ONDE HÁ SEGREDO NÃO HÁ NADA
Não… o meu amor não me faz segredos!
Antes pelo contrário: tece com seus dedos
A malha doce e leve da transparência breve
Duma semifusa dedilhada à sombra da madrugada.
Não; não guardamos segredo nenhum um do outro
E até achamos que o nosso coração plural é o nosso único corpo
Todo, de alto a baixo, e o mais que ele durante os dias faz, desde pensar
A cagar, ou mesmo a lasciva preguiçosa que antecede as frequências
Naquele ângulo de rotação exacta ao rigor da latitude para qualquer longitude
Em que nos encontremos da cama morna e fofa das manhãs frias
Garantindo que nunca a mínima distância se concretize entre ambos.
Entre nós, o meu eu e o teu, não se fazem segredos
Porque passamos os dias a dizer-nos coisas:
Umas simples e apaziguadoras, outras complexas mas sempre unas
A fazerem stripetease no nariz, comichões perigosas e fatais
Que nos obrigam a espirrar atchins de verdade – e bem reais.
Por isso, quando as coisas são malditas, repetimo-las
Exaustivamente até caírem apodrecidas a nossos pés
Que nem frutos amadurecidos à força de apalpão de língua
Uma língua que pica e fere que nem agulhas bravas
Desertas de serem toureadas nas praças do cliché defunto.
A pingarem ciprestes como os cemitérios do degredo
Porque o amor em segredo, não é amor – é medo!
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