numa opção de desenvolvimento sustentável, pela conservação da natureza e defesa do meio ambiente, pela dignificação da vida e humanização do conselho, por uma democracia directa, cada vez mais participada e aprofundada, no dia a dia como postulados constitucionais, por uma sociedade ecologista, consciente e emancipada
[1] Festas dos Aventais, uma tradição extinta. Festa de arreigado espírito democrata e bairrista, com o fito de se passar um alegre dia sob as frondes das árvores das redondezas de Portalegre, sem espírito de classe nem preocupações de estirpe, sem ódios de seita nem divisões por princípios ideológicos ou confessionais, cujos fundamentos elementares residiam na confraternização entre "lagóias", ao ar livre, na Quinta-Feira de Ascensão, Dia da Espiga, teve a sua primeira edição em 9 e Maio de 1907, embora que ainda sem a típica denominação de Festa dos Aventais, nem o concurso das intituladas vestes, o que só viria a acontecer mais tarde, na Fonte Fria, em 16 de Maio de 1912, sob os auspícios dos carolas da "Merenda", que aí se organizaram então como Comissão de Festas (composta por José António Dias, João Baptista Caldeira, João Marcelino Barata, João António Bugalho e Silvestre de Sousa - regente da Banda dos Bombeiros), que se compromete e responsabiliza pela sua realização no ano seguinte. O nome derivou-lhe, segundo informação prestada pelos cronistas locais, do facto de todas as donas de casa, na altura de servirem o repasto aos seus familiares, terem posto este resguardo, na tentativa de evitarem sujar as vestes domingueiras que envergavam. Para mais informações consultar no blog http://www.viverliteraturaviva.blogspot.com o artigo com mesmo título.
6.02.2005
HUMANIZAR A ECONOMIA: RECICLAR, INOVAR E REPARTIR.
“Todas as políticas da União Europeia devem integrar um elevado nível de protecção do ambiente e melhoria da sua qualidade, e assegurá-los de acordo com o princípio do desenvolvimento sustentável.”
Artigo II – 37º, do Tratado Para a Constituição da Europa
Companheiros e companheiras:
Quase tudo aquilo que a gente ignora é algo por demais sabido e tido como seguro e assente por muitos outros. Daí que quanto mais acentuada for a diferença entre nós e os nossos semelhantes, mais a sua vida díspar da nossa, mais os seus valores contrários aos nossos, então maior será a riqueza daquilo que eles têm para nos transmitir.
É impossível sujeitar todos os discursos (ou jogos de linguagem e poder) à autoridade de ideologias partidárias que se pretendem como síntese do significante, do significado e da própria significação, ou seja, enquanto discurso universal e consistente, tal e qual como tem sido apanágio dos politólogos das nossas sacrossantas maiorias sociais democratas e socialistas, únicas praxis e mentalidades responsáveis pela crise económica, de falta de credibilidade na democracia e falência generalizada da qualidade de vida dos portugueses, do caos das finanças públicas e da ingovernabilidade do país que ora atravessamos, posto que esta crise é “a prova provada”, o algodão imaculado e felpudo que não engana, de como a sociedade e as relações sociais se não podem fundamentar por muito mais tempo num sistema económico baseado no produtivismo e no consumismo que subsistem à custa da exaustão dos recursos naturais, da exploração do homem pelo homem, do atavismo empresarial e público corporativista do establishement e da contínua negação ou espúria resistência à inovação tecnológica. Porque para resolvê-la não bastam um conjunto de medidas avulsas de reafirmação do discurso da autoridade partidária que se apoderou do Estado, nem a arrogância do metadiscurso de uma maioria eleita à custa da vendeta e descontentamento primitivos, mas sim de um relançamento da economia baseada no desenvolvimento humano, numa evolução qualitativa em que o progresso tecnológico seja orientado para as necessidades reais de uma população a braços com a integração num mundo em constante mudança e somente alicerçado na incerteza duradoira. Um projecto ecologista que se escore nas regras da sustentabilidade, se bata pela construção da sociedade do bem-estar contra o mito da quantidade (e a qualquer preço), gerador de desperdícios crescentes e assimetrias inúteis que ameaçam a devastação do tecido económico e conduzem de forma assertiva à dependência absoluta dos financiamentos europeus e consequente ruptura da identidade nacional.
O essencial é invisível aos olhos, como dizia o principezinho para a serpente no tempo em que os homens acreditavam que as raposas e o coração falava mais alto que a lógica fiduciária, que a razão era mais forte que os interesses mercantilistas, e a necessidade era mais substancial e motivadora que a fartura. Para se vencer a mediocracia instaurada não basta portanto ser ternurento para os interesses sibilinos, pérfidos, proféticos e sinuosos dos partidos instalados no poder da economia e na economia do poder, mas ter em linha de conta quanto é imperioso e urgente agir antes que a luta pela vida se degrade em luta pela sobrevivência, o que torna absolutamente interiorizado e assumido na consciência de cada um a premência factual e decisiva de como o espírito ecologista e ambiental, não só deve estar disseminado por todos os quadrantes da sociedade e sua gestão, como também superintender e tutelar todas as políticas sectoriais, enquanto dado de base imprescindível para a ultrapassagem e superação da mecânica economicista do desenvolvimento, as mais das vezes simplesmente de resposta às expectativas e interesses pessoais ou de grupos financeiros, o que o torna aleatório e desnecessário do ponto de vista colectivo, a fim de privilegiar da produção e emprego o todo social, e não apenas alguns sortudos beneméritos, esclarecer transversalmente a vantagem competitiva da informática e da robótica, recuperar e investir nos recursos renováveis e produtos da cultura e do conhecimento, estabelecer as balizas da sustentabilidade económica enquanto tabela para as sustentabilidades sociais local e global.
Portanto considera-se necessário rever o papel do Estado em todos os domínios onde a sua tutela anula e neutraliza a criatividade e capacidade de realização, quando fomenta o incentiva a desresponsabilização dos cidadãos, ou quando serve exclusivamente como instrumento ao serviço dos poderes económicos instalados; como é igualmente necessário que combatamos o centralismo e o autoritarismo que logicamente lhe está associado.
“Todas as políticas da União Europeia devem integrar um elevado nível de protecção do ambiente e melhoria da sua qualidade, e assegurá-los de acordo com o princípio do desenvolvimento sustentável.”
Artigo II – 37º, do Tratado Para a Constituição da Europa
Companheiros e companheiras:
Quase tudo aquilo que a gente ignora é algo por demais sabido e tido como seguro e assente por muitos outros. Daí que quanto mais acentuada for a diferença entre nós e os nossos semelhantes, mais a sua vida díspar da nossa, mais os seus valores contrários aos nossos, então maior será a riqueza daquilo que eles têm para nos transmitir.
É impossível sujeitar todos os discursos (ou jogos de linguagem e poder) à autoridade de ideologias partidárias que se pretendem como síntese do significante, do significado e da própria significação, ou seja, enquanto discurso universal e consistente, tal e qual como tem sido apanágio dos politólogos das nossas sacrossantas maiorias sociais democratas e socialistas, únicas praxis e mentalidades responsáveis pela crise económica, de falta de credibilidade na democracia e falência generalizada da qualidade de vida dos portugueses, do caos das finanças públicas e da ingovernabilidade do país que ora atravessamos, posto que esta crise é “a prova provada”, o algodão imaculado e felpudo que não engana, de como a sociedade e as relações sociais se não podem fundamentar por muito mais tempo num sistema económico baseado no produtivismo e no consumismo que subsistem à custa da exaustão dos recursos naturais, da exploração do homem pelo homem, do atavismo empresarial e público corporativista do establishement e da contínua negação ou espúria resistência à inovação tecnológica. Porque para resolvê-la não bastam um conjunto de medidas avulsas de reafirmação do discurso da autoridade partidária que se apoderou do Estado, nem a arrogância do metadiscurso de uma maioria eleita à custa da vendeta e descontentamento primitivos, mas sim de um relançamento da economia baseada no desenvolvimento humano, numa evolução qualitativa em que o progresso tecnológico seja orientado para as necessidades reais de uma população a braços com a integração num mundo em constante mudança e somente alicerçado na incerteza duradoira. Um projecto ecologista que se escore nas regras da sustentabilidade, se bata pela construção da sociedade do bem-estar contra o mito da quantidade (e a qualquer preço), gerador de desperdícios crescentes e assimetrias inúteis que ameaçam a devastação do tecido económico e conduzem de forma assertiva à dependência absoluta dos financiamentos europeus e consequente ruptura da identidade nacional.
O essencial é invisível aos olhos, como dizia o principezinho para a serpente no tempo em que os homens acreditavam que as raposas e o coração falava mais alto que a lógica fiduciária, que a razão era mais forte que os interesses mercantilistas, e a necessidade era mais substancial e motivadora que a fartura. Para se vencer a mediocracia instaurada não basta portanto ser ternurento para os interesses sibilinos, pérfidos, proféticos e sinuosos dos partidos instalados no poder da economia e na economia do poder, mas ter em linha de conta quanto é imperioso e urgente agir antes que a luta pela vida se degrade em luta pela sobrevivência, o que torna absolutamente interiorizado e assumido na consciência de cada um a premência factual e decisiva de como o espírito ecologista e ambiental, não só deve estar disseminado por todos os quadrantes da sociedade e sua gestão, como também superintender e tutelar todas as políticas sectoriais, enquanto dado de base imprescindível para a ultrapassagem e superação da mecânica economicista do desenvolvimento, as mais das vezes simplesmente de resposta às expectativas e interesses pessoais ou de grupos financeiros, o que o torna aleatório e desnecessário do ponto de vista colectivo, a fim de privilegiar da produção e emprego o todo social, e não apenas alguns sortudos beneméritos, esclarecer transversalmente a vantagem competitiva da informática e da robótica, recuperar e investir nos recursos renováveis e produtos da cultura e do conhecimento, estabelecer as balizas da sustentabilidade económica enquanto tabela para as sustentabilidades sociais local e global.
Portanto considera-se necessário rever o papel do Estado em todos os domínios onde a sua tutela anula e neutraliza a criatividade e capacidade de realização, quando fomenta o incentiva a desresponsabilização dos cidadãos, ou quando serve exclusivamente como instrumento ao serviço dos poderes económicos instalados; como é igualmente necessário que combatamos o centralismo e o autoritarismo que logicamente lhe está associado.
5.25.2005
A SINISTRA
Entre o arvoredo da alameda do solar dos Tocados, uma sombra esgueirou-se. Lesta, furtiva. De silhueta feminil, coberta por gabardina creme. Sabia-se abrigada das vistas indiscretas dos comensais. Mas ao dispor de quem a observasse de fora do gradeamento. E tal incomodava-a sobremaneira.
Viera ao entardecer, por julgar assim mais fácil de despistar qualquer semelhança com Vitória, que lhe desmascarasse o parentesco. Preferia ficar incógnita. Pelo menos até poder encontrar-se com ela a sós e explicar-lhe, dum modo credível, primeiro a sua presença, e depois as razões por que a abandonara tão pequenina, no santuário, aos braços dum desconhecido. Mas a tarefa avizinhava-se-lhe de incalculável dificuldade.
Chegara na camioneta da tarde, por volta das cinco, quase sem bagagem, só com um saco de plástico onde trazia o pijama, duas mudas de roupa interior, escova e pasta de dentes. E uma mala de cabedal a tiracolo, em castanho desbotado que nunca largava. O telemóvel, algum dinheiro em nota e moeda trocada, cartão de crédito e agenda electrónica. Para não levantar curiosidades, nem suspeitas. Demais a mais, que chovia e fazia frio, o que lhe possibilitou recorrer de um lenço de cabeça de seda castanha, a condizer com a sacola de cabedal.
Não dera nas vistas, e assim queria manter-se – em anonimato. E se em verdade Vitória a não conhecia, ela tinha-a acompanhado mais ou menos discretamente nos momentos importantes, como passagens de ano e classe, visitas de estudo e férias, viagem de finalista, recebimento de diploma e exame para a carta de condução. Ao princípio receosa, numa timidez e sentimento de culpa que a atabalhoavam, mas evoluindo lentamente em à-vontade, ousadia e maquiavelismo. Até que ganhara coragem e decidira abrir o jogo. Primeiro por iniciativa própria, todavia no presente por temor. Medo por ela, ou do que lhe pudesse via a acontecer se o seu pai biológico descobrisse o paradeiro, agora que já tinha conhecimento da existência duma filha que nunca quisera e jurara matar. O que sem dúvida faria, e para tanto puseram diversos dos seus caninos pisteiros na peugada.
Tinha que avisá-la do perigo que corria. Tal como igualmente carecia de justificar-se e receber o seu perdão pelo abandono. Porque dum momento para o outro podia tornar-se tarde demais. E a cada hora, cada minuto, mais perigoso se tornava aproximar-se dela. Alguém lhe montaria guarda para a eventualidade, embora remota, de ela lhe desvendar o seu paradeiro. Uma ponta solta, que poderia transformar-se no fim daquela por quem tanto sofrera para salvar.
Se como ela Vitória era ruiva e de olhos verdes, rosto oval pintalgado de sardas minúsculas, que atribuíam um ponteado de trama gráfica ao aveludado da pele rosada, quem a não tivesse conhecido anteriormente, dificilmente lhe atribuiria semelhança por essa via, pois que pintara o cabelo de preto azeviche e pusera umas lentes de contacto que lhe alteravam a cor da íris para castanho-escuro, quase negros, e que aliás complementara com intensivo bronzeado artificial. Contudo, há traços que dificilmente se apagam, sem plásticas radicais ou deformações acidentais. E esses, como a testa abaloada e alta, as arcadas supraciliares de fundo e marcado relevo, o pescoço esguio, o queixo levemente arrebitado e o nariz cleópatro, o jeito de andar e os trejeitos de ave assustada que lhes eram comuns, mantinham-se visíveis e detectáveis a qualquer observador avisado. Mas o pior era que, se algum dos farejadores que o pai pusera em sua perseguição, aportasse a Casal Parado com uma fotografia dela da época em que engravidara, cuja idade seria idêntica à que a filha teria actualmente, por volta dos 23 anos, e a mostrasse aos habitantes, inclusive aqueles que jamais haviam privado no solar, todos seriam unânimes em afirmar que a da foto outra não seria senão Vitória. O que representava uma enorme derrota para o seu esforço.
Então decidiu-se. Contornou a ala direita do palacete dos Tocados, sempre ao abrigo da vegetação, e experimentou a porta das traseiras, a da cozinha, que a debalde tentou abrir. Fez o mesmo à janela, dando-lhe breves mas convictos safanões, e esta cedeu. Cedeu e ruidou, num guincho de dobradiças com falta de óleo. Esperou que algum barulho ou presença afectassem tê-la denunciado, em imobilidade de estátua de feira, e só depois de certa que não tinha sido notada, é que ousou escalar ao parapeito com o auxílio duma caixa de cerveja vazia. Saltou para o interior e aquietou-se, não apenas para se habituar à escuridão da dependência, mas também para melhor escutar de onde e em que qualidade eram os ruídos de presença, que se faziam ouvir ora em surdina, ora com desenvoltura e fundo musical.
Afoitou-se à porta de ligação com o bar, entreabrindo-a, e espreitou, tentando ver ao máximo sem ser vista. Descortinou dois homens de perfil posterior, sentados a uma mesa comprida, que emborcavam cerveja enquanto olhavam a televisão, e de cuja eram os sons que escutara ao saltar para o interior. E uma mulher, de porte senhoril, xaile traçado e semblante sereno e altivo, que os imitava, embora que mais visível porque de lado. Retraiu-se, atentando para não fazer barulho, e cuidadosamente descalçou os sapatos, que meteu nos bolsos da gabardina, enquanto ginasticava os dedos dos pés, ao aperceber-se do frio das lajes do chão. Um arrepio percorre-lhe o corpo, mas que não adicionou importância maior.
Ao seu lado direito, entre a escadaria para o piso superior e o balcão, uma pilha de caixas de refrigerantes, a que Tony Emanuel subtraía de tempos a tempos uma, que tudo indicava ir depositar na despensa, encobri-la-ia dos olhares, e o pilar central permitir-lhe-ia alcançar daí a escadaria sem ser detectada, se fosse ligeira e silenciosa no q. b. que a operação requeria. Assim, mal o troca bilhas se apoderou duma grade, correu na sua retaguarda, agachou-se ao abrigo das restantes, e em dois pulos alcançou as escada, que subiu a quatro membros, sob a protecção da murada de corrimão. Mas se não foi vista por ninguém, o facto não se deve tanto à sua ligeireza e instrução de guerrilha, quanto à hora e momento, que providenciara a transmissão televisiva da telenovela diária.
Finalmente a recato, ergueu-se bípede como no princípio, em verbo de busca da sua doce, inocente e ingénua filha. Sabia encontrá-la aí, sobretudo porque a observara da rua, a umas das janelas sacudindo um tapete felpudo. Percorreu a penumbra do corredor, até uma das altas portas, por cuja rasteira fresta se escoava ténue esguicho de luz. Encostou-se-lhe como quem se masturba na maçaneta, espalmando-se nela, tentando escutar o máximo através dela, dado ser-lhe impossível ver por ela com igual resultado. E em seguida rodou o fecho de uma vez, empurrou para cima, içando a porta para que não rojasse no chão, e entrou decidida. Se o pior ainda estivesse para vir, ali estava para o receber de frente e faces abertas. Ânimo leve e busto erguido.
Vitória estava de cu para o ar, vasculhando na última gaveta da cómoda por um par de cuecas lavadas. O tou-tou arregaçado, as nádegas vermelhuscas e húmidas da recente esfregadela, a púbis perlada de cristalinas gotas de água. Angelical e incauta, nem se apercebera da entrada da outra. Esta tossiu, para fazer-se notada.
«Deixa, não te preocupes: sou tua mãe.»
A surpreendida surpreendeu-se ao ouvir a voz duma estranha, mas não se sentiu com moral nem posição para gritar. À progenitora também as expectativas tinham saído goradas: é que não fora essa a situação que idealizara para lhe revelar o segredo da maternidade. Um momento sonhado anos a fio, sublimado e antevisto, quase sempre intensamente reforçado pelos finais dos filmes da TVI. Principalmente porque sabia que nunca seria possível uma aproximação mais populista, em formato Ponto de Encontro com souvenir, beijos e abraços, acompanhados à palmatoada e comovidos acordes. Mas a vida é o que é, e raramente são os protagonistas a escrever o guião.
«Quem é você?» Foi a única frase que lhe ocorreu dizer. Os braços suspensos, num movimento interrompido, o queixo quase a tocar o ombro esquerdo, os olhos num viés de esbugalhante irritação.
«Sou tua mãe, querida», repetiu a aparição. «Maria da Conceição do Imaculado, tua mãe.» Insistiu, apresentando-se.
“Provavelmente é piada”, teria a soberana pensado se ao momento estivesse em posição de o fazer. Contudo ergueu-se, baixou o tou-tou de tafetetá, que aliás nem era dela, pois fora Rebeca que lho emprestara para ela mais de acordo com a coreografia doméstica fazer a limpeza do quarto, alisou-lhe os folhos e experimentou enfrentar a intrusa dentro dos parâmetros duma igualdade possível.
«Muito prazer. Vitória Emanuel Tocado», retribuiu ela, apresentando-se também. «Como entrou aqui?»
«Pela porta, depois de ter subido as escadas» de gatas, apeteceu-lhe adiantar, a fim de se justificar, tal como de noticiar como à breves minutos atrás também se vira em indecorosa pose. Mas não o fez e preferiu explicar-lhe o móbil da incursão. «Estou aqui porque sou tua mãe, e o teu pai já sabe que existes.»
«Pois sabe. Foi ele quem me criou», sublinhou com desdém a sublimada, referindo-se a Tony do achamento.
«Não, esse não é teu pai», afivelou Maria o raciocínio, para melhor apresentar a exposição dos factos. «Esse apenas te recolheu com um dia de vida.»
«Mas não morreu. Como sabia que ele estava doente? Que os médicos lhe tinham dado nem mais um dia?» Cepticou a jovem.
«Não sabia. Tu é que tinhas um dia», esclareceu a da concepção. «Nasceste nos arredores, na Quinta de Santa Clara onde passei seis meses refugiada, em turismo rural de habitação. Temia que teu pai me fizesse abortar. Ou pior ainda: me limpasse o sarampo.»
«Ah, então é por isso que fiquei toda pintalgada e sardenta... Ainda por cima estavas doente!» Lamentou-se a desafortunada. «E como temias que eu te morresse no colo, meteste-me nos braços do primeiro que apareceu!...»
«Não, filha; não», implorou Maria aflita pelo rumo que a conversa estava a tomar. «Senta-te, querida. Deixa-me explicar. Eu conto-te tudo.»
E sentaram-se ambas sobre a cama. Maria, segurando umas das mãos de Vitória entre as suas, e a emoção embargando-lhe o desembaraço da voz.
CAPÍTULO UM
(...) Não perca! Já está pronto a servir; basta você encomendar, para cair bem quentinho!...
Entre o arvoredo da alameda do solar dos Tocados, uma sombra esgueirou-se. Lesta, furtiva. De silhueta feminil, coberta por gabardina creme. Sabia-se abrigada das vistas indiscretas dos comensais. Mas ao dispor de quem a observasse de fora do gradeamento. E tal incomodava-a sobremaneira.
Viera ao entardecer, por julgar assim mais fácil de despistar qualquer semelhança com Vitória, que lhe desmascarasse o parentesco. Preferia ficar incógnita. Pelo menos até poder encontrar-se com ela a sós e explicar-lhe, dum modo credível, primeiro a sua presença, e depois as razões por que a abandonara tão pequenina, no santuário, aos braços dum desconhecido. Mas a tarefa avizinhava-se-lhe de incalculável dificuldade.
Chegara na camioneta da tarde, por volta das cinco, quase sem bagagem, só com um saco de plástico onde trazia o pijama, duas mudas de roupa interior, escova e pasta de dentes. E uma mala de cabedal a tiracolo, em castanho desbotado que nunca largava. O telemóvel, algum dinheiro em nota e moeda trocada, cartão de crédito e agenda electrónica. Para não levantar curiosidades, nem suspeitas. Demais a mais, que chovia e fazia frio, o que lhe possibilitou recorrer de um lenço de cabeça de seda castanha, a condizer com a sacola de cabedal.
Não dera nas vistas, e assim queria manter-se – em anonimato. E se em verdade Vitória a não conhecia, ela tinha-a acompanhado mais ou menos discretamente nos momentos importantes, como passagens de ano e classe, visitas de estudo e férias, viagem de finalista, recebimento de diploma e exame para a carta de condução. Ao princípio receosa, numa timidez e sentimento de culpa que a atabalhoavam, mas evoluindo lentamente em à-vontade, ousadia e maquiavelismo. Até que ganhara coragem e decidira abrir o jogo. Primeiro por iniciativa própria, todavia no presente por temor. Medo por ela, ou do que lhe pudesse via a acontecer se o seu pai biológico descobrisse o paradeiro, agora que já tinha conhecimento da existência duma filha que nunca quisera e jurara matar. O que sem dúvida faria, e para tanto puseram diversos dos seus caninos pisteiros na peugada.
Tinha que avisá-la do perigo que corria. Tal como igualmente carecia de justificar-se e receber o seu perdão pelo abandono. Porque dum momento para o outro podia tornar-se tarde demais. E a cada hora, cada minuto, mais perigoso se tornava aproximar-se dela. Alguém lhe montaria guarda para a eventualidade, embora remota, de ela lhe desvendar o seu paradeiro. Uma ponta solta, que poderia transformar-se no fim daquela por quem tanto sofrera para salvar.
Se como ela Vitória era ruiva e de olhos verdes, rosto oval pintalgado de sardas minúsculas, que atribuíam um ponteado de trama gráfica ao aveludado da pele rosada, quem a não tivesse conhecido anteriormente, dificilmente lhe atribuiria semelhança por essa via, pois que pintara o cabelo de preto azeviche e pusera umas lentes de contacto que lhe alteravam a cor da íris para castanho-escuro, quase negros, e que aliás complementara com intensivo bronzeado artificial. Contudo, há traços que dificilmente se apagam, sem plásticas radicais ou deformações acidentais. E esses, como a testa abaloada e alta, as arcadas supraciliares de fundo e marcado relevo, o pescoço esguio, o queixo levemente arrebitado e o nariz cleópatro, o jeito de andar e os trejeitos de ave assustada que lhes eram comuns, mantinham-se visíveis e detectáveis a qualquer observador avisado. Mas o pior era que, se algum dos farejadores que o pai pusera em sua perseguição, aportasse a Casal Parado com uma fotografia dela da época em que engravidara, cuja idade seria idêntica à que a filha teria actualmente, por volta dos 23 anos, e a mostrasse aos habitantes, inclusive aqueles que jamais haviam privado no solar, todos seriam unânimes em afirmar que a da foto outra não seria senão Vitória. O que representava uma enorme derrota para o seu esforço.
Então decidiu-se. Contornou a ala direita do palacete dos Tocados, sempre ao abrigo da vegetação, e experimentou a porta das traseiras, a da cozinha, que a debalde tentou abrir. Fez o mesmo à janela, dando-lhe breves mas convictos safanões, e esta cedeu. Cedeu e ruidou, num guincho de dobradiças com falta de óleo. Esperou que algum barulho ou presença afectassem tê-la denunciado, em imobilidade de estátua de feira, e só depois de certa que não tinha sido notada, é que ousou escalar ao parapeito com o auxílio duma caixa de cerveja vazia. Saltou para o interior e aquietou-se, não apenas para se habituar à escuridão da dependência, mas também para melhor escutar de onde e em que qualidade eram os ruídos de presença, que se faziam ouvir ora em surdina, ora com desenvoltura e fundo musical.
Afoitou-se à porta de ligação com o bar, entreabrindo-a, e espreitou, tentando ver ao máximo sem ser vista. Descortinou dois homens de perfil posterior, sentados a uma mesa comprida, que emborcavam cerveja enquanto olhavam a televisão, e de cuja eram os sons que escutara ao saltar para o interior. E uma mulher, de porte senhoril, xaile traçado e semblante sereno e altivo, que os imitava, embora que mais visível porque de lado. Retraiu-se, atentando para não fazer barulho, e cuidadosamente descalçou os sapatos, que meteu nos bolsos da gabardina, enquanto ginasticava os dedos dos pés, ao aperceber-se do frio das lajes do chão. Um arrepio percorre-lhe o corpo, mas que não adicionou importância maior.
Ao seu lado direito, entre a escadaria para o piso superior e o balcão, uma pilha de caixas de refrigerantes, a que Tony Emanuel subtraía de tempos a tempos uma, que tudo indicava ir depositar na despensa, encobri-la-ia dos olhares, e o pilar central permitir-lhe-ia alcançar daí a escadaria sem ser detectada, se fosse ligeira e silenciosa no q. b. que a operação requeria. Assim, mal o troca bilhas se apoderou duma grade, correu na sua retaguarda, agachou-se ao abrigo das restantes, e em dois pulos alcançou as escada, que subiu a quatro membros, sob a protecção da murada de corrimão. Mas se não foi vista por ninguém, o facto não se deve tanto à sua ligeireza e instrução de guerrilha, quanto à hora e momento, que providenciara a transmissão televisiva da telenovela diária.
Finalmente a recato, ergueu-se bípede como no princípio, em verbo de busca da sua doce, inocente e ingénua filha. Sabia encontrá-la aí, sobretudo porque a observara da rua, a umas das janelas sacudindo um tapete felpudo. Percorreu a penumbra do corredor, até uma das altas portas, por cuja rasteira fresta se escoava ténue esguicho de luz. Encostou-se-lhe como quem se masturba na maçaneta, espalmando-se nela, tentando escutar o máximo através dela, dado ser-lhe impossível ver por ela com igual resultado. E em seguida rodou o fecho de uma vez, empurrou para cima, içando a porta para que não rojasse no chão, e entrou decidida. Se o pior ainda estivesse para vir, ali estava para o receber de frente e faces abertas. Ânimo leve e busto erguido.
Vitória estava de cu para o ar, vasculhando na última gaveta da cómoda por um par de cuecas lavadas. O tou-tou arregaçado, as nádegas vermelhuscas e húmidas da recente esfregadela, a púbis perlada de cristalinas gotas de água. Angelical e incauta, nem se apercebera da entrada da outra. Esta tossiu, para fazer-se notada.
«Deixa, não te preocupes: sou tua mãe.»
A surpreendida surpreendeu-se ao ouvir a voz duma estranha, mas não se sentiu com moral nem posição para gritar. À progenitora também as expectativas tinham saído goradas: é que não fora essa a situação que idealizara para lhe revelar o segredo da maternidade. Um momento sonhado anos a fio, sublimado e antevisto, quase sempre intensamente reforçado pelos finais dos filmes da TVI. Principalmente porque sabia que nunca seria possível uma aproximação mais populista, em formato Ponto de Encontro com souvenir, beijos e abraços, acompanhados à palmatoada e comovidos acordes. Mas a vida é o que é, e raramente são os protagonistas a escrever o guião.
«Quem é você?» Foi a única frase que lhe ocorreu dizer. Os braços suspensos, num movimento interrompido, o queixo quase a tocar o ombro esquerdo, os olhos num viés de esbugalhante irritação.
«Sou tua mãe, querida», repetiu a aparição. «Maria da Conceição do Imaculado, tua mãe.» Insistiu, apresentando-se.
“Provavelmente é piada”, teria a soberana pensado se ao momento estivesse em posição de o fazer. Contudo ergueu-se, baixou o tou-tou de tafetetá, que aliás nem era dela, pois fora Rebeca que lho emprestara para ela mais de acordo com a coreografia doméstica fazer a limpeza do quarto, alisou-lhe os folhos e experimentou enfrentar a intrusa dentro dos parâmetros duma igualdade possível.
«Muito prazer. Vitória Emanuel Tocado», retribuiu ela, apresentando-se também. «Como entrou aqui?»
«Pela porta, depois de ter subido as escadas» de gatas, apeteceu-lhe adiantar, a fim de se justificar, tal como de noticiar como à breves minutos atrás também se vira em indecorosa pose. Mas não o fez e preferiu explicar-lhe o móbil da incursão. «Estou aqui porque sou tua mãe, e o teu pai já sabe que existes.»
«Pois sabe. Foi ele quem me criou», sublinhou com desdém a sublimada, referindo-se a Tony do achamento.
«Não, esse não é teu pai», afivelou Maria o raciocínio, para melhor apresentar a exposição dos factos. «Esse apenas te recolheu com um dia de vida.»
«Mas não morreu. Como sabia que ele estava doente? Que os médicos lhe tinham dado nem mais um dia?» Cepticou a jovem.
«Não sabia. Tu é que tinhas um dia», esclareceu a da concepção. «Nasceste nos arredores, na Quinta de Santa Clara onde passei seis meses refugiada, em turismo rural de habitação. Temia que teu pai me fizesse abortar. Ou pior ainda: me limpasse o sarampo.»
«Ah, então é por isso que fiquei toda pintalgada e sardenta... Ainda por cima estavas doente!» Lamentou-se a desafortunada. «E como temias que eu te morresse no colo, meteste-me nos braços do primeiro que apareceu!...»
«Não, filha; não», implorou Maria aflita pelo rumo que a conversa estava a tomar. «Senta-te, querida. Deixa-me explicar. Eu conto-te tudo.»
E sentaram-se ambas sobre a cama. Maria, segurando umas das mãos de Vitória entre as suas, e a emoção embargando-lhe o desembaraço da voz.
CAPÍTULO UM
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5.18.2005
À MESA COM A TV
1. FÉNIX
Quando desceu da bicicleta, Isadora do Carmo reparou no vulto escuro e peludo do animal entre as ervas, junto ao muro de pedra solta. Aproximou-se, descontraída, sentindo nos músculos das pernas o descongestionar de alívio ao esforço despendido, e notou que era um canino, enroscado sobre si mesmo. Soube que estava vivo pelos arrepios e tremuras que lhe estremeciam o dorso encurvado. Acautelou o andar, para o não sobressaltar, mas continuou a dirigir-se-lhe determinada e afoita. À distância de uma passada soube que o acordara, porquanto este a olhara mortiço e pesaroso, quase desanimado, como quem já não teme nem espera nada da vida. O negro da íris, baço e sem brilho, ofuscado por uma cortina de felpa lacrimosa, toco-a conforme um SOS de muda aflição. Então agachou-se em bicos de pés, apoiando as nádegas sobre os calcanhares, a fim de o atentar melhor. Pareceu-lhe inofensivo e fez-lhe uma festa com a mão direita, acariciando-o na testa, entre as vistas, com apenas dois dedos: o indicador e anelar grande.
Como a posição e irregularidade do piso lhe dificultavam a aproximação, desceu os joelhos à terra, debruçando o tronco para lhe ficar perto. E o animal cerrou as pálpebras em assentimento e suspendeu o tremor. Sob o pêlo preto, eivado de branco sujo, notavam-se-lhe os contornos da espinha dorsal e costelas, em resultado da evidente magreza. Considerou-o faminto mas não doente, não por ter qualquer prova disso, antes devido à sua intuição protectora. Franziu o sobrolho, ponderando na atitude a tomar, alargou a carícia sobre a cabeça com a palma a mão, e decidiu que o bicho apenas carecia de cuidados e alimentação. Ergueu-se, serena e segura, num gesto comedido iniciando o impulso com o auxílio do braço esquerdo, a mão em mola cónica apoiada no solo, e encaminhou-se para casa, percorrendo a pé o resto da subida até ao Monte, onde habitava. Podia tê-lo feito de bicicleta, mas receou que o cão se assustasse com a geringonça, ao pô-la em movimento.
A meio do trajecto, Isadora torceu o pescoço em viés canhoto, fixando intencionalmente a figura que deixara momentos antes, em soslaio contemporizador, num derradeiro mas simultaneamente esperançoso «volto já», qual promessa subentendida de quem superiormente prefere cumprir do que prometer. O cão, que mais tarde veio a confirmar-se ser uma cadela, olhava igualmente fixa a silhueta que o visitara na manhã arrufada e, embora afastadas por dezenas de metros largos, o que viram uma da outra foram os clarões empáticos que as pupilas de ambas emitiram, quais flashs minúsculos mas de intensa luminosidade e significado, curtos e breves, e todavia febris que nem gritos de vida.
E foi aí, nesse circunstancial e rigoroso segundo, décimo cagagésimo de segundo, que a comunhão afectiva, sentimental, passional, entre os corações destes dois seres se configurou em amor autêntico de primeira vista que, para não fugir à regra, acontece sempre na vez seguinte ao encontro ou registo inaugural. Ao olhar de confirmação e quando ambas as partes se abalançam na entrega, se põem entre si a usual questão «se entrei num sonho, será que estou dormindo ou acordado?» e justamente se declaram rendidos perante a coincidência de terem pensado ou visto o mesmo: o seu ser íntimo e essencial a mergulhar de cabeça nas profundidades anímicas do Outro.
Quem confortara quem? Que esperança eclodira naquele instante? Todos os seres são iguais desde que capazes de prazer e de dor, e se vejam assim interessados em partilhar a felicidade e harmonia globais, numa razão justificável por contribuírem para o equilíbrio ambiental, na salvaguarda pelo respeito e direito à inovação e liberdade existenciais. Portanto, Isadora do Carmo, transpondo a porta de casa para refazer a caminhada anterior, trazendo consigo uma lata de carne picada (em conserva) e o tosco prato de barro, com falhas no bordo estampado com motivos campestres alentejanos, ocres, amarelos rendilhados com formas florais azuis e ceifeiras roliças reluzentes, pressentia estar a executar o inequívoco gesto de uma ordem natural que assiste à simbiose do universo: ajudar a eternizar a vida, seja qual for a maneira com que se manifeste e a diferença que a caracterize, espécie ou género, aparência ou designação, que esta encontre para se revelar.
Não tinha além de treze anos mas parecia uma mulher acabada, tanto nas particularidades feminis que lhe arredondavam o esqueleto, como na postura erecta e desenvolta, compenetrada, confiante, ou na expressividade humana com que reagia à solicitações do quotidiano. O cabelo longo, anelado, escorrido e candente sobre o dorso, castanho com laivos dourados, balouçava na passada acompanhando-lhe o ritmo e sublinhando-lhe a decisão. Estava de férias escolares, em veraneio desocupado, e com o dia por conta própria, livre de adultos até ao entardecer, que era quando estes se soltariam dos afazeres profissionais, fechavam a porta do trabalho para abrir a de pessoas de família. Os do activo, que outros, como o avô Alberto e os vizinhos António Crespo e Alice Rovisco, aposentados todos, raramente saíam do Monte, acrescentando-o com suas discretas presenças como se lhe pertencessem, fossem elementos figurativos de sua natureza e composição, integrando no quadro as linhas mestras duma permanência original e humanizada, tal como no princípio provavelmente fora, enquanto núcleo social de resistência à solidão e isolamento campesinos.
O saibro esboroava-se e rilhava em sussurro sob as solas das botas de saltos rasos, cano curto e atacadores garridos, enquanto antegozava o momento de ver o canino saciar-se. Abocanharia tudo de uma vez ou morderia temerosa e timidamente o repasto? Demonstraria gratidão ou partiria depois de alimentado? Atenderia ele as suas expectativas e interrogações? A camiseta azul marinho com flores estampadas com que protegia o tronco e busto pareceu-lhe subitamente quente e apertada, talvez consequência directa da inquietação que se lhe avolumava no peito. Todavia não apressou o andamento, o que seria uma resposta compreensível perante a ansiedade suscitada. Antes o retardou, estimando que a surpresa lhe não defraudasse o prazer, por antecipação intelectiva. Ou adiantamento. E as saias compridas, de corte e desenho afro-asiático, semelhantes à indumentária cigana, colaram-se-lhe às coxas firmes e suadas, pelo exercício do pedal, permitindo adivinhar a sensualidade latente à sua adolescência não reprimida, mas sacudiu-as maquinalmente, distraída e sem esmero de coquete, somente num descarrego de preocupações irrelevantes.
Mal lhe chegou junto, o faminto saudou-a com subtil bater de rabo na erva rala da valeta. Outrora secos e turvos, os seus olhos exibiam outrossim a húmida luz da familiaridade. Abriu a lata, metendo o dedo e puxando o aro metálico tipo espoleta, e verteu no prato o conteúdo, usando a tampa laminada como instrumento cortante para desfazer o rolo compacto e avermelhado da carne. Agachou-se novamente, em posição igual à que inicialmente adoptara, depôs-lhe o prato à beira das ventas, com o fito de que a intensidade do odor encorajasse o recalcitrante esfomeado a tomar a iniciativa desejada de lutar pela sobrevivência, no que não foi prontamente satisfeita. Mas após escassos minutos, que lhe pareceram bem maiores que os costumeiros da retouça, a reacção esperada adveio numa lambidela desempenhada, pouco convicta, ainda que prometedora.
Então, Isadora regozijou-se e suspirou de alívio. Comprazida assistia ao esforço do canino a esticar o pescoço para o prato, a insistir na tentativa de abocanhar e lamber o acepipe. De princípio bastante contrafeito, sacrificado, acelerou contudo à medida que a salivação o reanimava, para concluir finalmente no abocanhar de um naco mais solto, que engoliu a custo. E isso despertou-lhe a velha sabedoria da espécie: a energia recupera-se consumindo-a, que é a única maneira viável de recapturar o seu teor e impulso.
«Não seria exagerada a quantidade, para quem de há muito não provava sustento? Se fosse uma pessoa, era-o sem dúvida», pensou. «Mas é um cão, e estes estão preparados para comer quando há, até que tenham nova oportunidade de o fazer...», confiou ela.
Contente com o que via, desviou a atenção brevemente, e reparou na bicicleta. Mirou-a sorrateira e imaginou-se a montá-la, a pedalar nela pelas veredas e caminhos da herdade, acompanhada pelo cão, a par de si, em corrida pinoteada e feliz. E a vontade, ou o desejo que tal se tornasse realidade, trouxe-lhe renascida uma imensa ternura que lhe alastrou pelo corpo, lhe preencheu de alento cada átomo dele e se fez líquida por altura dos olhos castanhos de veludo avelã, de onde brotou em forma de lágrimas proféticas, a rebolarem-se cristalinas e reluzentes nas faces redondas de seu oval rosto, estremecidas pelo chorar ridente do catártico bem-querer, enquanto contemplava a comensal, que enfim evoluía a pratos limpos!...
Finda a refeição recompenso-o com festas de mão cheia sobre a nuca até constatar que adormecera. Levantou-se em seguida, recolhendo prato e lata vazia, que o campo não é lixeira nenhuma como o interpretam alguns citadinos, mas o jardim natural, único por sinal, que a biosfera nos dispensou (e em boa hora!), para que dele cuidássemos e usufruíssemos. E retomou o velocípede, embora sem nele se montar, preferindo conduzi-lo a seu lado, estrada a cima.
O muro separava-a das pocilgas, de onde soavam alguns grunhidos dos suínos a registar o seu triunfo, na azáfama de forrar os interiores ao couro. Ao topo dele, estacando o ângulo dos chiqueiros com a parede que circunda o Monte e protege o pátio no sítio onde as casas não servem igualmente de muralha, o eucalipto altaneiro platinava de tremeluzente e oleoso verde os princípios do céu. Mais adiante, marcando a entrada do recinto em volta do qual as casas se dispõem, no lado oposto ao forno, uma figueira abebreira pingando abêberas, vasculhava o ar circulante atenuando a brisa com suas largas folhas. E aí chegada, ponto a partir do qual deixaria de ver a estrada de macadame por onde viera, não resistiu a deitar a última mirada pela valeta, a confirmar se a sua protegida se mantinha no mesmo lugar. Mantinha. Portanto, depois de estacionar o veículo sobre a árvore, dirigiu-se à fonte, cuja carranca de sol bochechudo esguichava água da nascente no ocidente do pátio, chapinhar o rosto e lavar o recipiente em que dera comer ao animal sem-abrigo.
Se ao que naquele momento acontecia, por exemplo pudéssemos dar um rótulo, atribuir um nome, um logotipo, pelo que ali eclodia, explodia, da magia da manhã num monte quase silencioso, onde apenas o rumorejar da água caindo da bica para a tina do fontanário, o arrulhar dos pombos nos beirais dos telhados e o ciciar das folhas sob o efeito da aragem compunha a sinfonia do quadro, lembraria por certo a presença animada de outra forças que não as da alma humana, o grito interior a cocegar-nos os tutanos, formigando esperança e contentamento em cada célula, escolheríamos certamente uma imagem de brasa rejuvenescida a crepitar das cinzas do quotidiano, alguma centelha incandescente no emaranhado dos dias, como feitiçaria de célticas e misteriosas fadas.
Por isso, Isa planava que nem uma águia dentro do universo de si mesma, confortada pela constelação de promessas que lhe estrelavam o íntimo, o que se reflectia no rosto, dando vida às que das faces soletravam os pigmentos duma ancestralidade africana. Desconhecia o que lhe acontecera, mas tinha a certeza de um porém: que se tornara outra. Pôs o prato a secar, no poial do forno, e correu à esquina dele, para se certificar se a mancha escura na relva se mantinha “acesa”. As pernas agiam-lhe sozinhas e a tranquilidade matinal conspirava no enleio apenas identificável para os que sabem que o amor, na sua excelência e plenitude, vai muito para além das espécies e dos géneros, pois é como uma seiva a borbulhar de vida no interior de cada ser animado, pertença ele à flora, à fauna ou à humanidade. Que há um dia em que transborda em lava quente e sai pelas pupilas a buscar conforto e ternura nas borbulhas alheias, que estouram de repleta felicidade como balões de espuma, para retornar multiplicado, ampliado, fecundo e sequioso de novas viagens e escapadelas. Daí que lhe fosse difícil parar quieta um momento, a fim de obrigar-se a pensar na forma de convencer os pais a permitirem-se mais um elemento na família! Porque, enfim…, ela não conseguia deixar de pensar que encontrara o outro lado inseparável do sonho, que é quando as fantasias e aspirações, de miríades que são, confluem para uma realidade só: uma companhia essencial, testemunha e cúmplice própria para cada um dos seus instantes.
Então decidiu que não estava em condições condignas de receber um visitante ilustre com tamanha envergadura e patente, considerando que se achava suada e suja demais para anfitriã, e entrou em preparos de alindamento, duche e mudança de roupa, a abonecar-se como se enamorada, cuidando-se com esmero, no intuito de receber honrada e condignamente o ministerial hóspede: um cão esquelético e abandonado. Exactamente.
Escolher a indumentária começou por ser um divertimento que depressa se transformou em tortura. Qual é o traje oficial para uma pessoa se apresentar perante o animal de nossa eleição? Deve ir a rigor, com a usual austeridade das fardas pardas de ver a Deus? Ou, por outro lado, roto e esfarrapado como quem anda na apanha da azeitona? E o banho... Deve tomar-se com sabonete, loção perfumada ou sabão macaco? O cabelo pode ir molhado e enleado, em propositado desleixe, ou seco, solto, brilhante e penteado? O problema avolumara-se tanto, fizera picardias tamanhas no armazém das conjecturas e saberes, que ela teve - teve, não: viu-se obrigada a tomar a atitude radicalérrima - de seguir o tradicional costume (aliás sobejamente prático) de sacudir os ombros à aflição com a resposta do bom senso: porque logo que algum momento especial nos intimida devemos equipar-nos com o à-vontade diário, utilizando a vestimenta do hábito, aquela que nos fornece o conforto e galhardia de todos os dias. O que nela, óbvio está, passava obrigatoriamente por saias compridas, folgadas, rodadas, largas, e camiseta colorida de tecido fresco e modelo de corte flexível, fácil nas manobras e aconchegante no recato, porquanto naquela época do ano, em que sobretudo se aproveitava da liberdade para crescer auxiliada pela acção e movimento, ora da marcha como do pedalar, na escalada aos penedos e serranias como na subida às árvores de frutos, em cujo cume se encontram sempre os mais desenxovalhados e suculentos, como na ajuda aos idosos nos carregos da lide, não era de descurar o apego à desenvoltura. Principalmente porque amadurecer é um petisco confeccionado, apresentado, servido e ingerido sem cerimónias! E os salamaleques inoportunos apenas amaneiram e atrapalham a presteza a quantos se querem activos, operantes, participativos, assumidos e compenetrados nas tarefas do tornar-se uma pessoa também gente...
Mas resolvida a diferença não era atreita a apreciar os louros do negócio, quer no admirar-se narcísica dos espelhos, como no alisar-se em demoras de vincar os perfeccionismos, e de ápice em ápice cruzou o pátio depois de o ter feito à ombreira da porta de casa, e deste ao acesso saibroso do caminho até ao vulto peludo, como quem tem asas nos pés, ou na alma diz-se, se é esta quem afinal caminha, embora que para mim, que sou fora do tempo e das modas, antes me queiram parecer que elas iam sim no coração, pois que era este suponho quem a impulsionava que nem um balão de ar quente, a fazia voar, ir por cima das coisas térreas e superficiais, a planar, a deslizar lesta, ou a contrariar a importância da gravidade e soturno tic-tac do tempo. Sabe-se!... Ou por outra: desconfia-se.
O bicharouco acordara assim que a ouvira e ensaiara levantar-se, num gesto de gratidão e gentileza, demonstrando que ainda não perdera as boas maneiras, não obstante a degradante miséria em que se encontrava, o civilizado saber fazer sala cavalheiresco de içar o respectivo traseiro quando alguém se nos dirige, a atenção ou a palavra, se caso dela é, mas desistiu por insuficiência energética e falta de ligeireza na operação, visto que Isa quando voa é rápida, e lá que ela voava isso voava, se considerarmos que semelhante andar outra coisa não pode sugerir..., para acocorara-se de imediato a olhos sôfregos, sôfregos e grandes, enormes e sequiosos, perante ele a beber-lhe os seus, com os dedos minuciosos de ternura a nervurarem-lhe o crânio.
De uma oliveira perto, esvoaçou um melro, em piu-piu metálico, rasante, de quem refila contra os incómodos vizinhos, dirigindo-se para a figueira, onde pousou a banquetear-se de abêboras a seu bel-prazer. A nuvem caprichosa, persistente, deu o solavanco que faltava e o sol veio por ali abaixo, jorrando próspero e altaneiro e quente e fagueiro impondo a estação a que pertence. Avaliou os estragos da subnutrição e contabilizou, por expectativa e mentalmente, o número de parasitas que teria por cada centímetro quadrado de pêlo e pele. O interior das orelhas pejado de carraças, o pescoço pulguento e encardido, o dorso seco e áspero da sujidade. «Podia ter tomado banho depois disto...», considerou prática e pragmática. «Mas a água não gasta o corpo e posso muito bem tomar outro banho a seguir a isto!...», concluiu de imediato, afastando o núcleo pesaroso que iniciava a formar-se no cerne das suas cogitações. Então, num «se há trabalho por que espero!» ergueu-se pronta, arrebitada, tentando lembrar-se onde o avô guardava os produtos de higiene e desparasitação dos seus cães e caça... E o canino imitou-a, cuidando que lhe lia a vontade, para segui-la. Adoptara-a como dona, embora lhe fizesse espécie aquela coisa do semblante meditabundo num enquadramento de trajes tão vivos e flanantes.
«Ah, és uma cadela?!», exclamou rindo, o júbilo a periquitar-lhe nos tutanos, reconhecendo quanto lhe agradava constatar a evidência. Não que a defraudasse o facto ou hipótese de ser um macho, considerando que para ela ser não é uma questão de género, mas... bem, dos mistérios sexistas agradava-lhe sobretudo a faculdade de poder acondicionar o mundo segundo a visão pacata que dele tinha, e os cães andavam sempre a urinar em todo o lado, a guerrear, a competir por tudo e por nada. A resmungar, rosnar, a guardar e comandar sem que ninguém lhe encomendasse o serviço. Ao que ela estava muito sensível ultimamente, e que lhe causara diversas e acrescidas inquietações nesse âmbito. Por exemplo, não percebia porque é que os rapazes mais velhos a olhavam daquele jeito, de olho arregalado e sem pestanejar, em perscrutares intimidatórios, quando se compenetrava em alguma tarefa, ou absorta não reparava que o decote lhe mostrava parte das maminhas, as saias no balanço do movimento lhe realçavam o desenho das coxas e quadris, o que lhe provocava fúteis arrelias, irreverências hormonais e sentires contraditórios, gostares e não-gostares simultâneos, no corpo e no espírito.
«Melhor assim», aquiesceu, confirmando-lhe e configurando-lhe a suspeita de que o código de entendimento mútuo só podia sair beneficiado pela circunstância de funcionarem sob as mesmas coordenadas da identidade e discurso biológico. «Já tenho chatices que cheguem lá na escola, com as parvoíces daqueles patetas!...», e encetou a marcha, fisgando a comparsa pelo canto da olhadura, garantindo-se de que esta a seguia, ainda que cambaleante, trôpega, a escarranchar-se nos primeiros passos, vacilantes que nem de vitelo acabado de nascer, dolorosos mas impositivos da vontade, claudicantes mas determinados, periclitantes mas direccionados, indecisos mas com motivo e sentidos definidos, as ventas a arfar alçadas, arquejantes, abertas, a respirar sôfrega os odores de Isa e da manhã, perseguindo-a e tentando manter a distância entre ambas o mais curta possível.
Por seu turno, Isadora, talvez em propositada consequência do apercebimento das dificuldades, retardava o andamento, cozinhando conjecturas e alinhavando projectos, onde as duas coubessem por igual medida. E se a família embicasse em querê-la sim, mas junto aos demais cães, no canil? Não via justo meter a fragilidade carente no mesmo habitat da matilha... «Vão brigar, castigá-la pela sua debilidade, roubar-lhe a ração, fazê-la padecer e rastejar ainda mais», concluiu. Mas «calma», contemporizou, «uma coisa de cada vez. Lá chegaremos!...»
O forno é um casarão enorme com duas divisões apenas. Dum lado, o depósito das alfaias, suplementos adicionais e adubos, sementes e restantes materiais agrícolas; do outro, a cozinha de fora, com o respectivo forno para assados, tulha de cinzas e lareira. Aí funcionara em tempos, efectivamente, o forno a lenha para fazer pão, mas haviam feito obras recentemente, derrubando-o e aproveitando a chaminé para edificar em seu lugar um lareira ampla, de lar em laje granítica, e um forno menor, que permitisse além de cozinhar, também seroar ao seu redor. (Modernices!...) E o restante espaço apetrechado com equipamento condizente à sua utilização: mesa de pedra central, ladeada com bancos altos de madeira e fundo de entrançado bunho, lava-loiças e bancada de confecções, armários de parede, fogão a gás, frigorífico, arca congeladora, enfim, o usual para a serventia que lhe dedicaram as pessoas e os tempos impuseram na satisfação dos gostos, bem como na das necessidades e bem-estar. No inverno faziam ali lume, que estava 24 horas por dia aceso, para curar as carnes dependuradas na chaminé, pois todos os anos matavam dois porcos, em Janeiro, de que faziam enchidos e presuntos, conforme os temperos e moldes tradicionais.
O avô, lembrara-se então, costumava guardar os produtos perigosos da pecuária num armário embutido do depósito, arrecadação de mil coisecas e artefactos, espólios e labuta e cultivo. A ideia de procurar lá com que lavar a lazarenta surgiu-lhe, numa dedução lógica, enquanto se deslocava meditativa e apreensiva, roendo as unhas, arreando biqueiradas nesta ou naquela pedrita menos discreta que sobressaía do saibro, sem qualquer propósito além do descarregar maquinal, espontâneo, das preocupações momentâneas. Pensado e feito confluíram para o mesmo espaço-quando e, depois de ter arengado com a perseguidora num «fica aqui. Nada de modas nem saídas à pedro-palmeiro, ou de fugas à barrela, òvistzsches?!...», de afectuosa familiaridade, em meio por meio de pedido e ordem, com abundância de gestos para reforço à compreensão da cadela, quase maternal, e de quem sabe serem escusadas as recomendações, mas fazendo-as não obstante, unicamente por sentir prazer em dirigir-lhe a palavra, dizer-lhe qualquer frase elaborada para elevar a figurante ao estatuto de protagonista num cenário de gente. Igual. Considerada. E digna de atentadas justificações.
A outra, que se não compreendeu pelo menos obedeceu, sentou-se à porta, sobre os quartos traseiros, o rabo a vasculhar e sacudir a areia do pátio, com o olhar pregado na oradora da retórica doméstica, quase risonho, ou simplesmente enigmático, tipo Gioconda expectante como similarmente sedutora, a cabeça levemente descambada para a esquerda, de quem pensa para consigo «mas o que é que esta quer agora!?...»
No interior, a vista contundida catrapiscando a penumbra, sentindo as agruras do repentino salto da luminosidade diurna para o crepúsculo dos cómodos, deparou contudo com o armário trancado, aferrolhado a cadeado, e angustiou-se sob o baque do coração pressagiador, qual órgão que jamais se abstém de meter o bedelho onde não é chamado e governar os pensamentos com as características palpitações, sobretudo se defrontamos a realidade adversa. «Um'assim!!... Mas onde é que aquele salsichão fora de prazo escondeu a chave?!...», refilou ela contrafeita, dando a mirada geral, a avaliar as perspectivas de resolução. «Ora, o pinante!»
Ajeitou a madeixa. O punho canhoto aperrado de quem se apresta a desferir um soco no destino acrescentava indignação contrastante ao pesar facial. Bateu com o pé direito no chão e inquiriu o espaço circundante; principalmente os frisos, nichos e cantos. Depois flectiu o dorso e gritou mentalmente para dentro de si: «Pensa Isadora!!! Estás parva ou quê?!?» - incitando-se, admoestando-se a continuar as buscas. «O que é que dizem na televisão acerca de proteger os pequenos dos venenos?... Acondicionados e fechados à chave. Pois bem: onde pôr esta de maneira a ficar disponível para todos excepto para as crianças? Num lugar alto, onde elas não cheguem, é claro. E como é que os adultos sabem onde procurá-la mesmo que ninguém lhes diga onde a puseram? Num local óbvio, seguro e prático. Qual é esse sítio dentro duma arrecadação? Pensa Isadora!... Pensa» e, congeminando hipóteses, deitando à cadela aquele fixar mudo de quem implora o milagre de uma solução para os seus males aos únicos que a não podem ter, nem nunca terão, à semelhança do que os demais mortais fazem com os seus deuses, deparou-se de relance com a entrada e deu uma palmada na testa. «Na porta! É isso... Só pode ser!» E dirigiu-se-lhe cabritando euforia.
Descerrou-a meiamente, desencostando-se da parede, ficando-lhe de esquina, tal e qual como veleiro na dobragem do Cabo das Tormentas: de um lado o motivo (a rafeira); do outro, a solução técnica – a chave. Porque é sempre entre a dor e a esperança que se navega… Vai-se de uma à outra num dobrar de lágrimas! Mesmo quando a chave não passa de mera hipótese dela, visão de desejo a que não é alheia o sonho. Portanto, atentou melhor e com demora. Ao cimo, à altura de dois metros e qualquer coisa, dependurada de um prego por retorcido arame de zinco, em jeito de asa curva, a lata cilíndrica avermelhada que em tempo de validade própria embalara tomate pelado de conserva, balançou quando tentou tocar-lhe com a ponta dos dedos, chocalhando metal e substanciando as suspeitas com consolidado alento. Então empertigou-se mais, em bicos de pés, e ferrou-lhe forte piparote que a atirou ao chão. Em resposta pelo trato, dela saiu de imediato uma argola de ferro, que à volta de si tinha diversas chaves de díspares tamanhos e feitios. «Eh, tantas!... Nem sei pra quê… Só preciso de uma!», gargalhou ela, deitando a língua de fora ao mamífero que, ainda que não percebendo patavina da novela que por ora ali se desenrolava, achou por bem dar meia dúzia de sacudidelas com a cauda, à laia de palmatoadas no chão, a fim de aplaudir a actuação da senhorita dos desaustinados pinotes.
O êxito inspirou-a a ponto de ousar escalar na tarimba artística, conquanto tentou subir nela, e de puladora sem trapézio alvitrou-se vedeta canora, pelo que se pôs a trautear as modinhas brejeiras dos estala bombas e romarias das redondezas. A cadelita arrebitou as orelhas para melhor apreciar os dotes da actriz cantadeira, que se manteve na ribalta do folguedo até escancarar as portadas ao embutido. E nas quatro prateleiras deste observou uma infinidade de frascos e frasquinhos, latas, latinhas, caixas e caixinhas, que assentavam praça alinhada nas fileiras compostas, sem qualquer preocupação de design, cor ou tamanho, excepto nas filas duplas, onde os mais pequenos e os maiores por trás, revelavam aprumos de indicação retratista, ou de quem tivesse alinhavado a coreografia para retrato de família ou recordação de equipa para efeméride do torneio. «Outro bico-de-obra!...», reconheceu, franzindo a tez na tentativa de se concentrar, melhorando a acuidade visual com o semblante de quem medita, ou acrescentando ao esforço a expressão esforçada, num reparado momento ascético de melhorar o conceito se lhe representarmos a sinalética adequada: «Calma… Que quanto maior é pressa, mais devagar se lá chega!» Seria?
Pesticidas, herbicidas, unguentos, alquimices diversas e sempre misteriosas; umas reconhecíveis, outras nem tanto, na variedade topo de gama costumeiro que a publicidade nos vai sublinhando para que o inconsciente se não alvitre delas… Enfim, feitiçarias próprias de entorpecer o ambiente com a ajuda do cérebro descuidado!
Mas após leitura sumária de títulos e rótulos, cujas parangonas pouco lhe diziam, tentando aliciar a vontade com a necessidade objectiva, quase desistiu, embora a sua famosa teimosia, que sempre a par andou da natureza dos entraves, lhe aconselhasse a persistência, a instigasse para a obstinada tempera, viu-se e desejou-se remoendo o peculiar «por mal, pior ainda» com que habitualmente brindava os circunstantes que por pirraça a contrariavam. «Seja: se querem “luta”, vão tê-la», e arregaçou as mangas da intenção, disposta a ler de cada um a informação disponível até encontrar algum que servisse. Há pessoas assim. E depois? São feitios!...
Por bem, tudo; por mal, nem a camisa… E daí? Há alguém disposto a fazer correr banhos para mudança futura?... Até que finalmente, três dos frascos obtiveram «satisfaz» na observância dos bonecos e literatura inclusa. Deslocou-se mais para a luz e, sobre o jorro desta, oriundo da entrada, leu-lhes o manifesto de intenções (ou posologia) como quem avalia um programa governamental, para o qual a validade é discutível conforme o que dele se espera, mas não lhe empresta credibilidade superior à funcionalidade momentânea. Um, porém, da aturada pesquisa, por sinal o menos legível, bastante deteriorado no rótulo enodado, onde a supor-se pelas letras que restavam do título (Pec...nol) lhe gerou tremedeira nas vísceras, levando-a a reclamar em prece «é este. Só pode ser este, meu deus» assim meio deslumbrada com tantos animais no bojo das resenhas, ovelhas, cães, gatos, pássaros, galinhas, que a modos de uma arca da Noé em marketing doutras bíblias se tratasse. E, afoita e decidida, ligeira e alvoraçada, não tem peneiras nem hesitações que a retenham, arrumando seguidamente os dois de sobra onde os encontrara, deixando tudo na mesma ordem, a fim de se não notar o arrombamento e invasão de cómodos, aos que ciosos ou prevenidos deles tivessem receada memória, consciência dos perigos e atitude preventiva. Principalmente o avô, que era quem na matéria lhe impunha ais respeito!...
Portanto, confirmada a utilidade e modo de usar do unguento viscoso e espesso, pardalitou entre selhas e tinas de onde tirou um alguidar de plástico, meio resinoso e desbotado no magenta sumido e surrado, que recordava ter visto nas mãos do velhote preferido quando em preparos de barrela para os caçadores da coutada se atinha, ou investia sobre o bardo, pocilgas e arribanas para pulverizar o pulguedo, formigas e similares devastadores da quietude bucólica que sonhava para o seu torrão, no bombear e aspergir cantos e recantos, fisgas e tufos onde lhe palpitassem as parasitárias presenças. Coscuvilhou por trapos um que lhe permitisse a esfrega, considerou o tamanho da cadela e de como enfiá-la quieta no alguidar, perscrutou a sombra da figueira para palco das operações e, ao transpor a ombreira deu uma piscadela de olho ao bicho, sorrindo cumplicidade matreira, num convite velado para que a seguisse, o que incentivado com determinado «anda daí» resultou às mil maravilhas, visto que a canina figura lhe foi no encalço, perseguindo-lhe e pisando-lhe a sombra dançarina. O que nem sequer estranhou, tal era o seu entusiasmo e azáfama, nem acrescentou qualquer mistério ao facto estarem sintonizadas na mesma frequência quando há tão pouco tempo se conheciam.
Depôs o recipiente sob a copa da figueira, alinhavou o plano de sedução, caprichou nos pormenores, questionou a educanda com um irónico «como prefere, alteza: morna, quentinha ou fria?» acerca da água, mas o convincente reparo de retorquir-se saiu-lhe sem demoras de «fria-friinha, que o clima também manda», uma vez que o calor canicular já se fazia sentir àquela matinal hora. A confirmar, assim a trouxe-mouxe que há deveras perguntas que nos fazemos a nós próprios, não para descortinar respostas, mas para nos aliviarmos da tensão ou garantirmos que as decisões tomadas por uma só das partes envolvidas está de acordo com ambas, a ganhar segurança no eco de nos escutarmos a consciência, dissolvendo dúvidas e inquietações entorpecentes da acção, fragilizantes dos motivos comummente acompanham o gesto. Como era o caso!
Debaixo da árvore, apetrechada de trapo e vara, uma cana seca de aproximadamente meio metro, para mexer a água, onde verteu duas tampas do líquido enfrascado, aprestou-se para repetir o que anteriormente vira fazer a seu pai e avô. A solução tornou-se de um colorido leitoso, a feder a creolina, espécie de anti-séptico extraído do alcatrão de hulha que tem um cheiro assaz intenso e activo, incomodante quase, e encaminhou a cadela para a improvisada banheira. Esta ainda regateou, fez questão de não entrar às primeiras, resistiu, sobretudo porque nestas coisas se deve sempre apresentar uma digna submissão, a registar o nosso veemente desacordo com a medida, e para que fique bem claro que acatamos a directiva mas contrariados. Exactamente. Sem tirar nem pôr.
Só que a crueldade de quem nos quer bem não conhece limites... E Isadora, não satisfeita e contente com a conquista da sua entrada no alguidar, foi ainda mais além, submetendo-a outras duras provas, obrigando-a a sentar-se dentro, ensopando-lhe o pêlo sob o qual a pele ardia aqui e ali, expulsando inflamações e picadas de carraças e pulgas, escoriações de matos ou escamas do coçar-se. Aquiesceu. Acima de tudo porque a pressão exercida pela lavadeira sobre o seu lombo, não lhe deixava alternativa, e ela se considerava demasiado fraca para andar a perder tempo contrariando disparates, caprichos de fedelhos impertinentes, de quem mal a conhecia, e nem por sombras sonhava quanto era responsável e audaz, mãe orgulhosa e esforçada, que três anos atrás parira e criara quatro filhotes sem ajuda de ninguém, que aleitara a poder de muita caçada, educara com esmero e autenticidade, até que alguém pouco escrupuloso lhos raptara, surripiara, subtraíra, durante uma ausência da toca, a fim de alimentar-se. Até chegou a esboçar um ladrar de dizer-lhe, ali na refrega o que lhe ia germinando nos tutanos, mas calou-se assim que se apercebeu que a desalmada escaroladora, indiferente ao seu tremelicar, insistia em ensopar-lhe a vestimenta com aquele caldo asséptico, provocando-lhe sérias contrariedades na compreensão do mundo, da vida e essencialmente desses seres estranhos e obtusos bípedes a que estava ligada irremediavelmente desde a sua cachorrice, indivíduos desconcertantes e imprevistos, que tanto a alimentaram e acarinharam, como lhe bateram, abandonaram ou aviltaram, sobre os quais testemunhava amiúde uma consciência controversa e de suspeitas intenções, que a levavam a urdir sobrelevados e filosóficos considerandos onde «não se pode gostar de ninguém… Olha para esta: confiei nela assim que a vi, e eis no que deu! É triste saber que aqueles de quem mais gostamos são sempre os que menos nos merecem!»
Por seu turno Isa, tomando cautelas para que o líquido não entrasse na boca e olhos do animal, ao mesmo tempo que redobrava as atenções sobre orelhas e cachaço, onde os parasitas quadruplicavam em número e actividade, por saberem ser-lhe difícil a remoção com o coçar de patas ou mordedura, não se impedia contudo de magicar numa maneira airosa de convencer a família a adoptar a sua nova amiga. Podia argumentar que os cães do avô não se prestavam a grandes correrias com ela e precisava de alguém que intimidasse os estranhos, evitando que se aproximassem demasiado, pois nunca se sabe ao que vêm… «podia! Mas ganhava o mesmo!... Todos sabem que no Monte há sempre alguém conhecido por perto ou ao alcance da vista» ainda que ocupados, considere-se, uma vez que domesticar a terra, dar-lhe formato de coisa produtiva e útil, se não apresta a divagações ociosas. Podia até aliciar o avô, fazer com que ele dissesse que precisava dela para a caça ou guardar o gado, mas com certeza estaria a entrar em terrenos movediços visto que «os meus cães são os melhores das redondezas. Num raio de 50 quilómetros não há outros como os meus, quer para coelhos, lebres, perdizes ou bicharada. E a maior parte dos vizinhos que caçam, vieram abastecer-se de cachorros aqui», como ele costumava afirmar, seria um pontapé muito baixo e puxado para o seu orgulho de criador, treinador e conservador de raça apurada, o que, como é óbvio, embora gostasse muito da neta não lhe daria convicta margem para manobra. Podia recorrer à mentira, que tinha sido «uma colega que me pediu para a guardar durante as férias, porque não tem onde a deixar. E como nós temos campo, e eu estou desocupada, até me dá jeito» mas adulto ainda não é sinónimo de tanso, e bastava olhar para ela para reconhecer que não era assim tão esbelta e amanhada para uma família que se preocupava em deixá-la segura e cuidada sempre que saía de casa. O certo, se certo havia numa questão destas, era que lhe dessem ordem para a entregar no canil municipal, onde seria abatida caso ninguém a reclamasse, do que não duvidava minimamente, pois se alguém houvesse no mundo com intenção de dela cuidar não a tinha abandonado antes. Podia comprometer-se a tirar as melhores notas da turma, tornar-se a marrona da classe se a deixassem ficar com a cadela. «Sim; é o que lhes vou dizer. E depois, se chumbar algum ano não me venham cá com coisas, porque eu avisei-os…» Mas em seguida lembrou-se das afrontas por que teria que passar a fim de cumprir o prometido e do que o pai costumava dizer acerca deste tipo de compromissos, citando invariavelmente um humorista português qualquer, que teve o desplante de escrever isso para a posteridade, resumindo-o numa tirada de «nunca te comprometas demasiado. O próprio Deus já não chega para as encomendas», como que a alertá-la para os inconvenientes das promessas que dificilmente cumpriremos, a não ser que Deus no ajude!
Por conseguinte, nada mais havendo a tratar, deu o acto por encerrado com o peculiar «a ver vamos, como diz o cego» das tarefas aziagas, empresas de futuro incerto e prognósticos impossíveis, escarolou a rafeira, teceu projectos de passeio pelos campos na tarde próxima, na intenção de gozar a companhia da outra enquanto pudesse, sem expectativas nem ilusões. Fez das tripas coração, arrancou raízes profundas, cerziu a malha das felicidades possíveis com as linhas da elasticidade e do que for soará, onde as antecipações, ainda que generosas, serão sempre de menor resolução e menos prazenteiras que o momento presente.
Findo o banho prendeu-a a secar, presa à porta do forno, onde não pudesse espojar-se na terra, e foi arrumar o quarto dela. Precisava daquele tempo de solidão ocupada para se desabituar da ideia de ficar com ela para sempre. O silêncio do Monte, algo que apenas constatava quando se sentia abocanhada pela necessidade de tomar decisões fundamentais, prescritas numa responsabilidade que (ainda) lhe não competiam, notava-se essencialmente se as galinhas cacarejavam, ou os pássaros sobre a nespereira junto à fonte trinavam a sua sede, sobrepondo o seu piar ocasional ao rumorejar constante da água a cair da bica. E foi quando ao sacudir dos lençóis à janela, reparando como o sol se espelhava no pêlo da cadela, que serena a fitava com a meiguice peculiar dos olhos de castanho melado que a caracterizavam, que se apercebeu do seu renascimento, como se daquela coisa enrolada, suja e amarfanhada que vira na beira do caminho, outro ser faiscasse renovado e repleto de singular encanto... Então, uma das muitas histórias malucas que o avô lhe contava, que impreterivelmente começavam por "Naquele tempo, quando os deuses ainda habitavam na Terra e conviviam com os homens no seu dia a dia..." veio-lhe de repente à memória, e tão clara e viva era, que parecia voltar a ouvi-la segundo cada palavra que ele lhe dissera. Falava de uma ave mitológica, denominada Fénix, que vivia infinitamente porque, segundo a lenda, ao queimarem-na tinha o condão de ressuscitar das próprias cinzas.
Sorriu perante o efeito duma tonteria assim, magicares que só mesmo duma cabeça complicada como a daquele avô desnorteado podiam surgir, e, com os cotovelos apoiados no parapeito, o gesto de sacudir a roupa da cama em suspensão de quem esqueceu o que estava fazendo, gritou-lhe: «Hei, Fénix! Fénix!...» Ao que a rafeira latiu como resposta, saracoteando a cauda, empinando-se nas patas traseiras, emprestando ao momento a afectuosa retribuição que o chamamento carecia. Retornou para dentro, a acabar de fazer a cama, mas os pensamentos esvoaçavam-lhe na ideia, como morcegos numa sala iluminada à procura de um recanto escuro onde pudessem esconder-se. Dirigiu-se novamente à janela e repetiu: «Fénix! Fénix!»
E obteve o latir igual, os mesmos pinotes, o reconhecido contentamento que anteriormente identificara. «Só pode ser... É este o teu nome», concluiu, deitando-lhe a língua de fora em retouçado descaramento. Pelo que se apressou, pois a caraiva da tarde já lhe formigava no corpo, na ansiedade de cumprir-se facto consumado de cada minuto.
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Noitinha já, regressara enfim, afogueada e faminta. A mãe punha a mesa para o jantar, o avô peganhou com ela com aqueles «'tão periquitita!... É até à noite na boa-vai-ela, não?», e o pai mandou-a lavar as mãos para comer. Da televisão sobre o frigorífico, onde todos a podiam observar enquanto comiam, escorriam sobre os cómodos da dependência do forno, utilizada como cozinha de fora, os arregougos musicais do indicativo para o telejornal. O avô recomendou ao pai um «não te esqueças de amanhã, lá no Grémio, comprar sementes de couve sete-semanas que está na altura de fazer os canteiros», ao que ele anuiu com «esteja descansado, que não esqueço», e a mãe mandou-os calar porque queria ouvir as notícias. Isa, ao aperceber-se disso, descansou dos receios, respirando solto e pensando para consigo aquele típico «nem lhes deu o cheiro!...» que acompanha as preocupações infundadas. Tinha prendido Fénix nas arribanas, por detrás de alguns fardos de palha, depois de lhe ter ajeitado como cama duas braçadas de troços de feno que sobravam da manjedoura da mula, onde a fidalga se enroscou lambendo-lhe a mão, em despedida. Comer a sopa, actividade sem mastiga que fazia com despacho, por mor das arrelias com que se deparava, demorou mais que o costume e valeu-lhe reparo materno de «vá depressa, lingrinhas, que quero servir o segundo», alertando-a do descuido, de que temeu consequências pelo olhar circunspecto e de estranheza que o pai e avô lhe deitaram, a sublinhar o propósito da mãe.
«Procura mas assobia, Isadora» recomendou-se mentalmente, «senão estes pelintras ainda te notam a tramóia!...», jogando soslaios em redor, buscando motivos que lhe encorajassem a confissão, porque essa coisa da mentira custava-lhe a praticar, tentando encontrar no acaso algo útil para resolver o problema. Cruzava e descruzava as pernas, balançava amiúde a cabeça, ginasticando o pescoço, na intenção de dissolver a tensão que a agitava. Sentia que devia agir, mas não lhe estava nada fácil fazê-lo. E os bichos carpinteiros não ajudavam nem um bocadinho!...
Mas foi então, que o pivot do noticiário lhe serviu a sobremesa: do Quénia, que nem sopa sobre mel, lhe relatava que uma cadela parida de fresco, enquanto caçava na floresta o sustento para poder amamentar os filhotes, tinha encontrado um recém-nascido humano abandonado, que transportara para junto da ninhada, onde o depusera como se de um filho seu se tratasse. A família, que parara de mastigar perante o ocorrido, em que o «um'assim?!...» do avô evidenciava o espanto geral, ganhou vida e entabulou consentânea conversa acerca do facto. À mãe impressionou sobretudo o sentimento maternal do bicho. O pai indignou-se com a circunstância de o animal também ser um daqueles aviltados a quem o dono fizera igualmente o que os progenitores da criança lhe haviam feito. E o avô reconhecia o impropério que era chamar animal a um ser que dera tamanha lição de humana maternidade aos homens.
Estava lançado o mote que tanto precisara! Daí que, comentando «chiça! Os cães são mesmo amigos das pessoas, não são? Isto é uma história de alto lá!», provavelmente querendo dizer na sua que o respeito por quem nos respeita a vida e ajuda deve ser mantido por ambas as partes, para encaminhar as águas prò se moinho, obrigou cada um a pronunciar-se acerca do caso, a ver se diziam o que esperava usar na demanda pessoal. O pai entusiasmou-se com «pois é! Esta gente que só vê os fins em desfavor dos meios, devia ter um pouco mais de atenção à maneira com se safa e sobrevive... Até porque uns sem os outros, conforme a natureza nos equilibrou, o futuro fica subtraído nas possibilidades de se concretizar: se todos fazendo falta na sua construção, plantas, animais e homens, também todos temos direito a fazer-lhe parte», numa tirada sentenciosa que certamente se coadunava com o feitio e sentido didáctico de educador que nunca descurava. A mãe sublinhou quanto «a fome da cadela, mesmo sob o imperativo de amamentar as suas crias, não foi o suficiente para esta esquecer o apelo de socorro maternal do bebé. Pelo contrário: adoptou-o como filho e levou-o para ao junto da sua ninhada, disposta a repartir com ele o seu leite. A dar-lhe o berço e idênticas condições de sobrevivência que não sonegava aos seus cachorros», como que a sustentar que a responsabilidade de qualquer adulto é cuidar da eternidade da vida, seja em que forma esta se manifeste, e de como a simbiose entre espécies diferentes se subjuga ao intento comum de a não deixar perecer. E o avô aproveitou para pôr as contas em dia pelos reparos e admoestações que lhe dirigiam por apaparicar tanto os seus animais, esclarecendo oportuno que «agora vamos a ver se param de se meter comigo por eu gastar um dinheirão com os meus cães! E de deixar de ir de férias com vocês para os não abandonar! Até porque não é só por eles que cá fico, é também pelas vossas coisas e criação...», lançando semente a fim de evitar acompanhá-los para o litoral durante a última quinzena de Agosto. Os pais olharam para ela, a pedir apoio, visto que se avizinhava o velhote estar prestes a levar a dele avante, mas ela fez que não viu, e antes aproveitou a deixa para abreviar a confissão partindo do pressuposto condicional como garantia de viabilidade: «Então, se não vai de férias connosco pode também tratar da Fénix, a minha cadela. Quem trata de seis trata de sete... Que a mim tanto me dá ir como ficar cá consigo, se for preciso!»
«Da tua cadela??!!!!....», exclamaram os três em uníssono, arregalando os olhos, perante a surpresa e forma como foi comunicada. «Mas...», ainda tentaram contrapor, só que ela não lhes deu tempo e acrescentou: «Pois. Vou buscá-la agora mesmo para verem como é bonita.» E saiu a correr, no dito-e-feito que a circunstância impunha e de que não abdicava. Ao regressar...
Bem: o que disseram na sua ausência e como reagiram, isso não sabemos. O que não há dúvida, é que quando viram o animal ficaram tão aparvalhados, que da canção preparada não trautearam mais que o refrão, posto que cada um o concebia diferente, embora almejasse significar o mesmo.
«Bonita?!?...», indignava-se o Albertinho das caçadas, fitando a neta e exemplar canino, com cara de quem acabasse de ouvir dizer que Deus é de pau.
«Mas!...», continuava a mãe, que embaçara na adversativa, que nem pinto em estopa e de mãos nos quadris tentava apanhar o fio à meada dos acontecimentos.
«Vamos lá a ver: tua como? Tua como? Tua como?», ripostava o pai, apresentando a sua melhor versão de vinil riscado, a rodar sob agulha romba. «Tua como? Tua como?»
Todavia, Isadora e Fénix, escorreitas no seu desplante, apenas serenas e divertidas, mantinham a postura descarada e airosa que infringe todas as desrazões que a razão conhece. O chefe de família, note-se, ainda tentou reverter a situação, adiantando um passo de oratório braço em riste... E só falhou na retórica, porque cometeu o erro de perscrutar a mulher, que perante o SOS dele, em vez de o incentivar ao argumento, enfim descolou a direita do quadril para pousar o dedo indicador sobre os lábios, de onde jorrava sibilino «pssschiu!» acompanhado na intenção de notório encolher de ombros.
Ao que Isa sem delongas, fez questão de legendar a coreografia: «Visto que são essa as únicas palavras e boas-vindas que têm para lhe dar, vou levá-la prà sua cama, que amanhã, bem cedinho, queremos bicicletar umas voltas pelo monte. E pela fresca, que não fizemos mal ninguém!»
Só que o avô, também quis botar discurso, para se refazer de umas conjecturas que andava a congeminar há muito, acerca desse hábito generalizado de se comer em frente ao aparelho: «Afinal, a televisão, ainda serve para qualquer coisa... Cá me parecia!» Outra guerra que vencera. Não há nada como a paciência para confirmar a hipótese da experiência cuja tese é tida por indesmentível. E ele sabia-o, que em política era mestre sem nunca ter lido Maquiavel!
1. FÉNIX
Quando desceu da bicicleta, Isadora do Carmo reparou no vulto escuro e peludo do animal entre as ervas, junto ao muro de pedra solta. Aproximou-se, descontraída, sentindo nos músculos das pernas o descongestionar de alívio ao esforço despendido, e notou que era um canino, enroscado sobre si mesmo. Soube que estava vivo pelos arrepios e tremuras que lhe estremeciam o dorso encurvado. Acautelou o andar, para o não sobressaltar, mas continuou a dirigir-se-lhe determinada e afoita. À distância de uma passada soube que o acordara, porquanto este a olhara mortiço e pesaroso, quase desanimado, como quem já não teme nem espera nada da vida. O negro da íris, baço e sem brilho, ofuscado por uma cortina de felpa lacrimosa, toco-a conforme um SOS de muda aflição. Então agachou-se em bicos de pés, apoiando as nádegas sobre os calcanhares, a fim de o atentar melhor. Pareceu-lhe inofensivo e fez-lhe uma festa com a mão direita, acariciando-o na testa, entre as vistas, com apenas dois dedos: o indicador e anelar grande.
Como a posição e irregularidade do piso lhe dificultavam a aproximação, desceu os joelhos à terra, debruçando o tronco para lhe ficar perto. E o animal cerrou as pálpebras em assentimento e suspendeu o tremor. Sob o pêlo preto, eivado de branco sujo, notavam-se-lhe os contornos da espinha dorsal e costelas, em resultado da evidente magreza. Considerou-o faminto mas não doente, não por ter qualquer prova disso, antes devido à sua intuição protectora. Franziu o sobrolho, ponderando na atitude a tomar, alargou a carícia sobre a cabeça com a palma a mão, e decidiu que o bicho apenas carecia de cuidados e alimentação. Ergueu-se, serena e segura, num gesto comedido iniciando o impulso com o auxílio do braço esquerdo, a mão em mola cónica apoiada no solo, e encaminhou-se para casa, percorrendo a pé o resto da subida até ao Monte, onde habitava. Podia tê-lo feito de bicicleta, mas receou que o cão se assustasse com a geringonça, ao pô-la em movimento.
A meio do trajecto, Isadora torceu o pescoço em viés canhoto, fixando intencionalmente a figura que deixara momentos antes, em soslaio contemporizador, num derradeiro mas simultaneamente esperançoso «volto já», qual promessa subentendida de quem superiormente prefere cumprir do que prometer. O cão, que mais tarde veio a confirmar-se ser uma cadela, olhava igualmente fixa a silhueta que o visitara na manhã arrufada e, embora afastadas por dezenas de metros largos, o que viram uma da outra foram os clarões empáticos que as pupilas de ambas emitiram, quais flashs minúsculos mas de intensa luminosidade e significado, curtos e breves, e todavia febris que nem gritos de vida.
E foi aí, nesse circunstancial e rigoroso segundo, décimo cagagésimo de segundo, que a comunhão afectiva, sentimental, passional, entre os corações destes dois seres se configurou em amor autêntico de primeira vista que, para não fugir à regra, acontece sempre na vez seguinte ao encontro ou registo inaugural. Ao olhar de confirmação e quando ambas as partes se abalançam na entrega, se põem entre si a usual questão «se entrei num sonho, será que estou dormindo ou acordado?» e justamente se declaram rendidos perante a coincidência de terem pensado ou visto o mesmo: o seu ser íntimo e essencial a mergulhar de cabeça nas profundidades anímicas do Outro.
Quem confortara quem? Que esperança eclodira naquele instante? Todos os seres são iguais desde que capazes de prazer e de dor, e se vejam assim interessados em partilhar a felicidade e harmonia globais, numa razão justificável por contribuírem para o equilíbrio ambiental, na salvaguarda pelo respeito e direito à inovação e liberdade existenciais. Portanto, Isadora do Carmo, transpondo a porta de casa para refazer a caminhada anterior, trazendo consigo uma lata de carne picada (em conserva) e o tosco prato de barro, com falhas no bordo estampado com motivos campestres alentejanos, ocres, amarelos rendilhados com formas florais azuis e ceifeiras roliças reluzentes, pressentia estar a executar o inequívoco gesto de uma ordem natural que assiste à simbiose do universo: ajudar a eternizar a vida, seja qual for a maneira com que se manifeste e a diferença que a caracterize, espécie ou género, aparência ou designação, que esta encontre para se revelar.
Não tinha além de treze anos mas parecia uma mulher acabada, tanto nas particularidades feminis que lhe arredondavam o esqueleto, como na postura erecta e desenvolta, compenetrada, confiante, ou na expressividade humana com que reagia à solicitações do quotidiano. O cabelo longo, anelado, escorrido e candente sobre o dorso, castanho com laivos dourados, balouçava na passada acompanhando-lhe o ritmo e sublinhando-lhe a decisão. Estava de férias escolares, em veraneio desocupado, e com o dia por conta própria, livre de adultos até ao entardecer, que era quando estes se soltariam dos afazeres profissionais, fechavam a porta do trabalho para abrir a de pessoas de família. Os do activo, que outros, como o avô Alberto e os vizinhos António Crespo e Alice Rovisco, aposentados todos, raramente saíam do Monte, acrescentando-o com suas discretas presenças como se lhe pertencessem, fossem elementos figurativos de sua natureza e composição, integrando no quadro as linhas mestras duma permanência original e humanizada, tal como no princípio provavelmente fora, enquanto núcleo social de resistência à solidão e isolamento campesinos.
O saibro esboroava-se e rilhava em sussurro sob as solas das botas de saltos rasos, cano curto e atacadores garridos, enquanto antegozava o momento de ver o canino saciar-se. Abocanharia tudo de uma vez ou morderia temerosa e timidamente o repasto? Demonstraria gratidão ou partiria depois de alimentado? Atenderia ele as suas expectativas e interrogações? A camiseta azul marinho com flores estampadas com que protegia o tronco e busto pareceu-lhe subitamente quente e apertada, talvez consequência directa da inquietação que se lhe avolumava no peito. Todavia não apressou o andamento, o que seria uma resposta compreensível perante a ansiedade suscitada. Antes o retardou, estimando que a surpresa lhe não defraudasse o prazer, por antecipação intelectiva. Ou adiantamento. E as saias compridas, de corte e desenho afro-asiático, semelhantes à indumentária cigana, colaram-se-lhe às coxas firmes e suadas, pelo exercício do pedal, permitindo adivinhar a sensualidade latente à sua adolescência não reprimida, mas sacudiu-as maquinalmente, distraída e sem esmero de coquete, somente num descarrego de preocupações irrelevantes.
Mal lhe chegou junto, o faminto saudou-a com subtil bater de rabo na erva rala da valeta. Outrora secos e turvos, os seus olhos exibiam outrossim a húmida luz da familiaridade. Abriu a lata, metendo o dedo e puxando o aro metálico tipo espoleta, e verteu no prato o conteúdo, usando a tampa laminada como instrumento cortante para desfazer o rolo compacto e avermelhado da carne. Agachou-se novamente, em posição igual à que inicialmente adoptara, depôs-lhe o prato à beira das ventas, com o fito de que a intensidade do odor encorajasse o recalcitrante esfomeado a tomar a iniciativa desejada de lutar pela sobrevivência, no que não foi prontamente satisfeita. Mas após escassos minutos, que lhe pareceram bem maiores que os costumeiros da retouça, a reacção esperada adveio numa lambidela desempenhada, pouco convicta, ainda que prometedora.
Então, Isadora regozijou-se e suspirou de alívio. Comprazida assistia ao esforço do canino a esticar o pescoço para o prato, a insistir na tentativa de abocanhar e lamber o acepipe. De princípio bastante contrafeito, sacrificado, acelerou contudo à medida que a salivação o reanimava, para concluir finalmente no abocanhar de um naco mais solto, que engoliu a custo. E isso despertou-lhe a velha sabedoria da espécie: a energia recupera-se consumindo-a, que é a única maneira viável de recapturar o seu teor e impulso.
«Não seria exagerada a quantidade, para quem de há muito não provava sustento? Se fosse uma pessoa, era-o sem dúvida», pensou. «Mas é um cão, e estes estão preparados para comer quando há, até que tenham nova oportunidade de o fazer...», confiou ela.
Contente com o que via, desviou a atenção brevemente, e reparou na bicicleta. Mirou-a sorrateira e imaginou-se a montá-la, a pedalar nela pelas veredas e caminhos da herdade, acompanhada pelo cão, a par de si, em corrida pinoteada e feliz. E a vontade, ou o desejo que tal se tornasse realidade, trouxe-lhe renascida uma imensa ternura que lhe alastrou pelo corpo, lhe preencheu de alento cada átomo dele e se fez líquida por altura dos olhos castanhos de veludo avelã, de onde brotou em forma de lágrimas proféticas, a rebolarem-se cristalinas e reluzentes nas faces redondas de seu oval rosto, estremecidas pelo chorar ridente do catártico bem-querer, enquanto contemplava a comensal, que enfim evoluía a pratos limpos!...
Finda a refeição recompenso-o com festas de mão cheia sobre a nuca até constatar que adormecera. Levantou-se em seguida, recolhendo prato e lata vazia, que o campo não é lixeira nenhuma como o interpretam alguns citadinos, mas o jardim natural, único por sinal, que a biosfera nos dispensou (e em boa hora!), para que dele cuidássemos e usufruíssemos. E retomou o velocípede, embora sem nele se montar, preferindo conduzi-lo a seu lado, estrada a cima.
O muro separava-a das pocilgas, de onde soavam alguns grunhidos dos suínos a registar o seu triunfo, na azáfama de forrar os interiores ao couro. Ao topo dele, estacando o ângulo dos chiqueiros com a parede que circunda o Monte e protege o pátio no sítio onde as casas não servem igualmente de muralha, o eucalipto altaneiro platinava de tremeluzente e oleoso verde os princípios do céu. Mais adiante, marcando a entrada do recinto em volta do qual as casas se dispõem, no lado oposto ao forno, uma figueira abebreira pingando abêberas, vasculhava o ar circulante atenuando a brisa com suas largas folhas. E aí chegada, ponto a partir do qual deixaria de ver a estrada de macadame por onde viera, não resistiu a deitar a última mirada pela valeta, a confirmar se a sua protegida se mantinha no mesmo lugar. Mantinha. Portanto, depois de estacionar o veículo sobre a árvore, dirigiu-se à fonte, cuja carranca de sol bochechudo esguichava água da nascente no ocidente do pátio, chapinhar o rosto e lavar o recipiente em que dera comer ao animal sem-abrigo.
Se ao que naquele momento acontecia, por exemplo pudéssemos dar um rótulo, atribuir um nome, um logotipo, pelo que ali eclodia, explodia, da magia da manhã num monte quase silencioso, onde apenas o rumorejar da água caindo da bica para a tina do fontanário, o arrulhar dos pombos nos beirais dos telhados e o ciciar das folhas sob o efeito da aragem compunha a sinfonia do quadro, lembraria por certo a presença animada de outra forças que não as da alma humana, o grito interior a cocegar-nos os tutanos, formigando esperança e contentamento em cada célula, escolheríamos certamente uma imagem de brasa rejuvenescida a crepitar das cinzas do quotidiano, alguma centelha incandescente no emaranhado dos dias, como feitiçaria de célticas e misteriosas fadas.
Por isso, Isa planava que nem uma águia dentro do universo de si mesma, confortada pela constelação de promessas que lhe estrelavam o íntimo, o que se reflectia no rosto, dando vida às que das faces soletravam os pigmentos duma ancestralidade africana. Desconhecia o que lhe acontecera, mas tinha a certeza de um porém: que se tornara outra. Pôs o prato a secar, no poial do forno, e correu à esquina dele, para se certificar se a mancha escura na relva se mantinha “acesa”. As pernas agiam-lhe sozinhas e a tranquilidade matinal conspirava no enleio apenas identificável para os que sabem que o amor, na sua excelência e plenitude, vai muito para além das espécies e dos géneros, pois é como uma seiva a borbulhar de vida no interior de cada ser animado, pertença ele à flora, à fauna ou à humanidade. Que há um dia em que transborda em lava quente e sai pelas pupilas a buscar conforto e ternura nas borbulhas alheias, que estouram de repleta felicidade como balões de espuma, para retornar multiplicado, ampliado, fecundo e sequioso de novas viagens e escapadelas. Daí que lhe fosse difícil parar quieta um momento, a fim de obrigar-se a pensar na forma de convencer os pais a permitirem-se mais um elemento na família! Porque, enfim…, ela não conseguia deixar de pensar que encontrara o outro lado inseparável do sonho, que é quando as fantasias e aspirações, de miríades que são, confluem para uma realidade só: uma companhia essencial, testemunha e cúmplice própria para cada um dos seus instantes.
Então decidiu que não estava em condições condignas de receber um visitante ilustre com tamanha envergadura e patente, considerando que se achava suada e suja demais para anfitriã, e entrou em preparos de alindamento, duche e mudança de roupa, a abonecar-se como se enamorada, cuidando-se com esmero, no intuito de receber honrada e condignamente o ministerial hóspede: um cão esquelético e abandonado. Exactamente.
Escolher a indumentária começou por ser um divertimento que depressa se transformou em tortura. Qual é o traje oficial para uma pessoa se apresentar perante o animal de nossa eleição? Deve ir a rigor, com a usual austeridade das fardas pardas de ver a Deus? Ou, por outro lado, roto e esfarrapado como quem anda na apanha da azeitona? E o banho... Deve tomar-se com sabonete, loção perfumada ou sabão macaco? O cabelo pode ir molhado e enleado, em propositado desleixe, ou seco, solto, brilhante e penteado? O problema avolumara-se tanto, fizera picardias tamanhas no armazém das conjecturas e saberes, que ela teve - teve, não: viu-se obrigada a tomar a atitude radicalérrima - de seguir o tradicional costume (aliás sobejamente prático) de sacudir os ombros à aflição com a resposta do bom senso: porque logo que algum momento especial nos intimida devemos equipar-nos com o à-vontade diário, utilizando a vestimenta do hábito, aquela que nos fornece o conforto e galhardia de todos os dias. O que nela, óbvio está, passava obrigatoriamente por saias compridas, folgadas, rodadas, largas, e camiseta colorida de tecido fresco e modelo de corte flexível, fácil nas manobras e aconchegante no recato, porquanto naquela época do ano, em que sobretudo se aproveitava da liberdade para crescer auxiliada pela acção e movimento, ora da marcha como do pedalar, na escalada aos penedos e serranias como na subida às árvores de frutos, em cujo cume se encontram sempre os mais desenxovalhados e suculentos, como na ajuda aos idosos nos carregos da lide, não era de descurar o apego à desenvoltura. Principalmente porque amadurecer é um petisco confeccionado, apresentado, servido e ingerido sem cerimónias! E os salamaleques inoportunos apenas amaneiram e atrapalham a presteza a quantos se querem activos, operantes, participativos, assumidos e compenetrados nas tarefas do tornar-se uma pessoa também gente...
Mas resolvida a diferença não era atreita a apreciar os louros do negócio, quer no admirar-se narcísica dos espelhos, como no alisar-se em demoras de vincar os perfeccionismos, e de ápice em ápice cruzou o pátio depois de o ter feito à ombreira da porta de casa, e deste ao acesso saibroso do caminho até ao vulto peludo, como quem tem asas nos pés, ou na alma diz-se, se é esta quem afinal caminha, embora que para mim, que sou fora do tempo e das modas, antes me queiram parecer que elas iam sim no coração, pois que era este suponho quem a impulsionava que nem um balão de ar quente, a fazia voar, ir por cima das coisas térreas e superficiais, a planar, a deslizar lesta, ou a contrariar a importância da gravidade e soturno tic-tac do tempo. Sabe-se!... Ou por outra: desconfia-se.
O bicharouco acordara assim que a ouvira e ensaiara levantar-se, num gesto de gratidão e gentileza, demonstrando que ainda não perdera as boas maneiras, não obstante a degradante miséria em que se encontrava, o civilizado saber fazer sala cavalheiresco de içar o respectivo traseiro quando alguém se nos dirige, a atenção ou a palavra, se caso dela é, mas desistiu por insuficiência energética e falta de ligeireza na operação, visto que Isa quando voa é rápida, e lá que ela voava isso voava, se considerarmos que semelhante andar outra coisa não pode sugerir..., para acocorara-se de imediato a olhos sôfregos, sôfregos e grandes, enormes e sequiosos, perante ele a beber-lhe os seus, com os dedos minuciosos de ternura a nervurarem-lhe o crânio.
De uma oliveira perto, esvoaçou um melro, em piu-piu metálico, rasante, de quem refila contra os incómodos vizinhos, dirigindo-se para a figueira, onde pousou a banquetear-se de abêboras a seu bel-prazer. A nuvem caprichosa, persistente, deu o solavanco que faltava e o sol veio por ali abaixo, jorrando próspero e altaneiro e quente e fagueiro impondo a estação a que pertence. Avaliou os estragos da subnutrição e contabilizou, por expectativa e mentalmente, o número de parasitas que teria por cada centímetro quadrado de pêlo e pele. O interior das orelhas pejado de carraças, o pescoço pulguento e encardido, o dorso seco e áspero da sujidade. «Podia ter tomado banho depois disto...», considerou prática e pragmática. «Mas a água não gasta o corpo e posso muito bem tomar outro banho a seguir a isto!...», concluiu de imediato, afastando o núcleo pesaroso que iniciava a formar-se no cerne das suas cogitações. Então, num «se há trabalho por que espero!» ergueu-se pronta, arrebitada, tentando lembrar-se onde o avô guardava os produtos de higiene e desparasitação dos seus cães e caça... E o canino imitou-a, cuidando que lhe lia a vontade, para segui-la. Adoptara-a como dona, embora lhe fizesse espécie aquela coisa do semblante meditabundo num enquadramento de trajes tão vivos e flanantes.
«Ah, és uma cadela?!», exclamou rindo, o júbilo a periquitar-lhe nos tutanos, reconhecendo quanto lhe agradava constatar a evidência. Não que a defraudasse o facto ou hipótese de ser um macho, considerando que para ela ser não é uma questão de género, mas... bem, dos mistérios sexistas agradava-lhe sobretudo a faculdade de poder acondicionar o mundo segundo a visão pacata que dele tinha, e os cães andavam sempre a urinar em todo o lado, a guerrear, a competir por tudo e por nada. A resmungar, rosnar, a guardar e comandar sem que ninguém lhe encomendasse o serviço. Ao que ela estava muito sensível ultimamente, e que lhe causara diversas e acrescidas inquietações nesse âmbito. Por exemplo, não percebia porque é que os rapazes mais velhos a olhavam daquele jeito, de olho arregalado e sem pestanejar, em perscrutares intimidatórios, quando se compenetrava em alguma tarefa, ou absorta não reparava que o decote lhe mostrava parte das maminhas, as saias no balanço do movimento lhe realçavam o desenho das coxas e quadris, o que lhe provocava fúteis arrelias, irreverências hormonais e sentires contraditórios, gostares e não-gostares simultâneos, no corpo e no espírito.
«Melhor assim», aquiesceu, confirmando-lhe e configurando-lhe a suspeita de que o código de entendimento mútuo só podia sair beneficiado pela circunstância de funcionarem sob as mesmas coordenadas da identidade e discurso biológico. «Já tenho chatices que cheguem lá na escola, com as parvoíces daqueles patetas!...», e encetou a marcha, fisgando a comparsa pelo canto da olhadura, garantindo-se de que esta a seguia, ainda que cambaleante, trôpega, a escarranchar-se nos primeiros passos, vacilantes que nem de vitelo acabado de nascer, dolorosos mas impositivos da vontade, claudicantes mas determinados, periclitantes mas direccionados, indecisos mas com motivo e sentidos definidos, as ventas a arfar alçadas, arquejantes, abertas, a respirar sôfrega os odores de Isa e da manhã, perseguindo-a e tentando manter a distância entre ambas o mais curta possível.
Por seu turno, Isadora, talvez em propositada consequência do apercebimento das dificuldades, retardava o andamento, cozinhando conjecturas e alinhavando projectos, onde as duas coubessem por igual medida. E se a família embicasse em querê-la sim, mas junto aos demais cães, no canil? Não via justo meter a fragilidade carente no mesmo habitat da matilha... «Vão brigar, castigá-la pela sua debilidade, roubar-lhe a ração, fazê-la padecer e rastejar ainda mais», concluiu. Mas «calma», contemporizou, «uma coisa de cada vez. Lá chegaremos!...»
O forno é um casarão enorme com duas divisões apenas. Dum lado, o depósito das alfaias, suplementos adicionais e adubos, sementes e restantes materiais agrícolas; do outro, a cozinha de fora, com o respectivo forno para assados, tulha de cinzas e lareira. Aí funcionara em tempos, efectivamente, o forno a lenha para fazer pão, mas haviam feito obras recentemente, derrubando-o e aproveitando a chaminé para edificar em seu lugar um lareira ampla, de lar em laje granítica, e um forno menor, que permitisse além de cozinhar, também seroar ao seu redor. (Modernices!...) E o restante espaço apetrechado com equipamento condizente à sua utilização: mesa de pedra central, ladeada com bancos altos de madeira e fundo de entrançado bunho, lava-loiças e bancada de confecções, armários de parede, fogão a gás, frigorífico, arca congeladora, enfim, o usual para a serventia que lhe dedicaram as pessoas e os tempos impuseram na satisfação dos gostos, bem como na das necessidades e bem-estar. No inverno faziam ali lume, que estava 24 horas por dia aceso, para curar as carnes dependuradas na chaminé, pois todos os anos matavam dois porcos, em Janeiro, de que faziam enchidos e presuntos, conforme os temperos e moldes tradicionais.
O avô, lembrara-se então, costumava guardar os produtos perigosos da pecuária num armário embutido do depósito, arrecadação de mil coisecas e artefactos, espólios e labuta e cultivo. A ideia de procurar lá com que lavar a lazarenta surgiu-lhe, numa dedução lógica, enquanto se deslocava meditativa e apreensiva, roendo as unhas, arreando biqueiradas nesta ou naquela pedrita menos discreta que sobressaía do saibro, sem qualquer propósito além do descarregar maquinal, espontâneo, das preocupações momentâneas. Pensado e feito confluíram para o mesmo espaço-quando e, depois de ter arengado com a perseguidora num «fica aqui. Nada de modas nem saídas à pedro-palmeiro, ou de fugas à barrela, òvistzsches?!...», de afectuosa familiaridade, em meio por meio de pedido e ordem, com abundância de gestos para reforço à compreensão da cadela, quase maternal, e de quem sabe serem escusadas as recomendações, mas fazendo-as não obstante, unicamente por sentir prazer em dirigir-lhe a palavra, dizer-lhe qualquer frase elaborada para elevar a figurante ao estatuto de protagonista num cenário de gente. Igual. Considerada. E digna de atentadas justificações.
A outra, que se não compreendeu pelo menos obedeceu, sentou-se à porta, sobre os quartos traseiros, o rabo a vasculhar e sacudir a areia do pátio, com o olhar pregado na oradora da retórica doméstica, quase risonho, ou simplesmente enigmático, tipo Gioconda expectante como similarmente sedutora, a cabeça levemente descambada para a esquerda, de quem pensa para consigo «mas o que é que esta quer agora!?...»
No interior, a vista contundida catrapiscando a penumbra, sentindo as agruras do repentino salto da luminosidade diurna para o crepúsculo dos cómodos, deparou contudo com o armário trancado, aferrolhado a cadeado, e angustiou-se sob o baque do coração pressagiador, qual órgão que jamais se abstém de meter o bedelho onde não é chamado e governar os pensamentos com as características palpitações, sobretudo se defrontamos a realidade adversa. «Um'assim!!... Mas onde é que aquele salsichão fora de prazo escondeu a chave?!...», refilou ela contrafeita, dando a mirada geral, a avaliar as perspectivas de resolução. «Ora, o pinante!»
Ajeitou a madeixa. O punho canhoto aperrado de quem se apresta a desferir um soco no destino acrescentava indignação contrastante ao pesar facial. Bateu com o pé direito no chão e inquiriu o espaço circundante; principalmente os frisos, nichos e cantos. Depois flectiu o dorso e gritou mentalmente para dentro de si: «Pensa Isadora!!! Estás parva ou quê?!?» - incitando-se, admoestando-se a continuar as buscas. «O que é que dizem na televisão acerca de proteger os pequenos dos venenos?... Acondicionados e fechados à chave. Pois bem: onde pôr esta de maneira a ficar disponível para todos excepto para as crianças? Num lugar alto, onde elas não cheguem, é claro. E como é que os adultos sabem onde procurá-la mesmo que ninguém lhes diga onde a puseram? Num local óbvio, seguro e prático. Qual é esse sítio dentro duma arrecadação? Pensa Isadora!... Pensa» e, congeminando hipóteses, deitando à cadela aquele fixar mudo de quem implora o milagre de uma solução para os seus males aos únicos que a não podem ter, nem nunca terão, à semelhança do que os demais mortais fazem com os seus deuses, deparou-se de relance com a entrada e deu uma palmada na testa. «Na porta! É isso... Só pode ser!» E dirigiu-se-lhe cabritando euforia.
Descerrou-a meiamente, desencostando-se da parede, ficando-lhe de esquina, tal e qual como veleiro na dobragem do Cabo das Tormentas: de um lado o motivo (a rafeira); do outro, a solução técnica – a chave. Porque é sempre entre a dor e a esperança que se navega… Vai-se de uma à outra num dobrar de lágrimas! Mesmo quando a chave não passa de mera hipótese dela, visão de desejo a que não é alheia o sonho. Portanto, atentou melhor e com demora. Ao cimo, à altura de dois metros e qualquer coisa, dependurada de um prego por retorcido arame de zinco, em jeito de asa curva, a lata cilíndrica avermelhada que em tempo de validade própria embalara tomate pelado de conserva, balançou quando tentou tocar-lhe com a ponta dos dedos, chocalhando metal e substanciando as suspeitas com consolidado alento. Então empertigou-se mais, em bicos de pés, e ferrou-lhe forte piparote que a atirou ao chão. Em resposta pelo trato, dela saiu de imediato uma argola de ferro, que à volta de si tinha diversas chaves de díspares tamanhos e feitios. «Eh, tantas!... Nem sei pra quê… Só preciso de uma!», gargalhou ela, deitando a língua de fora ao mamífero que, ainda que não percebendo patavina da novela que por ora ali se desenrolava, achou por bem dar meia dúzia de sacudidelas com a cauda, à laia de palmatoadas no chão, a fim de aplaudir a actuação da senhorita dos desaustinados pinotes.
O êxito inspirou-a a ponto de ousar escalar na tarimba artística, conquanto tentou subir nela, e de puladora sem trapézio alvitrou-se vedeta canora, pelo que se pôs a trautear as modinhas brejeiras dos estala bombas e romarias das redondezas. A cadelita arrebitou as orelhas para melhor apreciar os dotes da actriz cantadeira, que se manteve na ribalta do folguedo até escancarar as portadas ao embutido. E nas quatro prateleiras deste observou uma infinidade de frascos e frasquinhos, latas, latinhas, caixas e caixinhas, que assentavam praça alinhada nas fileiras compostas, sem qualquer preocupação de design, cor ou tamanho, excepto nas filas duplas, onde os mais pequenos e os maiores por trás, revelavam aprumos de indicação retratista, ou de quem tivesse alinhavado a coreografia para retrato de família ou recordação de equipa para efeméride do torneio. «Outro bico-de-obra!...», reconheceu, franzindo a tez na tentativa de se concentrar, melhorando a acuidade visual com o semblante de quem medita, ou acrescentando ao esforço a expressão esforçada, num reparado momento ascético de melhorar o conceito se lhe representarmos a sinalética adequada: «Calma… Que quanto maior é pressa, mais devagar se lá chega!» Seria?
Pesticidas, herbicidas, unguentos, alquimices diversas e sempre misteriosas; umas reconhecíveis, outras nem tanto, na variedade topo de gama costumeiro que a publicidade nos vai sublinhando para que o inconsciente se não alvitre delas… Enfim, feitiçarias próprias de entorpecer o ambiente com a ajuda do cérebro descuidado!
Mas após leitura sumária de títulos e rótulos, cujas parangonas pouco lhe diziam, tentando aliciar a vontade com a necessidade objectiva, quase desistiu, embora a sua famosa teimosia, que sempre a par andou da natureza dos entraves, lhe aconselhasse a persistência, a instigasse para a obstinada tempera, viu-se e desejou-se remoendo o peculiar «por mal, pior ainda» com que habitualmente brindava os circunstantes que por pirraça a contrariavam. «Seja: se querem “luta”, vão tê-la», e arregaçou as mangas da intenção, disposta a ler de cada um a informação disponível até encontrar algum que servisse. Há pessoas assim. E depois? São feitios!...
Por bem, tudo; por mal, nem a camisa… E daí? Há alguém disposto a fazer correr banhos para mudança futura?... Até que finalmente, três dos frascos obtiveram «satisfaz» na observância dos bonecos e literatura inclusa. Deslocou-se mais para a luz e, sobre o jorro desta, oriundo da entrada, leu-lhes o manifesto de intenções (ou posologia) como quem avalia um programa governamental, para o qual a validade é discutível conforme o que dele se espera, mas não lhe empresta credibilidade superior à funcionalidade momentânea. Um, porém, da aturada pesquisa, por sinal o menos legível, bastante deteriorado no rótulo enodado, onde a supor-se pelas letras que restavam do título (Pec...nol) lhe gerou tremedeira nas vísceras, levando-a a reclamar em prece «é este. Só pode ser este, meu deus» assim meio deslumbrada com tantos animais no bojo das resenhas, ovelhas, cães, gatos, pássaros, galinhas, que a modos de uma arca da Noé em marketing doutras bíblias se tratasse. E, afoita e decidida, ligeira e alvoraçada, não tem peneiras nem hesitações que a retenham, arrumando seguidamente os dois de sobra onde os encontrara, deixando tudo na mesma ordem, a fim de se não notar o arrombamento e invasão de cómodos, aos que ciosos ou prevenidos deles tivessem receada memória, consciência dos perigos e atitude preventiva. Principalmente o avô, que era quem na matéria lhe impunha ais respeito!...
Portanto, confirmada a utilidade e modo de usar do unguento viscoso e espesso, pardalitou entre selhas e tinas de onde tirou um alguidar de plástico, meio resinoso e desbotado no magenta sumido e surrado, que recordava ter visto nas mãos do velhote preferido quando em preparos de barrela para os caçadores da coutada se atinha, ou investia sobre o bardo, pocilgas e arribanas para pulverizar o pulguedo, formigas e similares devastadores da quietude bucólica que sonhava para o seu torrão, no bombear e aspergir cantos e recantos, fisgas e tufos onde lhe palpitassem as parasitárias presenças. Coscuvilhou por trapos um que lhe permitisse a esfrega, considerou o tamanho da cadela e de como enfiá-la quieta no alguidar, perscrutou a sombra da figueira para palco das operações e, ao transpor a ombreira deu uma piscadela de olho ao bicho, sorrindo cumplicidade matreira, num convite velado para que a seguisse, o que incentivado com determinado «anda daí» resultou às mil maravilhas, visto que a canina figura lhe foi no encalço, perseguindo-lhe e pisando-lhe a sombra dançarina. O que nem sequer estranhou, tal era o seu entusiasmo e azáfama, nem acrescentou qualquer mistério ao facto estarem sintonizadas na mesma frequência quando há tão pouco tempo se conheciam.
Depôs o recipiente sob a copa da figueira, alinhavou o plano de sedução, caprichou nos pormenores, questionou a educanda com um irónico «como prefere, alteza: morna, quentinha ou fria?» acerca da água, mas o convincente reparo de retorquir-se saiu-lhe sem demoras de «fria-friinha, que o clima também manda», uma vez que o calor canicular já se fazia sentir àquela matinal hora. A confirmar, assim a trouxe-mouxe que há deveras perguntas que nos fazemos a nós próprios, não para descortinar respostas, mas para nos aliviarmos da tensão ou garantirmos que as decisões tomadas por uma só das partes envolvidas está de acordo com ambas, a ganhar segurança no eco de nos escutarmos a consciência, dissolvendo dúvidas e inquietações entorpecentes da acção, fragilizantes dos motivos comummente acompanham o gesto. Como era o caso!
Debaixo da árvore, apetrechada de trapo e vara, uma cana seca de aproximadamente meio metro, para mexer a água, onde verteu duas tampas do líquido enfrascado, aprestou-se para repetir o que anteriormente vira fazer a seu pai e avô. A solução tornou-se de um colorido leitoso, a feder a creolina, espécie de anti-séptico extraído do alcatrão de hulha que tem um cheiro assaz intenso e activo, incomodante quase, e encaminhou a cadela para a improvisada banheira. Esta ainda regateou, fez questão de não entrar às primeiras, resistiu, sobretudo porque nestas coisas se deve sempre apresentar uma digna submissão, a registar o nosso veemente desacordo com a medida, e para que fique bem claro que acatamos a directiva mas contrariados. Exactamente. Sem tirar nem pôr.
Só que a crueldade de quem nos quer bem não conhece limites... E Isadora, não satisfeita e contente com a conquista da sua entrada no alguidar, foi ainda mais além, submetendo-a outras duras provas, obrigando-a a sentar-se dentro, ensopando-lhe o pêlo sob o qual a pele ardia aqui e ali, expulsando inflamações e picadas de carraças e pulgas, escoriações de matos ou escamas do coçar-se. Aquiesceu. Acima de tudo porque a pressão exercida pela lavadeira sobre o seu lombo, não lhe deixava alternativa, e ela se considerava demasiado fraca para andar a perder tempo contrariando disparates, caprichos de fedelhos impertinentes, de quem mal a conhecia, e nem por sombras sonhava quanto era responsável e audaz, mãe orgulhosa e esforçada, que três anos atrás parira e criara quatro filhotes sem ajuda de ninguém, que aleitara a poder de muita caçada, educara com esmero e autenticidade, até que alguém pouco escrupuloso lhos raptara, surripiara, subtraíra, durante uma ausência da toca, a fim de alimentar-se. Até chegou a esboçar um ladrar de dizer-lhe, ali na refrega o que lhe ia germinando nos tutanos, mas calou-se assim que se apercebeu que a desalmada escaroladora, indiferente ao seu tremelicar, insistia em ensopar-lhe a vestimenta com aquele caldo asséptico, provocando-lhe sérias contrariedades na compreensão do mundo, da vida e essencialmente desses seres estranhos e obtusos bípedes a que estava ligada irremediavelmente desde a sua cachorrice, indivíduos desconcertantes e imprevistos, que tanto a alimentaram e acarinharam, como lhe bateram, abandonaram ou aviltaram, sobre os quais testemunhava amiúde uma consciência controversa e de suspeitas intenções, que a levavam a urdir sobrelevados e filosóficos considerandos onde «não se pode gostar de ninguém… Olha para esta: confiei nela assim que a vi, e eis no que deu! É triste saber que aqueles de quem mais gostamos são sempre os que menos nos merecem!»
Por seu turno Isa, tomando cautelas para que o líquido não entrasse na boca e olhos do animal, ao mesmo tempo que redobrava as atenções sobre orelhas e cachaço, onde os parasitas quadruplicavam em número e actividade, por saberem ser-lhe difícil a remoção com o coçar de patas ou mordedura, não se impedia contudo de magicar numa maneira airosa de convencer a família a adoptar a sua nova amiga. Podia argumentar que os cães do avô não se prestavam a grandes correrias com ela e precisava de alguém que intimidasse os estranhos, evitando que se aproximassem demasiado, pois nunca se sabe ao que vêm… «podia! Mas ganhava o mesmo!... Todos sabem que no Monte há sempre alguém conhecido por perto ou ao alcance da vista» ainda que ocupados, considere-se, uma vez que domesticar a terra, dar-lhe formato de coisa produtiva e útil, se não apresta a divagações ociosas. Podia até aliciar o avô, fazer com que ele dissesse que precisava dela para a caça ou guardar o gado, mas com certeza estaria a entrar em terrenos movediços visto que «os meus cães são os melhores das redondezas. Num raio de 50 quilómetros não há outros como os meus, quer para coelhos, lebres, perdizes ou bicharada. E a maior parte dos vizinhos que caçam, vieram abastecer-se de cachorros aqui», como ele costumava afirmar, seria um pontapé muito baixo e puxado para o seu orgulho de criador, treinador e conservador de raça apurada, o que, como é óbvio, embora gostasse muito da neta não lhe daria convicta margem para manobra. Podia recorrer à mentira, que tinha sido «uma colega que me pediu para a guardar durante as férias, porque não tem onde a deixar. E como nós temos campo, e eu estou desocupada, até me dá jeito» mas adulto ainda não é sinónimo de tanso, e bastava olhar para ela para reconhecer que não era assim tão esbelta e amanhada para uma família que se preocupava em deixá-la segura e cuidada sempre que saía de casa. O certo, se certo havia numa questão destas, era que lhe dessem ordem para a entregar no canil municipal, onde seria abatida caso ninguém a reclamasse, do que não duvidava minimamente, pois se alguém houvesse no mundo com intenção de dela cuidar não a tinha abandonado antes. Podia comprometer-se a tirar as melhores notas da turma, tornar-se a marrona da classe se a deixassem ficar com a cadela. «Sim; é o que lhes vou dizer. E depois, se chumbar algum ano não me venham cá com coisas, porque eu avisei-os…» Mas em seguida lembrou-se das afrontas por que teria que passar a fim de cumprir o prometido e do que o pai costumava dizer acerca deste tipo de compromissos, citando invariavelmente um humorista português qualquer, que teve o desplante de escrever isso para a posteridade, resumindo-o numa tirada de «nunca te comprometas demasiado. O próprio Deus já não chega para as encomendas», como que a alertá-la para os inconvenientes das promessas que dificilmente cumpriremos, a não ser que Deus no ajude!
Por conseguinte, nada mais havendo a tratar, deu o acto por encerrado com o peculiar «a ver vamos, como diz o cego» das tarefas aziagas, empresas de futuro incerto e prognósticos impossíveis, escarolou a rafeira, teceu projectos de passeio pelos campos na tarde próxima, na intenção de gozar a companhia da outra enquanto pudesse, sem expectativas nem ilusões. Fez das tripas coração, arrancou raízes profundas, cerziu a malha das felicidades possíveis com as linhas da elasticidade e do que for soará, onde as antecipações, ainda que generosas, serão sempre de menor resolução e menos prazenteiras que o momento presente.
Findo o banho prendeu-a a secar, presa à porta do forno, onde não pudesse espojar-se na terra, e foi arrumar o quarto dela. Precisava daquele tempo de solidão ocupada para se desabituar da ideia de ficar com ela para sempre. O silêncio do Monte, algo que apenas constatava quando se sentia abocanhada pela necessidade de tomar decisões fundamentais, prescritas numa responsabilidade que (ainda) lhe não competiam, notava-se essencialmente se as galinhas cacarejavam, ou os pássaros sobre a nespereira junto à fonte trinavam a sua sede, sobrepondo o seu piar ocasional ao rumorejar constante da água a cair da bica. E foi quando ao sacudir dos lençóis à janela, reparando como o sol se espelhava no pêlo da cadela, que serena a fitava com a meiguice peculiar dos olhos de castanho melado que a caracterizavam, que se apercebeu do seu renascimento, como se daquela coisa enrolada, suja e amarfanhada que vira na beira do caminho, outro ser faiscasse renovado e repleto de singular encanto... Então, uma das muitas histórias malucas que o avô lhe contava, que impreterivelmente começavam por "Naquele tempo, quando os deuses ainda habitavam na Terra e conviviam com os homens no seu dia a dia..." veio-lhe de repente à memória, e tão clara e viva era, que parecia voltar a ouvi-la segundo cada palavra que ele lhe dissera. Falava de uma ave mitológica, denominada Fénix, que vivia infinitamente porque, segundo a lenda, ao queimarem-na tinha o condão de ressuscitar das próprias cinzas.
Sorriu perante o efeito duma tonteria assim, magicares que só mesmo duma cabeça complicada como a daquele avô desnorteado podiam surgir, e, com os cotovelos apoiados no parapeito, o gesto de sacudir a roupa da cama em suspensão de quem esqueceu o que estava fazendo, gritou-lhe: «Hei, Fénix! Fénix!...» Ao que a rafeira latiu como resposta, saracoteando a cauda, empinando-se nas patas traseiras, emprestando ao momento a afectuosa retribuição que o chamamento carecia. Retornou para dentro, a acabar de fazer a cama, mas os pensamentos esvoaçavam-lhe na ideia, como morcegos numa sala iluminada à procura de um recanto escuro onde pudessem esconder-se. Dirigiu-se novamente à janela e repetiu: «Fénix! Fénix!»
E obteve o latir igual, os mesmos pinotes, o reconhecido contentamento que anteriormente identificara. «Só pode ser... É este o teu nome», concluiu, deitando-lhe a língua de fora em retouçado descaramento. Pelo que se apressou, pois a caraiva da tarde já lhe formigava no corpo, na ansiedade de cumprir-se facto consumado de cada minuto.
***********
Noitinha já, regressara enfim, afogueada e faminta. A mãe punha a mesa para o jantar, o avô peganhou com ela com aqueles «'tão periquitita!... É até à noite na boa-vai-ela, não?», e o pai mandou-a lavar as mãos para comer. Da televisão sobre o frigorífico, onde todos a podiam observar enquanto comiam, escorriam sobre os cómodos da dependência do forno, utilizada como cozinha de fora, os arregougos musicais do indicativo para o telejornal. O avô recomendou ao pai um «não te esqueças de amanhã, lá no Grémio, comprar sementes de couve sete-semanas que está na altura de fazer os canteiros», ao que ele anuiu com «esteja descansado, que não esqueço», e a mãe mandou-os calar porque queria ouvir as notícias. Isa, ao aperceber-se disso, descansou dos receios, respirando solto e pensando para consigo aquele típico «nem lhes deu o cheiro!...» que acompanha as preocupações infundadas. Tinha prendido Fénix nas arribanas, por detrás de alguns fardos de palha, depois de lhe ter ajeitado como cama duas braçadas de troços de feno que sobravam da manjedoura da mula, onde a fidalga se enroscou lambendo-lhe a mão, em despedida. Comer a sopa, actividade sem mastiga que fazia com despacho, por mor das arrelias com que se deparava, demorou mais que o costume e valeu-lhe reparo materno de «vá depressa, lingrinhas, que quero servir o segundo», alertando-a do descuido, de que temeu consequências pelo olhar circunspecto e de estranheza que o pai e avô lhe deitaram, a sublinhar o propósito da mãe.
«Procura mas assobia, Isadora» recomendou-se mentalmente, «senão estes pelintras ainda te notam a tramóia!...», jogando soslaios em redor, buscando motivos que lhe encorajassem a confissão, porque essa coisa da mentira custava-lhe a praticar, tentando encontrar no acaso algo útil para resolver o problema. Cruzava e descruzava as pernas, balançava amiúde a cabeça, ginasticando o pescoço, na intenção de dissolver a tensão que a agitava. Sentia que devia agir, mas não lhe estava nada fácil fazê-lo. E os bichos carpinteiros não ajudavam nem um bocadinho!...
Mas foi então, que o pivot do noticiário lhe serviu a sobremesa: do Quénia, que nem sopa sobre mel, lhe relatava que uma cadela parida de fresco, enquanto caçava na floresta o sustento para poder amamentar os filhotes, tinha encontrado um recém-nascido humano abandonado, que transportara para junto da ninhada, onde o depusera como se de um filho seu se tratasse. A família, que parara de mastigar perante o ocorrido, em que o «um'assim?!...» do avô evidenciava o espanto geral, ganhou vida e entabulou consentânea conversa acerca do facto. À mãe impressionou sobretudo o sentimento maternal do bicho. O pai indignou-se com a circunstância de o animal também ser um daqueles aviltados a quem o dono fizera igualmente o que os progenitores da criança lhe haviam feito. E o avô reconhecia o impropério que era chamar animal a um ser que dera tamanha lição de humana maternidade aos homens.
Estava lançado o mote que tanto precisara! Daí que, comentando «chiça! Os cães são mesmo amigos das pessoas, não são? Isto é uma história de alto lá!», provavelmente querendo dizer na sua que o respeito por quem nos respeita a vida e ajuda deve ser mantido por ambas as partes, para encaminhar as águas prò se moinho, obrigou cada um a pronunciar-se acerca do caso, a ver se diziam o que esperava usar na demanda pessoal. O pai entusiasmou-se com «pois é! Esta gente que só vê os fins em desfavor dos meios, devia ter um pouco mais de atenção à maneira com se safa e sobrevive... Até porque uns sem os outros, conforme a natureza nos equilibrou, o futuro fica subtraído nas possibilidades de se concretizar: se todos fazendo falta na sua construção, plantas, animais e homens, também todos temos direito a fazer-lhe parte», numa tirada sentenciosa que certamente se coadunava com o feitio e sentido didáctico de educador que nunca descurava. A mãe sublinhou quanto «a fome da cadela, mesmo sob o imperativo de amamentar as suas crias, não foi o suficiente para esta esquecer o apelo de socorro maternal do bebé. Pelo contrário: adoptou-o como filho e levou-o para ao junto da sua ninhada, disposta a repartir com ele o seu leite. A dar-lhe o berço e idênticas condições de sobrevivência que não sonegava aos seus cachorros», como que a sustentar que a responsabilidade de qualquer adulto é cuidar da eternidade da vida, seja em que forma esta se manifeste, e de como a simbiose entre espécies diferentes se subjuga ao intento comum de a não deixar perecer. E o avô aproveitou para pôr as contas em dia pelos reparos e admoestações que lhe dirigiam por apaparicar tanto os seus animais, esclarecendo oportuno que «agora vamos a ver se param de se meter comigo por eu gastar um dinheirão com os meus cães! E de deixar de ir de férias com vocês para os não abandonar! Até porque não é só por eles que cá fico, é também pelas vossas coisas e criação...», lançando semente a fim de evitar acompanhá-los para o litoral durante a última quinzena de Agosto. Os pais olharam para ela, a pedir apoio, visto que se avizinhava o velhote estar prestes a levar a dele avante, mas ela fez que não viu, e antes aproveitou a deixa para abreviar a confissão partindo do pressuposto condicional como garantia de viabilidade: «Então, se não vai de férias connosco pode também tratar da Fénix, a minha cadela. Quem trata de seis trata de sete... Que a mim tanto me dá ir como ficar cá consigo, se for preciso!»
«Da tua cadela??!!!!....», exclamaram os três em uníssono, arregalando os olhos, perante a surpresa e forma como foi comunicada. «Mas...», ainda tentaram contrapor, só que ela não lhes deu tempo e acrescentou: «Pois. Vou buscá-la agora mesmo para verem como é bonita.» E saiu a correr, no dito-e-feito que a circunstância impunha e de que não abdicava. Ao regressar...
Bem: o que disseram na sua ausência e como reagiram, isso não sabemos. O que não há dúvida, é que quando viram o animal ficaram tão aparvalhados, que da canção preparada não trautearam mais que o refrão, posto que cada um o concebia diferente, embora almejasse significar o mesmo.
«Bonita?!?...», indignava-se o Albertinho das caçadas, fitando a neta e exemplar canino, com cara de quem acabasse de ouvir dizer que Deus é de pau.
«Mas!...», continuava a mãe, que embaçara na adversativa, que nem pinto em estopa e de mãos nos quadris tentava apanhar o fio à meada dos acontecimentos.
«Vamos lá a ver: tua como? Tua como? Tua como?», ripostava o pai, apresentando a sua melhor versão de vinil riscado, a rodar sob agulha romba. «Tua como? Tua como?»
Todavia, Isadora e Fénix, escorreitas no seu desplante, apenas serenas e divertidas, mantinham a postura descarada e airosa que infringe todas as desrazões que a razão conhece. O chefe de família, note-se, ainda tentou reverter a situação, adiantando um passo de oratório braço em riste... E só falhou na retórica, porque cometeu o erro de perscrutar a mulher, que perante o SOS dele, em vez de o incentivar ao argumento, enfim descolou a direita do quadril para pousar o dedo indicador sobre os lábios, de onde jorrava sibilino «pssschiu!» acompanhado na intenção de notório encolher de ombros.
Ao que Isa sem delongas, fez questão de legendar a coreografia: «Visto que são essa as únicas palavras e boas-vindas que têm para lhe dar, vou levá-la prà sua cama, que amanhã, bem cedinho, queremos bicicletar umas voltas pelo monte. E pela fresca, que não fizemos mal ninguém!»
Só que o avô, também quis botar discurso, para se refazer de umas conjecturas que andava a congeminar há muito, acerca desse hábito generalizado de se comer em frente ao aparelho: «Afinal, a televisão, ainda serve para qualquer coisa... Cá me parecia!» Outra guerra que vencera. Não há nada como a paciência para confirmar a hipótese da experiência cuja tese é tida por indesmentível. E ele sabia-o, que em política era mestre sem nunca ter lido Maquiavel!
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