PRÉ-HISTÓRIA DO FUTURO
O rapaz levantou-se, abandonando o leito
confortável, e olhou em volta.
– Isto não é bonito – disse.
A sala tinha um aspeto bizarro. Muitos objetos
partidos estavam amontoados a um canto. O rapaz franqueou a porta, após ter
tateado um momento para encontrar o sistema de abertura.
A sala seguinte estava cheia de livros amontoados no
chão. O rapaz pegou num, examinou-o e sorriu.
– É uma caixa que fala com os sinais dos deuses –
concluiu.
Leu um pouco e não compreendeu grande coisa. Deitou
fora aquele e pegou noutro, grande e pesado. Abriu, virou a primeira página e
leu: «Dicionário universal enciclopédico. Edição 900 P-R». Depois, passou uma
página branca. A página seguinte apresentava um magnífico A.
– A – disse o rapaz, passando o dedo pela letra.
Depois, mais abaixo leu:
– A, a. Primeira letra e primeira vogal do alfabeto
humano. O A vem-nos do nosso antepassado homo
sapiens terrestre, o animal mais evoluído do seu planeta nos tempos pré-venusianos.
O rapaz virou várias páginas e chegou à palavra
alfabeto. Leu atentamente várias vezes, sentindo prazer em reconhecer, todos
reunidos, os carateres de que tanto gostava. Depois observou o livro e deu uma
alegre risada.
– O rapaz negro percebeu. Todas as coisas estão
arrumadas como no alfabeto, primeiro A, depois B, depois C, até ao fim; depois
entre A e B, primeiro Aa, depois Ab, depois Ac. E a seguir Aca, Acb, Acc... O
rapaz negro compreendeu. Vai procurar o grupo dos sinais que se chama: deus.
«Deus – sentido próprio: superstição grosseira do
animal "homo sapiens" preenchendo comodamente todas as falhas do seu
saber pela existência de um ser invisível e perfeito, omnisciente, omnipotente,
eterno, criador e senhor de todas as coisas. Certos animais de Marte acreditam
ainda num Deus. Os Srrebs de Vénus acreditam em vários deuses (ver Srreo).
Sentido figurado (familiar): chama-se deus a um personagem ridículo e ignorante
que toma ares sapientes».
O rapaz negro abanou a cabeça.
– Estes sinais dizem coisas estranhas!
In
STEFAN WUL, Pré-História do Futuro, tradução de Mário Henrique Leiria, coleção
Argonauta, Edição «Livros do Brasil» Lisboa. Págs. 173/174