O HOMEM DO SÉCULO QUE VEM
Uma pata de gato, garra de aço nos retém
Neuro-cirurgiões gritam por mais cobaias
À porta envenenada das gerais paranóias
Eis o homem esfacelado do século que vem
Sangue angústia arame farpado
Pira funerária dos homens de estado
Corpos inocentes que as bombas consomem
Eis o homem esfacelado do século que vem
Semeando a morte pela ganância cega
Poetas famintos a infância sangrada
Tudo o que ele adquire não lhe vale de nada
Eis o homem esquizóide do século que vem
O "Engate"
Ela trazia calças de veludo
preto, bicos dos seios de fora
Ele usava um realçador de formas,
trajava a última moda
A festa estava a aquecer,
todo o mundo a chocalhar
com a música almiscarada
«Parece-me que o conheço»,
diz ela toda corada
«Também me quer parecer»,
diz ele com a voz do mar
Sentam-se os dois a beber
falam em Torre de Molinos
amigos, "parties", calor
Vão os dois apanhar ar,
entram prò carro cromado
dão beijos esfomeados
dá-se início à marmelada
tentam os dois acasalar,
mas é em vão...
ele incham como uma vela,
ela incha como um balão
ficam a boiar no nada
A COR DOS MORANGOS
Ele disse-lhe
«os morangos são amarelos»
Ela ficou
loucamente apaixonada
Casaram tiveram
dois meninos bochechudos
conheceram-se bem
e ficaram fartos
mas foram aguentando o barco
E foi então que ela viu
«Que raio afinal os morangos
são mas é encarnados».
VIVOS-MORTOS
Em prazeres de mortos
que brincam aos vivos
homens de olhos tortos
sorriem cativos
sérios e cantantes
nas suas gaiolas,
de transparentes vidros
de duras argolas
eles vão gastando
o seu tempo a dormir
vão balbuciando
coisas que se esfumam
esperando a morte
que os vá desdizer
mascaram a sorte,
em berros proclamam
que é melhor esquecer
esquecer
esquecer!
São antigos monstros
já titubeantes
diz o nosso sangue
vão de vez morrer
Domingo
Os bois passam.
No doa de Domingo
ecoam vozes de roberto
relatos de futebol,
lentos roncos
do lazer.
Os nossos queridos bois
tiram a canga do trabalho,
põem a canga do prazer
e morrem aos poucos
sem dramas nem gritos
Basta-lhes apodrecer,
basta-lhes sonhar-se
dizer sim de modo
brando
ATROPELADO PELA CIDADE
O homem-sem-pele
segue por entre
os couraçados da vida
de olhos abertos
dolorosamente
vendo desesperos
vendo desesperos:
não passa de um fraco
que sente demais
na carne ferida
aqui o arrepio
as multidão cega
mais à frente o pio
cortante
da fera de lata
hordas de borracha
avançam para mm
e
a multidão corre
persegue-o na rua
a montra que acusa
a bolsa infeliz
o pregão que berra
a casa voraz
de penhores sangrentos
abocanha-lhe a perna!
ele cai pelas escadas
do horror abaixo
salta pela janela
a fábrica verde
corre sobre a relva
das velhas no parque
o som da buzina
o chiar dos pneus
a Voz gigantesca
que ataca em surdina
o baque do corpo
o girar louco das sereias
atacadas de histeria
a morte que gela
inútil sem nome
do pobre diabo
nas Augustas Ruas.
SINCRONIA
Há dias em que me sinto
lasso, e me pende fraco
o braço no leito tão desleixado;
são dias em que me finto
e deixo para trás a sombra
perdida de mim
e vivo vidas estranhas,
entre a vigília e o sono,
longe da terra enlutada...
podem chamar-me madraço,
mas então eu sem fazer nada
escalo a Torre de Babel,
vou-me a templos assombrados,
balanço-me negligente
na pontinha e um cordel
suspenso das muralhas do Castelo...
e, sem no entanto alcançá-lo,
deixo ao menos para trás
as águas frias do fosso
- um fosso meu quotidiano - onde atroam
misérias, pruridos, estranhos
pudores, e a voz sangrenta
dos motores dos cadafalsos
automáticos.
Mas quem quererá saber
das minhas viagens de cabeça?
Os mundos por que espreitei?
E eu aqui mudo e quedo!
Dou logo a seguir um salto,
sopro à pressa o pó ao quarto,
recomeço a lide a pôr
em dia, a criar a sincronia
a sincronia entre a imaginação
e a mão
que me não pode definhar
na letargia.
A VIOLÊNCIA ANDA DE LUVAS
A violência já não é como era dantes.
Já não são abusos de censuras, nem
presos isolados em frias celas obscuras
por causa das palavras proibidas.
A violência hoje usa luvas:
Não proíbe, impossibilita.
Já não faz saltar o sangue
em catadupas das gargantas
mastigadas no garrote --
-- sufoca antes,
escondendo as culpas,
os nossos sonhos nas "bicas",
no tédio das horas mortas.
Para quê os carrascos,
se há tantas sorridentes
sociedades anónimas?
A violência anda de luvas.
Nada de armas estridentes:
antes a doce paz dos cemitérios,
ajardinados bairros suburbanos.
NA RUA A ANTÓNIA
Na rua a Antónia via
tantos tanques, tantos vivas,
mil bandeiras empunhadas!
Havia um golpe de estado.
Na rua a Antónia via
nuvens de pó levantado
pelos jipes, correrias, ajuntamentos.
Brilhavam os olhos das pessoas
a ver o mundo mudar
sem que tivessem de intervir pessoalmente.
Lá vai a Antónia arrastada
nas vagas da multidão,
sempre pasmada, a olhar...
Chegou já noite a casa,
bateu-lhe o pai, a gritar.
A CIGARRA E A FORMIGA
Vinha a formiga cansada
do dia de árdua labuta,
séria, nervosa, apressada;
eis quando na rua escuta
o som do canto de alerta
que uma cigarra executa.
A curiosidade a desperta:
Pára também uns momentos,
movida por sentimentos
de uma natureza incerta.
De tédio, suor, frustração
lhe falava aquele insecto
e de sonhos (certos sonhos)
que movem o coração,
de tão belos, tão sedutores projectos
fáceis de realizar, dizia aquela,
se todos nós quisermos...
Mas a formiga interpela:
«Como podes criticar
a vida que nós levamos?
Passas a vida a cantar!
Nós é que nos esforçamos!
Para versos não temos tempo,
todo o dia trabalhamos.
Que os versos não dão sustento
e, se há pão para cantares,
é graças ao nosso alento.
Mais valia trabalhares!»
Teve a cigarra um sorriso
simples, claro, sem vaidade,
e retorquiu com aviso:
«Tu disseste uma verdade
mas, para fazer verdade inteira,
falta-te a outra metade...
que a vida não é só canseira,
luta cega pelo pão de cada dia;
faz-nos falta, é bom, o pão...
mas não basta, para nos dar alegria.
Com esta actual feição
nem eu nem tu nascemos;
e mutação em mutação
como larvas, ninfas, vivemos,
antes de insectos perfeitos;
e a forma que agora temos
não nos deixa satisfeitos
-- que ainda não somos livres,
e nos oprimem os peitos
leis que não são invencíveis...
os mundos novos que canto
não são coisas impossíveis,
basta união para tanto!
A suar as estopinhas
se passa o dia inteiro,
arrastando grãos, palhinhas
para dentro do formigueiro;
e quem tem tempo prà arte, prò desporto,
prà cultura, são os donos do celeiro!
Lá vais andando absorta,
contando o teu dinheiro...
menos viva do que morta,
sempre p'lo mesmo carreiro...
Se este formigueiro fosse
uma real comunidade,
todo o trabalho era doce:
variávamos de actividade,
cinzelando corpo e mente
segundo a nossa vontade.»
Falam animadamente
as duas p'la tarde fora...
Vai-se juntando mais gente
tem outra vida a rua, agora.
PELA RESSURREIÇÃO DA RUA
Lembro-me ainda muito bem
do primeiro mês de Maio
em liberdade.
As ruas tinham outra vida
nesses dias de revolta,
a gente não passava só
faziam-se rodas na estrada
«Eu sou o João Madeira,
tipógrafo.
Muito prazer em conhecê-lo.»
E sonhava-se em voz alta.
Mas foi sol de pouca dura:
depois das mudanças feitas
nas salas dos ministérios,
voltámos às coisas sérias
-- o trabalho, a família, o mês
de férias.
E as ruas voltaram a ser
passadeiras rolantes.
Mas eu escrevo isto
para que as gentes se não esqueçam
daqueles dias das rodas no largo,
na calçada;
e parem um pouco quando ouvirem
alguém cantar dançar
falar em voz alta
na rua.
HINO À ESFINGE
Ó Esfinge dura do Egipto antigo,
se tu não fosses tão grande e distante
como o mundo,
os chacais já te teriam comido
e enterrado os ossos na areia.
OS ADOCICADOS AMANTES
Os adocicados amantes
dão-se as mãozinhas suadas
e sorriem teatrais
embalados no bailado
da bolinha de sabão
de dois lugares.
Com tanta atenção
esboçam a dança
dos vitelos malhados
sorvendo em êxtases
melados, melados
o muco um do outro.
O amor requentado
dos pares de lapas
colados com força.
NOS EXAMES
Estava nos exames.
Ela, serena, perguntava
coisas que eu achava infames,
coisas que eu baralhava.
A vida não me sorria...
Sabia-me a boca a sal;
e a cada pergunta fria
que ela, formal, me fazia,
mostrava-me irracional.
(Feito durante as orais de Geografia,
na capa do livro desta disciplina.)
A ALCATEIA
Era uma vez um lobinho,
um pequeno lutador
que enfrentava sozinho
o rebanho, a caçadeira, o cão pastor...
A serra livre morrera:
tinha sido rodeada
por rede electrificada,
e chamavam ao lobo agora fera.
Ali já não há lugar
para os seres selvagens:
deixam-se domesticar
ou buscam outras paragens.
Mas em toda a parte é o mesmo,
e o nosso lobinho errante
vagueia p'lo mundo a esmo
sempre do seu lar distante...
No meio de uma jornada
de neve e frio e negrura
soube vencer a amargura
e forçar a solidão;
encontrou por entre o gelo
um lobinho seu irmão,
também sozinho e cansado
e fizeram uma união;
nunca mais se separaram,
seguiram o mesmo caminho.
E foi assim que toparam,
um aqui e outro além,
mais um e outro lobinho.
Foi crescendo a alcateia!
Lúcio Castanho
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