NO GOLFINHAR DOS OCASOS
És igualmente dos que nasceram desconstruídos
E ergueram a tarefa dos dias no sol a sol da vida.
Tens o cérebro pejado de centopeias ovovíparas
Enroladas sobre si, os teleodentritos a dar passou-
Bens umas às outras, conversando animadas
Como quem discute barbaridades da vizinhança.
Desenrolas-te em sinapses de silêncio contrafeito
Mas é sempre a ronronar que vociferas escondido
Na sugestão de uma elipse entre os ramos da fala.
Dizes bom dia, portanto para lá de todas as indormidas
Concavidades repletas de absoluto e creme solipsista,
Ideais de ventres inchados pela fome das gentes gentias
Inseguras aos impérios, rebeldes na voz, fiéis ao mar
Ao grito fastidioso das ondas na rebentação do dizer
Estremunhadas, a afugentar os sonhos, enleados esses
Que nem centopeias a dar os pés numa roda de dança.
E adormecer silêncios escondidos nas esquinas do córtex
Sapateando sílabas soltas à beira ecolalia de escorreitos sados!
CANDEIA DE ÁGUA
Aberto estás no estuário do dia
Mas as portas do sol-pôr
Quase cerradas pela baía
Oscilam ainda nos gonzos do passado.
Coloca a luz a Ocidente
E aguarda simplesmente o dourar
A voz de cada espiga cerce o mar.
Setúbal, 20.11.04 – 18 horas
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