Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
2.25.2016
2.23.2016
2.22.2016
NO SILÊNCIO A VOZ
NO SILÊNCIO A VOZ
Sou sinal de porta aberta
Dum futuro que já me disse,
No escuro da rota incerta
Pra que teu peito se abrisse.
E se me cruzo com o teu olhar
Num impulso respiro o mar
A que o rio me deitou um dia...
Mas nesse querer que é esperar,
Com que se é porto ou lugar,
A luz me faz foz por magia!
Joaquim Castanho
2.21.2016
CORRENTE DE APORTAR
CORRENTE DE APORTAR
Meus dias já foram pardos
Tão sem norte, tão sem brilho
Quas'enseada de cardos,
Da morte me senti filho.
Voguei em mar cavado,
Por mar chão adornei sentir,
Entre margens fui meu lado
Vaga a descer, onda a subir.
E desse céu que espelhei
Quantas vezes bem agreste,
Aportei rabelo sem lei
Só plo néctar que me deste.
Joaquim Castanho
2.11.2016
TUDO NA ROSA É REGRA E NORMA
TUDO NA ROSA É REGRA E NORMA
Minha regra é norma aberta
Escrita na ordem vigente,
Qu'é onde a lei me desperta
Positiva e naturalmente...
Suas pétalas de mel em flor,
Sorriso de pepita dourada,
Incrustada na alma sem dor
Ao ser pla brisa desfolhada.
Se tem espinhos, eu não o sei;
Se quer infinitos, não mo diz.
Amar o próximo é ser a lei –
Poder d' inspirá-la sem ser juiz.
Joaquim Castanho
2.08.2016
FÉ
FÉ
A impertinente Felicidade, que ainda é jovem mas se não chama também Maria, estava, num dia assim, exatamente como hoje, fazendo nada, com todo o cuidado e esmero, que é coisa mais difícil de fazer do que qualquer outra que se conheça, quer por experiência tida, como contada, exceto esquecer, pois que para isso, se exige muita perícia na escolha e abnegação na armazenagem, caso contrário, a gente fica a esquecer aquilo que quer recordar e a lembrar tudo quanto importa esquecer.
E do nada surgiu uma flor. E depois um rosto, que embora de corpo oculto, já se lhe podia vislumbrar o espetro das mãos. Precisamente como se fosse um sol incrustado no horizonte da tarde ou uma lua pendurada da noite, suspensa por invisíveis e misteriosos fios (da trama suspeita e, às vezes, até tenebrosa, dos sonhos, que são sempre desconhecidos por nós nela, como pelos efeitos de ressaca com que desassossegam os espíritos, os corpos e as culturas, a que à imaginação e fantasia não têm muita afeição).
Creio que era um lírio, uma açucena...
Ante a brisa estremeceu breve. Pulsou num esgar sob as gotículas do nevoeiro vespertino, sorriu para o nada da menina que, encantada com o tamanho prodígio desse nada que lhe foi tudo, suspirou profundo, estremunhada, e cochichou murmurando para consigo mesma: «Nestes momentos, coisa nenhuma do que me parece é; e, contudo, sem eles nunca serei.»
Felicidade, quis eu chamar-lhe. Porém, ela metera os pés ao caminho...e, quando finalmente, proferi a primeira sílaba do seu no nome, ela já ia demasiado longe para me ouvir.
Joaquim Castanho
2.05.2016
POR QUE AMANHÃ É SÁBADO
POR QUE AMANHÃ É SÁBADO
Em Uruk, na eduba do templo a Inanna, foi encontrada nos princípios do século passado, entre os algures do tempo, do modo e do lugar, um cofre, uma caixa guarnecida a ouro e prata, com pedras preciosas incrustadas, dentro da qual estavam seis tabuinhas, que se supõe terem sido consideradas sagradas pelas vestais.
Na primeira, estava vincado, cunhado, escrito, assim: «a cada qual o mesmo que aos seus pares». Na segunda dizia que «a cada um segundo os seus méritos». Na terceira, que «a cada qual conforme as suas obras». Na quarta «a cada um na estrita observância de suas necessidades». A quinta afirmava que «a cada qual de acordo com o que lhe é devido por lei». E a sexta, concluía, que «a cada um consoante a sua posição, responsabilidade e obrigações». Porém, depois desta, havia uma prateleirinha idêntica àquelas onde repousavam as citadas tabuinhas, mas vazia.
Os estudiosos, arqueólogos, antropólogos e historiadores, conjeturaram ter havido nesta uma sétima tabuinha; e, não obstante, a sua azáfama e acuidada busca, o que é certo, é que não encontraram mais nenhuma, fosse onde fosse, nas ruínas da eduba, nem na nas de sua proximidade. Alguns alvitraram que essa lacuna se devia a alguém a ter retirado, talvez para ministrar culto ou ter presente nos rituais sagrados, não voltando a depositá-la no lugar, por qualquer incidente ou contrariedade ocorrida.
Terão a sua razão... Talvez. Desconheço-o em absoluto.
Todavia, creio que nunca lá esteve. Que a sua falta é mais significativa do que a sua presença. Que ela seria um separador... Que ela devia ser o sábado de culto, o sétimo dia, a folga da eduba e do templo. Enfim, que ela era a pausa de reflexão para a consciencialização cívica feita durante os seis dias anteriores. Até porque desconfio que foram elas, essas vestais de Inanna, que instituíram os dias da semana de acordo com o seu sistema hexagonal, e que desde então continuam a ser seis mais um, o separador, não obstante se ter adotado o sistema decimal desde os últimos milénios da nossa civilização.
E, porque hoje é sexta-feira, vou apenas chamar-lhe amanhã. Não só por ser sábado, mas também porque ainda não foi escrita, e talvez exista alguém no futuro, alguém com nobreza de caráter e de coração ou inteligência suficiente para a escrever. Quem sabe!
Joaquim Castanho
2.04.2016
Legisladores e filósofos
"Aos legisladores cabe a missão de, em correspondência com os desejos da comunidade de que são representantes (e pela qual serão também responsáveis), elaborar leis justas, e aos juízes de as aplicarem com espírito de igualdade; aos filósofos, porém, cabe a de serem porta-vozes e defensores dos valores universais, logo, válidos para toda a humanidade."
KK






