6.01.2015

OS RIOS, de António Nobre





OS RIOS

Os rios têm cantigas de ceifeiras,
Baladas esquisitas e formosas…
Há lá no fundo cristalinas eiras,
Onde bailam crianças vaporosas.

De noite, pelas horas religiosas,
Os rios têm cantigas de ceifeiras,
E ao verem-nos passar dizem as rosas:
… Água que vem de terras estrangeiras!

No entanto, como enormes esqueletos
Cobrem o rio as árvores, Hamletos
Numa postura estática e silente…

E a lua vai boiando à tona da água,
Gémea do amor, dos séculos, da mágoa,
Como Ofélia nas águas da corrente!


ANTÓNIO NOBRE

Sem comentários:

Enviar um comentário